50 anos

1966

A Grande Revolução Cultural Proletária


A“Grande Revolução Proletária Cultural” que, como o Camarada Enver Hoxha correctamente afirma:


(…) não foi nem revolucionária, nem grande, nem cultural, e, em particular, nem um pouco proletária.”

 

(Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

* * *


A Revolução Cultural esteve ligada á já referida ideia Maoista de que a exploração dos trabalhadores pode ser eliminada sem o uso da violência revolucionária pelo proletariado e que os elementos burgueses podem ser pacificamente convertidos ao socialismo através da “reeducação”:

No que respeita á burguesia nacional, um grande esforço de educação pode ser feito no presente período relativamente a esta classe. Quando vier o tempo de concretizar o socialismo, de nacionalizar as empresas privadas, nós avançaremos ainda mais nos nossos esforços para reformar e educar os elementos burgueses.” (Mao Zedong, Sur la dictature populaire démocratique — cited by Yu Hai em Le rôle de la bourgeoisie nationale dans la révolution chinoise, em Cahiers du communisme, Agosto de 1950, traduzido a partir da edição em Francês).

As origens ideológicas da Revolução Cultural são uma mistura de várias correntes anti-Marxistas, incluindo espontaneísmo, anarquismo e, claro, as teorias anti-comunistas de Mao Zedong.

Para compreendermos as verdadeiras causas da revolução cultural, nós devemos notar que, depois da revolução chinesa de 1949, o estado chinês emergia como uma espécie de órgão arbitral que mantinha a “paz social” através da “regulação” das contradições de produção que existiam entre o proletariado e a burguesia. É claro que esta máscara arbitral era muito importante para esconder o verdadeiro carácter do estado Maoista enquanto ditadura da burguesia nacional; aliás, a melhoria das condições de vida do povo chinês após a revolução de 1949 esteve ligado precisamente com esta necessidade de criar uma falsa impressão entre as massas, fazendo-as acreditar que a China estava a seguir um curso socialista e que o estado Maoista estava do lado do proletariado. Nós já explicámos que a revolução de 1949 foi liderada pela burguesia que conquistou o poder político e económico contra os interesses da antiga burguesia pró-imperialista. Assim, apesar do argumento de que Mao “nacionalizou” muitas das secções chave da economia, a verdade é que a burguesia nacional chinesa nunca foi realmente expropriada. Há dois tipos de nacionalizações: as nacionalizações de tipo burguês e as nacionalizações de tipo proletário. O primeiro tipo é feito nos interesses de uma certa secção da burguesia, enquanto que o segundo tipo é feito contra toda a classe burguesa e com o propósito de destruir o sistema capitalista. Aquilo que os distingue é que o primeiro tipo é feito sem verdadeira expropriação da burguesia, enquanto que o segundo envolve a total expropriação de toda a classe capitalista e burguesa. As nacionalizações que tiveram lugar na China Maoista estavam claramente incluídas no primeiro tipo, elas eram nacionalizações burguesas que foram feitas com o objectivo de favorecer os interesses da burguesia nacional “patriótica” ao permitirem que esta classe ocupasse e controlasse a direcção das empresas nacionalizadas. Além disso, nós devimos lembrar-nos que, fora das empresas nacionalizadas, havia ainda muitos ramos essenciais da economia que nem sequer foram formalmente nacionalizados e que continuavam abertamente nas mãos do capital privado burguês. Como já tínhamos explicado, a base material da sociedade chinesa continuou a ser dominada pelas relações capitalistas de produção, e isto reflectia-se na superstrutura política, social e cultural. É impossível evitar que uma classe que detém o poder económico controle o poder político, uma vez que a superstrutura política é um reflexo directo da base material e económica da sociedade. Isto é o que o Marxismo nos ensina. Consequentemente, é óbvio que as pretensões Maoistas de “conciliação” dos interesses do proletariado e da burguesia estavam destinadas a falhar desde o princípio. Se o proletariado não estabelecer a sua ditadura, então a burguesia vai automaticamente continuar a ser a classe dominante e vai continuar a explorar as massas oprimidas. É impossível encontrar uma “terceira via” entre a ditadura burguesa e a ditadura proletária.

