1938

STALIN

História do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS

Comissão do Comitê Central do PC(b) da URSS 1938





 

 

Índice



INTRODUÇÃO

CAPITULO I

A luta pela criação do Partido Operário Social-Democrata na Rússia

( 1883 – 1901 )

1 — Abolição do regime da servidão e desenvolvimento do capistalismo industrial na Rússia

— Aparecimento do proletariado industrial moderno — Primeiros passos do movimento operário

2 — O populismo e o marxismo na Rússia — Plekhanov e seu grupo "Emancipação do Trabalho" — Luta de Plekhanov contra os populistas — Difusão do marxismo na Rússia

3 — Lenin começa sua atuação revolucionária — A "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária" de Petersburgo

4 — Luta de Lenin contra o populismo e o "marxismo legal" — A idéia leninista da aliança entre a classe operária e os camponeses — Primeiro Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia

5 — Luta de Lenin contra o "economismo" — Aparece o jornal leninista "Iskra"

Resumo



CAPÍTULO II

Formação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia Surgem no partido duas frações: a bolchevique e a menchevique ( 1901 – 1904 )

1 — Auge do movimento revolucionário na Rússia nos anos de 1901 a 1904

2 — Plano de Lenin para a organização de um partido marxista — O oportunismo dos "economistas" — Aparece o livro de Lenin "Que Fazer?" — Os fundamentos ideológicos do partido marxista

3 — O II Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia — São aprovados o programa e os estatutos e se cria o partido único — Divergências no Congresso e aparecimento de duas tendências dentro do Partido: a bolchevique e a menchevique

4 — Manejos divisionistas dos líderes mencheviques e acentuação da luta dentro do Partido depois do II Congresso — O oportunismo dos mencheviques — O livro de Lenin "Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás" — Bases da organização do partido marxista

Resumo



CAPÍTULO III

Os mencheviques e os bolcheviques no período da guerra Russo-Japonesa e da primeira revolução russa ( 1904 – 1907 )

1 — A guerra russo-japonesa — O movimento revolucionário na Rússia segue sua marcha ascendente — Greves em Petersburgo — Manifestação dos operários diante do Palácio de Inverno a 9 de janeiro de 1905 — As tropas fazem fogo contra os manifestantes — Começa a revolução

2 — Greves políticas e manifestações operárias — Intensifica-se o movimento revolucionário dos camponeses — A sublevação do encouraçado "Potemkin"

3 — Divergências táticas entre os bolcheviques e os mencheviques — O III Congresso do Partido — O livro de Lenin "As Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática" — Fundamentos táticos do partido marxista

4 — A revolução prossegue sua marcha ascendente — A greve política geral de outubro de 1905 em toda a Rússia — Recuo do czarismo — A mensagem do czar — Aparecem os soviets de deputados operários

5 — A insurreição armada de dezembro — A insurreição é derrotada — A revolução recua — A primeira Duma — O IV Congresso (deunificação) do Partido

6 — Dissolução da primeira e convocação da segunda Duma — O V Congresso do Partido — Dissolução da segunda Duma — Causas da derrota da primeira revolução russa

Resumo



CAPÍTULO IV

Os mencheviques e os bolcheviques durante o período da reação stolipyniana. Os bolcheviques passam a formar um partido marxista independente ( 1908 – 1912 )



1 — A reação stolipyniana — Surge a decomposição entre as camadas intelectuais da oposição — O decadentismo — Uma parte dos intelectuais do Partido passa para o campo dos inimigos do marxismo e tenta fazer a revisão da teoria marxista — Lenin replica aos revisionistas com seu livro "Materialismo e Empirocriticismo", defendendo os fundamentos teóricos do Partido marxista

2 — Sobre o Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico

3 — Os bolcheviques e os mencheviques durante os anos de reação stolipyniana — A luta dos bolcheviques contra os liquidaeionistas e os "otsovistas"

4 — A luta dos bolcheviques contra o trotskismo — O bloco de agosto contra o Partido

5 — A Conferência do Partido em Praga (1912) — Os bolcheviques passam a formar um partido marxista independente

Resumo



CAPÍTULO V

O Partido Bolchevique durante os anos do auge do movimento operário, que precederam à primeira guerra imperialista ( 1912 – 1914 )

1 — O apogeu do movimento revolucionário durante os anos de 1912 a 1914

2 — O jornal bolchevique "Pravda" — A fração bolchevique da quarta Duma

3 — Triunfo dos bolcheviques nas organizações legais — O movimento revolucionário segue sua marcha ascendente — Aproxima-se a guerra imperialista

Resumo



CAPÍTULO VI

O Partido Bolchevique durante o período da guerra imperialista A segunda revolução na Rússia

( 1914 - março de 1917 )

1— Origem e causas da guerra imperialista

2 — Os partidos da Segunda Internacional passam para o lado de seus governos imperialistas — A Segunda Internacional se decompõe em uma série de partidos social-chovinistas isolados

3 — Teoria e tática do Partido bolchevique sobre os problemas da guerra, da paz e da revolução

4 — As tropas czaristas são derrotadas na frente — O desastre econômico — A crise do czarismo

5 — A revolução de fevereiro — Queda do czarismo — Constituição dos soviets de deputados operários e soldados — A formação do Governo provisório — A dualidade de poderes

Resumo



CAPÍTULO VII

O Partido Bolchevique durante o período de preparação e realização da revolução socialista de Outubro ( abril 1917 – 1918 )

1 — Situação do país depois da revolução de fevereiro — O Partido sai da clandestinidade e passa ao trabalho político aberto — Chegada de Lenin a Petrogrado — Suas Teses de Abril — O Partido se orienta para a revolução socialista

2 — Começa a crise do governo provisório — A Conferência de Abril do Partido bolchevique

3 — Êxitos do Partido bolchevique na capital — Fracassa a ofensiva das tropas do Governo provisório na frente — A manifestação de julho dos operários e soldados é esmagada

4 — O Partido bolchevique prepara a insurreição armada — O VI Congresso do Partido

5 — A intentona do general Kornilov contra a revolução — Esmagamento da intentona — Os soviets de Petrogrado e Moscou passam para o lado dos bolcheviques

6 — A insurreição de outubro em Petrogrado — Prisão do governo provisório — O II Congresso dos Soviets e formação do Governo Soviético — Decretos do II Congresso dos Soviets sobre a paz e sobre a terra — Triunfa a Revolução Socialista — Causas do triunfo da Revolução Socialista

7 — A luta do Partido bolchevique pela consolidação do Poder Soviético — A paz de Brest-Litovsk — O VII Congresso do Partido

8 — O plano de Lenin para abordar a construção do Socialismo — São criados os comitês de camponeses pobres e cortadas as asas aos kulaks — A sublevação dos social-revolucionários de "esquerda" e seu esmagamento — O V Congresso dos Soviets e a aprovação da Constituição da República Socialista Federativa Soviética da Rússia

Resumo



CAPÍTULO VIII

O Partido Bolchevique durante o período da intervenção militar estrangeira e da guerra civil

( 1918 – 1920 )

1 — Começa a intervenção estrangeira — Primeiro período da guerra civil

2 — Derrota militar da Alemanha — A revolução alemã — Fundação da Terceira Internacional — O VIII Congresso do Partido

3 — Recrudesce a intervenção — Bloqueio do País Soviético — Campanha de Kolchak e seu esmagamento — Campanha de Denikin e seu esmagamento — Uma trégua de três meses — O IX Congresso do Partido

4 — Agressão dos "panis" polacos contra o País Soviético —Aparecimento do general Wrangel — Fracasso do plano dos polacos — Esmagamento de Wrangel — Fim da intervenção armada

5 — Como e porque venceu o País Soviético as forças coligadas da intervenção anglo-franco-japonesa-polaca e da contra-revolução dos burgueses, latifundiários e guardas-brancos dentro da Rússia

Resumo



CAPÍTULO IX

O Partido Bolchevique durante o período de transição ao trabalho pacífico de restauração da economia nacional ( 1921 – 1925 )

1 — O País Soviético, depois da liquidação da intervenção armada e da guerra civil — As dificuldades do período de restauração da Economia

2 — Discussão no Partido acerca dos sindicatos — O X Congresso do Partido — A oposição é derrotada — Passa-se à Nova Politica Econômica ("NEP")

3 — Primeiros resultados da "NEP" — O XI Congresso do Partido — Fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas — Doença de Lenin — O plano cooperativo de Lenin — O XII Congresso do Partido

4 — A luta contra as dificuldades da restauração da Economia nacional — Recrudesce a atividade dos trotskistas, em virtude da doença de Lenin — Nova discussão dentro do Partido — Derrota dos trotskistas — Morte de Lenin — A promoção leninista — O XIII Congresso do Partido

5 — A União Soviética no final do período de restauração da Economia nacional — O problema da edificação socialista e do triunfo do socialismo no País Soviético — A "nova oposição" de Zinoviev-Kamenev — O XIV Congresso do Partido — Para a industrialização socialista do País

Resumo



CAPÍTULO X

O Partido Bolchevique na luta pela industrialização socialista do país ( 1926 - 1929 )

 

1 — As dificuldades do período da industrialização socialista e a luta contra elas — Forma-mação do bloco anti-bolchevique trotskista-zinovievista — Atuação anti-soviética deste bloco — Sua derrota

2 — Êxitos da industrialização socialista — Atraso da agricultura — O XV Congresso do Partido — Para a coletivização da

agricultura — Esmagamento do bloco trotskista-zinovievista — A falsidade políca

3 — A ofensiva contra os kulaks — O grupo de Bukarin-Rykov contra o Partido — Aprovação do primeiro Plano Qüinqüenal — A emulação Socialista — Começa o movimento kolkosiano de massas

Resumo



CAPÍTULO XI

— O Partido Bolchevique na luta pela coletivização da agricultura ( 1930 - 1934 )

1 — Situação internacional durante os anos de 1930 a 1934 — A crise econômica nos países capitalistas — Ocupação da

Mandchúria pelo Japão — Subida dos fascistas ao poder na Alemanha — Dois focos de guerra

2 — Da política de restrições contra os elementos dos kulaks à política de liquidação dos kulaks como classe — Luta contra as deformações da política do Partido no movimento kolkosiano — Ofensiva contra os elementos capitalistas em toda a frente — O XVI Congresso do Partido

3 — O Partido se orienta para a reconstrução de todos os ramos da Economia nacional — O papel da técnica — Continua a se desenvolver o movimento kolkosiano — As seções políticas das estações de máquinas e tratores — Balanço da execução do Plano Qüinqüenal em quatro anos — O triunfo do socialismo em toda a frente — O XVII Congresso do Partido

4 — Os bukarinistas degeneram em falsários políticos — Os falsários trotskistas degeneram em um bando de assassinos e espiões guardas brancos — Infame assassinato de S. M. Kirov — Medidas do Partido para reforçar a vigilância dos bolcheviques

Resumo



CAPITULO XII

O Partido Bolchevique na luta pelo coroamento da edificação da sociedade socialista e implantação da nova Constituição ( 1935 - 1937 )

1 — A situação internacional nos anos de 1935 a 1937 — Amortecimento temporário da crise econômica — Começa uma nova crise econômica — Ocupação da Abissínia pela Itália — A intervenção germano-italiana na Espanha — Invasão da China Central pelos japoneses — Começa a segunda guerra imperialista

2 — Prossegue o apogeu da indústria e da agricultura na URSS — O segundo Plano Quinquenal é cumprido antes do prazo — Reconstituição da agricultura e conclusão da coletivização — A importância dos quadros — O movimento stakanovista — Aumenta o bem-estar do povo — Apogeu da cultura popular — A força da Revolução Soviética

3 — O VIII Congresso dos Soviets — É aprovada a nova Constituição da URSS

4 — Esmagamento dos restos de espiões, sabotadores e traidores da Pátria, bukarinistas-trotskistas — Preparação das eleições para o Soviet Supremo da URSS — O Partido traça o rumo para o desenvolvimento da democracia interna — As eleições para o Soviet Supremo da URSS

 

Conclusão






Introdução

O Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S. percorreu um longo e glorioso caminho, que vai dos primeiros pequenos círculos e grupos marxistas, formados na Rússia na década de 80 do século passado, até o grande Partido Bolchevique que hoje dirige o primeiro Estado socialista de operários e camponeses do mundo.

O Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S. desenvolveu-se apoiado no movimento operário da Rússia pré-revolucionária daqueles círculos e grupos marxistas que se puseram em contato com o movimento proletário e lhe infundiram uma consciência socialista. O P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. guiou-se sempre e continua a guiar-se pela doutrina revolucionária do marxismo-leninismo. Sob as novas condições da época do imperialismo, da época das guerras imperialistas e das revoluções proletárias, seus chefes desenvolveram e impulsionaram a doutrina de Marx e Engels, elevando-a a uma nova fase.

O P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. tornou-se grande e forte numa luta de princípios contra os partidos pequeno-burgueses do movimento operário, contra os social-revolucionários (e, antes destes aparecerem, contra seus predecessores, os populistas), os mencheviques, os anarquistas, os nacionalistas burgueses de todos os matizes, e, dentro do próprio Partido, contra as tendências mencheviques e oportunistas, contra os trotskistas, os bukharinistas, os porta-vozes de desvios nacionalistas e demais grupos antileninistas.

O P.C. (bolchevique) da U.RS.S. se robustecia e se temperava na luta revolucionária contra todos os inimigos da classe operária, contra todos os inimigos dos trabalhadores, contra os latifundiários, os capitalistas, os kulaks, os sabotadores e os espiões, contra todos os mercenários do cerco capitalista.

A história do P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. é a história de três revoluções: a revolução democrático-burguesa de 1905, a revolução democrático-burguesa de fevereiro de 1917 e a revolução socialista de outubro de 1917.

A história do P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. é a história da derrubada do czarismo, da derrubada do Poder dos latifundiários e capitalistas, a história do esmagamento da intervenção armada estrangeira durante a guerra civil, a história da edificação do Estado Soviético e da Sociedade socialista na U.R.S.S.

O estudo da história do P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. nos enriquece com a experiência da luta dos operários e camponeses do País Soviético pelo socialismo.

O estudo da história do P.C. (bolchevique) da U.R.S.S., o estudo da história das lutas travadas pelo Partido contra os inimigos do marxisnio-leninismo, contra os inimigos dos trabalhadores, ajuda a dominar o bolchevismo e estimula a vigilância política.

O estudo da história heróica do P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. arma a quem o realiza com o conhecimento das leis que regem o desenvolvimento social e a luta política, com o conhecimento das forças motrizes da revolução.

0 estudo da história do P.C. (bolchevique) da U.R.S.S. fortalece a confiança no triunfo definitivo da grande causa do Partido de Lenin-Stalin, no triunfo do comunismo no mundo inteiro.

Neste livro se expõe sumariamente a história do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S.

Os editores

 

 

 

Capítulo I

A Luta Pela Criação do Partido Operário Social-Democrata na Rússia

( 1883 – 1901 )



1

Abolição do regime da servidão e desenvolvimento do capitalismo industrial na Rússia.

Aparecimento do proletariado industrial moderno.

Primeiros passos do movimento operário.



A Rússia czarista empreendeu o caminho do desenvolvimento capitalista depois de outros países.

Até a década de 60 do século passado, existiam na Rússia muito poucas fábricas e empresas industriais. Na economia russa predominava o regime da servidão em benefício dos latifundiários nobres.

Este regime de servidão não deixava que a indústria se desenvolvesse como devia. O trabalho forçado desses servos dava um baixo rendimento de produção na agricultura.

Toda a marcha do desenvolvimento económico forçava a abolição deste regime. — O governo czarista, enfraquecido pela derrota sofrida na guerra da Criméia e assustado pelas revoltas camponesas contra os latifundiários, viu-se obrigado a abolir em 1861 o regime da servidão.

Mas, nem por isso deixaram os latifundiários de continuar oprimindo os camponeses. Ao conceder-lhes sua "libertação", os latifundiários despojaram os camponeses — arrebatando ou escamoteando — de uma parte considerável das terras que estes vinham desfrutando e que os camponeses começaram a designar com o nome de "recortes". Além disso, obrigaram-nos a pagar aos latifundiários um resgate pela sua "libertação", num valor total de perto de 2.000 milhões de rublos.

Depois da abolição do regime da servidão, os camponeses eram obrigados a tomar em arrendamento as terras dos latifundiários em condições as mais iníquas. Não poucas vezes, além de pagar uma renda em dinheiro ao latifundiário, o camponês ficava obrigado a trabalhar de graça e com seus próprios instrumentos e animais de tração, determinada quantidade de terra daquele. A isto chamavam "pagamento em trabalho", "prestação pessoal". O mais frequente, porém, era o camponês ficar obrigado a pagar a renda ao latifundiário em espécie, entregando-lhe a metade da colheita. Isto se denominava "parceria".

Como se vê, a situação continuava sendo quase a mesma que antes, sob o regime de servidão, com a única diferença que, agora, o camponês era pessoalmente livre e não se podia vendê-lo ou comprá-lo como se fosse um objeto.

Os latifundiários usavam diversos métodos de rapina (renda, multas, etc.) para sugar até a última gota suas atrasadas explorações agrícolas. A grande massa de camponeses via-se na impossibilidade de melhorar suas plantações, porque a opressão dos donos de terra os impedia. Daí o enorme atraso da agricultura na Rússia antes da revolução, atraso que se traduzia em más colheitas e em períodos de fome.

Os resíduos do regime da servidão, as enormes contribuições ao Estado, e os arrendamentos altíssimos que tinham que pagar pela terra aos latifundiários, que não poucas vezes excediam aos lucros obtidos na exploração agrícola, conduziam à ruína e ao empobrecimento das massas camponesas e obrigavam os camponeses a procurar trabalho fora da aldeia. Iam para fábricas e empresas industriais, fornecendo aos fabricantes mão-de-obra barata.

Sobre as cabeças dos operários e camponeses se levantava todo um exército de chefes de polícia, guardas rurais, gendarmes, agentes de polícia, encarregados de defender o czar, os capitalistas e os latifundiários, contra os trabalhadores, contra os explorados.

Até o ano de 1908, estiveram em vigor as penas corporais. Não obstante haver-se abolido a servidão, o camponês era surrado pelo menor deslize ou pela falta de pagamento das contribuições.

Os gendarmes e os cossacos assassinavam e martirizavam os operários, sobretudo, durante as greves, quando estes, abandonavam o trabalho por não mais poderem suportar os vexames dos patrões. Na Rússia czarista, os operários e camponeses careciam até dos direitos políticos mais elementares. A autocracia czarista era o pior inimigo do povo.

A Rússia czarista era uma prisão de povos. As numerosas nacionalidades não russas da Rússia czarista achavam-se completamente privadas de direitos, submetidas continuamente a todo género de ultrajes e humilhações. O governo czarista tinha ensinado à população russa a ver nos povos indígenas dos territórios nacionais raças inferiores, às quais se dava o qualificativo oficial de gente "de outras raças", e lhe tinha inculcado o desprezo e o ódio a elas. O czarismo alimentava conscientemente as discórdias nacionais, açulava uns povos contra outros, organizava progroms de judeus e matanças entre tártaros e à arménios na Trancaucásia.

Nos territórios nacionais, todos ou quase todos os cargos públicos eram desempenhados por funcionários russos. O russo era a língua obrigatória em todas as instituições e nos tribunais. Era proibido publicar jornais e livros nas línguas nacionais ou ensinar nas escolas por meio da língua materna. O governo czarista esforçava-se em sufocar todas as manifestações da cultura nacional e seguia a política de "russificar" à força as nacionalidades não russas. O czarismo atuava como verdugo e tirano dos povos não russos.

Depois da abolição do regime de servidão, o desenvolvimento do capitalismo industrial na Rússia seguiu uma marcha bastante rápida, apesar dos resíduos do regime feudal continuarem entorpecendo seu desenvolvimento. Durante 25 anos, de 1865 a 1890, o número de operários, somente nas grandes fábricas e nas estradas de ferro, aumentou de 706.000 para 1.433.000, isto é, de mais do dobro.

Mais rápido ainda foi o desenvolvimento que começou a adquirir na Rússia a grande indústria capitalista durante a década de 90. No final desta década, o número de operários que trabalhavam nas grandes fábricas, nas empresas industriais, na indústria mineira e nas estradas de ferro, somente em 50 províncias da Rússia europeia, ascendeu a 2.207.000, e em toda a Rússia a 2.792.000.

E este era já um proletariado industrial moderno, que se distinguia radicalmente dos operários das fábricas do período da servidão e dos operários da pequena indústria, do artesanato e de qualquer outra indústria, tanto por sua concentração em grandes empresas capitalistas como por sua combatividade revolucionária.

Este rápido progresso industrial da década de 90 uniu-se, em primeiro lugar, à intensa construção de estradas de ferro.

Durante este decénio (de 1890 a 1900), se construíram mais de 21.000 quilómetros de novas vias férreas. Estas estradas de ferro absorviam uma quantidade enorme de metal (para os trilhos, locomotivas, vagões) e exigiam um volume cada vez maior de combustível, carvão de pedra e petróleo.

Isto ocasionou o desenvolvimento da metalurgia e das indústrias de combustíveis.

Na Rússia de antes da revolução, do mesmo modo que em todos os países capitalistas, os anos de prosperidade industrial se alternavam com os de crises industriais e estancamento da indústria, crises que castigavam duramente a classe operária, — lançando ao desemprego e à miséria centenas de milhares de trabalhadores.

Apesar do desenvolvimento do capitalismo na Rússia ter tomado um ritmo bastante rápido depois da abolição da servidão, ainda assim o país marchava, em seu desenvolvimento económico, bem atrás de outros países capitalistas. A imensa maioria da população continuava vivendo da agricultura.

Em sua famosa obra "O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia", Lenin cita algumas cifras importantes do censo geral da população russa, efetuado em 1897. Destas cifras conclui-se que cerca de cinco sextas partes da população total da Rússia trabalhavam na agricultura e a sexta parte restante se distribuía entre a pequena e grande indústria, comércio, transporte ferroviário, fluvial e marítimo, construção e trabalhos florestais. Isto mostra que, apesar do desenvolvimento adquirido pelo capitalismo na Rússia, ela em um país agrário economicamente atrasado, um país pequeno-burguês: isto é, um país em que predominava ainda a exploração camponesa individual, baseada na pequena propriedade, de escasso rendimento.

O capitalismo se desenvolvia não somente na cidade, mas também no campo. Os camponeses que eram a classe mais numerosa na Rússia pré-revolucionária, se foram diferenciando, foram se formando entre eles diversas camadas sociais. Do setor dos camponeses mais acomodados se destacou uma camada superior, os kulaks, a burguesia da aldeia, enquanto que de outra parte muitos camponeses se iam arruinando e passavam a engrossar o número dos camponeses pobres, dos proletários e semiproletários das aldeias.

O número de camponeses médios ia diminuindo de ano para ano.

Em 1903, havia na Rússia uns 10 milhões de explorações camponesas. Em seu folheto "Aos Pobres da Aldeia", Lenin calculava que dentro desta cifra havia pelo menos três milhões e meio de explorações camponesas sem animais de tração. Estes camponeses, os mais pobres de todos, só semeavam, geralmente, um punhado insignificante de terra, entregando o resto aos kulaks e indo trabalhar fora por salário. A situação destes camponeses paupérrimos era a que mais perto estava da do proletariado. Lenin os chamava proletários ou semiproletários da aldeia. De outras parte, havia (dentro daquela cifra total de 10 milhões) um milhão e meio de explorações camponesas ricas, de kulaks, que concentravam em suas mãos a metade de todas as semeaduras camponesas. Estes burgueses do campo prosperavam, oprimindo os camponeses pobres e médios, enriqueciam-se à custa do trabalho dos peões e dos jornaleiros agrícolas e se iam convertendo em capitalistas agrários.

A classe operária da Rússia começou a despertar e lutar contra o capitalismo já na década de 70, e, sobretudo, na década de 80 do século passado [anos 1800]. A situação dos operários na Rússia czarista era extraordinariamente penosa. Na década de 80, a jornada de trabalho, nas fábricas e empresas industriais, não era nunca inferior a 12 horas e meia, e na indústria têxtil chegava até 14 e 15 horas. Explorava-se em grandes proporções o trabalho da mulher e da criança. Os meninos trabalhavam o mesmo horário dos adultos, porém ganhando, assim como as mulheres, salários muito inferiores. O nível dos salários era extraordinariamente baixo. Havia muitos operários que só ganhavam 7 ou 8 rublos por mês. Os operários melhor pagos das fábricas metalúrgicas e de fundição só ganhavam 35 rublos mensais. Não se tomava nenhuma medida de proteção do trabalho, o que originava acidentes em massa e constantes mortes de operários. Não se conhecia o seguro-operário, e a assistência médica só a obtinha aquele que pagasse. Os operários viviam em condições horríveis, empilhados em tugúrios, em casas de cômodos, à razão de 10 a 12 homens em cada quarto. Freqüentemente os patrões enganavam os operários ao lhes fazer as contas das diárias, obrigavam-nos a comprar nos armazéns patronais da fábrica, artigos três vezes mais caros do que valiam e os saqueavam por meio de multas.

Os operários começaram a combinar entre si e a apresentar em conjunto ao patrão suas reivindicações para melhorar as condições insuportáveis em que viviam. Abandonavam o trabalho, isto é, punham-se em greve.

As primeiras greves, nas décadas de 70 e 80 do século passado [anos 1800], estalavam, em geral, em protesto contra as multas desmedidas, contra as velhacarias e enganos propositados quando faziam os pagamentos, contra a redução dos salários.

Nas primeiras greves, os operários, esgotando a paciência, quebravam às vezes as máquinas, os vidros das fábricas e destruíam os armazéns patronais e escritórios da fábrica.

Os operários mais conscientes começaram a compreender que para lutar com êxito contra o capitalismo, era necessário organizar-se. E assim, surgiram as primeiras associações operárias.

Em 1875, se organizou em Odessa a "União dos Operários do Sul da Rússia". Esta organização operária, a primeira de todas, não viveu mais de 8 ou 9 meses, sendo aniquilada pelo governo czarista.

Em Petersburgo, organizou-se, em 1878, a "União dos Operários Russos do Norte", à cuja frente se achavam um carpinteiro chamado Khaltorin e um serralheiro de nome Obnorski. No programa desta organização se dizia que seus objetivos eram análogos aos dos partidos operários social-democratas dos países ocidentais. Sua meta final era levar a cabo a revolução socialista,

"derrubar o regime político e econômico do Estado existente, como um regime completamente injusto".

Um dos organizadores desta União, Obnorski, tinha vivido algum tempo no estrangeiro, onde teve ocasião de conhecer a atuação dos partidos social-democratas marxistas e da Primeira Internacional, dirigida por Marx.

Esta circunstância imprimiu seu selo ao programa da "União dos Operários Russos do Norte". O objetivo imediato que esta organização se propôs alcançar era a conquista da liberdade e dos direitos políticos do povo (liberdade de palavra e de Imprensa, direito de reunião, etc.).

Entre as reivindicações imediatas, figurava também a redução da jornada de trabalho.

O número de filiados a esta organização era de 200, contando com outros tantos simpatizantes. A União começou a tomar parte nas greves operárias e a dirigi-las. Também esta organização foi destruída pelo governo czarista.

Porém o movimento operário continuava desenvolvendo-se e estendendo-se a novas e novas regiões. Na década de 80, aumenta o número de greves. Durante cinco anos (de 1881 a 1886), produziram-se mais de 48 greves, com um total de 80.000 grevistas.

Na história do movimento revolucionário, ocupa um lugar de destaque a grande greve que estalou em 1885 na fábrica "Morosov" de Orekhno-Suievo.

Nesta fábrica trabalhavam cerca de 8.000 operários. As condições de trabalho pioravam dia a dia: de 1882 até 1884 o salário foi reduzido cinco vezes, e em 1884 o salário médio foi diminuído de golpe em uma quarta parte, isto é, uns 25%. Como se isso fosse pouco, o fabricante Morosov não deixava os operários viverem em paz pelas contínuas multas. Segundo se demonstrou perante os Tribunais depois da greve, de cada rublo que o operário ganhava, tiravam-lhe por meio de multas de 30 a 50 centavos de rublo, que iam parar no bolso do patrão. Os operários, dispostos a não continuar tolerando este roubo, declararam-se em greve em janeiro de 1885. A greve foi organizada de antemão. Dirigiu-a um operário avançado, chamado Piotr Moiseienko, que estivera filiado à "União de Operários Russos do Norte", e que tinha já experiência revolucionária. Nas vésperas da greve, Moiseienko formulou, junto com outros tecelões dos mais conscientes, uma série de reivindicações que seriam apresentadas ao patrão e que foram aprovadas em uma reunião secreta dos operários. Eles exigiam, antes de tudo, que cessasse o saque por meio das multas.

À greve foi esmagada pela força das armas. Foram detidos mais de 600 operários e algumas dezenas processados.

Greves parecidas com esta surgiram também no ano de 1885 nas fábricas de Ivanovo-Vosnesensk.

No ano seguinte, o governo czarista, assustado com o movimento operário em ascensão, viu-se obrigado a promulgar uma lei sobre as multas. Nesta lei, dispunlia-se que o dinheiro das multas não podia ser apropriado pelo patrão, e que tinha que ser investido nas necessidades dos próprios operários.

Pela experiência da greve da fábrica Morosov e outras semelhantes, os operários compreenderam que podiam conseguir muito lutando organizadamente. No movimento operário começavam a destacar-se dirigentes e organizadores capazes, dispostos firmemente a defender os interesses da classe operária.

Por esta mesma época, em conseqüência do desenvolvimento operário e sob a influência do movimento operário do Ocidente da Europa, começam a ser criadas na Rússia as primeiras organizações marxistas.



2

O populismo e o marxismo na Rússia.

Plekhanov e seu grupo "Emancipação do Trabalho".

Luta de Plekhanov contra os populistas

Difusão do marxismo na Rússia.



Até o aparecimento dos grupos marxistas, o trabalho revolucionário, na Rússia, correu a cargo dos populistas, que eram adversários do marxismo.

O primeiro grupo marxista russo foi criado em 1883. Foi o grupo que, sob o nome "Emancipação do Trabalho", G. V. Plekhanov organizou no estrangeiro, em Genebra, para onde fora obrigado a emigrar, fugindo às perseguições do governo czarista pela sua atuação revolucionária,

O próprio Plekhanov tinha sido, antes disto, populista. Porém na emigração, depois de iniciar-se no conhecimento do marxismo, rompeu com o populismo e se converteu em um notável propagandista da doutrina marxista.

O grupo "Emancipação do Trabalho" realizou um grande trabalho de difusão do marxismo na Rússia. Traduziu para o russo várias obras de Marx e Engels: o "Manifesto do Partido Comunista", "Trabalho Assalariado e Capital", "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico" e outras, que imprimiam no estrangeiro e faziam circular clandestinamente na Rússia.

G. V. Plekhanov, Zazulich, Axelrod e outros membros deste grupo escreveram também uma série de obras explicando a doutrina de Marxe Engels, as idéias do socialismo científico.

Marx e Engels, os grandes mestres do proletariado, foram, por oposição aos socialistas utópicos, os primeiros que tornaram claro que o socialismo não é fruto das maquinações de alguns sonhadores (utopistas), e sim o resultado necessário do desenvolvimento da moderna sociedade capitalista. Salientaram que o regime capitalista cairá, da mesma maneira que caiu o regime feudal, e que o próprio capitalismo engendra, com o proletariado, a força que haverá de enterrá-lo. E demonstraram que só a luta de classe do proletariado, só o triunfo do proletariado sobre a burguesia, libertará a humanidade do capitalismo, da exploração.

Marx e Engels ensinaram ao proletariado a ter consciência de sua força, a ter consciência dos seus interesses de classe, e a unir-se para a luta decisiva contra a burguesia. Descobriram as leis que regem o desenvolvimento da sociedade capitalista e demonstraram cientificamente que o desenvolvimento da sociedade capitalista e a luta de classe dentro dela têm obrigatoriamente que conduzir à queda do capitalismo, e ao triunfo da classe operária, à ditadura do proletariado.

Marx e Engels ensinaram que o derrocamento do poder do capital, e a transformação da propriedade capitalista em propriedade social, não pode ser realizada de modo algum por via pacífica, que a classe operária só conseguirá isto mediante a aplicação da violência revolucionária contra a burguesia, por meio da revolução proletária, instaurando sua dominação política, a ditadura do proletariado, a qual deverá esmagar a resistência dos exploradores e criar uma nova sociedade, a sociedade comunista sem classes.

Marx e Engels ensinaram que o proletariado industrial é a classe mais revolucionária e, portanto, a mais avançada da sociedade capitalista, e que só uma classe como o proletariado pode agrupar em torno dela todas as forças descontentes do capitalismo e conduzi-las ao assalto contra este. Porém, para vencer o velho mundo e criar uma nova sociedade sem classes, o proletariado tem que dispor de seu próprio partido operário, ao qual Marx e Engels deram o nome de Partido Comunista.

A difusão das idéias de Marx e Engels foi a tarefa que o primeiro grupo marxista russo, o grupo "Emancipação do Trabalho" de Plekhanov, se traçou.

Este grupo levantou a bandeira do marxismo na imprensa russa do estrangeiro, quando ainda não existia na Rússia um movimento social-democrata. Era necessário, antes de tudo, abrir o caminho a este movimento por meio de um trabalho teórico, ideológico. O principal obstáculo ideológico que se levantava contra a difusão do marxismo e do movimento social democrático na Rússia, naquele tempo, eram as idéias populistas, que então predominavam entre os operários avançados e intelectuais de tendência revolucionária.

Com o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, a classe operária se tinha convertido numa poderosa força de vanguarda, capaz de organizar a luta revolucionária. Os populistas porém não compreendiam o papel de vanguarda da classe operária. Os populistas russos achavam, erradamente, que a força revolucionária fundamental não era a classe operária, e sim os camponeses; que o poder do czar e dos latifundiários se podia derrubar pura e simplesmente por meio de "revoltas" camponesas. Os populistas não conheciam a classe operária e não compreendiam que, sem aliar-se a esta e sem ser dirigidos por ela, os camponeses por si sós não podiam vencer o czarismo e os latifundiários. Não compreendiam que a classe operária é a classe mais revolucionária e avançada da sociedade.

A princípio, os populistas pretenderam levantar os camponeses para lutar contra o governo do czar. Com este fim, a juventude intelectual revolucionária, vestindo a roupa camponesa, se lançou à aldeia, "ao povo", como então se dizia. É daí que lhes vem o nome de populistas".

Porém os camponeses não os seguiram, coisa natural, já que aqueles homens, não os conheciam nem os compreendiam como na realidade eram. A maioria dos populistas foram presos pela polícia. Em vista disto, decidiram continuar a luta contra a autocracia czarista com suas próprias forças, sem o povo, o que os levou a erros ainda mais graves.

A sociedade populista clandestina chamada "Narodnaia Volia" ("Vontade do Povo") começou a preparar o assassinato do czar.

Em 1°. de março de 1881, alguns filiados desta sociedade conseguiram lançar uma bomba contra o czar Alexandre II, matando-o. Porém isto não trouxe nenhum benefício para o povo. Matando alguns indivíduos isoladamente, não se derrubava a autocracia czarista, nem se destruía a classe dos latifundiários.

A vaga do czar morto foi ocupada por outro czar. Alexandre III, sob o qual os operários e os camponeses viviam ainda pior.

O caminho que os populistas tinham escolhido para lutar contra o czarismo, o caminho dos assassinatos individuais, o caminho do terror individual, era falso e prejudicial para a revolução. A política do terror individual respondia à falsa teoria populista dos "heróis" ativos e a "multidão" passiva que aguarda as façanhas dos "heróis". Esta falsa teoria preconizava que somente uns quantos indivíduos destacados fazem a história e que a massa, o povo, a classe, a "multidão", como a chamavam pejorativamente os escritores populistas, é incapaz de realizações conscientes e organizadas e não pode fazer mais que seguir cegamente os "heróis". Por isso, os populistas renunciaram a realizar um trabalho revolucionário de massa entre os camponeses e a classe operária, e empreenderam o caminho do terror individual. Os populistas obrigaram a um dos melhores revolucionários daquele tempo, Stepan Khalturin, a abandonar seu trabalho de organização de uma Liga operária revolucionária para entregar-se por inteiro ao terrorismo.

Os populistas desviavam a atenção dos trabalhadores da luta contra a classe opressora, com o assassinato, inútil para a revolução, de uns quantos-representantes individuais da dita classe. Com isso, freiavam o desenvolvimento da iniciativa e as atividades revolucionárias da classe operária e dos camponeses.

Impediam a classe operária de compreender seu papel dirigente na revolução e entorpeciam a criação de um partido da classe operária independente.

Embora a sociedade clandestina dos populistas tivesse sido destruída pelo governo do czar, as idéias do populismo se mantiveram ainda durante muito tempo entre os intelectuais de tendências revolucionárias.

Os restos do populismo opunham uma resistência tenaz à difusão do marxismo na Rússia e entorpeciam a organização da classe operária.

Eis aí, por que, na Rússia, o marxismo só podia desenvolver-se e fortalecer-se lutando contra o populismo.

O grupo "Emancipação do Trabalho" lutou contra as falsas idéias dos populistas, mostrando o dano que esta doutrina e seus métodos de luta causavam ao movimento operário.

Em seus trabalhos dirigidos contra os populistas, Plekhanov tornou claro que a doutrina deles não guardava a menor relação com o socialismo científico, ainda que seus porta-vozes se chamassem também socialistas.

Plekhanov foi o primeiro que fez uma crítica marxista das falsas idéias do populismo. Ao descarregar certeiros golpes contra o populismo, Plekhanov fazia, ao mesmo tempo, uma brilhante defesa das idéias marxistas.

Em que consistiam as falsas idéias fundamentais dos populistas às quais Plekhanov assestou um golpe mortal?

Em primeiro lugar, os populistas afirmavam que na Rússia o capitalismo era um fenômeno "casual", que neste país não se desenvolveria o capitalismo, nem, portanto, cresceria e se desenvolveria o proletariado.

Em segundo lugar, os populistas não viam na classe operária a classe mais avançada da revolução. Sonhavam com a realização do socialismo sem o proletariado. Para eles, a força principal da revolução eram os camponeses dirigidos pelos intelectuais, e a comunidade camponesa era considerada como o gérmen e base do socialismo.

Em terceiro lugar, os populistas professavam idéias falsas e nocivas quanto à marcha da história humana em geral. Não conheciam nem compreendiam as leis que regem o desenvolvimento econômico e político da sociedade. Eram, a este respeito, gente completamente atrasada. Segundo eles, a história não é feita pelas classes e suas lutas, e sim por algumas personalidades ilustres, os "heróis", atrás dos quais marcham às cegas as massas, as "multidões", o povo, as classes.

Lutando contra os populistas e desmascarando-os, Plekhanov escreveu uma série de obras marxistas, que serviram para ensinar é educar os marxistas russos. Alguns dos seus trabalhos, como "O Socialismo e a Luta Política", "Nossas Discrepâncias", "Contribuição ao Problema do Desenvolvimento da Concepção Monista da História", prepararam o terreno para o triunfo do marxismo na Rússia.

Em suas obras, Plekhanov expôs os problemas fundamentais do marxismo. Seu livro "Contribuição ao Problema do Desenvolvimento da Concepção Monista da História", publicado em 1895, ocupa um lugar muito importante. Lenin disse que este livro

"educou a toda uma geração de marxistas russos" (Lenin t. XIV, pág. 347, ed. russa).

Em suas obras dirigidas contra os populistas, Plekhanov demonstrou que era estúpido colocar o problema como eles colocavam, a saber: Deve ou não deve desenvolver-se o capitalismo na Rússia? Pois a Rússia, dizia Plekhanov, demonstrando com fatos, já está marchando pelo caminho do desenvolvimento capitalista, sem que haja força capaz de afastá-la deste caminho.

A missão dos revolucionários não consistia em impedir o desenvolvimento do capitalismo na Rússia — pois nada conseguiriam em pretendê-lo —, senão em apoiar-se na poderosa força revolucionária que nasce do desenvolvimento do capitalismo, na classe operária, em desenvolver sua consciência de classe, em organizá-la, em ajudá-la a criar um partido operário seu.

Plekhanov destruiu também a segunda falsa idéia fundamental dos populistas, que consistia em negar o papel de vanguarda do proletariado na luta revolucionária. Os populistas consideravam o aparecimento do proletariado na Rússia como uma espécie de "desgraça histórica" e falavam da "chaga do proletarisxno". Defendendo a doutrina marxista e a possibilidade de aplicá-la plenamente na Rússia, Plekhanov demonstrou que, apesar da supremacia numérica dos camponeses e do número relativamente reduzido dos proletários, era precisamente no proletariado e em seu desenvolvimento que os revolucionários deviam cifrar suas principais esperanças.

E por quê precisamente no proletariado? Porque o proletariado, apesar de representar, naquela época, uma força numericamente pequena, é a classe dos trabalhadores, a qual se acha vinculada à forma mais progressista da Economia, a grande produção, razão pela qual tem ante si um grande futuro.

Porque o proletariado, como classe, cresce de ano para ano e se desenvolve politicamente, é facilmente suscetível de organização, graças às condições de seu trabalho na indústria, e é, além disso, por sua própria situação proletária, a classe mais revolucionária, pois nada tem à perder com a revolução, a não ser suas cadeias.

Não acontece o mesmo com os camponeses. Os camponeses, (bem entendido, que isto se refere aos camponeses que trabalham para si. N.da R.), apesar de sua grande massa numérica, são uma classe de trabalhadores que se acha vinculada à forma mais atrasada da Economia, à pequena produção, por cuja razão não tem nem pode ter um grande futuro.

Os camponeses, não só não cresciam como classe, senão que, longe disso, se desagregavam de ano para ano, passando uns (os kulaks) para a burguesia e outros tornavam-se camponeses pobres (proletários e semiproletários). Ademais, o fato de se acharem disseminados constituía uma dificuldade para sua organização, e sua situação de pequenos proprietários fazia com que resistissem mais do que o proletariado para entrar no movimento revolucionário.

Os populistas afirmavam que na Rússia o socialismo não se realizaria por meio da ditadura do proletariado, senão através da comunidade camponesa, na qual eles viam o gérmen e a base do socialismo. Porém esta sociedade não era nem podia ser o gérmen ou a base do socialismo, já que nela imperavam os kulaks, os "sanguessugas" , que exploravam os camponeses pobres, os trabalhadores braçais do campo e os camponeses médios com menos posses. O fato de que existisse formalmente um regime comunal de posse da terra e uma repartição desta de conformidade com o número de bocas, repartição que se realizava de vez em quando, não mudava em nada a situação. Quem se aproveitava da terra eram aqueles membros da comunidade que dispunham de animais de tração, de instrumentos para lavrar e de semente; isto é, os camponeses médios acomodados e os kulaks. Os camponeses que não tinham animais de tração, os camponeses pobres e os camponeses de poucas posses, em geral, viam-se obrigados a deixar a terra para os kulaks, e a trabalhar por salário como trabalhadores braçais. Na realidade, a comunidade camponesa era uma forma cômoda para encobrir o predomínio dos kulaks e um meio barato nas mãos do czarismo para a arrecadação das contribuições, segundo o princípio de fiança solidária. Por isso o czar deixava intacta a comunidade camponesa. Era ridículo considerar esta comunidade como o gérmen ou a base do socialismo.

Plekhanov destruiu também a terceira falsa idéia fundamental dos populistas: a do papel primordial que estes davam no desenvolvimento social aos "heróis", às personalidades ilustres e suas idéias; essa falsa idéia correspondia ao papel insignificante que os populistas atribuíam à massa, à "multidão", ao povo, às classes. Plekhanov acusava os populistas de serem idealistas, demonstrando que a verdade não estava no idealismo e sim no materialismo de Marx e Engels.

Plekhanov desenvolveu e fundamentou o ponto de vista do materialismo marxista. Demonstrou, fundamentado nesta doutrina, que o desenvolvimento da sociedade é determinado, em última instância, não pelos desejos e idéias de personalidades eminentes e sim pelo desenvolvimento das condições materiais de existência da sociedade, pelas modificações operadas nos métodos de produção dos seus bens materiais necessários para a existência da sociedade, pelas mudanças operadas nas relações de classe dentro do âmbito da produção de bens materiais e pela luta de classes em torno do papel e posição que estas desempenham no terreno da produção e distribuição desses bens materiais.

Não são as idéias que determinam a situação econômico-social dos homens, e sim a situação econômico-social dos homens é que determina suas idéias. As personalidades mais eminentes podem ficar reduzidas a nada, se suas idéias e seus desejos se opõem ao desenvolvimento econômico da sociedade, se se opõem às exigências da classe avançada. E, pelo contrário, os grandes homens podem realmente chegar a ser grandes, quando suas idéias e seus desejos traduzem acertadamente as necessidades do desenvolvimento econômico da sociedade, as necessidades da classe avançada.

A afirmação dos populistas de que a massa não é mais do que um rebanho e que são os heróis os únicos que fazem a história e convertem o rebanho em povo, os marxistas contestavam: não são os heróis os que fazem a história, e sim é esta que faz os heróis; portanto, longe de serem os heróis que criam o povo, é o povo que cria os heróis e impulsiona o progresso da história. Os heróis, os grandes homens podem desempenhar um papel importante na vida da sociedade somente na medida em que saibam compreender com acerto as condições do desenvolvimento da sociedade, compreender como modificá-los para melhorá-las. Os heróis, os grandes homens podem cair no ridículo e converterem-se em pessoas inúteis e fracassadas, se não sabem compreender acertadamente as condições de desenvolvimento da sociedade e pretendem arremeter contra as suas exigências históricas, considerando-se fatuamente como os "criadores" da história.

A esta categoria de heróis fracassados pertenciam, precisamente, os populistas.

Os trabalhos literários de Plekhanov, sua luta contra os populistas, socavaram profundamente a influência deles entre os intelectuais revolucionários. Porém a destruição ideológica do populismo estava muito longe de ser completa. Esta tarefa — a de acabar com o populismo, como inimigo do marxismo — coube a Lenin.

A maioria dos populistas, depois do aniquilamento do partido "Vontade do Povo", renegou a luta revolucionária contra o governo czarista e começou a pregar a reconciliação e harmonia com o czarismo. Nas décadas de 80 e 90, os populistas eram já porta-vozes dos interesses dos kulaks.

O grupo "Emancipação do Trabalho" redigiu dois projetos de programa dos social-democratas russos (o primeiro em 1884 e o segundo em 1887). Foi este um passo preparatório importantíssimo para a criação de um partido social-democrata marxista na Rússia. Porém o grupo "Emancipação do Trabalho" sofria também de graves erros. Em seu primeiro projeto de programa ficavam ainda resíduos das concepções populistas, admitia-se a tática do terror individual. Plekhanov não levava em conta também que, no transcurso da revolução, o proletariado pode e deve arrastar consigo os camponeses e que só aliado a eles podia o proletariado triunfar sobre o czarismo. Além disso, Plekhanov considerava a burguesia liberal como uma força capaz de ajudar, ainda que não firmemente, a revolução, e no entanto, em alguns de seus trabalhos, deixava de lado completamente os camponeses, declarando, por exemplo, que:

"Fora da burguesia e do proletariado, não vemos outras forças sociais em que se possam apoiar, em nosso país, as combinações oposicionistas ou revolucionárias. (Plekhanov, t. III, pág. 119, ed. russa).

Estas falsas idéias de Plekhanov foram o gérmen de suas futuras concepções mencheviques.

Tanto o grupo "Emancipação do Trabalho" como os círculos marxistas daquela época se desenvolviam, praticamente, à margem do movimento operário. Era ainda o período de gestação e alicerçamento da teoria marxista da Rússia, da idéia do marxismo, das teses programáticas da social-democracia.

Na década de 1884 a 1894, a social-democracia russa era formada ainda por uma espécie de pequenos grupos e círculos desligados ou com muito pouco contato com o movimento operário de massas.

Como a criança que ainda não nasceu porém já se desenvolve dentro do ventre materno, a social-democracia russa passava, como escreve Lenin, por um

"processo de desenvolvimento intra-uterino".

O grupo "Emancipação do Trabalho", "lançou somente as bases teóricas da social-democracia e deu oprimeiro passo para sair ao encontro do movimento operário, disse Lenin.

Havia de ser Lenin que cumpriria a missão de fundir o marxismo com o movimento operário da Rússia, corrigindo ao mesmo tempo os erros do grupo "Emancipação do Trabalho".





3



Lenin começa sua atuação revolucionária.

"A União de Luta Pela Emancipação da Classe Operaria", de Petersburgo.



Vladimir Ilitch Lenin, fundador do bolchevismo, nasceu na cidade de Simbirsk (hoje Ulianovsk) no ano de 1870. Em 1887, ingressou na Universidade de Kazan, porém pouco depois foi detido e expulso da Universidade por tomar parte no movimento revolucionário estudantil. Em Kazan, Lenin fez parte do círculo marxista organizado por Fedoseiev. Quando Lenin se transferiu para Samara, formou-se em torno dele o primeiro círculo marxista desta cidade. Já então, Lenin causava assombro pelo seu grande conhecimento marxista, a todos aqueles que o conheciam.

Em fins de 1893, Lenin foi para Petersburgo. Suas primeiras intervenções produziram uma forte impressão nos círculos marxistas de Petersburgo. Seu conhecimento extraordinariamente profundo da obra de Marx, sua capacidade para aplicar o marxismo à situação econômica e política da Rússia daquele tempo, sua fé ardente e inquebrantável no triunfo da classe operária, seu formidável talento de organizador; tudo isto converteu Lenin no dirigente indiscutível dos marxistas de Petersburgo.

Os operários mais avançados, aos quais Lenin ensinava nos círculos de estudo, sentiam por ele um grande carinho.

"Nossas lições — conta em suas recordações o operário Babushkin, falando da atuação de Lenin nos círculos operários — tinham um caráter muito animado e interessante; todos estávamos contentíssimos com aquelas lições e não nos cansávamos de admirar a inteligência de nosso professor".

Em 1895, Lenin unificou todos os círculos operários marxistas que funcionavam em Petersburgo (eram já cerca de 20) na "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária". Era um passo preparatório para a criação de um partido operário marxista revolucionário.

Lenin deu a esta "União de Luta" a missão de vincular-se mais estreitamente com o movimento operário de massas e dirigi-lo politicamente. Propôs passar da propaganda marxista entre o reduzido número de operários avançados, congregados em círculos de propaganda, para a agitação política intensa entre as grandes massas da classe operária. Esta viragem orientada no sentido de agitar as massas teve uma importância muito grande no desenvolvimento posterior do movimento operário na Rússia.

Na década de 90 do século passado, a indústria russa atravessava um período de prosperidade. Aumentava o número de operários. O movimento proletário se fortalecia. De 1895 a 1899 não baixou de 221.000, segundo dados incompletos, o número de operários que se puseram em greve.

O movimento operário se converteu em uma força importante na vida política do país. A própria realidade se encarregava de confirmar as idéias dos marxistas, defendidas por eles, em sua luta contra os populistas, a respeito do papel de vanguarda da classe operária no movimento revolucionário.

Sob a direção de Lenin, a "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária", combinava a luta dos operários por suas reivindicações econômicas — melhoramento das condições de trabalho, limitação da jornada de trabalho, aumento de salário, etc. — com a luta política contra o czarismo.

A "União de Luta" educava politicamente os operários.

A "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária" de Petersburgo foi, sob a direção de Lenin, a primeira organização da Rússia que levou a cabo a fusão do socialismo com o movimento operário.

Quando estalava uma greve em qualquer fábrica, a "União", que conhecia magnificamente, através dos operários que tomavam parte em seus círculos de estudo, a situação de cada empresa, tomava posição imediatamente com a publicação de folhetos e manifestos socialistas.

Nestes folhetos, denunciavam-se os abusos que os patrões cometiam contra os operários, explicava-se como deviam lutar estes para defender seus interesses e se reproduziam suas reivindicações. Estes folhetos contavam toda a verdade sobre os horrores do capitalismo, da miséria da vida dos operários, de seu trabalho brutal e esgotador, com jornadas de 12 a 14 horas, da sua falta total de direitos. Nestes mesmos folhetos se formulavam as reivindicações políticas correspondentes.

Em fins de 1894, Lenin escreveu, com a colaboração do operário Babushkin, o primeiro destes folhetos de agitação e uma proclamação dirigida aos grevistas da fábrica de Semianikov de Petersburgo. No outono de 1895, Lenin escreveu outra proclamação aos operários em greve da fábrica de Thornton. Esta fábrica era propriedade de uns capitalistas ingleses que obtinham lucros fabulosos. A jornada de trabalho, nesta empresa, era de mais de 14 horas, e os tecelões ganhavam cerca de 7 rublos por mês. A greve terminou com o triunfo dos operários. Em pouco tempo, a "União de Luta" editou dezenas de folhetos e de manifestos, dirigidos aos operários de diversas fábricas. Cada um deles levantava e fortalecia o espírito dos operários. Eles viam que os socialistas os apoiavam e defendiam.

No verão de 1896 se realizou, em Petersburgo, sob a direção da "União de Luta", uma greve de 30.000 operários têxteis. A reivindicação principal dos grevistas era a redução da jornada de trabalho. Sob a pressão desta greve, o governo czarista viu-se obrigado a promulgar a Lei de 2 de junho de 1897, limitando a jornada de trabalho para 11 horas e meia. Antes desta lei, não existia limitação alguma.

Em dezembro de 1895, Lenin foi detido pelo governo czarista.

Porém, mesmo da prisão, prosseguiu sua luta revolucionária. Ajudava a "União" com seus conselhos e indicações, enviando folhetos e manifestos. No cárcere, Lenin escreveu o seu folheto "Sobre as Greves" e o manifesto "Ao Governo Czarista", no qual se punha a nu o despotismo selvagem daquele regime. Lenin também escreveu na prisão um projeto de programas do Partido (teve de escrevê-lo com leite entre as linhas de um livro de Medicina).

A "União de Luta" de Petersburgo imprimiu um poderoso impulso à fusão dos círculos operários em agrupamentos análogos, em outras cidades e regiões da Rússia. Em meados da década de 90, apareceram as primeiras organizações marxistas na Transcaucásia. Em 1894, se formou em Moscou a "União Operária" desta cidade. Em fins do século, se constituiu a "União Social-Democrata" da Sibéria.

No decênio de 90, surgiram também grupos marxistas em Ivanovo-Vosnesensk, Iaroslavi e Krostrama, os quais se uniram depois para formar a "União do Partido Social-Democrata do Norte". Na segunda metade desta mesma década, criaram-se também agrupamentos social-democratas em Rostov sobre o Don, Ekaterinoslav, Kiev, Nicolaiev, Tula, Samara, Kazan, Orekovo-Suievo e em outras cidades.

A importância da "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária" de Petersburgo, consistia em que esta organização era, segundo a expressão de Lenin, o primeiro começo sério de um partido revolucionário apoiado no movimento operário.

A experiência revolucionária da "União" de Petersburgo havia de servir a Lenin, em sua atuação posterior, de base para a criação de um Partido social-democrata marxista na Rússia.

Depois da detenção de Lenin e de seus companheiros de luta mais próximos, se renovou consideravelmente a direção da "União de Luta" de Petersburgo. Surgiram elementos novos, que se chamavam a si próprios de "jovens", denominando a Lenin e seus companheiros de luta "os velhos". Esta gente começou a seguir uma linha política falsa. Declaravam que aos operários devia interessar somente a luta econômica contra os patrões e que a luta política cabia à burguesia liberal, à qual correspondia a direção da mesma. Esta gente começou a ser conhecida pelo nome de "economistas".

Os "economistas" foram o primeiro grupo conciliador, oportunista, que se formou, na Rússia, dentro das fileiras das organizações marxistas.





4



Luta de Lenin contra o populismo e o "marxismo legal".

A idéia leninista da aliança entre a classe operária e os camponeses.

Primeiro congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.



Ainda que Plekhanov já tivesse assestado, na década de 80, um rude golpe no sistema das idéias populistas, em começos da década de 90, estas idéias encontravam ainda acolhida em uma parte da juventude revolucionária. Uma parte da juventude continuava acreditando que a Rússia podia fugir da trajetória capitalista e que seriam os camponeses e não a classe operária que desempenhariam o papel fundamental da revolução. Os populistas que restavam, tudo faziam para entorpecer a difusão do marxismo na Rússia, lutavam contra os marxistas e procuravam desacreditá-los a todo custo. Para assegurar uma mais ampla difusão do marxismo e a possibilidade de criar um Partido social-democrata, era necessário esmagar definitivamente o populismo no terreno ideológico. Este trabalho foi realizado por Lenin. Em seu livro "Quem são os "amigos do povo" e como lutam contra os social-democratas?" (publicado em 1894), Lenin pôs a nu completamente a verdadeira face dos populistas, como falsos "amigos do povo" que trabalhavam na realidade contra este.

Na década de 90, há muito tempo que os populistas tinham renegado, no fundo, toda a luta revolucionária contra o governo czarista.

Os populistas liberais aconselhavam a reconciliação com o czarismo.

"Pensam ingenuamente, — escrevia Lenin, referindo-se aos populistas daquele tempo — que implorando com submissão e doçura, este governo poderá ajeitar tudo a contento" (Lenin, 1.1, pág. 161, ed. russa).

Os populistas da década de 90 fechavam os olhos ante a situação dos camponeses pobres, ante a luta de classes no campo, ante a exploração dos camponeses pobres, pelos kulaks e elogiavam o desenvolvimento das fazendas destes.

Na realidade, atuavam como porta-vozes dos interesses dos kulaks.

Ao mesmo tempo, em seus jornais, os populistas mantinham uma campanha de difamação contra os marxistas. Desfigurando e deformando conscientemente as idéias dos marxistas russos, faziam crer aos seus leitores que os marxistas procuravam a ruína do campo, que queriam "fazer passar cada mujik pelo forno da fábrica". Lenin desmascarou estas calúnias da crítica populista e demonstrou que o que importava não eram os "desejos" dos marxistas, e sim o processo real do desenvolvimento do capitalismo na Rússia, que fazia crescer inevitavelmente o contingente do proletariado. E que o proletariado seria o coveiro do regime capitalista.

Lenin pôs em evidência que os verdadeiros amigos do povo, que queriam acabar com a opressão dos capitalistas e latifundiários e destruir o czarismo, não eram os populistas e sim os marxistas.

Em seu livro "Quem são os "amigos do povo?", Lenin destaca, pela primeira vez, a idéia da aliança revolucionária entre os operários e camponeses como meio fundamental para derrubar o poder do czarismo, dos latifundiários e da burguesia.

Em uma série de trabalhos deste período, Lenin submete à crítica os meios de luta política de que se serviam os militantes do grupo mais importante dos populistas — o da "Vontade do Povo" — e que mais tarde utilizariam os social-revolucionários — continuadores dos populistas —, principalmente a tática do temor individual: Lenin considerava essa tática prejudicial para o movimento revolucionário, porque abandonava a luta das massas pela luta de uns quantos heróis individuais. Esta tática refletia a falta de fé no movimento revolucionário do povo.

Na obra "Quem são os "amigos do povo?", Lenin traça as tarefas fundamentais dos marxistas russos. A seu ver, estes deviam, antes de tudo, tomando como base os dispersos círculos marxistas, organizar um Partido operário socialista único. Assinalava além disso, que tinha de ser precisamente a classe operária da Rússia, aliada com os camponeses, a que derrubaria a autocracia czarista; feito isso, o proletariado russo aliado com as massas trabalhadoras e exploradas, juntamente com o proletariado de outros países, marcharia pelo caminho reto da luta política aberta para a vitória da revolução comunista.

Assim, pois, Lenin mostrava acertadamente, faz mais de 40 anos, o caminho de luta pelo qual havia de marchar a classe operária, definia sua missão como força revolucionária avançada da sociedade e definia ao mesmo tempo a missão dos camponeses, como aliados da classe operária.

A luta de Lenin e de seus partidários contra o populismo conduziu, já na década de 90, ao completo e definitivo esmagamento ideológico do populismo. Teve também uma importância imensa a luta de Lenin contra o "marxismo legal". Em todos os grandes movimentos sociais da história há indivíduos que se juntam temporariamente ao movimento para logo depois separar-se dele. Tal foi o que ocorreu com os chamados "marxistas legais". Diante da grande difusão que o marxismo ia adquirindo na Rússia, alguns intelectuais burgueses começaram também a vestir-se com esta roupagem, publicando artigos nos jornais e revistas legais, isto é, autorizados pelo governo do czar. Daí o nome de "marxistas legais" com que se começou a chamá-los.

Esta gente lutava a seu modo contra os populistas. Porém tentavam utilizar esta luta e a bandeira do marxismo para subordinar e adaptar o movimento operário aos interesses da sociedade burguesa, aos interesses da burguesia. Para isso, descartavam da doutrina de Marx os pontos fundamentais: a teoria da revolução proletária, da ditadura do proletariado. O representante mais destacado dos marxistas legais, Piotr Struve, elogiava a burguesia, e, em vez de preconizar a luta revolucionária contra o regime capitalista, convidava os operários a "reconhecer nossa incultura e aprender do capitalismo".

Na luta contra os populistas, Lenin considerava lícito estabelecer um acordo temporário com os "marxistas legais" para utilizá-los contra aqueles, editando, por exemplo, uma seleção de trabalhos contra os populistas. Porém, ao mesmo tempo, Lenin criticava com toda crueza, os "marxistas legais", pondo a nu sua medula liberal-burguesa.

Muitos destes "companheiros de viagem" se converteram logo em kadetes (nome do partido mais importante da burguesia russa) e, durante a guerra civil, em fanáticos guardas brancos.

Ao mesmo tempo que se criavam "Uniões de Luta" em Petersburgo, Moscou, Kiev, etc., criaram-se também organizações social-democratas nas nacionalidades localizadas no Ocidente da Rússia. Na década de 90, desligaram-se do partido nacionalista polaco alguns elementos marxistas e formaram a "Social-democracia da Polônia e Lituânia". Em fins do século criaram-se organizações social-democratas na Letônia.

Em outubro de 1897 se constituiu, nas províncias ocidentais da Rússia, a União geral social-democrata judia, o "Bund".

Em 1898, algumas "Uniões de Luta", as de Petersburgo, Moscou, Kiev, Ekaterinoslav e o "Bund", fizeram a primeira tentativa de unificar-se para formar um Partido social-democrata. Com este fim se reuniram em Minsk, março de 1898, no primeiro Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (P.O.S.D.R.).

À este primeiro congresso do P.O.S.D.R. assistiram, no total, 9 delegados. Lenin não assistiu, pois naquela época se achava deportado na Sibéria. O Comitê Central do Partido, eleito no dito Congresso, não tardou em ser preso. O "Manifesto" lançado em nome do Congresso sofria ainda de muitos defeitos. Nele, não se assinalava a missão da conquista do Poder político pelo proletariado, não se dizia nem uma palavra sobre a hegemonia do proletariado, e se fugia ao problema dos aliados deste em sua luta contra o czarismo e a burguesia.

Em suas resoluções e no "Manifesto", o congresso proclamava a fundação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.

Neste ato formal, que desempenhou um grande papel no conjunto da propaganda revolucionária, residiu a importância do primeiro Congresso do P.O.S.D.R.

Porém, apesar de haver-se celebrado este primeiro Congresso, na Rússia não existia ainda, de fato, um Partido social-democrata marxista. O Congresso não tinha conseguido unir e ligar organicamente os diversos grupos e organizações marxistas. Não existia ainda uma linha única de trabalho entre as organizações locais: não existia um programa do Partido, nem estatutos deste, nem um centro único de direção.

Estas causas, ligadas a outra série de motivos, fizeram com que a dispersão ideológica entre as diversas organizações locais fosse num crescendo, criando assim as condições propícias para que se fortalecesse dentro do movimento operário a corrente oportunista do "economismo".

Foram necessários vários anos de intensa luta de Lenin e do periódico "Iskra" ("A chispa"), organizado por ele, para acabar com aquela dispersão ideológica, superar as vacilações oportunistas e preparar a criação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.



5

Luta de Lenin contra o "Economismo".

Aparece o jornal leninista "Iskra".







Lenin não assistiu ao primeiro congresso do P.O.S.D.R. Achava-se naquele tempo deportado na Sibéria, na aldeia de Shushnskoe, por ordem do governo czarista, depois de um longo tempo de prisão em Petersburgo, motivada pelo seu trabalho na "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária". Porém Lenin prosseguia seu trabalho revolucionário do desterro. Foi lá onde terminou sua importantíssima obra científica "O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia", que vinha rematar o esmagamento ideológico do populismo. Também escreveu no desterro seu conhecido folheto intitulado "As tarefas dos social-democratas russos".

Apesar de achar-se isolado do trabalho prático revolucionário direto, Lenin sabia manter contato com ativistas revolucionários, mantinha correspondência com eles, informava-se por seu intermédio e lhes dava conselhos. Durante este tempo, Lenin se ocupou especialmente do problema dos "economistas". Compreendia melhor do que ninguém que o "economismo" era a célula fundamental da doutrina conciliadora, do oportunismo e que o triunfo do "economismo" no movimento operário significaria o solapamento do movimento revolucionário do proletariado, a derrota do marxismo.

Por isso Lenin começou a combater os "economistas" desde o primeiro dia de seu aparecimento. Os "economistas" afirmavam que o operariado devia lutar somente no campo econômico, deixando a luta política a cargo da burguesia liberal, a qual os operários deviam apoiar.

Lenin considerava estas prédicas dos "economistas" como próprias de renegados do marxismo, como a negação da necessidade de um partido político independente para a classe operária, como uma tentativa de converter a classe operária num apêndice político da burguesia.

Em 1899, um grupo de "economistas" (Prokopovich, Kuskova e outros, que mais tarde se tornaram kadetes) lançou um manifesto.

Nele se declaravam contrários ao marxismo revolucionário e exigiam que o proletariado renunciasse a criar um partido político independente, que a classe operária renunciasse às suas reivindicações políticas próprias. Os "economistas" achavam que a luta política era tarefa da burguesia liberal e que os operários tinham bastante com que ocuparse na luta econômica contra os patrões.

Depois de conhecer este documento oportunista, Lenin convocou uma conferência dos deportados políticos marxistas nas imediações da aldeia em que se achava, e, 17 camaradas, com Lenin à frente, formularam um enérgico protesto, denunciando as idéias dos "economistas".

Este protesto, redigido por Lenin, circulou pelas organizações marxistas de toda a Rússia e teve uma importância formidável para o desenvolvimento do marxismo e do partido marxista na Rússia.

Os "economistas" russos pregavam as mesmas idéias dos adversários do marxismo nos partidos social-democratas do estrangeiro — os chamados "bernsteinianos", isto é, os partidários do oportunista Bernstein.

Por isso, a luta de Lenin contra os "economistas" era, ao mesmo tempo, uma luta contra o oportunismo internacional. A luta fundamental mantida contra o "economismo" pela criação de um partido político independente do proletariado, ficou a cargo do jornal clandestino "Iskra", criado por Lenin.

Em começos de 1900, Lenin e outros filiados à "União de Luta" regressaram do desterro da Sibéria para a Rússia. Lenin se propôs criar um grande jornal ilegal para todo o país. Existia já uma grande quantidade de círculos e organizações marxistas, porém sem ligação entre si. Naquele momento em que, dizendo com as palavras do camarada Stalin,

"o trabalho de tipo artesão e o mal de círculos isolados minavam o partido de alto a baixo, e no qual a dispersão ideológica era o traço característico da vida interna do partido",

a criação de um jornal clandestino para toda a Rússia era a tarefa fundamental que se apresentava aos marxistas revolucionários. Só este jornal podia ligar entre si as dispersas organizações marxistas e preparar a criação de um verdadeiro partido.

Mas um jornal assim era impossível organizar na Rússia czarista, por causa das perseguições policiais. Em um ou dois meses, seria descoberto pela polícia e destruído. Lenin decidiu, pois, editá-lo no estrangeiro. O jornal, impresso em papel fino e resistente, era introduzido ilegalmente na Rússia. Alguns números da "Iskra" se reproduziam dentro do país, nas Imprensas clandestinas de Bakú, Kishínev, Sibéria, etc.

No outono de 1900, Lenin foi para o estrangeiro a fim de entrevistar-se com os camaradas do grupo "Emancipação do Trabalho" sobre a publicação de um jornal político para toda a Rússia. Este jornal havia sido idealizado por Lenin no desterro, em todos os detalhes. Quando passou de volta do desterro, Lenin teve em Ufá, Pskov, Moscou e Petersburgo uma série de entrevistas sobre o jornal projetado.

Em todas estas cidades, combinou com os camaradas códigos para correspondência clandestina e senhas para o envio de publicações, e examinou com eles o plano para a luta futura.

O governo czarista compreendia que tinha em Lenin um inimigo perigosíssimo. Em sua correspondência secreta, o agente da "okhrana" czarista, o policial Zubatov escrevia:

"Hoje não há ninguém mais importante que Ulianov (Lenin) no campo da revolução"

e por isso julgou oportuno tomar medidas, para organizar o assassinato de Lenin.

Chegando ao estrangeiro Lenin se entrevistou com o grupo "Emancipação do Trabalho", isto é, com Plekhanov, Axelrod e Zazulich, combinando com eles a edição em comum do jornal "Iskra".

Todo o plano desta publicação tinha sido concebido e traçado por Lenin do princípio ao fim.

Em dezembro de 1900, apareceu no estrangeiro o primeiro número do jornal "Iskra". Logo abaixo do título vinha o seguinte lema: "Da chispa nascerá a chama". Eram palavras tomadas da resposta dos "dekabristas" à mensagem do poeta Pushkin saudando-os quando estavam desterrados na Sibéria. Com efeito, a "Iskra", isto é, a chispa acesa por Lenin, havia de provocar, com o tempo, a chama do grande incêndio revolucionário que arrasou até aos alicerces a monarquia czarista com sua nobreza, os latifundiários e o Poder da burguesia.

Resumo

O Partido Operário Social-Democrata marxista na Rússia surgiu, principalmente, da luta contra o populismo, contra suas idéias falsas e nocivas para a causa da revolução.

Só destruindo ideologicamente as concepções dos populistas podia preparar-se o terreno para a criação do Partido operário marxista na Rússia. Plekhanov e seu grupo "Emancipação do Trabalho" assestaram um golpe decisivo no populismo na decada de 80 do século passado[1800].

Na década de 90, Lenin rematou o esmagamento ideológico do populismo e terminou com ele.

O grupo "Emancipação do Trabalho", fundado em 1883, realizou um grande trabalho de difusão do marxismo na Rússia; lançou as bases teóricas da social-democracia e deu o primeiro passo para sair ao encontro do movimento operário. Com o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, cresceu rapidamente o contingente do proletariado industrial. Em meados da década de 80, a classe operária começou a marchar pelo caminho da luta organizda, pelo caminho da atuação de massas e sob a forma de greves organizadas.

Porém os grupos e círculos marxistas só se ocupavam de propaganda, sem compreender bem a conveniência de passar ao trabalho de agitação de massas dentro da classe operária; por esse motivo ainda não se achavam em contato com o movimento operário, não o dirigiam.

A "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária", criada por Lenin em Petersburgo no ano de 1895, que desenvolveu um trabalho de agitação de massas entre os operários e dirigiu greves de massas, representava uma nova etapa, a passagem para a agitação de massas entre os operários e a fusão do marxismo com o movimento operário. Esta "União de Luta Pela Emancipação da Classe Operária foi o primeiro gérmen do partido operário revolucionário na Rússia. Seguindo as pegadas da "União de Luta" de Petersburgo, criaram-se organizações marxistas em todos os principais centros industriais da Rússia e nas nacionalidades encravadas na periferia.

Em 1898 fez-se a primeira tentativa, que não prosperou, de unificar as organizações social-democratas marxistas em um partido, reunindo-se o primeiro Congresso do P.O.S.D.R. Porém este Congresso não conseguiu ainda criar o Partido: não existia programa nem estatutos do Partido, nem centro único de direção, nem quase nenhuma ligação entre os círculos e grupos marxistas.

Para unir e ligar entre si as organizações marxistas dispersas, formando um partido único, Lenin concebeu e realizou o plano de criação do primeiro jornal revolucionário marxista para toda a Rússia, a "Iskra".

Os principais adversários da criação de um partido político operário único eram, nesta época, os "economistas". Eles negavam a necessidade de semelhante partido. Apoiavam a dispersão e o trabalho à maneira artesã e achavam justo o grande mal de círculos isolados. Contra eles, precisamente, era que Lenin e a "Iskra" criada por ele, dirigiam seus golpes.

O aparecimento dos primeiros números da "Iskra" (1900-1901) representou a passagem para o novo período, o período da verdadeira criação, na base dos círculos e grupos dispersos, do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.

 

 

Capítulo II

Formação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.

Surgem duas frações no partido: a bolchevique e a menchevique

( 1901 – 1904 )







1

Auge do movimento revolucionário na Rússia nos anos de 1901 a 1904.



Em fins do Século XIX, estalou na Europa uma crise industrial. Esta crise não tardou em estender-se também à Rússia. Durante os anos da crise — 1900 a 1903 — fecharam-se 3.000 grandes e pequenas empresas. Mais de 100.000 operários foram lançados à rua. Os salários dos que continuaram trabalhando experimentaram uma brusca diminuição. Os capitalistas apressaram-se em revogar as insignificantes concessões que os operários lhes haviam arrancado à força de tenazes greves de caráter econômico.

Porém a crise industrial e o desemprego não paralisaram nem debilitaram o movimento operário. Longe disso, a luta dos operários começou a adquirir um caráter cada vez mais revolucionário. Os operários foram passando das greves de caráter econômico às greves de caráter político. Por último, passaram à etapa das manifestações, formulando diversas reivindicações políticas em torno das liberdades democráticas e lançando à consigna de "Abaixo a autocracia czarista!".

A greve de Io. de Maio de 1901 na fábrica de material de guerra "Obukhov", de Petersburgo, se converteu num choque sangrento entre os operários e a tropa. Os operários só podiam fazer frente aos destacamentos armados do czarismo com pedras e pedaços de ferro.

Foi vencida a tenaz resistência dos operários, e após ela veio uma terrível repressão: foram detidos cerca de 800 operários, muitos dos quais foram encarcerados e outros morreram na prisão. Porém a heróica "defesa de Obuknov" exerceu uma grande influência sobre os operários da Rússia e despertou entre eles uma onda de simpatia.

Em março de 1902 produziram-se as grandes greves e a manifestação dos operários de Batum, organizadas pelo Comitê social-democrata daquela cidade. A manifestação de Batum pôs de pé os operários e as massas camponesas da Transcaucásia.

No mesmo ano de 1902, desencadeou-se uma grande greve em Rostov sobre o Don. No princípio, só os ferroviários abandonaram o trabalho, porém depois se uniram a eles os operários de muitas fábricas. Esta greve levantou todos os operários de Rostov, e nos comícios organizados nos arredores da cidade durante vários dias se reuniram mais de 30.000 proletários. Nestes comícios liam-se em voz alta as proclamações social-democratas e diversos oradores faziam uso da palavra. Nem a polícia nem os cossacos eram suficientemente fortes para dispersar os muitos milhares de operários congregados naquelas assembleias. A polícia matou vários operários; no dia seguinte seu enterro se converteu numa imensa manifestação. O governo czarista viu-se obrigado a trazer tropas das guarnições vizinhas para poder esmagar a greve. A luta dos operários de Rostov foi dirigida pelo Comité do Don do P.O.S.D.R.

No ano de 1903, as greves assumiram proporções ainda maiores. Durante este ano produziram-se várias greves políticas de massas no Sul, estendendo-se a toda a Transcaucásia (Bakú, Tiflis, Batum) e às principais cidades da Ucrânia (Odessa, Kiev, Ekaterimoslav). As greves apresentavam um caráter cada vez mais tenaz e mais organizado. Ao contrário do que ocorrera em outras ações anteriores da classe operária, agora quase toda a luta política dos operários começava a ser dirigida por Comités social-democratas.

A classe operária da Rússia se ia levantando na luta revolucionária contra o poder czarista.

O movimento operário repercutia entre os camponeses. Na primavera e no verão de 1902, estalou um movimento camponês na Ucrânia (nas províncias de Poltava e Kharkov) e na região do Volga. Os camponeses incendiavam as propriedades senhoriais, se apoderavam das terras e matavam os "zemskie nachalniki" e latifundiários mais odiados. Enviaram-se contra os camponeses sublevados forças armadas que entraram a tiros nas aldeias; centenas de camponeses foram detidos e os dirigentes e organizadores do movimento encarcerados, porém o movimento revolucionário camponês seguia sua marcha ascendente.

A atuação revolucionária dos operários e camponeses indicava que na Rússia se estava gestando e se aproximava a revolução.

Sob a influência da luta revolucionária dos operários, robusteceu-se também o movimento de oposição entre os estudantes. Como réplica às manifestações e às greves estudantis, o governo fechou as Universidades, prendeu centenas de estudantes, e, por último, surgiu a ideia de mobilizar os estudantes rebeldes como soldados. Como resposta a isto, os alunos de todos os centros superiores de ensino organizaram, durante o inverno de 1901 a 1902, uma greve geral de estudantes que afetou a 30.000 pessoas.

O movimento revolucionário dos operários e camponeses e, sobretudo, a repressão contra os estudantes, puseram também de pé a burguesia e os latifundiários liberais que tinham sua plataforma nos chamados "zemstvos"; obrigaram-nos a levantar a voz "protestando" contra o "rigor" do governo czarista, que castigava duramente seus filhinhos, os estudantes.