As causas da Revolução Cultural estão ligadas ao facto de que, desde o fim dos anos 50, a burguesia nacional chinesa revelava cada vez mais o seu carácter reaccionário, ela queria o fim do “estado arbitral” Maoista e a implementação de uma ditadura burguesa típica. Esta burguesia nacional tinha-se tornado numa verdadeira burguesia monopolista de estado que dominava todos os aspectos da sociedade chinesa. Assim, não é surpreendente que esta burguesia que controlava o PCC tentasse mudar a composição do seu Comité Central de acordo com os seus próprios interesses exploradores; a burguesia monopolista chinesa tentou substituir a facção centrista de Mao por facções mais direitistas que iriam apagar os últimos traços de fraseologia Marxista e de aparência socialista.

A revolução cultural foi promovida por Mao de forma a tentar reverter o domínio das facções mais direitistas do PCC que estavam a defender a implementação de uma regime capitalista com características fascistas nos interesses da nova burguesia monopolista. No entanto, nós devemos notar que Mao não incentivou a revolução cultural porque estivesse preocupado com o carácter pró-fascista e reaccionário das facções do partido que representavam a burguesia monopolista. Não. Mao usou a sua própria autoridade para propagar a revolução cultural porque, em primeiro lugar, ele não queria ser expulso do poder pelas outras facções do partido (como qualquer político burguês, Mao Zedong tinha lascívia pelo poder e, ao longo da sua carreira política, ele fez os possíveis para manter a sua supremacia política). Além do mais, o prestígio de Mao ainda estava seriamente afectado pelo fracasso do “grande salto em frente” e a revolução cultural foi vista por ele como uma oportunidade para reconquistar o seu anterior estatuto e para consolidar as suas posições dentro do estado burguês chinês.

A segunda razão que levou Mao a lançar a revolução cultural é que ele compreendeu muito bem que, com o estabelecimento de um regime abertamente capitalista, a burguesia monopolista chinesa perderia importantes instrumentos que lhe permitiam iludir o proletariado chinês e manter uma clima de “paz social” no qual a exploração e a escravatura assalariada poderiam ser exercidas pacificamente. Nós devemos recordar que a retórica anti-imperialista de Mao, bem como a sua roupagem “socialista” contribuíram muito para a aceitação da nova ditadura burguesa por muitos sectores das massas oprimidas chinesas. O proletariado chinês esteve ao lado da burguesia nacional na luta contra os imperialismos estrangeiros, mas, contrariamente àquilo que Mao tentou promover, estas duas classes continuaram a ter interesses irreconciliáveis e esta situação não se modificou só porque elas estiveram temporariamente unidas no contexto de um determinado período histórico de luta contra os opressores externos. É claro que o revisionista Mao tentou perpetuar esta “união” entre o proletariado e a burguesia nacional em favor dos interesses da última, ele propagou a ideia falsa e impossível da “partilha do poder” entre estas duas classes de forma a eliminar a luta de classes e a esconder a exploração capitalista por detrás de uma fachada “Marxista” e “revolucionária”. No entanto, se a burguesia monopolista conseguisse instalar um regime abertamente capitalista e pró-fascista na China, essa máscara “socialista” inventada por Mao para ocultar o carácter explorador do estado da burguesia chinesa e para manter o proletariado chinês num estado de servidão cairia totalmente. Além disso, Mao também estava do lado da pequena-burguesia das áreas rurais e urbanas que defendia a coexistência e a conciliação entre as múltiplas classes que constituíam a sociedade chinesa. A revolução cultural foi precisamente uma tentativa para impedir os esforços da burguesia nacional monopolista que queria o controlo completo da sua classe sobre o estado chinês, sem sequer a aparente “partilha de poder” que Mao propunha.

E foi por estas razões que Mao promoveu a “Grande Revolução Proletária Cultural”. No entanto, o anti-Marxismo da revolução Cultural não estava limitado ás suas origens e ás razoes da sua existência. De facto, as suas raízes anti-Marxistas eram claramente visíveis na maneira como a Revolução Cultural foi conduzida e liderada.

Em primeiro lugar, a revolução cultural chinesa foi o resultado de um chamamento feito por Mao Zedong enquanto revolucionário individual que usufruía de um prestígio considerável. Nós devemos notar que Mao gozava de uma imenso poder pessoal dentro do partido e que ele controlava as suas próprias milícias privadas que eram usadas por ele para consolidar as suas posições face ás ameaças vindas de facções rivais no interior do partido:

Recentemente, «Renmin Ribao» publicou um artigo da autoria de um grupo teórico do “Directório Geral” do Comité Central do PCC. Este artigo diz que, sob o nome do “Directório Geral”, Mao erigiu em seu redor um aparato especial que mantinha o Bureau Político, o Comité Central, os quadros do estado, do exército, das forças de segurança, etc.… sob vigilância e controle. A entrada neste Directório e o conhecimento acerca do seu trabalho era proibido para todos, mesmo para os membros do comité central e do Bureau político. Neste directório se faziam planos para elevar ou deitar abaixo esta ou aquela facção. Os homens deste directório estavam em todo o lado, viam tudo e operavam independentemente, totalmente fora do controlo do partido.

Além deles, o directório tinha á sua disposição destacamentos armados, ocultos sob a designação de “Guarda do Presidente Mao”. Esta guarda pretoriana de mais de 50.000 homens agia onde quer que Mao desejasse “actuar de uma só vez” realizando os seus objectivos, como tem acontecido frequentemente ao longo da história do PCC (…).” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).


E a tirania individualista de Mao não estava limitada aos escalões mais elevados do partido. Pelo contrário, ele exercia o seu controlo mesmo entre a população:

Sob o pretexto de manter contactos com as massas, Mao Zedong também criou uma rede especial de informadores entre a população que estavam encarregados da tarefa de manter os militantes de base sob vigilância e investigar o estado de espírito das massas, sem o conhecimento de ninguém. Eles só deviam justificações a Mao Zedong, que tinha cortado com todos os meios de comunicação com as massas e via o mundo apenas através dos relatórios dos seus agentes no “Directório Geral”.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).


Como se pode observar, Mao Zedong violou repetidamente as normas mais básicas do centralismo democrático e da democracia Leninista-Estalinista. Esta situação aconteceu durante todo o período do governo Maoista, apesar de se ter intensificado durante a revolução cultural. Mao Zedong implementou uma autêntica ditadura pessoal, totalmente fora do controlo do partido e do proletariado:

O artigo do «Renmin Ribao» fornece novas informações que nos permitem compreender mais claramente a direcção anti-Marxista e o poder pessoal de Mao Zedong no partido e no estado chinês. Mao Zedong não tinha o menor respeito nem pelo Comité Central nem pelo congresso do partido, e muito menos pelo partido no seu conjunto e pelos militantes e comités de base. Os comités do partido, os quadros dirigentes e o Comité Central recebiam ordens do “Directório Geral” que só respondiam perante Mao Zedong. Os fóruns do partido, os seus órgãos eleitos não tinham qualquer espécie de autoridade.

O artigo do «Renmin Ribao» afirma que, “ nenhum telegrama, nenhuma carta, nenhum documento, nenhuma ordem podia ser dada sem primeiro ter sido analisada e aprovada por Mao Zedong.” Parece que em 1953, Mao já tinha dado ordens claras de que: “De agora em diante, todos os documentos e telegramas enviados em nome do Comité Central só poderão ser efectivados depois de eu os ter perscrutado, de outra maneira eles são inválidos. Sob estas condições, é impossível falarmos acerca de liderança colectiva, democracia no partido, ou normas Leninistas.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

Com isto, nós notamos que o papel dirigente do partido comunista revolucionário é totalmente abandonado por Mao. Em vez disso, nós temos um indivíduo que usa a sua autoridade para mobilizar “ideologicamente” certos sectores “populares” de forma a servirem os interesses do grupo revisionista liderado por ele (nós nunca podemos esquecer que a Revolução Cultural foi essencialmente uma disputa pelo poder entre diferentes facções burguesas e revisionistas no interior do PCC):

A figura de Mao Zedong tem sido exagerada até tomar as dimensões de um imperador Chinês. E de facto, este imperador moderno opera de forma omnipotente sobre os seus súbditos, que criaram uma terrível burocracia através da qual as “ideias brilhantes” do “Grande Timoneiro” são levadas a cabo.