O ponto de apoio destes liberais eram os "zemskie upravi". Chamavam-se assim os organismos de tipo local cuja competência se achava circunscrita a questões puramente municipais, relacionadas com a população rural (construção de estradas, de hospitais e escolas, etc). Nos ditos organismos os senhores de terra liberais desempenhavam um papel bastante destacado. Estes se achavam estreitamente vinculados e quase fundidos com a burguesia liberal, pois começavam a passar, em suas propriedades, do sistema semifeudal ao capitalista, mais benéfico para seus interesses. Ambos os grupos de liberais eram, naturalmente, partidários do governo czarista, embora não estivessem de acordo com o "rigor" do czarismo, precisamente porque temiam que este "rigor" pudesse robustecer o movimento revolucionário. E, ainda que os alarmasse o "rigor" czarista, alarmava-os ainda mais a revolução. Com seus protestos contra o "rigor" czarista, os liberais perseguiam dois fins: em primeiro lugar, fazer o czar "entrar na razão"; em segundo lugar aparentar farisaicamente um "grande descontentamento" com o czarismo, para deste modo ganhar a confiança do povo, desviar este ou uma parte dele da revolução e debilitar assim o movimento revolucionário.

O movimento liberal dos "zemstvos" não representava, evidentemente, nenhum perigo para a existência do czarismo, porém era, apesar de tudo, um indício de que este não estava muito bem ajustado com os esteios "seculares" do regime czarista.

O movimento liberal dos "zemstvos" conduziu, em 1902, à organização do grupo burguês denominado "Libertação" que havia de ser o núcleo constitutivo do futuro e principal partido da burguesia russa, do partido dos kadetes.

Vendo que o movimento operário e camponês se estendia por todo o país, como uma torrente cada dia mais ameaçadora, o czarismo tomou todas as medidas visando deter o movimento revolucionário. As greves e as manifestações operárias eram reprimidas, e cada vez mais frequentemente, pela força das armas-, as balas e o chicote se converteram na resposta normal do governo czarista às ações dos operários e dos camponeses; os cárceres e os lugares de deportação se encheram de revolucionários.

Porém, a par destas repressões violentas, o governo czarista tenta aplicar outras medidas mais "flexíveis", não repressivas, para desviar os operários do movimento revolucionário.

Fazem-se tentativas para criar falsas organizações operárias sob a tutela dos gendarmes e da polícia. Estas organizações eram conhecidas com o nome de organizações do "socialismo policial" e organizações Zubatov (nome do coronel da gendarmeria a quem se deveu a criação destas entidades operárias de tipo policial). Por meio de seus agentes, a "okhrana" czarista esforçava-se em inculcar nos operários a crença de que o governo do czar estava disposto, por sua própria iniciativa, a ajudar os operários a satisfazer suas reivindicações econômicas.

"Para que necessitais meter-vos em política, para que ides organizar a revolução, se o próprio czar está ao lado dos operários?"

— diziam aos proletários os agentes de Zubatov. Estes criaram suas organizações em várias cidades. Tomando como modelo o método de Zubatov e perseguindo idênticos fins, o padre Gapone fundou, em 1904, uma organização intitulada "Associação dos Operários Fabris Russos de Petersburgo".

Porém a tentativa da polícia secreta czarista, de apoderar-se da direção do movimento operário, fracassou. O governo czarista não lograva atalhar, com semelhantes medidas, o crescente movimento das massas operárias. O movimento revolucionário da classe operária, cada vez mais poderoso, encarregou-se de varrer de seu caminho estas organizações policiais.



2

Plano de Lenin para a organização de um partido marxista.

O oportunismo dos "economistas".

A luta da "Iskra" em prol do plano de Lenin.

Aparece o livro de Lenin "Que Fazer?".

Os fundamentos ideológicos do partido marxista.



Apesar de haver-se celebrado em 1898 o primeiro Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, no qual se havia proclamado a criação do Partido, a realidade era que este não estava formado ainda. Não tinha programa nem estatutos. O Comité Central do Partido eleito no primeiro Congresso foi detido e não voltou a reconstituir-se, pois não houve quem o reconstituísse. Mais ainda; depois do primeiro Congresso, a dispersão ideológica e a desarticulação orgânica do Partido, longe de diminuir, aumentaram.

Os anos de 1884 a 1894 foram o período de triunfo sobre o populismo e de preparação ideológica da social-democracia; durante os anos de 1894 a 1898, foram feitas uma série de tentativas, certamente infrutíferas, para criar, sobre a base das diversas organizações marxistas, um partido social-democrata; o período que segue a 1898 é um período de recrudescimento do caos ideológico e orgânico dentro do Partido. O triunfo do marxismo sobre o populismo e a atuação revolucionária da classe operária puseram em evidência a razão que assistia aos marxistas, com o que aumentaram as simpatias da juventude revolucionária pelo marxismo. O marxismo se tornou moda. Isto fez que invadissem as organizações marxistas massas inteiras de jovens revolucionários procedentes do campo intelectual, de formação teórica débil, inexperientes no aspecto político e em matéria de organização e que só tinham uma ideia confusa e em grande parte falsa do marxismo, nutrida nos escritos oportunistas dos "marxistas legais", de que estava infestada a Imprensa. Esta circunstância fez que descesse o nível teórico e político das organizações marxistas, infiltrou nelas as tendências oportunistas dos "marxistas legais" e aumentou a dispersão ideológica, as vacilações políticas e o caos orgânico.

A marcha ascendente, cada vez mais acentuada, do movimento operário e a clara iminência da revolução, reclamavam a criação de um partido único e centralizado da classe operária, capaz de pôr-se à frente do movimento revolucionário. Porém, o estado em que se encontravam os órgãos de base do Partido, os comités locais, os grupos e os círculos, era tão pouco satisfatório, sua desarticulação orgânica e sua falta de unidade ideológica tão grandes, que a criação de semelhante partido oferecia dificuldades incríveis.

Estas dificuldades não residiam somente no fato de ter que organizar o Partido sob o fogo das cruéis perseguições do czarismo, que arrebatava das fileiras das organizações os melhores militantes, para mandá-los ao desterro, ou às prisões. Havia, além disso, outra dificuldade, e era que uma parte considerável dos comités locais e de seus militantes não queria levantar a vista de seu pequeno trabalho prático local, não compreendia o dano que a falta de uma unidade orgânica e ideológica do Partido fazia; estava acostumada ao fracionamento deste e ao caos ideológico dentro dele, e imaginava que era possível prescindir de um partido único e centralizado.

Para criar um partido centralizado era preciso acabar com este atraso, com este estancamento e praticismo estreito dos órgãos locais.

Porém ainda havia mais. Existia dentro do Partido um grupo bastante numeroso de pessoas que tinha seus órgãos próprios na Imprensa, na Rússia, "Rabochaia Misl" ("O Pensamento Operário"), e, no estrangeiro "Rabochee Dielo" ("A Causa Operária"), e que pretendia justificar teoricamente a desarticulação orgânica e a dispersão ideológica do Partido, chegando inclusive, não poucas vezes, a elogiá-las, e considerando que a tarefa de criar um partido político único e centralizado da classe operária era uma tarefa desnecessária e artificial.

Este grupo era o dos "economistas" e seus sequazes.

A primeira coisa a fazer, para poder criar o partido político único do proletariado era acabar com os "economistas". Lenin tomou a si esta tarefa e a organização do Partido da classe operária.

Existiam diversos critérios acerca do problema de por onde devia começar-se a organizar o Partido único da classe operária. Alguns entendiam que a organização do Partido deveria começar pela convocação do II Congresso deste, deixando que ele se encarregasse de unificar as organizações locais e de criar o Partido. Lenin era contrário a esta opinião. A seu juízo, antes de convocar o congresso era necessário esclarecer o problema dos fins e tarefas do Partido, saber que classe de partido se pretendia organizar, deslindar ideologicamente os campos com os "economistas", dizer ao Partido, honrada e abertamente, que com respeito a seus fins e tarefas, existiam dois critérios distintos: o dos "economistas" e o dos social-democratas revolucionários, desencadear uma ampla campanha de propaganda na Imprensa em prol das ideias da social-democracia revolucionária, do mesmo modo que os "economistas" a desenvolviam em prol das suas por intermédio de seus órgãos, dar às organizações locais a possibilidade de escolher, com plena consciência, entre estas duas correntes; só depois de realizar este trabalho prévio, indispensável, se poderia convocar o congresso do Partido.

Lenin dizia, claramente:

"Antes de unificar-se e para unificar-se é necessário começar por deslindar os campos de um modo resoluto e definido". (Lenin, t. IX, pág. 378, ed. russa).

Eis aqui por que Lenin entendia que a organização do Partido político da classe operária devia ter como ponto de partida a criação de um periódico político combativo, destinado a toda a Rússia, no qual se fizesse propaganda e agitação em prol das ideias da social-democracia revolucionária, e que a criação deste periódico tinha que ser o primeiro passo para a organização do Partido.

Em seu conhecido artigo intitulado "Por onde começar?", Lenin esboçava um plano concreto de organização do Partido, que logo depois havia de desenvolver em seu célebre livro "Que Fazer?".

"A nosso juízo — dizia Lenin naquele artigo — o ponto de partida para atuação, o primeiro passo prático para a criação da organização desejada (isto é, para dizer a criação do Partido — nota da Redação —) e, finalmente, o fio fundamental a que teríamos que nos agarrar para desenvolver, aprofundar e ampliar inquebrantavelmente esta organização, deve ser a criação de um periódico político destinado a toda a Rússia... Sem este, não seria possível desenvolver de um modo sistemático uma propaganda e agitação, sólidos no plano dos princípios e extensivas a todos os aspectos, que são a tarefa constante e fundamental da social-democracia agora e sempre e que devem ser, sobretudo, a tarefa vital nos momentos atuais, em que o interesse pela política, pelos problemas do socialismo foi despertado nas mais extensas camadas da população" (Lenin, t. IV, pág. 110, ed. russa).

Lenin entendia que um jornal assim serviria de meio, não só para a coesão ideológica do Partido, como também para a unificação orgânica das diversas organizações locais, formando um partido. A rede de camaradas, agentes e correspondentes deste jornal, que seriam ao mesmo tempo, representantes das organizações locais, constituía o esqueleto em torno do qual se aglutinaria organicamente o Partido. Pois,

"o periódico" — dizia Lenin — não é só um propagandista e um agitador coletivo, como também um organizador coletivo".

"Esta rede de agentes — dizia Lenin no citado artigo — servirá de esqueleto precisamente para a organização de que necessitamos: será suficientemente grande para abarcar todo o país; suficientemente vasta e variada para poder introduzir nela uma rigorosa e detalhada divisão do trabalho; suficientemente resistente para saber prosseguir inquebrantavelmente seu trabalho sôb todas as circunstâncias e ante todas as "viragens" e situações inesperadas; suficientemente flexível para saber, de um lado não aceitar as batalhas em campo aberto contra um inimigo perigoso por sua força esmagadora, quando concentre toda sua força num ponto, porém sabendo, de outro lado, aproveitar-se da torpeza de movimentos deste inimigo e lançar-se sobre ele no lugar e no momento em que menos espere ser atacado". (Obra citada, pág. 112).

Eis aqui o que se queria que fosse o periódico "Iskra".

E, com efeito, a "Iskra" foi precisamente o periódico político que preparou a coesão ideológica e orgânica do Partido em toda a Rússia

No que se refere à sua estrutura e composição, Lenin entendia que o Partido devia constar de duas partes:

1. um círculo reduzido de militantes, que formassem os quadros de direção fixos e no qual deviam entrar, fundamentalmente, os revolucionários profissionais, isto é, os militantes sem mais ocupação que o trabalho do Partido e dotados do mínimo indispensável de conhecimentos teóricos, de experiência política, de capacidade de organização e de habilidade para lutar com a polícia czarista e escapulir dela, e

2. uma extensa rede de organizações periféricas do Partido, integradas por uma massa numerosíssima de filiados e rodeadas da simpatia e do apoio de centenas de milhares de trabalhadores.

"Eu afirmo — escrevia Lenin — 1) que não pode haver um movimento revolucionário sólido sem uma organização de dirigentes estável e que assegure a continuidade; 2) que quanto mais extensa for a massa que se sentir espontaneamente arrastada à luta... mais premente é a necessidade de semelhante organização e mais sólida tem que ser esta. 3) que dita organização deve estar formada, fundamentalmente, por homens integrados profissionalmente nas atividades revolucionárias; 4) que no país da autocracia, quanto mais restringirmos o contingente dos membros de uma organização deste tipo, até não incluir nela senão aqueles que se ocupem profissionalmente de atividades revolucionárias e que tenham já uma preparação profissional na arte de lutar com a polícia política, mais difícil será "caçar" esta organização, e 5) tanto maior será o contingente de indivíduos da classe operária e das demais classes da sociedade que poderão participar no movimento e colaborar ativamente nele". (Lenin, t. IV, pág. 456, ed. russa).

Quanto ao caráter do Partido que se tratava de criar e o seu papel em relação à classe operária, assim como quanto aos fins e tarefas do Partido, Lenin entendia que este devia ser o destacamento de vanguarda da classe operária, a força dirigente do movimento operário, que unificasse e orientasse a luta de classe do proletariado. A meta final do Partido havia de ser a derrubada do capitalismo e a instauração do socialismo. Sua meta imediata, derrubar o czarismo e implantar um regime democrático. E como a derrubada do capitalismo pressupunha a destruição do czarismo, o objetivo fundamental do Partido, naquele momento concreto, consistia em pôr de pé a classe operária e todo o povo para a luta contra o czarismo, em desencadear um movimento revolucionário popular contra o czarismo e em derrubar o regime czarista, que era o primeiro e o grande obstáculo que se levantava no caminho para o socialismo.

"A história nos apresenta hoje — dizia Lenin — uma tarefa imediata, que, mais que em nenhum outro país, é a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado. A realização desta tarefa, a derrubada do mais poderoso baluarte, não somente da reação europeia, senão também (podemos dizer hoje) da reação asiática, converteria o proletariado russo na vanguarda do proletariado revolucionário internacional" (Lenin, t. IV, pág. 382, ed. russa).

E noutro lugar escreve:

"Devemos recordar que a luta contra o governo por reivindicações parciais, a conquista de algumas concessões isoladas, não são mais do que pequenas escaramuças com o inimigo, pequenos combates de avançadas, e que a batalha decisiva não se deu ainda. Diante de nós se levanta com todo o seu poder a fortaleza inimiga, da qual nos são feitas descargas que varrem nossos melhores combatentes. Temos que tomar esta fortaleza e a tomaremos, se soubermos unir num só partido — ao qual se somará o que houve na Rússia de vital e honrado — todas as forças do proletariado, que já abriu os olhos e todas as forças revolucionárias russas. Só então se cumprirá a grande profecia do revolucionário operário russo Piotr Alexeiev: "Levantar-se-á o braço vigoroso dos milhões de homens operários, e o jugo do despotismo, defendido pelas baionetas dos soldados, saltará em pedaços" (Obra citada, pág. 59).

Tal era o plano de Lenin para a criação do Partido da classe operária, dentro das condições da Rússia czarista autocrática.

Os "economistas" não tardaram em romper o fogo contra o plano de Lenin.

Afirmavam que a luta no plano político geral contra o czarismo era incumbência de todas as classes e, sobretudo, da burguesia, e que não apresentava, portanto, nenhum interesse considerável para a classe operária, já que o que fundamentalmente interessava aos operários era a luta econômica contra os patrões pela elevação dos salários, a melhora das condições de trabalho, etc. Por conseguinte, os social-democratas não deviam indicar como tarefa imediata fundamental a luta política contra o czarismo, a derrubada do regime czarista, senão a organização da "luta econômica dos operários contra os patrões e o governo", entendendo por luta econômica contra o governo a luta pelo aperfeiçoamento da legislação industrial. Os "economistas" asseguravam que por este meio podia "dar-se à própria luta econômica um caráter político".

Os "economistas" já não se atreviam a manifestar-se formalmente contra a necessidade de um partido político para a classe operária. Porém entendiam que este partido não devia ser a força dirigente do movimento operário, que não devia imiscuir-se no movimento espontâneo da classe operária, nem muito menos dirigi-lo, senão marchar à retaguarda dele, estudá-lo e tirar ensinamentos dele.

Afirmavam do mesmo modo os "economistas" que o papel do elemento consciente no movimento operário, o papel organizador e orientador da consciência socialista, da teoria socialista, era insignificante ou pouco menos, que a social-democracia não devia elevar os operários ao nível da consciência socialista, senão, pelo contrário, descer e adaptar-se ao nível das camadas médias e inclusive das mais atrasadas da classe operária; que a social-democracia não devia inculcar na classe operária uma consciência socialista, senão esperar que o próprio movimento espontâneo da classe operária forjasse nela uma consciência socialista por suas próprias forças.

Quanto ao plano orgânico de estruturação do Partido, traçado por Lenin, consideravam-no como uma espécie de coação a que se pretendia submeter o movimento espontâneo.

Nas páginas da "Iskra" e, sobretudo, em seu célebre livro "Que Fazer?", Lenin se lançou contra esta filosofia oportunista do "economismo" e dela não deixou pedra sobre pedra.

1) Lenin assinala que desviar a classe operária da luta política geral contra o czarismo, reduzindo sua missão à luta econômica contra os patrões e o governo e deixando de pé e indenes a um e outros, significava condenar os operários à eterna escravidão. A luta econômica dos operários contra os patrões e o governo é uma luta de tipo tradeunista por lograr melhores condições de venda da força de trabalho aos capitalistas, porém os operários não querem lutar somente para melhorar as condições de venda de sua força de trabalho, senão que querem lutar também para destruir o próprio sistema capitalista, que os condena à necessidade de vender aos capitalistas sua força de trabalho e de se submeter à exploração. Pois bem, os operários não poderão desenvolver a luta contra o capitalismo, não poderão desenvolver a luta pelo socialismo, enquanto o czarismo, que é o cão de fila do capitalismo, se elevar no caminho do movimento operário. Por isso, a tarefa mais urgente do Partido e da classe operária consiste em afastar o czarismo, desembaraçando com isso o caminho para o socialismo.

2) Lenin assinalou que exaltar o processo espontâneo do movimento operário e negar o papel dirigente do Partido, reduzindo sua missão à de mero registrador dos acontecimentos, significava: pregar o "seguidismo" (ir "a reboque" dos acontecimentos), pregar que o Partido devia marchar à retaguarda do processo espontâneo; converter-se numa força passiva do movimento, apta somente para contemplar o processo espontâneo e abandonar-se a seu desenvolvimento automático. Preconizar isto equivalia a preconizar a destruição do Partido, isto é, a deixar a classe operária sem partido ou, o que é o mesmo, a desarmar a classe operária. E desarmar a classe operária num momento em que se levantavam diante dela inimigos tão poderosos como o czarismo, armado com todos os meios de luta e a burguesia, organizada à moderna e dotada de seu próprio partido que a dirigia na luta contra a classe operária, equivalia a trair o proletariado.

3) Lenin assinalou que prosternar-se ante o movimento operário espontâneo e rebaixar o papel do elemento consciente, o papel da consciência socialista, da teoria socialista, significava, em primeiro lugar, zombar dos operários, que tendem para a consciência como a planta para a luz, e em segundo lugar, desprestigiar a teoria aos olhos do Partido, ou melhor, a arma graças à qual o Partido tem consciência do presente e prevê o futuro, e em terceiro lugar, mergulhar total e definitivamente no charco do oportunismo.

"Sem teoria revolucionária — dizia Lenin — não pode haver tampouco movimento revolucionário... Só um partido dirigido por uma teoria de vanguarda pode cumprir sua missão de combatente de vangarda" (Lenin, t. IV, pág. 380, ed. russa).

4) Lenin assinalou que os "economistas" enganavam a classe operária afirmando que o movimento espontâneo do proletariado podia engendrar uma ideologia socialista, pois na realidade esta não brota do movimento espontâneo, senão da ciência. Negando a necessidade de inculcar na classe operária, uma consciência socialista, os "economistas" aplainavam o caminho à ideologia burguesa, ajudando-a a infiltrar-se, a penetrar na classe operária, e por conseguinte, enterravam a ideia da fusão do movimento operário com o socialismo e prestavam um serviço à burguesia.

"Tudo o que seja prosternar-se ante o movimento operário espontâneo — dizia Lenin — tudo o que seja rebaixar a importância do "elemento consciente", a importância da social-democracia, equivale — inteiramente independente da vontade de quem o faz — a fortalecer a influência da ideologia burguesa sobre os operários". (Obra citada, pág. 390).

E mais adiante:

"O problema se apresenta somente assim: ideologia burguesa ou ideologia socialista? Não há meio termo... Por isso, tudo o que seja rebaixar a ideologia socialista, tudo o que seja afastar-se dela, equivale a fortalecer a ideologia burguesa". (Obra citada, pág. 391-398).

5) Resumindo todos estes erros dos "economistas", Lenin chegou à conclusão de que o que eles aspiravam não era criar o partido da revolução social, que emancipasse do capitalismo a classe operária, senão um partido de "reformas sociais", cuja premissa era a manutenção da dominação do capitalismo, que, portanto, os "economistas" eram reformistas que atraiçoavam os interesses fundamentais do proletariado.

6) Finalmente, Lenin assinalou que o "economismo" não brotara na Rússia por azar, senão que seus mantenedores eram o veículo da influência burguesa sobre a classe operária e que seus aliados nos partidos social-democratas dos países ocidentais eram os revisionistas, os adeptos do oportunista Bernstein. Entre os social-democratas da Europa Ocidental se ia fortalecendo cada vez mais a corrente oportunista, que atuava sob a bandeira da "liberdade de crítica" do marxismo, exigia a "revisão" da teoria de Marx (daí o nome de "revisionismo") e exigia que se renunciasse à revolução, ao socialismo, à ditadura do proletariado. Pois bem, Lenin demonstrou que esta mesma linha de renúncia à luta revolucionária, ao socialismo e à ditadura do proletariado era o que seguiam os "economistas" russos.

Tais são as teses teóricas fundamentais desenvolvidas por Lenin em seu livro "Que Fazer?".

A difusão desta obra de Lenin foi tão eficaz, que no ano de seu aparecimento ("Que Fazer?" veio à luz em março de 1902) na época em que se celebrou o II Congresso do Partido Social-Democrata da Rússia, já não restava das posições ideológicas dos "economistas" mais que uma recordação pouco agradável, e o apelido de "economistas" começava a ser considerado pela maioria dos militantes do Partido como um insulto.

O "economismo", a ideologia do oportunismo, do "seguidismo" e do automatismo, tinha ficado completamente pulverizado.

Porém a importância da obra de Lenin "Que Fazer?" não se reduziu a isto.

A significação histórica desta famosa obra consiste em que nela Lenin:

1. põe a nu pela primeira vez na história do pensamento marxista, até as suas últimas raízes, as fontes ideológicas do oportunismo, demonstrando que consistem, antes de tudo, em prosternar-se perante a espontaneidade do movimento operário e rebaixar o papel da consciência socialista no movimento proletário.

2. reivindicou em todo seu valor a importância da teoria, do elemento consciente, do Partido, como força revolucionária e dirigente do movimento operário espontâneo.

3. fundamentou de um modo brilhante a tese fundamental do marxismo, segundo a qual o Partido marxista é a fusão do movimento operário com o socialismo.

4. elaborou genialmente os fundamentos ideológicos do Partido marxista.

As teses teóricas desenvolvidas na obra "Que Fazer?" serviram logo depois de base para a ideologia do Partido bolchevique.

Armada com esta riqueza teórica, a "Iskra" pôde desenvolver e desenvolveu, com efeito, uma ampla campanha em prol do plano leninista de organização do Partido, em prol da concentração de forças do Partido, em prol do II Congresso do Partido, em prol de uma social-democracia revolucionária, contra os "economistas", contra os oportunistas de toda a classe e jaez, contra os revisionistas.

A tarefa mais importante realizada pela "Iskra" consistiu em elaborar um projeto de programa do Partido. O programa do Partido operário é, como se sabe, uma breve exposição, plasmada em fórmulas científicas, dos fins e tarefas de luta da classe operária. O programa traça tanto a meta final do movimento revolucionário do proletariado como as reivindicações, pelas quais o Partido luta em sua marcha para a meta final. Por isso, a elaboração de um projeto de programa não podia deixar de ter uma importância primordial.

Durante a elaboração do projeto do programa surgiram, no seio da redação da "Iskra", sérias divergências entre Lenin e Plekhanov, assim como entre Lenin e os demais redatores. Estas divergências e dissenções estiveram a ponto de conduzir a uma ruptura completa entre Lenin e Plekhanov. Porém a ruptura não chegou a produzir-se por aquela época. Lenin logrou que no projeto de programa se fizesse figurar o ponto importantíssimo da ditadura do proletariado e se proclamasse de um modo terminante o papel dirigente da classe operária na revolução.

Obra de Lenin era também toda a parte agrária do Partido. Lenin já era então partidário da nacionalização da terra, ainda que na primeira etapa da luta reputasse necessário lançar a consigna da devolução dos camponeses arrebatados pelos latifundiários no momento de sua "emancipação". Plekhanov, em troca, se manifestava contra a nacionalização da terra.

As divergências entre Lenin e Plekhanov em torno do programa do Partido já eram uma antecipação da delimitação de campos que mais adiante havia de se traçar entre os bolcheviques e os mencheviques.





3



O II Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.

São aprovados o programa e os estatutos, e se cria o Partido único.

Divergências no Congresso e aparecimento de duas tendências dentro do partido: a bolchevique e a menchevique.



O triunfo dos princípios de Lenin e a luta eficaz da "Iskra" em prol do plano leninista de organização foram, pois, preparando todas as condições fundamentais, necessárias, para criar o Partido ou como se dizia naquela época, o verdadeiro Partido. A tendência da "Iskra" triunfou entre as organizações social-democratas da Rússia. Agora já se podia convocar o II Congresso do Partido.

Este Congresso iniciou suas tarefas a 17 (30) de julho de 1903: teve que se reunir clandestinamente no estrangeiro. As primeiras sessões se celebraram em Bruxelas. Porém, ante as perseguições da polícia, os delegados tiveram de sair da Bélgica, e o Congresso se trasladou para Londres.

Assistiram a ele 43 delegados, representando 26 organizações. Cada Comité tinha direito a enviar ao Congresso 2 delegados, porém alguns só enviaram um. Assim se explica que os 43 delegados representassem 51 votos.

A tarefa fundamental deste consistia:

"em criar um verdadeiro Partido sobre aquelas bases orgânicas e de princípios que foram propugnados e elaborados pela "Iskra". (Lenin, t. VI, pág. 164, ed. russa).

A Comissão do Congresso era heterogênea. Os "economistas" não estavam, abertamente, representados nele, porque a derrota que haviam sofrido os impedia disso. Porém, com o tempo, chegaram a disfarçar-se tão habilmente, que alguns delegados lograram infiltrar-se. Ademais, os delegados do "Bund" só de palavra se diferenciavam dos "economistas", pois na realidade estavam de acordo com eles.

Portanto, neste Congresso não tomaram parte somente os adeptos do "Iskra", mas também seus adversários. Os "Iskristas" eram 83, isto é, a maioria. Porém nem todos os que figuravam neste campo estavam sinceramente identificados com as posições de Lenin. Os delegados se dividiam em diversos grupos. Os leninistas, ou sejam, os adeptos firmes da "Iskra", contavam com 24 votos. Martov tinha 9 votos de "iskristas" pouco consequentes. Uma parte dos delegados vacilava entre a "Iskra" e seus adversários, e dispunha de 10 votos. Estes delegados formavam o centro. Os adversários declarados da "Iskra" contavam com 8 votos (3 "economistas" e 5 do Bund). Se os defensores da "Iskra" apareciam desunidos, seus inimigos podiam ganhar-lhes a batalha.

Basta isto para compreender quão complexa era a situação em que se desenvolvia o Congresso. Lenin desprendeu grandes esforços para assegurar nele o triunfo da "Iskra". A tarefa mais importante do Congresso era a aprovação do programa do Partido.

O problema fundamental que provocou a posição do setor oportunista na discussão do programa foi o da ditadura do proletariado. Não era este o único ponto programático em que os oportunistas não estavam de acordo com o Setor revolucionário do Congresso. Porém decidiram dar a batalha, fundamentalmente, no ponto da ditadura do proletariado, referindo-se ao fato de que este ponto não figurava nos programas de uma série de partidos social-democratas do estrangeiro, razão pela qual, não havia, segundo eles, por que incluí-lo no programa da social-democracia da Rússia.

Os oportunistas opunham-se também a que figurassem no programa do Partido as reivindicações referentes ao problema camponês. Aqueles indivíduos não queriam a revolução, por isso evitavam os aliados da classe operária, os camponeses, e os consideravam com maus olhos.

Os "bundistas" e os social-democratas polacos se manifestaram contra o direito de autodeterminação das nações. Lenin sustentara sempre que a classe operária tinha o dever de lutar contra a opressão nacional. Manifestar-se contra esta reivindicação dentro do programa, equivalia a desertar do internacionalismo proletário, converter-se em cúmplice da opressão nacional.

Lenin assestou um golpe demolidor na oposição em todos estes problemas.

O Congresso aprovou o programa proposto pela "Iskra".

Este programa constava de duas partes: o programa máximo e o programa mínimo. No programa máximo se falava da missão fundamental do Partido da classe operária: da revolução socialista, da derrubada do poder dos capitalistas e da instauração da ditadura do proletariado. No programa mínimo se expunham os objetivos imediatos do Partido, que podiam ser realizados sem aguardar que o regime capitalista fosse derrubado e se instaurasse a ditadura do proletariado, a saber: derrubada da autocracia czarista, implantação da República democrática, introdução da jornada de 8 horas para os operários, destruição de todos os vestígios feudais no campo, devolução aos camponeses das terras que lhes haviam sido arrebatadas pelos senhores de terra (os chamados "recortes").

Mais tarde os bolcheviques substituíram esta última reivindicação por outra, pela de confiscação de todas as terras dos latifundiários.

O programa aprovado pelo II Congresso era o programa revolucionário do Partido da classe operária. Este programa se manteve em vigor até o VIII Congresso do Partido bolchevique, convocado depois do triunfo da Revolução proletária, no qual um novo programa foi aprovado.

Depois da aprovação do programa do Partido, o II Congresso passou à discussão do projeto de estatutos. Uma vez aprovado o programa e assentadas as bases para a unificação ideológica do Partido, o Congresso deveria aprovar também os estatutos, para pôr fim ao trabalho à maneira artesã e ao mal de círculos, à dispersão orgânica do Partido e à ausência de uma disciplina firme dentro dele.

Porém, se a aprovação do programa havia sido relativamente fácil, o problema dos estatutos provocou furiosas discussões no seio do Congresso. A divergência mais aguda foi a que surgiu em torno do texto do primeiro artigo dos estatutos, no qual se definia a condição de membro do Partido. Quem podia ser membro do Partido, como este devia estar formado, que devia ser o Partido quanto à organização, um todo orgânico ou algo informe? Tais eram os problemas que a discussão do artigo primeiro dos estatutos apresentava. Estavam em luta duas fórmulas: a de Lenin, apoiada por Plekhanov e pelos "iskristas" consequentes, e a de Martov, apoiada por Axelrod, Zasulich, os partidários vacilantes da "Iskra", Trotsky e todos os oportunistas declarados que tomavam parte no Congresso.

A fórmula de Lenin consistia em que só poderia ser membro do Partido quem aceitasse seu programa, ajudasse o Partido no aspecto material e estivesse filiado a uma de suas organizações. A fórmula de Martov, ainda considerando como condições necessárias em todo membro do Partido o reconhecimento do programa e a ajuda material àquele, não reputava requisito indispensável o fato de tomar parte numa organização do Partido, por entender que se podia ser membro deste sem estar filiado a nenhuma de suas organizações.

Lenin considerava o Partido como um destacamento organizado, cujos membros não se somam por si mesmos ao Partido, senão que são admitidos por uma de suas organizações, submetendo-se com isso à disciplina do Partido, enquanto que Martov, via nele, do ponto de vista orgânico, uma entidade informe cujos membros se somavam por si mesmos ao Partido e não se achavam, portantot sujeitos à sua disciplina, já que não ingressavam em nenhuma de suas organizações.

A fórmula de Martov diferentemente da de Lenin, abria, de par em par as portas do Partido aos elementos vacilantes não proletários. Em vésperas da revolução democrático-burguesa havia, entre os intelectuais da burguesia, homens desta classe que simpatizavam momentaneamente com a revolução. Estes homens podiam, de vez em quando, prestar, inclusive, certos serviços ao Partido. Porém não se prestavam a entrar na orgnaização, a submeter-se à disciplina do Partido, a cumprir suas. tarefas, nem se exporiam aos perigos que isto acarretava.

Era esta classe de indivíduos que Martov e outros mencheviques propunham que fossem considerados como filiados ao Partido, dando-lhes o direito e a possibilidade de influir nos assuntos do Partido. Chegavam, inclusive, a propor que qualquer grevista tivesse direito a "considerar-se" como membro do Partido, apesar de que nas greves tomavam parte também elementos não socialistas, anarquistas e social-revolucionários.

Em vez de um Partido monolítico e combativo, claramente organizado, pelo qual lutavam Lenin e os leninistas no Congresso, os martovistas queriam um Partido heterogéneo, difuso e informe, que não podia jamais ser um Partido combativo, ainda que só fosse em virtude de sua heterogeneidade, e porque jamais poderia possuir uma rija disciplina.

A deserção dos "iskristas" vacilantes, que deixaram sós os partidários consequentes da "Iskra" para aliar-se com os delegados do centro, e o reforço dos oportunistas descarados, deram a Martov a superioridade numérica neste problema. O Congresso, por 28 votos contra 22 e uma abstenção, aprovou o artigo primeiro dos estatutos com o texto proposto por Martov.

Depois da cisão dos "iskristas" por causa do artigo primeiro dos estatutos, acentuou-se ainda mais a luta dentro do Congresso. Este se aproximava do ponto final, a eleição dos organismos de direção do Partido, redação do órgão central do Partido (a "Iskra") e Comité Central. Porém, antes de chegar a este ultimo ponto da ordem do dia, produzi-ram-se no Congresso alguns fatos que fizeram mudar a correlação de forças estabelecida.

Em relação com os estatutos, o Congresso teve de tratar do "Bund". Este pretendia ocupar uma situação especial dentro do Partido. Exigia que fosse reconhecido como a única representação dos operários judeus da Rússia. Aceder a este pedido equivalia a cindir os operários, dentro das organizações do Partido, de acordo com sua nacionalidade, renunciando à existência de organizações únicas de classe do prqletariado segundo o princípio territorial. O Congresso rechaçou o nacionalismo do "Bund" como base de organização política. Em vista disto, os "bundistas" se retiraram. Retiraram-se também dois "economistas", quando o Congresso se negou a reconhecer o agrupamento organizado por eles no estrangeiro como representação do Partido fora da Rússia.

A retirada destes sete oportunistas do Congresso fez com que a correlação de forças se alterasse em favor dos leninistas.

O problema da composição dos organismos centrais do Partido ocupou o centro da atenção de Lenin desde o primeiro momento. Lenin considerava necessário levar ao Comité Central revolucionários firmes e consequentes. Os martovistas lutavam por dar aos elementos vacilantes, oportunistas, o predomínio dentro daquele organismo. A maioria do Congresso se colocou neste ponto ao lado de Lenin. O Comité Central ficou integrado por leninistas.

Por proposta de Lenin, foram eleitos para a redação da "Iskra", Lenin, Plekhanov e Martov. Este exigiu que os seis antigos redatores da "Iskra", a maioria dos quais eram martovistas, fossem reeleitos para a redação do jornal. O Congresso rechaçou por maioria de votos esta proposta, sendo eleitos os três redatores, propostos por Lenin. Em vista disto, Martov demitiu-se da redação do jornal.

Portanto, as resoluções tomadas pelo Congresso quanto à formação dos organismos centrais do Partido aprofundaram a derrota dos martovistas e deram o triunfo aos partidários de Lenin.

Desde então, os partidários de Lenin, que obtiveram maioria de votos, no Congresso, na eleição dos organismos centrais, começaram a ser chamados bolchevistas e seus adversários, que ficaram em minoria, mencheviques.

Resumindo as tarefas do II Congresso do Partido, chegamos às seguintes conclusões:

1. O Congresso garantiu a vitória do marxismo sobre o "economismo", sobre o oportunismo declarado;

2. Aprovou o programa e os estatutos do Partido, criou o Partido Social-Democrata e, com ele, o marco para um Partido único;

3. Pôs a nu a existência de graves divergências no que se refere à organização, divergências que dividiram o Partido em dois campos, o dos bolcheviques e o dos mencheviques, os primeiros dos quais defendiam os princípios de organização da social-democracia revolucionária, enquanto que os segundos se afundavam no charco da difusão orgânica, no charco do oportunismo;

4. Salientou que a vaga dos antigos oportunistas, já derrotados pelo Partido, a vaga dos "economistas", começava a ser ocupada dentro do Partido por novos oportunistas, os mencheviques;

5. O Congresso não se mostrou à altura de sua missão no tocante aos problemas de organização, deu provas de vacilações, inclusive, chegando, às vezes, a dar predomínio aos mencheviques; e ainda que para o final se corrigiu, não soube, não já desmascarar o oportunismo dos mencheviques nos problemas de organização e de isolá-los dentro do Partido, mas nem sequer apresentar perante este semelhante tarefa;

Esta última circunstância foi uma das causas fundamentais por que a luta entre os bolcheviques e os mencheviques, longe de aplacar-se depois do II Congresso, recrudescesse ainda mais.





4



Meneios divisionistas dos líderes mencheviques e aguçamento da luta dentro do Partido depois do II Congresso.

O oportunismo dos mencheviques.

O livro de Lenin "Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás".

Bases para a organização do Partido marxista.



Depois do II Congresso, a luta dentro do Partido se acentuou ainda mais. Os mencheviques esforçavam-se com todo o afinco em minar as resoluções do Congresso e apoderar-se dos organismos centrais do Partido. Exigiam que se incorporassem à redação da "Iskra" e ao Comité Central o número de representantes seus necessários para ser maioria na redação do jornal e a paridade com os bolcheviques no C. C. Os bolcheviques rechaçaram esta exigência, que transgredia as resoluções explícitas do Congresso. Em vista disto, os mencheviques criaram, às escondidas do Partido e hostil ao mesmo, sua própria organização fracionista, a cuja frente se achavam Martov, Trotsky e Axelrod, e

"se rebelaram — segundo frase de Martov — contra o leninismo".

Escolheram como método de luta contra o Partido

"a desorganização de todo o trabalho do Partido, sabotando, entorpecendo-o em tudo o que podiam" (Palavras de Lenin).

Entrincheiraram-se na "Liga Estrangeira" dos social-democratas russos, cujos noventa por cento dos componentes eram intelectuais emigrados, desligados de toda atuação prática na Rússia, e começaram a hostilizar dali o Partido, Lenin e os leninistas.

Plekhanov ajudou consideravelmente os mencheviques. No II Congresso, havia marchado de acordo com Lenin, porém depois se deixou assustar pelos mencheviques com a ameaça da cisão e decidiu "reconciliar-se" a todo custo com eles. O peso de seus velhos erros oportunistas o arrastava ao campo menchevique. Não tardou em converter-se, de conciliador com os mencheviques oportunistas em mais um menchevique. Exigiu que fossem incorporados à redação da "Iskra" todos os antigos redatores mencheviques, rechaçados pelo Congresso. E como Lenin não podia, naturalmente, concordar com isto, saiu da redação do jornal para fortalecer-se no Comité Central do Partido e daí derrotar os oportunistas. Plekhanov, por si e perante si mesmo infringindo a vontade do Congresso, incorporou à redação da "Iskra" os redatores mencheviques que tinham sido eliminados dela. Desde este momento, a partir do número 52, os mencheviques converteram o jornal em seu órgão e começaram a pregar por intermédio dele, suas ideias oportunistas.

Desde então se estabeleceu, dentro do Partido, o costume de chamar a velha "Iskra", a "Iskra" leninista, bolchevique, e a nova "Iskra", menchevique, oportunista.

Ao passar às mãos dos mencheviques, a "Iskra" se converteu em órgão de luta contra Lenin e os bolcheviques, em órgão de propaganda do oportunismo menchevique, sobretudo, no tocante aos problemas de organização. Os mencheviques, coligados com os "economistas" e os "bundistas", abriram, das colunas da "Iskra", uma campanha contra o leninismo como eles o chamavam. Plekhanov, na impossibilidade de manter à margem suas posições conciliadoras, se juntou também à campanha, ao cabo de algum tempo. Tampouco podia ser de outro modo, segundo a lógica das coisas: quem desce ao terreno da conciliação com os oportunistas, acaba afundando-se no oportunismo. Das colunas da nova "Iskra" choviam em grosso artigos e declarações, sustentando que o Partido não devia ser um todo orgânico, que devia admitir a existência, dentro de suas fileiras, de grupos e indivíduos livres, não sujeitos à disciplina das resoluções de seus órgãos; que se devia permitir a todo intelectual simpatizante com o Partido, a "qualquer grevista" e a "qualquer manifestante" considerar-se como membro do Partido; que exigir que os filiados se submetessem a todas as resoluções do Partido era focalizar o assunto de um modo "formal e burocrático"; que impor a submissão da minoria à maioria era "sufocar mecanicamente" a vontade dos membros do Partido; que pretender que todos os filiados, tanto os dirigentes como os militantes de fileiras, se submetessem por igual à disciplina do Partido, equivalia a instaurar dentro deste um "regime feudal"; que o que "nós" necessitávamos no Partido não era um regime de centralismo, senão um "autonomismo" anárquico, que desse aos indivíduos e às organizações do Partido direito a não cumprir suas resoluções.

Era uma propaganda desenfreada que tendia a relaxar os laços da organização, minar a coesão e a disciplina do Partido, glorificar o individualismo peculiar dos intelectuais e justificar uma indisciplina anárquica.

Os mencheviques arrastavam claramente o Partido aos tempos anteriores ao II Congresso, aos velhos tempos de sua dispersão orgânica, aos tempos dos círculos isolados e do trabalho à maneira artesã.

Era necessário dar uma resposta completa aos mencheviques.

Lenin deu esta resposta, com sua célebre obra intitulada "Um passo adiante, dois passos atrás" que veio à luz em maio de 1904.

Eis aqui as teses fundamentais de organização desenvolvidas por Lenin neste livro, e que mais tarde serviram de base para a organização do Partido bolchevique:

1) O Partido marxista é uma parte da classe operária, um destacamento dela. Porém destacamentos da classe operária há muitos, e não podemos considerá-los a todos como Partido da classe operária. O Partido se distingue de outros destacamentos da classe operária antes de tudo, em que não é um destacamento puro e simples, senão um destacamento de vanguarda, um destacamento consciente, um destacamento marxista, da classe operária, armado com o conhecimento da vida social, com o conhecimento das leis que regem o desenvolvimento da vida social, com o conhecimento das leis da luta de classes, o que o capacita para conduzir a classe operária e dirigir sua luta. Por isso não se deve confundir o Partido com a classe operária, como não se deve confundir a parte com o todo, nem pretender que qualquer grevista possa considerar-se como membro do Partido, pois confundir o Partido com a classe equivale a rebaixar o nível de consciência do Partido até o nível de "qualquer grevista", equivale a destruir o Partido, como destacamento consciente de vanguarda da classe operária. A missão do Partido não é rebaixar seu nível até o de "qualquer grevista", senão elevar as massas operárias, elevar "qualquer grevista" ao nível do Partido.

"Nós — escrevia Lenin — somos um Partido de classe e por isso quase toda a classe (e em tempo de guerra, em épocas de guerra civil, a classe em sua integridade) tem que atuar sob a direção de nosso Partido, tem que aderir a ele o mais estreitamente possível; porém seria uma "maniloviada" e "seguidismo" crer que quase toda ou toda a classe pode estar em qualquer tempo, sob o capitalismo, em condições de elevar-se ao grau de consciência e de atividade de seu destacamento de vanguarda, de seu Partido social-democrata. Nenhum social-democrata que ainda esteja em são juízo pôs nunca em dúvida que, sob o capitalismo, nem mesmo a organização sindical (mais primitiva e mais acessível ao grau de consciência das camadas menos desenvolvidas) está em condições de abarcar toda ou quase toda a classe operária. Esquecer a diferença que existe entre o destacamento de vanguarda e toda a massa que marcha atrás dele, esquecer o dever constante que tem o destacamento de vanguarda de elevar a seu próprio nível avançado, camadas cada vez mais amplas, só significa enganar-se a si mesmo, cerrar os olhos à imensidade de nossas tarefas e amesquinhar estas". (Lenin, t VI, págs. 205-206, ed. Russa).





2) O Partido não é somente o destacamento de vanguarda, o destacamento consciente da classe operária, senão que é, além disso, seu destacamento organizado, com sua disciplina própria, obrigatória para todos os seus membros. Por isso os filiados ao Partido se acham obrigados a estar filiados também a uma de suas organizações. Se o Partido não fosse um destacamento organizado da classe operária, um sistema de organizações, mas uma simples soma de indivíduos que se consideram por si mesmos membros do Partido, porém que não fazem parte de nenhuma de suas organizações e que, portanto, não estão organizados, e, não o estando não se acham sujeitos às resoluções do Partido, este não teria jamais uma vontade única, não poderia conseguir jamais a unidade de ação de seus membros e, por conseguinte, não estaria em condições de dirigir a luta da classe operária. Para que o Partido possa dirigir praticamente a luta da classe operária e encaminhá-la para uma meta única, é indispensável que todos seus membros estejam organizados num grande destacamento único, soldado por uma vontade única, pela unidade de ação e a unidade de disciplina.

A objeção que os mencheviques opõem a isto quando dizem que neste caso ficarão fora do Partido muitos intelectuais, professores, estudantes, etc, que não querem entrar nesta ou naquela organização do Partido porque não suportam a disciplina deste ou porque, como se expressava Plekhanov no II Congresso, consideram "deprimente para eles entrar nesta ou noutra organização de base"; esta objeção se volta contra os próprios mencheviques, pois não fazem nenhuma falta ao Partido filiados deste género, que não suportem a disciplina do Partido e se assustam de entrar em suas organizações. Os operários não têm medo da disciplina nem da organização e entram de bom grado nas organizações do Partido, quando se decidem filiar-se a este. Os que temem a disciplina e a organização são os intelectuais de tendência individualista, e estes se mantêm, na realidade, à margem do Partido. E fazem bem, pois o Partido se livrará da afluência de elementos inseguros que acodem a ele, sobretudo, neste período em que começa o movimento ascendente da revolução democrático-burguesa.

"Quando digo — escreve Lenin — que o Partido deve ser uma soma (não uma soma simplesmente aritmética, senão um complexo) de organizações... expresso de um modo perfeitamente claro e preciso meu desejo, minha exigência de que o Partido, como destacamento de vanguarda, da classe operária, reúna o máximo de organização possível e só acolha em seu seio aqueles elementos que admitam, pelo menos, um grau mínimo de organizações" (Lenin t. VI, págs. 203, ed. russa).

E mais adiante:

"De palavra, a fórmula de Martov parece defender os interesses das extensas camadas do proletariado porém, de fato, esta fórmula serve aos interesses da intelectualidade burguesa, que recusa a disciplina e a organização proletárias. Ninguém se atreverá a negar que a intelectualidade, como uma camada especial dentro das sociedades capitalistas contemporâneas, se caracteriza, em conjunto, precisamente por seu individualismo e por sua inadaptabilidade à disciplina e à organização". (Obra citada, pág. 212).

E noutro lugar: *

"O proletariado não teme a organização nem a disciplina... E não vai preocupar-se de que os senhores professores e estudantes, que não querem entrar em nenhuma organização, sejam considerados como membros do Partido porque trabalham sob o controle de suas organizações...Não é o proletariado, mas são alguns intelectuais enquadrados em nosso Partido, os que sofrem de falta de educação própria em matéria de organização e disciplina". (Obra citada, pág. 307).

3) O Partido não é um destacamento organizado puro e simples, senão "a forma mais alta de organização", entre todas as da classe operária, a chamada a dirigir todas as demais organizações do proletariado. O Partido, como a forma mais alta de organização, composta dos melhores homens da classe operária, armados com uma teoria de vanguarda, com o conhecimento das leis da luta de classes e a experiência do movimento revolucionário, conta com todas as possibilidades para dirigir, como está obrigado a fazê-lo, todas as demais organizações da classe operária. A tendência dos mencheviques a diminuir e rebaixar o papel dirigente do Partido conduz a debilitar todas as demais organizações do proletariado, dirigidas por ele, consequentemente, a debilitar e desarmar o proletariado, pois este

"não dispõe, em sua luta pelo Poder, de outra arma que a organização". (Lenin, t. VI, pág. 328, ed. russa).

4) O Partido é a encarnação dos vínculos que unem o destacamento de vanguarda da classe operária com as massas de milhões de homens do proletariado. Ainda que o Partido fosse o melhor destacamento de vanguarda e se achasse magnificamente organizado, não poderia viver nem desenvolver-se sem ter vínculos de união com as massas sem partido, sem multiplicar e garantir estes vínculos. Um Partido em si mesmo, isolado das massas, perdidos seus vínculos ou com vínculos débeis que o unam à sua classe, tem necessariamente que perder a confiança e o apoio das massas e se acha, portanto, inevitavelmente, condenado a perecer. Para poder viver com plenitude e desenvolver-se, o Partido tem que multiplicar seus vínculos com as massas e conquistar a confiança das massas de milhões de homens de sua classe.

"Para ser um partido social-democrata — dizia Lenin — é preciso conquistar o apoio da classe propriamente". (Obra citada, pág. 208).

5) Para funcionar bem e dirigir as massas de acordo com um plano, o Partido deve estar organizado sobre a base do centralismo, com estatutos únicos, com uma disciplina de partido igual para todos, com um só órgão de direção à frente, a saber: o Congresso do Partido e, nos intervalos entre congresso e congresso, o Comité Central, com a submissão da minoria à maioria, das diferentes organizações aos organismos centrais, e das organizações inferiores às superiores. Sem ajustar-se a estas condições, o partido da classe operária não pode ser verdadeiro partido, nem cumprir com seus deveres de direção do proletariado.

Está claro que o regime de ilegalidade, em que vivia o Partido sob a autocracia czarista, não permitia às suas organizações, naqueles momentos, estruturar-se sobre o princípio da eleição a partir de baixo, por cuja razão o Partido se via obrigado a manter um caráter estritamente conspirativo. Porém Lenin entendia que isto era, na vida de nosso Partido, uma situação passageira, que desaparecia no dia seguinte à derrubada do czarismo, e então o Partido começaria a atuar abertamente, dentro da legalidade, e suas organizações se estruturariam sobre a base da eleição democrática, sobre a base do centralismo democrático.

"Antes — escrevia Lenin — nosso Partido não era uma unidade formalmente organizada, senão simplesmente uma soma de grupos privados, razão pela qual não existia nem podia existir entre eles mais relação que a da influência ideológica. Agora já somos um Partido organizado, e isto inclui a criação de uma autoridade, a transformação do prestígio da idéia em prestígio da autoridade, a submissão dos organismos inferiores aos organismos superiores do Partido" (Lenin, t. VI, pág. 291, ed. russa).

Acusando os mencheviques de nihilismo em matéria de organização e de anarquismo senhorial, ao não admitir sobre suas pessoas a autoridade do Partido e sua disciplina, Lenin dizia:

"Este anarquismo senhorial é muito peculiar do nihilista russo. A organização do Partido se lhe afigura uma "fábrica" monstruosa, a submissão da parte ao todo e da minoria à maioria lhe parece um "avassalamento"... a divisão dos trabalhos sob a direção dos organismos centrais suscita nele gritinhos tragicômicos contra os que pretendem converter os homens em "rodas e engrenagens" de um mecanismo (e entre estas transformações, a que julga mais espantosa é a dos redatores em simples colaboradores), toda menção dos estatutos de organização do Partido o leva a um gesto de desprezo e à observação desdenhosa (dirigida aos "formalistas") de que se pode viver sem estatutos" (Obra citada, pág. 310).

6) Se o Partido, em sua atuação prática, quer conservar a unidade de suas fileiras, tem que manter uma disciplina proletária única; que obrigue por igual a todos os membros do Partido, tanto aos dirigentes como aos militantes de fileiras. Por isso, no Partido não podem fazer-se distinções entre pessoas "seletas", às quais não é obrigada a disciplina do Partido, e pessoas "do monturo", obrigadas a se submeter a ela. Sem uma disciplina única e igual para todos, não se poderá manter a integridade do Partido e a unidade dentro de suas fileiras.

"A carência total, por parte de Martov & Cia., de argumentos razoáveis contra a redação nomeada pelo Congresso, ilustra melhor que nada — diz Lenin — sua frasezinha de "nós não somos servos"... Nesta frase transparece com notável nitidez a psicologia do intelectual burguês, que crê estar por cima da organização e da disciplina das massas, que se considera um "espírito seleto"... Para o individualismo intelectual... toda organização e toda disciplina proletárias são um avassalamento feudal". (Lenin, t. VI, pág. 282, ed. russa).

E mais adiante:

"A medida que se estruturar em nosso país um verdadeiro Partido, o operário consciente irá aprendendo a distinguir a psicologia do combatente do exército proletário da psicologia do intelectual burguês que se pavoneia com frases anarquistas; irá aprendendo a exigir que cumpram seus deveres de membros do Partido não só os militantes de fileiras, senão também "os de cima". (Obra citada, pág. 312).

Resumindo a análise das divergências e definindo a posição dos mencheviques como "oportunismo nos problemas de organização", Lenin entendia que um dos pecados capitais do menchevismo era o menosprezar a importância da organização do Partido, como arma do proletariado na luta por sua emancipação. Os mencheviques opinavam que a organização do Partido do proletariado não tinha grande importância para o triunfo da revolução. Pelo contrário, Lenin entendia que a união ideológica do proletariado por si só não bastava para vencer, senão que para isto era necessário "garantir" a unidade ideológica com a "unidade material de organização" do proletariado; Lenin considerava que só sob esta condição o proletariado podia converter-se em uma força invencível.

"O proletariado — escrevia Lenin — não dispõe, em sua luta pelo Poder, de outra arma que a organização. O proletariado, disseminado pelo império da anárquica concorrência dentro do mundo burguês, esmagado pelos trabalhos forçados, ao serviço do capital, lançado constantemente ao "abismo" da miséria mais completa, do embrutecimento e da degeneração, só pode fazer-se e se fará inevitavelmente invencível, sempre e quando sua união ideológica por meio dos princípios do marxismo se consolidar mediante a unidade material da organização, que serve de base aos milhões de trabalhadores no exército da classe operária. Perante este exército não prevalecerão nem o Poder senil da autocracia russa nem o Poder caduco do capitalismo internacional", (Lenin, t. VI, pág. 328, ed. russa).

Com estas proféticas palavras termina a obra de Lenin "Um passo adiante, dois passos atrás".

Tais são as teses fundamentais de organização desenvolvidas por Lenin neste célebre livro.

A importância desta obra reside, antes de tudo, em haver mantido o princípio do Partido contra o regime dos círculos, haver defendido o Partido contra os desorganizadores, aniquilado o oportunismo menchevique no que se refere aos problemas de organização, e haver assentado as bases orgânicas para o Partido bolchevique.

Mas, não se reduz a isto a importância da obra em questão. Sua significação histórica consiste em que nela, Lenin traça, pela primeira vez na história do marxismo a teoria do Partido como organização dirigente do proletariado e como arma fundamental em mãos deste, sem a qual é impossível triunfar na luta pela ditadura proletária.

A difusão desta obra de Lenin entre os militantes do Partido fez com que a maioria das organizações de base se agrupassem estreitamente em torno de Lenin.

Porém, quanto mais estreitamente se agrupavam as organizações em torno dos bolcheviques, maior era a irritação de que os líderes mencheviques davam mostras.

No verão de 1904, os mencheviques se apoderaram da maioria dentro do Comité Central, graças à ajuda que lhes prestou Plekhanov e à traição de dois bolcheviques degenerados: Krasin e Noskov. Era evidente que os mencheviques marchavam rumo à cisão. A perda das posições da "Iskra" e do C. C. colocou os bolcheviques numa posição difícil. Era necessário organizar um jornal bolchevique próprio. Era necessário organizar um novo Congresso do Partido, o III Congresso, para eleger um novo C. C. e destruir os mencheviques.

Lenin e os bolcheviques se encarregaram desta tarefa.

Os bolcheviques começaram a fazer campanha em prol da convocação do III Congresso do Partido. Em agosto de 1904 se celebrou na Suíça, sob a direção de Lenin, uma conferência à qual assistiram 22 bolcheviques. Nela se aprovou o chamado dirigido "Ao Partido", que foi, para os bolcheviques, o programa de luta em prol da convocação do III Congresso.

Em três conferências regionais de Comités bolcheviques (a do Sul, a do Cáucaso e a do Norte) foi eleito um Bureau de Comités da maioria, que se encarregou de realizar o trabalho prático de preparação para o III Congresso.

A 4 de janeiro de 1905 apareceu o primeiro número do jornal bolchevique "Vperiod" ("Adiante").

Dentro do Partido se haviam formado, como se vê, duas frações independentes, a bolchevique e a menchevique, cada uma com seus organismos centrais e seus órgãos na Imprensa.

Resumo

Durante os anos de 1901 a 1904, crescem e se fortalecem, na Rússia, na base do auge do movimento operário revolucionário, as or-

ganizações social-democratas marxistas. Mediante uma luta tenaz de princípios contra os "economistas", triunfa a linha revolucionária leninista da "Iskra" e se superam a dispersão ideológica e o trabalho à "maneira artesã".

A "Iskra" serve de traço de união entre os grupos e círculos soci-al-democratas dispersos, e prepara o II Congresso do Partido. Neste Congresso, celebrado em 1903, se formou o Partido Operário Social-Democrata da Rússia, foram aprovados o programa e os estatutos do Partido, e se criaram os organismos centrais deste.

Na luta travada no II Congresso pelo triunfo definitivo da linha da "Iskra", dois grupos manifestaram-se dentro do P.O.S.D.R, o dos bolcheviques e o dos mencheviques.

As principais divergências existentes entre os bolcheviques e os mencheviques, depois do II Congresso, versavam sobre os problemas de organização.

Os mencheviques se aproximaram dos "economistas" e vieram ocupar o posto destes no Partido. No momento, o oportunismo dos mencheviques se manifesta no terreno dos problemas de organização. Os mencheviques são contrários a um partido revolucionário combativo de tipo leninista. Batem-se por um partido informe, não organizado, que vá a reboque dos acontecimentos. Seguem uma linha di vi sionista dentro do Partido. Com a ajuda de Plekhanov, se apoderam da "Iskra" e do C. C, valendo-se destas posições centrais para seus fins divisionistas.

Ante a ameaça de uma cisão por parte dos mencheviques, os : bolcheviques tomam medidas para cerrar a passagem aos divisionistas, mobilizam as organizações de base em prol da convocação do III Congresso, e editam um jornal próprio, intitulado "Vperiod".

Portanto, em vésperas da primeira revolução russa e já nos começos da guerra russo-japonesa, os bolcheviques e os mencheviques aparecem como dois grupos políticos independentes um do outro.


 

 

Capítulo III



Os Mencheviques e os Bolcheviques no Período da Guerra Russo - Japonesa

e da Primeira Revolução Russa

( 1904 – 1907 )





1



A guerra russo-japonesa.

O movimento revolucionário da Rússia segue sua marcha ascendente.

Greves em Petersbnrgo.

Manifestação dos operários diante do Palácio de Inverno a 9 de janeiro de 1905.

As tropas fazem fogo contra os manifestantes.

Começa a revolução.



Em fins do Século XIX, os Estados imperialistas começaram a lutar energicamente pelo predomínio no Oceano Pacífico e pela partilha da China. Nesta luta a Rússia czarista também tomara parte. Em 1900, as tropas czaristas, em união com as tropas japonesas, alemãs, inglesas e francesas, reprimiram com indizível crueldade uma insurreição popular que estalara na China e que se dirigia contra os imperialistas estrangeiros. Anteriormente a isto, o governo czarista obrigara a China a entregar à Rússia a península de Liao-tung, com a fortaleza de Porto-Artur. A Rússia arrancou, além disso, o direito de construir estradas de ferro em território e estendeu, no Norte da Mandchúria, uma linha férrea: a estrada de ferro da China Oriental, enviando tropas russas para defendê-la. A Mandchúria do Norte foi ocupada militarmente pela Rússia czarista. O czarismo ia se aproximando cautelosamente da Coréia. A burguesia russa maquinava planos destinados a criar uma "Rússia Amarela" na Mandchúria.

Em suas anexações no Extremo-Oriente, o czarismo chocou com outra ave de rapina, o Japão, que se convertera rapidamente num país imperialista e que também aspirava cravar sua garra no continente asiático, estendendo seus domínios, sobretudo, à custa da China. O Japão ambicionava também, como a Rússia czarista, apoderar-se da Coréia e da Mandchúria. Sonhava, além disso, já por aquela época, apoderar-se da ilha de Sakhalina e do Extremo-Oriente. A Inglaterra, que não via com bons olhos a consolidação da Rússia czarista no Extremo-Oriente, se inclinava secretamente para o lado do Japão. Estava-se gestando a guerra russo-japonesa. O governo czarista via-se empurrado para ela pela grande burguesia, ávida de novos mercados, e pelas camadas mais reacionárias dos latifundiários.

Sem aguardar que o governo czarista declarasse a guerra, o Japão se lançou a ela. Pelas informações do excelente serviço de espionagem que tinha montado na Rússia, calculava que havia de enfrentar-se com um adversário pouco preparado. Em janeiro de 1904, sem declaração prévia de guerra, o Japão atacou inesperadamente a fortaleza russa de Porto-Artur, infringindo duras perdas à frota russa, que guarnecia esse porto.

Assim começou a guerra russo-japonesa.

O governo czarista especulava com a idéia de que a guerra o ajudaria a firmar sua situação política e conter a revolução. Porém seus cálculos resultaram falhos: a guerra sacudiu ainda mais as bases do czarismo.

O Exército russo, mal armado e mal instruído, dirigido por generais incapazes e corrompidos, começou a sofrer uma derrota após outra.

A guerra servia para enriquecer os capitalistas, os altos funcionários e os generais. O latrocínio florescia de um modo exuberante. As tropas tinham poucas munições. Justamente quando não havia bastante cartucho, enviavam-se à frente, como por burla, vagões inteiros carregados de imagens. "Os japoneses nos atiram balas, nós os atacamos com "imagens", diziam amargamente os soldados. Em vez de evacuar os feridos, os trens especiais transportavam para a retaguarda os objetos roubados pelos generais czaristas.

Os japoneses cercaram e logo depois tomaram a fortaleza de Porto-Artur. Depois de inflingir uma série de derrotas ao Exército czarista, destruíram-no perto de Mukden. O Exército czarista, que constava de 300.000 homens, teve, neste revés, cerca de 120.000 baixas entre mortos, feridos e prisioneiros. Pouco tempo depois, sobreveio a derrota total e o afundamento no estreito de Tsusima da esquadra russa que havia sido enviada do Mar Báltico em socorro de Porto-Artur sitiado. O desastre de Tsusima representava uma catástrofe completa: dos vinte e dois barcos de guerra, enviados pelo czar, foram postos a pique e destruídos treze, e quatro caíram em poder do inimigo. A guerra estava definitivamente perdida para a Rússia czarista.

O governo do czar viu-se obrigado a concertrar uma paz ignominiosa com o Japão. Este anexou a Coréia e despojou a Rússia de Porto-Artur e da metade da ilha de Sakhalina.

As massas populares não queriam aquela guerra e se inteiravam do dano que havia de causar à Rússia. O povo pagava muito caro o atraso da Rússia czarista.

Bolcheviques e mencheviques adotaram uma atitude diferente frente a esta guerra.

Os mencheviques, incluindo Trotsky, desceram às posições do defensismo, vale dizer, abraçaram a defesa da "pátria" do czar, dos latifundiários e dos capitalistas.

Em troca, os bolcheviques, encabeçados por Lenin, entendiam que a derrota do governo czarista naquela guerra de rapina seria benéfica, pois conduziria ao enfraquecimento do czarismo e ao fortalecimento da revolução.

As derrotas das tropas czaristas puseram a nu ante as mais extensas massas do povo toda a podridão do czarismo. O ódio contra o regime czarista, entre as massas populares, era cada dia maior. A queda de Porto-Artur marca o começo da queda da autocracia, escreveu Lenin.

O czar havia querido estrangular a revolução com a guerra. Porém conseguiu o contrário. O que a guerra russo-japonesa fez foi acelerar a revolução.

Na Rííssia czarista, a opressão capitalista se reforçava com a opressão do czarismo. Os operários não eram vítimas somente da exploração capitalista, dos trabalhos forçados ao serviço do capital, senão também da privação de direitos que pesava sobre todo o povo. Por isso, os operários conscientes aspiravam pôr-se à frente do movimento revolucionário de todos os elementos democráticos da cidade e do campo contra o czarismo. Os camponeses viviam asfixiados pela falta de terra e pelas numerosas sobrevivências do feudalismo; neles, se cravavam as garras dos latifundiários e do kulak. As nacionalidades que povoavam a Rússia czarista, gemiam sob um duplo jugo: o de seus próprios latifundiários e capitalistas e o dos latifundiários e capitalistas russos. A crise econômica de 1900 a 1903 havia acentuado as calamidades das massas trabalhadoras, e a guerra veio aumentá-las ainda mais. As derrotas sofridas na guerra recrudesciam o ódio das massas contra o czarismo. A paciência do povo ia se esgotando.

Como se vê havia causas mais que suficientes para a revolução.

Em dezembro de 1904, estalou uma grande greve dos operários de Bakú, muito bem organizada e mantida sob a direção do Comitê bolchevique daquela cidade. Esta greve terminou com o triunfo dos operários, graças ao qual se concertou entre estes e os patrões da indústria petrolífera o primeiro contrato coletivo de trabalho que a história do movimento operário russo registra.

A greve de Bakú foi o começo do auge revolucionário na Transcaucásia e numa série de regiões da Rússia.

"A greve de Bakú — disse Stalin — foi o sinal para as gloriosas ações de janeiro e fevereiro em toda a Rússia".

Esta greve foi, em vésperas da grande tempestade revolucionária, como o raio que precede a tormenta.

Os acontecimentos do 9 (22) de janeiro de 1905 em Petersburgo desencadearam a tempestade revolucionária.

A 3 de janeiro de 1905 havia estalado uma greve na fábrica mais importante da capital, a fábrica Putilov (hoje "Kirov"). Esta greve teve sua origem na exclusão de quatro operários. O movimento grevista cresceu rapidamente, juntando-se a ele outras fábricas e empresas de Petersburgo. Breve se converteu em greve geral. O governo czarista decidiu liquidar no próprio começo o movimento, que se desenvolvia de um modo alarmante.

Já em 1904, antes da greve da fábrica Putilov, a polícia criara entre os operários, com ajuda de um provocador, o padre Gapone, uma organização policial intitulada "Associação dos operários fabris russos". Esta organização tinha seções em todos os distritos de Petersburgo. Ao estalar a greve, o padre Gapone propôs nas assembléias desta sociedade um plano de provocação: a 9 de janeiro, todos os operários se congregariam, para acudir em procissão pacífica, diante do Palácio de Inverno, com estandartes e retratos do czar, com o objetivo de lhe entregar uma petição na qual se exporiam suas necessidades. O czar sairia para receber o povo, e escutaria e satisfaria suas petições. Gapone se prestou a servir de instrumento às manobras da "okhrana" czarista: tratava-se de escarmentar os operários e afogar em sangue o movimento proletário. Porém o plano policial se voltou contra o governo do czar.

A petição foi discutida nas assembléias de operários, introduzindo-se nela algumas emendas e modificações. Nestas assembléias, os bolcheviques intervieram também, sem apresentar-se abertamente como tais. Foram eles que conseguiram que se juntassem à petição as reivindicações seguintes: liberdade de Imprensa e de palavra, liberdade de associação para os operários, convocação de uma Assembléia Constituinte para mudar a fornia de governo da Rússia, igualdade de todos perante a lei, separação da Igreja do Estado, terminação da guerra, implantação da jornada de 8 horas e entrega da terra aos camponeses.

Em suas intervenções nestas assembléias, os bolcheviques faziam ver aos operários que a liberdade não se conseguia com suplicas ao czar, senão que se devia conquistá-la com as armas na mão. Preveniram de que se faria fogo contra os operários. Porém não lograram evitar a manifestação em frente ao Palácio de Inverno. Uma parte considerável dos operários ainda acreditava que o czar os ajudaria. O movimento se havia apoderado das massas com uma força enorme. Na petição dos operários petersburguenses se dizia:

"Nós, operários de Petersburgo, recorremos a ti, Senhor, com nossas mulheres, nossos filhos e nossos anciãos e inválidos, para implorar de ti a verdade e tua ajuda. Vivemos na miséria, nos oprimem, nos sobrecarregam com um trabalho esgotador, mofam de nós, não nos tratam como homens... Temos sofrido tudo com paciência, porém nos empurram cada vez mais para a borda da miséria, da escravidão e da ignorância-, o despotismo e a tirania nos sufocam... Nossa paciência se esgotou. Chegamos a esse momento terrível em que se prefere morrer a continuar suportando tormentos irresistíveis..."

Nas primeiras horas da manhã de 9 de janeiro de 1905, os operários marchavam em procissão para o Palácio de Inverno, onde o czar tinha sua residência. Iam acompanhados de suas famílias, mulheres, crianças e anciãos, e desfilavam com retratos do czar e estandartes de confrarias, entoando canções religiosas, e sem armas. No total, se reuniram nas ruas de Petersburgo, naquele dia, mais de 140.000 homens.

Nicolau II os recebeu com maneiras muito pouco corteses. Deu ordens de disparar sobre os operários inermes. Mais de mil operários caíram mortos ante os fuzis das tropas czaristas e mais de dois mil ficaram feridos. As ruas de Petersburgo ficaram empapadas de sangue proletário.

Os bolcheviques desfilaram com os operários. Muitos deles caíram mortos ou foram detidos. Ali mesmo, sobre as ruas banhadas em sangue proletário, explicaram às massas quais eram os responsáveis por aquela matança espantosa e como necessário lutar contra eles.

O 9 de janeiro começou a chamar-se "Domingo sangrento". Foi uma lição sangrenta a que os operários receberam nesse dia. A 9 de janeiro a fé dos operários no czar morreu fuzilada. Compreenderam que só lutando podiam conquistar seus direitos. Ao anoitecer daquele dia, nos bairros operários se começaram a levantar as primeiras barricadas. "Já que o czar nos recebeu a tiros, lhe pagaremos na mesma moeda!", diziam os operários de Petersburgo.

A horrível notícia do crime sangrento do czar correu como um rastilho de pólvora por toda a Rússia. A ira e a indignação se apoderaram de toda a classe operária, de todo o país. Não houve cidade onde os operários não se declarassem em greve em sinal de protesto contra o crime do czar e onde não formulassem reivindicações políticas. Agora, os operários se lançavam à rua com a consigna de "Abaixo a autocracia!" No mês de janeiro, o número de grevistas atingiu a cifra de 440.000. Num só mês, puseram-se em greve mais operários que nos dez anos anteriores juntos. O movimento operário se elevou a uma altura formidável.

Havia começado a revolução na Rússia.




2



Greves políticas e manifestações operárias.

Intensifica-se o movimento revolucionário dos camponeses.

A sublevação do couraçado "Potemkim".







A partir de 9 de janeiro, a luta revolucionária dos operários toma um caráter mais agudo e mais político. Das greves econômicas e de solidariedade, os operários passam às greves políticas, às manifestações e, em alguns lugares, à resistência armada contra as tropas czaristas. Em Petersburgo, Moscou, Varsóvia, Riga, Bakú e em outras grandes cidades, onde se concentravam massas consideráveis de operários, as greves se revestiram de um caráter mais tenaz e mais organizado. A frente do proletariado em luta marchavam os operários metalúrgicos. Com suas greves, os destacamentos operários de vanguarda arrastavam as camadas operárias menos conscientes e lançavam toda a classe operária à luta. A influência da social-democraeia crescia rapidamente.

As manifestações de 1º. de Maio deram origem, em diversos lugares a choques com a polícia e as tropas. Em Varsóvia, os manifestantes foram recebidos a tiros e houve várias centenas de mortos e feridos. Os operários de Varsóvia responderam ao chamado da social-democracia polaca, responderam à matança com uma greve geral de protesto. Durante todo o mês de maio, as greves e manifestações não cessaram. Mais de 200 mil operários tomaram parte, na Rússia, nas greves de maio. A greve geral se estendeu aos operários de Bakú, Lodz e Ivanovo-Vosnesensk. Os choques entre os operários grevistas e as tropas do czar eram cada vez mais freqüentes. Choques destes se produziram mima série de cidades, como Odessa, Varsóvia, Riga, Lodz, etc.

No grande centro industrial da Polônia, Lodz, a luta assumiu um caráter especialmente agudo. Os operários de Lodz encheram as mas desta cidade, de barricadas, nas quais lutaram contra as tropas czaristas durante três dias (de 22 a 24 de junho de 1905). Aqui, a ação armada se fundiu com a greve geral. Lenin considerava este combate como a primeira ação armada dos operários na Rússia.

Entre as greves produzidas durante o verão, se destaca principalmente a dos operários de Ivanovo-Vosnesensk. Esta greve durou desde fins de maio até começos de agosto de 1905, ou seja cerca de dois meses e meio. Tomaram parte nela cerca de 70.000 operários, entre os quais figuravam muitas mulheres. O Comitê bolchevique da região Norte dirigiu essa greve. Nos arrabaldes da cidade, às margens do rio Talka, milhares de operários se reuniam quase diariamente... Nestas assembléias discutiam seus problemas e suas necessidades. Nelas, os bolcheviques faziam uso da palavra. Para liquidar a greve, as autoridades czaristas ordenaram às tropas dissolver os operários, fazendo fogo contra eles. Várias dezenas de operários caíram mortos, e houve, centenas de feridos. Foi proclamado o estado de guerra na cidade de Ivanovo. Porém os operários se mantinham firmes, sem reatar o trabalho. Passavam fome com suas famílias, porém não cediam. Só o esgotamento mais extremo os obrigou novamente a trabalhar. Esta greve temperou os operários. Revelou exemplos maravilhosos de valentia, de firmeza, de abnegação e de solidariedade por parte da classe operária. Serviu de verdadeira escola de educação política para os operários de Ivanov-Vosncsensk.

Durante esta greve, os operários de Ivanov criaram um Soviet de delegados que foi, de fato, um dos primeiros Soviets de deputados operários da Rússia.

As greves políticas puseram todo o país de pé.

Atrás da cidade, o campo começou a levantar-se. Os camponeses começaram a agitar-se na primavera de 1905. Marchavam em grandes multidões contra os senhores de terra, destruindo suas possessões, suas fábricas de açúcar e suas destilarias, botando fogo nos palácios e casas senhoriais. Numa série de comarcas, os camponeses se apoderaram das terras dos latifundiários, procederam à derrubada em massa dos bosques e exigiram que as terras senhoriais lhes fossem adjudicadas. Os camponeses confiscaram o trigo e outros produtos armazenados pelos latifundiários e os repartiram entre os famintos. Os latifundiários, aterrorizados, fugiram para a cidade. O governo czarista enviou os soldados e os cossacos para sufocar as insurreições camponesas. As tropas disparavam contra os camponeses, detinham, espancavam e torturavam seus "instigadores". Porém os camponeses não retrocediam em sua luta.

O movimento camponês começou a estender-se por todo o centro da Rússia, pela região do Volga e pela Transcaucásia, principalmente na Geórgia.

Os social-democratas iam cada vez mais penetrando no campo. O Comitê Central do Partido lançou uma proclamação encabeçada assim: "Camponeses, escutai nossa palavra!". Os Comitês social-democratas de Tver, Saratov, Poltava, Chernigov, Ekaterinoslav, Tiflis e muitas outras províncias dirigiram manifestos aos camponeses. Os social-democratas organizavam "meetings" e círculos políticos nas aldeias, e criavam Comitês de camponeses. Greves de operários agrícolas, organizadas por social-democratas, estalaram numa série de comarcas, no verão de 1905.

Porém, isto só era o começo da luta no campo. O movimento camponês só se arraigara em 85 distritos, o que representava a sétima parte, aproximadamente, dos distritos da Rússia européia czarista.

O movimento operário e camponês, unido à série de derrotas das tropas russas na guerra russo-japonesa, repercutiu sobre o Exército. Este baluarte do czarismo começou a cambalear.

Em junho de 1905 estalou uma sublevação na esquadra do Mar Negro, a bordo do couraçado "Potemkin". Por aqueles dias o "Potemkin" estava fundeado não longe de Odessa, onde os operários haviam declarado a greve geral. Os marinheiros sublevados ajustaram as contas com os oficiais mais odiados por eles, e rumaram para Odessa. O "Potemkin" se passou para o campo da revolução.

Lenin atribuía uma importância muito grande a esta sublevação. Reputava necessário que os bolcheviques dirigissem este movimento e o ligassem ao movimento dos operários, dos camponeses e das guarnições locais.

O czar enviou contra o "Potemkin" vários barcos de guerra, porém a tripulação destes se negou o disparar contra seus camaradas sublevados. Durante vários dias a bandeira vermelha da revolução ondulou no couraçado "Potemkin". Porém naqueles tempos, em 1905, o Partido bolchevique não era ainda o partido único que dirigia o movimento, como mais tarde, em 1917. No "Potemkin" havia não poucos mencheviques, social-revolucionários e anarquistas. Por isso, ainda que alguns social-democratas tomassem parte na sublevação, os sublevados não tiveram uma direção segura e suficientemente experiente. Uma parte dos marinheiros vacilava nos momentos decisivos. Os demais navios da esquadra do Mar Negro não se uniram à sublevação. Por falta de carvão e de provisões, o couraçado revolucionário foi obrigado a retirar-se para as costas da Rumânia e entregar-se às autoridades deste país.

A insurreição dos marinheiros do "Potemkin" terminou com uma derrota. Os marinheiros sublevados, que mais tarde caíram nas mãos do governo czarista, foram entregues aos Tribunais. Parte deles foram executados e outros enviados à prisão. Porém o simples fato da sublevação teve uma importância extraordinária. A insurreição do Potemkin loi a primeira ação revolucionária de massas que se produziu no Exército e na frota, a primeira grande unidade de tropas czaristas que se passou para o lado da revolução. Esta sublevação fez que os operários, os camponeses e, sobretudo, as próprias massas de soldados e marinheiros vissem mais clara e mais próxima a idéia da passagem do Exército e da Marinha para o lado da classe operária, para o lado do povo.