Ele usou o PCC como um trampolim para tingir os seus objectivos e ele tem feito isso sempre que pensa que isso é “razoável”; dependendo do desenvolvimento “dialéctico” das “contradições”, vistas da perspectiva do Taoismo, ele faz pessoas caírem do poder, ataca o partido e liquida-o, começa alguma “revolução” e “equilibra” o puder dos súbditos.

Ele explica tudo isto com frases alegadamente revolucionárias que traduzem acções iguais ás do Imperador Bokassa, do Xá da Pérsia ou do Rei do Nepal, de quem Mao gostava muito, e a quem ele recebeu e acompanhou, não apenas por causa de interesses materiais, tais como a esperança de ganhar vantagens políticas e de fazer deles satélites chineses, mas também a filosofia de Mao coincidia completamente com a deles.” (Enver Hoxha, Carta ao Camarada Hysni Kapo, 30 de Julho de 1978, traduzido a partir da edição em Inglês).

O Camarada Enver Hoxha afirmou que o principal acontecimento que fez o PTA começar a analisar o 2Pensamento Mao Zedong” de uma maneira mais profunda foi precisamente a revolução cultural. Para os Marxistas-Leninistas albaneses, esse foi o ponto decisivo que os levou a desmascarar o revisionismo Maoista e a demarcarem-se do social-imperialismo chinês (apesar de o camarada Enver e o PTA terem anteriormente criticado os traços oportunistas do PCC):

(…) aquilo que mais atraiu a atenção do nosso partido foi a Revolução Cultural, que levantou muitas questões. Durante a Revolução Cultural, iniciada por Mao Zedong, vieram á luz ideias e acções políticas, organizacionais, ideológicas levadas acabo pelo PCC e pelo estado Chinês que não eram baseadas nos ensinamentos de Marx, Engels, Lénine e Estaline.

Julgando as suas anteriores acções duvidosas, bem como aquelas observadas durante a Revolução Cultural, e especialmente os acontecimentos que se seguiram á Revolução, a ascensão e a queda deste ou daquele grupo na liderança, hoje o grupo de Lin Pião, amanhã o de Deng Xiaoping, de Hua Kuo-feng, etc. cada um deles munido com a sua própria plataforma oposta ás dos outros grupos; todas estas coisas levaram o nosso partido a reflectir mais profundamente sobre as posições e as acções de Mao Zedong e do PCC, a adquirir um conhecimento mais profundo acerca do “Pensamento Mao Zedong”.

Quando vimos que esta Revolução Cultural não estava a ser liderada pelo partido, mas não era mais do que uma explosão caótica que ocorreu no seguimento de uma invocação feita por Mao Zedong, tal não nos pareceu ser revolucionário. Foi a autoridade de Mao na China que fez com que milhões de jovens estudantes desorganizados marchassem sobre Pequim e dispersassem os comités do estado e do partido.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

De acordo com o Camarada Enver, aquilo que realmente irritou os comunistas albaneses foi o facto de a Revolução Cultural ser um movimento de massas com traços espontaneístas e anarquistas que excluíam completamente o papel dominante não apenas do partido, mas também do proletariado:

(…) a sua principal característica é que nem o partido nem o proletariado lideravam esta “grande revolução proletária”. Esta grave situação derivou das velhas concepções anti-Marxistas de Mao Zedong que subestimavam o papel dirigente do proletariado e sobrestimavam o papel da juventude na revolução. Mao escreveu que: “ Que papel é que a juventude chinesa assumiu desde o “Movimento de 4 de Maio”? Eles assumiram um papel de vanguarda – um facto que é reconhecido por toda a ente no nosso país, á excepção dos ultra-reaccionários. O que é um papel de vanguarda? Significa tomar a liderança.” Assim, a classe operária foi deixada de lado (…).” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

É bem conhecido o facto de que uma das características mais famosas da ideologia Maoista é a sua disponibilidade para colocar toda e qualquer classe social a liderar a revolução. Toda e qualquer classe social … excepto o proletariado, claro. Por exemplo, durante a Revolução Cultural, Mao considerava a juventude como o sector social que deveria liderar a revolução. Esta ideia é totalmente anti-Marxista. É verdade que a juventude é uma força muito progressista, que ela tem tendência a seguir aquilo que é novo e a rejeitar aquilo que é velho e retrógrado. Mas isso não significa que a juventude deva liderar a revolução proletária. O mesmo pode ser dito acerca dos camponeses. Apesar de a os camponeses pobres (e nas fases inicias da revolução, também certos estratos do campesinato médio) poderem assumir um papel importante e até decisivo na vitória da revolução proletária, o campesinato não pode nunca substituir o proletariado enquanto força dirigente da revolução:


Mao afirmou que todos os outros partidos e forças políticas se devem submeter ao campesinato e ás suas posições. “ … milhões de camponeses vão erguer-se como uma tempestade, e constituirão uma força tão grande e violenta que nenhum poder, por muito grande que seja, a poderá deter.” escreve Mao. “Eles irão testar todo e qualquer grupo e partido revolucionário, eles irão testar cada revolucionário individualmente, de maneira que das duas uma: ou estes revolucionários aceitam as ideias dos camponeses ou as rejeitam.” De acordo com Mao, é o campesinato e não a classe operária que deve assumir o papel hegemónico na revolução.


Mao Zedong também defendeu a tese segundo a qual é o papel hegemónico do campesinato na revolução que assegura o caminho para a revolução mundial. E é aqui que está a fonte da concepção anti-Marxista que considera que o chamado “terceiro-mundo”, o qual na literatura política chinesa também é denominado como “a zona rural do mundo”, como “ a principal força motora para a transformação da sociedade actual.”


Segundo as posições chinesas, o proletariado é uma força social secundária, que não pode assumir o papel previsto por Marx e por Lénine na luta contra o capitalismo e pelo triunfo da revolução, em aliança com todas as forças oprimidas pelo capital. A revolução chinesa tem sido dominada pela pequena e média burguesia. Esta larga camada da pequena-burguesia tem influenciado o desenvolvimento global da China. Mao Zedong não se baseou na teoria Marxista-Leninista que nos ensina que o campesinato e a pequena-burguesia são, em geral, vacilantes. É claro que o pequeno e médio campesinato assumem um papel importante na revolução e devem tornar-se em aliadas próximas do proletariado. Mas a classe camponesa e a pequena-burguesia não podem conduzir o proletariado na revolução. Pensar e defender o contrário significa estar contra o Marxismo-Leninismo. Aqui jaz uma das principais fontes das posições anti-Marxistas de Mao Zedong, que têm tido uma influência negativa na revolução chinesa.

 

O PCC não consolidou a ideia teórica do papel hegemónico do proletariado na revolução enquanto princípio revolucionário básico, e consequentemente, ele não o aplicou na prática de forma adequada e consistente. A experiência demonstra que o campesinato só pode assumir o seu papel revolucionário se actuar em aliança e sob a direcção do proletariado.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).


O Marxismo-Leninismo ensina-nos que o campesinato é uma classe hesitante, e que o proletariado deve persuadi-lo e inculcar-lhe a sua teoria revolucionária e científica. A teoria Maoista que absolutiza o papel do campesinato e recusa os princípios do Marxismo-Leninismo acerca do papel do proletariado trouxe consequências horríveis ao movimento comunista. Um dos casos mais dramáticos no qual a teoria abjecta e anti-comunista de Mao acerca do “cerco das cidades pelo campo” assumiu traços extremistas foi o do Cambodja de Pol Pot (um tema que iremos desenvolver neste artigo).