A passagem dos operários às greves políticas e às manifestações de massas, o recrudescimento do movimento camponês, os choques armados do povo com a polícia e as tropas e, finalmente, a sublevação na esquadra do Mar Negro: tudo indicava que as condições para a insurreição armada do povo estavam amadurecendo. Isto obrigou a burguesia liberal a pôr-se energicamente de pé. Alarmada ante a revolução, porém ao mesmo tempo assustando o czar com ela, pretendeu chegar a um acordo com o czar contra a revolução e pleitear a necessidade de decretar algumas pequenas reformas "em favor do povo" para "aplacar" a este, semear a discórdia entre as forças da revolução e atalhar com isso os "horrores da revolução". "É necessário retalhar terras para os camponeses, pois de outro modo nos retalharão o pescoço", diziam os senhores de terra liberais. A burguesia liberal se dispunha a compartilhar o Poder com o czar. Enquanto o proletariado luta, a burguesia pretende acercar-se cautelosamente do Poder, escrevia Lenin naqueles dias, referindo-se à tática da classe operária e a da burguesia liberal.

O governo czarista continuava esmagando o movimento operário e camponês com uma violência brutal. Porém não podia desconhecer que com os simples meios repressivos era impossível sufocar a revolução. Por isso, sem abandonar a repressão, começou a recorrer às manobras de rodeios. Por uma parte, com ajuda de seus agentes provocadores, começou a açular os povos da Rússia uns contra os outros, organizando progroms judeus e matanças entre armênios e tártaros. De outro lado, prometeu convocar uma "Assembléia representativa" — na forma de "Zemski Sobor" ou Duma do Estado, — encarregando o ministro Buliguin para que redigisse o projeto desta Assembléia, porém com a condição de que não tivesse faculdades legislativas. Todas estas medidas visavam semear a discórdia entre as forças da revolução e apartar desta, as camadas moderadas do povo.

Os bolcheviques declararam o boicote à Duma buliguiniana, propondo-se como objetivo jogar por terra esta caricatura de representação popular.

Ao contrário, os mencheviques concordaram em não fazer fracassar a Duma e consideraram necessário participar dela.






3



Divergências táticas entre os bolcheviques e os mencheviques.

O III Congresso do Partido.

O livro de Lenin "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática".

Fundamentos táticos do Partido marxista.



A revolução pôs em movimento todas as classes da sociedade. A viragem provocada pela revolução na vida política do país, fê-las sair de suas velhas posições de estagnação e as obrigou a reagrupar-se de acordo com a nova situação. Cada classe, cada partido, esforçava-se em traçar sua tática, sua linha de conduta, sua relação com as demais classes e com o governo. Até o governo czarista se viu obrigado a elaborar, coisa insólita nele, uma nova tática, consistente em prometer a convocação de uma "Assembléia representativa", a Duma buliguiniana.

Também o Partido social-democrata se viu na necessidade de traçar sua linha tática. Assim o exigia a marcha ascendente da revolução. Assim o exigiam também os problemas práticos impostergáveis que se apresentavam ante o proletariado: organização da insurreição armada, derrubada do governo czarista, instauração de um governo provisório revolucionário, participação da social democracia neste governo, relações com os camponeses e com a burguesia liberal, etc. Era necessário traçar a tática marxista da social-democracia, uma tática única e bem meditada. Porém, graças ao oportunismo e ao trabalho divisionista dos mencheviques, a social-democracia russa se achava, naqueles momentos, cindida em duas frações. Ainda não se podia considerar consumada a cisão, porém, ainda que formalmente estas duas frações não fossem dois partidos distintos, de fato se pareciam muito a dois partidos, cada qual com seus próprios organismos centrais e seus próprios órgãos na Imprensa.

Contribuía para aprofundar a cisão o fato de que às velhas divergências dos mencheviques com a maioria do Partido em matéria de organização, vieram somar-se outras divergências novas, que afetavam os problemas táticos. A falta de um Partido unido traduzia-se na falta de unidade quanto à sua tática.

Cabia resolver a situação, convocando imediatamente o III Congresso ordinário do Partido, para estabelecer nele uma tática única, obrigando a minoria a aplicar honradamente as resoluções do Congresso e submeter-se às decisões da maioria. Esta solução foi, com efeito, a que os bolcheviques propuseram aos mencheviques. Porém estes não queriam nem ouvir falar do Congresso. Em vista disto e considerando como um crime continuar-se mantendo o Partido sem uma tática sancionada por seu órgão supremo e obrigatório para todos seus membros, os bolcheviques decidiram tomar em suas mãos a iniciativa de convocar o III Congresso.

Foram convidadas a enviar delegados a ele todas as organizações do Partido, tanto as bolcheviques como as mencheviques. Porém os mencheviques se negaram a participar do Congresso e decidiram convocar outro por sua conta. Não o chamaram congresso, senão conferência, pelo reduzido número de delegados que a ele acudiram, porém, na realidade foi um congresso, o congresso do partido menchevique, cujas resoluções se consideravam obrigatórias para todos os mencheviques.

Em abril de 1905, se reuniu em Londres o terceiro Congresso do Partido Social-democrata da Rússia. Assistiram a ele 24 delegados em nome de 20 Comitês bolcheviques. Todas as grandes organizações do Partido achavam-se representadas nele.

O Congresso condenou os mencheviques, considerando-os como "uma parte que se havia separado do Partido", e passou aos problemas da ordem do dia, que versavam sobre a tática do Partido.

Ao mesmo tempo se reunia em Genebra a conferência dos mencheviques.

"Dois congressos, dois partidos", tais eram os termos com que Lenin julgava a situação.

Tanto o congresso como a conferência examinavam, no fundo, os mesmos problemas táticos, porém as resoluções que recaíram sobre estes problemas foram diametralmente opostas. As duas diferentes séries de resoluções votadas no congresso e na conferência punham a descoberto, em toda sua profundidade, as divergências táticas existentes entre o III Congresso do Partido e a Conferência menchevique, entre os bolcheviques e os mencheviques.

Eis aqui os pontos fundamentais destas divergências:

Linha tática do III Congresso do Partido. O Congresso achava que, apesar do caráter democrático-burguês da revolução que se estava desenvolvendo e apesar de que esta não podia, naqueles momentos, sair do marco das medidas compatíveis com o capitalismo, seu triunfo total interessava de um modo primordial ao proletariado, pois o triunfo desta revolução lhe daria a possibilidade de organizar-se, de educar-se politicamente, de adquirir experiência e hábitos de direção política das massas trabalhadoras, e de passar da revolução burguesa à revolução socialista.

A tática do proletariado, visando o triunfo total da revolução democrático-burguesa, só podia ser apoiada pelos camponeses, já que estes não conseguiriam desembaraçar-se dos senhores de terra e obter suas terras senão com o triunfo completo da revolução. Os camponeses eram, pois, os aliados naturais do proletariado.

A burguesia liberal não estava interessada no triunfo completo dessa revolução, já que necessitava do Poder czarista como látigo contra os operários e os camponeses, aos quais temia mais que a nenhuma outra coisa, pelo que se esforçaria em manter o czarismo, embora restringindo um pouco suas prerrogativas; portanto, a burguesia liberal procuraria encerrar o assunto mediante um acordo com o czar, na base de uma monarquia constitucional.

A revohição só poderá triunfar se o proletariado se põe à frente dela, se este, como chefe da revolução, sabe assegurar sua aliança com os camponeses, se se isola a burguesia liberal, se a social-democracia toma parte ativa na organização da insurreição popular contra o czarismo, sé, como resultado de uma insurreição triunfante, se instaura um governo provisório revolucionário, capaz de extirpar as raízes da contra-revolução e de convocar uma Assembléia Constituinte de todo o povo, e se a social-democracia não recusa, em condições propícias, participar neste governo provisório revolucionário para levar a revolução o seu termo.

Linha tática da conferência menchevique. Posto que se trata de uma revolução burguesa, só pode ter como chefe a burguesia liberal. O proletariado tem que se aproximar dela e não dos camponeses. Para isto, o mais importante é não assustar a burguesia liberal com atitudes revolucionárias e não dar-lhe pretexto para voltar as costas à revolução, a qual se debilitará, se a burguesia liberal se desvia dela.

É possível que a insurreição triunfe, porém a social-democracia, depois do triunfo da insurreição, deverá ficar à margem para não atemorizar a burguesia liberal. É possível que, como resultado da insurreição, se instaure um governo provisório revolucionário, porém a social-democracia não deverá participar nele de modo algum já que este governo não será, por seu caráter, um governo socialista, e, sobretudo, porque a participação nele da social-democracia e sua atitude revolucionária poderiam assustar a burguesia liberal e solapar com isso a revolução.

Do ponto de vista das perspectivas da revolução seria melhor convocar qualquer assembléia representativa, um "Zemski Sobor" ou uma Duma de Estado, a qual se poderia submeter a pressão da classe operária, de fora, para convertê-la em uma Assembléia Constituinte ou forçá-la a convocar esta.

O proletariado tem seus interesses próprios e peculiares, interesses puramente operários, com os quais deve preocupar-se sem tentar erigir-se em chefe da revolução burguesa, que é uma revolução política geral e que afeta, portanto, a todas as classes e não ao proletariado somente.

Tais eram, em breves palavras, as duas táticas das duas frações do Partido Operário Social-Democrata da Rússia.

Em seu histórico livro intitulado "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática", Lenin faz a crítica clássica da tática menchevique e fundamenta de um modo genial a tática bolchevique.

Este livro apareceu em julho de 1905 ou seja dois meses após o III Congresso do Partido. A julgar pelo título da obra, poder-se-ia crer que Lenin só examina nela os problemas táticos do período da revolução democrático-burguesa, e que sua crítica se refere unicamente aos mencheviques russos. Porém, na realidade, ao criticar a tática dos mencheviques, põe também a nu a tática do oportunismo internacional e ao fundamentar a tática marxista no período da revolução burguesa e traçar as diferenças entre esta e a revolução socialista, formula também os fundamentos da tática do marxismo no período de transição da revolução burguesa à revolução socialista.

Eis aqui as teses táticas fundamentais desenvolvidas por Lenin em sua obra "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática":

1) A tese tática fundamental de que trata a obra de Lenin é a idéia de que o proletariado pode e deve ser o chefe da revolução democrático-burguesa, o dirigente da revolução democrático-burguesa na Rússia.

Lenin reconhecia o caráter burguês desta revolução, visto que, segundo ele assinalou,

"não estava em condições de sair imediatamente do estado de uma transformação puramente democrática".

Porém entendia que não era um movimento de cima, senão uma revolução popular, que punha em movimento todo o povo, toda a classe operária e todos os camponeses. Por isso, reputava como uma traição aos interesses do proletariado as tentativas dos mencheviques de diminuir a importância da revolução burguesa para a classe operária, de menoscabar o papel do proletariado nela e dela descartar as forças proletárias.

"O marxismo — escrevia Lenin — não ensina o proletariado a ficar à margem da revolução burguesa, a não participar nela, a entregar sua direção à burguesia, mas, pelo contrário, ensina que deve participar do modo mais enérgico e mais decidido na luta pelo democratismo proletário conseqüente, na luta para levar a revolução ao fim". (Lenin, t. VIII, pág. 58, ed. russa).

"Não devemos esquecer — escrevia Lenin mais adiante — que nestes momentos não há nem pode haver outro meio de se aproximar do socialismo que a liberdade política completa, a República democrática". (Obra citada, pág. 104).

Lenin previa dois possíveis desenlaces para a revolução.

1. ou a revolução terminava com o completo triunfo sobre o czarismo, com a derrubada deste e a instauração da República democrática, ou

2. se a revolução não era bastante forte, podia terminar com um acordo entre o czar e a burguesia à custa do povo, com qualquer Constituição minguada, ou melhor dito, com qualquer caricatura constitucional.

O proletariado achava-se interessado em que a solução fosse a melhor, a saber: a do triunfo decisivo sobre o czarismo. Porém, para que esta solução fosse possível, era necessário que o proletariado soubesse converter-se em chefe, em dirigente da revolução.

"O desenlace da revolução — escrevia Lenin — depende do papel que a classe operária desempenha nela: de que se limite a ser um mero auxiliar da burguesia, ainda que seja um auxiliar poderoso pela intensidade de seu impulso contra a autocracia, porém politicamente impotente, ou de que assuma o papel de dirigente da revolução popular" (Obra citada, pág. 32).

Lenin entendia que o proletariado contava com todas as possibilidades necessárias para deixar de ser auxiliar da burguesia e converter-se em dirigente da revolução democrático-burguesa. Estas possibilidades se cifravam, segundo Lenin, no seguinte:

Em primeiro lugar, "o proletariado, sendo como é por sua situação, a classe mais avançada e a única conseqüentemente revolucionária, está chamado, por isso, a desempenhar o papel dirigente no movimento geral democrático revolucionário na Rússia" (Lenin, t. VIII, pág. 75, ed. russa).

Em segundo lugar, o proletariado se acha mais interessado no triunfo decisivo da revolução que a burguesia, já que "em certo sentido, a revolução burguesa é mais benéfica para o proletariado que para a burguesia" (Obra citada, pág. 75).

"A burguesia — escrevia Lenin — convém apoiar-se em algumas das sobrevivências do velho regime contra o proletariado, por exemplo, na monarquia, no Exército permanente, etc. À burguesia convém que a revolução burguesa não varra demasiado resolutamente todas as sobrevivências do velho regime, senão que deixe de pé algumas delas; isto é, que esta revolução não seja de todo conseqüente, não seja levada até o fim, não seja decidida e implacável... À burguesia convém mais, que as mudanças necessárias num sentido democrático-burguês se estabeleçam lentamente, gradualmente, prudentemente, de um modo cauto, por meio de reformas e não por via da revolução... que estas mudanças desenvolvam o menos possível a independência, a iniciativa e a energia revolucionária do povo simples, isto é, dos camponeses e principalmente dos operários, pois, de outro modo a estes últimos lhes será tanto mais fácil "mudar o fuzil de um ombro para o outro", como dizem os franceses, isto é, dirigir contra a própria burguesia a arma que a revolução burguesa põe em suas mãos, a liberdade que esta lhes dá, as instituições democráticas que brotam no terreno limpo do feudalismo. Pelo contrário, à classe operária convém mais que as mudanças necessárias num sentido democrático-burguês se introduzam não por meio de reformas, senão pela via revolucionária, pois o caminho reformista é o caminho dos adiamentos, dos estabelecimentos de prazo, da agonia dolorosa e lenta dos membros podres do organismo social e os que mais e primordialmente sofrem com este processo de agonia, são o proletariado e os camponeses. Em troca o caminho revolucionário é o único caminho que consiste na operação mais rápida e menos dolorosa para o proletariado, na eliminação direta dos membros podres, o caminho de mínimas concessões e cautelas com respeito à monarquia e a suas instituições repelentes, ignominiosas e podres, que envenenam a atmosfera com sua decomposição". (Obra citada, págs. 57-58).

"Precisamente por isso — continua Lenin — o proletariado luta na vanguarda pela República, rechaçando com desprezo os conselhos nécios e indignos dele, dos que lhe dizem que tenha cuidado para não assustar a burguesia". (Obra citada, pág. 94).

Para que a possibilidade de que o proletariado dirija a revolução se converta em realidade, para que o proletariado se erija de fato em chefe, em dirigente da revolução burguesa, duas condições, pelo menos, têm que se dar, segundo Lenin.

Em primeiro lugar, é necessário que o proletariado conte com um aliado que se ache interessado no triunfo decisivo sobre o czarismo e que esteja disposto a colocar-se sob a direção do proletariado. Esta exigência vai implicar na própria idéia de direção, pois o dirigente deixa de o ser quando não tem a quem dirigir e o chefe, quando não tem a quem mandar. Eram os camponeses — segundo Lenin — este aliado.

Em segundo lugar, é necessário que a classe, que se acha em luta com o proletariado por dirigir a revolução, por erigir-se em seu único dirigente, seja eliminada da luta pela direção e isolada. Também isto vai implícito na própria idéia de direção, que exclui a possibilidade de admitir dois dirigentes da revolução. Esta classe era, segundo Lenin, a burguesia liberal.

"Só o proletariado — escrevia Lenin — pode ser um lutador conseqüente pelo democratismo. Porém, só pode lutar vitoriosamente pelo democratismo com a condição de que as massas camponesas se unam à sua luta revolucionária". (Obra citada, pág. (35).

E mais adiante:

"Entre os camponeses há, ao lado dos elementos pequeuo-burgueses, uma massa de elementos semiproletários. Isto lhes faz ser também instáveis, obrigando o proletariado a fundir-se num partido rigorosamente de classe. Porém a instabilidade dos camponeses é radicalmente diferente da instabilidade da burguesia; pois neste momento concreto os camponeses se acham menos interessados em que se mantenha indene a propriedade privada do que em arrebatar aos latifundiários suas terras, que são uma das principais formas daquela propriedade. Sem se converterem por isso em socialistas nem deixarem de ser pequenos burgueses, os camponeses são suscetíveis de atuar como os mais perfeitos e radicais defensores da revolução democrática. Os camponeses procederão inevitavelmente assim, sempre e quando a marcha dos acontecimentos revolucionários que iluminam seu caminho não se interromper bruscamente pela traição da burguesia e da derrota do proletariado. Os camponeses se converterão inevitavelmente sob tal condição, num baluarte da revolução e da República; já que só uma revolução plenamente vitoriosa pode dar ao camponês tudo em matéria de reforma agrária, tudo quanto o camponês quer, com o que sonha e o que realmente necessita". (Obra citada, páginas 94-95).

Analisando as objeções dos mencheviques, que afirmavam que semelhante tática, a traçada pelos bolcheviques, "obrigará as classes burguesas a voltar as costas à revolução, com o que reduzirá o alcance desta", e caracterizando-a como "uma tática de traição à revolução", como a "tática de converter o proletariado num lamentável apêndice às classes burguesas", Lenin escrevia:

"Quem compreender verdadeiramente qual é o papel dos camponeses na revolução russa vitoriosa, será incapaz de dizer que o alcance da revolução se reduz se a burguesia lhe volta as costas, pois, na realidade, a revolução russa não começará a adquirir seu verdadeiro alcance, não começará a adquirir a maior envergadura revolucionária possível na época da revolução democrático-burguesa, até que a burguesia não lhe volte as costas e o elemento revolucionário ativo não seja a massa camponesa, em união com o proletariado. Para ser levada conseqüentemente a término, nossa revolução democrática deve apoiar-se em forças capazes de contrabalançar a inevitável inconsequência da burguesia, isto é, capazes precisamente de "obrigá-la a voltar as costas". (Obra citada, págs. 95-96).

Tal é a tese tática fundamental sobre o proletariado como chefe da revolução burguesa, a tese tática fundamental sobre a hegemonia (papel dirigente) do proletariado na revolução burguesa, desenvolvida por Lenin em sua obra "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática".

Com isso, o partido marxista se situava num ponto de vista novo ante os problemas da tática na revolução democrático-burguesa, ponto de vista que se distinguia profundamente das posições táticas que até então figuravam no arsenal marxista. Anteriormente, o problema se reduzia a que, nas revoluções burguesas, por exemplo, nas dos países ocidentais, o papel dirigente ficasse em mãos da burguesia, vendo-se o proletariado reduzido, na melhor das hipóteses ao papel de auxiliar, e os camponeses convertidos em reserva da burguesia. Os marxistas consideravam esta combinação como algo mais ou menos inevitável, fazendo no ato a reserva de que o proletariado devia defender, neste transe, o mais possível, suas reivindicações imediatas de classe e ter seu partido político próprio. Agora, dentro da nova situação histórica, o problema era colocado, de acordo com o ponto de vista de Lenin, de um modo novo: o proletariado passava a ser a força dirigente da revolução burguesa, a burguesia era deslocada da direção do movimento revolucionário, e os camponeses se convertiam na reserva do proletariado.

A crença de que Plekhanov "era também partidário" da hegemonia do proletariado, responde a um equívoco. Plekhanov "coqueteava" com a idéia da hegemonia do proletariado, embora seja certo que a reconhecia de palavra, de fato era contrário à essência desta idéia. A hegemonia do proletariado implica no papel dirigente deste na revolução burguesa, com uma política de aliança entre o proletariado e os camponeses e uma política de isolamento da burguesia liberal, sendo assim que Plekhanov era, como sabemos, contrário a esta política de isolamento da burguesia liberal, partidário de uma política de acordo com esta burguesia e contrário à política de aliança entre o proletariado e os camponeses. Na realidade, o ponto de vista tático de Plekhanov era o ponto de vista menchevique, que consistia em negar a hegemonia do proletariado.

2) Lenin considerava como meio mais importante para derrubar o czarismo e conquistar a República democrática, a insurreição armada vitoriosa do povo. Entendia, ao contrário dos mencheviques, que

"o movimento revolucionário democrático geral propunha já a necessidade da insurreição armada", que "a organização do proletariado para a insurreição" já "estava na ordem do dia, como uma das tarefas essenciais, fundamentais e necessárias do Partido", que era necessário "tomar as medidas mais enérgicas para armar o proletariado e assegurar-lhe a possibilidade de tomar em suas mãos a direção imediata da insurreição" (Lenin, t. VIII, pág. 75, ed. russa).

Para levar as massas à insurreição e fazer esta extensiva a todo o povo, Lenin considerava necessário lançar às massas as consignas, os chamados adequados para desenvolver sua iniciativa revolucionária, para organizá-las com vistas à insurreição e desorganizar o aparelho do Poder do czarismo. Estas consignas eram, segundo ele, as resoluções táticas do III Congresso do Partido em cuja defesa se consagrava sua obra: "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática".

Eis aqui quais eram estas consignas:

1. Emprego das "greves políticas de massas, que podem ter grande importância no começo e no próprio transcurso da insurreição". (Obra citada, pág. 75).

2. "Implantação imediata, pela via revolucionária, da jornada de 8 horas e outras reivindicações imediatas da classe operária". (Obra citada, pág. 47).

3. "Organização imediata de Comitês camponeses revolucionários para implantar" pela via revolucionária, "todas as mudanças democráticas" até chegar à confiscação das terras dos latifundiários. (Obra citada, pág. 88).

4. Armamento do proletariado.

Dois pontos interessa especialmente destacar aqui:

Em primeiro lugar, a tática da implantação revolucionária da jornada de 8 horas na cidade e das mudanças democráticas no campo; isto é, sua implantação sem contar com as autoridades, sem contar com a lei, prescindindo das autoridades e da legalidade, destroçando as leis vigentes e instaurando uma nova ordem pela própria força das massas, por sua própria vontade. Era este um novo meio tático cuja aplicação paralisava o aparelho de Poder do czarismo e libertava a atividade e a iniciativa criadora das massas. Na base desta tática surgiram os comitês revolucionários de greve na cidade e os comitês revolucionários de camponeses no campo, que haviam de converter-se mais tarde nos Soviets de deputados operários e nos Soviets de deputados camponeses, respectivametite.

Em segundo lugar, o emprego das greves políticas de massas, o emprego das greves políticas gerais, que mais tarde, no transcurso da revolução, haviam de desempenhar um papel de primeira ordem para a mobilização revolucionária das massas. Era esta uma arma nova e importantíssima nas mãos do proletariado, arma desconhecida até então na atuação dos partidos políticos marxistas e que havia de adquirir mais tarde carta de cidadania.

Lenin entendia que, como resultado da insurreição vitoriosa do povo, o governo czarista haveria de ser substituído por um governo provisório revolucionário. A missão deste governo provisório revolucionário consistiria em garantir as conquistas da revolução, em esmagar a resistência da contra-revolução e em realizar o programa mínimo do Partido Operário Social-Democrata da Rússia. Lenin entendia que sem isto era impossível conseguir um triunfo decisivo sobre o czarismo. E, para cumprir esta missão e lograr um triunfo decisivo sobre o czarismo, o governo provisório revolucionário devia ser, não um governo como outro qualquer, senão o governo da ditadura das classes vitoriosas, dos operários e camponeses, a ditadura revolucionária do proletariado e dos camponeses. Referindo-se à conhecida tese de Marx, segundo a qual

"a estrutura provisória de todo Estado depois da revolução exige a ditadura, e uma ditadura enérgica",

Lenin chegava à conclusão de que, se se queria assegurar o triunfo decisivo sobre o czarismo, o governo provisório revolucionário só podia ser a ditadura do proletariado e dos camponeses.

"O triunfo decisivo da revolução sobre o czarismo — escrevia Lenin — é a ditadura revolucioiiário-democrático do proletariado e dos camponeses... Este triunfo será, precisamente, uma ditadura; isto é, deverá apoiar-se inevitavelmente na força das armas, nas massas armadas, na insurreição, e não nestas ou naquelas instituições criadas "pela via pacífica". Só pode ser uma ditadura, porque a implantação das mudanças imediata e absolutamente necessárias para o proletariado e os camponeses provocará uma resistência desesperada por parte dos latiiundiários, da grande burguesia e do czarismo. Sem ditadura, será impossível esmagar esta resistência, rechaçar as tentativas contra-revolucionárias. Porém, não será, naturalmente, uma ditadura socialista, senão uma ditadura democrática. Esta ditadura não poderá tocar (sem passar por toda uma série de graus intermediários de desenvolvimento revolucionário) nas bases do capitalismo. Poderá, no melhor dos casos, introduzir mudanças radicais na distribuição da propriedade da terra a favor dos camponeses, implantar um democratismo conseqüente e completo, até chegar à República, desarraigar não só dos costumes camponeses, como também dos hábitos fabris, todos os traços asiáticos e servis, iniciar um melhoramento sério na situação dos operários e elevar seu nível de vida, e finalmente — o último na ordem, porém não em importância — atear a fogueira revolucionária na Europa. Semelhante triunfo não converterá ainda, e longe disso, nossa revolução burguesa em socialista; a revolução democrática não sairá imediatamente do estado das relações econômico-sociais burguesas, porém não obstante isto, terá uma importância gigantesca para o futuro desenvolvimento da Rússia e do mundo inteiro. Nada elevará a tal altura a energia revolucionária do proletariado mundial, nada encurtará tão consideravelmente o caminho que conduz à sua vitória total, como este triunfo decisivo da revolução que já se iniciem na Rússia". (Obra citada, págs. 62-68).

No tocante à atitude da social-democracia ante o governo provisório revolucionário e à possibilidade de que aquela participasse nele, Lenin defendia integralmente a correspondente resolução do III Congresso do Partido, que dizia assim:

"De acordo com a correlação de forças e outros fatores que não é possível fixar com precisão de antemão, é admissível a participação de representantes de nosso Partido no governo provisório revolucionário, com o fim de lutar implacavelmente frente a todas as tentativas contra-revolucionárias e defender os interesses próprios e peculiares da classe operária; condição necessária para esta participação é o controle rigoroso do Partido sobre seus representantes e a manutenção inquebrantável da independência da social-democracia, que aspira à revolução socialista completa e é, portanto, irreconciliavelmente inimiga de todos os partidos burgueses; independentemente de que seja ou não possível a participação da social-democracia no governo provisório revolucionário, deve propagar-se entre as mais extensas camadas do proletariado a idéia de que é necessário que o proletariado armado, dirigido pela social-democracia, pressione constantemente o governo provisório, com o fim de manter, consolidar e estender as conquistas da revolução". (Obra citada, pág. 37).

Às objeções dos mencheviques de que o governo provisório seria, apesar de tudo, um governo burguês e de que não era possível admitir a participação dos social-democratas em semelhante governo, a menos que se quisesse cometer o mesmo erro que o socialista francês Millerand cometera ao fazer parte do governo da burguesia francesa, Lenin contestava, fazendo ver que os mencheviques confundiam aqui duas coisas diferentes e revelavam incapacidade para abordar o problema como marxistas: na França, tratava-se da participação dos socialistas num governo burguês reacionário e numa época em que não existia uma situação revolucionária dentro do país, o que obrigava os socialistas a não participarem naquele governo; em troca, na Rússia, tratava-se da participação dos socialistas num governo burguês revolucionário, que lutava pelo triunfo da revolução, num momento em que esta se achava em seu apogeu, circunstância que tornava admissível, e, sob condições próprias, obrigada, a participação dos social-democratas nele, para dar batalha à contra-revolução, não só "de baixo" e de fora, senão também, "de cima" e de dentro do governo.

3) Ao lutar pelo triunfo da revolução burguesa e pela conquista da República democrática, Lenin não pensava, e longe disso, deter-se na etapa democrática e reduzir o alcance do movimento revolucionário à consecução dos objetivos democrático-burgueses. Pelo contrário, entendia que, imediatamente depois de conseguidos os objetivos democráticos, ter-se-ia de começar a luta do proletariado e das demais massas exploradas, pela revolução socialista. Lenin sabia isto e considerava dever da social-democracia tomar todas as medidas destinadas a que a revolução democrático-burguesa começasse a transformar-se em revolução socialista. Se Lenin reputava necessária a ditadura do proletariado e dos camponeses, não era para pôr fim à revolução depois de coroada a vitória sobre o czarismo, senão para prolongar o mais possível o estado de revolução, para destruir integralmente os vestígios da contra-revolução, para fazer que a chama da revolução se estendesse à Europa e, depois de lograr que, durante este tempo, o proletariado se educasse politicamente e se organizasse num grande exército, começar a passar diretamente para a revolução socialista.

Referindo-se ao alcance da revolução burguesa e ao caráter que o partido marxista deve dar-lhe, Lenin escrevia:

"O proletariado deve levar acabo a revolução democrática, atraindo para si a massa dos camponeses, para esmagar pela força a resistência da autocracia e paralisar a instabilidade da burguesia. O proletariado deve consumar a revolução socialista, atraindo para si a massa dos elementos semiproletários da população, para destroçar pela força a resistência da burguesia e paralisar a instabilidade dos camponeses e da pequena burguesia. Tais são as tarefas do proletariado, que os neo-iskristas (isto é, os mencheviques, N. da R.) representam de um modo tão mesquinho em todas as suas argumentações e resoluções sobre o alcance da revolução" (Lenin, t. VIII, pág. 96, ed. russa).

E mais adiante:

"À frente de todo o povo, e em particular, dos camponeses, pela liberdade total, pela revolução democrática conseqüente, pela República! À frente de todos os trabalhadores e explorados pelo socialismo! Tal deve ser, na prática, a política do proletariado revolucionário, esta e a consigna de classe que deve indicar e determinar a solução de todos os problemas táticos, de todos os passos práticos do Partido operário durante a revolução". (Obra citada, pág. 105).

Para que não ficasse nenhuma dúvida, dois meses depois de aparecer seu livro "As duas táticas", em seu artigo intitulado "A atitude da social-democracia frente ao movimento camponês", Lenin expunha:

"Da revolução democrática começaremos a passar imediatamente, na medida de nossas forças, das forças do proletariado consciente e organizado, à revolução socialista. Nós somos partidários da revolução ininterrupta. Não ficaremos na metade do caminho". (Obra citada, pág. 186).

Era este um novo ponto de vista a respeito do problema das relações entre a revolução burguesa e a revolução socialista, uma nova teoria da reagrupação de forças em torno do proletariado, ao terminar a revolução burguesa, para passar diretamente à revolução socialista, a teoria da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista.

Ao traçar este novo ponto de vista, Lenin se apoiava, em primeiro lugar, na conhecida tese de Marx sobre a revolução ininterrupta, tese que figura na "Circular da Liga dos Comunistas", redigida em fins da década de 40 do século passado, e em segundo lugar, na conhecida idéia de Marx, sobre a necessidade de combinar o movimento revolucionário camponês com a revolução proletária, expressada numa carta dirigida a Engels em 1856, na qual diz:

"Todo o problema, na Alemanha, dependerá da possibilidade de apoiar a revolução proletária com uma espécie de segunda edição da guerra camponesa".

Estas idéias geniais de Marx não foram desenvolvidas mais tarde por Marx e Engels, e os teóricos da Segunda Internacional tomaram todas as medidas para sepultá-las e enterrá-las no esquecimento. Coube a Lenin a tarefa de trazer de novo à luz estas teses esquecidas de Marx e de restaurá-las em toda a sua plenitude. Porém, em sua obra de restauração destas teses, não se limitou, nem podia limitar-se, pura e simplesmente, a repeti-las, mas as desenvolveu e as elaborou numa teoria harmônica da revolução socialista, juntando, como aspecto obrigado desta, um novo fator: o da aliança do proletariado e dos elementos semiproletários da cidade e do campo, como condição para o triunfo da revolução proletária.

Este ponto de vista fez em pedaços as posições táticas da social-democracia dos países ocidentais, que partia da suposição de que depois da revolução as massas camponesas, sem excluir as massas pobres do campo, se apartariam necessariamente da revolução, pelo que a revolução burguesa viria forçosamente seguida de um longo período de trégua; de um longo período "pacífico", que duraria de 50 a 100 anos ou mais e durante o qual o proletariado seria explorado "pacificamente" e a burguesia se enriqueceria "legitimamente" até que chegasse o momento da nova revolução, da revolução socialista.

Era esta uma nova teoria da revolução socialista realizada, não pelo proletariado isolado contra toda a burguesia, senão pelo proleta-riado-dirigente, aliado aos elementos semiproletários da população, representados pelos milhões das "massas trabalhadoras exploradas".

Segundo esta teoria, a hegemonia do proletariado na revolução burguesa, mediante a aliança do proletariado e dos camponeses, devia converter-se gradualmente na hegemonia do proletariado na revolução socialista, mediante a aliança do proletariado e das demais massas trabalhadoras e exploradas, e a ditadura democrática do proletariado e dos camponeses prepararia o terreno para a ditadura socialista do proletariado.

Este ponto de vista deitou por terra a teoria em voga dos social-democratas europeus ocidentais, que negavam as possibilidades revolucionárias das massas semiproletárias da cidade e do campo e partiram da suposição de que

"fora da burguesia e do proletariado, não vemos outras forças sociais nas quais as combinações oposicionistas e revolucionárias de nosso país possam apoiar-se" (Palavras de Plekhanov típicas dos social-democratas da Europa Ocidental).

Os social-democratas da Europa Ocidental entendiam que na revolução socialista o proletariado estaria só contra toda a burguesia, sem aliados, frente a todas as classes e camadas não proletárias. Não queriam levar em conta o fato de que o capital não explora somente os proletários, mas explora também milhões de homens das camadas semiproletárias da cidade e do campo, asfixiados pelo capitalismo e suscetíveis de se converterem em aliados do proletariado na luta por emancipar a sociedade do jugo capitalista. Por isso, os social-democratas europeus ocidentais opinavam que na Europa não haviam amadurecido ainda as condições para a revolução socialista e que estas condições só podiam considerar-se maduras quando o proletariado representasse a maioria dentro da nação, a maioria dentro da sociedade, como resultado do ulterior desenvolvimento econômico desta.

Este ponto de vista podre e antiproletário dos social-democratas da Europa Ocidental era o que a teoria da revolução socialista preconizada por Lenin vinha deitar por terra.

Na teoria de Lenin não se chegava ainda diretamente à conclusão que era possível o triunfo do socialismo num só país separadamente. Porém, todos ou quase todos os elementos fundamenteis necessários para chegar, mais cedo ou mais tarde à dita conclusão, já se continham nela.

Como é sabido, Lenin chegou a esta conclusão em 1915, isto é, dez anos mais tarde.

Tais são as teses fundamentais sobre tática, desenvolvidas por Lenin, em sua histórica obra "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática".

A importância histórica deste livro consiste, antes de tudo, em que veio destruir ideologicamente o ponto de vista tático pequeno-burguês dos mencheviques, armando a classe operária da Rússia com as armas necessárias para o desenvolvimento futuro da revolução democrático-burguesa, para a nova acometida contra o czarismo, e dando aos social-democratas russos uma perspectiva clara sobre a transformação necessária da revolução burguesa na revolução socialista.

Porém a importância da obra de Lenin não se reduz a isto. Seu valor inapreciável reside em haver enriquecido o marxismo com uma nova teoria da revolução e em haver assentado as bases da tática revolucionária do Partido bolchevique, graças ao que pôde o proletariado de nosso país, em 1917, triunfar sobre o capitalismo.





4



A revolução prossegue sua marcha ascendente.

A greve política geral de outubro de 1905 em toda a Rússia.

Recuo do czarismo.

A mensagem do czar.

Aparecem os Soviets de deputados operários.





Para o outono de 1905, o movimento revolucionário se estendeu a todo o país, adquirindo, além disso, um impulso esmagador.

A 19 de setembro estalou em Moscou uma greve dos operários tipógrafos. De Moscou se estendeu a Petersburgo e a outras cidades. Em Moscou, foi apoiada pelos operários de outras indiístrias e se converteu numa greve geral de caráter político.

Nos primeiros dias de outubro começou a greve na estrada de ferro de Moscou a Kazan. No dia seguinte, estavam em greve os operários de todo o centro ferroviário de Moscou. Rapidamente a greve se estendeu a todas as ferrovias do país. Pararam também os empregados dos Correios e Telégrafos. Os operários de diversas cidades da Rússia se reuniram em grandes meetings e concordaram em abandonar o trabalho. A greve ia-se estendendo de uma fábrica a outra, de uma empresa a outra, de uma cidade a outra e de uma a outra região. Faziam causa comum com os operários grevistas os pequenos empregados, os estudantes, os intelectuais, advogados, engenheiros, médicos, etc.

A greve política geral de outubro se estendeu a toda a Rússia, se comunicou a quase todo o país, até as comarcas mais remotas, e arrastou quase todos os operários, até as camadas mais atrasadas. Nesta greve geral de caráter político tomaram parte cerca de um milhão de homens, contando somente os operários industriais sem incluir os ferroviários, os empregados dos Correios e Telégrafos, nem outros ramos de trabalho, que deram também contingente de grevistas. Toda a vida do país licou paralisada. O governo via-se atado de pés e mãos.

A consigna dos bolcheviques sobre a greve política de massas dava seus frutos.

A greve geral de outubro evidenciou a força, a potência do movimento proletário, e obrigou o czar, morto de medo, a lançar sua mensagem de 17 de outubro de 1905. Nesta mensagem, o czar prometia ao povo "as bases irremovíveis das liberdades políticas: inviolabilidade efetiva da personalidade, liberdade de consciência, de palavra, de reunião e de coalizão". Prometia, além disso, convocar uma Duma legislativa, concedendo direitos eleitorais a todas as classes da população.

A força da revolução se encarregou, pois, de varrer a Duma puramente consultiva de Bulguin. A tática bolchevique de boicote contra esta caricatura de parlamento fora acertada. Entretanto, a mensagem de 17 de outubro era uma manobra para enganar as massas do povo, um engodo do czar, uma espécie de respiro de que necessitava para aturdir os incautos, ganhar tempo, forças e logo depois descarregar um golpe contra a revolução. O governo czarista, ainda que prometesse de palavra conceder a liberdade, não dava nada de substancial ao povo. De momento, os operários e camponeses não haviam recebido do governo outra coisa senão promessas. Em vez da grande anistia política que se esperava, a 21 de outubro foram anistiados somente um punhado de presos políticos. Ao mesmo tempo, com o objetivo de semear a discórdia entre as forças do povo, o governo organizou uma série de sangrentos progroms de judeus, nos quais pereceram milhares e milhares de seres, criou vários grupos policiais, como a "União do povo russo", a "Liga do Arcanjo S. Miguel", etc, destinadas a reprimir a revolução. Estas organizações, nas quais predominavam os latifundiários e comerciantes reacionários, os popes e alguns elementos dignos de cadeia por vadiagem, foram batizados pelo povo com o nome de "Centúrias Negras". Os indivíduos destes grupos, em colaboração com a polícia, espancavam e assassinavam impunemente os operários avançados, intelectuais e estudantes revolucionários, botavam fogo nos locais e dissolviam a tiros os meetings e as manifestações. A isto se reduziam, no momento, os resultados tangíveis da mensagem do czar. Entre o povo circulava então esta quadra:

"O czar todo assustado,

lançou uma mensagem:

liberdade aos mortos,

os vivos ao cárcere".

Os bolcheviques faziam ver às massas que a mensagem do czar era uma cilada. Fustigavam como uma provocação a conduta do governo depois de dar a mensagem. Chamavam os operários às armas, a preparar a insurreição armada.

Os operários dedicavam-se ainda mais energicamente a formar suas milícias armadas. Compreendiam claramente que aquela primeira vitória de 17 de outubro, arrancada pela greve política geral, os obrigava a continuar desenvolvendo seus esforços, a continuar lutando pela derrocada do czarismo.

Lenin, julgando a mensagem de 17 de outubro, caracterizava-a como um monumento de certo equilíbrio provisório de forças, no qual o proletariado e os camponeses, havendo arrancado do czar aquela mensagem, não tinham ainda força para derrubar o czarismo, porem este já não podia governar exclusivamente com os meios antigos e via-se obrigado a prometer de palavra "liberdades políticas" e uma Duma "legislativa".

Nos dias agitados da greve política de outubro, sob o fogo da luta contra o czarismo, a iniciativa criadora revolucionária das massas operárias forjou uma nova e poderosa arma: os Soviets de deputados operários.

Os Soviets de deputados operários, assembléias de delegados de todas as fábricas e empresas industriais, eram uma organização política de massa da classe operária, sem precedente no mundo. Estes Soviets, que aparecem pela primeira vez em 1905, haviam de ser o protótipo do Poder Soviético, criado pelo proletariado, sob a direção do Partido bolchevique, em 1917. Os Soviets eram uma nova forma revolucionária, fruto da invenção popular. Foram criados exclusivamente pelas camadas revolucionárias da população, saltando por cima de todas as leis e normas do czarismo. Foram obra da iniciativa própria das massas, lançados à luta contra o regime czarista.

Os bolcheviques viam nos Soviets o gérmen do Poder revolucionário. E entendiam que a força e a importância dos Soviets dependiam da força e dos êxitos da insurreição.

Os mencheviques não consideravam os Soviets nem como órgãos incipientes do Poder revolucionário nem como órgãos da insurreição. Viam neles simplesmente, órgãos de autonomia local, uma espécie de juntas urbanas democratizadas.

A 13 (26) de outubro de 1905, efetuaram-se em todas as fábricas e empresas industriais de Petersburgo as eleições ao Soviet de deputados operários. Pela noite se celebrou a primeira sessão do Soviet. Pouco depois do de Petersburgo, se organizou o Soviet de deputados operários de Moscou.

O Soviet de deputados operários de Petersburgo, por ser o do centro industrial e revolucionário mais importante da Rússia, o da capital do Império czarista, estava chamado a desempenhar um papel decisivo na revolução de 1905. Porém sua má direção, que estava nas mãos dos mencheviques, o impediu de cumprir com sua missão. Como é sabido, por aquela época Lenin ainda não se achava em Petersburgo; continuava no estrangeiro. Os mencheviques, aproveitando-se de sua ausência, se infiltraram no Soviet de Petersburgo e se apoderaram da sua direção. Nestas condições, não é de se estranhar que os mencheviques Yruslatiev, Trotsky, Parvus e outros conseguissem pôr o Soviet de Petersburgo contra a política da insurreição. Em vez de aproximar os soldados do Soviet e incorporá-los à luta geral, exigiram que fossem afastados de Petersburgo. Em vez de armar os operários e prepará-los para a insurreição, o Soviet dava voltas e mais voltas sem mover-se do lugar e adotava uma atitude negativa frente à preparação do movimento insurrecional.

Totalmente diferente foi o papel que desempenhou na revolução o Soviet de deputados operários de Moscou. O Soviet de Moscou levou a cabo desde os primeiros dias de sua existência uma política revolucionária conseqüente. A direção deste Soviet estava nas mãos dos bolcheviques. Graças a isto, surgiu em Moscou, ao lado do Soviet de deputados operários, um Soviet de deputados soldados. O Soviet de Moscou se converteu no órgão da insurreição armada.

Durante os meses de outubro a dezembro de 1906, criaram-se Soviets de deputados operários numa série de grandes cidades e em quase todos os centros operários. Houve tentativas de organização de Soviets de deputados, de soldados e marinheiros e de fusão destes com os deputados operários. Em alguns lugares, surgiram Soviets de deputados operários e camponeses.

A influência dos Soviets era imensa. Apesar de que com freqüência brotavam de um modo espontâneo, sem estarem estruturados nem terem uma composição coerente, atuavam como Poder. Os Soviets implantaram por via de fato a liberdade de Imprensa e a jornada de 8 horas e se dirigiram ao povo incitando-o a não pagar os impostos ao governo czarista. Em alguns casos, procediam ao confisco do dinheiro do erário czarista e o invertiam nas necessidades da revolução.






5



A insurreição armada de dezembro.

É derrotada a insurreição.

A revolução recua.

A primeira Duma.

O IV Congresso (de unificação) do Partido.



A luta revolucionária das massas continuou desenvolvendo-se com uma força enorme durante os meses de outubro e novembro de 1905. O movimento de greves continuava seu curso.

No outono de 1905, a luta dos camponeses contra os latifundiários tomou amplas proporções. O movimento camponês abarcava já mais de uma terça parte dos distritos de todo o país. Nas províncias de Saratov, Tamboy, Chernigov, Tiflis, Kutais e algumas outras se desenvolveu uma verdadeira insurreição camponesa. Apesar disto, as massas camponesas não tinham ainda o suficiente "élan". O movimento camponês sofria de falta de organização e de direção.

Crescia também a agitação entre as massas de soldados numa série de cidades como Tiflis, Vladivostok, Tashkent, Samarkanda, Kursk, Sukhum, Varsóvia, Kiev e Riga. Estalou também uma sublevação entre os marinheiros de Kronstadt e na esquadra do Mar Negro, em Sebastopol (novembro de 1905). Porém estas sublevações, isoladas, foram esmagadas pelo czarismo.

Em algumas unidades do Exército e da frota, o motivo que dava origem às sublevações, era, não poucas vezes, a grosseria dos oficiais, a má qualidde do rancho ("revoltas do feijão"), etc.

A massa dos marinheiros e soldados sublevados não tinha ainda clara consciência da necessidade de derrubar o governo czarista e de prosseguir energicamente a luta armada. Os soldados e marinheiros sublevados ainda abrigavam um espírito demasiado pacífico e generoso: com freqüência, cometiam o erro de pôr em liberdade os chefes e oficiais detidos, ao estalar a sublevação, deixando-se levar por promessas e pelos subterfúgios do comando.

A revolução entrava de cheio na fase da insurreição armada. Os bolcheviques haviam chamado as massas à insurreição armada contra o czar e os latifundiários, explicando-lhes a inevitável necessidade de acudir a ela. Sem um momento de descanso, puseram-se a preparar a insurreição armada. Desenvolvendo seu trabalho revolucionário entre os soldados e os marinheiros, criaram dentro do Exército organizações militares do Partido. Numa série de cidades se formaram milícias armadas de operários, ensinando-se a seus componentes a manejar as armas. Foi organizada a compra de armas no estrangeiro e o transporte clandestino para a Rússia. Nestas atividades tomaram parte prestigiosos militantes do Partido.

Em novembro de 1905, Lenin regressou à Rússia. Ocultando-se dos gendarmes e espiões czaristas, tomou pessoalmente parte, durante aqueles dias na preparação da insurreição armada. Seus artigos, publicados no periódico bolchevique "Novaia Zhisn" ("Vida Nova"), o camarada Stalin desenvolvia um formidável trabalho revolucionário na Transcaucásia. Derrotava os mencheviques e os desmascarava como inimigos da revolução e da insurreição armada, e preparava tenazmente os operários para a luta decisiva contra a autocracia. Num meeting celebrado em Tiflis no dia em que foi publicada a mensagem do czar, Stalin disse aos operários:

"Que necessitamos para conseguir um verdadeiro triunfo? Necessitamos de três coisas: armamento, armamento e mais armamento".

Em dezembro de 1905, se reuniu em Tammerfors (Finlândia) a conferência dos bolcheviques. Embora formalmente bolcheviques e mencheviques participassem do mesmo partido, do Partido social-democrata, de fato representavam dois partidos diferentes, cada qual com seus órgãos centrais correspondentes. Foi nesta conferência que Lenin e Stalin se conheceram pessoalmente. Até então, se mantiveram constantemente em relações, por meio de cartas ou através de camaradas.

Entre as resoluções de Tammerfors devem-se assinalar aqui duas: uma, sobre o restabelecimento da unidade do Partido, cindido de fato em dois, e outra, sobre o boicote à primeira Duma de Witte.

Como por aqueles dias já havia estalado em Moscou a insurreição armada, a conferência, por conselho de Lenin, se apressou em terminar suas tarefas e os delegados regressaram a suas respectivas localidades, para tomarem parte pessoalmente na insurreição.

Porém o governo czarista não dormia. Também ele se preparava para a luta decisiva. Depois de concertar a paz com o Japão, aliviando com isso sua difícil situação, o governo czarista passou à ofensiva contra os operários e os camponeses. Proclamou o estado de guerra numa série de províncias às quais a insurreição camponesa afetava, deu ordens brutais — "nada de prisioneiros!", "não poupar cartuchos!" — e ordenou a detenção dos dirigentes do movimento revolucionário e a dissolução dos Soviets de deputados operários.

Os bolcheviques de Moscou e o Soviet de deputados operários desta capital, dirigido por eles e vinculado a grandes massas operárias, resolveram em vista disto levar a cabo a preparação imediata da insurreição armada. A 5 (18) de dezembro, o Comitê de Moscou tomou a resolução de propor ao Soviet declarar a greve geral de caráter político, para logo depois no transcurso da luta, convertê-la em insurreição. Esta resolução foi apoiada por comícios operários de massas. O Soviet de Moscou, submetendo-se à vontade da classe operária, decidiu por unanimidade a greve geral.

O proletariado de Moscou contava, ao começar a insurreição, com sua própria milícia: cerca de mil homens, mais da metade dos quais eram bolcheviques. Existiam também milícias numa série de fábricas de Moscou. O número total de milicianos de que dispunham os revolucionários era de cerca de dois mil. Os operários contavam que poderiam neutralizar e dividir as tropas da guarnição, fazendo passar para seu campo uma parte delas.

A 7 (20) de dezembro começou a greve política em Moscou. Não se conseguiu, entretanto, que a greve se estendesse a todo o país; em Petersburgo, não se encontrou o apoio necessário, o que contribuiu para debilitar, desde o primeiro momento, as possibilidades de êxito da insurreição. A ferrovia de Nicolau, hoje de Outubro, achava-se em mãos do governo czarista. O tráfico nesta linha ferroviária não se paralisou, e o governo pôde transportar de Petersburgo a Moscou os regimentos da Guarda para esmagar a insurreição.

A guarnição de Moscou estava vacilante. Os operários se haviam lançado ao movimento insurrecional, confiando, em parte, no apoio da guarnição. Porém os revolucionários perderam tempo, e o governo czarista pôde triunfar das revoltas na guarnição.

A 9 (22) de dezembro se levantaram em Moscou as primeiras barricadas. A seguir foram cobertas de barricadas as mas da cidade. O governo czarista pôs a artilharia em ação. Concentrou tropas, cujo número excedia numa proporção arrasadora o das forças dos revolucionários. Durante nove dias, uns quantos milhares de operários armados mantiveram uma luta heróica. Para sufocar a insurreição, o czarismo viu-se obrigado a trazer tropas de Petersburgo, de Tver e do território Oeste. Os órgãos dirigentes do movimento tinham sido, em parte detidos e, em parte isolados na véspera do dia em que a luta começou. O Comitê bolchevique de Moscou foi detido. A ação armada se converteu numa insurreição de distritos soltos, sem conexão entre si. Carentes de um centro de direção e sem um plano geral de luta em toda a cidade, os distritos lutavam, fundamentalmente, na defensiva. E esta foi, como mais tarde havia de fazer notar Lenin, uma das razões fundamentais da debilidade da insurreição de Moscou e uma das causas de seu fracasso.

A insurreição adquiriu um caráter especialmente tenaz e encarniçado na barricada de Krasnaia Presnia em Moscou. Esta barricada era a fortaleza principal, o centro da insurreição. Era ali onde as melhores milícias, dirigidas pelos bolcheviques, estavam concentradas. Porém foi submetida a sangue e fogo, afogada em sangue e reduzida a escombros pelos incêndios provocados pela artilharia. A insurreição de Moscou foi esmagada.

A insurreição não ficou circunscrita a Moscou. O movimento revolucionário insurrecional se estendeu também a outras cidades e regiões, como Krasnoyarsk, Motovilika (Perm), Novorosisk, Sormov, Sebastopol e Kronstadt.

Tomaram também parte na luta armada as nacionalidades oprimidas da Rússia. A insurreição desencadeou-se em quase toda a Geórgia. Estalou também uma grande insurreição na Ucrânia, na bacia do Donetz: em Gorlovka, Alexandrovsk e Lugansk (hoje Voroshilovgrad). Na Letônia, a luta foi encarniçada. Na Finlândia, os operários criaram sua guarda vermelha e se lançaram também à insurreição.

Porém, todas estas insurreições foram, do mesmo modo que a de Moscou, esmagadas com uma crueldade desumana pelo czarismo.

Os mencheviques e os bolcheviques julgaram de um modo diverso a insurreição armada de dezembro.

O menchevique Plekhanov lançou ao Partido, depois da insurreição armada, esta censura: Não se devia ter empunhado as armas. Os mencheviques expunham que a insurreição era desnecessária e prejudicial, que nas resoluções se pode prescindir da insurreição e que o êxito não se obtém com insurreições armadas, senão por meios pacíficos de luta.

Os bolcheviques estigmatizaram este julgamento como uma traição. Eles entendiam que a experiência da insurreição armada de Moscou não fazia mais que confirmar a necessidade de uma luta armada vitoriosa da classe operária. Contestando a censura de Plekhanov, quando dizia que "não se devia ter empunhado as armas", Lenin escreveu:

"Pelo contrário, o que se devia fazer era empunhar as armas mais resolutamente, com mais energia e maior combatividade explicar às massas a impossibilidade de uma greve puramente pacífica e a necessidade de uma luta armada intrépida e implacável" (Lenin, t. pág. 50, ed. russa).

A insurreição de dezembro de 1905 marca o ponto culminante da revolução. Em dezembro, a autocracia czarista inflingiu à insurreição uma derrota. Depois do processo da insurreição de dezembro, começou o recuo gradual da revolução. A marcha ascendente desta cessou, começando seu descenso gradual.

O governo czarista se apressou em aproveitar-se desta demita para estrangular a revolução. Os verdugos e os carcereiros czaristas começaram sua tarefa sangrenta. Na Polônia, na Letônia, na Estônia, na Transcaucásia, na Sibéria, por todas as partes, expedições punitivas fizeram estragos.

Porém a revolução ainda não estava esmagada. Os operários e os camponeses revolucionários recuavam pouco a pouco e lutando. Novas camadas de operários eram arrastadas à luta. O número de operários grevistas foi, em 1906, de mais de um milhão, em 1907, 740.000. No primeiro semestre do ano de 1906, o movimento camponês se estendia a cerca da metade dos distritos da Rússia czarista: no segundo semestre do dito ano, a uma quinta parte. A agitação dentro do Exército e da armada continuava.

Em sua luta contra a revolução, o governo czarista não se limitou à simples repressão. Depois de alcançar os primeiros êxitos pela via repressiva, decidiu assestar um novo golpe na revolução, mediante a convocação de uma Duma "Legislativa". Com esta manobra, aspirava desviar os camponeses da revolução, fazendo-a assim fracassar. Em dezembro de 1905, o governo czarista baixou uma lei sobre a convocação de uma Duma "Legislativa", e diferente da antiga Duma "consultiva" de Buliguin, que fracassara graças ao boicote dos bolcheviques. A lei eleitoral czarista era, naturalmente, antidemocrática. As eleições não tinham caráter geral. Ficava privada, absolutamente, de voto mais da metade da população, por exemplo: as mulheres e mais de dois milhões de operários. O voto não era igual. Os eleitores se classificavam em quatro "cúrias", como se dizia na linguagem da época: a agrária (latifundiários), a urbana (burguesia), a camponesa e a operária. As eleições não eram diretas, senão de vários graus. De fato, o voto não era secreto. A lei eleitoral garantia um predomínio formidável na Duma a um punhado de latifundiários e capitalistas sobre os milhões de operários e camponeses.

Com a Duma, o czar pretendia desviar as massas da revolução. Uma parte considerável dos camponeses acreditava, naquele tempo, na possibilidade de obter a terra por meio da Duma. Os kadetes, os mencheviques e os social-revolucionários enganavam os operários e os camponeses, fazendo-lhes crer que era possível conseguirem o regime que o povo necessitava sem insurreição e sem revolução. Para lutar contra este engano de que o povo era vítima, os bolcheviques declararam e levaram a cabo a tática de boicotar a primeira Duma, em cumprimento da resolução tomada na Conferência de Tammerfors.

Os operários, empenhados na luta contra o czarismo, exigiam, ao mesmo tempo, a unidade das forças do Partido, a unificação do Partido do proletariado. Os bolcheviques, armados com a resolução de unidade, tomada na Conferência de Tammerfors, que já conhecemos, apoiaram esta aspiração dos operários e propuseram aos mencheviques convocar um congresso de unificação do Partido. Sob a pressão das massas operárias, os mencheviques não tiveram outro remédio senão aceder à unificação.

Lenin era partidário da unificação, porém de uma unificação na qxial não se ocultassem as divergências referentes aos problemas da revolução. Causavam grande dano ao Partido os conciliadores (Bogdanov, Krassin e outros), com seus esforços por demonstrar que entre os bolcheviques e os mencheviques não existiam divergências importantes. Lutando contra os conciliadores, Lenin exigia que os bolcheviques se apresentassem no Congresso com sua própria plataforma, para que os operários pudessem ver claramente quais eram as posições dos bolcheviques e sobre que bases se operava a unificação. Os bolcheviques formularam esta plataforma e a puseram em discussão entre os membros do Partido.

Em abril de 1906, reuniu-se em Estocolmo (Suécia) o IV Congresso do P.O.S.D.R., que se conhece com o nome de Congresso de Unificação. Tomaram parte neste Congresso 111 delegados com voz e voto, representando 57 organizações de base do Partido. Além disso, assistiram a ele representantes de alguns partidos social-democratas nacionais: 3 do "Bund", 3 do Partido social-democrata polaco e 3 da organização social-democrática da Letônia.

Em conseqüência da repressão que se desencadeou contra as organizações bolcheviques durante a insurreição de dezembro e depois dela, nem todas puderam enviar seus delegados ao Congresso. Além disso, os mencheviques haviam acolhido em suas fileiras, durante os "dias da liberdade" do ano de 1905, uma massa de intelectuais pequeno-burgueses, que não tinham a menor afinidade com o marxismo revolucionário. Basta indicar que os mencheviques de Tiflis (onde havia poucos operários industriais) enviaram ao Congresso o mesmo número de delegados que a organização proletária mais forte que era a de Petersburgo. Assim se explica que no Congresso de Estocolmo, os mencheviques contassem, embora em proporção insignificante, com a maioria.

Esta composição do Congresso determinou o caráter menchevique das resoluções tomadas por ele com respeito a toda uma série de problemas.

Neste Congresso se estabeleceu uma unificação puramente formal. No fundo, bolcheviques e mencheviques continuaram mantendo suas idéias e suas organizações próprias e independentes.

Os problemas mais importantes, discutidos no IV Congresso foram: o problema agrário, a apreciação do momento e das tarefas de classe do proletariado, a atitude ante a Duma e os problemas de organização.

Apesar de ter maioria no Congresso, os mencheviques viram-se obrigados, para não se enfrentar com os operários, a reconhecer a fórmula de Lenin quanto ao primeiro artigo dos estatutos, sobre a condição de membro do Partido.

No problema agrário, Lenin defendeu a nacionalização da terra, porém só a considerava possível se triunfasse a revolução, se se derrubasse o czarismo. Nestas condições, a nacionalização da terra facilitaria ao proletariado, aliado aos camponeses pobres, a passagem'à revolução socialista. A nacionalização da terra exigia a expropriação sem indenização (confiscação) de toda a terra dos latifundiários em proveito dos camponeses. O programa agrário dos bolcheviques chamava os camponeses à revolução contra o czar e os latifundiários.

Outras eram as posições dos mencheviques. Estes defendiam o programa da municipalização. Segundo este programa, as terras dos latifundiários não se adjucariam às coletividades de camponeses, nem sequer se entregariam em usufruto a estes, mas se poriam à disposição das municipalidades (isto é, dos organismos locais ou Zemstvos). Os camponeses que quisessem terra teriam que arrendá-la, cada qual de acordo com seus próprios meios.

O programa menchevique da municipalização era um programa oportunista e, por isso, pernicioso para a revolução. Não podia mobilizar os camponeses para uma luta revolucionária, não tinha em vista a supressão completa da propriedade feudal da terra. O programa menchevique implicava numa solução bastarda da revolução. Os mencheviques não queriam levar os camponeses à revolução.

O Congresso aprovou por maioria de votos o programa menchevique.

Porém, onde os mencheviques puseram mais a nu seu fundo antiproletáiio oportunista foi ao discutir a resolução apresentada sobre a apreciação do momento e sobre a Duma. O menchevique Martinov se manifestou francamente contra a hegemonia do proletariado na revolução. Respondendo aos mencheviques, o camarada Stalin colocou o problema categoricamente:

"Ou hegemonia do proletariado ou hegemonia da burguesia democrática: assim é como está colocado o problema dentro do Partido e nisto é onde residem nossas divergências". Quanto à Duma, os mencheviques a preconizavam em sua resolução como o melhor meio para resolver os problemas da revolução e para libertar o povo do czarismo. Ao contrário, os bolcheviques consideravam a Duma como um apêndice impotente do czarismo, como um biombo para encobrir as misérias do regime czarista e que este trataria de retirá-lo logo que começasse a incomodá-lo.

Do Comitê Central do Partido eleito no IV Congresso, tomavam parte 3 bolcheviques e 6 mencheviques. Para a redação do órgão central foram eleitos exclusivamente mencheviques.

Era evidente que a luta intestina do Partido continuaria. A luta entre bolcheviques e mencheviques recrudesceu ainda mais depois do IV Congresso. Nas organizações locais, formalmente unificadas, era muito corrente que o informe acerca do Congresso corresse a cargo de dois oradores, um bolchevique e outro menchevique. Como resultado da discussão das duas linhas, a maioria dos filiados à organização votava, na maior parte dos casos, com os bolcheviques.

A realidade se encarregava de demonstrar cada vez mais a razão dos bolcheviques. O Comitê Central menchevique eleito no IV Congresso ia revelando cada vez mais claramente seu oportunismo e sua total incapacidade para dirigir a luta revolucionária das massas. Durante o verão e o outono de 1906, a luta revolucionária das massas voltou a recrudescer. Em Kronstadt e em Sveaborg, se sublevaram os marinheiros. Estalou a luta dos camponeses contra os latifundiários. E o C. C. menchevique dava consignas oportunistas, que não eram seguidas pelas massas.





6



Dissolução da primeira e convocação da segunda Duma.

O V Congresso do Partido.

Dissolução da segunda Duma.

Causas da derrota da primeira revolução russa.



Como a primeira Duma não foi suficientemente dócil, o governo czarista procedeu à sua dissolução no verão de 1906. O governo recrudesceu ainda mais a repressão contra o povo, enviou por todo o país expedições punitivas, que semeavam o terror por toda parte, e proclamou sua decisão de convocar em breve prazo a segunda Duma. O governo czarista mostrava já claramente sua insolência. Já não temia a revolução, pois via que esta ia em declínio.

Os bolcheviques tiveram que decidir-se acerca do problema de tomar parte na segunda Duma ou boicotá-la. E ao falar de boicote, não se referiam meramente à simples abstenção eleitoral, senão a uma campanha de boicote ativo. Viam neste boicote ativo um meio revolucionário para pôr o povo em guarda contra as tentativas do czar de desviá-lo do caminho revolucionário para trazê-lo ao caminho "constitucional" czarista, o meio de fazer fracassar estas tentativas e de organizar uma nova acometida contra o czarismo.

A experiência do boicote contra a Duma buliguiniana evidenciara que o boicote

"era a única tática acertada confirmada plenamente pelos acontecimentos". (Lenin, t. X, pág. 27, ed. russa).

Aquele boicote fora coroado de êxito, pois não só puseram o povo em guarda contra os perigos que o espreitavam pelo caminho constitucional czarista, senão que conseguira fazer fracassar a Duma antes de nascer. Teve êxito, porque se puseram em prática na etapa ascendente da revolução e apoiando-se em seus avanços, e não na etapa do descenso revolucionário pois só sob as condições de auge da revolução era possível fazer fracassar a Duma.

O boicote contra a Duma de Witte, ou seja contra a primeira Duma, se aplicou depois do fracasso da insurreição de dezembro, quando já o czar havia saído vencedor, isto é, quando já se devia supor que a revolução declinava.

"Porem, é evidente — escrevia Lenin — que este triunfo (o do czar, N. da R.) não se podia considerar naquela época, como decisivo. A insurreição de dezembro de 1905 foi seguida de toda uma série de insurreições no Exército, desarticuladas e parciais, e de greves, que se produziram durante o verão de 1906. A consigna de boicote contra a Duma de Witte era uma consigna de luta destinada a concentrar e generalizar estas insurreições". (Lenin, t. XII, pág. 20 ed. russa).

O boicote contra a Duma de Witte não logrou fazê-la fracassar, ainda que solapasse consideravelmente a autoridade da Duma e quebrantasse a fé de uma parte da população nela. E não logrou fazê-la fracassar, porque este boicote fora levado a cabo, como depois se viu claramente, na etapa do descenso da revolução. Eis por que o boicote contra a primeira Duma, estabelecido em 1906, não teve êxito. No célebre folheto intitulado "O esquerdismo, doença infantil do comunismo", diz Lenin, referindo-se àquele boicote:

"O boicote dos bolcheviques contra o "parlamento" no ano de 1905 enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, fazendo-o ver que, na combinação das formas legais e ilegais, das formas parlamentares e extraparlamentares de luta, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares... O que constituía já um erro, ainda que não grande e facilmente corrigível, foi o boicote pelos bolcheviques da Duma em 1906... Da política e dos partidos se pode dizer — com as vaiiações correspondentes — o mesmo que dos indivíduos. Não é inteligente quem não comete erros. Homens que não cometem erros, não os há nem pode haver. Inteligente é quem comete erros que não são muito graves e sabe corrigi-los bem e prontamente". (Lenin, t. XXX, págs. 182-183, ed. russa).

Pelo que se refere à segunda Duma, Lenin entendia que, tendo em conta a nova situação e o descenso do movimento revolucionário, os bolcheviques

"deviam submeter à revisão o problema do boicote da Duma" (Lenin, t. X, pág. 28, ed. russa).

"A história ensina — escrevia Lenin — que quando se reúne a Duma, é preciso desenvolver uma agitação proveitosa em seu seio e em torno dela, que dentro da Duma é possível levar a cabo a tática da aproximação dos camponeses revolucionários contra os kadetes" (Obra citada, pág. 29).

De tudo isso se depreendia que é necessário, não só saber avançar resolutamente e na primeira linha, quando a revolução se acha em sua etapa ascendente, senão também saber recuar com acerto e averiguando o terreno, quando cessa a etapa ascendente da revolução, mudando de tática de acordo com as mudanças operadas na situação: e recuar não em desordem, porém de um modo organizado, com serenidade, sem pânico, aproveitando até as menores possibilidades para salvar os quadros da fúria da contra-revolução, reorganizando-se, acumulando forças e se preparando para um novo ataque contra o inimigo.

Os bolcheviques decidiram participar nas eleições à segunda Duma.

Porém não iam a ela para intervir nas tarefas orgânicas "legislativas", coligados aos kadetes, como o fizeram os mencheviques, senão para utilizá-la como tribuna ao serviço da revolução.

Em troca, o Comitê Central menchevique fez um chamado para que se pactuassem acordos eleitorais com os kadetes e os apoiassem na Duma, considerando esta como um organismo legislativo, capaz de pôr um freio ao governo czarista.

A maioria das organizações do Partido se manifestaram contra a política do C. C. menchevique. Os mencheviques exigiram que se convocasse um novo Congresso do Partido.

Em maio de 1907 se reuniu em Londres o V Congresso do Partido. Naquela época, o P.O.S.D.R. (em união com as organizações social-democráticas nacionais) contava já com 150.000 filiados. Assistiram ao Congresso, no total, 336 delegados dos quais, 105 bolcheviques e 97 mencheviques. Os restantes representavam as organizações social-democráticas nacionais: a social-democracia polaca e letã e o "Bund" que foram admitidos dentro do P.O.S.D.R. no Congresso anterior.

Trotsky tentou formar neste Congresso seu grupinho centrista, isto é, semimenchevique, como grupo a parte, porém ninguém se prestou a segui-lo.

Como os bolcheviques arrastavam com ele os polacos e os letões, dispunham de uma sólida maioria no Congresso.

Um dos problemas fundamentais sobre os quais girou a luta no Congresso foi o das relações com os partidos burgueses. Este problema já fora objeto de luta entre os bolcheviques e os mencheviques no II Congresso. O congresso julgou com o critério bolchevique todos os partidos não proletários — centúrias negras, outubristas, kadetes e social-revolucionários — e traçou frente a eles uma tática bolchevique.

O Congresso aprovou a política dos bolcheviques, e tomou a resolução de manter uma luta implacável, tanto contra os partidos das centúrias negras — a "União do povo russo", os monárquicos, o Conselho da nobreza unificada — como contra a "União do 17 de Outubro" (outubristas), o partido comercial-industrial e o partido da "Revolução pacífica" que eram todos partidos nitidamente contra-revolucionários.

A respeito da burguesia liberal, do partido kadete, o Congresso preconizou uma luta irreconciliável de desmascaramento dele. Resolveu que era necessário desmascarar o "democratismo" hipócrita e farisaico do partido kadete e lutar contra as tentativas da burguesia liberal de pôr-se â frente do movimento camponês.

No que se refere aos partidos chamados populistas ou de trabalho (socialistas populares, agrupação de trabalho e social-revolucionário), o Congresso recomendava que se desmascarassem suas tentativas de se disfarçarem de socialistas. Ao mesmo tempo, admitia a possibilidade de estabelecer acordos concretos com estes partidos para lutar conjunta e simultaneamente contra o czarismo e contra a burguesia kadete, já que aqueles partidos eram, naquele tempo, democráticos e refletiam os interesses da pequena-burguesia da cidade e do campo.

Já antes de celebrar-se o Congresso, os mencheviques haviam lançado a proposta de convocar um chamado "Congresso operário". O plano menchevique consistia em convocar um congresso no qual os social-revolucionários e os anarquistas tomassem parte com os social-democratas. Pretendia-se que o tal Congresso "operário" criasse uma espécie de "partido sem partido" ou uma espécie de "amplo" partido operário pequeno-burguês sem nenhum programa. Lenin desmascarou esta perniciosa tentativa dos mencheviques, que visava liquidar o Partido Operário Social-Democrata e diluir o destacamento de vanguarda da classe operária entre a massa pequeno-burguesa. O Congresso condenou energicamente a consigna menchevique do "Congresso operário".

Nas deliberações do V Congresso do Partido ocupou um lugar especial o problema dos sindicatos. Os mencheviques defendiam a "neutralidade" dos sindicatos, isto é, manifestavam-se contra o papel dirigente do Partido no movimento sindical. O Congresso rechaçou a proposta dos mencheviques e aprovou a resolução apresentada pelos bolcheviques sobre os sindicatos. Nesta resolução se assinalava que se devia lutar para que a direção ideológica e política dos sindicatos estivesse em mãos do Partido.

O V Congresso marcou um grande triunfo dos bolcheviques no movimento operário. Porém os bolcheviques não se deixaram levar pelo êxito nem dormiram sobre os louros. Não era isto o que Lenin lhes ensinava. Sabiam que teriam de prosseguir lutando continuamente contra os mencheviques.

Em seu artigo "Apontamentos de um delegado", publicado em 1907, o camarada Stalin assim julgava os resultados do Congresso:

"A unificação efetiva dos operários mais avançados de toda a Rússia num único partido extensivo a todo o país, sob a bandeira da social-democracia revolucionária: eis aqui o sentido do Congresso de Londres, seu caráter geral".

Neste artigo, o camarada Stalin aduz dados sobre a composição do Congresso. Os delegados bolcheviques representavam, fundamentalmente, os grandes centros industriais (Petersburgo, Moscou, Ural, Ivauovo-Vosnesensk e outros). Em troca, os mencheviques compareceram ao Congresso, representando as regiões de pequena produção, nas quais predominavam os operários artesãos, os semiproletários, assim como uma série de regiões puramente camponesas.

"É evidente — expunha o camarada Stalin, fazendo o balanço do Congresso, que a tática dos bolcheviques é a tática dos proletários da grande indústria, a tática das regiões onde as contradições de classe aparecem mais nítidas, e a luta de classes é mais categórica. O bolchevismo é a tática dos autênticos proletários. E, de outra parte, não é menos evidente que a tática dos mencheviques é, predominantemente, a tática dos operários artesãos e dos semiproletários camponeses, a tática daquelas regiões em que os antagonismos de classe aparecem velados e a luta de classes, dissimulada. O menchevismo é a tática dos elementos semiburgueses do proletariado. Assim o indicam os números (Atas do V Congresso do P.O.S.D.R., págs. XI e XII, 1935).

Depois de dissolver a primeira Duma, o czar acreditou ter na segunda um instrumento mais dócil. Porém tampouco esta satisfez suas esperanças. Em vista disso, decidiu dissolver também esta Duma e convocar a terceira, restringindo ainda mais os direitos eleitorais, na esperança de ter nela um instrumento mais submisso.

Pouco depois do V Congresso do Partido, o governo czarista deu o chamado golpe de Estado de 3 de junho, dissolvendo a segunda Duma. A fração social-democrata da Duma, composta de 65 deputados, foi detida e deportada para a Sibéria. Baixou-se uma nova lei eleitoral. O direito de voto dos operários e camponeses sofreu novas restrições. O governo czarista continuava atacando.

O ministro czarista Stolypin desenvolvia sua sangrenta repressão contra os operários e camponeses. Milhares de operários e camponeses revolucionários morriam fuzilados ou enforcados pelos destacamentos de castigo. Nos calabouços czaristas eram torturados e martirizados milhares de revolucionários. As organizações operárias, sobretudo, as de tendência bolchevique, eram perseguidas com uma crueldade especial. Os esbirros czaristas buscavam o rastro de Lenin, que vivia clandestinamente na Finlândia. Queriam cravar sua garra sangrenta no chefe da revolução. Em dezembro de 1907, afrontando um perigo enorme, Lenin logrou trasladar-se de novo ao estrangeiro, para o exílio.

Começaram os terríveis anos da reação stolypiniana. A primeira revolução russa havia terminado, pois, com uma derrota.

Para isso contribuíram as causas seguintes:

1) A revolução não contava ainda com uma sólida aliança dos operários e camponeses contra o czarismo. Os camponeses puseram-se de pé para a luta contra os latifundiários, contra os quais estavam decididos a aliar-se aos operários. Porém ainda não compreendiam que era impossível derrocar os latifundiários sem derrocar o czarismo, não compreendiam que este fazia causa comum com aqueles, e havia uma parte considerável de camponeses que ainda acreditava no czar e que cifrava suas esperanças na Duma czarista. Por isso, muitos camponeses não quiseram aliar-se aos operários para derrubar o czarismo. Os camponeses tinham mais fé no partido oportunista dos social-revolucionários que nos verdadeiros revolucionários, nos bolcheviques. Como resultado disto, a luta dos camponeses contra os latifundiários não chegou a adquirir a suficiente organização. Lenin escrevia:

"... os camponeses atuaram demasiado dispersos, demasiado desorganizadamente e pouco na ofensiva, sendo esta uma das causas cardiais do fracasso da revolução" (Lenin, t. XIX, pág. 354, ed. russa).

2) A resistência de uma parte considerável dos camponeses em marchar de acordo com os operários pela derrocada do czarismo se fez sentir também na conduta do Exército, formado, em sua maioria, por filhos de camponeses vestidos com o uniforme militar. Em algumas unidades do Exército czarista se produziram princípios de rebeldia e sublevações, porém a maioria dos soldados continuou ajudando o czar a sufocar as greves e as insurreições dos operários.

3) Tampouco os operários atuaram com a necessária unanimidade. Os destacamentos de vanguarda da classe operária desenvolveram em 1905 uma heróica luta revolucionária. Porém as camadas mais atrasadas — os operários das províncias menos industriais e os que viviam nas aldeias — se punham em movimento mais lentamente. Sua participação na luta revolucionária se intensificou especialmente em 1906, porém então já a vanguarda da classe operária se achava enfraquecida.

4) Ainda que a classe operária fosse a força de vanguarda, a força fundamental da revolução, dentro das fileiras do Partido da classe operária não existiam a unidade e a coesão necessárias. O P.O.S.D.R., o partido da classe operária achava-se cindido em dois grupos: o dos bolcheviques e o dos mencheviques. Os bolcheviques mantinham uma linha conseqüentemente revolucionária e chamavam os operários à derrubada do czarismo. Os mencheviques, com sua tática oportunista, freiavam a revolução, semeavam o confusionismo entre uma parte considerável dos operários e cindiam o proletariado. Por isso, os operários não atuavam sempre na revolução de um modo unânime, e a classe operária, por carecer ainda de unidade dentro de suas próprias fileiras, não pôde erigir-se em verdadeiro chefe da revolução.

5) A autocracia czarista contava, para sufocar a revolução de 1906, com a ajuda dos imperialistas do Ocidente da Europa. Os capitalistas estrangeiros temiam por seus capitais investidos na Rússia e por seus fabulosos lucros. Temiam que, se triunfasse a revolução na Rússia, os operários de outros países se lançassem também a ela. Eis o que moveu os imperialistas da Europa Ocidental a ajudar o czar verdugo. Os banqueiros da França lhe concederam um grande empréstimo para esmagara revolução. O imperador da Alemanha tinha preparado um Exército de muitos milhares de homens para intervir em ajuda do czar da Rússia.