Assim, o papel dirigente na revolução proletária deve pertencer sempre á classe operária (proletariado). Se a revolução não for liderada pelo proletariado, isso significa que essa revolução não tem carácter comunista nem Marxista-Leninista. Quem negue o papel dirigente do proletariado na revolução comunista é um anti-Marxista-Leninista e deve ser implacavelmente combatido; e a verdade é que o Maoismo rejeitou o papel dirigente do proletariado tanto em teoria como na prática. Aliás, é impossível falar acerca do papel dirigente do proletariado num contexto como o da China Maoista, no qual a burguesia nacional dominava a base material do poder económico, e consequentemente dominava a superstrutura social e política que permitia a perpetuação da exploração capitalista.



As características anarquistas da Revolução Cultural estão intimamente relacionadas comas concepções esquerdistas e anti-Marxistas de Mao Zedong que foram realçadas durante a Revolução Cultural:

Encorajar a liberdade de expressão é encorajar a voz pública, de maneira que cada pessoa possa falar e criticar livremente.” (Citação de Mao Zedong, 16 de Maio de 1966).

No contexto da Grande Revolução Cultural Proletária, as massas só se podem libertar a elas mesmas, e nós nunca podemos ter a pretensão de agir em seu lugar.” (Decisão do Comité Central do PCC acerca da Grande Revolução Cultural Proletária, 8 de Agosto de 1966, Pequim).

Esta teoria acerca da auto-libertaçao das massas revela claramente a natureza voluntarista e idealista das concepções Maoistas. Aliás, esta falsa ideia de “deixar as massas libertarem-se a si mesmas” é comum a quase todos os partidos Maoistas de todo mundo, supostamente com o objectivo de “evitar desvios burocráticos”. De facto, esta teoria é muito semelhante ás teses anarquistas e esquerdistas que não aceitam aquilo que eles chamam de “socialismo imposto a partir de cima”; ou, por outras palavras, eles não aceitam o papel dirigente do partido comunista como a vanguarda do proletariado em aliança com as outras classes exploradas. Esta negação do papel dirigente do proletariado conduz directamente á negação da necessidade de implementação da ditadura do proletariado.

Este tipo de teses de inspiração anarquista emerge invariavelmente em situações de tensão social, mas nas quais não existe um verdadeiro partido Marxista-Leninista que possa liderar as classes oprimidas e estabelecer a ditadura do proletariado. No que respeita aos traços anarquistas do “Pensamento Mao Zedong” em geral, e da Revolução Cultural em particular, o Camarada Enver Hoxha sublinhou que:

Mao Zedong não deve ser qualificado como um “profeta da revolução”, mas sim como “um profeta da contra-revolução”. Ele representou o tipo de anarquista em cujo sangue corre a confusão, o caos, e a destruição da ditadura do proletariado e do socialismo, mas sempre soba condição de que esta anarquia permanente fosse liderada por ele ou pela sua típica ideologia anarquista chinesa. Mao Zedong é um Bakunine Chinês. A revolução Cultural foi uma expressão das ideias e acções deste Bakunine Chinês.


O caos que se espalhou na China, originado pela linha traidora e anti-Marxista de Mao Zedong e dos seus súbditos, um caos cheio de derrotas na política, na ideologia e na economia foi combatido pelo “Grande Timoneiro” através da anarquia da Revolução Cultural. Esta revolução anarquista salvou o governo absoluto de Mao, mas incluiu o risco de o destruir. O “prestígio” do “Timoneiro” tinha de ser salvo, não foi permitido que a anarquia fizesse cair os mitos, e por isso foram tomadas medidas militares.

O carácter da burocracia de Zou Enlai-Confúcio foi salvo e elementos “revolucionários” supostamente mais “jovens” foram integrados na cena de agitação e de propaganda, a qual foi pintada pelo “Timoneiro” como sendo uma “revolução dentro da revolução” através da qual se estaria a eliminar a burguesia que se teria infiltrado dentro do partido.

Mas a verdade é que não havia partido, mas apenas a burguesia, havia clãs e facções que lutavam pelo poder. Esta foi a “revolução permanente” Trotskista, liderada por Mao Zedong-Trotsky.” (Enver Hoxha, Carta ao Camarada Hysni Kapo, 30 de Julho de 1978, traduzido a partir da edição em Inglês).

Neste ponto, outra questão se coloca: os Maoistas estão sempre a referir-se ás “massas” em termos abstractos, mas o que é que eles querem dizer com isso? Não é por acaso que sua definição de massas é tão vaga. Isto acontece porque, usando as “massas” como pretexto, os Maoistas podem justificar a existência de várias classes através de falsos slogans “revolucionários” e “socialistas”.


Não é surpreendente que o PCC tenha praticamente deixado de existir durante a Revolução Cultural. Ele deixou de existir porque, durante a revolução Cultural, existiam múltiplos clãs revisionistas dentro do PCC que lutavam uns contra os outros e tentavam conquistar o poder de forma a defenderem os interesses das facções da burguesia que cada um deles representava. Neste contexto, o PCC foi “neutralizado” simplesmente porque ele não tinha nenhum papel independente a desempenhar. Após esta Revolução Cultural, quando as facções vitoriosas da burguesia consolidavam o seu poder, então o PCC reocupou o seu lugar enquanto Comité Geral da burguesia monopolista chinesa.

A ideia da liderança espontânea das massas está também incluída na tese Maoista que propaga o controlo do Partido Comunista pelos partidos e classes burgueses. Essa tese propõe uma crítica geral entre os elementos das várias classes que existem dentro do sistema socio-económico burguês que constitui a definição Maoista de “Nova Democracia”. Nós não devemos esquecer que Mao sempre defendeu as “100 escolas” que deveriam debater entre si. É claro que estas “100 escolas” significam uma grande variedade de ideologias burguesas que, de acordo com Mao, devem ser deixadas não apenas existir, como também desenvolver-se e espalhar a sua influência tóxica sobre o proletariado e as massas exploradas:

As concepções revisionistas de Mao Zedong baseiam-se na política de colaboração e de aliança com a burguesia que o PCC tem aplicado sempre. Esta é também a fonte do curso anti-Marxista e anti-Leninista de “deixar 100 flores desabrochar e 100 escolas debater”, que é uma expressão directa da coexistência de ideologias opostas.

De acordo com Mao Zedong, na sociedade socialista, lado a lado com a ideologia proletária, com o materialismo e o ateísmo, a existência da ideologia burguesa, do idealismo e da religião, o crescimento de “plantas venenosas” ao lado de “flores perfumadas”, etc. deve ser permitido. Este curso é supostamente necessário para o desenvolvimento do Marxismo, de forma a abrir o caminho para o debate e a liberdade de pensamento, enquanto que na realidade, através deste curso, ele está a tentar estabelecer a base teórica da política de colaboração com a burguesia e da coexistência com a sua ideologia.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

Esta situação contrasta totalmente com o que aconteceu na União Soviética dos Camaradas Lénine e Estaline e na Albânia Socialista do Camarada Enver Hoxha, onde o Marxismo-Leninismo tinha predominância absoluta e estava a eliminar todo o tipo de ideias e de mentalidades burguesas. No contexto de uma verdadeira ditadura proletária, não pode haver espaço para ideologias que não sejam Marxistas-Leninistas. O Marxismo-Leninismo-Estalinismo-Hoxhaismo deve ser a única ideologia permitida e encorajada em todas as esferas da vida. Inculcar o Marxism-Leninismo nas mentes e nos corações de todos os trabalhadores é a melhor maneira de assegurar o fortalecimento da ditadura proletária e a edificação bem-sucedida da sociedade socialista e comunista.

 

É claro que o Maoismo rejeita tudo isto e propõe uma “revolução” feita por “várias classes” (ou seja, pela burguesia). Esta concepção está nos antípodas dos ensinamentos mais básicos do Marxismo-Leninismo acerca do papel principal que o proletariado deve assumir em qualquer autentica revolução proletária de maneira a remover completamente até mesmo os mais pequenos traços do sistema capitalista e da ideologia burguesa.