6) Uma ajuda importante para o czar foi a paz com o Japão, concertada em setembro de 1905. Sua denota na guerra e os avanços ameaçadores da revolução obrigaram o czar a apressar a assinatura da paz. A derrota na guerra russo-japonesa havia quebrantado o czarismo, porém a assinatura da paz fortaleceu a situação do czar.

Resumo

A primeira revolução russa representa toda uma etapa histórica no desenvolvimento da Rússia. Esta etapa histórica consta de dois períodos. No primeiro período, a revolução, aproveitando-se do enfraquecimento do regime czarista derrotado nos campos da Mandchúria, segue sua marcha ascendente e passa à greve geral de caráter político, à insurreição armada, em dezembro, varre a Duma buliguiniana e arranca do czar uma concessão após outra. No segundo período, o czar, depois de refazer-se, graças à assinatura da paz com o Japão, aproveita-se do medo da burguesia liberal para com a revolução e das vacilações dos camponeses, atira-lhe como uma esmola a Duma de Witte e passa à ofensiva contra a classe operária e a revolução.

Os três anos que, pouco mais ou menos, durou a revolução (1905 a 1907) foram, para a classe operária e os camponeses, uma escola tão fecunda de educação política como não teriam podido sê-lo trinta anos de evolução pacífica e normal. O que não haviam conseguido fazer ver dezenas e dezenas de anos de desenvolvimento pacífico fizeram-no ver claramente esses poucos anos de revolução.

A resolução evidenciou que o czarismo era o inimigo jurado do povo, um mal que só se podia curar com o túmulo.

A revolução ensinou que a burguesia liberal não buscava seu aliado no povo senão no czar; que era uma força contra-revolucionária; e que pactuar com ela equivalia a atraiçoar o povo. A revolução ensinou que o chefe da revolução democrático-burguesa só podia ser a classe operária, que só ela era capaz de desalojar a burguesia liberal, os kadetes, de emancipar os camponeses de sua influência, de esmagar os latifundiários, de levar a termo a revolução e de aplainar o caminho para o socialismo.

A revolução ensinou, finalmente, que, apesar de suas vacilações, os camponeses trabalhadores são a única força importante capaz de aliar-se à classe operária.

Durante a revolução lutaram dentro do P.O.S.D.R. duas linhas políticas: a dos bolcheviques e a dos mencheviques. Os bolcheviques se orientavam para o desencadeamento da revolução, a deirocada do czarismo pela via da insurreição armada, a hegemonia da classe operária, o isolamento da burguesia kadete, a aliança com os camponeses, a formação de um governo provisório revolucionário com representantes dos operários e camponeses, o desenvolvimento da revolução até a vitória final. Pelo contrário, o roteiro que os mencheviques seguiam era o do estrangulamento da revolução. Em vez da derrocada do czarismo pela insurreição, preconizavam a reforma e "melhoramento"; em vez da hegemonia do proletariado, a hegemonia da burguesia liberal; em vez da aliança com os camponeses, a aliança com a burguesia kadete, em vez de um governo provisório revolucionário, a Duma, como centro das "forças revolucionárias" do país.

Assim foi como os mencheviques se afundaram no charco do reformismo, convertendo-se em veículo da influência burguesa sobre a classe operária e passando a ser, de fato, agentes da burguesia no campo proletário.

Os bolcheviques demonstraram ser a única força marxista revolucionária que havia no Partido e no país.

Como é lógico, depois de produzir-se divergências tão graves, o P.O.S.D.R. apareceu, de fato, cindido em dois partidos, o partido bolchevique e o partido menchevique. O IV Congresso não fez mudar em nada a situação de fato existente dentro do Partido. Não fez mais que manter e firmar um pouco sua unidade formal. O V Congresso representou um passo avançado no sentido da unificação efetiva do Partido, unificação que, além disso, se levou a efeito sob a bandeira bolchevique.

Fazendo o balanço do movimento revolucionário, o V Congresso do Partido condenou a linha menchevique, como linha reformista, e aprovou a linha bolchevique como a linha marxista revolucionária. Com isto confirmou, mais uma vez, o que já fora confirmado por toda a marcha da primeira revolução russa.

A revolução evidenciou que os bolcheviques sabem avançar, quando assim o exige a situação, e que têm aprendido a avançar na vanguarda levando com eles o povo ao assalto. Porém salientou, do mesmo modo, que os bolcheviques também sabem recuar ordenadamente, quando a situação toma um caráter desfavorável, quando a revolução declina, e têm aprendido a recuar acertadamente sem pânico e sem precipitação, para manter indenes seus quadros, acumular forças e, depois de refazer-se de acordo com a nova situação, lançar-se de novo ao ataque contra o inimigo.

Não é possível vencer o inimigo, se não se sabe atacar acertadamente.

Não é possível evitar um descalabro em caso de derrota, se não se sabe retroceder acertadamente, recuando sem pânico e em perfeita ordem






 

Capítulo IV



Os Mencheviques e os Bolcheviques Durante o Período da Reação Stolypiniana.

Os Bolcheviques Passam a Formar um Partido Independente

( 1908 – 1912 )





1



A reação stolypiniana.

Surge a decomposição entre as camadas intelectuais da oposição.

O decadentismo.



Uma parte dos intelectuais do partido passa para o campo dos inimigos do marxismo e tenta fazer a revisão da teoria marxista. Lenin replica aos revisionistas com seu livro "Materialismo e Empirocriticismo", defendendo os fundamentos teóricos do partido marxista.



A segunda Duma foi dissolvida pelo governo czarista mediante o ato que a história registra com o nome de golpe de Estado de 3 de junho de 1907. O governo czarista baixou uma nova lei para as eleições à terceira Duma, infringindo com isso sua própria mensagem de 17 de outubro de 1905, na qual se comprometia a não baixar novas leis senão de acordo com a Duma. A fração social-democrata da segunda Duma foi levada aos Tribunais, e os representantes da classe operária enviados uns ao presídio e outros ao exílio.

A nova lei eleitoral estava redigida de tal modo, que aumentava consideravelmente a quantidade de representantes dos latifundiários e da burguesia comercial e industrial na Duma. Ao mesmo tempo, reduzia-se até uma cifra insignificante a representação, já de si exígua, dos camponeses e dos operários.

Atendendo à sua composição, a terceira Duma era a Duma das centúrias negras e dos kadetes. Dos 442 deputados que a compunham, havia 171 dos direitistas (das centúrias negras) 113 outubristas e filiados a outros grupos afins, 101 kadetes e pertencentes a grupos próximos deles, 13 trudoviks (grupo de trabalho) e 18 social-democratas.

As direitas (chamadas assim porque tinham seus assentos no lado direito da Duma) representavam os inimigos mais raivosos dos operários e dos camponeses: os latifundiários feudais das centúrias negras, autores dos espancamentos e dos fuzilamentos em massa de camponeses na repressão do movimento revolucionário do campo, os organizadores dos progroms judeus, das matanças de manifestantes operários, dos bestiais incêndios dos edifícios em que se celebravam os meetings durante os dias da revolução. As direitas advogavam o esmagamento mais brutal dos trabalhadores, um Poder czarista ilimitado, contra a mensagem dada pelo czar a 17 de outubro de 1905.

Um partido afim das direitas, entre os representantes na Duma, era o partido dos outubristas ou "União 17 de Outubro". Os outubristas representavam os interesses do grande capital industrial e dos grandes latifundiários que exploravam suas propriedades com métodos capitalistas em começos da revolução de 1905, passou para os outubristas uma parte considerável dos kadetes, integrados por grande capital industrial e dos grandes latifundiários outubristas das direitas era o reconhecimento — que, além disso, não deixava de ser puramente verbal — da mensagem de 17 de Outubro. Os outubristas apoiavam integralmente a política interior e exterior do governo czarista.

Os kadetes, ou partido "constitucional democrático", tinham na terceira Duma menos deputados que na primeira e na segunda. A explicação disto está em que uma parte dos votos dos latifundiários passou do Partido kadete para os outubristas.

Na terceira Duma achava-se representado um grupo pouco numeroso de democratas pequeno-burgueses que eram conhecidos pelo nome de trudoviks. Na Duma, este grupo vacilava entre os kadetes e a democracia operária (os bolcheviques). Lenin assinalava que, ainda que fossem extremamente débeis na Duma, os trudoviks representavam as massas camponesas. Suas vacilações entre os kadetes e a democracia operária brotavam inevitavelmente da situação de classe própria dos pequenos proprietários. E Lenin propunha aos deputados bolcheviques, à democracia operária, a tarefa de

"ajudar aos débeis democratas pequeno-burgueses, de arrancá-los da influência dos liberais, de unir as fileiras da democracia, não só frente às direitas como também frente aos kadetes contra-revolucionários..." (Lenin, t. XV, pág. 486, ed. russa).

No transcurso da revolução de 1905, e, sobretudo, depois de sua derrota, os kadetes foram-se revelando cada vez mais abertamente como uma força contra-revolucionária. Foram tirando cada vez mais a máscara "democrática", para atuar como autênticos monárquicos e defensores do czarismo. Em 1909, um grupo de escritores kadetes muito destacado editou uma antologia intitulada "Rumos" na qual agradecia ao czarismo, em nome da burguesia, por haver esmagado a revolução.

Arrastando-se ante o governo czarista do chicote e da forca e lambendo-lhe as botas, os kadetes escreviam sem recato que se devia

"dar graças a este governo, o único Poder que com suas baionetas e seus cárceres nos protege ainda (isto é, protege à burguesia liberal) da fúria popular".

Depois de dissolver a segunda Duma e de enviar ao cárcere e ao desterro a fração social-democrata, o governo czarista começou a destroçar furiosamente as organizações políticas e econômicas do proletariado.

Os cárceres, os presídios e os lugares de deportação estavam abarrotados de revolucionários. Estes eram sepultados em masmorras e submetidos a martírios e torturas ferozes. O terror dos bandos negros assolava o país.

O ministro czarista Stolypin cobriu de forcas e patíbulos todo o país. Milhares de revolucionários foram executados. A forca era chamada naquela época, a "gravata stolypiniana".

Porém em sua obra de extermínio do movimento revolucionário dos operários e camponeses, o governo czarista não podia limitar-se simplesmente a organizar repressões, expedições punitivas, fuzilamentos e encarceramentos em massa. O governo czarista via com alarme que a fé ingênua dos camponeses no "paizinho czar" se ia dissipando cada vez mais. Isto o fez recorrer a uma manobra de grande envergadura, apresentando o ardil de criar-se um forte esteio no campo, sob a forma de uma numerosa classe de burgueses camponeses, de kulaks.

A 9 de novembro de 1906, Stolypin baixou uma nova lei agrária, dando normas para que os camponeses pudessem sair da comunidade rural e estabelecer-se em sítios. A lei agrária de Stolypin vinha destruir o regime comunal de possessão da terra. Cada camponês podia tomar em propriedade pessoal a terra que lhe correspondia, separando-se da comunidade. Além disso, podia vender sua parte, coisa que antes não se lhe permitia.

A comuna ficava obrigada a demarcar para os camponeses que saíssem da comunidade toda a terra num mesmo sítio (conjunto de casas, conjunto de granjas).

Isto permitia aos camponeses ricos, aos kulaks, comprar por pouco preço as terras dos camponeses menos abastados.

Mais de um milhão de camponeses humildes haviam ficado completamente privados de terra e arruinados, poucos anos após haver-se decretado esta lei. A expensas deles, foram-se criando os sítios e as aglomerações de granjas dos kulaks, que, às vezes, eram verdadeiras fazendas de latifundiários, nas quais se empregavam abundantemente o trabalho assalariado, a mão-de-obra de jornaleiros. O governo obrigava os camponeses a separar da comunidade as melhores terras, para entregá-las aos sítios dos kulaks.

E assim como ao decretar-se a "libertação" dos camponeses, os latifundiários lhes haviam roubado suas terras, agora os kulaks começaram a roubar as terras da comunidade, ficando com as melhores parcelas e comprando por preço vil os lotes dos camponeses pobres.

O governo czarista concedeu aos kulaks grandes empréstimos para ajudá-los a comprar terras e formar seus sítios. O plano de Stolypin era fazer dos kulaks pequenos senhores de terra em quem a autocracia czarista tivesse verdadeiros defensores.

Em nove anos (de 1906 a 1915), se separaram do regime comunal mais de dois milhões de explorações camponesas.

O regime stolypiniano piorou ainda mais a situação dos camponeses humildes e dos pobres do campo. O processo de diferenciação da massa camponesa se acentuou. Começaram os choques entre os camponeses e os kulaks proprietários dos sítios.

Ao mesmo tempo, os camponeses começaram a compreender que não entrariam na posse das terras dos latifundiários, enquanto existissem o governo czarista e uma Duma composta de latifundiários e kadetes.

A princípio, durante os anos em que se intensificou o processo de separação de camponeses do regime comunal para estabelecer-se em sítios (1907-1909), o movimento camponês foi em descenso, porém logo, em 1910-1911 e depois, os choques entre os membros da comunidade e os donos de sítios fizeram que o movimento camponês contra os latifundiários e os kulaks proprietários dos sítios recrudescesse.

Também no terreno industrial se operaram, depois da revolução, mudanças consideráveis. Acentuou-se notavelmente a concentração da indústria, ou seja, o incremento das empresas e sua acumulação em mãos de grupos capitalistas cada vez mais fortes. Já antes da revolução de 1905, os capitalistas haviam começado a organizar-se em agrupações para elevar os preços das mercadorias dentro do país, destinando os excedentes conseguidos deste modo a um fundo de fomento das exportações, com o objetivo de poder lançar as mercadorias no mercado exterior a baixo preço e conquistar assim os mercados estrangeiros. Estas agrupações organizadas pelos capitalistas (monopólios) chamavam-se trusts e consórcios. Depois da revolução, o número de trusts e consórcios capitalistas foi aumentando. Aumentou também o número dos grandes bancos, crescendo a importância destes na indústria. E cresceu do mesmo modo a afluência dos capitais estrangeiros à Rússia.

Portanto, o capitalismo, na Rússia, se ia convertendo cada vez mais num capitalismo monopolista, imperialista.

Depois de vários anos de estagnação, a indústria voltava a reanimar-se: a extração de carvão e de petróleo ia aumentando, a quantidade de metal produzido progredia, a produção de tecidos e de açúcar crescia. A exportação de trigo adquiria fortes proporções.

Porém, ainda que durante este período a Rússia fez alguns progressos na indústria, continuava sendo um país atrasado, em comparação com a Europa Ocidental, e dependia do capitalismo estrangeiro. Não existia dentro do país uma produção de maquinaria industrial: era preciso importar todas as máquinas. Não existia tampouco a indústria do automóvel, nem a indústria química, nem se produziam adubos minerais. Na indústria do armamento a Rússia ia também à retaguarda dos demais países capitalistas.

Assinalando o baixo nível de consumo de metais na Rússia como sinal de atraso, Lenin escrevia:

"Meio século depois da libertação dos camponeses, o consumo de ferro na Rússia quintuplicou, e apesar disso, a Rússia continua sendo um país incrivelmente, insolitamente atrasado, miserável e semi-selvagem, quatro vezes pior aparelhado de instrumentos modernos de produção que a Inglaterra, cinco vezes pior que a Alemanha e dez vezes pior que os Estados Unidos" (Lenin, t. XVI, pág. 543, ed. russa).

Conseqüência direta do atraso econômico e político da Rússia era a dependência em que, tanto o capitalismo russo como o próprio czarismo, se achavam ao capitalismo da Europa Ocidental.

Esta dependência se notava no fato de que ramos importantíssimos da economia nacional como o carvão, o petróleo, a indústria elétrica e a metalúrgica se achassem em mãos do capital estrangeiro, e de que quase toda a maquinaria e toda a instalação industrial de que necessitava a Rússia czarista tivesse que ser importada.

Notava-se nos escorchantes empréstimos estrangeiros cujos juros o czarismo pagava extorquindo todos os anos à população centenas e centenas de milhões de rublos.

Notava-se nos tratados secretos com os "aliados", nos quais o czarismo se comprometia a enviar, em caso de guerra, milhões de soldados russos às frentes imperialistas, para apoiar os "aliados" e defender os fabulosos lucros dos capitalistas anglo-franceses.

Os anos da reação stolypiniana se caracterizaram, especialmente, pelos assaltos de bandoleirismo dos gendarmes e da polícia, dos provocadores czaristas e dos assassinos dos bandos negros contra a classe operária. Porém não eram só os esbirros czaristas os que torturavam e perseguiam os operários. Tampouco ficavam atrás, neste terreno, os Patrões das fábricas e oficinas, cuja ofensiva contra a classe operária recrudesceu especialmente durante os anos de estagnação industrial e de intenso desemprego forçado. Os patrões declaravam "lockouts" em massa e faziam "listas negras", nas quais figuravam os operários conscientes que haviam tomado parte ativa nas greves.

Os que apareciam nestas "listas negras" não encontravam trabalho em nenhuma das empresas relacionadas na associação patronal da indústria correspondente. O tipo de salário sofreu já em 1908 uma redução de 10 a 15 por cento. A jornada de trabalho foi prolongada em todas as partes até 10 e 12 horas. Voltava a florescer o sistema do latrocínio em forma de multas.

A derrota da revolução de 1905 produziu o desmoronamento e a decomposição entre os que tinham aderido circunstancialmente à revolução. Onde mais se notavam a decomposição e o decadentismo era entre os intelectuais. Os "companheiros de viagem", que tinham passado do campo da burguesia para as fileiras revolucionárias durante o período do avanço avassalador da revolução, se separaram do Partido ao sobrevir a etapa reacionária. Uma parte deles passou para o campo dos inimigos descarados da revolução, outros se refugiaram nas organizações legais da classe operária que saíram indenes da repressão e esforçavam-se em desviar o proletariado da senda revolucionária e em desacreditar o Partido revolucionário do proletariado. Apartando-se da revolução, os antigos revolucionários de circunstância procuravam adaptar-se à reação e viver em paz com o czarismo.

O governo czarista se aproveitou da derrota da revolução para colocar a seu serviço como agentes provocadores os desertores da revolução mais covardes e mais arrivistas. Estes vis e repugnantes espiões e provocadores, destacados pela "okhrana" czarista entre os operários e nas organizações do Partido, espionavam de dentro e entregavam os revolucionários a seus verdugos.

A ofensiva da contra-revolução desenvolvia-se também na frente ideológica. Brotou toda uma multidão de escritores de moda, que "criticavam" e "desacreditavam" o marxismo, que cuspiam para a revolução e a ridicularizavam, glorificando a traição e exaltando a perversão sexual sob o nome de "culto à personalidade".

No campo da filosofia, se redobravam as tentativas de "criticar", de rever o marxismo, e surgiam também todo gênero de correntes religiosas, envoltas em argumentos pretendidamente "científicos".

Tornara-se moda fazer a "crítica" do marxismo.

Malgrado a desconcertante diversidade de suas tendências, todos estes senhores perseguiam um fim comum: desviar as massas da revolução.

O decadentismo e a falta de fé se apoderaram também de uma parte dos intelectuais do Partido que embora considerando-se marxistas, jamais se haviam mantido com firmeza nas posições do marxismo. Entre eles figuravam escritores como Bogdanov, Basarov, Lunacharski (que em 1905 haviam aderido aos bolcheviques) e como Yushkevich e Valentinov (mencheviques). Estes intelectuais desenvolviam simultaneamente sim "crítica" contra os fundamentos filosófico-teóricos do marxismo, ou melhor, contra o materialismo dialético, e contra seus fundamentos histórico-cientííicos, isto é, contra o materialismo histórico. Esta crítica se distinguia da usual em que não se desenvolvia de um modo franco e honrado, senão velada e hipocritamente, pretextando "defender" as posições fundamentais do marxismo. "Nós, diziam estes "críticos", somos essencialmente marxistas, porém queremos "melhorar" o marxismo, depurá-lo de algumas teses fundamentais".

Na realidade, eram inimigos do marxismo, pois aspiravam solapar suas bases teóricas, ainda que de palavra negassem hipocritamente sua hostilidade contra ele e continuassem se chamando, falsamente, marxistas. O perigo desta crítica larisaica consistia em que com ela pretendiam enganar os militantes de fileiras do Partido e podiam levá-los à confusão. E quanto mais hipócrita fosse este trabalho crítico de sapa dos fundamentos teóricos do marxismo, mais perigoso era para o Partido, pois se identificava mais de cheio com a campanha geral empreendida pela reação contra o Partido e contra a revolução. Uma parte dos intelectuais (o grupo dos chamados "buscadores" ou "construtores de deus"), que desertara do marxismo, chegou, inclusive, a pregar a necessidade de se criar uma nova religião.

Ante os marxistas se apresentava a tarefa indeclinável de dar a estes degenerados uma resposta exata no campo da teoria do marxismo, de desmascará-los inteiramente, defendendo, deste modo, os fundamentos teóricos do Partido marxista.

Era lógico pensar que Plekhanov e seus amigos mencheviques, que se consideravam como "célebres teóricos marxistas" tomassem a si esta empresa. Porém, preferiram limitar-se a escrever, para eneobrir as aparências, um par de artigos de folhetim e logo depois se retirarem do cenário.

Foi Lenin quem enfrentou e levou a cabo esta empresa, com seu famoso livro "Materialismo e Empirocriticismo", publicado em 1909.

"Em menos de meio ano — escrevia Lenin nesta obra — vieram à luz quatro livros consagrados fundamental e quase exclusivamente a atacar o materialismo dialético. Entre eles e em primeiro lugar, figura o intitulado Apontamentos sobre (contra, é o que deveria dizer) a filosofia do marxismo". São Petersburgo, 1908, — uma coleção de artigos de Basanov, Boadanov, Lunacharski, Berman, Helfond, Yushkevich e Suvorov. Logo depois vêm os livros de Yushkevich. "O materialismo e o realismo crítico"; Berman, "A dialética à luz da moderna teoria do conhecimento" e Valentinov, "As construções filosóficas do marxismo"... Todos estes indivíduos, unidos — apesar das profundas diferenças que há entre suas idéias políticas — por sua hostilidade ao materialismo dialético, pretendem, ao mesmo tempo, fazer-se passar em filosofia, por marxistas! A dialética de Engels é um "misticismo", diz Berman; as idéias de Engels ficaram "antiquadas", exclama Basarov de passagem, como algo que não necessita de demonstração: o materialismo se dá por refutado por nossos valentes paladinos, os quais se referem orgulhosamente à "moderna teoria do conhecimento", à "novíssima filosofia" (ou ao "novíssimo positivismo"), à "filosofia das modernas ciências naturais" e, inclusive, à "filosofia das ciências naturais do Século XX". (Lenin, t. XIII, pág. 11, ed. russa).

Contestando a Lunacharski, que, na pretensão de justificar seus amigos, os revisionistas no campo filosófico, dizia:

"Talvez nos equivoquemos, porém indagamos",

escrevia Lenin:

"Pelo que se refere a mim, também eu sou, em filosofia, um indagador". Nestes apontamentos (trata-se da obra "Materialismo e Empirocriticismo". N. da R.), me propus como tarefa indagar em que vieram parar estes indivíduos que pregam, sob o nome de marxismo, algo incrivelmente caótico, confuso e reacionário" (Obra citada, pág. 12).

Porém, na realidade, o livro de Lenin ia muito além do âmbito desta modesta tarefa. Na realidade, este livro não é somente uma crítica de Bogdanov, Yushkevich, Basarov, Valentinov e seus mestres filosóficos, Avenarius e Mach, que em suas obras tentavam ensinar um refinado e polido idealismo, contrapondo-o ao materialismo marxista. O livro de Lenin é, além disso, uma defesa dos fundamentos teóricos do marxismo, do materialismo dialético e do materialismo histórico; uma generalização materialista dos descobrimentos mais importantes e essenciais da ciência em geral e, sobretudo, das ciências naturais, durante um período histórico que vai desde a morte de Engels até o aparecimento da obra "Materialismo e Empiro-Criticismo".

Depois de criticar e rebater completamente os empirocriticistas russos e seus mestres estrangeiros, Lenin chega, em seu livro, às seguintes conclusões contra o revisionismo teórico-filosófico:

1. "Uma falsificação e o disfarce cada vez mais sutis das doutrinas antimaterialistas do marxismo: tal é o que caracteriza o revisionismo moderno, tanto no campo da Economia política como nos problemas de tática e no campo da filosofia em geral" (Obra citada, pág. 270).

2. "Toda a escola de Mach e Avenarius tende ao idealismo" (Obra citada, pág. 291).

3. "Nossos machistas estão todos empapados de idealismo" (Obra citada, pág. 282).

4. "Detrás do escolasticismo gnoseológico do empirocriticismo não se pode deixar de ver a luta dos partidos na filosofia, luta que reflete, em última instância, as tendências e a ideologia das classes inimigas dentro da sociedade moderna" (Obra citada, pág. 292).

5. "O papel objetivo, de classe do empirocriticismo se reduz de modo absoluto a servir aos fideístas (reacionários que antepõem a fé à ciência) (N. da R.) em sua luta contra o materialismo em geral e contra o materialismo histórico em particular" (Obra citada, pág. 292).

6. "O ideaismo filosófico é... o caminho para o obscurantismo clerical" (Obra citada, pág. 304).

Para poder julgar a enorme importância, que esta obra de Lenin tem na história do Partido bolchevique, e compreender que riqueza teórica era a que defendia Lenin contra todos e cada um dos revisionistas e degenerados do período da reação stolypiniana, é necessário deter-se a examinar, ainda que seja brevemente, os fundamentos do materialismo dialético e histórico.

Este exame é tanto mais necessário uma vez que o materialismo dialético e histórico constituem a base teórica do comunismo, as bases teóricas do Partido marxista, e todo militante ativo do Partido Comunista é obrigado a conhecer estes fundamentos teóricos e assimilá-los.

Assim, pois:

 

1. Que é o materialismo dialético?

2. Que é o materialismo histórico?






2



Sobre o Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico.



O materialismo dialético é a concepção filosófica do Partido marxista-leninista. Chama-se materialismo dialético, por que seu modo de abordar os fenômenos da natureza, seu modo de focalizá-los, sua teoria, materialista.

O materialismo histórico é a aplicação dos princípios do materialismo dialético ao estudo da vida, aos fenômenos da vida da sociedade, ao estudo desta e de sua história.

Caracterizando seu método dialético, Marx e Engels se referem com freqüência a Hegel como ao filósofo que formulou os traços fundamentais da dialética. Porém isto não quer dizer que a dialética de Marx e Engels seja idêntica à dialética hegeliana. Na realidade, Marx e Engels só tomaram da dialética de Hegel sua "medula racional" abandonando a casca idealista hegeliana e desenvolvendo a dialética para dar-lhe uma forma científica atual.

"Meu método dialético — diz Marx — não só é fundamentalmente diverso do método de Hegel, senão que é em tudo e por tudo, seu reverso. Para Hegel, o processo do pensamento que ele converte, inclusive, em sujeito com vida própria, sob o nome de idéia, é o demiurgo (criador) do real e este, a simples forma externa em que toma corpo. Para mim, o ideal, pelo contrário, não é mais do que o material, traduzido e transposto para a cabeça do homem". (K. Marx, palavras finais à 2ª. edição do t. I do "Capital").

Na caracterização de seu materialismo, Marx e Engels se referem com freqüência a Feuerbach, como ao filósofo que restaurou os direitos do materialismo. Porém isto não quer dizer que o materialismo de Marx e Engels seja idêntico ao materialismo de Feuerbach. Na realidade, Marx e Engels só tomaram do materialismo de Feuerbach sua "medula", desenvolvendo-a até convertê-la na teoria científico-íilosófica do materialismo, e desprezando sua escória idealista e ético-religiosa. É sabido que Feuerbach, que era no fundamental um materialista, se rebelava contra o nome de materialismo. Engels declarou mais de uma vez que

"malgrado a base materialista, Feuerbach não chegou a desprender-se dos vínculos idealistas tradicionais", e que "onde o verdadeiro idealismo de Feuerbach se põe em evidência é em sua filosofia da religião e em sua ética". (F. Engels, "Ludwig Feuerbach", em Karl Marx, Obras escolhidas, ed., Europa-América, t. I, pág. 414-417).

A palavra dialética vem do grego "dialegos", que quer dizer diálogo ou polêmica. Os antigos entendiam por dialética a arte de descobrir a verdade evidenciando as contradições implícitas na argumentação do adversário e superando estas contradições. Alguns filósofos da antiguidade entendiam que o descobrimento das contradições no processo discursivo e o choque das opiniões contrapostas era o melhor meio para encontrar a verdade. Este método dialético de pensamento, que mais tarde se fez extensivo aos fenômenos naturais, converteu-se no método dialético de conhecimento da natureza, consistente em considerar os fenômenos naturais como sujeitos a perpétuo movimento e mudança e o desenvolvimento da natureza como o resultado do desenvolvimento das contradições existentes nesta, como o resultado da ação mútua das forças contraditórias no seio da natureza.

A dialética é, fundamentalmente, o contrário da metafísica.

1) O método dialético marxista se caracteriza pelos seguintes pontos fundamentais:

a) Em oposição à metafísica, a dialética não considera a natureza como um conglomerado casual de objetos e fenômenos desligados e isolados uns dos outros e sem nenhuma relação de dependência entre si, senão como um todo articulado e único, no qual os objetos e os fenômenos se acham organicamente vinculados uns aos outros, dependem uns do outros e se condicionam uns aos outros.

Por isso, o método dialético entende que nenhum fenômeno da natureza pode ser compreendido, se é focalizado isoladamente, sem conexão com os fenômenos que o rodeiam, pois todo fenômeno, tomado de qualquer campo da natureza, pode converter-se num absurdo, se é examinado sem conexão com as condições que o rodeiam, desligado delas; e pelo contrário, todo fenômeno pode ser compreendido e explicado, se é examinado em sua conexão indissolúvel com os fenômenos circundantes e condicionado por eles.

b) Em oposição à metafísica, a dialética não considera a natureza como algo quieto e imóvel, parado e imutável, senão como algo sujeito a perene movimento e a mudanças constantes, como algo que se renova e se desenvolve incessantemente e onde há sempre alguma coisa que nasce e se desenvolve e algo que morre e caduca.

Por isso, o método dialético exige que se examinem os fenômenos, não só do ponto de vista de suas relações mútuas e de seu mútuo condicionamento, senão também do ponto de vista de seu movimento, de suas mudanças e de seu desenvolvimento, do ponto de vista de seu nascimento e de sua morte.

O que interessa, sobretudo, ao método dialético não é o que num momento dado parece estável porém começa já a morrer, senão o que nasce e se desenvolve, ainda que num momento dado pareça pouco estável pois a única coisa que há insuperável, segundo ele, é o que se acha em estado de nascimento e de desenvolvimento.

"Toda a natureza — diz Engels — desde suas partículas mais minúsculas até seus corpos mais gigantescos, desde o grão de areia até o Sol, desde o protozoário (célula viva primigênia. N. da R.) até o homem, se acha em estado perene de nascimento e morte, em fluxo constante, sujeita a incessantes mudanças e movimentos". (Engels, "Dialética da natureza", Obras completas de Marx e Engels, ed. alemã do Instituto Marx-Engels-Lenin, de Moscou, Sonderausgabe, pág. 491).

Por isso, a dialética — diz Engels — "focaliza as coisas e suas imagens conceituais, substancialmente, em suas conexões mútuas, em sua ligação e concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de gênese e caducidade" ("Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico", em Karl Marx, Obras Escolhidas, ed. Europa-América, t. I, pág. 65).

c) Em oposição à metafísica, a dialética não examina o processo de desenvolvimento dos fenômenos como um simples processo de crescimento, em que as mudanças quantitativas não se traduzem em mudanças qualitativas, senão como um processo em que se passa das mudanças quantitativas insignificantes e ocultas às mudanças manifestas, às mudanças radicais, às mudanças qualitativas: em que estas se produzem, não de modo gradual, senão repentina e subitamente, em forma de saltos de um estado de cousas a outro, e não de um modo casual, senão de acordo com as leis, como resultado da acumulação de uma série de mudanças quantitativas inadvertidas e graduais.

Por isso, o método dialético entende que os processos de desenvolvimento não se devem conceber como movimentos circulares, como uma simples repetição do caminho já percorrido, senão como movimentos progressivos, como movimentos em linha ascendente, como a transição do velho estado qualitativo a um novo estado qualitativo como a evolução do simples ao complexo, do inferior ao superior.

"A natureza — diz Engels — é a pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos blindam como prova disto um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido com cada dia que se passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última instância, pelos canais dialéticos e não pelos trilhos metafísicos, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, senão que percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar em primeiro lugar Darwin, que, com a prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo evolutivo que dura milhões de anos, assestou à concepção metafísica da natureza o mais rude golpe". (F. Engels, "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico", em Karl Marx, Obras Escolhidas, t. I, pág. 165).

Caracterizando o desenvolvimento dialético como a transição das mudanças quantitativas às mudanças qualitativas, diz Engels:

"Em Física... toda mudança é uma transformação de quantidade em qualidade, uma conseqüência da mudança quantitativa da massa de movimento de qualquer forma inerente ao corpo ou que se transmite a este. Assim, por exemplo, o grau de temperatura da água não influi em nada, a princípio, em seu estado líquido: porém, ao aumentar ou diminuir a temperatura da água líquida, se chega a um ponto em que seu estado de coesão se modifica e a água se converte, num caso, em vapor, e noutro caso, em gelo...

Assim também, para que o fio de platina da lâmpada elétrica acenda, é necessário um mínimo de corrente; todo metal tem seu grau térmico de fusão, e todo líquido, dentro de uma determinada pressão, seu ponto fixo de congelação e de ebulição, na medida em que os meios de que dispomos nos permitem produzir a temperatura necessária; e, finalmente, todo gás tem seu ponto crítico, no qual sob uma pressão e temperatura adequados se liquefaz em forma de gotas... As chamadas constantes da Física (os pontos de transição de um estado a outro. N. da R.) não são a maior parte das vezes, mais que os nomes dos pontos nodais em que a soma ou subtração quantitativas (mudanças quantitativas) de movimento provocam mudanças qualitativas no estado do corpo de que se trata, em que, portanto, a quantidade se troca em qualidade" (F. Engels, "Dialética da Natureza", ed. cit. pág. 503).

E mais adiante, passando à Química, Engels prossegue:

"Poderíamos dizer que a Química é a ciência das mudanças qualitativas dos corpos por efeito das mudanças operadas em sua composição quantitativa. E isto já o sabia o próprio Hegel... Basta observar o oxigênio: se combinarmos, para formar uma molécula, três átomos em vez de dois, que é o corrente, produziremos ozônio, corpo que se distingue de um modo muito definido do oxigênio normal, tanto pelo cheiro como pelos efeitos. E não falemos das diversas proporções em que o oxigênio se combina com o nitrogênio ou com o enxofre, e cada uma das quais produz um corpo quantitativamente diverso de todos os demais" (Obra citada, pág. 528).

Por último, criticando Dühring, que cumula Hegel de injúrias — sem prejuízo de tomar dele, sorrateiramente, a conhecida tese de que a transição do reino do insensível ao reino das sensações, do mundo inorgânico ao mundo da vida orgânica, representa um salto a um novo estado — Engels disse:

"É, certamente, a linha nodal hegeliana das proporções de medida, na qual o simples aumento ou a simples diminuição quantitativa determinam, ao chegar a um determinado nodal, um salto qualitativo, como ocorre, por exemplo com a água posta a aquecer ou a esfriar, onde o ponto de ebulição e o de congelação são os nódulos em que — sob uma pressão normal — se produz o salto a um novo estado de coesão, isto é, em que a quantidade se transforma em qualidade" (F. Engels, "Anti-Dühring", pág. 49).

d) Em oposição à metafísica, a dialética parte do critério de que os objetos e os fenômenos da natureza levam sempre implícitas contradições internas pois todos eles têm seu lado positivo e seu lado negativo, seu passado e seu futuro, seu lado de caducidade e seu lado de desenvolvimento: do critério de que a luta entre estes lados contrapostos, a luta entre o velho e o novo, entre o que agoniza e o que nasce, entre o que caduca e o que se desenvolve, forma o conteúdo interno do processo de desenvolvimento, o conteúdo interno da transformação das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas.

Por isso, o método dialético entende que o processo de desenvolvimento do inferior ao superior não decorre como um processo de desenvolvimento harmônico dos fenômenos, senão pondo sempre de relevo as contradições inerente aos objetos e aos fenômenos, num processo de "luta" entre as tendências contrapostas que atuam sobre a base daquelas contradições.

"Dialética, em sentido restrito, é — diz Lenin — o estudo das contradições contidas na própria essência dos objetos" (Lenin, "Cadernos filosóficos", pág. 263, ed. russa).

E mais adiante:

"O desenvolvimento é a "luta" entre tendências contrapostas" (Lenin, t. XIII pág. 301, ed. russa).

Tais são, brevemente expostos, os pontos fundamentais do método dialético marxista.

Não é difícil compreender quão enorme é a importância que a difusão dos princípios do método dialético tem para o estudo da vida social e da história da sociedade e que importância enorme encerra a aplicação destes princípios à história da sociedade e à atuação prática do Partido do proletariado.

Se no mundo não existem fenômenos isolados, se todos os fenômenos estão vinculados entre si e se condicionam uns aos outros, é evidente que todo regime social e todo movimento social que aparece na história deve ser julgado, não do ponto de vista da "justiça eterna" ou de qualquer outra idéia preconcebida, que é o que costumam fazer os historiadores, senão do ponto de vista das condições que engendraram este regime e este movimento social e aos quais se acham vinculados.

Dentro das condições modernas, o regime da escravidão é um absurdo e uma ignorância contrária à lógica. Em troca, dentro das condições de desagregação do regime do comunismo primitivo, a escravidão era um fenômeno perfeitamente lógico e natural já que representava um progresso em comparação com o comunismo primitivo.

A reivindicação da República democrático-burguesa dentro das condições do czarismo e da sociedade burguesa, por exemplo, na Rússia de 1905, era uma reivindicação perfeitamente lógica, acertada e revolucionária, pois a República burguesa representava, naquele tempo, um progresso. Em troca, dentro das condições atuais da U.R.S.S., a reivindicação da República democrático-burguesa seria absurda e contra-revolucionária, pois, comparada com a República Soviética, a República burguesa significa um retrocesso.

Tudo depende, pois, das condições, do lugar e do tempo.

E evidente que, sem abordar deste ponto de vista histórico os fenômenos sociais, não poderia existir nem desenvolver-se a ciência da história, pois este modo de abordar os fenômenos é o único que impede à ciência histórica converter-se num caos de sucessos fortuitos e num montão dos mais absurdos erros.

Pois bem, se o mundo se acha em incessantes movimento e desenvolvimento, e se a lei deste desenvolvimento é a extinção do velho e o fortalecimento do novo, é evidente que já não pode haver nenhum regime social "irremovível", nem podem existir os "princípios eternos" da propriedade privada e da exploração, nem as "idéias eternas" de submissão dos camponeses aos latifundiários e dos operários aos capitalistas.

Isto quer dizer que o regime capitalista pode ser substituído pelo regime socialista, do mesmo modo que, em seu dia, o regime capitalista substituiu o regime feudal.

Isto quer dizer que é preciso orientar-se, não para aquelas camadas da sociedade que chegaram já ao termo de seu desenvolvimento, embora no momento presente constituam a força predominante, senão para aquelas outras que se estão asseverando e que têm um porvir, ainda que não sejam as forças predominantes no momento atual.

Na década de 80 do século passado, na época de luta entre os marxistas e os populistas, o proletariado, na Rússia, constituía uma minoria insignificante, em comparação com os camponeses individuais, que formavam a imensa maioria da população. Porém o proletariado se estava desenvolvendo como classe, enquanto que os camponeses, como classe, se desagregavam. Precisamente por isto, porque o proletariado se estava desenvolvendo como classe, os marxistas se orientavam para ele. E não se equivocaram, pois, como é sabido, o proletariado se converteu, com o correr do tempo, de uma força insignificante numa força histórica e política de primeira ordem.

Isto quer dizer que em política, para não se equivocar, é preciso olhar para diante e não para trás.

Continuemos. Se a transição das lentas mudanças quantitativas às rápidas e súbitas mudanças qualitativas constitui uma lei do desenvolvimento, é evidente que as transformações revolucionárias levadas a cabo pelas classes oprimidas representam um fenômeno absolutamente natural e inevitável.

Isto quer dizer que a passagem do capitalismo ao socialismo e a libertação da classe operária do jugo capitalista não pode realizar-se por meio de mudanças lentas, por meio de reformas, mas só por meio da transformação qualitativa do regime capitalista, isto é, mediante a revolução.

Isto quer dizer que em política, para não se equivocar, é preciso ser revolucionário e não reformista.

Pois bem, se o processo de desenvolvimento é um processo de revolução de contradições internas, um processo de choques entre forças contrapostas, na base destas contradições, e com o fim de superá-las, é evidente que a luta de classes do proletariado constitui um fenômeno perfeitamente natural e inevitável.

Isto quer dizer que o que é preciso fazer, não é dissimular as contradições do regime capitalista, senão apresentá-las em toda sua extensão, — não é amortecer a luta de classes, senão levá-las ao fim conseqüentemente.

Isto quer dizer que em política, para não se equivocar, é preciso manter uma política proletária, de classe, intransigente, e não uma política reformista de harmonia de interesses entre o proletariado e a burguesia. Uma política oportunista de "evolução pacífica" do capitalismo ao socialismo.

Nisto consiste o método dialético marxista, aplicado à vida social e à história da sociedade.

No que se refere ao materialismo filosófico marxista, é, fundamentalmente, o oposto ao idealismo filosófico.

2) O Materialismo filosófico marxista se caracteriza pelos seguintes pontos fundamentais:

a) Em oposição ao idealismo, que considera o mundo como a materialização da "idéia absoluta", do "espírito universal", da "consciência", o materialismo filosófico de Marx parte do critério de que o mundo é, por sua natureza, algo material; de que os múltiplos e variados fenômenos do mundo constituem diversas formas e modalidades da matéria em movimento; de que os vínculos mútuos e as relações de interdependência entre os fenômenos que o método dialético põe de relevo são as leis, de acordo com as (mais se desenvolve a matéria em movimento; de que o mundo se desenvolve de acordo com as leis que regem o movimento da matéria, sem necessidade de nenhum "espírito universal".

"A concepção materialista do mundo — diz Engels — se limita simplesmente a conceber a natureza tal como é, sem nenhuma classe de aditamentos estranhos (F. Engels, "Ludwig Feuerbach, em Karl Marx, Obras Escolhidas, ed. Europa-América, t. I, pág. 413).

Referindo-se à concepção materialista de um filósofo da antiguidade, Heráclito, segundo o qual

"o mundo forma uma unidade por si mesmo e não foi criado por nenhum deus nem por nenhum homem, mas foi, é e será eternamente um fogo que se acende e se apaga de acordo com as leis",

diz Lenin:

"Eis uma excelente definição dos princípios do materialismo dialético" (Lenin, "Cadernos filosóficos" pág. 318).

b) Em oposição ao idealismo, o qual afirma que só nossa consciência tem uma existência real e que o mundo material, o ser, a natureza, só existem em nossa consciência, em nossas percepções, em nossas idéias, o materialismo filosófico marxista parte do critério de que a matéria, a natureza, o ser, são uma realidade objetiva, existem fora de nossa consciência e independentemente dela, de que a matéria é o primário, já que constitui a fonte da qual se derivam as sensações, as percepções e a consciência, e esta o secundário, o derivado, já que é a imagem refletida da matéria, a imagem refletida do ser; parte do critério de que o pensamento é um produto da matéria ao chegar a um alto grau de perfeição em seu desenvolvimento, e mais concretamente, um produto do cérebro e este o órgão do pensamento, e de que, portanto, não cabe, a menos que se caia num erro crasso, separar o pensamento da matéria.

"O problema da relação entre o pensamento e o ser, entre o espírito e a natureza é — diz Engels — o problema supremo de toda a filosofia... Os filósofos se dividiam em dois grandes campos, segundo a resposta que dessem a esta pergunta. Os que afirmavam o caráter primário do espírito frente à natureza... formavam no campo do idealismo. Os outros, os que reputavam a natureza como o primário, figuram nas diversas escolas do materialismo". (F. Engels, "Ludwig Feuerbach", em Karl Marx, Obras Escolhidas, t. I, págs. 407-408).

E mais adiante:

"O mundo material e perceptível pelos sentidos, do qual formamos parte também os homens, é o único mundo real... Nossa consciência e nosso pensamento, por muito desligados dos sentidos que pareçam, são o produto de um órgão material, físico: o cérebro. A matéria não é um produto do espírito, senão este, o produto supremo da matéria" (F. Engels, obra citada, pág. 411).

Referindo-se ao problema da matéria e do pensamento, Marx manifesta:

"Não é possível separar o pensamento da matéria pensante. A matéria é o objeto de todas as mudanças", (Obra citada, pág. 380).

Caracterizando o materialismo filosófico marxista, diz Lenin:

"O materialismo em geral reconhece a existência real e objetiva do ser (a matéria), independentemente da consciência, das sensações, da experiência... A consciência... não é mais que um reflexo do ser, no melhor dos casos seu reflexo mais ou menos exato (adequado, ideal (quanto à precisão), (t. XIII, págs. 26(5-2(37, ed. russa. Lenin).

E em outras passagens:

a) "É matéria o que, atuando sobre nossos órgãos sensoriais, produz as sensações; a matéria é a realidade objetiva, que as sensações nos transmitem... A matéria, a natureza, a existência, o físico, é o primário; o espírito, a consciência, as sensações, o psíquico, o secundário". (Obra citada, págs. 119-120).

b) "O quadro do mundo é o quadro de como se move e como pensa a matéria". (Obra citada, pág. 288).

c) "O cérebro é o órgão do pensamento". (Obra citada, pág. 125).

d) Em oposição ao idealismo, que disputa a possibilidade de conhecer o mundo e as leis por que se rege, que não crê na veracidade de nossos conhecimentos, que não reconhece a verdade objetiva e entende que o mundo está cheio de "coisas em si", que jamais poderão ser conhecidas pela ciência, o materialismo filosófico marxista parte do princípio de que o mundo e as leis por que se rege são perfeitamente cognoscíveis, de que nossos conhecimentos acerca das leis da natureza, comprovados pela experiência, pela prática, são conhecimentos verídicos, que têm o valor de verdades objetivas, de que no mundo não há coisas incognoscíveis, senão simplesmente coisas ainda não conhecidas, porém que a ciência e a experiência se encarregarão de revelar e de dar a conhecer.

Criticando a tese de Kant e de outros idealistas acerca da incognoscibilidade do mundo e das "coisas em si" incognoscíveis e defendendo a conhecida tese do marxismo acerca da veracidade de nossos conhecimentos, escreve Engels:

"A refutação mais contundente destas manias, como de todas as demais manias filosóficas, é a prática, ou seja a experiência. Se podemos demonstrar a exatidão de nosso modo de conceber um processo natural, reproduzindo-o nós mesmos, criando-o como resultado de suas próprias condições, e se, além disso, pomo-lo ao serviço de nossos próprios fins, daremos cabo da "coisa em si" inacessível de Kant. As substâncias químicas produzidas no mundo vegetal e animal continuaram sendo "coisas em si" se converteu em uma coisa para nós, como, por exemplo, a matéria carente da ruiva, a alizarina, que hoje não se extrai da raiz natural daquela planta, senão que se obtém do alcatrão da hulha, processo muito mais barato e mais fácil. O sistema solar de Copérnico foi durante trezentos anos uma hipótese, pela qual se podia apostar cem, mil, dez mil contra um, porém apesar de tudo, uma hipótese, até que Leverrier, com os dados tomados deste sistema, pôde calcular, não só a necessidade da existência de um planeta desconhecido, senão, além disso, o lugar em que este planeta tinha que se encontrar no firmamento; veio logo depois, Galle e descobriu efetivamente este planeta: a partir deste momento, o sistema de Copérnico ficou demonstrado". (Karl Marx, Obras Escolhidas, t. I, pág. 409).

Acusando Bogdanov, Basarov, Yushekevich e outros partidários de Mach de fideísmo e defendendo a conhecida tese do materialismo de que nossos conhecimentos científicos acerca das leis pelas quais a natureza se rege são conhecimentos verídicos e de que as leis da ciência constituem verdades objetivas, diz Lenin:

"O fideísmo moderno não rechaça, absolutamente, a ciência; a única coisa que rechaça são as "pretensões desmesuradas" da ciência; e concretamente, suas pretensões de verdade objetiva, (como entendem os materialistas) e se as ciências naturais, refletindo o mundo exterior na "experiência" do homem, são as únicas que nos podem dar essa verdade objetiva, todo fideísmo fica refutado incontrovertivelmente". (Lenin, t. XII, pág. 102, ed. russa).

Tais são, brevemente expostas, os pontos característicos do materialismo filosófico marxista.

É fácil compreender a enorme importância que tem a aplicação dos princípios do materialismo filosófico ao estudo da vida social, ao estudo da história da sociedade, a enorme importância que tem o aplicar estes princípios à história da sociedade e à atuação prática do Partido do proletariado.

Se a lei pela qual se rege o desenvolvimento da natureza é a relação entre os fenômenos naturais e sua interdependência, daqui se deduz que a relação e interdependência entre os fenômenos sociais não constituem tampouco um fato fortuito, senão a lei pela qual se rege o desenvolvimento da sociedade.

Isto quer dizer que a vida social e a história da sociedade já não são um conglomerado de fatos "fortuitos", pois a história da sociedade se converte no desenvolvimento da sociedade de acordo com suas leis, e o estudo da história da sociedade adquire categoria de ciência.

Isto quer dizer que a atuação prática do Partido do proletariado deve basear-se, não nos bons desejos das "ilustres personalidades", não nos postulados da "razão", da "moral universal", etc, senão nas leis do desenvolvimento da sociedade e no estudo destas.

Pois bem, se o mundo é cognoscível, e nossos conhecimentos acerca das leis que regem o desenvolvimento da natureza são conhecimentos verdadeiros, que têm o valor de verdades objetivas, isto quer dizer que também a vida social, o desenvolvimento da sociedade, são suscetíveis de serem conhecidos; e que os dados com que nos brinda a ciência sobre as leis do desenvolvimento da sociedade são dados veríficos, que têm o valor de verdades objetivas.

Isto quer dizer que a ciência que estuda a história da sociedade pode adquirir, malgrado toda a complexidade dos fenômenos da vida social, a mesma precisão que a Biologia, por exemplo, oferecendo-nos a possibilidade de dar uma aplicação prática das leis que regem o desenvolvimento da sociedade.

Isto quer dizer que, em sua atuação prática, o Partido do proletariado deve guiar-se, não por estes ou outros motivos fortuitos, senão pelas leis que regem o desenvolvimento da sociedade e pelas conclusões que delas derivam.

Isto quer dizer que o socialismo deixa de ser um sonho acerca de um futuro melhor da humanidade, para converter-se numa ciência.

Isto quer dizer que o enlace entre a ciência e a atuação prática, entre a teoria e a prática, sua unidade, deve ser a estrela polar que guia o Partido do proletariado.

Logo, se a natureza, a existência, o mundo material são o primário, e a consciência, o pensamento, o secundário, o derivado; se o mundo material constitui a realidade objetiva, que existe independentemente da consciência do homem, e a consciência é a imagem refletida desta realidade objetiva, deduz-se daí que a vida material da sociedade, sua existência, é também o primário, e sua vida espiritual, o secundário o derivado; que a vida material da sociedade é a realidade objetiva, que existe independentemente da vontade dos homens, e a vida espiritual da sociedade, o reflexo desta realidade objetiva, o reflexo do ser.

Isto quer dizer que a fonte donde se forma a vida espiritual da sociedade, a fonte da qual emanam as idéias sociais, as teorias sociais, as concepções e as instituições políticas devem buscar-se não nestas mesmas idéias, teorias, concepções e instituições políticas, senão nas condições da vida material da sociedade, na existência social, da qual são reflexo estas idéias, teorias, concepções, etc.

Isto quer dizer que se nos diversos períodos da história da sociedade nos encontramos com diversas idéias, teorias e concepções sociais e instituições políticas diferentes; se sob o regime da escravidão observamos umas idéias, teorias e concepções sociais, umas instituições políticas, sob o feudalismo outras, e outras diferentes sob o capitalismo, a explicação disto não está na "natureza", nem na "peculiaridade" das próprias idéias, teorias, concepções e instituições políticas, senão nas diferentes condições da vida material da sociedade dentro dos diversos períodos de desenvolvimento social.

Segundo sejam as condições de existência da sociedade, as condições em que se desenvolve sua vida material, assim são suas idéias, suas teorias, suas concepções e instituições políticas.

Em relação com isto, diz Marx:

"Não é a consciência do homem a que determina sua existência, senão, pelo contrário, sua existência social o que determina sua consciência" (Karl Marx, Obras Escolhidas, t. I, pág. 339).

Isto quer dizer que, em política, para não se equivocar e não se converter numa coleção de vagos sonhadores, o Partido do proletariado deve tomar como ponto de partida para sua atuação, não os "princípios" abstratos da "razão humana", senão as condições concretas da vida material da sociedade, que constituem a força decisiva do desenvolvimento social; não os bons desejos dos "grandes homens", senão as exigências reais, impostas pelo desenvolvimento da vida material da sociedade.

O fracasso dos utopistas, incluindo entre eles os populistas, os anarquistas e os social-revolucionários, explica-se, entre outras razões, porque não reconheciam a importância primária das condições da vida material da sociedade quanto ao desenvolvimento desta, senão que, caindo no idealismo, erigiam toda a atuação prática, não sobre as exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade, senão, independentemente delas e contra elas, sobre "planos ideais" e "projetos universais", desligados da vida real da sociedade.

A força e a vitalidade do marxismo-leninismo se estribam precisamente em que toma como base para sua atuação prática as exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade, sem desligar-se jamais da vida real desta.

No entanto, das palavras de Marx não se depreende que as idéias e as teorias sociais, as concepções e as instituições políticas, não tenham importância alguma na vida da sociedade, que não .exerçam de maneira incidental uma influência sobre a existência social, sobre o desenvolvimento das condições materiais da vida da sociedade. Até agora, viemos nos referindo unicamente à origem das idéias e teorias sociais e das concepções e instituições políticas, a seu nascimento, ao fato de que a vida espiritual da sociedade é o reflexo das condições de sua vida material. No tocante à importância das idéias e teorias sociais e das concepções e instituições políticas, no tocante ao papel que desempenham na história, o materialismo histórico não só não nega, mas, pelo contrário, salienta a importância do papel e da significação que lhes correspondem na vida e na história da sociedade.

Porém as idéias e teorias sociais não são todas iguais. Há idéias e teorias velhas que já cumpriram sua missão e que servem aos interesses de forças sociais caducas. Seu papel consiste em freiar o desenvolvimento da sociedade, sua marcha progressiva. E há idéias e teorias novas, avançadas, que servem aos interesses das forças de vanguarda da sociedade. O papel destas consiste em facilitar o desenvolvimento da sociedade, sua marcha progressiva, sendo sua importância tanto maior quanto maior é a exatidão com que correspondem às exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade.

As novas idéias e teorias sociais só surgem depois que o desenvolvimento da vida material da sociedade apresenta a esta novas tarefas. Porém, depois de surgir, se convertem numa força importante, que facilita a execução destas novas tarefas exigidas pelo desenvolvimento da vida material da sociedade, que facilita os progressos desta. É aqui, precisamente, onde se acusa a formidável importância organizadora, mobilizadora e transformadora das novas idéias, das novas teorias e das novas concepções políticas, das novas instituições políticas. Por isso, as novas idéias e teorias sociais surgem em rigor, porque são necessárias para a sociedade, porque sem seu trabalho organizador, mobilizador e transformador seria impossível levar a cabo as tarefas que o desenvolvimento da vida material da sociedade exige e que já estão em tempo de ser cumpridas. E como surgem sobre a base das novas tarefas exigidas pelo desenvolvimento da vida material da sociedade, as novas idéias e teorias sociais abrem caminho, convertem-se em patrimônio das massas populares, mobilizam e organizam estas contra as forças sociais caducas, facilitando assim a derrocada destas forças sociais caducas que freiam o desenvolvimento da vida material da sociedade.

Eis como as idéias e teorias sociais, as instituições políticas, que brotam na base das tarefas já maduras para sua solução, exigidas pelo desenvolvimento da vida material da sociedade, pelo desenvolvimento da existência social, atuam logo depois, por sua vez, sobre esta existência social, sobre a vida material da sociedade, criando as condições necessárias para levar ao fim a execução das tarefas já maduras da vida material da sociedade e tornar possível seu desenvolvimento ulterior.

Em relação a isto, diz Marx:

"A teoria se converte numa força material tão cedo seja apreendida pelas massas" (K. Marx e F. Engels, Obras Completas, t I pág 406).

Isto quer dizer que para poder atuar sobre as condições da vida material da sociedade e acelerar seu desenvolvimento, acelerar seu melhoramento, o Partido do proletariado tem que se apoiar numa teoria social, numa idéia social que reflita acertadamente as exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade que, graças a isso, seja capaz de pôr em movimento grandes massas do povo, de mobilizá-los e organizar com elas o grande exército do Partido proletário apto para esmagar as forças reacionárias e aplainar o caminho para as forças avançadas da sociedade.

O fracasso dos "economistas" e os mencheviques se explica, entre outras razões, pelo fato de que não reconheciam a importância mobilizadora, organizadora e transformadora da teoria de vanguarda, da idéia de vanguarda e, caindo num materialismo vulgar, reduziam seu papel quase a nada, e conseguintemente condenavam o Partido à passividade, a viver vegetando.

A força e a vitalidade do marxismo-leninismo se estribam em que se apoia numa teoria de vanguarda que reflete acertadamente as exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade, e que coloca a teoria à altura que lhe corresponde e considera seu dever utilizar integralmente sua força de mobilização, de organização e de transformação.

É assim como o materialismo histórico resolve o problema das relações entre a existência social e a consciência social, entre as condições de desenvolvimento da vida material e o desenvolvimento da vida espiritual da sociedade.

Resta só responder a esta pergunta: Que se entende, do ponto de vista do materialismo histórico, por "condições de vida material da sociedade", que são as que determinam, em última instância, a fisionomia da sociedade, suas idéias, suas concepções, instituições políticas, etc?

Quais são essas "condições de vida material da sociedade", quais são seus traços característicos?

É indubitável que neste conceito de "condições de vida material da sociedade" entra, antes de tudo, a natureza que rodeia a sociedade, o meio geográfico, que é uma das condições necessárias e constantes da vida material da sociedade e que, naturalmente, influi no desenvolvimento desta. Qual é o papel do meio geográfico no desenvolvimento da sociedade? Não será, por acaso, o meio geográfico o fator fundamental que determina a fisionomia da sociedade, o caráter do regime social dos homens, a transição de um regime a outro?

O materialismo histórico responde negativamente a esta pergunta.

O meio geográfico é, indiscutivelmente, uma das condições constantes e necessárias do desenvolvimento da sociedade e influi, indubitavelmente, nele, acelerando-o ou amortecendo-o. Porém esta influência não é determinante, já que as mudanças e o desenvolvimento da sociedade se operam com uma rapidez incomparavelmente maior do que os que afetam o meio geográfico. No transcurso de três mil anos, a Europa viu desaparecer três regimes sociais: o do comunismo primitivo, o da escravidão e o regime feudal, e na parte Oriental da Europa, na U.R.S.S. feneceram quatro. Pois bem, durante este tempo, as condições geográficas da Europa não sofreram mudança alguma, ou se sofreram foi tão leve que a geografia não crê que mereça a pena registrá-lo. E se compreende que seja assim. Para que o meio geográfico experimente mudanças de certa importância, são precisos milhões de anos, enquanto que em umas centenas ou em um par de milhares de anos podem operar-se, inclusive, mudanças da maior importância no regime social.

Daqui se depreende que o meio geográfico não pode ser a causa fundamental, o fator determinante do desenvolvimento social, pois, como é que o que permanece quase invariável através de dezenas de milhares de anos vai poder ser a causa fundamental a que obedeça o desenvolvimento daquilo que no espaço de umas quantas centenas de anos experimenta mudanças radicais?

Do mesmo modo, é indubitável que o crescimento da população, a maior ou menor densidade da população é também um fator que forma também parte do conceito das "condições materiais da vida da sociedade", já que entre estas condições materiais se conta, como elemento necessário, o homem, e não poderia existir a materialidade da vida social sem um determinado mínimo de seres humanos. Não será, acaso, o desenvolvimento da população o fator cardial que determina o caráter do regime social em que os homens vivem?

O materialismo histórico também responde negativamente a esta pergunta.

E indubitável que o crescimento da população influi no desenvolvimento da sociedade, facilitando ou entorpecendo este desenvolvimento, porém não pode ser o fator cardial a que obedece, nem sua influência pode ter um caráter determinante quanto ao desenvolvimento social, já que o crescimento da população por si só não nos oferece a chave para explicar por que um dado regime social é substituído precisamente por um determinado regime novo e não por outro, porque o regime do comunismo primitivo foi substituído precisamente pelo regime da escravidão, o regime escravagista pelo regime feudal e este pelo burguês, e não por outros quaisquer.

Se o crescimento da população fosse o fator determinante do desenvolvimento social, a uma maior densidade de população teria que corresponder forçosamente, na prática, um tipo proporcionalmente mais elevado de regime social. Porém na realidade não ocorre assim. A densidade da população da China é quatro vezes maior que a dos Estados Unidos, apesar disso os Estados Unidos ocupam um lugar mais elevado do que a China no que se reiere ao desenvolvimento social, pois enquanto que na China continua imperando o regime semifeudal, os Estados Unidos já há muito tempo que chegaram à fase culminante de desenvolvimento do capitalismo. A densidade da população da Bélgica é 19 vezes maior que a dos Estados Unidos e 26 vezes maior que a da U.R.S.S. e, no entanto, a Norte-América sobrepassa a Bélgica no tocante a seu desenvolvimento social, e a U.R.S.S. leva-lhe de vantagem toda uma época histórica, pois enquanto que na Bélgica impera o regime capitalista, a U.R.S.S. já liquidou o capitalismo e instaurou o regime socialista.

Daí se depreende que o crescimento da população não é nem pode ser o fator cardial no desenvolvimento da sociedade, o fator determinante do caráter do regime social, da fisionomia da sociedade.

Qual é, então, dentro do sistema das condições materiais de vida da sociedade, o fator cardial que determina a fisionomia daquela, o caráter do regime social, a passagem da sociedade de um regime social a outro?

Este fator é, segundo o materialismo histórico, o modo de obtenção dos meios de vida necessários para a existência do homem, o modo de produção dos bens materiais, do alimento, do vestuário, do calçado, da habitação, do combustível, dos instrumentos da produção, etc, necessários para que a sociedade possa viver e desenvolver-se.

Para viver, o homem necessita de alimentos, vestuário, calçado, habitação, combustível, etc, para obter estes bens materiais, tem que produzi-los, e para poder produzi-los necessita dispor de meios de produção, com ajuda dos quais se consegue o alimento, se fabrica o vestuário, o calçado, se constrói a habitação, se obtém o combustível, etc.; necessita aprender a produzir estes instrumentos e a servir-se deles.

Instrumentos de produção, com ajuda dos quais se produzem os bens materiais, e homens que os manejam e efetuam a produção dos bens materiais, por ter uma certa experiência produtiva e hábitos de trabalho: tais são os elementos que, em conjunto, formam as forças produtivas da sociedade.

Porém as forças produtivas não são mais que um dos aspectos da produção, um dos aspectos do modo de produção, o aspecto que reflete a relação entre o homem e os objetos e as forças da natureza empregados para a produção dos bens materiais. O outro fator da produção, o outro aspecto do modo de produção, é constituído pelas relações de uns homens com outros, dentro do processo da produção, as relações de produção entre os homens. Os homens não lutam com a natureza e não a utilizam isoladamente, desligados uns dos outros, senão juntos, em grupos, em sociedades. Por isso, a produção é sempre e sob quaisquer condição uma produção social. Ao efetuar a produção dos bens materiais, os homens estabelecem entre si, dentro da produção, tais ou quais relações mútuas, tais ou quais relações de produção. Estas relações podem ser relações de colaboração e ajuda mútua entre homens livres de toda exploração, podem ser relações de império e subordinação ou podem ser, por último, relações de tipo transitório entre a primeira forma e a segunda. Porém, qualquer que seja seu caráter, as relações de produção constituem — sempre em todos os regimes — um elemento tão necessário da produção como as próprias forças produtivas da sociedade.

"Na produção — diz Marx — os homens não atuam somente sobre a natureza, senão que atuam também uns sobre os outros. Não podem produzir sem associar-se de um certo modo para atuar em comum e estabelecer um intercâmbio de atividades. Para produzir, os homens contraem determinados vínculos e relações, e através destes vínculos e relações sociais, e só através deles, é como se relacionam com a natureza e como se efetua a produção". (K. Marx, e F. Engels. Obras Completas, ed. citada, t. V, pág. 429).

Conseguintemente, a produção, o modo de produção, não abarca somente as forças produtivas da sociedade, senão também as relações de produção entre os homens, relações que são, portanto, a forma em que toma corpo sua unidade dentro do processo da produção de bens materiais.

Uma das características da produção é que jamais se detém num ponto durante um longo período, senão que muda e se desenvolve constantemente, com a particularidade de que estas mudanças operadas no modo de produção provocam inevitavelmente a mudança de todo o regime social, das idéias sociais, das concepções e instituições políticas, provocam a reorganização de todo o sistema político e social. Nas diversas fases de desenvolvimento, o homem emprega diversos modos de produção ou, para dizê-lo em termos mais vulgares, mantém gênero de vida diferente. Sob o regime do comunismo, o modo de produção empregado é diferente daquele que se dá sob a escravidão, sob o regime da escravidão é diferente daquele que se dá sob o feudalismo, etc. E, em consonância com isto, variam também o regime social de vida dos homens, sua vida espiritual, suas concepções e instituições políticas.

Segundo seja o modo de produção existente numa sociedade, assim é também, fundamentalmente, esta mesma sociedade e assim são suas idéias e suas teorias, suas concepções e instituições políticas.

Ou, para dizê-lo em termos vulgares, conforme vive o homem, assim pensa ele.

Isto significa que a história do desenvolvimento da sociedade é, antes de tudo, a história do desenvolvimento da produção, a história dos modos de produção que se sucedem uns aos outros ao longo dos séculos, a história do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção entre os homens.

Isto quer dizer que a história do desenvolvimento social é, ao mesmo tempo, a história dos próprios produtores de bens materiais, a história das massas trabalhadoras, que levam a cabo a produção dos bens materiais necessários para a existência da sociedade.

Isto quer dizer que a ciência histórica, se pretende ser uma verdadeira ciência, não deve continuar reduzindo a história do desenvolvimento social aos atos dos reis e dos caudilhos militares, aos atos dos "conquistadores" e "usurpadores" de Estados, mas deve ocupar-se, antes de tudo, da história das massas trabalhadoras, da história dos povos.

Isto quer dizer que a chave para o estudo das leis da história da sociedade não se deve procurar nas cabeças dos homens, nas idéias e concepções da sociedade, senão no modo de produção aplicado pela sociedade em cada um de seus períodos históricos, isto é, na economia da sociedade.

Isto quer dizer que a tarefa primordial da ciência história é o estudo e o descobrimento das leis da produção, das leis do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção das leis do desenvolvimento econômico da sociedade.

Isto quer dizer que o Partido do proletariado, para ser um verdadeiro partido, deve, antes de tudo, conhecer inteiramente as leis do desenvolvimento da produção, as leis do desenvolvimento econômico da sociedade.

Isto quer dizer que em política, para não se equivocar, o Partido do proletariado deve, antes de tudo, tanto no que se refere à formação de seu programa como no que toca à sua atuação prática, partir das leis do desenvolvimento da produção, das leis do desenvolvimento econômico da sociedade.

A segunda característica da produção consiste em que suas mudanças e seu desenvolvimento começam sempre, como de seu ponto de partida, das mudanças e do desenvolvimento das forças produtivas, e, antes de tudo, das que afetam aos instrumentos de produção. As forças produtivas constituem, portanto, o elemento mais dinâmico e mais revolucionário da produção. A princípio, mudam e se desenvolvem as forças produtivas da sociedade, e logo depois sujeitas a estas mudanças e congruentemente com elas, mudam as relações de produção entre os homens, suas relações econômicas. Entretanto, isto não quer dizer que as relações de produção não influam sobre o desenvolvimento das forças produtivas e que estas não dependam daquelas. As relações de produção, ainda que seu desenvolvimento dependa do das forças produtivas, atuam por sua vez sobre o desenvolvimento destas, acelerando-o ou amortecendo-o. A respeito convém advertir que as relações de produção não podem ficar por um tempo demasiado longo atrasadas das forças produtivas ao crescer estas, nem se achar em contradição com elas, já que as forças produtivas só podem desenvolver-se plenamente quando as relações de produção estão em harmonia com elas por seu caráter e seu estado de progresso e deixam margem para seu desenvolvimento. Por isso, por muito atrasadas que fiquem as relações de produção em relação ao desenvolvimento das forças produtivas, têm necessariamente que se pôr e se põem realmente — mais tarde ou mais cedo — em harmonia com o nível do desenvolvimento das forças produtivas, e com o caráter destas. De outro modo, nos encontraríamos ante uma ruptura radical da unidade entre as forças produtivas e as relações de produção dentro do sistema desta, com um desconjuntamento da produção em bloco, com uma crise de produção, com a derrubada das forças produtivas.

Um exemplo de desarmonia entre as relações de produção e o caráter das forças produtivas, de conflito entre ambos os fatores, temo-lo nas crises econômicas dos países capitalistas, onde a propriedade privada capitalista sobre os meios de produção está em violenta discordância com o caráter social do processo de produção, com o caráter das forças produtivas. Resultado desta discordância são as crises econômicas, que conduzem à destruição das forças produtivas; e esta discordância constitui, por si só, a base econômica da revolução social, cuja missão consiste em destruir as relações de produção existentes, para criar outras novas, em harmonia com o caráter das forças produtivas.

Pelo contrário, um exemplo de uma harmonia completa entre as relações de produção e o caráter das forças produtivas, nos oferece a economia socialista da U.R.S.S., onde a propriedade social sobre os meios de produção concorda plenamente com o caráter social do processo da produção e onde, portanto, não existem crises econômicas nem se produzem casos de destruição das forças produtivas.

Por conseguinte, as forças produtivas não são somente o elemento mais dinâmico e mais revolucionário da produção, mas são, além disso, o elemento determinante de seu desenvolvimento.

Conforme forem as forças produtivas, assim têm que ser também as relações de produção.

Se o estado das forças produtivas responde à pergunta de com que instrumento de produção os homens criam os bens materiais que lhes são necessários, o estado das relações de produção responde logo a outra pergunta: em poder de quem estão os meios de produção (a terra, os bosques, as águas, o subsolo, as matérias-primas, as ferramentas e os edifícios de produção, as vias e meios de comunicação, etc), à disposição de quem se acham os meios de produção: à disposição de toda a sociedade, ou à disposição de determinados indivíduos, grupos ou classes, que os empregam para explorar outros indivíduos, grupos ou classes?

Eis um quadro esquemático do desenvolvimento das forças produtivas desde os tempos primitivos até nossos dias. Das ferramentas de pedra sem polimento se passa ao arco e à flecha e, em relação com isto, da caça como sistema de vida à domesticação de animais e à criação de gado primitiva; das ferramentas de pedra se passa às ferramentas de metal (ao machado de ferro, arado com relha de ferro, etc.) e, em consonância com isto, ao cultivo das plantas e à agricultura; vem logo depois o melhoramento progressivo das ferramentas metálicas para a elaboração de materiais, passa-se à forja de fole e à olaria e, em consonância com isto, desenvolvem-se os ofícios artesãos, separam-se estes ofícios da agricultura, desenvolve-se a produção independente dos artesãos e, mais tarde, a manufatura; dos instrumentos artesãos de produção se passa à máquina, e a produção artesã e manufatureira se transforma na indústria mecânica, e, por fim, passa-se ao sistema de máquinas, e aparece a grande indústria mecânica moderna; tal é, em linhas gerais e não completas, o quadro de desenvolvimento das forças produtivas sociais no transcurso da história da Humanidade. Além disso, como é lógico, o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos instrumentos de produção correm a cargo de homens relacionados com a produção e não se realizam com independência destes: portanto, a par com as mudanças e o desenvolvimento dos instrumentos de produção, mudam e se desenvolvem também os homens, como elemento mais importante das forças produtivas, mudam e se desenvolvem sua experiência no que se refere à produção, seus hábitos de trabalho e seu talento para o emprego dos instrumentos de produção.

Em consonância com as mudanças e o desenvolvimento experimentados pelas forças produtivas da sociedade no curso da história, mudam também e se desenvolvem as relações de produção entre os homens, suas relações econômicas.

A história conhece cinco tipos fundamentais de relações de produção: o comunismo primitivo, a escravidão, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo.

Sob o regime do comunismo primitivo, a base das relações de produção é a propriedade social sobre os meios de produção, isto é, o que em substância, corresponde ao caráter das forças produtivas durante este período. As ferramentas de pedra e o arco e a flecha, que aparecem mais tarde, excluíam a possibilidade de lutar isoladamente contra as forças da natureza e contra os animais ferozes. Se não queriam morrer de fome, ser devorados pelas feras ou sucumbir nas mãos das tribos vizinhas, os homens daquela época viam-se obrigados a trabalhar em comum, e assim era como recolhiam os frutos no bosque, como organizavam a pesca, como construíam suas habitações, etc. O trabalho em comum conduz à propriedade em comum sobre os instrumentos de produção do mesmo modo que sobre os produtos. Ainda não havia surgido a idéia da propriedade privada sobre os meios de produção, excetuando a propriedade pessoal de certas ferramentas, que ao mesmo tempo que ferramentas de trabalho eram armas de defesa contra os animais ferozes. Ainda não existia exploração, não existiam classes.

Sob o regime da escravidão, a base das relações de produção é a propriedade do escravagista sobre os meios de produção, assim como também sobre os próprios produtores, os escravos, a quem o escravagista podia vender, comprar e matar, como o gado. Estas relações de produção se acham, fundamentalmente, em consonância com o estado das forças produtivas durante este período.

Agora, em vez das ferramentas de pedra, o homem já dispõe de ferramentas de metal. Em vez daquela mísera economia primitiva baseada na caça e que não conhecia nem a pecuária nem a agricultura, existem a pecuária, a agricultura, os ofícios artesãos e a divisão do trabalho entre estes diversos ramos da produção; existe a possibilidade de efetuar um intercâmbio de produtos entre os diversos indivíduos e as diversas sociedades e a possibilidade de acumular riquezas em mãos de umas quantas pessoas; produz-se, com efeito, uma acumulação de meios de produção em mãos de uma minoria e surge a possibilidade de que esta minoria subjugue a maioria e converta seus componentes em escravos. Já não existe o trabalho livre e em comum de todos os membros da sociedade dentro do processo da produção, mas impera o trabalho forçado dos escravos, explorados pelos escravagistas que não trabalham. Não existe portanto, propriedade social sobre os meios de produção nem sobre os produtos. A propriedade social é substituída pela propriedade privada. O escravagista é o primeiro e fundamental proprietário com plenitude de direitos.

Ricos e pobres, explorados, homens com plenitude de direitos e homens privados totalmente de direitos; uma furiosa luta de classes entre uns e outros: tal é o quadro que o regime da escravidão apresenta.

Sob o regime feudal, a base das relações de produção e a propriedade do senhor feudal sobre os meios de produção e sua propriedade parcial sobre os produtores, sobre os servos, a quem já não pode matar, porém a quem se pode comprar e vender. A par com a propriedade feudal, existe a propriedade pessoal do camponês e do artesão sobre os instrumentos de produção e sobre sua terra ou sua indústria privada, baseada no trabalho pessoal. Estas relações de produção se acham, fundamentalmente, em consonância com o estado das forças produtivas durante este período. O aperfeiçoamento progressivo da fundição e elaboração de metais, a difusão do arado de ferro e do tear, os progressos da agricultura, da horticultura, da vinicultura e da fabricação de azeite, o aparecimento das primeiras manufaturas junto às oficinas dos artesãos: tais são os traços característicos do estado das forças produtivas durante este período.

As novas forças produtivas exigem que se deixe ao trabalhador, certa iniciativa na produção, que sinta certa inclinação para o trabalho e se ache interessado nele. Por isso, o senhor feudal prescinde dos escravos, que não sentem nenhum interese por seu trabalho, não põem nele a menor iniciativa, e prefere entender-se com os servos, que têm seus próprios bens e suas próprias ferramentas e se acham interessados em certo grau pelo trabalho na medida necessária para trabalhar a terra e pagar ao senhor em espécie com uma parte da colheita.

Durante este período a propriedade privada faz novos progressos. A exploração continua sendo quase tão rapace como sob a escravidão ainda que um pouco suavizada. A luta de classes entre os exploradores e os explorados é o traço fundamental do feudalismo.

Sob o regime capitalista a base das relações de produção é a propriedade capitalista sobre os meios de produção e a inexistência de propriedade sobre os produtores, operários assalariados, a quem o capitalista não pode matar nem vender, pois se acham isentos dos vínculos de sujeição pessoal, porém carecem de meios de produção, pelo que, para não morrerem de fome, se vêem obrigados a vender sua força de trabalho ao capitalista e submeter-se ao jugo da exploração. A par com a propriedade capitalista sobre os meios de produção, existe e se acha, nos primeiros tempos, muito generalizada a propriedade privada do camponês e do artesão, livres da servidão, sobre seus meios de produção, e baseada no trabalho pessoal. Em lugar das oficinas dos artesãos e das manufaturas, surgem as grandes fábricas e empresas, dotadas de maquinarias. Em lugar de fazendas dos nobres, cultivadas com os primitivos instrumentos camponeses de produção, aparecem as grandes explorações agrícolas capitalistas, montadas com técnica agrária e dotada de maquinaria agrícola.