O Camarada Enver Hoxha também nota que a defesa que Mao faz da reconciliação de classe com a burguesia chega a tal ponto que ele (Mao) até critica a luta contra os elementos e as influências burguesas:

Mao Zedong afirma que “ (…) é uma política perigosa proibir as pessoas de tomarem contacto com aquilo que é feio, falso e hostil em relação a nós, com o idealismo e a metafísica, bem como com os pensamentos de Confúcio, de Lao Tze e de Chang Kai-shek. Isso significaria levar á deterioração, ao sectarismo mental e á falta de preparação para enfrentar o mundo (…).”

A partir daqui, Mao Zedong conclui que o idealismo, a metafísica e a ideologia burguesa vão existir eternamente, e por isso eles não só não devem ser proibidos como devm ter a possibilidade de florescer, de actuarem abertamente e de debaterem entre si. Esta atitude conciliatória em relação a tudo aquilo que é reaccionário vai ao ponto de qualificar os distúrbios na sociedade socialista como algo inevitável e de dizer que é nocivo proibir a actividade dos inimigos. “Na minha opinião,” diz Mao, “quem queria provocar sarilhos deve poder fazê-lo durante o tempo que quiser: e se um mês não for suficiente, ele pode fazê-lo durante dois; em poucas palavras, quem queira arranjar sarilhos deve ser livre para o fazer até se fartar. Se nós tentarmos impedir isso, mais tarde ou mais cedo vai voltar a haver sarilhos”.

Muito longe de serem contribuições académicas para uma discussão “científica”, estas posições configuram uma linha política contra-revolucionária e oportunista que está em oposição ao Marxismo-Leninismo e que desorganizou o PCC, nas fileiras do qual têm circulado cento e uma posições e ideias e onde hoje em dia há realmente 100 escolas que debatem entre si. Esta situação permitiu ás vespas burguesas circular livremente no jardim das 100 flores e libertar o seu veneno.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

E há mais:

(…) tomando abertamente os contra-revolucionários sob a sua protecção, Mao Zedong afirmou que: “ … nós devemos prender muito poucos e não devemos matar nenhum deles. Eles não devem ser presos pelos conselhos de segurança pública, nem devem ser perseguidos pelos órgãos de justiça ou julgados pelos tribunais. Mais de 90% dos contra-revolucionários devem ser tratados desta maneira.” Raciocinando como um sofista, Mao Zedong diz que a execução dos contra-revolucionários não é benéfica, que uma tal acção alegadamente prejudica a produção, o nível científico do país, traz-nos má publicidade, etc. Mao afirma que se um contra-revolucionário é liquidado, “nós teríamos de comparar o seu caso com o de um segundo, de um terceiro e assim por diante, e então muitas cabeças rolariam … quando uma cabeça é cortada não pode mais ser restaurada, nem irá crescer novamente nunca mais.” Como resultado destas concepções anti-Marxistas acerca das contradições, das classes e do seu papel na revolução que o “Pensamento Mao Zedong” defende, a China nunca avançou pelo caminho correcto da edificação socialista.” (Enver Hoxha, Imperialism and the Revolution, Tirana, 1979, traduzido a partir da edição em Inglês).

Estas citações de Mao Zedong demonstram claramente que ele rejeitava o uso da violência revolucionária contra os elementos burgueses e capitalistas.

Nós, Estalinistas-Hoxhaistas, consideramos a violência revolucionária como uma arma fundamental para o estabelecimento da ditadura proletária. Sem violência revolucionária não pode haver edificação firme e correcta da sociedade socialista e comunista.

Como nota final acerca da Revolução Cultural, nós concluímos que o objectivo de Mao não foi atingido. Mao não capaz de manter o aparente “equilíbrio” do estado burguês chinês através da suposta “partilha de poder” entre a burguesia nacional e a pequena-burguesia camponesa. Ele não conseguiu impedir a burguesia monopolista chinesa de colocar o estado chinês sob o seu total domínio, e Mao não o conseguiu impedir porque o poder económico da burguesia nunca foi eliminado e mesmo as relações de produção continuaram a ter uma carácter burguês e capitalista durante o governo de Mao. Por estas razoes, era só uma questão de tempo até que a burguesia nacional monopolista chinesa adquirisse o controlo completo do aparelho estatal, como de facto aconteceu.



 

 

 

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