As novas forças produtivas exigem trabalhadores mais cultos e mais hábeis que os servos, mantidos no embrutecimento e na ignorância; trabalhadores capazes de atender e manejar as máquinas. Por isso, os capitalistas preferem tratar com operários assalariados livres dos vínculos da servidão e suficientemente cultos para saberem manejar a maquinaria.

Porém, depois de desenvolver as forças produtivas em proporções gigantescas, o capitalismo se enreda em contradições insolúveis para cie. Ao produzir cada vez mais mercadorias e fazer baixar cada vez mais seus preços, o capitalismo estimula a concorrência, arruina uma massa de pequenos e médios proprietários, converte-os em proletários e abaixa seu poder aquisitivo, com o que a venda das mercadorias produzidas se torna impossível. Ao dilatar a produção e concentrar milhões de operários em enorme fabricas e empresas, o capitalismo dá ao processo de produção um caráter social e vai minando com isso sua própria base, já que o caráter social do processo de produção reclama a propriedade social sobre os meios de produção, enquanto que a propriedade sobre os meios da produção continua sendo uma propriedade privada capitalista, incompatível com o caráter social que o processo de produção apresenta.

Estas contradições irredutíveis entre o caráter das forças produtivas e o das relações de produção se manifestam nas crises periódicas de superprodução, em que os capitalistas, não encontrando compradores solventes, como consequência do empobrecimento da massa da população, provocada por eles próprios, se vêem obrigados a queimar os produtos, destruir as mercadorias elaboradas, paralisar a produção e devastar as forças produtivas, e em que milhões e milhões de seres se vêem condenados ao desemprego e à fome, não porque escasseiam as mercadorias, mas muito ao contrário: por havê-las produzido em excesso.

Isto quer dizer que as relações capitalistas de produção já não estão em consonância com o estado das forças produtivas da sociedade, mas se acham em irredutível contradição com elas.

Isto quer dizer que o capitalismo leva em sua entranha a revolução, uma revolução que está chamada a substituir a atual propriedade capitalista sobre os meios de produção pela propriedade socialista.

Isto quer dizer que o traço fundamental do regime capitalista é a mais encarniçada luta de classes entre os explorados e exploradores.

Sob o regime socialista que até hoje só é uma realidade na U.R.S.S., a base das relações de produção é a propriedade social sobre os meios de produção. Aqui já não há exploradores nem explorados. Os produtos criados se distribuem de acordo com o trabalho, segundo o princípio de "quem não trabalha não come". As relações mútuas entre os indivíduos dentro do processo de produção têm o caráter de relações de colaboração fraternal e de mútua ajuda socialista entre os trabalhadores livres de toda a exploração. As relações de produção se acham em plena consonância com o estado das forças produtivas, pois o caráter social do processo de produção é referendado pela propriedade social sobre os meios de produção.

Por isso, a produção socialista da U.R.S.S. não conhece as crises periódicas de superprodução nem os absurdos que acarretam.

Por isso, na U.R.S.S., as forças produtivas se desenvolvem com ritmo acelerado, já que suas respectivas relações de produção, ao se acharem em consonância com elas, não opõem o menor entrave a este desenvolvimento.

Tal é o quadro que o desenvolvimento das relações de produção entre os homens apresenta, no curso da história da Humanidade.

Tal é a relação de dependência em que se acha o desenvolvimento das relações de prodtição a respeito do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, e sobretudo, quanto ao desenvolvimento dos instrumentos de produção, em virtude do qual as mudanças e o desenvolvimento que experimentam as forças produtivas se traduzem, mais cedo ou mais tarde, nas mudanças e no desenvolvimento congruentes das relações de produção.

"O uso e a criação de meios de trabalho — diz Marx — ainda que em gérmen se apresente já em certas espécies animais, caracterizam o processo de trabalho especificamente humano, razão por que Franklin define o homem como um animal que fabrica instrumentos. E assim como a estrutura de restos fósseis de ossos tem uma grande importância para reconstruir a organização de espécies animais desaparecidas, os vestígios de meios de trabalho nos servem para apreciar antigas formações econômicas da sociedade já sepultadas. O que distingue as épocas econômicas umas de outras não é o que se produz, senão como se produz... Os meios de trabalho não são somente o graduador do desenvolvimento da força de trabalho do homem, mas também o expoente das relações sociais em que se trabalha". (K. Marx, "O Capital", t. I, pág. 189).

E em outras passagens:

a) "As relações sociais estão intimamente vinculadas às forças produtivas. Ao descobrir novas forças produtivas, os homens mudam de modo de produção e ao mudar de modo de produção, a maneira de ganhar a vida, mudam todas suas relações sociais. O moinho movido a braço engendra a sociedade com os senhores feudais: o moinho a vapor, a sociedade dos capitalistas industriais". K. Marx, "Miséria da Filosofia", em K. Marx e F. Engels, Obras completas, ed. citada, t. VI, pág. 179).

b)"Existe um movimento constante de incrementação das forças produtivas, de destruição das relações sociais e de formação das idéias: a abstração do movimento é a única coisa imutável" (K. Marx, Obra citada, pág. 3(34).

Caracterizando o materialismo histórico, tal como se formula no "Manifesto do Partido Comunista", diz Engels:

"A produção econômica e a estruturação social que dela se deriva necessariamente em cada época histórica, constituem a base sobre a (mal repousa a história política e intelectual dessa época... Portanto, toda a história da sociedade, desde a dissolução do regime primitivo de propriedade coletiva sobre o solo, tem sido uma história de lutas de classe, de lutas entre classes exploradoras e exploradas, dominantes e dominadas, adequada às diferentes fases do progresso social... Agora esta luta chegou a uma fase em que a classe explorada e oprimida (o proletariado) já não pode emancipar-se da classe que a explora e a oprime (a burguesia), sem emancipar para sempre a sociedade inteira da opressão, da exploração, e da luta de classes..." (Prólogo de Engels à edição alemã de 1883, "Manifesto do Partido Comunista", ed. Europa-Améri-ca, 1938, pág. 9).

A terceira característica da produção consiste em que as novas relações de produção congruentes com elas não surgem desligadas do velho regime, depois de desaparecer este, mas se formam no seio dele; e não como fruto da ação premeditada e consciente do homem, senão de um modo espontâneo, inconsciente e independentemente da vontade humana, por duas razões.

Em primeiro lugar, porque os homens não são livres para escolher tal ou qual modo de produção, pois cada nova geração, ao entrar na vida, se encontra já com um sistema estabelecido de forças produtivas e relações de produção, como fruto do trabalho das gerações passadas, em vista de que, se quer ter a possibilidade de produzir bens materiais, não tem, nos primeiros tempos, outro remédio que aceitar o estado de coisas com que se encontra dentro do campo da produção e adaptar-se a ele.

Em segundo lugar, porque quando aperfeiçoe tal ou qual instrumento de produção, tal ou qual elemento das forças produtivas, o homem não sabe, não compreende, nem lhe ocorre sequer pensar nisso, que conseqüências sociais sua inovação pode acarretar, mas pensa única e exclusivamente em seu interesse pessoal, em facilitar seu trabalho e em obter algum proveito imediato e tangível para si.

Quando alguns indivíduos da sociedade comunista primitiva começaram a substituir, paulatinamente e tateando o terreno, as ferramentas de pedra pelas de ferro, ignoravam, naturalmente, e não lhes passava pela mente, que conseqüências sociais haviam de ter esta inovação, não sabiam nem compreendiam que a passagem para as ferramentas metálicas significava uma mudança radical na produção, mudança que no fim de contas conduziria ao regime da escravidão; a única coisa que lhes interessava era facilitar seu trabalho e conseguir um proveito imediato e sensível: a ação consciente com que realizavam aquele ato não saía do estreito limite desta vantagem tangível, de caráter pessoal.

Quando, dentro do período do regime feudal, a jovem burguesia européia começou a organizar, junto às pequenas oficinas gremiais dos artesãos, as grandes empresas manufatureiras, imprimindo com isso um avanço às forças produtivas da sociedade, não sabia, naturalmente, nem passava por sua mente, que conseqüências sociais esta inovação havia de acarretar: não sabia nem compreendia que esta "pequena" inovação conduziria a uma reagrupação tal das forças sociais, que necessariamente desembocaria na revolução, a qual iria dirigida tanto contra a realeza, cujas mercês tanto apreciava, como contra a nobreza, cuja condição social não poucos dos seus melhores representantes sonhavam escalar; a única coisa que a preocupava era baratear a produção de mercadorias, lançar uma maior quantidade de artigos nos mercados da Ásia e da América recém-descoberta, e obter maiores lucros; a ação consciente com que realizavam aquele ato não ia além do estreito limite desta finalidade tangível.

Quando os capitalistas russos, juntamente com os capitalistas estrangeiros, começaram a aclimatar na Rússia, de um modo intensivo, a moderna e grande indústria mecânica, deixando o czarismo intacto e os camponeses entregues à voracidade dos senhores de terra, não sabiam, naturalmente, nem lhes passava pela mente, que conseqüências sociais este importante incremento das forças produtivas havia de acarretar; não sabiam, nem compreendiam que este importante salto que se dava no campo das forças produtivas da sociedade conduziria a uma reagrupação tal das forças sociais, que daria ao proletariado a possibilidade de se unir aos camponeses e de levar a cabo a revolução socialista vitoriosa; a única coisa que eles queriam era incrementar até o máximo a produção industrial, dominar o gigantesco mercado interior do país, converter-se em monopolistas e obter maiores lucros da economia nacional: a consciência com que realizavam aquele ato não ia mais além do horizonte empírico e estreito de seus interesses pessoais.

Em relação com isto, diz Marx:

"Na produção social da vida (isto é, na produção dos bens materiais necessários para a vida dos homens. N. da R.), os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais" (Karl Marx, ed. citada, pág. 339).

Isto não significa, naturalmente, que as mudanças operadas nas relações de produção e a passagem das velhas relações de produção a outras novas decorram pura e simplesmente, sem conflitos e sem comoções. Pelo contrário, estas mudanças revestem geralmente a forma de uma derrocada revolucionária das velhas relações de produção para dar lugar à instauração de outras novas. Até chegar a um certo período, o desenvolvimento das forças produtivas e as mudanças que se operam no campo das relações de produção decorrem de um modo espontâneo, independentemente da vontade dos homens. Porém só até um determinado momento, até o momento em que as forças produtivas que surgem e se desenvolvem logram amadurecer inteiramente, uma vez que as novas forças produtivas estão amadurecidas, as relações de produção existentes e seus representantes, as classes dominantes, se convertem neste obstáculo "insuperável" que só se pode eliminar por meio da ação consciente das novas classes, por meio da ação violenta destas classes, por meio da revolução. Aqui se destaca com grande nitidez a enorme importância das novas idéias sociais, das novas instituições políticas, no novo Poder político, chamados a liquidar pela força as velhas relações de produção. Do conflito entre as novas forças produtivas e as velhas relações de produção, das novas exigências econômicas da sociedade surgem novas idéias sociais; estas novas idéias organizam e mobilizam as massas, as massas se fundem num novo exército político, criam um novo Poder revolucionário e utilizam este poder para liquidar pela força o velho regime estabelecido no campo das relações de produção e referendar o regime novo. O processo espontâneo de desenvolvimento dá lugar à ação consciente do homem, o desenvolvimento pacífico à transformação violenta, a evolução à revolução.

"O proletariado — diz Marx — se vê obrigado a organizar-se como classe para lutar contra a burguesia... por meio da revolução se converte em classe dominante e, enquanto classe dominante, destrói pela força as relações vigentes de produção". ("Manifesto do Partido Comunista", ed. citada, pág. 37).

E em suas obras, noutros trechos:

a) "O proletariado valer-se-á do Poder político para ir despojando gradualmente a burguesia de todo o capital de todos os instrumentos de produção, centralizando-os em mãos do Estado, isto é, classe dominante, e procurando aumentar por todos os meios e com a maior rapidez possível as forças produtivas". (Obra citada, pág. 36).

b) "A violência é a parteira de toda sociedade velha que leva em suas entranhas outra nova". (Marx, "O Capital", t. II, pág. 788).

Eis em que termos Marx formulava, com traços geniais a essência do materialismo histórico, no memorável "prólogo" escrito em 1859 para seu famoso livro "Contribuição à Crítica da Economia Política".

"Na produção social de sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção, que correspondem a uma determinada fase do desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e a que correspondem determinadas formas de consciência social. O sistema de produção da vida material condiciona todo o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência do homem que determina sua existência, mas, pelo contrário, sua existência social que determina sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as condições de produção existentes ou, o que não é mais do que a expressão jurídica disto, com as relações de propriedade dentro das quais se tem movido até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se transformam em entraves. E se abre assim uma época de revolução social. Ao mudar a base econômica, se transforma mais ou menos lentamente, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Quando se estudam estas transformações, tem-se que distinguir sempre entre as mudanças materiais operadas nas condições econômicas de produção e que podem apreciar-se com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, ideológicas, em uma palavra, em que os homens tomam consciência deste conflito e o combatem. E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos julgar tampouco estas épocas de transformação por sua consciência, mas, pelo contrário, deve explicar-se esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que cabem dentro dela, e jamais aparecem novas e mais altas relações de produção antes que as condições materiais para sua existência hajam amadurecido no seio da sociedade antiga. Por isso, a Humanidade sempre propõe a si mesma unicamente os objetivos que pode alcançar, pois, bem olhadas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já se dão ou, pelo menos, se estão gestando, as condições materiais para sua realização". (K. Marx, Obras Escolhidas, t. I, págs. 338-339).

Tal é a concepção do materialismo marxista, em sua aplicação à vida social, em sua aplicação à história da sociedade.

Tais são os traços fundamentais do materialismo dialético e do materialismo histórico.

Pelo exposto, se vê que riqueza teórica era a que Lenin defendia para o Partido contra os ataques dos revisionistas e dos degenerados e quão imensa foi a importância que teve a publicação do seu livro "Materialismo e Empiro-Criticismo", para o desenvolvimento do Partido bolchevique.





3



Os bolcheviques e os mencheviques durante os anos da reação stolypiniana.

A luta dos bolcheviques contra os liquidacionistas e os "otsovistas".



Durante os anos da reação, o trabalho nas organizações do Partido era muitíssimo mais difícil que no período precedente de avanço da revolução. O contingente de filiados ao Partido desceu bruscamente. Muitos elementos pequeno-burgueses que haviam aderido circunstancialmente ao Partido, principalmente entre os intelectuais, começaram a abandonar suas fileiras, temerosos das perseguições do governo czarista.

Lenin assinalava que em momentos como estes os partidos revolucionários devem completar sua aprendizagem. Nos períodos de auge da revolução aprendem a avançar, nos períodos de reação devem aprender a recuar acertadamente, a passar à clandestinidade, a manter e fortalecer o Partido como organização clandestina, a utilizar todas as possibilidades legais e todas as organizações legais, principalmente as organizações de massas para fortalecer os vínculos com estas.

Os mencheviques batiam em retirada, cheios de pânico, sem fé no novo avanço da revolução, renegando vergonhosamente as reivindicações revolucionárias do programa e as consignas revolucionárias do Partido, e pretendiam liquidar, destruir o Partido clandestino revolucionário do proletariado. Daí o nome de liquidacionistas com que se começou a designar esta espécie de mencheviques.

Ao contrário dos mencheviques, os bolcheviques estavam convencidos de que dentro de poucos anos sobreviria um novo avanço da revolução e de que era dever do Partido preparar as massas para este novo avanço. Os problemas fundamentais da revolução não haviam sido resolvidos. Os camponeses não tinham obtido as terras dos latifundiários, os operários não tinham conseguido a jornada de 8 horas, não tinha sido derrubada a autocracia czarista, odiada pelo povo, e voltaram a ser estranguladas as pequenas liberdades políticas que haviam sido arrancadas ao czarismo em 1905. Em suma, as causas que provocaram esta revolução continuavam de pé. Por isso, os bolcheviques estavam convencidos de que sobreviria um novo avanço do movimento revolucionário, preparavam-se para ele e concentravam as forças da classe operária.

Outra das razões que dava aos bolcheviques a segurança de que era inevitável um novo avanço da revolução foi que a revolução de 1905 havia ensinado aos operários a conquistar seus direitos por meio da luta revolucionária de massas. Durante os anos de reação, durante os anos de ofensiva do capital, os operários não podiam esquecer os ensinamentos de 1905.

Lenin citava cartas de operários, nas quais estes, expondo os abusos e as burlas de que voltavam a ser vítimas por parte dos patrões, exclamavam:

"Aguardai, que já virá um novo 1905"

O objetivo político fundamental dos bolcheviques continuava sendo o mesmo de 1905: derrubar o czarismo, levar a termo a revolução democrático-burguesa, passar à revolução socialista. Os bolcheviques não perdiam de vista nem um minuto este objetivo e continuavam esclarecendo às massas com as consignas revolucionárias fundamentais: República democrática, confiscação das terras dos latifundiários, jornada de 8 horas.

Porém a tática do Partido não podia continuar sendo a mesma que no período de auge da revolução de 1905. Por exemplo, durante os primeiros tempos não era possível chamar as massas à greve política geral, nem à insurreição armada, porque o Partido se achava num período de declínio do movimento revolucionário, ante um cansaço enorme da classe operária e ante um fortalecimento considerável das classes reacionárias. O Partido não podia deixar de ter em conta a nova situação. Tinha que substituir a tática da ofensiva pela tática da defensiva, pela tática da acumulação de forças, pela tática de retirar os quadros para a clandestinidade e organizar o trabalho clandestino do Partido, pela tática de combinar o trabalho ilegal do Partido com o trabalho nas organizações operárias legais.

E os bolcheviques souberam cumprir esta missão.

"Soubemos trabalhar durante longos anos com vistas à revolução — diz Lenin —. Não é em vão que dizem que somos firmes como a rocha. Os social-democratas criaram um Partido proletário que não desanima ante o fracasso da primeira acometida guerreira, que não perde a cabeça nem se deixa levar por aventuras" (Lenin, t. XII, pág. 126, ed. russa).

Os bolcheviques lutavam por manter e assegurar as organizações clandestinas do Partido. Porém, ao mesmo tempo, consideravam necessário utilizar todas as possibilidades legais, até o menor vestígio legal, para manter e fortalecer os vínculos com as massas, reforçando com isso o Partido.

"Foi o período em que nosso Partido fez a mudança da luta revolucionária aberta contra o czarismo à luta por meio de rodeios, à utilização de todas e cada uma das possibilidades legais, desde as associações operárias de socorros mútuos até a tribuna da Duma. Foi o período de recuo depois de terem sido derrotados na revolução de 1905.

Esta mudança exigia de nós a assimilação de novos métodos de luta para, depois de acumularmos forças, lançarmo-nos de novo à luta revolucionária aberta contra o czarismo." (Stalin, "Atas taquigráficas do XV Congresso do P. C. (b.) da U.R.S.S.", 1935, págs. 366-367).

As organizações legais que tinham saído indenes serviam como de anteparo para as organizações clandestinas do Partido e de meio de ligação com as massas. Para manter os vínculos com estas, os bolcheviques se valiam dos sindicatos e das demais organizações sociais de caráter legal: associações de socorros mútuos, cooperativas operárias, clubes e sociedades culturais, Casas do Povo, etc. Utilizavam a tribuna da Duma para desmascarar a política do governo czarista, para desmascarar os kadetes, para atrair os camponeses para o lado dos operários. A manutenção da organização clandestina do Partido e a direção através dela de todas as demais formas de ação política garantiam ao Partido a aplicação da linha política acertada e a preparação das forças para o novo avanço revolucionário.

Os bolcheviques aplicaram sua linha revolucionária, lutando em duas frentes: contra os liquidacionistas, inimigos abertos do Partido, e contra os chamados otsovistas, adversários encobertos dele.

Os bolcheviques, com Lenin à frente, mantiveram uma luta intransigente contra os liquidacionistas desde o primeiro momento em que surgiu esta tendência oportunista. Lenin assinalava que os liquidacionistas eram agentes da burguesia liberal dentro do Partido.

Em dezembro de 1908, celebrou-se em Paris a Quinta Conferência (nacional) do P.O.S.D.R. Por proposta de Lenin, esta conferência condenou a posição dos liquidacionistas, ou melhor, as tentativas de uma parte dos intelectuais filiados ao Partido (mencheviques) de

"liquidar a organização existente do P.O.S.D.R. e substituí-la por uma agrupação informe, mantida a todo custo dentrto do aspecto da legalidade, ainda que para isso houvesse que renunciar de um modo claro e franco ao programa, à tática e às tradições do Partido" ("Resoluções do P. C. (b.) da U.R.S.S.", parte I, pág. 128).

A Conferência fez um chamado a todas as organizações do Partido para que lutassem energicamente contra estas tentativas dos liquidacionistas.

Porém os mencheviques não se limitaram a esta resolução da Conferência do Partido e foram descendo cada vez mais pela senda dos liquidacionistas, traindo a revolução e aproximando-se dos kadetes. Os mencheviques voltavam as costas cada vez mais descaradamente ao programa revolucionário do Partido do proletariado, às reivindicações da República democrática, da jornada de 8 horas e da confiscação das terras dos latifundiários. A custa de renunciar ao programa e à tática do Partido, queriam obter do governo czarista a autorização para que funcionasse um partido pretendidamente "operário", com existência aberta e legal. Estavam dispostos a fazer as pazes com o regime stolypiniano e a adaptar-se a ele, razão por que se dava também aos liquidacionistas o nome de "partido operário stolypiniano".

Ao mesmo tempo que lutavam contra estes adversários descarados da revolução, contra os liquidacionistas — acaudilhados por Dan, Axelrod e Potresov, ajudados por Martov, Trotsky e outros mencheviques —, os bolcheviques mantinham também uma luta implacável contra os liquidacionistas encobertos, contra os "otsovistas", que disfarçavam seu oportunismo com frases "esquerdistas". Começou-se a dar o nome de "otsovistas" a um grupo de ex-bolcheviques que exigiam que o Partido retirasse os deputados operários da Duma e renunciasse em geral a toda atuação dentro das organizações legais.

Estes filiados ao Partido bolchevique, que em 1908 exigiam a retirada dos deputados social-democratas da Duma, e daí o nome de "otsovistas" (do russo "otsavat" — revogar, retirar), formaram um grupo a parte (constituído por Bogdanov, Lunacharski, Alexinski, Paravski, Bubnov e outros), o qual começou a lutar contra Lenin e contra a linha leninista. Os "otsovistas" negavam-se resolutamente a trabalhar nos sindicatos operários e nas demais organizações legais. Com isso, infringiam um grave dano à causa operária. Rompiam os vínculos entre o Partido e o proletariado, privavam aquele da ligação com as massas sem partido, queriam encerrar-se na organização clandestina e ao mesmo tempo expunham esta aos golpes do inimigo, ao privá-la da possibilidade de entrincheirar-se atrás das organizações legais. Os "otsovistas" não compreendiam que na Duma e através dela os bolcheviques podiam influir sobre os camponeses, podiam desmascarar a política do governo czarista, a política dos kadetes, os quais pretendiam arrastar com eles os camponeses por meio do engano. Os "otsovistas" entorpeciam o trabalho de acumular forças para o novo avanço revolucionário. Eram, portanto, "liquidacionistas ao reverso", pois aspiravam liquidar a possibilidade de valer-se das organizações legais e de fato renunciavam à direção proletária sobre as grandes massas sem partido, renunciavam ao trabalho revolucionário.

Numa Conferência ampliada da redação do periódico bolchevique "Proletari" (O Proletário), convocada em 1909 para julgar a conduta dos "otsovistas", foi condenada a atitude deste grupo. Os bolcheviques declararam que não tinham a menor afinidade com eles e os expulsaram do Partido.

Tanto os liquidacionistas como os "otsovistas" nunca foram mais do que elementos pequeno-burgueses circunstancialmente aderidos ao proletariado e a seu Partido e que, ao chegarem os momentos difíceis para o proletariado, tiraram a máscara e descobriram sua verdadeira face.



4



A luta dos bolcheviques contra o trotskismo

O bloco de Agosto contra o Partido.



Enquanto os bolcheviques lutavam encarniçadamente em duas frentes — contra os liquidacionistas e os "otsovistas" — por manter a linha do Partido proletário, Trotsky apoiava os mencheviques liquidacionistas. Foi precisamente por estes anos que Lenin o chamou "o Judas Trotsky". Este organizou em Viena (Áustria) um grupo publicista e começou a editar um jornal "situado por cima das frações" que na realidade era um órgão menchevique. Eis o que Lenin escrevia então sobre ele:

"Trotsky se comporta como o pior arrivista e divisionista... Fala muito no Partido, porém se conduz pior que todos os demais divisionistas".

Mais tarde, em 1912, Trotsky foi o organizador do bloco de Agosto, que não era senão um bloco de todos os grupos e tendências antibolcheviques contra Lenin e contra o Partido. A este bloco antibolchevique se uniram os liquidacionistas e os "otsovistas", demonstrando com isso sua finalidade. Trotsky e os trotkistas adotavam em todos os problemas fundamentais uma posição liquidacionista. No entanto, Trotsky disfarçava sua tendência liquidacionista com uma atitude centrista, ou melhor, conciliadora, afirmando que ele estava à margem dos bolcheviques e dos mencheviques e lutava por conciliá-los. Por este motivo, Lenin dizia que Trotsky era mais vil e mais daninho que os liquidacionistas descarados, porque enganava os operários, fazendo-lhes crer que estava "por cima das frações", quando na realidade apoiava com todas as suas forças os liquidacionistas mencheviques.

O trotskismo era o grupo principal entre os fomentadores do centrismo.

"O centrismo — escreve o camarada Stalin — é um conceito político. Sua ideologia é a ideologia da adaptação, a ideologia de subordinação dos interesses proletários aos interesses da pequeno-burguesia dentro de um partido comum. Esta ideologia é estranha e hostil ao leninismo" (Stalin, "Problemas do Leninismo", pág. 379, ed. russa).

Durante este período, Kamenev, Zinoviev e Rykov atuavam, de fato, como agentes dissimulados de Trotsky, pois o ajudavam não poucas vezes na luta contra Lenin. Com o apoio de Zinoviev, Kamenev, Rykov e outros aliados encobertos de Trotsky, foi convocado em janeiro de 1910, contra a opinião de Lenin, um Pleno do Comitê Central. Naquela época, em conseqüência da detenção de uma série de bolcheviques, havia mudado a fisionomia do C. C. do Partido e isto deu aos elementos vacilantes a possibilidade de fazer votar resoluções antileninistas. Assim se explica como neste Plano se resolvesse suspender a publicação do jornal bolchevique "Proletari" e ajudar com dinheiro o jornal "Pravda" ("A verdade"), que Trotsky editava em Viena. Kamenev passou a formar parte da redação do órgão trotskista e se esforçou, junto com Zinoviev, em convertê-lo em órgão do Comitê Central.

Só unte a insistência de Lenin se logrou que o Pleno de Janeiro do C. C. tomasse a resolução de condenar os liquidacionistas e os "otsovistas"; porém também aqui Zinoviev e Kamenev defenderam tenazmente a proposta trotskista de que não se chamasse os liquidacionistas por seu verdadeiro nome.

Ocorreu tal e como Lenin havia previsto e advertido: só os bolcheviques acataram as resoluções do Pleno, suspendendo a publicação de seu órgão "Proletari", enquanto os mencheviques continuavam publicando o jornal divisionista e liquidacionista "A voz do Social-democrata".

A posição de Lenin foi apoiada inteiramente pelo camarada Stalin, o qual publicou um artigo especial no número 11 do "Social-democrata". Neste artigo se condenava a conduta dos cúmplices do trotskismo e se falava da necessidade de liquidar a situação anormal criada dentro da fração bolchevique pela atitude traidora de Kamenev e Rykov. Em seu artigo, o camarada Stalin destacava as tarefas urgentes, que foram resolvidas mais tarde pela Conferência do Partido, celebrada em Praga: convocação de uma conferência geral do Partido, publicação de um diário legal deste e criação de um centro clandestino para a atuação prática na Rússia. Este artigo se baseava nas resoluções do Comitê de Bakú, que apoiava Lenin sem reservas.

Para contrabalançar o bloco antibolchevique de Agosto, o bloco de Trotsky, do qual faziam parte exclusivamente elementos hostis ao Partido, desde os liquidacionistas e os trotskistas até os "otsovistas" e os "construtores de deus", foi criado um bloco de partidários da manutenção e fortalecimento do Partido proletário clandestino. Neste bloco entraram os bolcheviques, com Lenin à frente, e um pequeno número de mencheviques defensores do Partido, à frente dos quais se achava Plekhanov. Embora numa série de problemas Plekhanov e seu grupo de mencheviques defensores do Partido permaneciam nas posições mencheviques, mantinham-se resolutamente à margem do Bloco de Agosto e dos liquidacionistas e lutavam por chegar a um acordo com os bolcheviques. Lenin aceitou a proposta de Plekhanov e pactuou um bloco temporário com ele, contra os elementos inimigos do Partido, tendo em conta que este bloco era benéfico para o Partido e funesto para os liquidacionistas.

O camarada Stalin apoiou incondicionalmente este bloco. Achava-se naquela época no desterro, de onde dirigiu uma carta a Lenin, em que dizia:

"A meu modo de ver, a linha do bloco (Lenin—Plekhanov) é a única acertada: 1) esta linha e só ela é a que responde aos verdadeiros interesses da atuação dentro da Rússia, que exige a coesão de todos os elementos que verdadeiramente estão com o Partido; 2) esta linha e só ela é a que acelera o processo de libertação das organizações legais do jugo dos liquidacionistas, abrindo um fosso entre os operários mencheviques e os liquidacionistas, dispersando-os e esmagando-os". (Antologia "Lenin e Stalin", ed. russa, t. I. pág. 529-530).

Graças à sua hábil combinação do trabalho clandestino com o trabalho legal, os bolcheviques chegaram a ter nas organizações operárias legais uma força considerável. Isto ficou claro, entre outras coisas, na grande influência que os bolcheviques tiveram nos grupos operários de quatro congressos legais celebrados durante este período: o das Universidades Populares, o Congresso Feminino, o dos Médicos de Fábricas e o Congresso contra o Alcoolismo. As intervenções dos bolcheviques nestes congressos legais tiveram uma grande importância política e repercutiram em todo o país. Assim, por exemplo, a delegação operária bolchevique que interveio no Congresso das Universidades Populares desmascarou a política do czarismo, que sufocava todo trabalho cultural, e demonstrou que sem acabar com o czarismo não era possível pensar num verdadeiro auge cultural na Rússia.

A delegação operária que interveio no Congresso dos Médicos Fabris expôs as espantosas condições sanitárias em que tinham que viver e trabalhar os operários, para chegar à conclusão de que sem derrubar o regime czarista não havia possibilidade de organizar, como era devido a higiene fabril.

Os bolcheviques foram pouco a pouco desalojando os liquidacionistas das diversas organizações legais indenes em que se haviam entrincheirado. A peculiar tática de frente única com o grupo plekhanovista de filiados ao Partido permitiu aos bolcheviques ganhar uma série de organizações operárias mencheviques (distrito de Vibor, Ekaterinoslav, etc).

Durante este difícil período, os bolcheviques deram, com sua atuação, um exemplo de como se deve combinar o trabalho legal com o trabalho clandestino.




5



A Conferência do Partido em Praga (1912)

Os bolcheviques passam a formar um Partido marxista independente.



A luta contra os liquidacionistas e os "otsovistas", assim como a luta contra os trotskistas, criava aos bolcheviques a tarefa imediata de reforçar a coesão de todos os bolcheviques e de formar com eles um Partido bolchevique independente. Era isto absolutamente necessário, não só para acabar com as tendências oportunistas dentro do Partido, tendências que semeavam a discórdia entre a classe operária, como, além disso, para levar a termo a obra de concentrar as forças da classe operária e prepará-la para o novo avanço da revolução.

Porém, para poder cumprir esta tarefa, era necessário, antes de tudo, limpar o Partido de oportunistas, de mencheviques.

Agora já nenhum bolchevique duvidava de que a convivência dos bolcheviques com os mencheviques num só partido era algo inconcebível. A conduta traidora dos mencheviques durante o período da reação stolypiniana, suas tentativas de liquidar o Partido proletário e de organizar um novo partido, de tipo reformista, levaram à ruptura com eles. Convivendo num partido com os mencheviques, os bolchevistas assumiam de um modo ou de outro uma responsabilidade moral pela conduta daqueles. E os bolcheviques não podiam, de modo algum, carregar com nenhuma responsabilidade moral pela conduta descaradamente traidora dos mencheviques, a menos que quisessem converter-se também eles em traidores do Partido e da classe operária. A unidade com os mencheviques dentro de um só partido convertia-se, pois, numa traição à classe operária e ao Partido desta. Era necessário, portanto, levar a termo a ruptura efetiva com os mencheviques, romper com eles de um modo formal e orgânico, expulsá-los do Partido.

Este caminho era o único pelo qual se podia restaurar o Partido revolucionário do proletariado, com unidade de programa, unidade de tática e unidade de organização de classe.

Era o único caminho pelo qual se podia instaurar dentro do Partido uma unidade efetiva (e não meramente formal), unidade que havia sido quebrada pelos mencheviques.

Tal era a tarefa que a VI Conferência geral do Partido tinha de cumprir, conferência preparada pelos bolcheviques.

Porém este problema não era mais que um dos aspectos do assunto. A ruptura formal com os mencheviques e a formação de um partido a parte com os bolcheviques constituíam, indubitavelmente, uma tarefa política muito importante. Mas se apresentava aos bolcheviques, além disso, outra ainda mais importante. Não se tratava somente de romper com os mencheviques e constituir um partido independente, mas se tratava, antes de tudo, de criar, rompendo com os mencheviques, um novo partido, de criar um partido de novo tipo, um partido diferente dos partidos social-democratas correntes dos países ocidentais, um partido livre de elementos oportunistas e capaz de conduzir o proletariado à luta pelo Poder.

Em sua luta contra os bolcheviques, todos os mencheviques, sem distinção de matizes, desde Axelrod e Martinov até Martov e Trotsky, se serviam invariavelmente de armas obtidas no arsenal dos social-democratas do Ocidente da Europa. Queriam possuir na Rússia um partido como, por exemplo, o Partido social-democrata alemão ou francês. E lutavam contra os bolcheviques, precisamente porque pressentiam neles algo novo, insólito, diverso da social-democracia ocidental. E que eram, então, os partidos social-democratas do Ocidente? Uma mistura, um conglomerado de elementos marxistas e oportunistas, de amigos e inimigos da revolução, de partidários e adversários da causa do Partido, numa conciliação ideológica gradual dos primeiros com os segundos e uma submissão gradual e efetiva daqueles a estes. Conciliação com os oportunistas, com os traidores da revolução, em nome de quê?, perguntavam os bolcheviques aos social-democratas da Europa Ocidental. Em nome da "paz dentro do Partido", em nome da "unidade", respondiam-lhes. A unidade com quem, os oportunistas? Sim, respondiam aqueles; com os oportunistas. Era evidente que partidos assim não podiam ser partidos revolucionários.

Os bolcheviques não podiam deixar de observar que, depois da morte de Engels, os partidos social-democratas da Europa Ocidental haviam começado a degenerar de partidos da revolução social em partidos de "reformas sociais", e que todos eles se haviam convertido, como organizações, de forças dirigentes em simples apêndices de seus próprios grupos parlamentares.

Os bolcheviques não podiam desconhecer que um partido assim não é capaz de conduzir a classe operária à revolução.

Os bolcheviques não podiam desconhecer que o proletariado não precisa de partidos como estes, porém de um partido diferente, novo, um autêntico Partido marxista, irreconciliável em sua atitude frente aos oportunistas, e revolucionário em sua atitude frente à burguesia, um partido que fosse o Partido da revolução social, o Partido da ditadura do proletariado.

Um partido assim, um partido novo deste tipo, era precisamente o que os bolcheviques aspiravam criar. E, com efeito, os bolcheviques criaram, forjaram este partido. Toda a história de sua luta contra os "economistas", os mencheviques, os trotskistas, os "otsovistas", os idealistas de todos os matizes, até chegar aos empiro-criticistas, não era, precisamente, senão a história da preparação deste tipo de partido. Os bolcheviques aspiravam forjar um partido novo, o Partido bolchevique, que pudesse servir de modelo para quantos quisessem criar um partido marxista autenticamente revolucionário. Este era o Partido que os bolcheviques vinham preparando já desde os tempos da velha "Iskra". Entregaram-se à sua preparação tenaz e ardorosamente, destruindo todos os obstáculos. Neste trabalho de preparação desempenharam um papel decisivo trabalhos de Lenin tais como "Que Fazer?", "As duas táticas", etc. O livro de Lenin "Que Fazer?" preparou ideologicamente este tipo de partido. Seu livro "Um passo adiante, dois passos atrás" preparou-o no terreno da organização. O livro "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática" o preparou no terreno político. Finalmente, o livro de Lenin "Materialismo e Empiro-eriticismo" o preparou no terreno teórico.

Pode-se afirmar com segurança que jamais houve na história nenhum grupo político tão conscientemente preparado para formar um partido, como o grupo bolchevique.

Em tais condições, a formação de um Partido bolchevique independente era algo perfeitamente preparado e amadurecido.

A missão da VI Conferência do Partido consistia em coroar a obra, já madura, com o ato da expulsão dos mencheviques e a formação de novo partido, do Partido bolchevique.

A VI Conferência nacional do Partido se celebrou em Praga, em janeiro de 1912. Estiveram representados nela mais de 20 organizações do Partido. Formalmente, teve, portanto, a mesma importância de um Congresso.

Na circular sobre a Conferência, depois de comunicar a reconstituição do aparelho central do Partido, que havia sido destruído, e a criação do C. C, dizia-se que os anos de reação eram os anos mais duros por que havia passado o Partido desde a constituição da social-democracia russa como organização definida. Porém, apesar de todas as perseguições, apesar dos terríveis golpes assestados de fora e da traição e das vacilações dos oportunistas dentro dele, o Partido do proletariado havia mantido de pé sua bandeira e sua organização.

"A social-democracia da Rússia não só lograra manter indenes sua bandeira, seu programa, seus postulados revolucionários, senão que havia mantido também sua organização, que poderia ter saído quebrantada e debilitada, porém que nenhuma perseguição lograra aniquilar", dizia-se na circular de convocação da Conferência.

A Conferência de Praga registrou os primeiros sinais do novo auge do movimento revolucionário da Rússia e da reanimação do trabalho do Partido.

Pelos informes dos delegados, a Conferência comprovou que

"entre os operários social-democratas de base se desenvolve em todas as partes um enérgico trabalho destinado a fortalecer os grupos e organizações clandestinas da social-democracia".

A Conferência pôde comprovar que na base se acatava por toda parte a norma mais importante da tática bolchevique durante o período de recuo, a de combinar o trabalho clandestino com o trabalho legal nas diversas sociedades e agrupamentos operários deste caráter.

Na Conferência de Praga foi eleito um Comitê Central bolchevique. Dele faziam parte: Lenin, Stalin, Ordzhonikidze, Sverdlov, Spandarian, Goloshchekin e outros. Os camaradas Stalin e Sverdlov foram eleitos na ausência deles, pois se achavam deportados. Entre os membros suplentes do C. C. foi designado o camarada Kalinin.

Estabeleceu-se um centro de caráter pratico para a direção do trabalho revolucionário na Rússia (o Bureau russo do C. C), à frente do qual se pôs o camarada Stalin. Faziam parte dele, além deste, os camaradas I. Sverdlov, S. Spandarian, S. Ordzhonikidze, M. Kalinin e Goloshchekin.

A Conferência de Praga fez o balanço de toda a luta anterior dos bolcheviques contra o oportunismo e resolveu expulsar do Partido os mencheviques.

Depois da expulsão dos mencheviques, ficou constituído, nesta conferência o Partido bolchevique independente.

Havendo liquidado ideologicamente e no terreno da organização os mencheviques com sua expulsão do Partido, os bolcheviques conservaram a velha bandeira do Partido Operário Social-Democrata da Rússia, nome que o Partido bolchevique continuou usando até o ano de 1918, com a palavra "bolchevique" acrescentada entre parênteses.

Referindo-se aos resultados da Conferência de Praga, escrevia Lenin a Gorki, em começos de 1912:

"Por fim, se logrou, em que pese a canalhada dos liquidacionistas, fazer renascer o Partido e seu Comitê Central. Espero que você se alegrará disto conosco". (Lenin, t. XXXIX, pág. 19, ed. russa).

E o camarada Stalin, valorizando a importância da Conferência de Praga, dizia:

"Esta Conferência teve uma enorme importância na história de nosso Partido, pois delimitou os campos entre os bolcheviques e os mencheviques e uniu as organizações fie todo o país num Partido bolchevique único". (Atas taquigráficas do XV Congresso do P. C. (b) da U.R.S.S., págs. 361-362).

Depois da expulsão dos mencheviques e da constituição dos bolcheviques em partido independente, o Partido bolchevique aumentou em solidez e fortaleza. O partido se fortalece ao depurar-se dos elementos oportunistas: eis uma das consignas do Partido bolchevique, como partido de novo tipo, diverso do princípio dos partidos social-democratas da Segunda Internacional. Os partidos da Segunda Internacional ainda que de palavra se chamassem marxistas, de fato toleravam dentro de suas fileiras os adversários do marxismo, os oportunistas descarados, permitindo-lhes decompor e pôr a pique a Segunda Internacional. Pelo contrário, os bolcheviques mantinham uma luta intransigente contra os oportunistas, limpando o Partido proletário do lixo do oportunismo e conseguindo criar um partido de novo tipo, Partido leninista, o Partido que mais tarde havia de conquistar a ditadura do proletariado.

Se os oportunistas permanecessem dentro das fileiras do Partido proletário, o Partido bolchevique jamais teria podido marchar para seus objetivos e arrastar com ele o proletariado, jamais teria podido tomar o Poder e organizar a ditadura proletária, jamais teria podido sair vencedor da guerra civil, jamais teria podido edificar o socialismo.

Nas resoluções da Conferência de Praga se destacaram como consignas políticas fundamentais e imediatas as reivindicações que formavam o programa mínimo do Partido: a República democrática, a jornada de 8 horas e a confiscação das terras dos latifundiários.

Com estas consignas revolucionárias, os bolcheviques realizaram a campanha eleitoral à quarta Duma.

Com estas consignas se desenvolveu o novo auge do movimento revolucionário das massas operárias nos anos de 1912 a 1914-.

Resumo

O anos de 1908 a 1912 foram um período dificílimo para a atuação revolucionária. Depois da derrota da revolução, sob as condições do declínio do movimento revolucionário e do cansaço das massas, os bolcheviques mudaram de tática e passaram da luta aberta contra o czarismo à luta por meios indiretos. Sob as duras condições da reação stolypíniana, os bolcheviques aproveitaram as menores possibilidades legais para manter a ligação com as massas (desde as associações operárias de socoiTos mútuos e os sindicatos até a tribuna da Duma) e acumulavam, incansavelmente, forças para o novo auge do movimento revolucionário.

Na dura situação criada pela derrota da revolução, pela derrubada das correntes de oposição, o desengano quanto à revolução e a acentuação dos ataques revisionistas de uma série de intelectuais desertores do Partido (Bogdanov, Basarov, etc.) contra os fundamentos teóricos deste, os bolcheviques acreditaram ser a única força dentro do Partido que não enrolaram sua bandeira, que se mantinham leais a seu programa e rechaçavam os ataques dos "críticos" da teoria marxista (livro de Lenin "Materialismo e Empiro-criticismo"). A têmpera ideológica marxista-leninista e sua capacidade para compreender as perspectivas da revolução ajudaram o núcleo fundamental dos bolcheviques, estreitamente agrupados em torno de Lenin, a defender a causa do Partido e seus princípios revolucionários.

"Não é em vão que dizem que somos firmes como a rocha", escrevia Lenin, lalando dos bolcheviques.

Durante este período, os mencheviques vão-se afastando cada vez mais da revolução. Convertem-se em liquidacionistas, exigem a liquidação, a destruição do Partido clandestino, revolucionário, do proletariado, apartam-se cada vez mais abertamente do programa do Partido e de suas tarefas e consignas revolucionárias, e tentam organizar seu próprio partido, um partido reformista, que os operários batizam com o nome de "partido operário stolypiniano". Trotsky ajuda os liquidacionistas, cobrindo-se farisaicamente com a consigna da "unidade do partido", que significava, na realidade, a unidade com os liquidacionistas.

De outra parte, um grupo de bolcheviques, incapazes de compreender a necessidade de dar uma viragem para novos métodos, para métodos indiretos de luta contra o czarismo, exige que se renuncie à utilização das possibilidades legais e que se retirem os deputados operários da Duma. Este grupo, o dos "otsovistas", pressiona o Partido para romper suas ligações com as massas, entorpece a concentração de forças para o novo avanço da revolução. Disfarçando-se com frases "esquerdistas", renuncia, na realidade, à luta revolucionária, tanto quanto os liquidacionistas.

Liquidacionistas e "otsovistas" se unem contra Lenin num bloco, o Bloco de Agosto, organizado por Trotsky.

Os bolcheviques triunfam na luta contra os liquidacionistas e os "otsovistas" na luta contra o Bloco de Agosto e defendem com êxito o Partido proletário clandestino.

O acontecimento mais importantedeste período é a Conferência de Praga do P.O.S.D.R. (Janeiro de 1912). Nesta Conferência foram expulsos do Partido os mencheviques e se acabou para sempre com a convivência formal de bolcheviques e mencheviques num só partido. Os bolcheviques deixaram de ser uni grupo político para formar um partido independente: o Partido Operário Social Democrata da Rússia (bolchevique). A Conferência de Praga assentou as bases para um partido de novo tipo, para o Partido do Leninismo, para o Partido bolchevique.

A depuração do Partido proletário mediante a eliminação dos oportunistas, dos mencheviques, levada a cabo pela Conferência de Praga, teve uma grande e decisiva importância para o futuro desenvolvimento do Partido e da revolução. Se os bolcheviques não tivessem expulsado do Partido os traidores da causa operária, os oportunistas mencheviques, o Partido proletário não teria podido conduzir as massas à conquista da ditadura do proletariado no ano de 1917.




Capítulo V



O Partido Bolchevique Durante os Anos do Auge do Movimento Operário,

Anteriores à Primeira Guerra Imperialista


( 1912 – 1914 )





1



O apogeu do movimento revolucionário durante os anos de 1912 a 1914.



O triunfo da reação stolypiniana não durou muito tempo. Um governo que nada queria dar ao povo, exeeto o chicote e a forca, não podia ser estável. A repressão, à força fartamente distribuída, acabou por não mais assustar o povo. Começou a desaparecer o cansaço que se havia apoderado dos operários nos anos que se seguiram à derrota da Revolução. Os operários tornavam a se pôr de pé para a luta. O prognóstico dos bolcheviques, quando diziam que surgiria inevitavelmente um novo apogeu revolucionário, viu-se confirmado pela realidade. Em 1911 o número de grevistas passou já de 100 mil, enquanto nos anos precedentes nunca havia passado de 50 a 60 mil. A Conferência do Partido, celebrada em Praga em janeiro de 1912, pôde registrar já a reanimação iniciada no movimento operário. Mas quando o movimento revolucionário começa verdadeiramente sua marcha ascendente é nos meses de abril e maio de 1912, ao estalarem as greves políticas de massas provocadas pela chacina dos operários do Lena.

A 4 de abril de 1912, no curso de uma greve declarada nas minas de ouro do Lena, na Sibéria, as tropas, excecutando ordens de um oficial da polícia czarista, fizeram fogo e ficaram mortos e feridos mais de 500 operários. Esta chacina em massa de mineiros inermes, que pacificamente iam parlamentar com a administração das minas, sublevou de indignação todo o país. Este novo crime da autocracia czarista tinha sido perpetrado em proveito dos capitalistas ingleses, donos das minas de ouro do Lena, com o objetivo de esmagar uma greve econômica dos mineiros. Os capitalistas ingleses e seus sócios russos tiraram destas minas lucros fabulosos, mais de 7 milhões de rublos todos os anos, à custa da exploração mais desavergonhada dos operários. Pagavam a estes um salário insignificante e os alimentavam com víveres avariados e podres. Cansados já de tantos abusos e vexames, os 6 mil operários das minas do Lena tinham abandonado o trabalho.

O proletariado respondeu à chacina do Lena com greves, manifestações e comícios de massas em Petersburgo, em Moscou e em todos os centros e regiões industriais.

"Estávamos tão perplexos e tão comovidos — escreviam em sua resolução os operários de um grupo de empresa — que não conseguíamos encontrar as palavras necessárias. Qualquer protesto que tivéssemos formulado teria sido uma sombra débil da indignação que fervia na alma de cada um de nós. Mas não remediaremos coisa alguma com lágrimas e com protestos. A única coisa que nos pode salvar é a luta organizada das massas".

A indignação e a cólera dos operários cresceram ainda mais quando o ministro czarista Makarov, respondendo na Duma a uma pergunta da fração social-democrata a respeito dos motivos da chacina do Lena, declarou insolentemente:

"Assim aconteceu e assim continuará acontecendo".

O número de operários que tomaram parte nas greves políticas de protesto contra a chacina do Lena subiu a 300 mil.

As jornadas do Lena foram um verdadeiro furacão desencadeado na atmosfera de "pacificação" criada pelo regime stolypiniano.

Eis o que a este propósito escreve o camarada Stalin no jornal "Sviesda" ("A Estrela"), de Petersburgo, em 1912.

"As matanças do Lena quebraram o gelo do silêncio e o rio do movimento popular se pôs em marcha. Pôs-se em marcha!... Tudo o que havia de mau e funesto no regime atual, tudo o que martirizava a atormentadíssima Rússia, tudo vinha se condensar em um ponto: nos acontecimentos do Lena. Essa é a razão por que foram precisamente as descargas do Lena que deram o sinal para o movimento de greves e manifestações".

Em vão os liquidacionistas e os trotskistas tinham pretendido enterrar a revolução. Os acontecimentos do Lena revelaram que as forças revolucionárias estavam vivas, que no seio da classe operária se havia acumulado uma massa formidável de energia revolucionária. Nas greves de 1º. de maio de 1912 tomaram parte cerca de 400 mil operários. Estas greves apresentavam um caráter claramente político e se desenvolviam sob as palavras de ordem revolucionárias bolcheviques: República democrática, jornada de 8 horas, confiscação de todas as terras dos latifundiários. Estas palavras de ordem fundamentais estavam concebidas no sentido de unir sob elas para o assalto revolucionário contra a autocracia, não só as grandes massas operárias, mas também os camponeses e os soldados.

"A grandiosa greve de maio do proletariado de toda a Rússia — escrevia Lenin em seu artigo intitulado "O auge da revolução" — e as manifestações de rua reunidas a ela, as proclamações e os discursos revolucionários perante multidões operárias, revelam claramente que a Rússia entrava numa fase de ascenso da revolução" (Lenin, t. XV, 533, ed. russa).

Os liquidacionistas, alarmados diante do espírito revolucionário dos operários, se manifestaram contra a luta grevista, que eles qualificavam de "jogo de azar grevista". Os liquidacionistas e seu aliado Trotsky queriam substituir a luta revolucionária do proletariado por uma "campanha de petições". Propunham aos operários assinar um papelucho, uma "petição", suplicando a concessão de "direitos" (a abolição das restrições do direito de coalizão e greve, etc.) para logo depois entregá-la à Duma. Mas os liquidacionistas só conseguiram reunir ao pé de sua "petição" 1300 assinaturas, enquanto em torno das palavras de ordem revohicionárias lançadas pelos bolcheviques se agrupavam centenas de milhares de operários.

A classe operária marchava pelo caminho traçado pelos bolcheviques.

A situação econômica do país, durante este período, apresentava o seguinte quadro: A paralisação industrial se seguira, já no ano de 1910, uma reanimação da indústria e o aumento da produção nos ramos fundamentais. A fundição de ferro, que em 1910 havia contribuído com 3.046.000 toneladas, contribuiu em 1912 com 4.193.000 e, em 1913, com 4.635.000. A extração de carvão de pedra deu em 1910, 24.930.000 toneladas e em 1913 subiu a 36.265.000.

Ao lado do desenvolvimento da indústria capitalista, cresceu rapidamente o proletariado. O desenvolvimento da indústria se caracterizava pela concentração progressiva da produção nas grandes e poderosas empresas. Em 1901, trabalhavam em grandes empresas mais de 500 operários, isto é, 46,7% de todos os operários do país; em 1910, cerca de 54%, ou seja, mais da metade do total dos operários, trabalhavam em empresas deste tipo. Isto representava uma concentração industrial sem precedentes. Inclusive, em um país tão desenvolvido industrialmente como os Estados Unidos, só trabalhava nas grande empresas, naquela época, uma terça parte, aproximadamente, do número total de operários.

O aumento e a concentração do proletariado em grandes empresas, contando com um partido revolucionário como o Partido bolchevique, convertiam a classe operária da Rússia numa força formidável dentro da vida política do país. As brutais formas de exploração dos operários nas empresas, reunidas ao insuportável regime policial dos esbirros czaristas, davam a qualquer greve um pouco séria um caráter político. E este entrelaçamento da luta política com a luta econômica infundia às greves de massas uma força especialmente revolucionária.

À frente do movimento operário revolucionário marchava o heróico proletariado de Petersburgo, e através dele vinham a região do Báltico, Moscou e sua província, depois a região do Volga e o Sul da Rússia. Em 1913, o movimento se estendeu ao território Oeste, à Polônia e ao Cáucaso. No ano de 1912, o número total de grevistas foi, segundo os dados oficiais, de 725.000, e segundo outros dados mais completos, passou de um milhão de operários; no ano de 1913, tomaram parte no movimento grevista, segundo os dados oficiais, 861.000 operários, e segundo dados mais completos, 1.272.000. Na primeira metade do ano de 1914, tinham-se declarado em greve cerca de 1 milhão e meio de operários, aproximadamente.

Como se vê, o ascenso da revolução durante os anos de 1912 a 1914 e a envergadura do movimento grevista colocavam a Rússia numa situação parecida à dos primeiros meses da revolução de 1905.

As greves revolucionárias de massas do proletariado atingiam, por sua significação, a todo o povo. Este movimento era dirigido contra a autocracia. As greves despertavam a simpatia da imensa maioria da população trabalhadora. Os fabricantes e os industriais se vingavam dos operários grevistas declarando "lockouts". Em 1913, os capitalistas da província de Moscou lançaram ao desemprego 50 mil operários têxteis. No mês de março de 1914, foram despedidos num só dia, em Petersburgo, 70 mil operários. Os operários de outras empresas e ramos industriais ajudaram os grevistas e os camaradas que sofriam represálias, vítimas dos "lockouts", com coletas em massa, e, em certas ocasiões, com greves de solidariedade.

O ascenso do movimento operário e as greves de massas também levantaram e arrastaram à luta as massas camponesas. Os camponeses voltaram a se lançar à luta contra os latifundiários, destruindo seus bens e as propriedades dos kulaks. De 1910 a 1914 produziram-se mais de 13 mil ações camponesas.

Começaram também a se produzir manifestações revolucionárias entre as tropas. Em 1912, estalou uma sublevação armada entre as tropas do Turquestão. Incubavam-se movimentos insurrecionais na esquadra no Báltico e em Sebastopol.

O movimento de greves e manifestações revolucionárias, dirigidas pelo Partido bolchevique, revelava que a classe operária não lutava por reivindicações parciais, por "reformas", mas, sim, para libertar o povo do czarismo. A Rússia marchava rumo a uma nova revolução.

Com o fito de estar mais perto da Rússia, no verão de 1912, Lenin se trasladou de Paris para a Galitizia (na antiga Áustria). Aí, celebraram-se duas conferências de membros do C. C. e militares responsáveis, presididas por ele: uma em Cracóvia, em fins de 1912, e outra, no outono de 1913, no pequeno povoado de Poronino, não longe daquela cidade. Nestas reuniões tomaram-se resoluções sobre os problemas mais importantes do movimento operário: sobre a marcha ascendente da revolução, sobre as greves e as tarefas do Partido, sobre o fortalecimento das organizações clandestinas, sobre a fração social-democrata da Duma, sobre a Imprensa do Partido e sobre a campanha dos seguros sociais.



2



O jornal bolchevique "Pravda".

A fração bolchevique da quarta Duma.



Uma arma poderosa com que o Partido bolchevique contava para fortalecer suas organizações e conquistar influência entre as massas foi o diário bolchevique "Pravda" ("A Verdade"), que se editava em Petersburgo. Este jornal tinha sido fundado, segundo as indicações de Lenin, por iniciativa de Stalin, Olminski e Poletaiev. Era um jornal operário de massas, que nasceu com o novo ascenso do movimento revolucionário. Seu primeiro ntimero saiu a 22 de abril de 1912 (5 de maio do novo calendário). Foi um acontecimento verdadeiramente memorável para os proletários. Em homenagem ao aparecimento do primeiro número da "Pravda", se resolveu declarar a data de 5 de maio jornada de festa da Imprensa operária.

Antes de aparecer a "Pravda", publicava-se um semanário bolchevique com o título de "Sviesda", destinado aos operários mais conscientes. "Sviesda" desempenhou um importante papel durante as jornadas do Lena. Em suas colunas veio à luz uma série de artigos políticos combativos de Lenin e Stalin, que mobilizaram a classe operária para a luta. Mas, nas condições criadas pela marcha ascendente da Revolução, ao Partido bolchevique já não bastava como órgão semanal. Era necessário um diário político, destinado às grandes massas operárias. E isto é o que era a "Pravda".

Durante este período, a "Pravda" desempenhou um papel extraordinariamente importante. A "Pravda" atraiu para o bolchevismo as grandes massas da classe operária. Numa situação como aquela, de incessantes perseguições policiais, de multas e apreensões do jornal pela publicação de artigos e correspondências que não agradavam à censura, a "Pravda" só podia existir graças ao apoio ativo de dezenas de milhares de operários avançados. Somente as grandes coletas feitas entre os operários lhe permitiam fazer frente às enormes multas que lhe eram impostas. Freqüentes vezes uma parte considerável da tiragem dos números mandados recolher chegava, apesar de tudo, a seus leitores, graças aos operários mais conscientes que se apresentavam à noite nas oficinas e tiravam os pacotes do jornal.

Em dois anos e meio, o governo czarista suspendeu 8 vezes a publicação da "Pravda", mas esta, com o apoio dos operários, reaparecia sempre com um novo título, semelhante ao proibido, por exemplo: "Pela Pravda", "O caminho da Pravda", "A Pravda do Trabalhador". Enquanto a "Pravda" vendia, em média, 40 mil exemplares diários, a tiragem do jornal menchevique "Luch" ("O Raio") não passava de 15 a 16 mil.

Os operários consideravam a "Pravda" como alguma coisa sua, tinham grande fé nela e escutavam atentamente sua voz. Cada exemplar da "Pravda", passando de mão em mão, servia para dezenas de leitores, formava sua consciência de classe, educava-os, organizava-os, chamava-os à luta.

De que falava a "Pravda"?

Em cada um de seus números se publicavam dezenas de correspondências de operários, nas quais se descrevia a vida dos proletários, a brutal exploração e os múltiplos abusos e vexames que sofriam de parte dos capitalistas e seus gerentes e capatazes. Eram condenações enérgicas e precisas do regime capitalista. Nas notícias da "Pravda" apareciam freqüentemente casos de suicídios de operários desempregados, mortos de fome e desesperados já de não encontrarem trabalho. A "Pravda" falava das necessidades e das reivindicações dos operários das diversas fábricas e ramos industriais, e contava como lutavam os operários por suas reivindicações. Quase em todos os números se informava o que havia sobre as greves realizadas nas diferentes empresas. Quando se desenvolviam greves importantes e grandes, o jornal organizava os operários de outras empresas e ramos industriais para que ajudassem com coletas os grevistas. Às vezes, nestas coletas para o fundo de ajuda aos grevistas se reuniam dezenas de milhares de rublos, somas enormes para aqueles tempos, em que a maioria dos operários ganhavam de 70 a 80 centavos de rublos por dia. Isto educava os operários no espírito da solidariedade proletária e da consciência de unidade de interesses entre todos os operários.

Não havia acontecimento político, não havia triunfo ou derrota, diante do qual os operários não reagissem enviando à "Pravda" cartas, saudações, protestos, etc. Em seus artigos, a "Pravda" esclarecia as tarefas do movimento operário segundo o ponto de vista conseqüentemente bolchevique. Seu caráter de jornal legal não lhe permitia aconselhar diretamente a derrubada do czarismo. Tinha que se exprimir por meio de alusões, que os operários conscientes compreendiam perfeitamente e se encarregavam de explicar às massas. Assim, por exemplo, quando a "Pravda" falava das "reivindicações íntegras e completas do ano de 1905", os operários sabiam que se tratava das palavras de ordem revolucionárias dos bolcheviques: derrubada do czarismo, República democrática, confiscação das terras dos latifundiários e jornada de 8 horas.

A "Pravda" organizou os operários avançados nas vésperas das eleições à quarta Duma. Desmascarando a posição traidora dos partidários de um acordo com a burguesia liberal, dos defensores do "partido operário stolypiniaho" — dos mencheviques — chamava os operários a votarem pelos partidários das "reivindicações íntegras do ano de 1905", isto é, pelos bolcheviques. As eleições eram de terceiro grau. Primeiro os operários elegiam em assembléias seus delegados, e estes logo depois designavam os mandatários, que eram os encarregados de votar nos deputados operários da Duma. No dia das eleições, a "Pravda" publicou a lista dos mandatários bolcheviques cuja candidatura recomendava aos operários. Não foi possível publicar esta lista antes, para não expor os candidatos recomendados ao perigo de serem presos.

A "Pravda" ajudava a organizar as ações do proletariado. Em virtude de um grande "lockout" levado a efeito em Petersburgo na primavera de 1914, em condições em que não era conveniente declarar uma greve de massas, a "Pravda" aconselhou os operários a recorrerem a outras fornias de luta, a comícios de massas nas fábricas e a manifestações nas ruas. O jornal não podia dar abertamente semelhante orientação.

Mas o chamado da "Pravda" foi compreendido pelos operários conscientes que leram em suas colunas o artigo de Lenin, publicado sob o modesto título de "Sobre as formas do movimento operário", no qual se dizia que, naquele momento era necessário substituir a greve por outra forma mais elevada do movimento operário, o que equivalia a preconizar a organização de comícios e manifestações.

Era assim que os bolcheviques combinavam a atuação revolucionária clandestina com a agitação e a organização legal das massas operárias através da "Pravda".

Mas a "Pravda" não se ocupava somente da vida dos operários, das greves e das manifestações operárias. Em suas colunas se tratava sistematicamente da vida camponesa, da fome que os camponeses passavam, da exploração dos camponeses pelos latifundiários feudais, do roubo das melhores terras dos camponeses para engrossar as propriedades dos kulaks, por obra da "reforma" stolypiniana. A "Pravda" fazia ver aos operários conscientes a grande quantidade de material inflamável que se ia acumulando no campo. Ressaltava perante o proletariado que as tarefas da revolução de 1905 não tinham sido resolvidas e que surgiria uma nova revolução. E ensinava que nesta segunda revolução, o proletariado teria que atuar como o verdadeiro chefe, como o verdadeiro dirigente do povo, e que nesta revolução contaria com um aliado tão forte como os camponeses revolucionários.

Os mencheviques lutavam por tirar da cabeça do proletariado a idéia da revolução. Pregavam aos operários que deviam deixar de preocupar-se com o povo, com os camponeses famintos e com o domínio dos grandes proprietários feudais das centúrias negras, para lutar somente pela "liberdade de coalizão", dirigindo para isso "petições" ao governo do czar. Os bolcheviques faziam ver aos operários que estas prédicas mencheviques, em que os operários eram convidados a renunciar à revolução e à aliança com os camponeses, serviam aos interesses da burguesia, que os operários venceriam com toda a segurança o czarismo, se soubessem atrair para seu lado os camponeses, como seus aliados, e que deviam voltar as costas aos maus pregadores, inimigos da revolução, do tipo dos mencheviques.

De que tratava a "Pravda", na seção intitulada "A vida do camponês"?

Daremos como exemplo algumas das correspondências publicadas no ano de 1913.

Em um informe enviado por um correspondente de Samara e que apareceu sob o título de "Um pleito agrário", comunicava-se que dos 45 camponeses da aldeia de Novoiasbulat, no distrito de Bugulmá, acusados de terem feito resistência ao funcionário encarregado de praticar a delimitação das parcelas de terras dos que se separavam da comunidade, grande parte tinha sido condenada a longas penas de prisão. Numa breve notícia enviada por um correspondente da província de Pskov, se dizia:

"Os camponeses da aldeia de Psitsa (nas imediações da estação de Savale) empunharam armas contra os guardas rurais. Há vários feridos. A causa do choque foram os conflitos agrários. Em Psitsa foram concentrados guardas rurais; viajaram para este povoado o vice-governador e o fiscal".

Um correspondente da província de Ufá informava a respeito da venda dos lotes de terra dos camponeses e expunha que a fome e a lei sobre a separação da comunidade rural tinham vindo reforçar o processo de privação de terras dos camponeses. Veja-se por exemplo, o que ocorreu no povoado de Borisovka.

Nele havia 27 casas que possuíam 543 hectares de terras de lavoura. Na época de fome, 5 lavradores venderam para sempre 31 hectares, à razão de 25 a 33 rublos cada um, isto é, 3 ou 4 vezes menos do que valia a terra. 7 lavradores hipotecaram 177 hectares, obtendo em troca de 18 a 20 rublos por hectare, a serem pagos em 6 anos e a 12 por cento de juro anual. Tendo em conta o empobrecimento da população camponesa e o tipo brutal de juro, podia afirmar-se com segurança que dos 177 hectares a metade passaria para as mãos do usurário, pois era muito pouco provável que num prazo de 6 anos, mesmo a metade dos vendedores pudesse pagar uma soma tão elevada.

No artigo intitulado "A grande propriedade dos latifundiários e a pequena propriedade camponesa na Rússia", publicado na "Pravda", Lenin fazia ver de um modo tangível aos operários e camponeses quão fabulosa era a riqueza de terras em poder dos parasitas latifundiários. Cerca de 30 mil latifundiários dos mais fortes açambarcavam aproximudamente 70 milhões de hectares de terra. Enquanto os camponeses tinham que se contentar com uma extensão equivalente, repartida entre 10 milhões de famílias. Cada um daqueles grandes latifundiários era detentor, em média, de 2.300 hectares de terra; em troca, a cada família camponesa, incluindo os kulaks, correspondiam, em média, 7 hectares; mas, além disso, havia 5 milhões de famílias camponesas pobres, isto é, a metade da população camponesa, que não possuíam, de seu, mais do que um ou dois hectares. Estes fatos demonstravam de um modo tangível que a causa da miséria e da fome dos camponeses estava no regime dos grandes latifundiários, nas sobrevivêneias do feudalismo, das quais os camponeses só se podiam libertar mediante a revolução dirigida pela classe operária.

Através dos operários relacionados com o campo, a "Pravda" penetrava na aldeia, despertando para a luta revolucionária os camponeses mais conscientes.

No período em que se fundou a "Pravda", as organizações social-democratas clandestinas estavam inteiramente nas mãos dos bolcheviques. Em troca, as formas legais de organização — a fração da Duma, a Imprensa, as sociedades operárias de auxílios mútuos, os sindicatos — não tinham sido ainda inteiramente tirados das mãos dos mencheviques. Os bolcheviques tiveram que travar uma luta enérgica para desalojar os liquidacionistas das organizações legais da classe operária. Esta luta foi coroada de êxito, graças à "Pravda".

A "Pravda" ocupava um lugar central na luta em prol da causa do Partido, em prol da reconstituição de um partido operário revolucionário de massas. Suas campanhas faziam com que as organizações legais se agrupassem estreitamente em torno dos centros clandestinos do Partido bolchevique e encaminhavam o movimento operário para uma meta definida: a preparação da revolução.

A "Pravda" contava com uma quantidade enorme de correspondentes operários. Mais de 11 mil correspondências operárias foram publicadas em suas colunas num só ano. Mas não eram as cartas e a colaboração de seus correspondentes o único meio pelo qual ela mantinha contato com as massas operárias. Sua redação era visitada diariamente por numerosos operários das fábricas. Nela se concentrava uma parte considerável do trabalho de organização do partido. Celebravam-se ali reuniões com os representantes das células de base do Partido, ali chegavam os informes sobre o trabalho do Partido nas fábricas e empresas industriais e dali se transmitiam as instruções do Comitê de Petersburgo e do Comitê Central do Partido.

Como fruto de dois anos e meio de luta tenaz contra os liquidacionistas pela reconstituição de um Partido operário revolucionário de massa, os bolcheviques conseguiram que, até o verão de 1914, o Partido bolchevique, a tática "pravdista", contassem com as quatro quintas partes dos operários ativos da Rússia.

Assim o testemunha, por exemplo, o fato de que 5.600 grupos operários, dos 7.000 que em 1914 organizaram coletas para a Imprensa operária, recolhessem dinheiro para os bolcheviques, e só 1.400 para os mencheviques. Em troca, estes dispunham de muitos "amigos ricos" entre a burguesia liberal e os intelectuais burgueses, que contribuíam com mais da metade do dinheiro necessário para sustentar seu jornal.

Aos bolcheviques por esta época se costumava dar o nome de "pravdistas". Com a "Pravda" se desenvolveu uma geração inteira do proletariado revolucionário que mais tarde havia de se pôr à frente da Revolução Socialista de Outubro. Atrás da "Pravda" marchavam dezenas e centenas de milhares de operários. Durante os anos de ascenso revolucionário (1912 a 1914) se lançaram os sólidos alicerces de um Partido bolchevique de massas, contra o qual tinham de se arrebentar todas as perseguições do czarismo no período da guerra imperialista.

"Sobre a "Pravda" no ano de 1912 se cimentou o triunfo do bolchevismo em 1917" (Stalin).

Outro órgão legal do Partido, extensivo a toda a Rússia, era a fração bolchevique da quarta Duma.

Em 1912 o governo convocou as eleições à quarta Duma. O Partido bolchevique deu grande importância à participação nestas eleições. A fração social-democrata da Duma e a "Pravda" eram os pontos fundamentais da resistência legal para toda a Rússia, através dos quais o Partido bolchevique desenvolvia o seu trabalho revolucionário entre as massas.

O Partido bolchevique foi às eleições à Duma com sua plataforma independente e sob palavras de ordem próprias, lutando ao mesmo tempo contra os partidos governamentais e contra a burguesia liberal (contra os kadetes). Os bolcheviques desenvolveram sua campanha eleitoral sob as palavras de ordem de República Democrática, jornada de 8 horas e confiscação das terras dos latifundiários.

As eleições à quarta Duma celebraram-se no outono de 1912. Em começos de outubro, o governo, descontente com a marcha das eleições em Petersburgo, tentou violar os direitos eleitorais dos operários numa série de grandes fábricas. Como resposta a isso, o Comitê de Petersburgo do Partido bolchevique, por proposta do camarada Stalin, convidou os operários das empresas mais importantes a declararem uma greve de um dia. O governo, vendo-se colocado numa situação difícil, não teve outro remédio senão ceder, e as assembléias operárias puderam eleger os candidatos que melhor lhes pareceram. Os operários, por imensa maioria, votaram a favor do "Mandato" aos delegados e ao deputado, redigido pelo camarada Stalin. O "Mandato" dos operários petersburgueses a seu deputado operário" recordava as tarefas ainda não resolvidas do ano de 1905.

"... Achamos — dizia o "Mandato" — que a Rússia se acha nas vésperas de movimentos de massas iminentes, talvez mais profundos que no ano de 1905... A frente destes movimentos se porá, como se pôs também no ano de 1905, a classe mais avançada de nossa sociedade, o proletariado russo. E seu aliado não pode ser outro senão a ultra-sofredora massa camponesa, vitalmente interessada na emancipação da Rússia".

No "Mandato" se declarava que as futuras ações do povo teriam que se revestir da forma de uma luta em duas frentes, tanto contra o governo czarista como contra a burguesia liberal, ansiosa de chegar a um acordo com o czarismo.

Lenin dava grande importância a esse "Mandato", no qual se chamava os operários à luta revolucionária. E em suas resoluções os operários acolhiam este apelo.

Os bolcheviques triunfaram nas eleições, sendo enviado à Duma, representando os operários de Petersburgo, o camarada Badaiev.

Os operários votavam, nas eleições à Duma, à parte dos demais setores da população (na chamada "cúria" operária). Dos nove deputados eleitos pelos operários, seis eram membros do Partido bolchevique (Badaiev, Petrovski, Muranov, Samolinov, Shagov e Malinovski que se descobriu mais tarde ser um espião da polícia). Os deputados bolcheviques procediam dos centros industriais mais importantes nos quais estavam concentrado, pelo menos, as quatro quintas partes da classe operária. Em troca, alguns liquidacionistas eleitos para a Duma, não deviam sua eleição à cúria operária, mas a outros setores da população. Assim se explica que na Duma houvesse 7 deputados liquidacionistas frente aos 6 bolcheviques. Nos primeiros momentos, os deputados bolcheviques e os liquidacionistas constituíram na Duma uma fração social-democrática única. Mas em outubro de 1913, depois de uma luta tenaz contra os liquidacionistas, que entravavam o trabalho revolucionário dos bolcheviques, os deputados bolcheviques, seguindo as instruções de seu Comitê Central, saíram da fração social-democrata comum e passaram a constituir uma fração bolchevique independente.

Os deputados bolcheviques pronunciavam na Duma discursos revolucionários, desmascarando o regime da autocracia e interpelavam o governo acerca dos atos de repressão contra os operários e a respeito da exploração desumana de que os capitalistas os faziam vítimas.

Sua atuação na Duma versava também sobre o problema agrário e em seus discursos se incitava os camponeses a lutarem contra os latifundiários feudais e se desmascarava o partido kadete, contrário ao confisco das terras dos latifundiários e à sua entrega aos camponeses.

Os bolchevicpies apresentaram à Duma um projeto de lei sobre a jornada de 8 horas, projeto que, naturalmente, não podia ser aprovado pela ultra-reacionária Duma, mas que teve uma grande importância no terreno da agitação.

A fração bolchevique da Duma atuava em estreito contato com o Comitê Central do Partido e com Lenin, de quem recebia diretivas. Ocupava-se de sua direção imediata, enquanto permaneceu em Petersburgo, o camarada Stalin.

Os deputados bolcheviques não se limitavam a atuar na Duma; também desenvolviam uma grande atividade fora dela. Visitavam as fábricas e oficinas, percorriam os centros operários do país, dando informes nesses centros, organizavam assembléias clandestinas, nas quais explicavam as resoluções do Partido, e criavam novas organizações deste. Os deputados sabiam combinar habilmente a atuação legal com o trabalho ilegal, clandestino.





3



Triunfo dos bolcheviques nas organizações legais.

O movimento revolucionário segue sua marcha ascendente.

Aproxima-se a guerra imperialista.



O Partido bolchevique deu durante este período mostras de direção exemplar de todas as formas e manifestações, da luta de classes do proletariado. Criava organizações clandestinas, editava folhas ilegais. Desenvolvia um trabalho revolucionário clandestino entre as massas. E paralelamente a tudo isto, ia cada vez mais penetrando de cheio nas diversas organizações legais da classe operária. O Partido aspirava ganhar os sindicatos, as Casas do Povo, as Universidades noturnas, os clubes e as sociedades operárias de auxílios mútuos. Estas organizações legais tinham sido desde outros tempos o refúgio dos liquidacionistas. Os bolcheviques lutaram energicamente para converter estas sociedades legais em pontos de resistência do Partido bolchevique. Combinando habilmente o trabalho clandestino com o trabalho dentro da legalidade, os bolcheviques atraíram a maioria dos sindicatos das duas capitais. Nas eleições celebradas em 1913 para preencher os postos de direção do Sindicato metalúrgico de Petersburgo, obtiveram os bolcheviques um triunfo brilhantíssimo. Numa assembléia de 3 mil metalúrgicos, só votaram pelos liquidacionistas uns 150 operários.

Outro tanto se deve dizer da organização legal que a fração social-demoerata da quarta Duma representava. Se bem que os mencheviques contassem com 7 deputados e os bolcheviques com 6 somente, aqueles 7 mencheviques, procedentes em sua maioria de regiões não operárias, apenas representavam, aproximadamente, uma quinta parte de proletariado, enquanto que os 6 bolcheviques, procedentes dos principais centros industriais do país (Petersburgo, Moscou, Ivanovo-Vbsnessensk, Kostromá, Ekaterinoslav e Karkov), representavam mais das quatro quintas partes da classe operária da Rússia. Os operários consideravam como seus deputados os seis bolcheviques (Badaiev, Petrovsk, etc.) e não os sete mencheviques.

Os bolcheviques conseguiram ganhar as organizações legais porque, apesar das brutais perseguições do czarismo e das encarniçadas campanhas dos liquidacionistas e dos trotskistas, souberam manter de pé o Partido clandestino e assegurar uma disciplina férrea dentro de suas fileiras, defendendo com firmeza os interesses da classe operária, mantendo estreito contato com as massas e travando uma luta intransigente contra os inimigos do movimento operário.

Os bolcheviques, portanto, triunfaram em toda a linha dentro das organizações legais e os mencheviques sofreram uma derrota completa. Tanto no terreno da agitação feita da tribuna da Duma, como no campo da Imprensa operária e de outras organizações legais, os mencheviques foram relegados a segundo plano. A classe operária arrastada pelo movimento revolucionário, se agrupava notadamente em torno dos bolcheviques e virava as costas aos mencheviques.

Para cúmulo de seu fracasso, os mencheviques sofreram também uma derrota esmagadora no campo do problema nacional. Para atuar no movimento revolucionário da periferia da Rússia, era necessário ter um programa claro sobre o problema nacional. Os mencheviques careciam de qualquer programa, fora do ponto da "autonomia cultural" do Bund, que não podia satisfazer ninguém. Só os bolcheviques tinham um programa marxista sobre o problema nacional, programa exposto no estudo do camarada Stalin intitulado "O marxismo e o problema nacional" e nos artigos de Lenin "Sobre o direito de autodeterminação das nações" e "Notas críticas sobre o problema nacional".

Não é de estranhar que, depois de tais derrotas dos mencheviques, o Bloco de Agosto começasse a fazer água por todas as juntas. Este bloco, composto dos elementos mais heterogêneos, não resistiu aos embates dos bolcheviques e começou a desmoronar-se. O Bloco de Agosto, criado para lutar contra os bolcheviques, não tardou a cair sob os golpes destes. Os primeiros que saíram dele foram os do grupo do "Vperiod" ("Avante") (Bogdanov, Lunacharski, etc); foram seguidos pelos letões, e logo depois se dispersaram todos os outros.

Derrotados na luta contra os bolcheviques, os liquidacionistas apelaram para a ajuda da Segunda Internacional. Esta acudiu em seu socorro. Sob o pretexo de uma "reconciliação" entre os bolcheviques e os liquidacionistas, sob o pretexto de restabelecer a "paz dentro do Partido", a Segunda Internacional exigiu que os bolcheviques cessassem suas críticas contra a política oportunista dos liquidacionistas. Mas os bolcheviques mantiveram uma atitude irredutível: negaram-se a acatar as decisões da Segunda Internacional oportunista e não fizeram a menor concessão.

O triunfo dos bolcheviques nas oganizações legais não foi nem podia ser por acaso. Não só porque os bolcheviques eram os únicos que tinham uma teoria marxista certa, um programa claro e um partido revolucionário temperado nos combates, mas porque, além disso, o triunfo dos bolcheviques refletia a marcha ascendente do movimento revolucionário.

O movimento operário revolucionário se desenvolvia cada vez mais, estendendo-se a novas cidades e regiões. Ao entrar o ano de 1914, as greves, longe de diminuir, cobraram novo ânimo. Aumentava sem cessar sua tenacidade, e arrastavam um número de operários cada vez maior. A 9 de janeiro se declararam em greve 250.000 operários, dos quais 140.000 somente em Petersburgo. A 1°. de maio se registrou mais de meio milhão de grevistas, dos quais correspondiam a Petersburgo mais de 250.000. A firmeza de que davam prova os operários grevistas era extraordinária. A greve da fábrica "Obukov" em Petersburgo, durou mais de dois meses e a da fábrica "Lessner", uns 3 meses. As intoxicações em massa produzidas em uma série de fábricas em Petersburgo provocaram uma greve de 115.000 operários, seguida de manifestações. O movimento continuava crescendo. O número total de grevistas, durante o 1". semestre de 1914 (incluindo os primeiros dias do mês de julho), foi de 1.425.000 operários.

Em maio, começou a greve geral dos operários da indústria petrolífera em Bakú, que atraiu a atenção de todo o proletariado nisso. Esta greve se desenvolveu organizadamente. A 20 de junho, se celebrou em Bakú uma manifestação de 20 mil operários. A polícia adotou medidas draconianas contra os operários daquela cidade. Em sinal de protesto e de solidariedade com os operários de Bakú, estalou a greve em Moscou, de onde se estendeu a outras regiões.

A 3 de junho, celebrou-se na fábrica "Putilov" de Petersburgo um comício, em conseqüência da greve de Bakú. A polícia atirou contra os operários. Uma indignação enorme se apoderou do proletariado de Petersburgo. A 4 de julho, respondendo ao chamado do Comitê de Petersburgo do Partido, declararam-se em greve nesta cidade, em sinal de protesto, 90 mil operários; a 7 de julho havia já 130 mil grevistas; a 8 de j unho, 150 mil, e a 11 de junho, 200 mil.

A agitação se apoderou de todas as fábricas; por toda a parte se celebravam comícios e manifestações. Houve, até tentativas de levantar barricadas, como, com efeito, chegaram a levantar-se em Bakú e Lodz. Numa série de pontos, a polícia fez fogo sobre os operários. Para esmagar o movimento, o governo tomou medidas "extraordinárias", a capital foi transformada num acampamento militar e a "Pravda" foi suspensa.

Neste momento, apresentou-se em cena uma nova força de ordem internacional: a guerra imperialista, que havia de mudar o rumo dos acontecimentos. Em pleno desenvolvimento dos acontecimentos revolucionários de julho, chegou a Petersburgo o presidente da República francesa, Poincaré, para entrevistar-se com o czar e tratar do começo da guerra, que se avizinhava. Poucos dias depois a Alemanha declarava guerra à Rússia. O governo czarista se aproveitou da guerra para destroçar as organizações bolcheviques e asfixiar o movimento operário. A marcha ascendente da Revolução foi interrompida pela guerra mundial, na qual o governo czarista buscava sua salvação contra a revolução.

RESUMO

Durante os anos do ascenso revolucionário (1912 a 1914), o Partido bolchevique se pôs à frente do movimento operário e o conduziu, sob as palavras de ordem bolcheviques, para a nova revolução. O Partido soube combinar o trabalho clandestino com o trabalho legal. Vencendo a resistência dos liquidacionistas e seus amigos, os trotskistas e os "otsovistas", se apoderou de todas as formas do movimento legal e converteu as organizações legais em pontos de resistência para sua atuação revolucionária.

Lutando contra os inimigos da classe operária e contra seus agentes dentro do movimento proletário, o Partido reforçou suas fileiras e reforçou seus vínculos com a classe operária. Valendo-se amplamente da tribuna da Duma para a agitação revolucionária e fundando um magnífico jornal operário de massas, a "Pravda", o Partido educou uma nova geração de operários revolucionários, a geração dos "pravdistas". Esta geração de operários se manteve durante os anos da guerra imperialista, fiel à bandeira do internacionalismo e da revolução proletária. Mais tarde, constituiu o núcleo do Partido bolchevique nas jornadas da Revolução de Outubro de 1917.

Nas vésperas da guerra imperialista, o Partido bolchevique dirigia as ações revolucionárias da classe operária. Estas ações eram combates de vanguarda, que a guerra imperialista acabou, mas que foram reiniciadas três anos mais tarde para a derrubada do czarismo. O Partido bolchevique entrava na dura etapa da guerra imperialista com as bandeiras do internacionalismo proletário desfraldadas.





Capítulo VI



O Partido Bolchevique Durante o Período da Guerra Imperialista.

A Segunda Revolução na Rússia

( 1914 - Março de 1917 )





1



Origem e causas da guerra imperialista.



A 14 (27) de julho de 1914, o governo czarista decretou a mobilização geral. A 19 de julho (1º. de agosto), a Alemanha declarou guerra à Rússia.

A Rússia entrou na guerra.

Já muito tempo antes que a guerra começasse, os bolcheviques, encabeçados por Lenin, tinham previsto que ela estalaria inevitavelmente. Nos congressos internacionais socialistas, Lenin tinha formulado propostas destinadas a traçar a linha revolucionária de conduta que os socialistas deviam adotar quando a guerra estalasse.

Lenin assinalava que a guerra era um satélite inevitável do capitalismo, a rapina de territórios estrangeiros, a apropriação e o saque das colônias, a conquista de novos mercados, tinham provocado repetidas vezes guerras de anexação dos Estados capitalistas. Para os países capitalistas, a guerra é um fenômeno tão natural e tão legítimo como a exploração da classe operária.

As guerras fizeram-se ainda mais inevitáveis em fins do Século XIX e começos do XX, ao passar o capitalismo, definitivamente, para a fase culminante e última de seu desenvolvimento: o imperialismo. Sob o imperialismo, os potentes agrupamentos (monopólios) dos capitalistas e dos bancos adquiriram uma importância decisiva na vida dos Estados capitalistas. O capital financeiro se converteu no amo dos Estados capitalistas. E o capital financeiro exigia novos mercados, a anexação de novas colônias, novas bases para a exportação de capitais e novas fontes de matérias-primas.

Mas, nos fins do Século XIX, todo o território do planeta se achava já repartido entre os Estados capitalistas. Pois bem, na época imperialista, o capitalismo se desenvolve de um modo extraordinariamente desigual e em saltos: países que antes apareciam em primeiro lugar, vêem arrefecer o ritmo relativo de desenvolvimento de sua indústria, enquanto outros, que antes eram países atrasados, dão um rápido salto, os alcançam e ultrapassam. A correlação entre as forças econômicas e militares dos Estados imperialistas tinha mudado. Manifestava-se a aspiração de proceder a uma nova partilha do mundo. A luta por uma nova partilha do mundo tinha que provocar, inevitavelmente, a guerra imperialista. A guerra de 1914 foi uma guerra por uma nova divisão do mundo e das zonas de influência. Esta guerra tinha sido longamente preparada pelos Estados imperialistas. Os imperialistas de todos os países foram culpados dela.

A guerra tinha sido preparada, em particular, pela Alemanha e a Áustria, de um lado, e de outro, pela França, a Inglaterra e a Rússia, coagida por elas. Em 1907 se havia constituído a Tríplice Entente, — aliança entre a Inglaterra, a França e a Rússia. Outra aliança imperialista existia entre a Alemanha, a Áustria-Hungria e a Itália. Mas, ao estalar a guerra de 1914, a Itália saiu desta aliança, e mais tarde aderiu à Entente. A Alemanha e a Áustria-Hungria contavam com o apoio da Bulgária e da Turquia.

A Alemanha se preparava para a guerra imperialista, ambicionando despojar a Inglaterra e a França de suas colônias, e a Rússia, da Ucrânia, Polônia e territórios do Báltico. Com a construção da estrada de ferro de Bagdá, a Alemanha ameaçava a dominação da Inglaterra no Oriente Próximo. A Inglaterra via com temor o incremento dos armamentos navais da Alemanha.

A Rússia czarista aspirava à divisão da Turquia e sonhava conquistar os estreitos que unem o Mar Negro ao Mediterrâneo (os Dardanelos) e anexar Constantinopla. Entrava também nos planos do governo czarista a anexação de Galitzia, que fazia parte da Austria-Hungria.

A Inglaterra aspirava esmagar por meio da guerra sua perigosa competidora, a Alemanha, cujas mercadorias iam desalojando cada vez mais os produtos ingleses do mercado mundial de antes da guerra. Além disso, acalentava o propósito de tirar à Turquia a Mesopotâmia e a Palestina e de se estabelecer solidamente no Egito.

Os capitalistas franceses aspiravam arrebatar à Alemanha a bacia do Sarre, rica em carvão e ferro, e as províncias de Alsácia-Lorena, das quais a Alemanha tinha despojado a França na guerra de 1870-1871.

Foram, pois, as formidáveis contradições existentes entre os dois grupos de Estados capitalistas que trouxeram a guerra imperialista.

Esta guerra de rapina, na qual se ventilava a repartição do mundo, afetava os interesses de todos os países imperialistas, razão por que se viam arrastados a ela, no transcurso de seu desenvolvimento, o Japão, os Estados Unidos e outra série de países.

A guerra adquiriu caráter mundial.

A burguesia tinha preparado a guerra imperialista, mantendo seus preparativos no mais profundo segredo, para que deles não ficassem inteirados os povos. Quando a guerra estalou, todos os governos imperialistas se esforçaram por demonstrar que não eram eles os que itacavam os países vizinhos, senão que eram vítimas da agressão destes. A burguesia enganava o povo, ocultando os verdadeiros fins da guerra, seu caráter imperialista, de anexação. Todos os governos imperialistas declararam que faziam a guerra em defesa da pátria.

Os oportunistas da Segunda Internacional ajudaram a burguesia a enganar o povo. Os social-democratas da Segunda Internacional traíram vilmente a causa do socialismo, a causa da solidariedade internacional do proletariado. Longe de se levantarem contra a guerra, o que fizeram foi ajudar a burguesia a lançar os operários e os camponeses dos Estados beligerantes uns contra os outros, sob a bandeira da defesa da pátria.

O fato da Rússia entrar na guerra imperialista, ao lado da Entente, da França e da Inglaterra, tinha sua razão de ser. Não se perca de vista que antes de 1914 os ramos mais importantes da indústria russa se achavam em mãos do capital estrangeiro, e principalmente do capital francês, inglês e belga, isto é, dos países da Entente. As fábricas metalúrgicas mais importantes da Rússia eram propriedade de capitalistas franceses. Quase três quartas partes da metalurgia russa (72 por cento) dependiam do capital estrangeiro. Outro tanto ocorria com a produção do carvão de pedra na bacia do Donetz. A metade, aproximadamente, da extração de petróleo achava-se em mãos do capital anglo-francês. Uma parte considerável dos lucros da indústria russa ia parar nos bancos estrangeiros, e principalmente nos da Inglaterra e França. Todas estas razões, às quais é preciso juntar os empréstimos de milhares de milhões feitos pelo czar na França e na Inglaterra, prendiam o czarismo ao imperialismo anglo-francês e convertiam a Rússia em tributária destes países, em uma semicolônia sua.

A burguesia russa esperava que, lançando-se à guerra, melhoraria de situação, conquistaria novos mercados, se enriqueceria com os pedidos e os fornecimentos de guerra, e ao mesmo tempo poderia, valendo-se da situação criada pela guerra, esmagar o movimento revolucionário.

A Rússia czarista entrou na guerra sem estar preparada para ela. A indústria russa achava-se muito atrasada em relação à dos outros países capitalistas. Predominavam nela as velhas fábricas com uma instalação já muito gasta. A agricultura russa com um regime semifeudal de propriedade da terra e de massas de camponeses reduzidos à mais extrema miséria, não podia oferecer uma base econômica para manter uma guerra longa.

O czar tinha seu principal apoio nos latifundiários feudais. Os grandes latifundiários das centúrias negras, coligados aos grandes capitalistas, eram os senhores do país e da Duma. Estes elementos apoiavam em bloco a política interior e exterior do governo czarista. A burguesia imperialista russa tinha todas as suas esperanças postas na autocracia czarista, no punho de ferro que lhe podia assegurar a conquista de novos mercados e de novos territórios, e além disso esmagar o movimento revolucionário dos operários e camponeses.

O Partido da burguesia liberal — os kadetes — se fazia passar por um partido de oposição, mas apoiava sem reservas a política exterior do governo czarista.

Os partidos pequeno-burgueses, social-revolucionário e menehevique, encobrindo sua conduta com a bandeira do socialismo, ajudaram a burguesia, desde o primeiro momento da guerra, a enganar o povo, a ocultar o caráter imperialista e rapace da guerra. Pregavam a necessidade de defender a "pátria" burguesa contra os "bárbaros prussianos", e apoiavam a política de "paz interior", e deste modo ajudavam o governo do czar a fazer a guerra, exatamente da mesma forma que os social-democratas alemães ajudavam o governo do kaiser a guerrear contra os "bárbaros russos".

O Partido bolchevique foi o único que permaneceu fiel à grande bandeira do internacionalismo revolucionário, mantendo-se firme nas posições marxistas e lutando resolutamente contra a autocracia czarista, contra os capitalistas e latifundiários e contra a guerra imperialista. O Partido bolchevique manteve, desde os primeiros dias de guerra, o ponto de vista de que esta não se havia desencadeado para defender a pátria, senão para se apoderar de territórios estrangeiros, para saquear outros povos no interesse dos latifundiários e capitalistas, e que os operários deviam adotar em relação a ela uma atitude de luta decidida.

A classe operária apoiava o Partido bolchevique. É certo que as fumaças patriótico-burguesas, que no começo da guerra embriagaram os intelectuais e o setor dos kulaks, contaminaram também uma parte dos operários. Mas foram principalmente, contaminados os que se encontravam entre a malandragem da "União do Povo Russo" e um setor dos operários influenciado ideologicamente pelos social-revolucionários e os mencheviques. Estes elementos não refletiam nem podiam refletir, naturalmente, o estado de espírito da classe operária. Eram os elementos que desfilavam nas manifestações chovinistas da burguesia, organizadas pelo governo czarista nos primeiros dias de guerra.





2



Os Partidos da Segunda Internacional passaram para o lado de seus governos imperialistas.

A Segunda Internacional se decompõe numa série de partidos social-chovinistas isolados.



Lenin repetidas vezes havia lançado o brado de alerta contra o. oportunismo da Segunda Internacional e a falta de firmeza de seus chefes. Havia afirmado sempre que os chefes da Segunda Internacional só de palavra eram contrários à guerra e que no caso da guerra estalar desertariam certamente de suas posições e passariam para o lado da burguesia imperialista, converter-se-iam com toda a certeza em defensores da guerra. O prognóstico de Lenin se confirmou desde os primeiros dias de guerra.

Em 1910, no Congresso celebrado pela Segunda Internacional em Copenhague, se havia tomado uma resolução que obrigava os socialistas a votar nos parlamentos contra os créditos de guerra. O Congresso mundial da Segunda Internacional celebrado em Basiléia, em 1912, durante a guerra dos Bálcans, declarou que os operários de todos os países consideravam um crime atirar uns contra os outros para aumentar os lucros dos capitalistas. Tal era a posição que se adotava, de palavra, nas resoluções dos Congressos.

Mas quando começaram a troar os canhões da guerra imperialista e se apresentou a necessidade de levar à prática aquelas resoluções, os chefes da Segunda Internacional se revelaram como traidores do proletariado e servidores da burguesia, passando para o campo dos defensores da guerra.

A 4 de agosto de 1914, a social-democracia alemã votou no parlamento os créditos de guerra, votou a favor da guerra imperialista. E exatamente o mesmo fizeram, em sua esmagadora maioria, os socialistas da França, da Inglaterra, da Bélgica e dos demais países.

A Segunda Internacional havia deixado de existir. Decompôs-se de fato numa série de partidos social-chovinistas isolados que faziam a guerra uns contra os outros.

Os chefes dos partidos socialistas, traindo o proletariado, passaram para a posição do social-chovinismo e abraçaram a defesa da burguesia imperialista. Ajudaram os governos imperialistas a enganar a classe operária e a inocular-lhe o veneno do nacionalismo. Sob a bandeira da defesa da pátria, estes social-traidores começaram a atiçar os operários alemães contra os franceses e os operários franceses e ingleses contra os alemães. Só uma minoria insignificante de homens dentro da Segunda Internacional se manteve na posição internacionalista, marchando contra a corrente, sem uma convicção muito firme e de um modo bastante vago, é certo, mas, apesar de tudo, marchando contra a corrente.

O Partido bolchevique foi o único que levantou desde o primeiro momento e sem vacilações a bandeira da luta decidida contra a guerra imperialista. Nas teses sobre a guerra, redigidas por Lenin no outono de 1914, se assinalava que o fracasso da Segunda Internacional não era por acaso. A Segunda Internacional, dizia Lenin, foram os oportunistas que a puseram a pique. E contra eles fazia já muito tempo que os melhores representantes do proletariado revolucionário se vinham pondo em guarda.

Os partidos da Segunda Internacional estavam contagiados de oportunismo, já antes da guerra. Os oportunistas pregavam abertamente a renúncia à luta revolucionária, a teoria da "evolução pacífica do capitalismo para o socialismo". A Segunda Internacional não queria lutar contra o oportunismo, era partidária de viver em paz com ele e o deixava fortalecer-se. E seguindo a política de conciliação com o oportunismo, acabou por se converter ela também em oportunista.

À custa dos lucros que arrancava das colônias e da exploração de que eram vítimas os países atrasados, a burguesia imperialista, mediante uma política de salários elevados e outras remunerações, corrompia sistematicamente uma minoria escolhida de operários qualificados, a chamada aristocracia operária. Deste reduzido setor operário saíam muitos dos dirigentes dos sindicatos e das cooperativas, muitos dos deputados e conselheiros, muitos dos redatores da Imprensa e dos funcionários das organizações social-democratas. Ao estalar a guerra, estas pessoas, receiosas de perderem sua posição privilegiada, fizeram-se inimigos da revolução, convertendo-se nos defensores mais raivosos de sua burguesia e de seus governos imperialistas.

De oportunistas se converteram em social-chovinistas.

Os social-chovinistas — incluindo entre eles os mencheviques e social-revolucionários russos — pregavam a paz de classes entre os operários e a burguesia dentro do país, e a guerra com os outros povos no exterior. Enganavam as massas acerca dos verdadeiros responsáveis da guerra, fazendo-as acreditar que a burguesia de seu próprio país estava livre de toda a culpa. Muitos social-chovinistas passaram a ser ministros dos governos imperialistas de seus países.

Não menos perigosa para a causa do proletariado era a posição dos social-chovinistas encobertos, dos chamados centristas. Os centristas — Kautski, Trotsky, Martov e outros — defendiam e justificavam os social-chovinistas declarados e, portanto, traíam em ligação com estes, o proletariado, encobrindo sua traição com frases "esquerdistas", a respeito da luta contra a guerra, frases destinadas a enganar a classe operária. De fato, os centristas apoiavam a guerra, pois não equivalia a outra coisa sua proposta de não votarem contra os créditos de guerra, limitando-se a se absterem desta votação. Também eles, tanto quanto os social-chauvinistas, exigiam que se renunciasse à luta de classes enquanto durasse a guerra, para não impedir seus governos imperialistas de prosseguirem a guerra. Em face dos problemas mais importantes da guerra e do socialismo, o czarista Trotsky se manifestava sempre contra Lenin, contra o Partido bolchevique.

Desde os primeiros dias da guerra, Lenin começou a agrupar forças para criar uma nova Internacional, a Terceira Internacional. A tarefa de fundar a Terceira Internacional para substituir a Segunda que havia fracassado tão vergonhosamente, aparece já no manifesto lançado contra a guerra, em novembro de 1914, pelo Comitê Central do Partido bolchevique.

Em fevereiro de 1915, celebrou-se em Londres uma conferência de socialistas dos países da Entente, na qual interveio, por diretiva de Lenin, o camarada Litivinov. Este exigiu que os socialistas (Vandervelde, Sembat, Guesde) saíssem de seus governos burgueses da Bélgica e da França e rompessem totalmente com os imperialistas, abandonando a colaboração com eles. E exigiu que os socialistas mantivessem uma luta decidida contra seus próprios governos imperialistas e condenassem quantos votassem a favor dos créditos de guerra. Mas a voz de Litivinov não encontrou o menor eco nesta conferência.

Em começo de setembro de 1915, se reuniu em Zimmerwald a primeira Conferência dos internacionalistas. Lenin dizia que esta Conferência tinha sido o "primeiro passo" no desenvolvimento do movimento internacional contra a guerra. Lenin formou nela o grupo de esquerda de Zimmerwald. Mas o único que, dentro da esquerda zimmerwaldiana, manteve uma posição acertada e conseqüente do princípio ao fim contra a guerra foi o Partido bolchevique, com Lenin à frente. A esquerda zimmerwaldiana editava em alemão um periódico intitulado "Vorbote" ("O Precursor"), onde se publicaram vários artigos de Lenin.

Em 1916, conseguiu-se reunir na pequena vila suíça de Kienthal a Segunda Conferência Internacionalista, que se conhece com o nome de Segunda Conferência zimmerwaldiana. Naquela ocasião, iam-se definindo grupos de internacionalistas em quase todos os países e se destacava já com traços acentuados a cisão entre os elementos internacionalistas e os social-chovinistas. E sobretudo, as próprias massas, sob a influência da guerra e das calamidades provocadas por ela, iam-se orientando para a esquerda. O manifesto de Kienthal foi o fruto de uma resolução entre os diversos grupos que se debateram na Conferência. Representava, em comparação com o manifesto de Zimmerwald, um passo à frente.

Mas também a Conferência de Kienthal não adotou as teses fundamentais da política bolchevique: transformação da guerra imperialista em guerra civil, derrota, na guerra, do governo imperialista do Próprio país e organização da Terceira Internacional. Não obstante, a Conferência de Kienthal tornou possível o afastamento dos elementos internacionalistas, que mais tarde haviam de formar a Terceira Internacional, a Internacional Comunista.

Lenin criticava os erros dos internacionalistas pouco conseqüentes dentro das fileiras dos social-democratas de esquerda, tais como Rosa Luxemburgo e Carlos Liebknecht, ao mesmo tempo que os ajudava a adotar uma posição acertada.





3



Teoria e tática do Partido bolchevique sobre os problemas da guerra, da paz e da Revolução.



Os bolcheviques não eram simples pacifistas, enamorados da paz e que se contentassem em pregar a paz a todo o transe, como a maioria dos social-democratas de esquerda. Os bolcheviques eram partidários da luta revolucionária ativa pela paz, até chegarem à derrubada do Poder da burguesia imperialista causadora das guerras. Os bolcheviques vinculavam a causa da paz à causa do triunfo da revolução proletária, pois entendiam que o meio mais seguro para acabar com a guerra e conquistar uma paz justa, uma paz sem anexações nem indenizações, era a derrubada do Poder da burguesia imperialista.

Em face dos mencheviques e dos social-revolucionários, que renegavam a revolução, e em face da palavra de ordem traidora da manutenção da "paz interior", enquanto durasse a guerra, os bolcheviques lançaram a palavra de ordem de "transformação da guerra imperialista em guerra civil". Esta palavra de ordem significava que os trabalhadores, incluindo entre eles os operários e os camponeses armados, vestidos com o uniforme militar, deviam voltar as armas contra sua burguesia e derrubar o Poder desta, se queriam livrar-se da guerra e conseguir uma paz justa.

Em face da política dos mencheviques e dos social-revolucionários, política de defesa da pátria burguesa, os bolcheviques defendiam a política de "derrota do próprio governo, na guerra imperialista". Isto significava que era necessário votar contra os créditos de guerra, criar organizações revolucionárias clandestinas dentro do Exército, apoiar os atos de confraternização dos soldados nas frentes e organizar ações revolucionárias dos operários e camponeses contra a guerra, convertendô-as numa insurreição contra o governo imperialista de seu próprio país.

Os bolcheviques entendiam que o mal menor que a guerra imperialista poderia acarretar ao povo seria a derrota militar do governo czarista, pois esta derrota facilitaria o triunfo do povo sobre o czarismo e a luta vitoriosa da classe operária para emancipar-se da escravidão capitalista e das guerras imperialistas. Ao sustentar isto, Lenin entendia que esta política de derrota do próprio governo imperialista devia ser seguida não só pelos revolucionários russos, como também pelos partidos revolucionários da classe operária em todos os países beligerantes.

Os bolcheviques não eram contrários a toda guerra. Eram contrários somente à guerra de anexações, à guerra imperialista. Os bolcheviques entendiam que há duas classes de guerra:

1. as guerras justas, sem anexações, de libertação, que têm como finalidade defender o povo contra uma agressão exterior e contra quantos tentem escravizá-lo, ou libertar o povo da escravidão do capitalismo, ou, finalmente, emancipar as colônias e os países dependentes do jugo dos imperialistas; e

2. as guerras injustas, de anexações, que têm como finalidade a anexação e a escravização de países e povos estrangeiros.

Os bolcheviques apoiavam a primeira classe de guerras. Em troca propugnavam por manter uma luta decidida contra as guerras da segunda classe, chegando até a revolução e à derrubada do governo imperialista do próprio país.

Os trabalhos teóricos de Lenin durante a guerra tiveram uma importância enorme para a classe operária do mundo inteiro. Na primavera de 1916, Lenin escreveu sua obra intitulada "O imperialismo, etapa culminante do capitalismo". Neste livro Lenin esclarece que o imperialismo é a etapa culminante do capitalismo, a etapa em que este se converte em capitalismo "progressivo" em capitalismo parasitário, em decomposição; que o imperialismo é o capitalismo agonizante. Isto não quer dizer, naturalmente, que o capitalismo vá morrer por si só, sem a revolução proletária, que vá apodrecer pela raiz. Lenin ensinou sempre que não é possível derrubar o capitalismo sem a revolução da classe operária. Por isso, se bem que definindo o imperialismo como o capitalismo agonizante, Lenin aponta ao mesmo tempo, nesta obra, que "o imperialismo é o limiar da revolução social do proletariado".

Lenin ressaltava que na época do imperialismo, o jugo capitalista se faz cada vez mais duro, que sob as condições do imperialismo cresce a indignação do proletariado contra os fundamentos do capitalismo e vão amadurecendo, dentro dos países capitalistas, os elementos para uma explosão revolucionária.

Lenin ressaltava que na época do imperialismo acentua-se a crise revolucionária nos países coloniais e dependentes e vão crescendo os elementos de indignação e os elementos para a luta de libertação contra o imperialismo.

Lenin ressaltava que, sob as condições do imperialismo, se acentuam especialmente o desenvolvimento desigual e as contradições do capitalismo, e que a luta pelos mercados para dar saída às mercadorias e exportar os capitais, a luta pelas colônias e pelas fontes de matérias-primas faz com que se produzam, inevitável e periodicamente, guerras imperialistas por uma nova partilha do mundo.

Lenin ressaltava que, precisamente como conseqüência deste desenvolvimento desigual do capitalismo, surgem as guerras imperialistas, que debilitam as forças do imperialismo e tornam possível a ruptura da frente do imperialismo por seu ponto mais fraco.

E, partindo de todas estas premissas, chegava à conclusão de que era perfeitamente possível ao proletariado romper a frente imperialista por um ponto qualquer ou por vários; de que era possível o triunfo do socialismo, começando por alguns países e, inclusive, por um só isoladamente; de que o triunfo simultâneo do socialismo em todos os países era impossível, dada a desigualdade do desenvolvimento do capitalismo neles; de que o socialismo começaria triunfando somente em um ou em vários países e que os demais continuariam sendo algum tempo países burgueses.

Eis como Lenin formulava esta conclusão genial, em dois artigos diferentes, escritos durante a guerra imperialista.

1. "A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo. Donde se deduz que é possível que o socialismo comece triunfando somente em alguns países capitalistas, ou, inclusive, num só país isoladamente. O proletariado triunfante deste país, depois de expropriar os capitalistas e de organizar a produção socialista dentro de suas fronteiras, se enfrentará contra o resto do mundo, contra o mundo capitalista, atraindo para seu lado as classes oprimidas dos demais países"... (Do artigo intitulado "Sobre a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa", escrito em agosto de 1915, Lenin, t. XVIII, págs. 232-233, ed. russa).

2. "O desenvolvimento do capitalismo segue um curso extraordinariamente desigual nos diversos países. Isto é uma conseqüência inevitável do regime de produção de mercadorias. Donde a conclusão imutável de que o socialismo não pode triunfar simultaneamente em todos os países. Começará triunfando em um ou em vários países, e os demais continuarão sendo, durante algum tempo países burgueses ou pré-burgueses. Isto provocará, necessariamente, não só atritos, como também a tendência aberta da burguesia dos demais países a esmagar o proletariado triunfante do Estado socialista. Em tais condições, a guerra seria, de nossa parte, uma guerra legítima e justa. Seria uma guerra pelo socialismo, para libertar da burguesia os outros povos". (Do artigo intitulado "O programa de guerra da revolução proletária", escrito no outono de 1916. Lenin, t. XIX, pág. 325, ed. russa).

Esta teoria era uma nova e acabada teoria da revolução socialista, a teoria da possibilidade do triunfo do socialismo em países isolados, das condições deste triunfo e de suas perspectivas, teoria cujas bases tinham sido esboçadas por Lenin já em 1905, em seu folheto "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática".

Esta teoria afastava de um modo radical aquele ponto de vista em voga entre os marxistas no período do capitalismo pré-imperialista que consiste em considerar impossível o triunfo do socialismo em um só país, qualquer que fosse, admitindo que o socialismo triunfaria ao mesmo tempo em todos os países civilizados.

Lenin, baseando-se nos dados sobre o capitalismo imperialista exposto em seu notável livro "O imperialismo, etapa culminante do capitalismo", abandonou este ponto de vista teórico, segundo o qual o triunfo simultâneo do socialismo em todos os países era impossível, sendo, por outro lado, possível o seu triunfo num só país capitalista isoladamente.

A importância incalculável da teoria de Lenin sobre a revolução socialista não está somente em ter enriquecido e desenvolvido o marxismo com uma nova teoria. Sua importância consiste, além do mais, em dar uma perspectiva revolucionária aos proletários dos diferentes países, em desenvolver sua iniciativa para se lançarem ao assalto contra sua própria burguesia, em lhes ensinar o aproveitamento da situação de guerra para organizarem esta ofensiva e em fortalecer sua fé no triunfo da revolução proletária.

Tal era a posição teórica e tática dos bolcheviques quanto aos problemas da guerra, da paz e da revolução.

Tomando como base esta posição, os bolcheviques desenvolveram o seu trabalho prático na Rússia.

Apesar das furiosas perseguições policiais, os deputados bolcheviques da Duma, Badaiev, Petrovski, Muranov, Samoilov e Shagov percorreram, no começo da guerra, uma série de organizações operárias, dando informes da atitude dos bolcheviques em face da guerra e da revolução. Em novembro de 1914, a fração bolchevique da Duma organizou uma conferência para considerar.o problema da atitude que se devia seguir em face da guerra. No terceiro dia foi presa a Conferência em plena reunião. Os Tribunais condenaram todos os deputados bolcheviques, impondo-lhes a pena de inabilitação e deportando-os para a Sibéria Oriental. O governo czarista acusou de "alta traição" os deputados bolcheviques da Duma.

Neste processo, desenvolveu-se um quadro das atividades dos deputados bolcheviques que podia encher de orgulho o Partido. Os deputados bolcheviques se comportaram valentemente perante seus juízes, convertendo o julgamento em uma tribuna de onde desmascararam a política de anexações do regime czarista.

Outro foi o comportamento de Kamenev, arrolado no mesmo processo. Arrastado por sua covardia, quando se viu em perigo renegou a política do Partido bolchevique, declarando perante o Tribunal que estava em desacordo com os bolcheviques no problema da guerra e dando como testemunha em apoio de suas afirmações o menchevique Iordanski.

Os bolcheviques realizaram um grande trabalho contra os Comitês da indústria de guerra, postos a serviço desta, e contra as tentativas dos mencheviques de submeterem os operários à influência da burguesia imperialista. A burguesia estava vitalmente interessada em apresentar perante a opinião geral a guerra imperialista como uma guerra de todo o povo. Durante a guerra a burguesia conseguiu adquirir uma grande influência nos negócios do Estado, criando, com as uniões do Zemstvos e dos conselhos urbanos, uma organização própria, extensiva a toda a Rússia. Precisava também de submeter os operários à sua direção e influência. Para isso lançou mão do recurso de criar "grupos operários" anexos aos Comitês da indústria de guerra. Os mencheviques fizeram sua, esta idéia da burguesia. A esta convinha incorporar aos ditos Comitês representantes dos operários, para que se encarregassem de fazer entre as massas operárias o trabalho nas fábricas de obuses, canhões, fuzis, cartuchos e demais indústrias que trabalhavam para a guerra.

"Tudo e todos para a guerra!", tal era a palavra de ordem da burguesia. Na realidade esta palavra de ordem significava então: "Enriqueçamos à larga com os fornecimentos de guerra e com a anexação de territórios estrangeiros!" Os mencheviques participaram ativamente nesta obra pseudopatriótica empreendida pela burguesia. Ajudavam os capitalistas, fazendo um intenso trabalho de agitação entre os operários, para que estes tomassem parte nas eleições dos "grupos operários" adstritos aos Comitês da indústria de guerra. Os bolcheviques se manifestaram contra esta fraude. Preconizaram o boicote dos Comitês da indústria de guerra e mantiveram eficazmente este boicote. Não obstante, uma parte dos operários participou nas atividades daqueles Comitês, sob a direção do conhecido menchevique Gvosdiev e do provocador Abrosimov.

Quando os delegados dos operários se reuniram em setembro de 1915 para proceder à eleição definitiva dos "grupos operários" dos citados Comitês, a maioria dos delegados votou contra eles e formulou uma enérgica resolução contrária à participação nos Comitês da indústria de guerra, declarando que a tarefa que os operários tinham esboçado era a de lutar pela paz e pela derrubada do czarismo.

Os bolcheviques desenvolveram também um grande trabalho dentro do Exército e da Marinha. Explicavam às massas de soldados e marinheiros quem eram os culpados dos inauditos horrores da guerra e dos sofrimentos do povo, e lhes faziam ver que o único caminho que o povo tinha para sair da carnificina imperialista era a revolução. Criavam células bolcheviques dentro do Exército e da Marinha, nas unidades da frente e na retaguarda e distribuíam proclamações com apelos contra a guerra.

Os bolcheviques fundaram o "Grupo central da organização militar de Kronstadt" que se achava em estreito contato com o Comitê de Petrogrado do Partido. Adstrita ao Comitê de Petrogrado, criou-se uma organização militar para o trabalho entre a guarnição. Em agosto de 1910, o chefe da polícia secreta de Petrogrado informava que o "Grupo Central de Kronstadt é uma organização muito séria, de caráter conspirativo, cujos membros são todos pessoas caladas e precavidas. Esta organização tem também representantes em terra".

Na frente, o Partido bolchevique fazia trabalho de agitação em prol da confraternização entre os soldados dos exércitos beligerantes, ressaltando que o inimigo era a burguesia mundial e que só se poderia pôr fim à guerra, convertendo a guerra imperialista em guerra civil e voltando as armas cada qual contra a sua própria burguesia e o governo desta. Cada vez se amiudavam mais os casos de unidades que se negavam a atacar. Casos destes se deram já em 1915 e, sobretudo, em 1916.

Onde os bolcheviques desenvolviam um trabalho mais intenso era nos Exércitos da frente do Norte, na região do Báltico. Em começos do ano de 1917, o general Russki, general em chefe dos Exércitos da frente Norte, informava o Alto Comando a respeito do formidável trabalho revolucionário, desenvolvido pelos bolcheviques naquela frente.

A guerra impôs uma mudança radical e gigantesca na vida dos povos e na vida da classe operária internacional. Punha sobre o tapete a sorte dos Estados, a sorte dos povos, a sorte do movimento socialista. Era também, portanto, uma pedra de toque, uma prova para todos os partidos e tendências que se chamavam socialistas. Permaneceriam estes partidos e tendências fiéis à causa do socialismo, à causa do internacionalismo, ou prefeririam atraiçoar a classe operária, atirar no chão sua bandeira e arrastá-los aos pés de sua própria burguesia nacional? Tal era o problema que se apresentava.

A guerra demonstrou que os partidos da Segunda Internacional não resistiram à prova, mas que traíram a classe operária, arriando sua bandeira diante da burguesia de seu próprio país, diante da burguesia nacional, imperialista.

Não podia ser outra a conduta de partidos como aqueles que cultivavam em seu seio o oportunismo e estavam educados na política de concessões aos oportunistas, aos nacionalistas.

A guerra demonstrou que o Partido bolchevique foi o único partido que soube enfrentar com honra a prova e que permaneceu fiel até o fim à causa do internacionalismo proletário.

E era lógico que fosse assim, pois só um partido de novo tipo, só um partido educado no espírito da luta intransigente contra o oportunismo, só um partido assim podia sair vitorioso daquela grande prova e permanecer fiel à causa da classe operária, à causa do socialismo e do internacionalismo.




4



As tropas czaristas são derrotadas na frente.

O desastre econômico. A crise do czarismo.



A guerra havia entrado já no terceiro ano. Devorava milhões de vidas humanas, deixando uma esteira de mortos, de feridos, de seres que pereciam em virtude das epidemias produzidas pela guerra. A burguesia e os latifundiários se enriqueciam com ela, enquanto que os operários e camponeses sofriam cada vez mais miséria e mais privações. A guerra destruía a Economia nacional da Rússia. Cerca de 14 milhões de trabalhadores fortes e sãos tinham sido arrebatados à produção pelo Exército. Paravam fábricas e oficinas. A colheita dos campos de cereais decrescia, por falta de braços. A população e os soldados na frente passavam fome e andavam nus e descalços. A guerra havia devorado todos os recursos do país.

O Exército czarista sofria derrota após derrota. A artilharia alemã descarregava sobre as tropas czaristas verdadeiras saraivadas de projéteis, enquanto no Exército czarista escasseavam os canhões, munições e até os fuzis. Às vezes, havia um fuzil para cada 3 soldados. Já em plena guerra, se descobriu a traição do ministro da Guerra czarista, Sukhomlinov, que se verificou estar em relações com os espiões alemães. O próprio ministro da Guerra se encarregava de executar as instruções da espionagem alemã: deixar a frente desabastecida de munições, não enviar para a frente nem canhões nem fuzis. Alguns ministros e generais czaristas contribuíam com disfarce para os êxitos do Exército alemão; em ligação com a czarina, que estava ligada com os alemães, delatavam a estes os segredos militares. Não tem, pois, nada de estranho que, nestas condições, o Exército czarista fosse derrotado obrigado a bater em retirada. Lá para o ano de 1916, os alemães conseguiram apoderar-se da Polônia e de uma parte da região do Báltico.

Tudo isso despertava o ódio e a cólera contra o governo czarista por parte dos operários, dos camponeses, dos soldados e dos intelectuais, e acentuava e robustecia o movimento revolucionário das massas populares contra a guerra e contra o czarismo, tanto na retaguarda como na frente, tanto no centro como na periferia.

O descontentamento começou também a tomar conta da burguesia imperialista russa. Esta se sentia indignada diante do fato de se tornarem senhores da Corte malandros da marca de Rasputin, que trabalhavam claramente em prol de uma paz separada com os alemães, se convencendo cada vez mais de que o governo czarista era incapaz de fazer uma guerra vitoriosa. Temia que o czarismo, para salvar a situação, recorresse a uma paz separada com a Alemanha. Em vista disso, a burguesia russa decidiu organizar um "complot" palaciano para derrubar o czar Nicolau II, pondo no trono o grão-duque Miguel Romanov, que se achava ligado com a burguesia. Pretendia com isto matar dois pássaros com um só tiro; em primeiro lugar, escalar o poder e assegurar o prosseguimento da guerra imperialista, e em segundo lugar, atalhar com um pequeno "complot" palaciano o avanço da grande revolução popular, cada vez mais ameaçador.

A burguesia russa contava para esta empresa com o apoio incondicional dos governos inglês e francês. Estes governos viam que o czar era incapaz de prosseguir a guerra e temiam que terminasse por assinar uma paz separada com os alemães. Se o governo czarista fizesse uma paz separada, os governos da Inglaterra e da França perderiam com a Riissia, um aliado que, além de entreter em sua frente as forças do inimigo, punha à disposição da França dezenas de milhares de soldados russos escolhidos. Eis por que apoiavam a burguesia russa en suas intenções de levar a cabo o "complot" palaciano.

O czar achava-se, portanto, isolado.

Ao mesmo tempo que se multiplicavam os reveses na frente, o desastre da Economia ia se acentuando cada vez mais. Nos meses de janeiro e fevereiro de 1917, a catástrofe do abastecimento das matérias-primas e dos combustíveis chegou ao seu ponto culminante. O aprovisionamento de Petrogrado e de Moscou cessou quase em absoluto. Começaram a fechar fábricas após fábricas. O fechamento de fábricas veio acentuar o desemprego forçado. A situação se tornava verdadeiramente insuportável para os operários.

Massas cada vez mais extensas do povo iam-se convencendo de que só havia um caminho para sair daquela situação insustentável: a derrubada da autocracia czarista.

O czarismo estava atravessando claramente uma crise mortal.

A burguesia julgava poder resolver a crise por meio de um "complot" palaciano.

Mas foi o povo que a resolveu à sua maneira.






5



A revolução de fevereiro.

Queda do czarismo.

Constituição dos Soviets de deputados operários e soldados.

Formação do governo provisório. A dualidade de poderes.



O ano de 1917 começou com a greve de 9 de janeiro. Durante esta greve, celebraram-se manifestações em Petrogrado, Moscou, Bakú e Nijni-Novgorod; a 9 de janeiro abandonaram o trabalho da terça parte dos operários de Moscou. Uma manifestação de 2 mil pessoas foi dissolvida violentamente pela polícia montada na Avenida Tverskaia. Em Petrogrado, os soldados se juntaram aos manifestantes, na calçada de Viborg.

"A idéia da greve geral — informava a polícia de Petrogrado — vai ganhando novos adeptos dia a dia e adquirindo a mesma popularidade que em 1905".

Os mencheviques e os social-revolucionários se esforçavam por enquadrar o movimento revolucionário incipiente dentro do limite conveniente à burguesia liberal. Os mencheviques propuseram que a 14 de fevereiro, dia da abertura da Duma, se organizasse um desfile de operários diante desta. Mas as massas operárias, marchando atrás dos bolcheviques, não desfilaram em frente à Duma, mas em manifestação pelas ruas.

A 18 de fevereiro de 1917 estalou, em Petrogrado, a greve dos operários da fábrica de "Putilov". A 22 de fevereiro entraram em greve os operários da maioria das grandes fábricas. A 23 de fevereiro (8 de março), Dia Internacional da Mulher, as operárias, atendendo ao apelo do Comitê bolchevique de Petrogrado, saíram à rua em manifestação contra a fome, a guerra e o czarismo. Em Petrogrado, esta manifestação das operárias foi apoiada com uma ação grevista geral dos operários. A greve política principiava a converter-se em uma manifestação política geral contra o regime czarista.

A 24 de fevereiro (9 de março), a manifestação se renovou com outras forças. A greve atingia já cerca de 200 mil operários.

A 25 de fevereiro (10 de março), o movimento revolucionário se estendeu a todo o Petrogrado operário. As greves políticas por distritos converteram-se em uma greve política geral em toda a cidade. Por toda a parte surgiram manifestações e choques com a polícia. Sobre as massas operárias se agitavam cartazes vermelhos com estas palavras de ordem: "Abaixo o czar!", "Abaixo a guerra!", "Pão".

Na manhã de 26 de fevereiro (11 de março), a greve política e a manifestação começaram a converter-se em tentativas de insurreição.

Os operários desarmavam a polícia e os gendarmes para se armarem. Mas o choque armado com a polícia terminou com uma chacina de manifestantes na Praça Snamenskaia.

O general Khabalov, chefe da região militar de Petrogrado, ordenou que os operários se reintegrassem no trabalho a 28 de fevereiro (13 de março), ameaçando enviar para a frente os que não acatassem esta ordem. A 25 de fevereiro (10 de março), o czar mandou ao general Khabalov esta ordem imperativa:

"Exijo que amanhã se ponha fim às desordens na capital".

Mas já não era possível "pôr fim" à revolução.

A 25 de fevereiro (11 de março), a 4ª. Companhia do Batalhão de Reserva do Regimento de Pavlovsk rompeu fogo, mas não contra os operários e sim contra os destacamentos de guardas montadas que tinham começado a disparar contra os operários.

A luta para ganhar a tropa se revestia do caráter mais enérgico e tenaz, sobretudo, por parte das mulheres operárias, que se misturavam entre os soldados, confraternizavam com eles e os incitavam a ajudar o povo a derrubar a autocracia czarista tão odiada por ele.

A direção do trabalho prático do Partido bolchevique corria, por aquela época, por conta do Bureau do Comitê Central do Partido, residente em Petrogrado, e à frente do qual se encontrava o camarada Malotov. A 26 de fevereiro (11 de março), o Bureau do C. C. lançou um manifesto conclamando as massas a prosseguirem na luta contra o czarismo e a constituírem um governo provisório revolucionário.

A 27 de fevereiro (12 de março), as tropas de Petrogrado se negaram a disparar contra os operários e começaram a passar para o lado do povo que se levantara em armas. Na manhã de 27 de fevereiro, os soldados sublevados não passavam de 10 mil; naquele mesmo dia, pela noite, já subiam a 60 mil.

Os operários e soldados sublevados começaram a deter os ministros e generais czaristas e a tirar os revolucionários das cadeias. Os presos políticos, postos em liberdade, se juntavam à luta revolucionária.

Nas ruas havia ainda tiroteio entre o povo e os guardas e gendarmes que tinham colocado suas metralhadoras nos telhados das casas. Mas a rápida passagem da tropa para o lado dos operários decidiu da sorte da autocracia czarista.

Quando a notícia do triunfo da revolução em Petrogrado chegou a outras cidades e à frente, os operários e os soldados começaram a derrubar por toda a parte os representantes da autoridade czarista.

A revolução democrático-burguesa de fevereiro triunfara.

A revolução triunfou porque à frente dela se pôs a classe operária, acaudilhando o movimento de massas de milhões de camponeses fardados "pela paz, pelo pão e pela liberdade". A hegemonia do proletariado foi que assegurou o triunfo da revolução.

"A revolução foi obra do proletariado, que deu provas de heroísmo, derramou o seu sangue e arrastou com ele as mais amplas massa dos trabalhadores e da população mais pobre..." escrevia Lenin, nos primeiros dias da revolução (, t. XX, págs. 23-24, ed. russa).

A primeira revolução, a revolução de 1905, havia preparado o terreno para o rápido triunfo da segunda revolução, da revolução de 1917.

"Sem os três anos de formidáveis combates de classe e de energia revolucionária desenvolvida pelo proletariado russo de 1905 a 1907, teria sido impossível uma segunda revolução tão rápida, que cobriu sua etapa inicial em alguns dias", assinalava Lenin (Obra citada, pág. 13)

Nos primeiros dias da revolução, aparecem já os Soviets. A revolução triunfante se apoiava nos Soviets de deputados operários e soldados. Os operários e soldados sublevados criaram seus respectivos Soviets. A revolução de 1905 tinha revelado que os Soviets são os órgãos da insurreição armada e, ao mesmo tempo o gérmen do novo Poder, do Poder revolucionário. A ideia dos Soviets vivia na consciência das massas operárias que a puseram em prática no dia seguinte à derrubada do czarismo, embora com a diferença de que, enquanto os Soviets criados em 1905 eram somente Soviets de deputados operários, os que se criaram em fevereiro de 1917 eram por iniciativa dos bolcheviques, Soviets de deputados operários e soldados.

Enquanto os bolcheviques se punham à frente da luta direta das massas nas ruas, os partidos oportunistas, mencheviques e social-revolucionários, preocupavam-se em obter postos de deputados nos Soviets, alcançando neles uma maioria própria. Para este resultado contribuiu, em parte, o fato de que a maioria dos dirigentes do Partido bolchevique se achavam no cárcere ou deportados (Lenin se encontrava na emigração, e Stalin e Sverdlov estavam deportados na Sibéria), enquanto os mencheviques e social-revolucionários passeavam livremente pelas ruas de Petrogrado. Assim se explicava que os representantes dos partidos oportunistas, os mencheviques e os social-revolucionários, se apoderassem da direção no Soviet de Petrogrado e em seu Comitê Executivo. E outro tanto aconteceu em Moscou e em outra série de cidades. Somente em Ivanovo-Vosnessensk, Krasnoiarsk e alguns outros pontos lograram os bolcheviques ter a maioria nos Soviets desde o primeiro momento.

O povo armado, os operários e soldados, ao enviar seus representantes ao Soviet, viam nele o órgáo do Poder popular. Entendiam e acreditavam que o Soviet de deputados operários e soldados daria satisfação a todos os desejos do povo revolucionário e que o seu primeiro ato seria fazer a paz.

Mas o excesso de confiança dos operários e soldados lhes pregou uma peça. Os social-revolucionários e mencheviques não pensavam nem remotamente em pôr fim à guerra, em conquistar a paz. Seu propósito era se aproveitarem da revolução para prosseguir a guerra. Quanto à revolução e às reivindicações revolucionárias do povo, os social-revolucionários e os mencheviques entendiam que a revolução já estava terminada e que o problemas que então se apresentava era consolidá-la e entrar na trilha da vida "normal", da vida constitucional, pelo braço da burguesia. Assim, a direção social-revolucionária-menchevique do Soviet de Petrogrado tomou todas as medidas que estavam em suas mãos para sufocar o problema da terminação da guerra, o problema da paz, e entregar o poder à burguesia.

A 27 de fevereiro (12 de março) de 1917, os deputados liberais da Duma, combinados nos bastidores com os líderes social-revolucionários e mencheviques, formaram o Comitê Provisório da Duma, pondo à frente dele o presidente da Quarta Duma, o latifundiário monárquico Rodzianko. Alguns dias depois o Comitê Provisório da Duma e os líderes social-revolucionários e mencheviques do Comitê Executivo do Soviet de Deputados operários e soldados, à revelia dos bolcheviques, se puseram de acordo sobre a formação de um governo na Rússia: o governo provisório burguês, presidido pelo príncipe Lvov a quem o czar Nicolau II, já antes da revolução de fevereiro, tinha na pasta como primeiro-ministro para seu gabinete. Entraram a fazer parte do governo provisório o chefe dos kadetes, Miliukov, o chefe dos outubristas, Guckkov, e outros destacados representantes da classe capitalista; na qualidade de representante da "democracia", foi incorporado ao governo o social-revolucionário Kerenski.

Deste modo, os líderes social-revolucionários e mencheviques do Comitê Executivo do Soviet entregaram o Poder à burguesia; informado disso depois de produzir-se o fato, o Soviet de deputados operários e soldados referendou por maioria de votos a conduta daqueles líderes, apesar dos protestos dos bolcheviques.

E assim se formou na Rússia um novo poder estatal, composto — como dizia Lenin — por representantes da "burguesia e dos latifundiários aburguesados".

Mas, ao lado do governo burguês, existia outro Poder: o Soviet de deputados operários e soldados. Os deputados soldados do Soviet eram, fundamentalmente, camponeses mobilizados para a guerra. O Soviet de deputados operários e soldados era o órgão da aliança dos operários e camponeses contra o poder czarista e, ao mesmo tempo, o órgão de seu Poder, o órgão da ditadura da classe operária e dos camponeses.

Estabeleceu-se, pois, um original entrelaçamento entre dois poderes, entre duas ditaduras: a ditadura da burguesia, encarnada no governo provisório, e a ditadura do proletariado e dos camponeses, representada pelo Soviet de deputados operários e soldados.

Estabeleceu-se uma dualidade de poderes.

Como se explica que nos Soviets tivessem maioria, a princípio, os mencheviques e os social-revolucionários?

Como se explica que os operários e os camponeses triunfantes entregassem voluntariamente o Poder aos representantes da burguesia?

Lenin explicava isto pelos milhões de homens sem experiência Política que tinham despertado com ânsias de participar na vida política. Eram, em grande parte, pequenos proprietários, camponeses, operários que até há pouco trabalhavam no campo, pessoas que ocupavam um lugar intermediário entre a burguesia e o proletariado.

A Rússia era, naquela época, o mais pequeno-burguês de todos os grandes países europeus. Neste país,

"a gigantesca-onda pequeno-burguesa inundava tudo, afogava o proletariado consciente, não só por seu volume, senão também ideologicamente, isto é, contagiava setores vastíssimos de operários com suas idéias políticas pequeno-burguesas", (Lenin, t. XX, pág. 115, ed. russa).

Esta onda de elementos pequeno-burgueses foi também a que trouxe à tona os partidos pequeno-burgueses e social-revolucionários.

Outra causa que Lenin assinalava era a mudança operada durante a guerra quanto aos elementos que compunham o proletariado, e o insuficiente nível de consciência e de organização do proletariado nos primeiros momentos da revolução. Durante a guerra tinham-se operado mudanças consideráveis na composição do proletariado. Cerca de 40% dos quadros operários tinham sido mobilizados militarmente. Com o fito de se subtraírem à mobilização, meteram-se nas fábricas, nos anos de guerra, muitos pequenos proprietários, artesãos e pequenos comerciantes, alheios à psicologia proletária.

Estes setores operários de tipo pequeno-burguês eram um terreno adequado para o cultivo dos políticos pequeno-burgueses, mencheviques e social-revolucionários.

Eis por que as grandes massas do povo, inexperientes em política, inundadas pela onda dos elementos pequeno-burgueses e embriagados pelos primeiros êxitos da revolução, marcharam durante os primeiros meses desta à retaguarda dos partidos oportunistas e se prestaram a ceder à burguesia o Poder estatal acreditando ingenuamente que o poder burguês não estorvaria o trabalho dos Soviets.

Isto obrigava o Partido bolchevique a fazer ver às massas, por meio de um paciente trabalho de esclarecimento, o caráter imperialista do governo provisório, a mostrar a traição dos social-revolucionários e mencheviques, fazendo compreender às massas que não era possível conseguir a paz sem substituir o governo provisório pelo governo dos Soviets.

E o Partido bolchevique tomou em suas mãos esta empresa com toda a energia.

O Partido restabeleceu a publicação de seus órgãos de Imprensa legais. Cinco dias depois da Revolução de Fevereiro, já se começou a publicar em Petrogrado a "Pravda" e, alguns dias mais tarde, apareceu em Moscou "o Social-democrata". Começou a atuar à frente das massas que iam perdendo a confiança na burguesia liberal, nos mencheviques e social-revolucionários. Explicou pacientemente aos soldados e aos camponeses a necessidade de atuarem conjuntamente com a classe operária. Fez ver aos camponeses que não obteriam a paz nem a terra, se a revolução não continuasse a avançar, se o governo provisório da burguesia não fosse substituído pelo governo dos Soviets.

Resumo

A guerra imperialista estalou devido à desigualdade de desenvolvimento dos países capitalistas, devido à ruptura do equilíbrio entre as principais potências, devido à necessidade em que se viam os imperialistas de procederem a uma nova partilha do mundo por meio da guerra e de criarem um novo equilíbrio de forças.

A guerra não teria adquirido um caráter tão desastroso, e até é provável que não tivesse chegado a tomar tais proporções, se os Partidos da Segunda Internacional não tivessem traído a causa da classe operária, se não tivessem infringido as resoluções dos congressos da Segunda Internacional contra a guerra, se se tivessem decidido a proceder ativamente e a levantar a classe operária contra os seus próprios governos imperialistas, contra os incendiários da guerra.

O Partido bolchevique foi o único partido proletário que se manteve fiel à causa do socialismo e do internacionalismo, organizando a guerra civil contra seu próprio governo imperialista. Todos os demais partidos da Segunda Internacional, vinculados à burguesia por meio de seu grupo dirigente, estavam afinal de contas entregues de pés e mãos ao imperialismo, desertaram para o campo dos imperialistas.

A guerra, reflexo da crise geral do capitalismo, acentuou esta crise e debilitou o capitalismo mundial. Os operários da Rússia e o Partido bolchevique foram os primeiros do mundo que souberam aproveitar eficazmente a debilidade do capitalismo para romper a frente imperialista, derrubar o czar e criar os Soviets de deputados de operários e soldados.

As grandes massas da pequena burguesia, dos soldados e, inclusive, dos operários, embriagados pelos primeiros êxitos da revolução e confiadas nas garantias que lhes davam os mencheviques e social-revolucionários de que para diante tudo andaria bem, deixaram-se levar pela confiança no governo provisório e o apoiaram.

Ante o Partido bolchevique se apresentava a tarefa de explicar às massas de operários e soldados, embriagados pelos primeiros êxitos, que ainda havia um longo trecho a percorrer até o triunfo total da revolução, que enquanto o Poder se achasse em mãos do governo provisório da burguesia e os oportunistas, os mencheviques e social-revolucionários mandassem nos Soviets, o povo não obteria a paz, nem a terra, nem o pão, que, a fim da vitória ser completa, era necessário dar um passo à frente e entregar o Poder aos Soviets.







Capítulo VII



O Partido Bolchevique Durante o Período de Preparação e Realização

da Revolução Socialista de Outubro

( Abril de 1917 – 1918 )





1



Situação do país depois da Revolução de Fevereiro.

O Partido sai da clandestinidade e passa ao trabalho político aberto.

Chegada de Lenin a Petrogrado.

Suas teses de abril.

O Partido se orienta para a Revolução Socialista.



Os acontecimentos e a conduta do governo provisório confirmavam dia a dia a justeza da linha bolchevique. Todos os fatos indicavam que o governo provisório não estava com o povo, mas contra ele, não defendia a paz, mas a guerra, não queria nem podia dar ao país a paz, a terra ou o pão. O trabalho de esclarecimento dos bolcheviques encontrava um terreno favorável.

Enquanto os operários e os soldados derrubavam o governo czarista e destruíam as raízes da monarquia, o governo provisório se inclinava claramente para a conservação do regime monárquico. A 2 de março mandou Guchkov e Shulguin às escondidas se entrevistarem com o czar. A burguesia queria entregar o Poder ao grão-duque Miguel, irmão de Nicolau Romanov. Mas quando, num comício de ferroviários, Guchkov terminou seu discurso com o grito de "Viva o imperador Miguel!", os operários exigiram que o orador fosse imediatamente detido e levado para o xadrez, e exclamaram indignados: "Tão bom é João como Diogo!"

Era evidente que os operários não estavam dispostos a consentir a restauração da monarquia.

Enquanto os operários e os camponeses, levando a cabo a revolução e derramando o seu sangue, esperavam que se pusesse fim à guerra, lutavam pelo pão e a terra e reclamavam medidas sérias na luta contra o desastre econômico, o governo provisório permaneceu surdo a essas reivindicações vitais do povo. Aquele governo, formado pelos mais característicos representantes dos capitalistas e latifundiários, não pensava, sequer, em satisfazer às exigências dos camponeses, entregando-lhes a terra. Tampouco podia dar pão aos trabalhadores, já que para isto teria de lesar os interesses dos grandes comerciantes de cereais e arrebatar por todos os meios o trigo aos latifundiários e aos kulaks, coisa que não se decidia a fazer um governo como aquele, ligado aos interesses destas classes. Também não podia dar a paz ao povo. O governo provisório, amarrado aos imperialistas anglo-franceses, não pensava em acabar a guerra; ao contrário, tencionava valer-se da revolução para intensificar ainda mais a participação da Rússia na guerra imperialista e para dar satisfação a suas ambições imperialistas sobre a conquista de Constantinopla e dos Dardanelos e sobre a anexação da Galitzia.

Era evidente que terminaria cedo a atitude de confiança das massas do povo na política do governo provisório.

Via-se claramente que a dualidade de poderes que se havia criado depois da Revolução de Fevereiro, não poderia sustentar-se por muito tempo, pois a marcha do acontecimentos exigia que o Poder se concentrasse em um dos dois lugares, ou no seio do governo provisório ou nas mãos dos Soviets.

É certo que a política oportunista dos mencheviques e social-revolucionários encontrava ainda apoio nas massas do povo. Ainda eram muitos os operários, e mais ainda os soldados e camponeses, que confiavam em que "breve a Assembléia Constituinte viria arranjar tudo como era devido", que acreditavam que a guerra não se fazia para obter conquistas, mas porque era necessária para a defesa do Estado. Era a estes que Lenin chamava de defensistas honradamente enganados. Estas pessoas consideravam ainda acertada a política de promessas e exortações dos social-revolucionários e mencheviques. Mas era indubitavelmente que as promessas e exortações não continuariam surtindo efeito durante muito tempo, pois a marcha dos acontecimentos e a conduta do governo provisório descobriam e punham a nu dia após dia que a política oportunista dos social-revolucionários e mencheviques não fazia outra coisa senão mistificar as pessoas crédulas e enganá-las.

O governo provisório nem sempre se limitava a seguir uma política de luta subterrânea contra o movimento revolucionário das massas, uma política de manejos sub-reptícios contra a revolução. De vez em quando tentava passar à ofensiva franca e aberta contra as liberdades democráticas, tentava "restabelecer a disciplina", principalmente entre os soldados, tentava "impor a ordem", isto é, fazer entrar a revolução dentro dos limites convenientes à burguesia. Mas, por muito que se esforçasse para consegui-lo, não podia, e as massas populares punham zelosamente em prática as liberdades democráticas: a liberdade de palavra, de Imprensa, de reunião, de associação e de manifestação. Os operários e os soldados se esforçavam para utilizar plenamente os primeiros direitos democráticos conquistados por eles, para participar de um modo ativo na vida política do país, com o objetivo de poder compreender e esclarecer a situação criada e decidir de sua atuação ulterior.

Depois da Revolução de Fevereiro, as organizações do Partido bolchevique, que sob as duras condições do czarismo tinham trabalhado ilegalmente, saíram da clandestinidade e começaram a desenvolver abertamente seu trabalho político e de organização. Naquela ocasião, o número de filiados do Partido bolchevique era de 40 a 45 mil. Mas eram quadros temperados na luta. Os Comitês do Partido foram reorganizados na base do centralismo democrático e se estabeleceu o princípio de designar por eleição de baixo para cima todos os órgãos do Partido.

A passagem do Partido para a legalidade trouxe à tona as divergências existentes em seu seio. Kamenev e alguns militantes da organização de Moscou, como por exemplo, Rykov, Bubnov, abraçaram a posição semimenchevique de apoio condicional ao governo provisório e à política dos defensistas. Stalin, que acabava de chegar do desterro, Molotov e outros, juntamente com a maioria do Partido, defenderam a política de desconfiança no governo provisório, manifestaram-se contra o defensismo e aconselharam a luta ativa pela paz e contra a guerra imperialista. Uma parte dos militantes do Partido vacilava, refletindo com isso seu atraso político, resultado de sua longa permanência na cadeia ou no desterro.

Notava-se a ausência do chefe do Partido, Lenin.

A 3 (16) de abril de 1917, depois de uma longa expatriação, Lenin regressou à Rússia.

A chegada de Lenin teve uma importância enorme para o Partido e para a revolução.

Achando-se ainda na Suíça, mal recebeu as primeiras notícias da revolução, Lenin escreveu ao Partido e à classe operária da Rússia, em suas "Cartas de longe":

"Operários! Tendes feito prodígios de heroísmo proletário e popular, na guerra civil contra o czarismo. Tereis que fazer prodígios de organização do proletariado e de todo o povo para preparar o vosso triunfo na segunda etapa da revolução" (Lenin, t. XX pág. 19, ed. russa).

Lenin chegou a Petrogrado a 3 de abril, à noite. Na estação da Finlândia e na praça que dá acesso a ela, se congregaram para recebê-lo milhares de operários, soldados e marinheiros. Um entusiasmo indescritível se apoderou das massas, quando Lenin desceu do trem. O chefe da revolução foi erguido e levado nos braços do povo até a grande sala de espera, onde os mencheviques Chkeidse e Skobelev o esperavam para dirigir-lhe uma saudação de "boas-vindas" em nome do Sovietde Petrogrado, saudação em que "exprimiam a esperança" de que Lenin "marcharia de acordo" com eles. Mas Lenin, sem escutá-los, passou por alto, dirigindo-se para a massa dos operários e soldados, e, trepado num carro blindado, pronunciou o seu famoso discurso, no qual chamava as massas a lutarem pelo triunfo da Revolução Socialista. "Viva a Revolução Socialista", foram as palavras com que Lenin terminou este discurso, o primeiro que pronunciava, depois de longos anos de desterro.

Em sua chegada à Rússia, Lenin se entregou com toda energia ao trabalho revolucionário. No dia seguinte à sua chegada, pronunciou numa reunião do Partido bolchevique um informe sobre a guerra e a revolução, voltando logo a expor as teses deste informe numa assembléia à qual assistiram, além dos membros do Partido, os mencheviques.

Tais foram as célebres Teses de Abril de Lenin, que traçaram para o Partido e o proletariado a linha revolucionária clara da passagem da revolução burguesa à revolução socialista.

As teses de Lenin tiveram uma importância enorme para o trabalho posterior do Partido. A revolução significava uma mudança grandiosa na vida do país e o Partido, nas novas condições de luta criadas depois da derrubada do czarismo, necessitava de uma nova orientação para marchar com passo audaz e seguro pelo novo caminho. Esta orientação foi a que as teses de Lenin deram ao Partido.

As Teses de Abril de Lenin traçavam um plano genial de luta do Partido para a passagem da primeira à segunda etapa da revolução, para a passagem da revolução democrático-burguesa à revolução socialista. Toda a história anterior do Partido o preparava para esta missão grandiosa. Já em 1905, em seu folheto intitulado "As duas táticas da social-democracia na revolução democrática", dizia Lenin que, depois de derrubar o czarismo, o proletariado passaria à realização da revolução socialista. O que as teses continham de novo era o fundamento teórico, o plano concreto para abordar a passagem à revolução socialista.

No terreno econômico, as medidas de transição podiam resumir-se assim: nacionalização de toda a terra do país, mediante o confisco das terras dos latifundiários; fusão de todos os bancos em um só Banco Nacional, submetido ao controle do Soviet de deputados operários; implantação do controle sobre a produção social e a partilha dos produtos.

No terreno político, Lenin preconizava a passagem da República parlamentar para a República dos Soviets. Isto significava um importante avanço no terreno da teoria e da prática do marxismo. Até então, os teóricos marxistas vinham considerando a República parlamentar como a melhor forma política de transição para o socialismo.

Agora, Lenin preconizava a substituição da República parlamentar pela República dos Soviets como a forma mais adequada de organização política da sociedade no período de transição do capitalismo ao socialismo.

"A peculiaridade do momento atual na Rússia — diziam as "Teses" — consiste na passagem da primeira etapa da revolução, que deu o Poder à burguesia por faltar ao proletariado o necessário grau de consciência e organização, à sua segunda etapa, que colocará o Poder nas mãos do proletariado e dos camponeses mais pobres" (Lenin, t. pág. 88 ed. russa). E um pouco mais adiante:

"Não uma república parlamentar — voltar a ela depois dos Soviets de deputados operários seria dar um passo atrás — mas uma República dos Soviets de deputados operários, camponeses e jornaleiros do campo, em todo o país, de baixo a cima". (Obra citada, pág. 88).

A guerra, dizia Lenin, continua sendo uma guerra de rapina, uma guerra imperialista, ainda sob o novo governo, sob o governo provisório. E é missão do Partido explicar isto às massas e fazê-las compreender que, sem derrotar a burguesia, é impossível dar cabo da guerra, não com uma paz imposta pela força, mas com tuna paz verdadeiramente democrática.

A respeito do governo provisório, Lenin lançou esta palavra de ordem:

"Nem o menor apoio ao governo provisório!"

Em suas Teses, Lenin assinalava, além disso, que, naquele momento, o Partido bolchevique estava em minoria dentro dos Soviets e que nestes predominava o bloco menchevique-social-revolucionário, que servia de veículo à influência da burguesia sobre o proletariado. Portanto, a missão do Partido consistia em:

"Explicar às massas que o Soviet de deputados operários é a única forma possível de governo revolucionário, razão pela qual, enquanto este governo se submeter à influência da burguesia, nossa missão só pode consistir em explicar os erros de sua tática de um modo paciente, sistemático, tenaz e adaptando-se especialmente às necessidades práticas das massas. Enquanto estivermos em minoria, desenvolveremos um trabalho de crítica e esclarecimento dos erros, mantendo, ao mesmo tempo, a necessidade de que todo o Poder do Estado passe aos Soviets de deputados operários..." (Lenin, t. XX, pág. 88, ed. russa).

Isto quer dizer que Lenin não incitava à insurreição contra o governo provisório, sustentado naquele momento pela confiança dos Soviets, não exigia sua derrubada, mas aspirava, por meio de um trabalho de esclarecimento, e de recrutamento, a conquistar a maioria dentro dos Soviets, a mudar a política destes, e, através deles, a composição e a política do governo.

O ponto de vista que aqui se adotava era o do desenvolvimento pacífico da revolução.

Lenin exigia, além disso, que o Partido tirasse a "roupa suja", que deixasse de se chamar Partido social-democrata. Social-democratas se chamavam também os partidos da Segunda Internacional e os mencheviques russos. Era um nome manchado, desonrado pelos oportunistas, pelos traidores do socialismo. Lenin propunha que o Partido bolchevique adotasse o nome de Partido Comunista, que era como Marx e Engels chamavam o seu partido. Esta denominação é cientificamente exata, visto que a meta final do Partido bolchevique é a consecução do comunismo. A Humanidade, ao sair do capitalismo, só pode passar diretamente ao socialismo, isto é, ao regime de propriedade coletiva dos meios de produção e de distribuição dos produtos em proporção ao trabalho de cada qual. Mas nosso partido, dizia Lenin, vê mais além.

O socialismo deverá inevitavelmente ir-se convertendo pouco a pouco no comunismo, cujo lema é:

"De cada um segundo suas forças, a cada um segundo suas necessidades."

Finalmente, Lenin em suas "Teses de Abril" exigia a fundação de uma nova Internacional, a Terceira Internacional ou Internacional Comunista, livre das taras do oportunismo e do social-chauvinismo.

As Teses de Lenin levantaram uma gritaria raivosa entre a burguesia, os mencheviques e os social-revolucionários.

Os mencheviques dirigiram um apelo aos operários, alertando-os com o grito de que "a revolução estava em perigo". Para os mencheviques o perigo consistia nos bolcheviques lançarem a reivindicação da passagem do Poder para as mãos dos Soviets de deputados operários e soldados.

Plekhanov publicou em seu periódico intitulado "Edinstvo" ("Unidade") um artigo em que qualificava o discurso como "o discurso de um homem que delirava". E referia-se às palavras do menchevique Chkheidse, que havia declarado: "Lenin ficará só à margem da revolução, mas nós seguiremos nosso caminho".

A 14 de abril, celebrou-se a Conferência bolchevique da cidade de Petrogrado. Nesta Conferência foram ratificadas as Teses de Lenin, que serviram de base para suas deliberações.

Pouco depois, as organizações locais do Partido ratificaram também as Teses de Lenin.

Todo o Partido, com exceção de alguns indivíduos isolados do tipo de Kamenev, Rykov e Piatakov, aprovou as Teses de Lenin com extraordinário entusiasmo.





2



Começa a crise do Governo Provisório.

- A Conferência de abril do Partido bolchevique.



Enquanto os bolcheviques se preparavam para o desenvolvimento ulterior da revolução, o governo provisório prosseguia seus manejos contra o povo. A 18 de abril, o ministro dos Negócios Estrangeiros do governo provisório, Miliukov, declarou aos aliados que "todo o povo aspirava a prosseguir a guerra mundial até conseguir um triunfo decisivo" e lhes assegurava que era intenção do governo provisório cumprir escrupulosamente os deveres assumidos para com os nossos aliados".

Quer dizer, o governo provisório jurava lealdade aos tratados czaristas, prometia continuar derramando quanto sangue do povo fosse necessário para que os imperialistas conseguissem sua "vitória final".

A 19 de abril chegou ao conhecimento dos operários e soldados esta declaração (a "nota de Miliukov"). A 20 de abril, o Comitê Central do Partido bolchevique convidou as massas a protestarem contra a política imperialista do governo provisório. A 20 e 21 de abril (3 e 4 de maio) de 1917, saíram à rua em manifestação massas de operários e soldados, em número não inferior a 100 mil homens, movidos por um sentimento de indignação contra a "nota de Miliukov". Nos cartazes liam-se estas palavras de ordem: "Que se publiquem os tratados secretos!", "Abaixo a guerra!", "Todo o poder aos Soviets", "Os operários e os soldados marcharam desde os subúrbios até o centro da cidade, em direção à residência do governo provisório. Na Avenida Nevski e em outros pontos se produziram choques com alguns grupos avulsos de burgueses.

Os contra-revolucionários mais descarados, como o general Kornilov, declaravam que se devia dissolver a tiros a manifestação, e chegaram, inclusive, a dar ordens no momento. Mas as tropas às quais mandaram estas ordens se negaram a executá-las.

Um pequeno grupo de membros do Comitê do Partido em Petrogrado (Bagdatiev e outros) lançaram durante esta manifestação a palavra de ordem de derrubada imediata do governo provisório. O C. C. do Partido bolchevique condenou severamente a conduta destes aventureiros de "esquerda", reputando aquela palavra de ordem como extemporânea e falsa, como uma palavra de ordem que impedia o Partido de ganhar a maioria dentro dos Soviets e que se achava em contradição com o ponto de vista do desenvolvimento pacífico da revolução, adotado pelo Partido.

Os acontecimentos de 20 e 21 de abril marcaram o começo da crise do governo provisório.

Era a primeira brecha importante que se abria na política oportunista dos mencheviques e social-revolucionários.

A 2 de maio de 1917, Miliukov e Guchkov foram afastados do governo provisório sob a pressão das massas.

Constituiu-se o primeiro governo provisório de coalizão, no qual ao lado dos representantes da burguesia, os mencheviques (Skobelev e Tsereteli) e os social-revolucionários (Chernov, Kerenski e outros).

Por onde se vê que os mencheviques, que em 1905 não admitiam que os representantes da social-democracia participassem em um governo provisório revolucionário, achavam agora admissível dar seus representantes para um governo provisório contra-revolucionário.

Com isto, os mencheviques e os social-revolucionários passavam para o campo da burguesia contra-revolucionária.

A 24 de abril de 1917, a VII Conferência (Conferência de Abril) do Partido bolchevique inaugurou seus trabalhos. Pela primeira vez desde que existia o Partido, se reunia abertamente uma conferência bolchevique que, pela sua importância, ocupava na história do Partido o mesmo lugar que um congresso.

A Conferência de Abril, na qual estavam representados os bolcheviques de toda a Rússia, revelou o desenvolvimento impetuoso do Partido. Representando um total de 80 mil membros organizados do Partido, assistiram a ela 133 delegados com direito de palavra e voto e 18 com direito de palavra, mas sem direito de voto.

A Conferência de Abril discutiu e traçou a linha do Partido em todos os problemas fundamentais da guerra e da revolução: a situação do momento, a guerra, o governo provisório, os Soviets, o problema agrário, o problema nacional, etc.

Lenin desenvolveu em seu informe os pontos de vista já expostos por ele nas Teses de Abril. A missão do Partido consistia em realizar a passagem da primeira etapa da revolução,

"que deu o poder à burguesia... para a segunda etapa, que entregará o Poder ao proletariado e camponeses mais pobres" (Lenin).

O Partido deverá rumar para a preparação da revolução socialista. Como tarefa mais imediata do Partido, Lenin lança a palavra de ordem de "Todo o poder aos Soviets!" A palavra de ordem "Todo o Poder aos Soviets" significava que era necessário acabar com a dualidade de poderes, isto é, com a divisão do Poder entre o governo provisório e os Soviets, que era necessário entregar a estes o Poder e expulsar dos órgãos do Poder os representantes dos latifundiários e capitalistas.

A Conferência de Abril estabeleceu que uma das tarefas mais importantes do Partido consistia em explicar incansavelmente às massas a verdade de que o "governo provisório é, por seu caráter, o órgão de dominação dos latifundiários e da burguesia" e desmascarar a funesta política oportunista dos social-revolucionários e mencheviques, que enganavam o povo com promessas mentirosas e o submetiam aos golpes da guerra imperialista e da contra-revolução.

Nessa Conferência, Kamenev e Rykov se levantaram contra Lenin. Seguindo as pegadas dos mencheviques, repetiam que a Rússia não estava preparada para a revohição socialista, que na Rtissia só era possível uma República burguesa e propunham ao Partido e à classe operária limitarem-se a "controlar" o governo provisório. Na realidade, sua posição, da mesma sorte que a dos mencheviques, era a de manter o capitalismo, a de manter o Poder da burguesia.

Zinoviev interveio também na Conferência de Abril contra Lenin a respeito do problema se o Partido bolchevique devia continuar dentro da união de Zimmerwald ou romper com ela, para criar a nova Internacional. Os anos de guerra tinham demonstrado que aquela organização, embora fazendo a propaganda em favor da paz, não tinha chegado a romper, de fato, com os defensistas burgueses. Por isso, Lenin insistia na necessidade de abandonar imediatamente esta organização e criar uma nova Internacional, a Internacional Comunista. Zinoviev propunha continuar com os zimmerwaldianos. Lenin condenou energicamente esta atitude de Zinoviev qualificando sua tática de "arquioportunista e perniciosa".

A Conferência de Abril apreciou também os problemas agrário e nacional.

Depois de escutar o informe de Lenin sobre o problema agrário, a Conferência aprovou uma resolução sobre a confiscação das terras dos latifundiários para pô-las à disposição dos Comitês de camponeses e sobre a nacionalização de todas as terras do país. Os bolcheviques chamavam os camponeses a lutar pela terra e faziam ver às massas camponesas que o Partido bolchevique era o único partido revolucionário que ajudava os camponeses de uma maneira real a derrubar os latifundiários.

Teve grande importância o informe do camarada Stalin sobre o problema nacional. Já antes da revolução, nas vésperas da guerra imperialista, Lenin e Stalin tinham traçado as bases para a política do Partido bolchevique em face do problema nacional. Lenin e Stalin diziam que o Partido proletário devia apoiar o movimento de libertação nacional dos povos oprimidos contra o imperialismo. A esse respeito o Partido bolchevique defendia o direito de autodeterminação das nações até chegar à separação do Estado a que pertenciam para formar Estados próprios e independentes. Este ponto de vista foi o que o camarada Stalin defendeu na Conferência, informando pelo C. C.

Contra Lenin e Stalin interveio Piatakov, que já durante a guerra havia adotado em face do problema nacional, junto com Bukarin, uma Posição nacional-chovinista. Piatakov e Bukarin eram contrários ao direito de autodeterminação das nações.

A posição resoluta e conseqüente do Partido em face do problema nacional, a luta do Partido pela igualdade de direito dass nações e pela destruição de todas as formas e modalidades de opressão e desigualdade nacionais, valeram-lhe a simpatia e o apoio das nacionalidades oprimidas.

Eis o texto da resolução sobre o problema nacional aprovado pela Conferência de Abril:

"A política de opressão nacional, herança da autocracia e da monarquia, é defendida pelos latifundiários, capitalistas e pequena-burguesia tendo em vista a conservação de seus privilégios de classe e a desunião dos operários das diversas nacionalidades. O imperialismo moderno, com sua tendência reforçada para a submissão dos povos débeis, é um novo fator de acentuação do jugo nacional.

Na sociedade capitalista é possível acabar com a opressão nacional, na medida em que esta o permite, só mediante um regime republicano conseqüentemente democrático e um sistema de governo que garanta a plena igualdade de direitos de todas as nações e línguas".

"Deve reconhecer-se o direito de todas as nações encravadas dentro da Rússia a se separarem livremente e a formarem Estados independentes. A negação deste direito e a abstenção de medidas destinadas a garantir sua realização prática equivale a apoiar a política de conquistas ou anexações. O reconhecimento pelo proletariado do direito das nações à sua separação é a única medida que garante a plena solidariedade dos operários das diferentes nações e permite uma aproximação verdadeiramente democrática".

O problema do direito das nações a se separarem livremente, não deve se confundir com o problema da conveniência de que se separe tal ou qual nação e de que esta separação se realize em tal ou qual momento.

O Partido do proletariado deverá resolver este problema de um modo absolutamente independente em cada caso concreto, do ponto de vista dos interesses do desenvolvimento de toda a sociedade e da luta de classes do proletariado pelo socialismo.

O Partido exige uma ampla autonomia regional, que se acabe com a fiscalização processada de cima, que se suprima a existência de uma língua oficial obrigatória e se delimitem as fronteiras dos territórios descentralizados e autônomos, na base das condições econômicas e de vida julgadas pela própria população local, pelo censo nacional da população, etc.

O Partido do proletariado rechaça resolutamente a chamada "autonomia nacional-cultural", que consiste em subtrair da competência do Estado os assuntos escolares, etc, para colocá-los todos nas mãos de uma espécie de dietas nacionais. A autonomia nacional-cultural traça fronteiras artificiais entre os operários que vivem na mesma localidade e que, inclusive, trabalham, na mesma empresa, segundo pertençam a tal ou qual "cultura nacional", com o que reforçam os laços entre os operários e a cultura burguesa de cada nação em separado, ao passo que a missão da social-democracia consiste em fortalecer a cultura internacional do proletariado do mundo inteiro.

O Partido exige que se inclua na Constituição uma lei fundamental pela qual se declarem nulos qualquer classe de privilégios a favor de uma nação e toda a classe de infrações contra os direitos das minorias nacionais.

Os interesses da classe operária exigem a fusão dos operários de todas as nacionalidades da Rússia em organizações proletárias únicas, tanto políticas como sindicais, cooperativas, culturais, etc. Sem esta fusão dos operários de diversas nacionalidades em organizações únicas, o proletariado não poderia manter uma luta vitoriosa contra o capitalismo internacional e contra o nacionalismo burguês" ("Resoluções do P. C. do (b) da U.R.S.S.", parte I,pág. 239-240).

Foi, assim, desmascarada, na Conferência de Abril, a linha oportunista, antileninista de Kamenev, Zinoviev, Piatakov, Bukarin, Rykov e seus contados adeptos.

A Conferência seguiu unanimemente Lenin, adotando uma atitude clara e decidida em face de todos os problemas fundamentais e traçando o rumo para a vitória da revolução socialista.





3



Êxitos do Partido Bolchevique na capital.

Fracassa a ofensiva das tropas do Governo Provisório na frente.

É esmagada a manifestação de julho dos operários e soldados.



O Partido, tomando como base as resoluções da Conferência de Abril, desenvolveu um trabalho intensíssimo pela conquista das massas, por sua educação combativa e por sua organização. A linha do Partido, durante este período, se baseava em conquistar a maioria dentro dos Soviets e isolar das massas os partidos mencheviques e social-revolucionário por meio do esclarecimento paciente da política bolchevique e do desmascaramento da política de compromissos daqueles partidos.

Além do seu trabalho no seio dos Soviets, os bolcheviques desenham um trabalho gigantesco nos sindicatos e nos comitês de fábricas e empresas industriais.

Mas onde os bolcheviques realizavam o trabalho mais intenso era no seio do Exército. Por toda a parte começaram a criar-se organizações militares. Os bolcheviques trabalhavam incansavelmente nas frentes e na retaguarda para organizar os soldados e os marinheiros. Para a obra de revolucionaiização dos soldados contribuiu em alto grau um jornal destinado à frente, que os bolcheviques publicavam com o título de "Okopnaia Pravda" ("Pravda das Trincheiras"). Graças a este trabalho de propaganda e agitação dos bolcheviques, se conseguiu que já nos primeiros meses da revolução os operários de muitas cidades procedessem à reeleição dos Soviets, particularmente os distritais, expulsando deles os mencheviques e os social-revolucionários e substituindo-os por filiados do Partido bolchevique.

O trabalho dos bolcheviques deu excelente resultado, sobretudo, em Petrogrado.

Na Conferência de Comitês de fábricas, que se celebrou em Petrogrado de 30 de maio a 3 de junho de 1917, se agrupavam já em torno dos bolcheviques as três quartas partes dos delegados. O proletariado da capital marchava quase em sua totalidade sob a palavra de ordem bolchevique "Todo o Poder aos Soviets".

A 3 (16) de junho de 1917, se reuniu o I Congresso dos Soviets de toda a Rússia. Os bolcheviques estavam ainda em minoria dentro dos Soviets; neste Congresso, contavam com pouco mais de 100 delegados, contra 700 a 800 que os mencheviques, social-revolucionários e outros partidos possuíam.

No I Congresso dos Soviets os bolcheviques puseram a nu com grande insistência o caráter funesto da política de compromissos com a burguesia e desmascararam o caráter imperialista da guerra. Lenin pronunciou neste Congresso um discurso no qual demonstrou a justeza da linha bolchevique, declarando que só o Poder dos Soviets podia dar pão aos trabalhadores, a terra aos camponeses, conseguir a paz e tirar o país do desastre econômico.

Naqueles dias, desenvolvia-se nos bairros operários de Petrogrado uma campanha de massas para organizar uma manifestação que levasse ao Congresso dos Soviets as reivindicações do povo. Querendo adiantar-se a esta manifestação organizada livremente pelos próprios operários e especulando com a idéia de utilizar em seu proveito a atitude revolucionária das massas, o Comitê Executivo do Soviet de Petrogrado resolveu convocar uma manifestação na capital para 18 de junho (1º. de julho). Os mencheviques e os social-revolucionários acreditavam que esta manifestação se processaria sob palavras de ordem antibolcheviques. O Partido bolchevique entregou-se com grande energia à preparação deste ato de massas. O camarada Stalin escreveu, naquela ocasião, na "Pravda" que

"... nossa missão consiste em conseguir que a manifestação de 18 de junho de 1917, que passou diante do túmulo das vítimas da revolução, se converteu em uma verdadeira revista das forças do Partido bolchevique. Revelou o grau de amadurecimento revolucionário, cada vez maior, das massas e a crescente confiança destas no Partido bolchevique. As palavras de ordem dos mencheviques e social-revolucionários, pregando a confiança no governo provisório e a necessidade de continuar a guerra, perdiam-se entre a imensa massa de palavras de ordem bolcheviques. 400 mil manifestantes marchavam sob bandeiras que ostentavam estas palavras de ordem: "Abaixo a guerra!, "Abaixo os 10 ministros capitalistas!", "Todo o Poder aos Soviets!".

Era o fracasso completo dos mencheviques e social-revolucionários, o fracasso do governo provisório na capital.

Não obstante, o governo provisório, sustentado pelo apoio do I Congresso dos Soviets, decidiu prosseguir sua política imperialista. E foi isso. precisamente a 18 de junho, quando o governo, cumprindo a vontade dos imperialistas anglo-franceses, lançou à ofensiva as tropas da frente. A burguesia via nesta ofensiva a única possibilidade de acabar com a revolução. Se a ofensiva tivesse êxito, a burguesia confiava em que poderia tomar em suas mãos todo o Poder, expulsar os Soviets e esmagar os bolcheviques. Se fracassasse, poderia lançar a culpa de tudo aos mesmos bolcheviques, acusando-os de desmoralizar o Exército.

Não poderia caber a menor dúvida de que a ofensiva fracassaria, como, de fato, fracassou. O cansaço dos soldados, sua ignorância dos fins perseguidos com a ofensiva, desconfiança nos comandos, estranhos à tropa, a escassez de munições e artilharia, tudo isso contribuiu para o fracasso da ofensiva na frente.

As notícias a respeito da ofensiva empreendida e logo depois seu ruidoso fracasso excitaram os ânimos da capital. A indignação dos operários e soldados não tinha limites. Inteiravam-se de que o governo provisório enganava o povo quando pregava uma política de paz. Inteiravam-se de que o governo provisório propugnava pela continuação da guerra imperialista. Inteiravam-se de que o Comitê Executivo Central dos Soviets e o Soviet de Petrogrado não queriam ou não podiam opor-se aos atos criminosos do governo provisório e iam de rastros atrás dele.

A indignação revolucionária dos operários e soldados de Petrogrado extravasava. A 3 (1(5) de julho, começaram a produzir-se manifestações espontâneas em Petrogrado, no bairro de Viborg. Estas manifestações continuaram durante todo o dia. Algumas delas redundaram em uma grandiosa manifestação geral com armas sob a palavra de ordem da passagem do Poder aos Soviets. O Partido bolchevique era contrário à ação armada naquele momento, por entender que a crise revolucionária não estava ainda madura, que o Exército e as províncias não estavam ainda preparados para apoiar a insurreição na capital, que uma insurreição isolada e prematura em Petrogrado só serviria para facilitar à contra-revolução, o esmagamento da vanguarda revolucionária. Mas, quando se viu que era impossível conter as massas e evitar que se lançassem à manifestação, o Partido resolveu tomar parte nela, com o objetivo de lhe dar um caráter pacífico e organizado. O Partido bolchevique conseguiu o que se propunha e centenas de milhares de manifestantes marcharam para o Soviet de Petrogrado e o Comitê Executivo Central dos Soviets, onde exigiram que estes tomassem conta do poder, rompessem com a burguesia imperialista e empreendessem uma política ativa de paz.

Apesar do caráter pacífico da manifestação, foram lançadas contra os manifestantes as tropas da reação, os destacamentos de cadetes e de oficiais. Pelas ruas de Petrogrado correu abundantemente o sangue dos operários e dos soldados. Para esmagar os operários, foram trazidas da frente as unidades militares mais retrógradas e contra-revolucionárias.

Os mencheviques e social-revolucionários, unidos à burguesia e aos generais brancos, depois de esmagar a manifestação dos operários e dos soldados, se lançaram raivosamente sobre o Partido bolchevique. A redação da "Pravda" foi saqueada e destruída. Foram suspensas a "Pravda", a "Soldatskaia Pravda" (Pravda do Soldado") e outra série de jornais bolcheviques. O operário Voinov foi assassinado na rua pelos cadetes, pelo único fato de estar vendendo a "Listok Pravdi" ("Folha da Pravda"). Começou o desmoronamento dos guardas vermelhos. As unidades revolucionárias da guarnição de Petrogrado foram afastadas da capital e enviadas para a frente. Multiplicaram-se as prisões, tanto nas frentes como na retaguarda.

A 7 de julho, deu-se a ordem de prender Lenin. Uma série de prestigiosos militantes do Partido bolchevique foram presos. Foi destruída a editora "Trud" ("Trabalho"), onde se imprimiam as publicações bolcheviques. Na precatória do Promotor Público do Tribunal de Justiça de Petrogrado dizia-se que Lenin e outra série de bolcheviques deviam comparecer perante os Tribunais como réus de "alta traição" e responsáveis pela organização de um levante armado. A acusação contra Lenin tinha sido urdida no Estado-Maior do general Denikin baseada em dados inventados por espiões e provocadores.

Com isto, o governo provisório de coalizão, do qual faziam parte representantes tão característicos dos mencheviques e social-revolucionários como Tsereteli e Skobelev, Kerenski e Chernov, afundava-se no charco do imperialismo e da contra-revolução aberta e descarada. Em vez de uma política de paz, desenvolvia uma política de continuação da guerra. Em vez de defender os direitos democráticos do povo, adotava a política de liquidação destes direitos e de repressão armada contra os operários e os soldados.

O que os representantes da burguesia, Guchkov e Miliukov não se haviam atrevido a fazer, era feito pelos "socialistas" Kerenski e Tsereteli, Chernov e Skobelev.

Havia-se acabado a dualidade de poderes.

E se havia acabado em proveito da burguesia, pois todo o Poder passou para as mãos do governo provisório, e os Soviets, com sua direção social-revolucionária e menchevique, se converteram num apêndice do governo provisório.

Havia terminado o período pacífico da revolução, pondo-se na ordem do dia a força das baionetas.

Em face das mudanças operadas na situação, o Partido bolchevique decidiu mudar de tática. Passou à ilegalidade, ocultando seu chefe, Lenin, em lugar rigorosamente secreto, e começou a se preparar para a insurreição, com o fim de derrubar o Poder da burguesia pelas armas e instaurar o Poder Soviético.






4



O Partido Bolchevique prepara a insurreição armada.

O VI Congresso do Partido.



Em meio de uma campanha incrivelmente encarniçada da Imprensa burguesa e pequeno-burguesa, reuniu-se em Petrogrado o VI Congresso do Partido bolchevique. Reunia-se este Congresso 10 anos após o V Congresso de Londres e 5 anos após a Conferência bolchevique de Praga. Suas sessões duraram desde 26 de julho até 3 de agosto de 1917, e tiveram caráter clandestino. A Imprensa se limitou a anunciar a convocação do Congresso, sem indicar o lugar em que tinha de reunir-se. As primeiras sessões se celebraram no bairro de Viborg. As últimas, na escola das imediações da Porta de Narva, no lugar onde agora se levanta a Casa da Cultura. A Imprensa burguesa pedia a prisão de todos os Congressistas. Mas, se bem que os esbirros da polícia se pusessem em campo para descobrir o lugar que se reunia o Congresso, não conseguiram encontrá-lo.

Quer dizer que, cinco meses após a derrubada do czarismo, os bolcheviques tinham que se reunir às escondidas, e o chefe do Partido proletário, Lenin, se via obrigado a viver escondido numa choça, perto da estação de Rasliv.

Lenin, procurado pelos esbirros do governo provisório, não pôde assistir ao Congresso, mas dirigiu suas tarefas do esconderijo onde se encontrava, por meio de seus discípulos e colaboradores em Petrogrado: Stalin, Sverdlov, Molotov e Ordzhonikidse.

Assistiram ao Congresso 157 delegados com direito de palavra e voto e 128, com direito de palavra somente. O Partido contava, então, com uns 240 mil filiados. Perto de 3 de julho, isto é, antes de ser esmagada a manifestação operária deste mês, quando os bolcheviques trabalhavam ainda na legalidade, o Partido tinha 41 órgãos de Imprensa, dos quais 29 eram publicados em russo e 12 em outras línguas.

A batida contra os bolcheviques e contra a classe operária nas jornadas de julho, longe de diminuir a influência do Partido bolchevique, só serviu para aumentá-la. Os delegados de base expuseram perante o Congresso uma quantidade de fatos demonstrativos de que os operários e os soldados começavam a abandonar em massa os mencheviques e social-revolucionários, dos quais zombavam depreciativamente com o nome de "social-carcereiros". Os operários e os soldados filiados aos partidos mencheviques e social-revolucionários rompiam seus "carnets" e saíam destes partidos maldizendo-os, e pediam aos bolcheviques que os admitissem em suas fileiras.

Os problemas fundamentais apresentados ao VI Congresso foram: o informe político do Comitê Central e o problema da situação política. Em seus informes sobre estes problemas, o camarada Stalin ressaltou com toda clareza e precisão que, apesar de todos os esforços da burguesia para esmagar a revolução, esta crescia e se desenvolvia. Assinalou que a revolução criava o problema da implantação do controle operário sobre a produção e a distribuição dos produtos, da entrega da terra aos camponeses e da passagem do Poder das mãos da burguesia para as mãos da classe operária e dos camponeses pobres. E disse que a revolução se convertia, por seu caráter, em uma revolução socialista.

Depois das jornadas de julho, mudou bruscamente a situação política do país. Já não existia dualidade de poderes. Por não querer tomar todo o Poder, os Soviets, com sua direção social-revolucionária e menchevique, ficaram reduzidos à impotência. O Poder se concentrou em mãos do governo provisório da burguesia, o qual continuava desarmando a revolução, esmagando suas organizações e perseguindo o Partido bolchevique. A possibilidade de um desenvolvimento pacífico da revolução havia desaparecido. Só cabia — dizia o camarada Stalin — uma solução: derrubar o governo provisório e tomar o Poder pela força. E só o proletariado, aliado aos camponeses pobres, podia tomar o Poder pela força.

Os Soviets, cuja direção continuava nas mãos dos mencheviques e social-revolucionários, iam deslizando para o campo da burguesia e, na situação existente, só podiam atuar como auxiliares do governo provisório. Depois das jornadas de julho, a palavra de ordem "Todo o Poder aos Soviets" devia ser abandonada, disse o camarada Stalin, mas sem que o abandono temporário desta palavra de ordem significasse em absoluto que se renunciava a lutar pelo Poder dos Soviets. Não se tratava dos Soviets em geral, isto é, dos Soviets como órgãos de luta revolucionária; tratava-se, sim, somente daqueles Soviets concretos, dirigidos pelos mencheviques e social-revolucionários.

"O período pacífico da revolução terminou — disse o camarada Stalin — começou o período não pacífico da revolução, um período de choques e explosões..." ("Atas do VI Congresso do P. C. (b) da U.R.S.S-", pág. 111).

O Partido caminhava para a insurreição armada.

No Congresso houve quem, refletindo a influência burguesa, se manifestasse contra o rumo para a revolução socialista.

O trotskista Preobrazhenski propôs que na resolução sobre a conquista do Poder se dissesse que só se poderia encaminhar o país pela senda do socialismo se a revolução proletária triunfasse na Europa Ocidental.

O camarada Stalin rebateu esta proposição trotskista.

"Não está afastada — disse o camarada Stalin — a possibilidade de que seja precisamente a Rússia o país que inicie a marcha para o socialismo... É preciso rechaçar essa idéia caduca de que só a Europa nos pode assinalar o caminho. Há um marxismo dogmático e um marxismo criador. Eu me situo no terreno do segundo" (Obra citada, págs. 233-234).

Bukarin, tomando posições trotskistas, afirmou que os camponeses tinham idéias defensivas, que formavam um bloco com a burguesia e não marchariam com a classe operária.

Refutando Bukarin, o camarada Stalin demonstrou que havia diversas classes de camponeses: os camponeses ricos, que apoiavam a burguesia imperialista, e os camponeses pobres, que desejavam aliar-se à classe operária e a apoiavam na luta pelo triunfo da revolução.

O Congresso rechaçou as emendas de Preobrazhenski e Bukarin e aprovou o projeto de resolução do camarada Stalin.

O Congresso examinou e aprovou a plataforma econômica do Partido bolchevique cujos pontos fundamentais eram: confiscação das terras dos latifundiários e nacionalização de toda a terra do país, nacionalização dos bancos, nacionalização da grande indústria, controle operário sobre a produção e a distribuição.

Ressaltou o Congresso a importância da luta pelo controle operário sobre a produção, que desempenhava um grande papel como medida de transição para a nacionalização da grande indústria.

Em todas as resoluções, o VI Congresso insistiu de um modo especial na importância da tese leninista sobre a aliança do proletariado e os camponeses pobres, como condição para o triunfo da revolução socialista.

A teoria menchevique da neutralidade dos sindicatos foi condenada pelo Congresso. Este assinalou que, para poder resolver os grandes problemas que se apresentavam à classe operária da Rússia, era indispensável que os sindicatos fossem organizações combativas de classe que acatassem a direção política do Partido bolchevique.

O Congresso aprovou uma resolução "Sobre as organizações juvenis", que naquela ocasião, não raro surgiram espontaneamente. Com seu trabalho ininterrupto, os bolcheviques conseguiram estreitar os laços destas organizações juvenis com o Partido, convertê-las em reservas deste.

Um dos problemas que se examinaram no Congresso foi o do comparecimento de Lenin ante os Tribunais. Kamenev, Rykov, Trotsky e outros haviam sustentado já, antecedendo-se ao Congresso, que Lenin devia entregar-se aos Tribunais da contra-revolução. O camarada Stalin se manifestou resolutamente contra esta tendência. O VI Congresso compartilhou também o ponto de vista de Stalin, por entender que o que se preparava não era um processo, mas uma repressão. O Congresso não duvidou nem um momento de que o propósito da burguesia não era outro senão o de se desfazer fisicamente de Lenin, como seu mais perigoso inimigo. Formulou seu protesto contra a encarniçada campanha policial-burguesa de que eram alvo os chefes do proletariado revolucionário e dirigiu uma saudação a Lenin.

No VI Congresso foram aprovados os novos estatutos do Partido. Neles se determinava que toda a organização do Partido se basearia nos princípios do centralismo democrático.

Isto significava o seguinte:

1. caráter eletivo de todos os órgãos de direção do Partido de baixo para cima;

2. prestação periódica de contas da gestão dos órgãos do Partido perante as organizações do Partido correspondente;

3. severa disciplina de Partido e submissão da minoria à maioria;

4. obrigatoriedade incondicional das resoluções dos órgãos superiores para os inferiores e para todos os membros do Partido.

Os estatutos do Partido dispunham que os novos membros fossem admitidos pelas organizações de base, mediante recomendação dos membros do Partido e prévia ratificação da assembléia geral dos membros da organização de base.

O VI Congresso admitiu no Partido os chamados "mezhraiontzi , com seu líder Trotsky. Era este pequeno grupo que tinha sido criado em Petrogrado em 1913 e do qual faziam parte elementos trotskistas-meneheviques e alguns antigos bolcheviques, desviados do Partido. Durante a guerra, esta organização teve um caráter centrista. Lutava contra os bolcheviques, mas sem estar de acordo em muitas coisas com os mencheviques, pelo que ocupava uma posição intermediária, centrista, vacilante. Ao celebrar-se o VI Congresso, os membros desta organização declararam que estavam identificados em tudo com os bolcheviques e pediram ingresso no Partido. O Congresso acedeu à sua petição, confiando em que com o tempo chegariam a ser verdadeiros bolcheviques. Alguns deles, como, por exemplo, Volodarski, Uritski e outros, chegaram, com eleito, a se converter em bolcheviques depois de entrarem no Partido. Mas Trotsky e os elementos mais afins a ele, que não eram muitos, não ingressaram no Partido, como havia de ficar demonstrado com o correr do tempo, pura trabalhar em favor dele, mas para, de dentro, enfraquecer e minar a sua força.

Todas as resoluções do VI Congresso visavam preparar o proletariado e os camponeses pobres para a insurreição armada. O VI Congresso encaminhou o Partido para a insurreição armada, para a revolução socialista.

O manifesto do Partido lançado pelo VI Congresso convidava os operários, os soldados e os camponeses a prepararem suas forças para os encontros decisivos com a burguesia. E terminava com estas palavras:

"Preparai-vos para novas batalhas, camaradas de luta! Permanecei firmes, valentes e serenos, sem vos deixardes levar por provocações, acumulando forças e formando vossas colunas de combate! Agrupai-vos sob a bandeira do Partido, proletários e soldados! Formai sob nossa bandeira, oprimidos do campo!"






Capítulo VIII

 

— O Partido Bolchevique Durante o Período da Intervenção Militar Estrangeira e da Guerra Civil

(1918-1920)


1

 

— Começa a intervenção militar estrangeira. — Primeiro período da guerra civil.


A assinatura da paz de Brest-Litovsk e o reforçamento do Poder Soviético, como resultado da série de medidas de tipo econômico-revolucionário adotadas por ele, nos momentos em que a guerra estava em seu apogeu nas frentes ocidentais, provocaram grande alarme entre os imperialistas da Europa Ocidental e, sobretudo, entre os da Entente.

Os imperialistas do campo da Entente receavam que a paz entre a Alemanha e a Rússia aliviasse a situação militar da Alemanha, piorando assim, portanto, a situação das tropas da Entente. Receavam, ainda mais, que a assinatura da paz entre a Riissia e a Alemanha acentuasse o anelo de paz em todos os países e em todas as frentes, prejudicando deste modo a causa da guerra, a causa dos imperialistas. Receavam, finalmente, que a existência do Poder Soviético num território tão grande como o da Rússia e os êxitos logrados por ele dentro do país, depois de ter derrubado o Poder da burguesia, fossem um exemplo contagioso para os operários e soldados dos países ocidentais, nos quais fermentava um profundo descontentamento contra aquela guerra interminável e que — seguindo o exemplo dos Russos — podiam chegar a voltar as baionetas contra seus amos e opressores. Por todas estas razões, os governos da Entente decidiram lançar-se à intervenção militar contra a Rússia, com o fim de derrubar o Poder Soviético e instaurar um Poder burguês que restabelecesse o regime capitalista dentro do país, anulasse o tratado de paz com os alemães e refizesse a frente de guerra contra a Alemanha e a Áustria.

Os imperialistas da Entente embarcaram alegremente nesta aventura tenebrosa, convencidos como estavam da instabilidade do Poder Soviético e certos de que, por pouco que seus inimigos se esforçassem, sua queda seria inevitável e rápida.

Maior ainda era o alarme que os êxitos do Poder Soviético e seu reforçamento infundiam nas fileiras das classes derrubadas — entre os latifundiários e os capitalistas, — nas fileiras dos partidos derrotados — kadetes, mencheviques, social-revolucionários, anarquistas e nacionalistas burgueses de todos os matizes — e nas fileiras dos generais brancos, da oficialidade cossaca, etc.

Desde os primeiros dias do triunfo da Revolução de Outubro, todos estes elementos inimigos gritavam a pleno pulmão que o Poder Soviético não podia enraizar-se na Rússia, que estava condenado a morrer, que se desmoronaria forçosamente ao cabo de uma ou duas semanas, dentro de um mês, ou no máximo, de dois ou três meses. E como o Poder Soviético, apesar dos exorcismos de seus adversários, continuava existindo e se reforçando, os inimigos do Poder Soviético dentro da Rússia viram-se obrigados a reconhecer que o novo Poder era muito mais forte do que eles haviam pensado e que para derrubá-lo seria necessário desenvolver sérios esforços e desencadear uma luta feroz de todas as forças da contra-revolução. Em vista disso, decidiram desenvolver um amplo trabalho sedicioso e contra-revolucionário destinado a agrupar as forças da contra-revolução, recrutar quadros militares e organizar a sublevação, sobretudo, nas regiões dos cossacos e dos kulaks.

E assim, já no primeiro semestre do ano de 1918, formaram-se de um modo definido dois grupos de forças dispostas a lutar para derrubar o Poder Soviético: no estrangeiro, os imperialistas da Entente, e dentro da Rússia, a contra-revolução.

Nenhuma destas duas forças contava com elementos suficientes para se lançar por si só a conquistar o objetivo apetecido. A contra-revolução interior dispunha de alguns quadros militares, assim como de certa quantidade de homens, recrutados principalmente entre os cossacos acomodados e os kulaks, com os quais necessitava contar para desencadear a insurreição contra o Poder Soviético. Porém precisava de dinheiro e armas. Em compensação, os imperialistas estrangeiros tinham dinheiro e armas, porém não podiam "destinar" à intervenção a quantidade necessária de tropas, não só porque necessitavam delas para fazer a guerra contra a Alemanha e a Áustria, como também porque, estas tropas podiam tornar-se pouco seguras na luta contra o Poder Soviético.

As condições de luta contra os Soviets impunham a unificação de ambas as forças anti-soviéticas, as do estrangeiro e as do interior. Com efeito, esta unificação se consumou, no primeiro semestre do ano de 1918.

Assim foi como se forjou a intervenção armada estrangeira contra o Poder Soviético, apoiada pelas sedições contra-revolucionárias dos inimigos dos Soviets dentro da Rússia.

Com isto, terminava a trégua e começava a guerra civil na Rtíssia, a guerra dos operários e camponeses dos povos da Rússia contra os inimigos exteriores e interiores do Poder Soviético.

Os imperialistas da Inglaterra, França, Japão e Estados Unidos começaram sua intervenção militar sem prévia declaração de guerra, apesar desta intervenção não ser mais que uma guerra desencadeada contra a Rússia e uma guerra, além disso, da pior espécie. Estes bandoleiros "civilizados" estenderam as suas garras e desembarcaram suas tropas no território russo, sub-repticiamente, como ladrões.

As tropas anglo-francesas desembarcaram no Norte da Rússia, ocuparam Arkangelsk e Murmansk, apoiando a sublevação dos guardas brancos organizada nesta região, derrubaram o Poder dos Soviets e criaram o chamado "governo do Norte da Rússia", governo faccioso de guardas brancos.

As tropas japonesas desembarcaram em Vladivostok, apoderaram-se da Província marítima, dissolveram os Soviets e apoiaram os guardas brancos facciosos que se encarregaram depois de restaurar o regime burguês.

No Cáucaso do Norte, os generais Kornilov, Alexeiev e Denikin, apoiados pelos ingleses e os franceses, organizaram um "Exército voluntário" de guardas brancos, desencadearam uma sublevação de cossacos ricos e abriram a campanha contra os Soviets.

Na região do Don, os generais Krasnov e Mamontov, apoiados secretamente pelos imperialistas alemães (o tratado de paz entre a Alemanha e a Rússia os impedia de lhes prestar um apoio franco), desencadearam a sublevação dos cossacos do Don, ocuparam a região banhada por este rio e abriram também a campanha contra os Soviets.

Na região central do Volga e na Sibéria, os anglo-franceses intrigaram para organizar a sublevação do corpo de Exército tchecoslovaco. Este corpo de exército, composto por prisioneiros de guerra, havia sido autorizado pelo governo soviético a regressar ao seu país pela Sibéria e Extremo Oriente. Em caminho, os social-revolucionários e os ingleses e franceses induziram-no a se sublevar contra o Poder Soviético. A sublevação deste corpo de exército foi o sinal para o levante sedicioso dos "kulaks" do Volga e da Sibéria e dos operários das fábricas de Votkinsk e Izhevsk influenciados pelos social-revolucionários. Na região do Volga foi instaurado um governo de guardas brancos e social-revolucionários, com sede em Samara. Em Omsk, estabeleceu-se o governo dos guardas brancos da Sibéria.

A Alemanha não tomou nem podia tomar parte nesta campanha de intervenção do bloco anglo-franco-japonês-norte-americano, entre outras coisas, pela simples razão de que se achava em guerra contra este bloco. Porém, apesar disto e da existência de um tratado de paz entre a Riissia e a Alemanha, nenhum bolchevique abrigava a menor dúvida de que o governo alemão do Kaiser era um inimigo tão feroz do País Soviético como os intervencionistas ingleses, franceses, japoneses e norte-americanos. E, com efeito, os imperialistas alemães fizeram o possível e o impossível para isolar, enfraquecer e afundar o País dos Soviets. Separaram a Ucrânia da Rússia Soviética — é certo que baseados num "tratado" com a Rada ucraniana, — introduziram suas tropas na Ucrânia, a pedido da Rada ucraniana dos guardas brancos, começaram a saquear e oprimir ferozmente o povo ucraniano, proibindo-o de manter o menor contato com a Riíssia Soviética. Separaram desta a Transcaucásia, georgianos e azerbaidjanos, tropas alemãs e turcas, começaram a mandar como amos e senhores em Tiflis e Bakú, e ajudaram por todos os meios, embora sorrateiramente, com anuas e provisões, o general Krasnov, sublevado no Don contra o Poder Soviético.

A Rússia Soviética via-se deste modo isolada das regiões que eram suas fontes básicas de abastecimentos, de matérias-primas e de combustíveis.

A vida na Rússia Soviética, durante este período foi terrivelmente dura. Escasseava o pão. Escasseava a carne. A fome mortificava os operários. Os operários de Moscou e Petrogrado recebiam uma ração de pão de um oitavo de libra a cada dois dias. Havia dias em que não se distribuía nem um pedaço de pão. As fábricas estavam paradas ou trabalhavam muito pouco, pois não havia matérias-primas nem combustíveis. A classe operária, porém, nao se acovardava, nem se acovardava tampouco o partido bolchevique. As incríveis dificuldades deste período e a luta desesperada contra elas revelaram como são inesgotáveis as energias que a classe operária armazena e como é grande e incomensurável a força da autoridade do Partido bolchevique.

O Partido proclamou o país um campamento de guerra e reconstruiu sua vida econômica, política e cultural em consonância com isto. O governo soviético declarou que "a pátria socialista estava em perigo" e chamou o povo à defesa revolucionária. Lenin lançou a palavra de ordem de "Tudo para a frente!", e centenas de milhares de operários e camponeses se alistaram como voluntários no Exército Vermelho e foram para a frente. Cerca da metade do total de filiados ao Partido e às Juventudes Comunistas foram ocupar o seu posto nas frentes de luta. O Partido pôs o povo de pé para a guerra de salvação da Pátria contra a invasão das tropas dos intervencionistas estrangeiros e contra a sublevação das classes exploradoras derrubadas pela revolução. O Conselho da Defesa operária e camponesa organizado por Lenin, dirigia o envio de homens, víveres, equipamentos e armas para as frentes. A mudança do sistema do voluntariado ao serviço militar obrigatório levou para as fileiras do Exército Vermelho centenas de milhares de homens de reforço, e em pouco tempo o Exército Vermelho se converteu num Exército de um milhão de combatentes.

Apesar da duríssima situação do país e da pouca idade do Exército Vermelho, que ainda não havia logrado fortalecer-se, as medidas de defesa adotadas não tardaram em acarretar os primeiros êxitos. O general Krasnov foi repelido em Tsaritsin, de cuja tomada estava seguro, e rechaçado para além do Don. As aventuras do general Denikin ficaram localizadas dentro de uma região reduzida do Cáucaso do Norte, e o general Kornilov foi morto em combate contra o Exército Vermelho. Os tchecoslovacos e os bandos de social-revolucionários e guardas brancos foram desalojados de Kazán, Simsbirsk e Samara e arrojados para os Urais. A sublevação do guarda branco Savinkov em Iaroslav, organizada pelo chefe da Missão inglesa em Moscou, Lockhart, foi esmagada e Lockhart detido. Os social-revolucionários, que haviam assassinado os camaradas Uritski e Volodarski e perpetrado o atentado criminoso contra a vida de Lenin, foram submetidos ao terror vermelho em resposta ao terror branco desencadeado por eles contra os bolcheviques, sendo esmagados em todo os pontos mais ou menos importantes da Rússia central.

Nestes combates contra os inimigos se temperou e se fez forte e vigoroso o jovem Exército Vermelho.

Os comissários comunistas que atuaram durante este período no Exército Vermelho desempenharam um papel decisivo na obra de fortalecimento do Exército, na obra de sua educação política, na obra de reforçamenfo de sua capacidade combativa e de sua disciplina.

Compreendia porém o Partido bolchevique que estes êxitos do Exército Vermelho não resolviam o problema, que só eram os êxitos iniciais. Compreendia que o aguardavam novos combates, ainda mais encarniçados, e que o país só poderia recobrar as regiões perdidas, que eram suas fontes de abastecimento de matérias-primas e de combustível, à custa de uma longa e dura luta contra seus inimigos. Por isto, os bolcheviques começaram a se preparar intensivamente para uma guerra longa e decidiram pôr toda a retaguarda a serviço da frente. O governo soviético implantou o comunismo de guerra. O Poder dos Soviets pôs sob seu controle, alem da grande indústria, a indiistria pequena e média, com o fim de acumular os artigos de primeira necessidade para abastecer o Exército e o campo. Implantou o monopólio do comércio do trigo, proibiu o comércio privado de cereais e introduziu o sistema de quotização de produtos agrícolas, com o objetivo de mobilizar toda a sobra dos produtos recolhidos pelos camponeses, formar um estoque de trigo e abastecer de víveres o Exército e os operários. Finalmente, implantou o trabalho obrigatório, extensivo a todas as classes da população. Esta incorporação da burguesia ao trabalho físico obrigatório permitia utilizar os operários para outros trabalhos mais importantes inclusive na frente, e com isto o Partido punha em prática, o princípio de "quem não trabalha, não come".

Todo este sistema de medidas impostas pelas condições extraordinariamente difíceis em que se devia organizar a defesa do país, tinha caráter provisório e se englobava sob o nome de comunismo de guerra.

O país se preparava para uma longa e dura guerra civil contra os inimigos exteriores e interiores do Poder Soviético. Em fins do ano de 1918, houve necessidade de triplicar o contingente do Exército. Este Exército exigia que se acumulassem os meios necessários para abastecê-lo.

Eis como se expressava Lenin, por aqueles dias:

"Decidimos ter um Exército de um milhão de homens para a primavera: agora necessitamos um Exército de três milhões de homens. Podemos ter este Exército e o teremos".



2

 

— Derrota militar da Alemanha.

— A revolução alemã.

— Fundação da Terceira Internacional.

— O VIII Congresso do Partido.


Enquanto o País Soviético se preparava para novos combates contra os intervencionistas estrangeiros, no Ocidente, na retaguarda e nas frentes dos países beligerantes, se produziam acontecimentos decisivos. A Alemanha e a Áustria iam ficando exaustas entre os tormentos da guerra e da crise de subsistência. Enquanto a Inglaterra, França e Estados Unidos mobilizavam novas reservas, a Alemanha e a Áustria esgotaram as últimas e exíguas reservas de que podiam dispor. Tal como estava a coisa, a Alemanha e a Áustria, esgotadas a mais não poder, tinham que ser derrotadas sem demora.

Entretanto, ia fermentando dentro desses países a indignação do povo contra aquela guerra interminável e aniquiladora e contra os governos imperialistas desses países que haviam conduzido o povo ao esgotamento e à fome. Também aqui se revelava a formidável influência revolucionária da Revolução de Outubro, de atos de confraternização entre os soldados soviéticos e os soldados austro-alemães na frente, antes mesmo da paz de Brest-Litovsk e, depois desta, a influência da própria terminação da guerra contra a Rússia Soviética e da paz concertada com ela. O exemplo da Rússia, onde o povo pôs fim à guerra mediante a derrubada do seu próprio governo imperialista, não podia deixar de servir de experiência aos operários austro-alemães. E os soldados alemães da frente Oriental que haviam sido transferidos para a frente Ocidental, depois da paz de Brest, tinham forçosamente que contribuir para decompor o Exército alemão ali destacado, com seus relatos acerca dos atos de confraternização com os soldados soviéticos e acerca do modo como estes souberam desembaraçar-se da guerra. Quanto ao Exército austríaco, começara a se decompor mesmo antes que o alemão, como resultado das mesmas causas. Todas estas circunstâncias contribuíram para aumentar nas tropas alemãs o anelo de paz, para fazer que já não dessem provas da mesma combatividade de antes e para que começassem a retroceder ante o arrojo das tropas da Entente; no interior da Alemanha, estalou, em novembro de 1918, a revolução, derrubando o Kaiser e o seu governo.

A Alemanha se viu obrigada a reconhecer sua derrota e a pedir a paz à Entente.

Deste modo, a Alemanha, potência de primeira ordem, ficava reduzida de repente, à situação de uma potência de segunda ordem.

Do ponto de vista da situação do Poder Soviético, este fato exerceu certa influência negativa, já que convertia os Estados da Entente, oragnizadores da intervenção contra o Poder Soviético na força dominante da Europa e da Ásia, dando-lhes a possibilidade de intensificar a intervenção e de organizar o bloqueio do País Soviético, apertando ainda mais as muralhas em torno do Poder dos Soviets. E isto foi, com efeito, o que ocorreu, como veremos adiante. De outra parte, porém, tinha uma importância positiva ainda mais considerável, que vinha aliviar radicalmente a situação do país dos Soviets. Em primeiro lugar, dava ao Poder Soviético a possibilidade de anular o tratado de paz bandido de Brest-Litovsk, de pôr fim aos pagamentos que lhe foram impostos a título de indenização e de desenvolver uma luta aberta, no terreno militar e político, para libertar a Estônia, a Letônia, a Bielo-Rússia, a Lituânia, a Ucrânia, e a Transcaucásia do jugo do imperialismo alemão. Em segundo lugar — e isto era o mais importante, — a existência no centro da Europa, na Alemanha, de um regime republicano e de Soviets de deputados operários e soldados, tinha necessariamente que repercutir de um modo revolucionário, como de fato repercutiu, nos países da Europa, circunstância que tinha de fortalecer a situação do Poder Soviético na Rússia. É certo que a revolução não era uma revolução socialista, senão uma revolução burguesa, e que os Soviets na Alemanha serviram de dócil instrumento ao parlamento da burguesia, já que a sua direção estava nas mãos dos social-democratas, que eram oportunistas da laia dos mencheviques russos, circunstância que explica especialmente, a debilidade daquela revolução. Quanto era débil a revolução na Alemanha o demonstra um só fato: o de que permitisse que, pelos guardas brancos alemães fossem impunemente assassinados revolucionários de tanto prestígio como Rosa Luxemburgo e Carlos Liebknecht. Porém apesar disso, era uma revolução; o Kaiser foi derrubado do trono; os operários romperam suas cadeias e, ainda que não se houvesse conseguido ou Ira coisa, isto tinha necessariamente que fomentar a revolução no Ocidente, não podia deixar de provocar o auge da revolução nos países europeus.

A revolução começou a avançar na Europa. Na Áustria vinha se desenvolvendo o movimento revolucionário. Na Hungria foi proclamada a República dos Soviets. A onda revolucionária fez aparecer os Partidos Comunistas na Europa.

Isto criou uma base real para a unificação dos Partidos Comunistas na Terceira Internacional, na Internacional Comunista.

Em março de 1919, em Moscou, no primeiro Congresso dos Partidos Comunistas de vários países, por iniciativa de Lenin e dos bolcheviques, foi fundada a Internacional Comunista. E ainda que o bloqueio e as perseguições dos imperialistas impedissem a muitos delegados chegar a Moscou, tomaram parte neste primeiro Congresso representantes dos mais importantes países da Europa e da América. O Congresso foi dirigido por Lenin. No seu informe sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado, Lenin salientou a significação do Poder Soviético, como a autêntica democracia para os trabalhadores. O Congresso aprovou o Manifesto dirigido ao proletariado Internacional, no qual se fazia um apelo à luta pela ditadura do proletariado e pelo triunfo dos Soviets em todos os países. Neste Congresso se elegeu o Comitê Executivo do Comintern (C. E. da I. C.) órgão executivo da Terceira Internacional ou Internacional Comunista.

Assim foi fundada esta organização proletária revolucionária internacional de novo tipo, a Internacional Comunista, Internacional marxista-leninista.

Numa situação formada por circunstâncias contraditórias, em que se reforçava o bloco reacionário de Estados da Entente contra o Poder Soviético, de uma parte, e, de outra, se acentuava o auge revolucionário na Europa, principalmente nos países que saíram derrotados da guerra, circunstância que aliviava consideravelmente a situação do País Soviético, se reuniu, em março de 1919, o VIII Congresso do Partido bolchevique.

Neste Congresso tomaram parte 301 delegados com direito de palavra e voto, representando 313.766 filiados. Havia, além disso, 102 delegados com palavra, porém sem direito a votar.

Lenin consagrou as primeiras palavras do seu discurso de abertura à memória de I. M. Sverdlov, um dos melhores organizadores do Partido bolchevique, morto nas vésperas da abertura do Congresso.
Neste Congresso foi aprovado o novo programa do Partido.

Define-se nele o que é o capitalismo e sua fase culminante, o imperialismo. Comparam-se os dois sistemas de Estados: o sistema da democracia burguesa e o sistema Soviético. Assinalaram-se minuciosamente as tarefas concretas do Partido na sua luta pelo socialismo: levar até o fim a expropriação da burguesia, organizar a Economia do país segundo um plano socialista único, fazer com que os sindicatos intervenham na organização da Economia nacional, implantar a disciplina socialista do trabalho, utilizar os técnicos na Economia nacional, sob o controle dos órgãos soviéticos, incorporar gradualmente e segundo um plano os camponeses médios ao trabalho da edificação socialista.

O VIII Congresso aprovou por proposta de Lenin incluir no programa, não só a definição do imperialismo como etapa culminante do capitalismo, como também a descrição do capitalismo industrial e do regime de produção simples de mercadorias, que figurava no velho programa, aprovado já no II Congresso do Partido. Lenin considerava necessário que fosse levada em conta no programa a complexidade da Economia russa, e se assinalasse a existência no país de diversas formações econômicas, incluindo entre elas o regime de pequena produção de mercadorias, cujo expoente era o camponês médio. Por isso, ao se discutir o programa, interveio energicamente contra as idéias antibolcheviques de Bukarin, que propunha eliminar dele os pontos em que se falava de capitalismo da pequena produção de mercadorias e do regime econômico do camponês médio. As idéias de Bukarin representavam a negação menchevique-trotskista da importância do camponês médio para a edificação soviética. Ao mesmo tempo, Bukarin escondia o fato de que era o regime da pequena produção de mercadorias dos camponeses o que engendra e fomenta o desenvolvimento dos elementos "kulaks".

Lenin também combateu as idéias antibolcheviques de Bukarin e Piatakov sobre o problema nacional. Estes se manifestaram contra a inclusão no programa do ponto no qual se reconhece o direito de autodeterminação das nações e se pronunciaram contra a igualdade de direitos dos povos, sob o pretexto de que esta palavra de ordem estorvava, segundo eles, o triunfo da revolução proletária e difictdtava a unificação dos proletários de diversas nacionalidades. Lenin lançou por terra estas funestíssimas concepções absorventes e chovinistas de Bukarin e Piatakov.

Nos trabalhos do VIII Congresso do Partido, ocupou um lugar importante o problema da atitude que se devia adotar em face dos camponeses médios. Como resultado do célebre decreto sobre a terra, a aldeia se convertia cada vez mais em aldeia de camponeses médios. Agora, estes formavam a maioria dentro da população camponesa. O estado de espírito e a conduta dos camponeses médios, vacilantes entre a burguesia e o proletariado, tinham uma importância enorme para a sorte da guerra civil e da edificação socialista. O desenlace da guerra civil dependia, em boa parte, do lado para o qual se inclinasse o camponês médio, da classe que soubesse conquistá-lo, de que esta classe fosse o proletariado ou a burguesia. Se os tchecoslovacos, os guardas brancos, os kulaks, os social-revolucionários e os mencheviques lograram derrubar o Poder Soviético na região do Volga, no verão de 1918, foi porque contaram com o apoio de uma parte considerável dos camponeses médios. E o mesmo ocorreu nas sublevações organizadas pelos kulaks na Rússia central. A partir porém do outono de 1918, o estado de espírito das massas de camponeses médios começou a se orientar resolutamente para o Poder Soviético. Os camponeses viam que o triunfo dos brancos conduzia à restauração do poder dos latifundiários, com os conseqüentes despojos de terras, saques, torturas e espancamentos de camponeses. Para esta mudança operada quanto ao modo de pensar dos camponeses contribuiu também a atuação dos Comitês de camponeses pobres, que esmagou os kulaks. Em relação com isto, Lenin lançou, em novembro de 1918, esta palavra de ordem:

"Saber chegar a um acordo com os camponeses médios, sem cessar nem um minuto a luta contra os kulaks e tomando como sólido ponto de apoio somente os camponeses pobres". (Lenin, t. XXIII, pág. 294, ed. russa).

E certo que as vacilações existentes entre os camponeses médios não cessaram totalmente, porém este setor da população camponesa se aproximou mais do Poder Soviético e começou a lhe prestar um apoio mais firme. Para isso contribuiu, em boa parte, a política traçada no VIII Congresso do Partido, em relação ao camponês médio.

O VIII Congresso marcou uma mudança na política do Partido a respeito dos camponeses médios. No informe de Lenin e nas resoluções do Congresso, destacou-se a nova linha do Partido em face deste problema. O Congresso exigiu que as organizações do Partido e todos os comunistas estabelecessem uma rigorosa diferença e separação entre os camponeses médios e os kulaks, fazendo por atrair os primeiros para o lado da classe operária mediante uma política de atenção solícita às suas necessidades. Era preciso lutar contra o atraso dos camponeses médios com o método da persuasão, porém de modo algum com medidas de coação e de violência. Por isso, o Congresso traçou a norma de que, ao implantar medidas socialistas no campo (ao criar as comunas e os arteis agrícolas), não se permitisse a coação. Sempre que fossem feridos os interesses vitais dos camponeses médios, era necessário chegar a um acordo prático com eles e lhes fazer concessões quanto à fixação dos métodos de implantação das transformações socialistas. O Congresso resolveu aplicar uma política de sólida aliança com os camponeses médios, porém mantendo dentro dela o papel dirigente do proletariado.

A nova política de relações com os camponeses médios, preconizada por Lenin no VIII Congresso, exigia que o proletariado se apoiasse nos camponeses pobres, mantivesse uma sólida aliança com os camponeses médios e lutasse contra os kulaks. Até o VIII Congresso, o Partido havia seguido, em geral, a política de neutralizar os camponeses médios. Isto é, seu objetivo era conseguir que o camponês médio não se pusesse ao lado do kulaks, ao lado da burguesia, em geral. Porém, agora, isto já não bastava. O VIII Congresso passou da política de neutralização do camponês médio à política de uma sólida aliança com ele para lutar contra a intervenção dos guardas brancos e das tropas estrangeiras, assim como para a edificação vitoriosa do socialismo.

A linha traçada pelo VIII Congresso a respeito da atitude que se devia seguir com as grandes massas camponesas, com os camponeses médios, teve uma importância decisiva quanto ao desenlace vitorioso da guerra civil contra a intervenção estrangeira e os guardas brancos que lhe serviam de auxiliares. No outono de 1919, quando tiveram que escolher entre o Poder Soviético e Denikin, os camponeses apoiaram os Soviets, e a ditadura proletária derrotou o seu mais perigoso inimigo.

No VIII Congresso se apresentou também, com caracteres especiais, o problema da organização do Exército Vermelho. Neste Congresso, se destacou a chamada "oposição militar", na qual apareciam enquadrados não poucos dos antigos "comunistas de esquerda". Porém justamente com estes representantes do "comunismo de esquerda", já liquidado, a "oposição militar" englobava militantes do Partido que jamais haviam participado de nenhuma oposição, porém que estavam descontentes com a direção que Trotsky dava ao Exército. A maioria dos delegados militares estava acentuadamente contra Trotsky, contra sua admiração pelos técnicos militares procedentes do velho Exército czarista, uma parte dos quais traiu abertamente o Poder Soviético na guerra civil, contra a atitude arrogante e hostil de Trotsky para os velhos quadros bolcheviques dentro do Exército. No Congresso se aduziram exemplos da "forma prática" como Trotsky tentara fuzilar toda uma série de comunistas que ocupavam postos responsáveis na frente e que não lhe agradavam, fazendo com isso o jogo do inimigo, e como, só graças à intervenção do Comitê Central e aos protestos dos militantes ativos da frente, se conseguira evitar a morte desses camaradas.

Entretanto, ainda que lutando contra o desvirtuamento da polícia militar do Partido por Trotsky, a "oposição militar" defendia concepções falsas a respeito de uma série de problemas da organização do Exército. Lenin e Stalin intervieram resolutamente contra a "oposição militar" que defendia as sobrevivências da guerrilha dentro do Exército e lutava contra a criação de um Exército Vermelho regular, contra o emprego dos técnicos militares, contra essa disciplina férrea sem a qual não pode existir um verdadeiro Exército. Combatendo a "oposição militar", o camarada Stalin exigia a criação de um Exército regular, compenetrado do espírito da mais severa disciplina.

"Ou criamos — dizia o camarada Stalin — um verdadeiro Exército operário-camponês, e predominantemente camponês, um Exército rigorosamente disciplinado e defendemos a República, ou pereceremos".

Ao mesmo tempo, porém, que rejeitava uma série de propostas da "oposição militar", o Congresso assestou um golpe contra Trotsky, exigindo que se melhorasse a atuação dos organismos militares centrais e se reforçasse o papel dos comunistas dentro do Exército.

Como resultado do trabalho da comissão militar nomeada pelo Congresso, logrou-se que deste saísse uma resolução unânime sobre o problema militar.

As resoluções do VIII Congresso sobre o problema militar serviram para fortalecer o Exército Vermelho e estreitar ainda mais seus laços com o Partido.

O Congresso examinou, além disso, o problema da organização do Partido na atuação dos Soviets. Na discussão deste problema, o Congresso teve que rechaçar a posição do grupo oportunista Sapronov—Osinski, que negava o papel dirigente do Partido na atuação dos Soviets.

Finalmente, em relação com a enorme afluência de novos filiados, o Congresso tomou a resolução de melhorar a composição social do Partido e rever os ingressos.

Era o passo para a primeira depuração das fileiras do Partido.



3

 

— Recrudesce a intervenção.

— Bloqueio do País Soviético.

— Campanha de Kolchak e seu esmagamento.

— Campanha de Denikin e seu esmagamento. — Uma trégua de três meses.

— O IX Congresso do Partido.


Depois de derrotar a Alemanha e a Áustria, os Estados da Entente decidiram lançar grandes efetivos militares contra o País Soviético. Ao se retirarem as tropas alemãs, depois da derrota, da Ucrânia e da Transcaucásia, vieram ocupar seu posto os anglo-franceses, que enviaram a esquadra do Mar Negro e desembarcaram suas tropas em Odessa e na Transcaucásia. A conduta seguida pelos intervencionistas da Entente, nos territórios ocupados por eles era tão bestial, que chegavam a suprimir pelas armas grupos inteiros de operários e camponeses. Depois de ocupar o Turquestão, a selvageria dos invasores levou-os a aprisionar e conduzir ao Transcáspio 26 dirigentes bolcheviques de Bakú, os camaradas Shaumian, Filetov, Dzhaparidse, Malyguin, Asisbekov, Korganov e outros, assassinando-os bestialmente, com a ajuda dos social-revolucionários.

Algum tempo depois, os intervencionistas declararam o bloqueio da Rússia. Ficaram cortadas todas as comunicações marítimas e de outro gênero com o mundo exterior.

Com isso o País Soviético se via cercado quase por todas as partes.

A Entente depositava suas principais esperanças, naquele momento, no almirante Kolchak, posto por ela na Sibéria, em Omsk. Kolchak foi proclamado "regente supremo da Rússia". Toda a contra-revohição russa se achava sob seu comando.

A frente Oriental passou a ser, portanto, a frente principal da guerra civil.

Na primavera de 1919, Kolchak, depois de reunir um formidável Exército, se aproximou quase até o Volga. Foram lançadas contra ele as melhores forças bolcheviques: os jovens comunistas e os operários foram mobilizados. Em abril de 1919, o Exército Vermelho inflingiu a Kolchak uma séria derrota. As tropas de Kolchak não tardaram em começar o recuo em toda a frente.

No momento em que as operações ofensivas do Exército Vermelho na frente Oriental estavam em seu apogeu, Trotsky propôs um plano suspeito: deter-se diante dos Urais, cessar a perseguição dos kolchakistas e lançar as tropas da frente Oriental para a frente Sul. O CC do Partido, compreendendo perfeitamente bem que não era possível deixar os Urais e a Sibéria nas mãos de Kolchak, onde, com a ajuda dos japoneses e dos ingleses, poderia refazer-se e pôr-se de novo em pé, rechaçou aquele plano e deu instruções para prosseguir a ofensiva. Trotsky não concordando com estas instruções, pediu demissão do seu posto; porém o CC se negou a isto, obrigando-o, ao mesmo tempo, a não intervir na direção das operações da frente Oriental. A ofensiva do Exército Vermelho contra Kolchak continuou se desenvolvendo com renovado vigor. O Exército Vermelho inflingiu a Kolchak uma série de novas derrotas e fez a limpeza dos brancos nos Urais e na Sibéria, onde o Exército Vermelho se encontrava apoiado por um potente movimento de guerrilheiros, organizados na retaguarda dos brancos.

No verão de 1919, os imperialistas confiaram ao general Yudenich que se achava dirigindo a contra-revolução na frente Noroeste (na região do Báltico, próxima de Petrogrado), a missão de distrair o Exército Vermelho da frente Oriental por meio de um ataque a Petrogrado. A guarnição de dois dos fortes que defendiam essa capital, trabalhada Pela agitação contra-revolucionária dos oficiais brancos, se sublevou contra o Poder Soviético, e no Estado-Maior da frente foi descoberto um "complot" contra-revolucionário. O inimigo ameaçava Petrogrado. Graças porém às medidas tomadas pelo Poder Soviético com a ajuda dos operários e dos marinheiros, os fortes amotinados foram limpos dos brancos, as tropas de Yudenich derrotadas e o seu caudilho lançado para a Estônia.

A derrota de Yudenich perto de Petrogrado facilitou a luta contra Kolchak. Em fins de 1919, o seu Exército ficou definitivamente desbaratado. Kolchak foi detido e fuzilado em cumprimento da sentença baixada pelo Comitê Revolucionário.

Kolchak, foi, pois, liquidado.

Na Sibéria, corria na boca do povo esta quadra depreciativa sobre Kolchak:

"Uniforme inglês,
Correame francês,
Tabaco japonês
De Omsk o amo é.

O uniforme se gastou
O correame se enrugou
O tabaco se fumou
E o amo de Omsk se acabou".

Em vista de Kolchak não ter correspondido às esperanças nele depositadas, os intervencionistas mudaram o plano de agressão contra a República dos Soviets. As tropas desembarcadas em Odessa tiveram de voltar de novo para bordo dos seus navios, pois o contato com as tropas da República Soviética lhes contagiava o espírito revolucionário e já começavam a se sublevar contra seus opressores imperialistas. Assim, por exemplo, em Odessa se sublevaram os marinheiros franceses sob a direção de André Marty. Tudo isto contribuiu para que, depois de esmagado Kolchak, a Entente concentrasse a atenção no general Denikin, companheiro de armas de Kornilov e organizador do "Exército voluntário". Denikin operava contra o Poder Soviético, naquele momento, no Sul, na região do Kuban, o fez marchar para o Norte contra o poder dos Soviets.

Portanto, a frente Sul passava a ser a frente principal da guerra civil.

Denikin começou a sua grande campanha contra o Poder Soviético no verão de 1919. Trotsky lançou por terra o trabalho realizado na frente Sul, e as tropas soviéticas sofreram derrotas, uma atrás da outra. Em meados de outubro, os brancos eram donos de toda a Ucrânia, tomaram Orei e se aproximavam de Tula, que era o centro que abastecia o Exército Vermelho de cartuchos, fuzis e metralhadoras. Os brancos se aproximavam de Moscou. A situação da República Soviética era muito grave. O Partido deu o grito de alarme e chamou o povo para a resistência. Lenin lançou a palavra de ordem de "Toda a luta contra Denikin!" Os operários e os camponeses, respondendo ao chamado dos bolcheviques, puseram em jogo todas as suas forças para esmagar o inimigo.

Com o objetivo de organizar o esmagamento de Denikin, o Comitê Central do Partido enviou à frente Sul os camaradas Stalin, Voroshilov, Ordzhonikidise e Budieny. Trotsky foi afastado da direção das operações do Exército Vermelho no Sul. Antes da chegada do camarada Stalin, o comando da frente Sul, de acordo com Trotsky, havia preparado um plano, segundo o qual o ataque principal contra Denikin se faria de Tsaritsin sobre Novorossisk, através das estepes do Don, onde o Exército Vermelho teria que marchar por um terreno completamente impraticável e atravessar regiões povoadas por cossacos, uma parte considerável dos quais se achava então sob a influência dos guardas brancos. O camarada Stalin submeteu este plano a uma crítica demolidora e propôs ao Comitê Central outro, concebido por ele, para esmagar Denikin, em que o ataque principal seguiria a linha Karkov-Bacia do Donctz-Rostov. Este plano assegurava uma marcha rápida das tropas do Exército Vermelho contra Denikin, pois nele se previa a passagem do Exército Vermelho por regiões operárias e camponesas, isto é, por territórios em que a população simpatizava abertamente com as tropas soviéticas. Além disso, a rica rede ferroviária com que esta região contava permitia abastecer o Exército Vermelho com regularidade, de todos os elementos necessários. Finalmente, este plano oferecia a possibilidade de libertar a Bacia do Donetz, assegurando o aprovisionamento do país em combustível.

O Comitê Central aprovou o plano do camarada Stalin. Na segunda quinzena de outubro de 1919, depois de encarniçada resistência, Denikin foi derrotado pelo Exército Vermelho nos combates decisivos que se travaram perto de Orei e de Voronezh. Denikin começou a recuar com toda a pressa, dirigindo-se, precipitadamente, para o Sul, perseguido pelas tropas soviéticas. No começo de 1920, a Ucrânia e o Cáucaso Norte tinham sido libertadas do poder dos brancos.

Enquanto se travavam aqueles combates decisivos na frente Sul, os imperialistas voltaram a lançar o corpo do Exército de Yudenich contra Petrogrado, com o fim de distrair da frente Sul forças do Exército Vermelho e de aliviar a situação das tropas de Denikin. Os brancos chegaram até as portas de Petrogrado. O heróico proletariado da capital formou com seus peitos uma muralha para defender a primeira cidade da revolução. Os comunistas lutaram como sempre, na primeira linha. Depois de furiosos combates, os brancos foram derrotados e lançados de novo para o outro lado das fronteiras da Rússia, para a Estônia. Também Denikin foi, pois, liquidado.

Depois de esmagados Kolchak e Denikin, a trégua que sobreveio foi de curta duração.

Quando os imperialistas viram que as tropas dos guardas brancos eram destroçadas, que a intervenção armada fracassava, que o Poder Soviético se fortalecia em todo o país e que na Europa Ocidental aumentava a indignação dos operários em face da guerra dos intervencionistas contra a República dos Soviets, começaram a mudar de atitude para com o Estado Soviético. Em janeiro de 1920, a Inglaterra, a França e a Itália decidiram levantar o bloqueio da Rússia Soviética.

Era esta uma brecha importantíssima, que se abria no muro da intervenção.

Isto não queria dizer, naturalmente, que o Estado Soviético pudesse dar já por terminadas a intervenção e a guerra civil. Havia ainda o perigo de que a Polônia imperialista se lançasse a um ataque. Os intervencionistas não haviam sido expulsos ainda definitivamente do Extremo Oriente, da Transcaucásia nem da Criméia. Não obstante, o país dos Soviets obtinha uma trégtia passageira, da qual se podia aproveitar para concentrar maiores forças na obra da edificação econômica. O Partido pôde ocupar-se dos problemas relacionados com a Economia nacional.

Durante a guerra civil, abandonaram a produção muitos operários qualificados, pela paralisação de fábricas e oficinas. Agora, o Partido reintegrava na produção estes operários qualificados para que trabalhassem em suas especialidades. Foram mobilizados alguns milhares de comunistas para a restauração dos transportes, cuja situação era muito difícil. Sem restaurar os transportes, não se podia pensar seriamente em restaurar os ramos fundamentais da indústria. Reforçou-se e melhorou-se também o abastecimento. Começou-se a traçar um plano de eletrificação do país. Achavam-se de armas nas mãos 5 milhões de combatentes do Exército Vermelho, que não era possível licenciar, pois subsistia o perigo de guerra. Por isso, algumas unidades do Exército Vermelho foram convertidas num Exército de Trabalho, utilizando-as no terreno da edificação econômica. O Conselho da Defesa operária e camponesa se transformou no Conselho do Trabalho e da Defesa (S.T.O.). Para auxiliá-lo, criou-se a Comissão do Plano de Estado (Gosplan).

Tal era a situação existente em fins de março de 1920 ao se reunir o IX Congresso do Partido.

Tomaram parte neste Congresso 554 delegados com direito de palavra e voto, representando 611.978 filiados ao Partido. Assistiram a ele, além disso, 162 delegados com palavra, porém sem voto.
O Congresso determinou as tarefas econômicas mais urgentes do país em matéria de transportes e indústria, assinalando especialmente a necessidade de que os sindicatos tomassem parte na edificação econômica.

Este Congresso consagrou atenção especial ao problema da formação de um plano econômico de conjunto, destinado a pôr de novo em marcha, em primeiro lugar, o transporte, o combustível e a metalurgia. O eixo deste plano era o problema da eletrificação de toda a Economia nacional, que Lenin destaca como "um grande programa para 10 ou 20 anos". Sobre estas bases traçar-se-ia mais tarde o célebre plano GOELRO (plano de eletrificação do país), que hoje se acha ultrapassado.

O Congresso combateu o grupo do "centralismo democrático", grupo contrário ao Partido, que se manifestava contra o princípio da direção e da responsabilidade individuais nas empresas industriais e defendia o sistema da direção "coletiva" ilimitada e da irresponsabilidade na indústria. Os porta-vozes deste grupo antibolchevique eram Sapronov, Osinski e V. Smirnov. No Congresso, eram secundados por Rykov e Tomski.




4

 

— Agressão dos "panis" polacos contra o País Soviético.

— Aparecimento do general Wrangel.

— Fracasso do plano dos polacos.

— Esmagamento de Wrangel.

— Fim da intervenção armada.


Apesar do esmagamento de Kolchak e Denikin, apesar do País Soviético aumentar cada vez mais seu território, libertando do poder dos brancos e dos intervencionistas a região do Norte, o Turquestão, Sibéria, o Don, Ucrânia, etc, e apesar da Entente se vir obrigada a levantar o bloqueio da Rússia, os Estados da Entente não se queriam resignar à idéia de que o Poder Soviético fosse inexpugnável e ficasse vencedor. Decidiram, portanto, empreender uma nova tentativa de intervenção contra o País Soviético. Desta vez, os intervencionistas mobilizaram pra a empresa, de uma parte, Pilsudski, nacionalista contra-revolucionário burguês, que era, de fato, o chefe do Estado polaco, e de outra parte o general Wrangel, que havia reunido na Criméia os restos do Exército de Denikin, ameaçando de lá a bacia do Donetz e a Ucrânia.

A Polônia dos "panis" (a nobreza latifundiária polaca) e Wrangel eram, segundo a expressão de Lenin, os dois braços do imperialismo internacional que tentavam estrangular o País Soviético.

O plano dos polacos era: ocupar a parte da Ucrânia Soviética situada à direita do Dnisper, anexar o território soviético da Bielo-Rússia, instaurar nessas regiões o Poder dos "panis" polacos, estender as fronteiras do Estado Polaco "de mar a mar", isto é, de Dantzig a Odessa, e, em pagamento da ajuda que lhes prestaria Wrangel, ajudar este a destruir o Exército Vermelho e restaurar na Rússia Soviética o Poder dos latifundiários e capitalistas.

Este plano foi aprovado pelos Estados da Entente.

As tentativas do governo soviético de entrar em negociações com a Polônia para manter a paz e impedir a guerra não deram resultado nenhum. Pilsudski não queria falar em paz. Pilsudski queria a guerra. Especulava com a idéia de que os combatentes do Exército Vermelho, cansados das campanhas de Kolchak e Denikin, seriam esmagados pelas tropas polacas.

A breve trégua terminou.

Em abril de 1920, as tropas polacas lançaram-se sobre a fronteira da Ucrânia Soviética e ocuparam a cidade de Kiev. Ao mesmo tempo, Wrangel passou à ofensiva e começou a ameaçar a bacia do Donetz.

Como réplica ao ataque das tropas polacas, as tropas do Exército Vermelho lançaram uma contra-ofensiva em toda a frente. Depois de libertar a cidade de Kiev, e de expulsar os "panis" polacos da Ucrânia e da Bielo-Rússia, os combatentes vermelhos da frente Sul chegaram, em impetuoso avanço, até as portas de Lemberg, na Galitzia, enquanto que as tropas da frente Ocidental se aproximavam de Varsóvia. A derrota total do Exército dos "panis" polacos era iminente.

Mas os manejos suspeitos de Trotsky e seus adeptos no Estado-Maior Central do Exército Vermelho frustraram os êxitos deste. A ofensiva das tropas vermelhas da frente Ocidental em direção a Varsóvia se desenvolveu — por culpa de Trotsky e de Tukachevski — sem organização alguma: não se fez com que as tropas fortificassem as posições conquistadas; as unidades que marchavam na frente se afastaram demasiado do resto das forças; as reservas e as munições ficaram atrasadas na retaguarda, com o que as unidades da vanguarda se viam abandonadas, sem munições e sem reservas; a linha de frente era interminavelmente longa, podendo, portanto, romper-se a frente com grande facilidade. Assim se explica que, quando um pequeno grupo de tropas polacas rompeu a frente Ocidental do Exército Vermelho num de seus pontos, as tropas vermelhas, que estavam sem munições, se viram em má situação, obrigadas a retirar. Quanto às tropas da frente Sul, que se achavam às portas de Lemberg, onde mantinham os polacos em ma situação, o triste "presidente do Conselho Revolucionário de Guerra', Trotsky, lhes proibiu que tomassem a cidade e ordenou que o Exército de cavalaria, isto é, a principal força da frente Sul, se dirigisse a um ponto longe da frente Noroeste, sob pretexto de que se tratava de acudir em socorro da frente Ocidental, ainda que não fosse difícil compreender que a única e a melhor ajuda que se podia prestar a esta frente era a tomada da cidade de Lemberg. Ao contrário, retirar da frente Sul o Exército de cavalaria, afastando-o de Lemberg, equivalia, de fato, a fazer extensiva à frente Meridional a retirada das tropas do Exército Vermelho. Assim foi como a ordem sabotadora de Trotsky impôs às tropas do Exército Vermelho da frente Sul, com alegria dos "panis" polacos, uma retirada inconcebível e absolutamente injustificável.

Com esta manobra, se ia efetivamente, em socorro, não de nossa frente Ocidental, mas dos "panis" polacos e da Entente.

Alguns dias depois, conteve-se a ofensiva das tropas polacas, e o Exército Vermelho começou a se preparar para um novo ataque contra os polacos. A Polônia, porém, que carecia de forças para prosseguir a guerra e que, alarmada, esperava o contra-ataque dos vermelhos, foi obrigada a renunciar às suas ambições a respeito da ocupação do território ucraniano situado à margem direita do Dnieper e ao da Bielo-Rússia, propondo ao governo soviético a paz. Em 20 de outubro de 1920, assinou-se em Riga o tratado de paz com a Polônia, em virtude do qual esta conservava o território da Galitzia e uma parte da Bielo-Rússia.

Depois de estabelecer a paz com a Polônia, a República Soviética decidiu terminar com Wrangel. Este recebera dos ingleses e dos franceses novas remessas de armas moderníssimas: carros blindados, tanques, aviões e munições em abundância. Dispunha de unidades brancas de choque, formadas, principalmente, por oficiais. Não logrou porém mobilizar um contingente mais ou menos considerável de camponeses e de cossacos em tomo dos desembarques efetuados por ele no Kuban e no Don. Não obstante, aproxirnou-se da própria bacia do Donetz, ameaçando os centros carboníferos do país dos Soviets. A situação do Poder Soviético se complicava, além disso, porque o Exército Vermelho estava já, então, bastante cansado. As tropas vermelhas foram obrigadas a avançar em condições extremamente difíceis, atacando as tropas de Wrangel e lutando, ao mesmo tempo, com os bandos dos anarquistas de Majno, que ajudavam o general branco. Porém, apesar de Wrangel ter em seu favor a superioridade da técnica, apesar e carecerem as tropas soviéticas de tanques, o Exército Vermelho expulsou Wrangel para a península da Criméia. Em novembro de 1920, as tropas vermelhas tomaram as posições fortificadas de Perekop, irromperam na Criméia, esmagaram as tropas de Wrangel e libertaram essa península das mãos dos guardas brancos e dos intervencionistas.

A Criméia passou a formar parte do território soviético.

Com o fracasso dos planos megalómanos dos polacos e a derrota rangei terminou o período da intervenção.

Para o fim de 1920 a Transcaucásia começou a se ver livre do jugo dos nacionalistas burgueses: musavatistas no Azerbaidjan, nacional mencheviques na Geórgia e dashnakes na Armênia. O Poder Soviético triunfou em Azerbaidjan, Armênia e Geórgia.

Com isto, porém, não terminou completamente a intervenção. A intervenção armada dos japoneses no Extremo-Oriente continuou até 1922. Houve, além disso, várias tentativas destinadas a organizar outra intervenção (tais como as do ataman Seminov e do barão Ungern, no Oriente, e a intervenção branco-finlandesa na Carélia, em 1921). Porém os principais inimigos do País Soviético, as forças fundamentais da intervenção, ficaram destruídas em fins de 1920.

A guerra dos intervencionistas estrangeiros e dos guardas brancos russos contra o País Soviético terminou com o triunfo dos Soviets.

A República Soviética soube defender sua liberdade e sua independência como Estado.

Assim terminaram a intervenção armada estrangeira e a guerra civil.

Foi este um triunfo histórico do Poder Soviético.


 

 

5

 

— Como e porque o País Soviético venceu as forças coligadas da intervenção anglo-franco-nipo-polaca e da contra-revolução dos burgueses, latifundiários e guardas brancos dentro da Rússia.


Se se procurar em qualquer dos grandes jornais europeus ou americanos da época da intervenção, comprovar-se-á facilmente que nenhum escritor militar ou civil de mais destaque, nenhum conhecedor das coisas da guerra, acreditava no triunfo do Poder Soviético. Ao contrário, todos os escritores de prestígio, todos os conhecedores dos assuntos da guerra, todos os historiadores das revoluções de todos os países e povos, todos os chamados homens de ciências gritavam em coro que os dias do Poder Soviético estavam contados, que a derrota do Poder Soviético era inevitável.

Inspirava-lhes esta confiança no triunfo dos intervencionistas o fato do País Soviético não contar ainda com um Exército Vermelho organizado, de ter que criá-lo em plena marcha, por assim dizer, ao passo que os intervencionistas e os guardas brancos dispunham de um Exército mais ou menos preparado.

Essa confiança era também inspirada no fato de que o Exército Vermelho não contava com quadros militares habilitados, já que a maioria dos comandos se passara para o campo da contra-revolução, enquanto que os intervencionistas e os guardas brancos possuíam bons quadros militares.

Era inspirada, além disso, no fato de que o Exército Vermelho dispunha de armas e munições em pequeno número e de má qualidade, em conseqüência do atraso da indústria de guerra da Rússia e da impossibilidade de recebê-las de outros países, posto que o bloqueio a mantinha isolada, enquanto que o Exército dos intervencionistas e dos guardas brancos era abundantemente abastecido e o continuaria sendo com armas, munições e equipamentos de primeira classe.

Era inspirada, finalmente, no fato de que o Exército dos intervencionistas e dos guardas brancos ocupava, então, as regiões mais ricas em víveres da Rússia, enquanto que o Exército Vermelho carecia destas bases e se achava mal abastecido.

E é certo que nas unidades do Exército Vermelho notavam-se todas estas deficiências e penúrias.

Nisso, e somente nisso, tinham absoluta razão os senhores intervencionistas.

Como, então, se pode explicar que o Exército Vermelho, sobre o qual pesavam desvantagens tão consideráveis, derrotasse o Exército dos intervencionistas e dos guardas brancos, que não contavam com elas?

1) O Exército Vermelho venceu, porque a política do Poder Soviético, em nome da qual combatia, era uma política que correspondia aos interesses do povo; porque o povo sentia e compreendia esta política como justa, como a sua política própria, e a apoiava até o fim.

Os bolcheviques sabiam que um Exército, que luta em nome de uma política falsa, de uma política que não conta com o apoio do povo, não pode vencer. Era isto o que ocorria no Exército dos intervencionistas e dos guardas brancos. Este Exército contava com tudo: com comandos antigos e hábeis, com armamentos de primeira classe, com munições, com equipamentos, com provisões. Só lhe faltava uma coisa: o apoio e a simpatia dos povos da Rússia que não queriam, nem podiam apoiar a política dos intervencionistas e dos guardas brancos erigidos em "governantes", política esta contrária ao povo. Por isto, o Exército dos intervencionistas e dos guardas brancos foi derrotado.

2) O Exército Vermelho venceu, porque era um Exército abnegado e fiel sem reservas ao seu povo, por cuja razão este o queria e o apoiava, como um Exército de seu próprio sangue. O Exército Vermelho é filho do povo, e um Exército como este, fiel ao seu povo como o nlho fiel o e à sua mãe, conta sempre com o apoio do povo e tem necessariamente que vencer. Pelo contrário, o Exército que vai contra o povo, forçosamente tem que sair derrotado.

3) O Exército Vermelho venceu, porque o Poder Soviético soube por em pé toda a retaguarda, todo o país ao serviço dos interesses da frente. Um Exército sem uma guarda forte, que apóie por os meios a frente, está condenado à derrota. Os bolcheviques sabiam disto, portanto, converteram todo o país em um acampamento de guerra, que abastecia a frente de armas, munições, equipamentos, provisões e reservas.

4) O Exército Vermelho venceu: a) porque seus combatentes compreendiam os fins as tarefas da guerra e tinham consciência da sua justeza; b) porque esta cosnciência da justeza dos fins e das tarefas da guerra fortalecia neles o espírito de disciplina e combatividade; c) porque isso fazia com que as massas de combatentes do Exército Vermelho dessem a cada passo, na luta contra o inimigo, provas de abnegação maravilhosa e de heroísmo de massas nunca visto.

5) O Exército Vermelho venceu, porque o núcleo dirigente da frente e da retaguarda do Exército Vernelho era o Partido bolchevique, unido por sua coesão e sua disciplina, forte por seu espírito revolucionário e por sua decisão de afrontar qualquer sacrifício, contanto que triunfasse a causa comum, não superado por ninguém quanto à capacidade para organizar as massas de milhões de homens e dirigi-las acertadamente nas situações mais complicadas.

"Graças a que o Partido — disse Lenin — estava alerta, graças a que o Partido tinha uma disciplina severíssima, e a que a autoridade do Partido servia de traço de união entre todos os departamentos e organismos, e as palavras de ordem que o C. C. dava eram seguidas como por um só homem por dezenas, centenas, milhares, e em última instância, por milhões, graças a que se afrontavam os sacrifícios mais inauditos: só graças a tudo isto, pôde realizar-se o milagre que se realizou. Só graças a isto, apesar da dupla, da tríplice, da quádrupla campanha dos imperialistas da Entente e dos imperialistas do mundo inteiro, pudemos sair vencedores" (Lenin, t. XXV pág. 96, ed. russa).

6) O Exército Vermelho venceu: a) porque soube forjar nas suas chefes militares de novo tipo como Frunze, Voroshilov, Budieny e outros; b) porque nas suas fileiras lutavam heróis natos como Kotovski, Chapaiev, Lasó, Schors, Parkhomenko e tantos outros; c) porque a educação política do Exército Vermelho estava a cargo de militantes como Lenin, Stalin, Molotov, Kalinin, Sverdlov, Kaganovich, Ordzhonkidse, Kirov, Kuibyshev, Mikoian, Zhdanov, Andreev, Petrovski, Ezhov, Dzerzhinski, Schadienko, Meilis, Iruschev, Shvernik, Shkiriatov e outros; d) porque o Exército Vermelho tinha no seu seio organizadores e agitadores tão destacados como os comissários de guerra, que com a sua atuação souberam cimentar as fileiras dos combatentes vermelhos, inculcando-lhes o espírito de disciplina e intrepidez guerreira, cortavam energicamente — de modo rápido os atos de traição de alguns comandos, e pelo contrário, fortaleciam audaz e resolutamente a autoridade e o prestígio daqueles comandos que pertencessem ou não ao Partido, demonstravam a sua lealdade abnegada ao Poder Soviético e revelaram sua capacidade para dirigir com mão firme as unidades do Exército Vermelho.

"Sem os comissários de guerra, não teríamos Exército Vermelho" dizia Lenin.

7) O Exército Vermelho venceu, porque na retaguarda dos Exércitos dos guardas brancos, na retaguarda de Kolchak, Denikin e Wrangel, trabalhavam na clandestinidade uma série de excelentes bolcheviques, com e sem caderneta, que punham em pé os operários e camponeses e os sublevavam contra os intervencionistas e os brancos, que solapavam a retaguarda dos inimigos do Poder Soviético, facilitando com isso os avanços do Exército Vermelho. É sabido de todos como os guerrilheiros da Ucrânia, da Sibéria, do Extremo-Oriente, do Ural, da Bielo-Rússia e da região do Volga minavam a retaguarda dos guardas brancos e dos intervencionistas, prestando assim ao Exército Vermelho uma ajuda inestimável.

8) O Exército Vermelho venceu, porque o País Soviético não estava só na luta contra a contra-revolução dos guardas brancos e a intervenção estrangeira, porque a luta do Poder Soviético e os seus êxitos despertaram a simpatia e atraíram a ajuda dos proletários do mundo inteiro. Enquanto que os imperialistas tentavam estrangular a República Soviética com a intervenção e o bloqueio, os operários destes mesmos países imperialistas estavam ao lado dos Soviets e os ajudavam. Sua luta contra os capitalistas dos países inimigos da República Soviética contribuiu para que os imperialistas fossem obrigados a desistir da intervenção. Os operários da Inglaterra, da França e de outros países intervencionistas organizavam greves, negavam-se a embarcar armas e munições para os intervencionistas e os generais brancos e criavam "Comitês de ação" sob a palavra de ordem de "Fora as mãos da Rússia".

"Tão rápido como a burguesia internacional — dizia Lenin — levanta a mão contra nós, os seus prórpios operários lhe seguram o braço". (Obra citada, pág. 405).

Resumo

Os latifundiários e capitalistas, derrotados pela Revolução de Outubro, em união com os generais brancos se mancomunaram, às custas dos interesses de sua pátria, com os governos dos países da Entente para desencadear uma agressão militar conjunta contra o país dos Soviets e derrotar o Poder Soviético. Sobre estas base se organizou a intervenção armada da Entente e a sublevação dos guardas brancos na periferia da Rússia, em conseqüência das quais o País Soviético ficou isolado de seus centros de aprovisionamento e de suas bases de matérias-primas.

A derrota militar da Alemanha e a liquidação da guerra das duas coalizões imperialistas da Europa conduziram ao fortalecimento da Entente e ao recrudescimento da intervenção, criando novas dificuldades ao país dos Soviets.

Ao contrário, a revolução na Alemanha e o movimento revolucionário iniciado nos países europeus criaram uma situação internacional favorável para o Poder Soviético e aliviaram a situação do país dos Soviets.

O Partido bolchevique pôs em pé os operários e os camponeses para a guerra de salvação da Pátria, contra os anexionistas estrangeiros e os guardas brancos burgueses e latifundiários. A Repiiblica Soviética e o seu Exército Vermelho foram esmagando uma após outra todas as criaturas da Entente: Kolchak, Yudenich, Denikin, Krasnov e Wrangel, e expulsaram da Ucrânia e da Bielo-Rússia mais outra criatura, Pilsudski, rechaçando assim a intervenção armada estrangeira e limpando todo o território soviético das tropas intervencionistas.

Portanto, a primeira agressão armada do capital internacional contra o país do socialismo terminou com uma bancarrota completa daquele.

Os partidos derrotados pela revolução, os social-revolucionários, os mencheviques, os anarquistas, os nacionalistas, apoiaram durante o período da intervenção armada os generais brancos e os intervencionistas, organizaram "complots" contra-revolucionários contra a República dos Soviets e atos de terrorismo contra os militantes soviéticos. Estes partidos, que antes da Revolução de Outubro tinham conseguido uma certa influência entre a classe operária, durante o período da guerra civil ficaram completamente desmascarados aos olhos das massas do povo como partidos contra-revolucionários.

O período da guerra civil e da intervenção armada marca o aniquilamento político destes partidos e o triunfo definitivo do Partido Comunista no País Soviético.


 



Capítulo IX

 

— O Partido Bolchevique Durante o Período de Transição ao Trabalho Pacífico de Restauração da Economia Nacional

 


1

 

— O País Soviético depois da liquidação da intervenção armada e da guerra civil.

— As dificuldades do período de restauração da economia.


Depois de pôr fim à guerra, o País Soviético começou a encaminhar a obra de edificação pacífica da Economia nacional. Era necessário restaurar a Economia nacional, destruída, pôr em ordem a indústria, o transporte, a agricultura.

Esta obra de edificação pacífica se empreendeu em condições extraordinariamente difíceis. O triunfo na guerra civil não se arrancou facilmente. O país estava arruinado pelos quatro anos de guerra imperialista e os três anos de luta contra a intervenção armada.

Em 1920, a produção global da agricultura, comparada com a de antes da guerra, era somente a metade. E tenha-se em conta que o nível da produção agrícola de antes da guerra era o mísero nível próprio da aldeia russa dos tempos do czarismo. O ano de 1920 foi, além disso, em muitas províncias, um ano de má colheita. A Economia camponesa atravessava uma situação difícil.

Mais desastrosa ainda era a situação da indústria. A produção da grande indústria, em 1920, era quase sete vezes menor que a de antes da guerra. A maioria das fábricas estava parada e os poços mineiros destruídos e inundados. A metalurgia se encontrava em situação especialmente difícil. Durante todo o ano de 1921, a fundição de feiro não passou de 116.300 toneladas, o que representava aproximadamente, 3% da produção de ferro fundido de antes da guerra. Havia grande escassez de combustível. O transporte estava desfeito. As reservas de metal e de artigos manufaturados, com que contava o país, estavam quase totalmente esgotadas. Escasseavam de modo alarmante os artigos de primeira necessidade: o pão, as gorduras, a carne, o calçado, as peças de roupa, os fósforos, o sal, o petróleo, o sabão.

Enquanto durou a guerra, o povo se resignava a suportar esta escassez, e às vezes, nem sequer se apercebia dela. Ao cessar a guerra, porem, começou a sentir que esta situação era insuportável e a exigir que fosse remediada imediatamente.

Os camponeses davam mostras de descontentamento. Sob o fogo da guerra civil, se formara e se consolidara a aliança político-militar entre os camponeses e a classe operária. Esta aliança se apoiava numa base concreta: o Poder Soviético dera aos camponeses a terra e os defendia contra os latifundiários e os kulaks; os camponeses forneciam aos operários os artigos alimentícios segundo o sistema da quotização.

Agora porém, esta base era já insuficiente.

O Estado Soviético se via obrigado a apoderar-se, com o regime da quotização, de toda a sobra da produção dos camponeses, por exigirem assim as necessidades da defesa do país. Sem o regime da quotização, sem a política do comunismo de guerra, não teria sido possível triunfar na guerra civil. A política do comunismo de guerra foi imposta pela própria guerra, pela intervenção armada. Enquanto durou a guerra, os camponeses se submetiam à quotização e não se apercebiam da escassez de mercadorias, porém ao terminar a guerra e desaparecer a ameaça da volta dos latifundiários, começaram a manifestar seu descontentamento pela requisição das sobras dos produtos, pelo sistema da quotização, e a exigir que lhes fornecessem mercadorias em quantidade suficiente.

Todo o sistema do comunismo de guerra chocou-se, como dizia Lenin, com os interesses dos camponeses.

O descontentamento começava a repercutir também na classe operária. O proletariado suportou o peso principal da guerra civil, lutando heróica e abnegadamente contra as legiões dos guardas brancos e dos intervencionistas, contra o desastre econômico e a fome. Os melhores operários, os mais conscientes, os mais abnegados e disciplinados, ardiam de entusiasmo na luta pelo socialismo. Porém a desastrosa situação de desmoronamento da Economia repercutia também sobre a classe operária. As poucas fábricas e empresas industriais que ainda trabalhavam diminuíram consideravelmente o seu ritmo de trabalho. Os operários foram obrigados a fazer toda a classe de ofícios, fabricar isqueiros, e, com um saco no ombro, ir procurar comestível nas aldeias. Começava a vacilar o fundamento de classe da ditadura do proletariado; a classe operária ia se disseminando, parte dos operários emigravam para a aldeia, deixavam de ser operários, perdiam sua condição de classe. A fome e o cansaço engendravam o descontentamento de uma parte dos operários.

Ante o Partido, apresentava-se a tarefa de traçar uma nova orientação a respeito de todos os problemas da vida econômica do país, em consonância com a nova situação.

O Partido enfrentou a tarefa de traçar esta nova orientação a respeito dos problemas da edificação econômica do país.

O inimigo de classe não dormia, porém. Procurava aproveitar-se da difícil situação que atravessava a Economia, procurava aproveitar-se do descontentamento dos camponeses. Estalaram sublevações de kulaks, organizadas pelos guardas brancos e os social-revolucionários, na Sibéria, na Ucrânia, na província de Tambov (a rebelião de Antonov). Começaram a se mover os elementos contra-revolucionários, de todos os matizes: mencheviques, social-revolucionários, anarquistas, guardas brancos e nacionalistas burgueses. O inimigo mudou os métodos táticos de luta contra o Poder Soviético. Começou a se disfarçar com as cores soviéticas e sua palavra de ordem já não era o velho grito fracassado de "Abaixo os Soviets!", e sim o novo grito de "Pelos Soviets, porém sem os comunistas!"

Uma manifestação flagrante da nova tática do inimigo de classe foi a sublevação contra-revolucionária de Kronstadt, que estalou em março de 1921, uma semana antes de começar o X Congresso do Partido. Esta sublevação foi dirigida pelos guardas brancos, em contato com os social-revolucionários, os mencheviques e representantes de Estados estrangeiros. Nos primeiros momentos, os sublevados se esforçaram em encobrir com a cortina "soviética" sua aspiração de restaurar o Poder e a propriedade dos capitalistas e dos latifundiários. A sua palavra de ordem era: "Soviets sem comunistas!"

A contra-revolução pretendia aproveitar-se do descontentamento das massas pequeno-burguesas para derrubar o Poder dos Soviets, sob uma palavra de ordem aparentemente soviética.

Duas circunstâncias contribuíram para facilitar a sublevação produzida em Krostadt: o fato de haver piorado a contextura de classe dos marinheiros das guarnições dos navios de guerra e a débil organização bolchevique existente naquela base naval. Os velhos marinheiros que haviam tomado parte da Revolução de Outubro marcharam quase em bloco para a frente, onde se bateram heroicamente nas fileiras do Exército Vermelho. Entraram a servir na esquadra novas classes de marinheiros, não temperados na revolução. Estas novas classes se compunham de camponeses típicos que vinham diretamente da aldeia e nos quais se refletia o descontentamento da população do campo com o sistema da quotização. Além disso, a organização bolchevique de Kronstadt se encontrava então, muito enfraquecida por toda uma série de mobilizações para a frente. Estas circunstâncias permitiram aos social-revolucionários, aos mencheviques e aos guardas brancos penetrar sub-repticiamente em Kronstadt e ganhar esta base.

Os sublevados fizeram-se donos da magnífica fortaleza, da frota e de uma enorme quantidade de armas e munições. A contra-revolução internacional cantava vitória. Era prematuro, porém, o júbilo dos inimigos do Poder Soviético. As tropas soviéticas reduziram rapidamente os sediciosos. O Partido enviou contra os sublevados de Kronstadt os seus melhores filhos, os delegados do X Congresso, com o camarada Voroshilov à frente. Os combatentes do Exército Vermelho marcharam contra Kronstadt, pisando sobre uma delgada camada de gelo. O gelo se rompeu e muitos deles pereceram afogados. Foi necessário lançar-se ao assalto contra os fortes quase inexpugnáveis de Kronstadt. Mas a bravura e a abnegação revolucionária, o entusiasmo daqueles homens, dispostos a dar sua vida pelo Poder Soviético, venceram. As tropas vermelhas tomaram de assalto a fortaleza de Kronstadt e sua sublevação foi liquidada.



2

 

— Discussão no Partido acerca dos Sindicatos.

— O X Congresso do Partido.

— É derrotada a oposição.

— Passa-se à Nova Política Econômica (NEP).


Para o Comitê Central do Partido, para a sua maioria leninista, era evidente que, depois de se terminar a guerra e de entrar no período de edificação pacífica da Economia, não havia já razão para manter em pé o severo regime do comunismo de guerra, imposto pelas circunstâncias da guerra e do bloqueio.

O C. C. compreendia que desaparecera a necessidade da quotização, que era necessário substituir este sistema pelo do imposto em espécie, para dar ao camponês a possibilidade de empregar como bem entendesse uma grande parte da sobra da sua produção. Compreendia que esta medida permitiria levantar a agricultura, incrementar a produção de cereais e os cultivos técnicos necessários para o desenvolvimento da indíístria, ativar a circulação de mercadorias dentro do país, melhorar o abastecimento das cidades e assentar uma nova base econômica para a aliança entre os operários e os camponeses.

O C. C. notava também que a reanimação da indústria constituía uma tarefa de primeiríssima ordem, porém entendia que não era possível conseguir isto sem interessar à classe operária e os seus sindicatos, que para ganhar os operários para esta causa era necessário convencê-los de que o desastre econômico era um inimigo tão perigoso para o povo como a intervenção armada e o bloqueio, e que o Partido e os sindicatos conseguiriam, indubitavelmente, sair vitoriosos desta tarefa, sempre e quando não atuassem sobre a classe operária por meio de ordens militares, seguindo os métodos aplicados na frente, onde era realmente necessário proceder deste modo, mas por meio da persuasão, por meio do convencimento.

Não pensavam, porém, todos os membros do Partido como o C. C Os grupos da oposição — os trotskistas, a "oposição operária", os "comunistas de esquerda", os "centralistas democráticos", etc. — achavam-se em um estado de confusão e de vacilação diante da passagem para a senda da edificação pacífica da Economia. No Partido havia não poucos antigos mencheviques, social-revolucionários, bundistas, "borotibistas" e toda a sorte de seminacionalistas da periferia da Rússia. Em grande parte estes elementos aderiram a uns ou a outros grupos da oposição. Como não eram verdadeiros marxistas nem conheciam as leis que regem o desenvolvimento econômico, nem tinham a têmpera dos militantes leninistas do Partido, esta gente não fazia mais que acentuar a dispersão e as vacilações dos grupos da oposição. Alguns deles entendiam que não era necessário afrouxar o severo regime do comunismo de guerra, mas pelo contrário, o que faltava era "continuar apertando os parafusos". Outros opinavam que o Partido e o Estado deviam desinteressar-se do problema da restauração da Economia nacional, deixando-o totalmente nas mãos dos sindicatos.

Era evidente que, ante este confusionismo, apareceriam, em certos setores do Partido, pessoas dadas a discutir, diversos "líderes" da oposição, que pugnariam para arrastar o Partido a um debate.

E com efeito assim ocorreu.

A discussão começou pelo problema do papel dos sindicatos, apesar de não ser este, então, o problema mais importante na política do Partido.

O paladino da discussão e da luta contra Lenin e contra a maioria leninista do C. C. era Trotsky.

Com o fito de agravar a situação, interveio na reunião dos delegados comunistas à V Conferência dos Sindicatos de toda a Rússia, celebrada em começos de novembro de 1920, sustentando a duvidosa palavra de ordem de "apertar os parafusos" e "sacudir os sindicatos". Exigia, além disso, que se procedesse à imediata "estatificação dos sindicatos". Trotsky era contrário ao método da persuasão das massas operárias e advogava transplantar aos sindicatos os métodos militares. Era contrário ao desenvolvimento da democracia dentro dos sindicatos e à provisão dos cargos sindicais por eleições.

Em vez do método da persuasão, sem o que seria inconcebível a atuação das organizações operárias, os trotskistas preconizavam o método da coação pura e simples, de mandar, sem admitir ponderações. Onde se apoderavam da direção sindical, os trotskistas, com a sua política, não faziam mais que provocar nos sindicatos conflitos, cisões e discórdias. Com a sua política, os trotskistas faziam com que a massa sem partido se colocasse contra este e semeavam a desunião da classe operária.

A discussão acerca dos sindicatos tinha, na realidade, uma importância que transcendia em muito os limites do problema sindical. Como mais tarde assinalou a resolução do pleno do C. C. do Partido Comunista (b.) da Rússia (17 de janeiro de 1925), de fato a polêmica girava

"em tomo da atitude que se devia tomar com os camponeses que se rebelavam contra o comunismo de guerra, em torno da atitude que se devia tomar com a massa de operários sem partido, e em geral, em torno do método como o Partido devia abordar as massas, num período em que a guerra civil já havia terminado" (Resoluções do P. C. (b.) da U.R.S.S., parte I, pág. 651).

Depois de Trotsky, intervieram também outros grupos contrários ao Partido: a "oposição operária" (Shliapnikov, Medvediev, Kolontai e outros), os "centralistas democráticos" (Sapronov, Drobin, Boguslavski, Osinski, V. Smirnov, etc), e os "comunistas de esquerda" (Bukarin e Preobrazhenski).

A "oposição operária" formulava a palavra de ordem de entregar a direção de toda a Economia nacional ao "Congresso de produtores de toda a Rússia". Reduzia a zero o papel do Partido e tirava toda a significação à ditadura do proletariado no terreno da edificação econômica. Contrapunha os sindicatos ao Estado Soviético e ao Partido Comunista. Segundo ela, a forma mais alta de organização da classe operária não era o Partido, e sim os sindicatos. No fundo, a "oposição operária" era um grupo de tipo anarco-sindicalista, contrário ao Partido.

O grupo do "centralismo democrático" (os deístas) reivindicava a liberdade mais completa para a formação de frações e grupos dentro do Partido. Como os trotskistas, os "centralistas democráticos" se esforçavam em solapar o papel dirigente do Partido dentro dos Soviets e dos sindicatos. Lenin dizia deles que eram a fração "dos que gritavam mais forte", e que a sua plataforma era social-revolucionária-menchevique.

Na luta contra Lenin e o Partido, Trotsky foi ajudado por Bukarin. Foi este quem, em união com Preobrazhenski, Serebríakov e Sokolnikov, criou um grupo "pára-choque". Este grupo defendia e encobria os divisionistas mais perniciosos: os trotskistas. Lenin qualificou a conduta de Bukarin como "o cúmulo da decomposição ideológica". Pouco depois os bukarinistas se uniram abertamente aos trotskistas contra Lenin.

Lenin e os leninistas dirigiram, principalmente, os seus tiros entre os trotskistas, nos quais viam a força principal dos grupos antibolcheviques. Acusavam os trotskistas de confundir os sindicatos com organizações de tipo militar, fazendo-lhes ver que não era possível transplantar aos sindicatos os métodos próprios daquelas organizações. Em face da plataforma dos grupos de oposição, Lenin e os leninistas formularam a sua própria. Nesta se sustentava que os sindicatos eram uma escola de governo, uma escola de administração econômica e uma escola de comunismo. Os sindicatos deviam organizar todo o trabalho na base do método da persuasão. Só assim poderiam levantar todos os operários para a luta contra o desastre econômico e conseguiriam interessá-los pela obra da edificação socialista da Economia nacional.

Na luta contra os grupos da oposição, as organizações do Partido cerraram as suas fileiras em torno de Lenin. A luta adquiriu um caráter especialmente agudo em Moscou. Era aí onde a oposição concentrava suas principais forças, ambicionando apoderar-se da organização do Partido nessa capital. Porém os bolcheviques de Moscou combateram devidamente as manobras dos divisionistas. A luta nas organizações do Partido na Ucrânia também se revestiu de caracteres agudos. Sob a direção do camarada Molotov que era então secretário do C. C. do Partido Comunista (b.) da Ucrânia, os bolcheviques ucranianos esmagaram os sequazes de Trotsky e Shiliapnikov. O Partido Comunista da Ucrânia continuou sendo um baluarte fiel do Partido Leninista. Em Bakú, o esmagamento da oposição se organizou sob a direção do camarada Ordzhonikidse. Na Ásia Central, foi o camarada Lázaro Kaganovich quem dirigiu a luta contra os grupos contrários ao Partido.

Todas as organizações fundamentais de base do Partido aderiram à plataforma leninista.

Em 8 de março de 1921, o X Congresso do Partido inaugurou suas tarefas. Assistiram a ele 694 delegados com direito de palavra e voto, representando 732.521 filiados, e 296 delegados com palavra, porém sem voto.

O Congresso fez o balanço da discussão sobre os sindicatos e aprovou por uma maioria esmagadora a plataforma leninista.

No seu discurso de abertura do Congresso, Lenin declarou que esta discussão representava um luxo intolerável. Assinalou que o inimigo fazia seu jogo com a luta intestina e a discórdia dentro do Partido Comunista.

Notando o enorme perigo que representava para o Partido bolchevique e para a ditadura do proletariado a existência de grupos divisionistas, o X Congresso consagrou atenção especial ao problema da unidade do Partido. Acerca deste ponto Lenin deu o informe. O Congresso condenou todos os grupos da oposição e destacou que estes grupos "de fato, ajudam os inimigos de classe da revolução proletária".

O Congresso ordenou a imediata dissolução de todos os grupos divisionistas e encarregou todas as organizações para que velassem rigorosamente pela execução desta atitude divisionista; bem entendido que o não cumprimento das resoluções do Congresso acarretaria a expulsão indiscutível e imediata do Partido. O Congresso deu plenos poderes ao Comitê Central para que este, em caso de infração da disciplina por parte de qualquer dos seus membros e em caso de que ressuscitasse ou se permitisse qualquer fração, aplicasse quantas sanções de Partido fossem necessárias, chegando inclusive a expulsar do Comitê Central e do Partido quem infringisse suas resoluções.

Todas estas decisões figuravam em uma resolução especial "Sobre a unidade do Partido", redigida por Lenin e aprovada pelo Congresso.

Nesta resolução, o Congresso chamava a atenção de todos os filiados ao Partido para o fato de que a unidade e a coesão dentro das suas fileiras, a unidade de vontade da vanguarda do proletariado era especialmente necessária num momento como aquele em que se celebrava o X Congresso do Partido, em que uma série de circunstâncias contribuíram para acentuar as vacilações existentes entre a população pequeno-burguesa.

"Entretanto, — dizia-se na resolução do Congresso, — no Partido se tinham revelado, já antes da discussão entabolada em todas as suas organizações acerca dos sindicatos, alguns sintomas de divisionimo, isto é, de formação de grupos com uma plataforma especial e com a tendência a constituir até certo ponto grupos à parte com sua disciplina própria. É necessário que todo operário consciente compreenda claramente o caráter pernicioso e inadmissível de todo divisionismo, o qual conduz inevitavelmente, na prática, ao esfacelamento do trabalho fraternal e às tentativas acentuadas e repetidas dos inimigos, que se infiltram sempre nas fileiras de um Partido governamental, com o objetivo de aprofundar as dissenções dentro deste e servir-se delas para os fins da contra-revolução".

Em outro lugar desta mesma resolução, dizia o Congresso:

"Como os inimigos do proletariado se aproveitam de todos os desvios da linha comunista, rigorosamente traçada, revelou-o de modo bem claro o exemplo da sublevação Kronstadt, na qual a contra-revolução burguesa e os guardas brancos de todos os países do mundo se mostraram imediatamente dispostos a acatar, inclusive, a palavra de ordem do regime soviético, com o fim de derrubar a ditadura do proletariado na Rússia, no que os social-revolucionários e a contra-revolução burguesa, em geral, deram acolhida, em Kronstadt, à palavra de ordem da insurreição simulando fazê-lo em nome do Poder Soviético contra o governo soviético da Rússia. Estes fatos demonstram plenamente que os guardas brancos aspiram a disfarçar-se e sabem disfarçar-se de comunistas e até de gente ainda "mais esquerdista" que eles, com o fim de enfraquecer e derrubar o baluarte da revolução proletária na Rússia.

As folhas mencheviques que circularam em Petrogrado nas vésperas da sublevação de Kronstadt revelam ao mesmo tempo como os mencheviques se aproveitavam das discrepâncias existentes dentro do Partido Comunista da Rússia, para estimular e apoiar de fato os sediciosos de Kronstadt, os social-revolucionários e guardas brancos, embora de palavra se fizessem passar por adversários dos sediciosos e partidários do Poder Soviético, do qual, segundo eles, só os separavam algumas diferenças de pouca monta".

A resolução indicava que a propaganda do Partido devia explicar minuciosamente quão pernicioso era o divisionismo do ponto de vista da unidade do Partido e da consecução da unidade de vontade da vanguarda do proletariado, como condição fundamental para o triunfo da ditadura proletária.

De outra parte, a propaganda do Partido — dizia a citada resolução do Congresso — devia explicar a peculiaridade dos novíssimos métodos táticos postos em prática pelos inimigos do Poder Soviético.

"Estes inimigos — destacava a resolução, — convencidos do fracasso irremediável da contra-revolução sob a bandeira descarada dos guardas brancos, encaminham agora todos os seus esforços, aproveitando-se das dissenções existentes dentro do Partido Comunista da Rússia, para passar de contrabando a contra-revolução por meio da entrega do Poder aos grupos políticos mais dispostos na aparência ao reconhecimento do Poder Soviético". ("Resoluções do P. C. (b) da U.R.S.S.", parte I, págs. 373-374).

Esta resolução indicava, ao mesmo tempo, que a propaganda do Partido

"devia explicar também a experiência das anteriores revoluções, em que a contra-revolução apoiava os grupos pequeno-burgue-ses mais próximos do partido revolucionário mais avançado, para fazer vacilar e derrubar a ditadura revolucionária, abrindo assim o caminho para dar, a seguir, o triunfo completo à contra-revolução, aos capitalistas e latifundiários".

Intimamente unida à resolução "Sobre a unidade do Partido" se achava outra resolução "Sobre o desvio sindicalista e anarquista dentro do nosso Partido", também igualmente aprovada pelo Congresso por proposta de Lenin. Nesta resolução, o X Congresso condenava a chamada "oposição operária". O Congresso considerou que a propaganda das idéias do desvio anarco-sindicalista era incompatível com o fato de militar no Partido Comunista e exortava o Partido a lutar resolutamente contra este desvio.

O X Congresso tomou a importantíssima resolução de passar do sistema da quotização ao do imposto em espécie, de passar à nova política econômica ("NEP").

Esta mudança do comunismo de guerra para a "nova política econômica" revela toda a sabedoria e a profundidade de visão da política leninista.

Na resolução do Congresso, tratava-se da substituição do regime das quotas pelo do imposto em espécie. Este imposto era menor que o da quotização. O tipo de imposto se devia tornar público antes da semeadura da primavera, os prazos de entrega do imposto se assinalavam com toda a precisão. Tudo que excedesse do imposto se deixava à livre e plena disposição do camponês, a quem se concedia liberdade de vender esses produtos. A princípio, a liberdade de venda se traduzia — dizia Lenin no seu informe — em uma certa reanimação do capitalismo dentro do país. Será necessário consentir o comércio privado e autorizar aos particulares dedicados à indústria a abertura de pequenas empresas. Não havia porém motivo para ter medo a isto. Lenin entendia que uma certa liberdade de circulação de mercadorias estimularia o interesse econômico do camponês, incrementaria a produtividade do seu trabalho e elevaria rapidamente o rendimento da agricultura; que sobre esta base se restauraria a indústria do Estado e se desalojaria o capital privado; que depois de acumular forças e recursos, se poderia criar uma potente indústria, base econômica para o socialismo, e logo depois passar decididamente à ofensiva, para destruir os restos do capitalismo dentro do país.

O comunismo de guerra foi a tentativa de tomar de assalto, atacando de frente a fortaleza dos elementos capitalistas da cidade e do campo. Neste ataque, o Partido avançou demasiado, expondo-se ao perigo de perder o contato com sua base. Agora, Lenin propunha efetuar um pequeno recuo, retroceder provisoriamente para se aproximar da retaguarda, passar da luta por assalto ao método mais lento de cercar a fortaleza, para acumular forças, e logo depois se lançar de novo ao ataque.

Os trotskistas e outros elementos da oposição entendiam que a NEP era, exclusivamente, uma retirada. Esta interpretação favorecia os seus interesses, já que a linha que eles seguiam era a de restaurar o capitalismo. Esta porém era uma interpretação da NEP, profundamente perniciosa e antileninista. Com efeito, um ano depois de se implantar a NEP, no XI Congresso do Partido, Lenin declarava que o recuo havia terminado e lançou a seguinte palavra de ordem-. "Preparação da ofensiva contra o capital privado" (Lenin, t. XXVII, pág. S13, ed, russa).

Os elementos da oposição, que eram maus marxistas e supinamente ignorantes em matéria de política bolchevique, não compreendiam nem a essência da NEP, nem o caráter do recuo empreendido ao se iniciar esta. Da essência da NEP já falamos. Com relação ao caráter do recuo, diremos que há várias classes de recuo. Há momentos em que os partidos ou os Exércitos se vêem obrigados a recuar por terem sofrido uma derrota, e nestes casos o Exército ou o partido recua para se salvar e salvar seus quadros com vistas a novos combates. Não era esta a classe de recuo que Lenin propusera ao se implantar a NEP, já que o Partido, não só não havia sofrido uma derrota, nem estava vencido, senão que, pelo contrário, era ele quem havia derrotado os intervencionistas e os guardas brancos na guerra civil. Mas há também momentos, em que um partido ou um Exército vitorioso, em seu ataque, avança demasiado, sem deixar assegurada uma base na retaguarda. E isto constitui um perigo grave. Em tais casos, um partido ou um Exército experimentado sente em geral, para não perder o contato com sua base, a necessidade de retroceder um pouco, aproximando-se da retaguarda, para estabelecer um contato mais forte com sua base nesta, assegurando-se de tudo aquilo que necessita, e poder logo depois lançar-se de novo ao ataque, com maior segurança e garantia de êxito. Esta classe de recuo temporário era precisamente a que Lenin aplicara com a NEP. Informando perante o IV Congresso da Internacional Comunista acerca das causas a que obedecera a implantação da NEP, Lenin declarou publicamente que

"com a nossa ofensiva econômica tínhamos avançado demasiado e não tínhamos assegurado uma base suficiente", razão por que foi necessário efetuar um recuo passageiro para a retaguarda consolidada."

A desgraça da oposição estava em que não compreendia, na sua ignorância, nem compreendeu até o fim dos seus dias, esta característica peculiar que o recuo da NEP apresentava.

A resolução do X Congresso acerca da NEP assegurava uma sólida aliança econômica entre a classe operária e os camponeses para a edificação do socialismo.

Outra das resoluções do Congresso que perseguia também esta finalidade fundamental, era a referente ao problema nacional.

O informe acerca deste ponto ficou a cargo do camarada Stalin. Acabamos — disse o camarada Stalin — com a opressão nacional, porem isto não basta. O problema consiste em acabar com a onerosa herança do passado, com o atraso econômico, político e cultural dos antigos povos oprimidos. É necessário ajudá-los a se colocar, a este respeito, no nível da Rússia Central.

O camarada Stalin destacava, além disso, dois desvios contrários ao Partido no tocante ao problema nacional: o chovinismo absorvente (grão-russo) e o do nacionalismo localista. O Congresso condenou ambos os desvios como perniciosos e perigosos para o comunismo e o internacionalismo proletário. Ao mesmo tempo, porém, dirigiu seus ataques, principalmente, já que representava o perigo fundamental, contra o chovinismo grão-russo, isto é, contra os vestígios e as sobrevivências da atitude que os chovinistas grâo-russos adotavam ante as nacionalidades não russas, sob o czarismo.


 

 

 

3

 

— Primeiros resultados da "NEP".

— O XI Congresso do Partido.

— Fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

— Enfermidade de Lenin.

— O Plano Cooperativo de Lenin.

— O XII Congresso do Partido.


A implantação da NEP chocou com a resistência dos elementos instáveis do Partido. Esta resistência vinha de dois lados. De uma parte, atuavam os tagarelas de "esquerda", abortos políticos no estilo de Lominadse, Shatskin e outros, os quais "demonstravam" que a NEP era a renúncia às conquistas da Revolução de Outubro, a volta ao capitalismo, o afastamento do Poder Soviético. Sua ignorância em matéria de política e seu desconhecimento das leis do desenvolvimento econômico, incapacitavam estes indivíduos para compreender a política do Partido e faziam-nos cair no pânico e fomentar em torno de si um ambiente de desmoralização, de decadência. De outra parte, atuavam os capituladores declarados, da estirpe de Trotsky, Radek, Zinoviev, Sokolnikov, Kamenev, Shliapnikov, Bukarin, Rykov e outros que não tinham fé na possibilidade de desenvolvimento socialista do País Soviético, prosternavam-se ante a "potência" do capitalismo e, aspirando a fortalecer as posições deste no país dos Soviets, exigiam que se fizessem grandes concessões ao capital privado, tanto dentro do país como fora dele, e que se lhe desse uma série de postos importantes do Poder Soviético na Economia nacional, à base de concessões ou de sociedades por ações mistas com participação do capital privado.

Nem uns nem outros tinham nada a ver com o marxismo, com o leninismo.

O Partido desmascarou e isolou uns e outros elementos, dando uma réplica contundente aos semeadores de pânico e aos capituladores.

Esta resistência que se opunha à política do Partido mostrava uma vez mais a necessidade de depurar este dos elementos pouco firmes. Com relação a isto, o C. C. desenvolveu um grande trabalho de fortalecimento do Partido, organizando em 1921 a depuração de suas fileiras. A depuração foi feita nas assembléias públicas, com intervenção dos sem partido. Lenin aconselhava que se depurasse conscienciosamente o Partido

"... dos malandros, dos elementos burocratizados, dos indivíduos pouco honrados, dos comunistas vacilantes e dos mencheviques que, embora tivessem rebocado sua "fachada", em espírito continuavam sendo mencheviques" (Lenin, t. XXVII, pág. 13 ed. russa).

Como conseqüência desta depuração, foram expulsas do Partido, em conjunto, 170.000 pessoas, ou seja cerca de 25% do total de filiados.

Esta depuração fortaleceu consideravelmente o Partido, melhorou a sua contextura social, reforçou a confiança das massas no Partido e fez com que aumentasse a sua autoridade. A coesão e o grau de disciplina do Partido cresceram.

O primeiro ano de aplicação da nova política econômica evidenciou justeza desta política. A mudança para a NEP fortaleceu consideravelmente a aliança entre os operários e os camponeses, sobre uma nova base. Aumentaram a potência e a fortaleza da ditadura do proletariado. Liquidou-se quase totalmente o banditismo dos kulaks. Depois da abolição do sistema de quotas, os camponeses médios ajudaram o Poder Soviético a lutar contra aqueles bandos. O Poder Soviético conservava nas suas mãos todas as posições de direção da Economia nacional: a grande indústria, os transportes, os bancos, a temi, o comércio interno e externo. O Partido conseguiu mudar decisivamente a frente econômica. Manifestaram-se os primeiros êxitos no campo da indústria e dos transportes. Iniciou-se um avanço, lento no começo, é certo, porem indubitável, no terreno da Economia. Os operários e os camponeses sentiam e viam que o Partido estava em bom caminho.

Em março de 1922, se reuniu o XI Congresso do Partido. Assistiram a ele 522 delegados com direito de palavra e voto, representando 532.000 filiados; isto é, menos que no Congresso anterior. Os delegados com palavra porém sem voto, eram 165. A diminuição da cifra dos filiados se explica pela depuração das fileiras do Partido, que já tinha começado.

Neste Congresso, foi feito o balanço do primeiro ano da nova política econômica. Os resultados obtidos permitiram a Lenin declarar perante o Congresso:

"Durante uni ano, retrocedemos. Agora, devemos declarar em nome do Partido:

Basta! O objetivo que perseguíamos com o nosso recuo foi alcançado. Este período chega ao seu fim ou já finalizou. Agora, passa ao primeiro plano outro objetivo: reagrupar as forças" (Lenin, t. XXVII, pág. 238, ed. russa).

Lenin destacou que a NEP era uma luta desesperada, uma luta de vida ou de morte, entre o capitalismo e o socialismo. "Quem vencerá?", assim estava proposto o problema. Para vencer, era necessário assegurar os laços entre a classe operária e os camponeses, entre a indústria socialista e a Economia camponesa, desenvolvendo por todos os meios o intercâmbio de mercadorias entre a cidade e o campo. Para isto era preciso aprender a administrar, era preciso aprender a comerciar de um modo inteligente.

Neste período, o elo fundamental da cadeia de tarefas que se apresentavam ao Partido era o comércio. Sem resolver este problema, era impossível desenvolver o intercâmbio de mercadorias entre a cidade e o campo, era impossível fortalecer a aliança econômica entre os operários e os camponeses, era impossível levantar a Economia rural e tirar do marasmo a indústria.

Naquele momento, o comércio soviético era ainda muito débil. O aparelho comercial era muito fraco, os comunistas não tinham hábitos comerciais, ainda não conheciam a fundo o inimigo — "nepman" nem tinham aprendido a lutar contra ele. Os comerciantes privados, os nepman, aproveitando-se da debilidade do comércio soviético, se apoderaram do comércio dos artigos manufaturados e de outras mercadorias de fácil colocação. O problema da organização de um comércio de Estado e de um comércio cooperativo adquiriu uma imensa importância.

Depois do XI Congresso, tomou novas forças o trabalho de tipo econômico. Foram liquidadas com êxito as conseqüências acarretadas pela má colheita. A Economia camponesa ia se refazendo rapidamente. O funcionamento das estradas de ferro se aperfeiçoava. Aumentava sem cessar o número de fábricas e empresas industriais que trabalhavam.

Em outubro de 1922, a República Soviética festejou um grande triunfo: O Exército Vermelho e os guerrilheiros do Extremo-Oriente limparam a cidade de Vladivostok dos intervencionistas japoneses, que era o único setor do território soviético ocupado ainda pelos invasores. Agora que todo o território soviético estava limpo de intervencionistas, que as tarefas da edificação do socialismo e da defesa do país exigiam que se fortalecesse ainda as Repúblicas Soviéticas dentro de uma União de Estados. Era necessário unificar todas as forças populares para a construção do socialismo. Era necessário organizar energicamente a defesa do país. Era necessário assegurar o pleno desenvolvimento de todas as nacionalidades da Pátria socialista. Para conseguir isto, impunha-se a necessidade de agrupar mais estreitamente ainda todos os povos do País Soviético.

Em dezembro de 1922, celebrou-se o primeiro Congresso dos Soviets de toda a União. Neste Congresso fundou-se por proposta de Lenin e Stalin a união voluntária e livre formada pelos Estados dos povos soviéticos: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S.). Faziam parte da U.R.S.S. a princípio, a República-Socialista Federativa Soviética da Rússia (R.S.F.S.R.), a República Socialista Federativa Soviética da Transcaucásia (R.S.F.S.T.), a República Socialista Soviética da Ucrânia (R.S.S.U.) e a República Socialista Soviética da Bielo-Rússia (R.S.S.B.). Pouco tempo depois, se construíram na Ásia Central três Repúblicas Soviéticas independentes dentro da União: as Repíiblicas do Usbekistão, Turkmenistão e Tadzikistão. Todas estas Repúblicas se agruparam na União dos Estados Soviéticos, a U.R.S.S., sobre a base de sua livre vontade, com direitos iguais, e conservando cada uma delas a faculdade de abandonar livremente a União Soviética.

A fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas representava o fortalecimento do Poder Soviético e um grande triunfo da política leninista-stalinista do Partido bolchevique a respeito do problema nacional.

Em novembro de 1922, Lenin interveio na sessão plenária do Soviet de Moscou. Fazendo o balanço dos cinco anos de existência do Poder Soviético, expressou a sua firme convicção de que "da Rússia da NEP sairia a Rússia socialista". Foi o último discurso que pronunciou ante o país. No outono de 1922, o Partido experimentou uma grande desgraça: Lenin caiu gravemente enfermo. Todo o Partido, todos os trabalhadores, seguiam profundamente penalizados, a enfermidade de Lenin. Todo o país estava dependente, com angústia, daquela vida tão preciosa. Lenin, porém não interrompeu seu trabalho, apesar da enfermidade. Estando já gravemente enfermo, ainda escreveu uma série de artigos importantíssimos. Nestes artigos que foram os últimos, fazia o balanço do trabalho realizado e traçava o plano da construção do socialismo no País Soviético, mediante a incorporação dos camponeses à obra da edificação socialista. Neste projeto, Lenin destacava o seu plano cooperativo, destinado a trazer os camponeses à causa da edificação do socialismo.

Lenin via na cooperação em geral, e na cooperação agrária em particular, o caminho exeqüível e lógico para milhões de camponeses, pelo qual se podia passar da pequena exploração individual para as grandes agrupações cooperativas da produção: kolkoses. Destacava que o caminho pelo qual devia seguir o desenvolvimento da economia agrícola no País Soviético era o de incoqjorar os camponeses à edificação socialista por meio da cooperação, de ir infundindo gradualmente na agricultura os princípios do coletivismo, começando pela esfera da venda, para passar depois para a esfera da produção agrícola. Salientava que o regime da ditadura do proletariado e da aliança da classe operária com os camponeses, assegurada a direção dos camponeses pelo proletariado e com a existência de uma indústria socialista, a cooperação para a produção, uma cooperação bem organizada que abarcasse milhões de camponeses, era o caminho pelo qual se poderia construir no País Soviético uma sociedade socialista completa.

Em abril de 1923, celebrou-se o XII Congresso do Partido. Era o primeiro Congresso que se reunia, depois da tomada do Poder pelos bolcheviques, sem a presença pessoal de Lenin. Tomaram parte dele 408 delegados com direito de palavra e voto, representando 386.000 filiados, isto é, menos que no Congresso anterior. Era o resultado da persistente depuração das fileiras do Partido, em conseqüência da qual tinham sido expulsos dele uma percentagem considerável de filiados. A este Congresso, assistiram, além disso, 417 delegados com palavra, porém sem voto.

Nas resoluções tomadas pelo XII Congresso foram levadas na devida conta todas as indicações feitas por Lenin nos seus últimos artigos e cartas.

O Congresso combateu energicamente todos os que interpretavam a NEP como um abandono das posições socialistas, como uma rendição destas posições ao capitalismo, todos os que se propunham entregar às garras deste. Foi isto o que preconizaram no Congresso os adeptos de Trotsky, Radek e Krasin. Estes se propunham entregar à mercê dos capitalistas estrangeiros, pôr nas suas mãos, a título de concessões, os ramos industriais de interesse vital para o Estado Soviético. Propunham pagar as dívidas do governo czarista, anuladas pela Revolução de Outubro. O Partido estigmatizou como traidoras estas propostas de capitulação. Não renunciava a empregar a política de concessões, porém só naqueles ramos e dentro daqueles limites que se tornassem vantajosos para o Estado Soviético.

Antes do Congresso, Bukarin e Sokolnikov tinham proposto pôr fim ao monopólio do comércio exterior. Esta proposta era também o resultado da interpretação da NEP como a entrega das posições soviéticas ao capitalismo. Lenin estigmatizou então Bukarin como defensor dos especuladores, dos nepman e dos kulaks. O XII Congresso rechaçou decididamente o atentado que se queria perpetrar contra a intangibilidade do monopólio do comércio exterior.

O Congresso combateu também a tentativa de Trotsky de impor ao Partido uma política funesta em relação aos camponeses. Destacou que não era lícito perder de vista o fato do predomínio que a pequena economia camponesa tinha dentro do país. Salientou que o desenvolvimento da indústria, incluindo a indústria pesada, não se devia chocar com os interesses das massas camponesas, porém se harmonizar com eles no interesse de toda a população trabalhadora. Estas resoluções eram dirigidas contra Trotsky, que preconizava a edificação da indústria por meio da exploração dos camponeses e que não reconhecia, de fato, a política da aliança entre o proletariado e os camponeses.

Trotsky propunha também o fechamento de grandes fábricas como as de "Putilov", "Briansk" e outras, que interessavam à defesa do país, porém que, segundo ele, não eram rendosas. O Congresso rechaçou indignado, a proposta de Trotsky.

Por proposta de Lenin, formulada por meio de uma carta, o XII Congresso criou um órgão de fusão da Comissão Central e da Inspeção Operária e Camponesa. A este órgão deu-se uma missão de responsabilidade: velar pela unidade do Partido, fortalecer a disciplina do Partido e do Estado e aperfeiçoar por todos os meios o aparelho do Estado Soviético.

O Congresso consagrou atenção especial ao problema nacional. Informou acerca deste ponto o camarada Stalin, que salientou a significação internacional da política soviética sobre o problema nacional.

Os povos oprimidos do Ocidente e do Oriente vêem na União Soviética o exemplo de como se deve resolver o problema nacional e de como se deve acabar com a opressão nacional. Destacou a necessidade de trabalhar energicamente para liquidar a desigualdade econômica e cultural entre os povos da União Soviética. E incitou todo o Partido para lutar decididamente contra os desvios referentes ao problema nacional: contra o chauvinismo grão-russo e contra o nacionalismo regionalista burguês.

No Congresso foram desmascarados os porta-vozes do desvio nacionalista e a sua política absorvente a respeito das minorias nacionais. Atuavam, naquele momento, contra o Partido os porta-vozes do desvio nacionalista georgiano: Mdivani e outros. Estes elementos eram contrários à criação da federação transcaucásica e ao fortalecimento da amizade entre os povos da Transcaucásia. A sua atitude frente às outras nacionalidades da Geórgia era a de autênticos chovinistas absorventes. Expulsavam de Tiflis todos os não georgianos, principalmente os armênios, e decretaram uma lei, segundo a qual toda georgiana que contraísse matrimônio com um homem de outra nacionalidade perderia a sua cidadania georgiana. Contavam com o apoio de Trotsky, Radek, Bukarin, Serypuik e Rakovski.

Imediatamente depois do Congresso, foi convocada uma Conferência especial dos militantes das Repúblicas nacionais para tratar do problema nacional. Nela, foram desmascarados o grupo dos nacionalistas burgueses tártaros, Sultão-Galiev e outros, e o grupo dos porta-vozes do desvio nacionalista no Usbekistão, constituído por Faisula Iodzhaiev e outros.

O XII Congresso fez o balanço dos resultados obtidos nos dois anos da nova política econômica. Estes resultados infundiam ao espírito vigor e segurança no triunfo final.

"Nosso Partido continua sendo um Partido coerente, monolítico, resistente às maiores viragens e que marcha para a frente com as bandeiras desfraldadas, — declarou no Congresso o camarada Stalin".


 

 

4

 

— A luta Contra as Dificuldades da Restauração da Economia Nacional.

— Recrudesce a Atividade dos Trotskistas, em Razão da Enfermidade de Lenin.

— Nova Discussão dentro do Partido.

— Derrota dos Trotskistas.

— Morte de Lenin.

— A Promoção Leninista.

— O XIII Congresso do Partido.


Os primeiros anos de luta pela restauração da Economia nacional se traduziram em êxitos consideráveis. Em 1924, se percebia o progresso em todos os ramos da Economia. A superfície semeada aumentou consideravelmente a partir de 1921; a Economia camponesa se fortalecia cada vez mais. A indústria socialista crescia e se desenvolvia. Registrava-se um aumento numérico considerável da classe operária. Os salários se elevavam. Os operários e os camponeses começavam a viver melhor e com mais comodidade que em 1920 e 1921.

Apesar de tudo, porém, notavam-se os resultados de uma situação de desastre econômico ainda não liquidada. A indústria não tinha ainda atingido o nível de antes da guerra e o seu desenvolvimento se achava consideravelmente atrasado, em comparação com o aumento das necessidades do país. Em fins de 1923, registrava-se cerca de um milhão de operários sem trabalho; o lento desenvolvimento da Economia nacional não permitia absorver e liquidar o desemprego. O comércio se desenvolvia com intermitências, em razão dos preços extraordinariamente elevados dos artigos industriais, preços que os especuladores e os nepman emboscados nas organizações comerciais soviéticas, impunham ao país.

Em relação com isto, o rublo soviético começou a experimentar fortes oscilações e a baixar de valor. Tudo isto contribuía para dificultar a melhora da situação dos operários e dos camponeses.

No outono de 1923, aumentaram as dificuldades econômicas, em conseqüência das infrações cometidas contra a política soviética de preços pelos organismos industriais e comerciais. Entre os preços das mercadorias industriais e os produtos agrícolas existia grande desarmonia. Enquanto que o preço do trigo era baixo, os preços das mercadorias industriais eram desproporcionalmente elevados. Sobre a indústria pesavam, então, muitos gastos improdutivos e isto encarecia as mercadorias. O dinheiro que os camponeses obtinham pela venda do trigo se depreciava rapidamente. Achando que isto era pouco, o trotskista Piatakov, que ocupava então um posto no Conselho Supremo da Economia Nacional, traçou aos militantes das organizações econômicas a norma criminosa de extrair maiores lucros da venda dos artigos industriais, elevando desregradamente os preços, com o pretexto de fomentar a indústria. Na realidade, esta palavra de ordem própria de um nepman, só podia conduzir a um resultado, reduzir a base da produção industrial e solapar a indústria. Nestas condições, os camponeses não podiam pensar em adquirir artigos industriais e deixavam de comprá-los. Deste modo, se iniciou uma crise do mercado, que repercutiu sobre a indústria. Surgiram dificuldades, para o pagamento dos salários, o que provocou o descontentamento dos operários. Em algumas fábricas, os operários menos conscientes abandonaram o trabalho.

O Comitê Central do Partido mostrou o caminho para superar todas estas dificuldades e deficiências. Foram tomadas medidas para acabar com a crise do mercado. Foram barateados os preços dos artigos de consumo popular. Foi implantada uma reforma monetária, adotando-se um padrão firme e estável: chervonetz. Foi normalizado o pagamento dos salários. Esboçaram-se as medidas convenientes para desenvolver o comércio por intermédio dos organismos soviéticos e cooperativos, expulsando deles toda a classe de mercadores e especuladores.

Era preciso pôr mãos à obra com denodo, e todos unidos.

Assim era como pensavam e atuavam os homens fiéis ao Partido. Os trotskistas, porém, procediam de outro modo. Aproveitando-se da ausência de Lenin, que estava afastado da frente de batalha, devido à sua grave enfermidade, iniciaram uma nova agressão contra o Partido e contra sua direção. Decidiram que o momento indicado havia chegado para derrotar o Partido e derrubar sua direção. Na luta contra o Partido, se aproveitavam de tudo; da derrota sofrida pela revolução na Alemanha e na Bulgária no outono de 1923, das dificuldades econômicas existentes dentro do país, e da enfermidade de Lenin. Foi justamente neste momento difícil para o Estado Soviético, em que o chefe do Partido estava de cama, que Trotsky desencadeou o seu ataque contra o Partido bolchevique. Agrupando em torno de si todos os elementos antileninistas do Partido, arranjou uma plataforma oposicionista, plataforma que era dirigida contra o Partido, contra a sua direção e contra sua política. A esta plataforma se deu o nome de "declaração dos 46 oposicionistas". Na luta contra o Partido leninista, se uniram todos os grupos da oposição: os trotskistas, os "centralistas democráticos", os restos dos "comunistas de esquerda" e da "oposição operária". Na sua declaração, estes elementos profetizavam uma terrível crise econômica e o afundamento do Poder Soviético e exigiam, como única solução, a liberdade para a existência de frações e grupos.

Era uma luta destinada a restabelecer as frações, que foram proibidas pelo X Congresso do Partido, por proposta de Lenin.

Os trotskistas não apresentavam nenhum problema concreto sobre o desenvolvimento da indústria ou da agricultura, sobre o aperfeiçoamento do regime de circulação das mercadorias dentro do país ou o melhoramento da situação dos trabalhadores. Além do mais, isso não lhes interessava. A única coisa que lhes interessava era aproveitarem-se da ausência de Lenin para restabelecer as frações dentro do Partido e solapar deste modo seus alicerces, minar seu Comitê Central.

Imediatamente depois da plataforma dos 46, foi publicada uma carta de Trotsky, na qual cobria de lama os quadros do Partido e dirigia uma série de novas calúnias contra este. Nesta carta, Trotsky repetia as velhas cantilenas mencheviques, que o Partido estava cansado de ouvir dele.

Os trotskistas dirigiam sua agressão, principalmente, contra o aparelho do Partido, pois sabiam que o Partido não pode viver nem atuar sem um aparelho forte. A oposição se esforçava em solapar, em derrubar este aparelho, em enfrentar os filiados do Partido com o aparelho deste, e a juventude, com os velhos quadros do Partido. Na carta, Trotsky especulava com a juventude estudantil, com os jovens filiados ao Partido, que ignoravam a história da luta deste contra o trotskismo. Para conquistar esta juventude estudantil, Trotsky a adulava, dizendo que ela era "o barômetro mais fiel do Partido", ao mesmo tempo que falava da degeneração da velha guarda leninista. Apontando os chefes degenerados da Segunda Internacional, sugeria, ignominiosamente, que a velha guarda bolchevique seguia pelo mesmo caminho. Com os seus gritos sobre a degeneração do Partido, Trotsky tentava encobrir sua própria degeneração e os seus desígnios antibolcheviques.

Os dois documentos da oposição, a plataforma dos 46 e a carta de Trotsky, foram distribuídos pelos trotskistas nos setores e nas células e postos para discussão entre os filiados ao Partido.

O Partido foi desafiado pelos trotskistas a uma contenda.

Repetia-se, pois, o que ocorrera antes do X Congresso do Partido, em virtude da discussão sobre a questão sindical: o Partido via-se arrastado pelos trotskistas a uma discussão, extensiva a todos os filiados.

Apesar de se achar ocupado em problemas de caráter econômico mais importantes, o Partido aceitou o repto e abriu a discussão.

A discussão foi extensiva a todo o Partido. Era uma luta inflamada. A contenda adquiriu caracteres especialmente agudos em Moscou. Os trotskistas aspiravam, de preferência, a se apoderar da organização da capital. A discussão, porém, de nada serviu aos trotskistas, a não ser para evidenciar sua infâmia. Foram derrotados em toda a União Soviética. Só votou por eles um número reduzido de células pertencentes às Escolas Superiores e a organismos administrativos.

Em janeiro de 1924, se reuniu a XIII Conferência do Partido. Nela o camarada Stalin pronunciou um informe, fazendo o balanço da discussão sustentada no Partido. A Conferência condenou a oposição trotskista, declarando que se tratava de um desvio pequeno burguês

do marxismo. As resoluções desta Conferência foram referendadas posteriormente pelo XIII Congresso do Partido e pelo V Congresso da Internacional Comunista. O proletariado comunista internacional apoiava o Partido bolchevique na sua luta contra o trotskismo.

Os trotskistas não cessaram porém seu trabalho de sapa. No outono de 1924, Trotsky publicou um artigo intitulado "Os ensinamentos de Outubro", no qual tentava substituir o leninismo pelo trotskismo. Todo este artigo era uma calúnia contra o Partido bolchevique e seu chefe, Lenin. Todos os inimigos do comunismo e do País Soviético se aferravam a este livreco calunioso.

O Partido rechaçou com indignação estas calúnias de Trotsky contra a história heróica do bolchevismo. O camarada Stalin desmascarou a tentativa de Trotsky de substituir o leninismo pelo trotskismo, destacando, em suas intervenções, que

"a missão do Partido consiste em enterrar o trotskismo, como corrente ideológica".

Na obra de esmagamento ideológico do trotskismo e de defesa do leninismo, teve uma importância extraordinária o trabalho teórico do camarada Stalin intitulado: "Sobre os fundamentos do leninismo" e que veio à luz em 1924. Esta obra é uma exposição magistral e um fundamento teórico muito sério do leninismo, que então armou e continua armando hoje os bolcheviques do mundo inteiro com a arma afiada da teoria marxista-leninista.

Na luta contra o trotskismo, o camarada Stalin cerrou as fileiras do Partido em torno do seu Comitê Central e o mobilizou para continuar combatendo pelo triunfo do socialismo no País Soviético. O camarada Stalin soube demonstrar que o esmagamento ideológico do trotskismo era condição imprescindível para assegurar o prosseguimento da marcha vitoriosa para o socialismo.

Fazendo o balanço deste período de luta contra o trotskismo, dizia o camarada Stalin:

"Sem esmagar o trotskismo, não é possível triunfar dentro das condições da NEP, não é possível conseguir a transformação da Rússia atual em uma Rússia Socialista".

Os êxitos porém da política leninista do Partido foram cobertos de tristeza pela enorme desgraça que o próprio Partido e a classe operária experimentaram. Em 21 de janeiro de 1924, morreu em Gorki, perto de Moscou, o nosso chefe e mestre, o fundador do Partido bolchevique, Lenin. A notícia da morte de Lenin afetou a classe operária do mundo inteiro com a perda mais cruel. No dia do enterro de Lenin, o proletariado internacional suspendeu o trabalho durante cinco minutos. Pararam os trens, interromperam-se os trabalhos nas fábricas e oficinas.

Os trabalhadores de todo o mundo acompanharam ao túmido, com a mais profunda dor, seu pai e mestre, seu melhor amigo e defensor, Lenin.

A classe operária da União Soviética respondeu à morte de Lenin cerrando ainda mais suas fileiras em torno do Partido leninista. Naqueles dias lutuosos, todo operário consciente meditou acerca da sua atitude ante o Partido Comunista, o Partido que punha em prática os mandamentos de Lenin. Ao Comitê Central do Partido chegaram milhares e milhares de declarações de operários sem partido, pedindo ingresso no Partido bolchevique. O Comitê Central, fazendo-se eco deste movimento dos operários de vanguarda, admitiu o ingresso em massa no Partido e abriu as portas deste à promoção leninista. Ingressaram no Partido novas dezenas de milhares de operários. Ingressaram nele os que estavam dispostos a dar a vida pela causa do Partido, pela causa de Lenin. Em pouco tempo, engrossaram as fileiras do Partido mais de 240.000 operários. Aderiu ao Partido a parte mais avançada du classe operária, a mais consciente e revolucionária, a mais audaciosa e disciplinada. Esta foi a promoção leninista de novos filiados ao Partido.

A morte de Lenin mostrou quanto as massas operárias estavam unidas ao Partido bolchevique e quanto o queriam como filho de suas entranhas.

No II Congresso dos Soviets da U.R.S.S., celebrado nos dias de luto pela morte de Lenin, o camarada Stalin pronunciou, em nome do Partido, um solene juramento, no qual disse:

"Nós, os comunistas, somos homens de uma têmpera especial. Somos feitos de fibra especial. Somos os que formamos o Exército do grande estrategista proletário, o Exército do camarada Lenin. Não há nada mais alto que a honra de pertencer a este Exército. Não há nada superior ao título de membro do Partido cujo fundador e chefe é o camarada Lenin.

Ao nos deixar, o camarada Lenin nos legou o dever de manter bem alto e conservar em toda a sua pureza o grande título de membro do Partido. Nós te juramos, camarada Lenin, que executaremos com honra este mandato!...

Ao nos deixar, o camarada Lenin nos legou o dever de conservar e fortalecer a ditadura do proletariado. Nós te juramos, camarada Lenin, que não pouparemos esforços para executar com honra também este mandato!...

Ao nos deixar, o camarada Lenin nos legou o dever de assegurar em todas as nossas forças, a aliança dos operários e camponeses. Nós te juramos, camarada Lenin, que executaremos com honra igualmente este mandato!...

O camarada Lenin nos falava insistentemente da necessidade de uma aliança voluntária e livre entre os povos do nosso país, da necessidade da sua colaboração fraternal dentro dos limites da União Soviética. Ao nos deixar, o camarada Lenin, nos legou o dever de reforçar e estender a União das Repúblicas. Nós te juramos, camarada Lenin, que executaremos com honra também este mandato!...

Lenin nos indicou repetidas vezes que o fortalecimento do Exército Vermelho e o seu aperfeiçoamento constituem uma das mais importantes tarefas do nosso Partido. Juremos, pois, camaradas, que não pouparemos esforços para fortalecer o nosso Exército Vermelho e a nossa Frota Vermelha!...

Ao nos deixar, o camarada Lenin nos legou o dever de permanecermos fiéis aos princípios da Internacional Comunista. Nós te juramos, camarada Lenin, que não regatearemos nossa vida para fortalecer e estender a união dos trabalhadores de todo o mundo, a Internacional Comunista!"

Tal foi o juramento do Partido bolchevique a seu chefe, Lenin, cuja obra perdurará através dos séculos.

Em maio de 1924, celebrou-se o XIII Congresso do Partido. Assistiram a ele 748 delegados com direito de palavra e voto, representando 735.881 filiados. O enorme aumento do número de filiados ao Partido, em comparação com o do Congresso anterior, tem sua explicação nos 250.000 ingressos aproximadamente, da promoção leninista. Os delegados com palavra, porém sem voto, eram 416.

O Congresso condenou unanimemente a plataforma da oposição trotskista, definindo-a como um desvio pequeuo-burguês do marxismo, como uma revisão do leninismo e ratificou as resoluções votadas pela XIII Conferência do Partido "sobre a obra do desenvolvimento do Partido" e "Sobre os resultados da discussão".

Partindo da tarefa de reforçar a coesão entre a cidade e o campo, o Congresso indicou a necessidade de continuar desenvolvendo a indústria, e em primeiro lugar, a indústria leve, salientando, ao mesmo tempo, a necessidade de imprimir um rápido desenvolvimento à indústria metalúrgica.

O Congresso ratificou a criação do Comissariado do Povo para o Comércio Interior e propôs a todos os organismos comerciais a tarefa de dominar o mercado e desalojar da órbita comercial o capital privado.

O Congresso propôs a tarefa de desenvolver o crédito do Estado a favor dos camponeses com baixo tipo de juro, desalojando da aldeia o usurário.

Como tarefa fundamental para a atuação no campo, o Congresso destacou a palavra de ordem de desenvolver por todos os meios a cooperação entre as massas camponesas.

Finalmente, o Congresso assinalou a enorme importância da promoção leninista e chamou a atenção do Partido para a necessidade de reforçar o trabalho de educação dos novos filiados ao Partido, e sobretudo, da promoção leninista, instruindo-os nos fundamentos do leninismo.


 

 

5

 

— A União Soviética no final do período de restauração da Economia Nacional.

— O problema da Edificação Socialista e do Triunfo do Socialismo no País Soviético.

— A "nova oposição" de Zinoviev-Kamenev.

— O XIV Congresso do Partido.

— Para a industrialização Socialista do País.


O Partido bolchevique e a classe operária estavam já com quatro anos de luta tenaz pela rota da nova política econômica. O heróico trabalho de restauração da Economia nacional chegava a seu fim. A potência econômica e política da União Soviética crescia sem cessar.

A situação internacional, naquele momento, havia mudado. O capitalismo fez frente ao primeiro assalto revolucionário das massas depois da guerra imperialista. Foi sufocado o movimento revolucionário na Alemanha, na Itália, na Bulgária, Polônia e noutra série de países. Os chefes dos partidos social-democratas oportunistas ajudaram a burguesia a conseguir isto. Iniciou-se um refluxo passageiro da revolução. Iniciou-se uma estabilização parcial e passageira do capitalismo na Europa Ocidental, de um fortalecimento temporário das suas posições. Porém a estabilização do capitalismo não suprimiu as contradições fundamentais que desagregam a sociedade capitalista. Pelo contrário: a estabilização parcial do capitalismo vinha acentuar as contradições entre os operários e os capitalistas, entre o imperialismo e os países coloniais, entre os grupos imperialistas e os diversos países. A estabilização do capitalismo preparava uma nova explosão dessas contradições, gerava novas crises nos países capitalistas.

Paralelamente à estabilização do capitalismo, desenvolvia-se a estabilização da União Soviética. Entretanto, entre estes dois processos de estabilização mediava uma diferença radical. A estabilização capitalista pressagiava uma nova crise do capitalismo. A estabilização da União Soviética representava um novo desenvolvimento da potência econômica e política do país do Socialismo.

Apesar da derrota sofrida pela revolução nos países ocidentais, a situação internacional da União Soviética continuava se fortalecendo, embora com ritmo mais lento.

Em 1922, a União Soviética foi convidada para a Conferência econômica internacional que se celebrou na cidade italiana de Gênova. Na Conferência de Gênova, os governos imperialistas, animados pela derrota da revolução nos países do capitalismo, tentaram fazer uma nova pressão sobre a República dos Soviets, agora, sob uma forma diplomática. Os imperialistas formularam ao país dos Soviets reivindicações insolentes. Exigiam que fossem devolvidas aos capitalistas estrangeiros as fábricas e as empresas industriais nacionalizadas pela Revolução de Outubro e que se pagassem todas as dívidas contraídas pelo governo czarista. Em compensação, os Estados imperialistas prometiam fazer ao Estado Soviético alguns empréstimos.

A União Soviética rechaçou estas exigências.

A Conferência de Gênova foi infrutífera.

Também obteve a réplica adequada a ameaça de uma nova intervenção que o ultimatum formulado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Inglaterra, Curzon, em 1923, representava.

Tendo sondado bem a firmeza do Poder Soviético, os Estados capitalistas, convencidos da própria debilidade, foram reatando um a um, as relações diplomáticas com o país dos Soviets. No transcurso do ano de 1924, se restabeleceram as relações diplomáticas com a Inglaterra, a França, o Japão e a Itália.

Era evidente que o Poder Soviético soube conquistar um período de trégua pacífica.

Tinha mudado também a situação dentro do país. O trabalho abnegado dos operários e dos camponeses, dirigidos pelo Partido bolchevique, dava seus frutos. A Economia nacional se desenvolvia rapidamente. No ano econômico de 1924-1925, a produção agrícola se aproximava já do nível de antes da guerra, pois tinha alcançado 87% deste nível. A grande indústria da U.R.S.S. produzia, já em 1925, cerca de três quartas partes da produção industrial de antes da guerra. Em 1924-1925, o País Soviético já pôde inverter, em obras básicas, 385 milhões de rublos. O plano de eletrificação do país se realizava com êxito. As posições-chaves do socialismo, na Economia nacional, se firmavam. Foram obtidos importantes êxitos na luta contra o capital privado na indústria e no comércio.

O auge econômico se traduzia em um novo melhoramento da situação dos operários e dos camponeses. A classe operária crescia com ritmo acelerado. Os salários aumentavam. Aumentava também a produtividade do trabalho. A situação material dos camponeses melhorava consideravelmente. Em 1924-1925, o Estado operário e camponês pôde consignar 290 milhões de rublos para ajudar os camponeses pobres. O melhoramento da situação dos operários e camponeses contribuiu para incrementar em proporções consideráveis a atividade política das massas. A ditadura do proletariado se fortalecia. A autoridade e a influência do Partido bolchevique estavam aumentando.

A restauração da Economia nacional chegava a seu fim. Porém o país dos Soviets, o país em que se construía o Socialismo, não podia dar-se por satisfeito com a restauração pura e simples da Economia, com alcançar simplesmente o nível de antes da guerra. Este nível era o de um país atrasado. Era preciso continuar avançando. A longa trégua conquistada pelo Estado Soviético garantia a possibilidade de prosseguir a obra de edificação.

Ao chegar aqui, porém, surgia em toda a sua envergadura o problema das perspectivas, do caráter do nosso desenvolvimento e da nossa edificação, o problema da sorte do Socialismo da União Soviética. Em que direção se devia orientar a edificação econômica da União Soviética, na direção do Socialismo ou numa outra direção? Devia e podia o País Soviético construir uma Economia socialista, ou estava condenado a preparar o terreno para outra classe de Economia, para uma economia capitalista? Era possível, em linhas gerais, construir uma Economia Socialista na U.R.S.S., e caso assim fosse, era possível construí-la ante a demora da revolução nos países capitalistas e a estabilização do capitalismo? Era possível construir uma Economia Socialista pela senda da nova política econômica, que, ao mesmo tempo que fortalecia e desenvolvia por todos os meios as forças do Socialismo dentro do país, dava também, no momento, um certo incremento ao capitalismo? Como construir uma Economia nacional de tipo socialista? Por onde começar esta obra de edificação?

Todas estas perguntas se levantavam ante o Partido, ao terminar o período de restauração da Economia nacional, não como problemas teóricos, e sim como problemas práticos, como problemas que afetavam o trabalho cotidiano da edificação econômica.

Eram todas estas perguntas que exigiam respostas claras e simples, para que os militantes do Partido e os dirigentes das organizações econômicas, os que constituíram a indústria e a agricultura, e todo o povo soubessem para onde se deviam orientar, se para o Socialismo ou para o capitalismo.

Sem responder claramente a estas perguntas, toda a atuação prática do Partido no terreno construtivo seria trabalho com falta de perspectivas, trabalho às cegas, estéril.

E, com efeito, o Partido deu a todas estas perguntas uma resposta clara e definida.

Sim — respondia o Partido — o País Soviético pode e deve edificar uma Economia Socialista, pois existem nele todos os elementos necessários para isto, para construir uma Economia Socialista e para edificar uma sociedade socialista completa. Em outubro de 1917 a classe operária venceu o capitalismo no terreno político, instaurando sua ditadura política. De então para cá, o Poder Soviético tomou todas as medidas necessárias para destruir a potência econômica do capitalismo e criar as condições indispensáveis para edificar uma economia nacional de tipo socialista. A expropriação dos capitalistas e latifundiários, a conversão das terras, fábricas e empresas industriais, bancos e vias de comunicação, em propriedade de todo o povo; a implantação da nova política econômica; a organização de uma indústria socialista do Estado; a aplicação do plano cooperativo de Lenin: eis aí as medidas adotadas pelo Poder Soviético. A tareia fundamental, agora, consiste em desenvolver por todo o país a obra de edificação de uma nova Economia, da Economia Socialista, dando também assim o tiro de misericórdia no capitalismo no terreno econômico. Todo o trabalho prático, toda a atuação do Partido bolchevique devem subordinar-se ao cumprimento desta tarefa fundamental. A classe operária pode fazer isto e o fará. A execução desta tarefa grandiosa deve começar pela industrialização do país. A industrialização socialista do país é o elo fundamental pelo qual há de começar a magna obra da edificação de uma Economia Nacional de tipo socialista. Nem a demora da revolução na Europa Ocidental, nem a estabilização parcial do capitalismo nos países não soviéticos, poderão conter a marcha vitoriosa da U.R.S.S. para o socialismo. A nova política econômica só pode facilitar esta obra, pois foi implantada pelo Partido precisamente para isto, para facilitar a edificação dos alicerces socialistas da economia nacional do País Soviético.

Esta era a resposta que dava o Partido à pergunta acerca do assunto da edificação socialista na União Soviética.

O Partido sabia, porém, que o problema do triunfo do socialismo em um só país não se reduzia a isto. A construção do socialismo na U.R.S.S. representa uma grandiosa mudança na história da Humanidade e um triunfo de alcance histórico universal para a classe operária e os camponeses da U.R.S.S. E, porém, apesar de tudo, uma incumbência interior da U.R.S.S. e representa somente uma parte do problema do triunfo do socialismo. A outra parte do problema constitui seu aspecto internacional. Fundamentando as teses do triunfo do socialismo em um só país, o camarada Stalin assinalou mais de uma vez que é necessário distinguir entre os dois aspectos deste problema: o aspecto interior e o aspecto internacional. Pelo que se refere ao aspecto interior do problema, ou seja a correlação de classes dentro do país, a classe operaria e os camponeses da U.R.S.S. poderão vencer plenamente no terreno econômico a sua própria burguesia e construir uma sociedade socialista completa. Fica, porém, o aspecto internacional do assunto, isto é, a órbita das relações exteriores, a órbita das relações entre o país Soviético e os países capitalistas, entre o povo Soviético e a burguesia internacional, que odeia o regime soviético e procurará a ocasião para desencadear uma nova intervenção armada contra o país dos soviets, fazendo novas tentativas destinadas a restaurar o capitalismo na U.R.S.S.. E como este é, no momento, o único país do socialismo e os demais países continuam sendo capitalistas, continuará existindo em torno da U.R.S.S. um cerco capitalista, fonte de perigo de uma nova intervenção armada do capitalismo. Claro está que enquanto existir o cerco capitalista continuará também existindo o perigo de uma intervenção capitalista. Pode o povo soviético só com suas forças, destruir este perigo exterior, o perigo de uma intervenção armada do capitalismo contra a U.R.S.S.? Não, não pode. E não pode, porque para acabar com o perigo de uma intervenção do capitalismo é necessário acabar com o cerco capitalista, e isto só é possível conseguir como resultado de uma revolução proletária vitoriosa, pelo menos, em alguns países. De onde se deduz que o triunfo do socialismo na U.R.S.S., triunfo que se revela na liquidação do sistema da Economia capitalista e na construção do sistema da Economia socialista, não pode, apesar de tudo, considerar-se como um triunfo definitivo, enquanto não desaparecer o perigo de uma intervenção armada estrangeira e das tentativas de restauração do capitalismo, enquanto o país do socialismo não estiver garantido contra este perigo. Para acabar com o perigo de uma intervenção armada estrangeira, é necessário acabar com o cerco capitalista.

É certo que o povo soviético e o seu Exército Vermelho, mediante a política acertada do Poder Soviético, saberão dar uma resposta mais adequada a uma nova intervenção capitalista dos anos de 1918 e 1920. Mas isto, por si só, não quer dizer que vai desaparecer o perigo de novas intervenções capitalistas. A derrota sofrida pela primeria intervenção não acabou com o perigo de uma outra nova, como o demonstra o fato de que a fonte da qual emana o perigo de novas intervenções — o cerco capitalista — continua existindo. O fracasso de uma intervenção também não fará desaparecer o perigo de que se produzam outras, enquanto estiver de pé o cerco capitalista.

Conclui-se que o triunfo da revolução proletária nos países capitalistas é de interesse vital para os trabalhadores da U.R.S.S.

Era essa a posição do Partido ante o problema do triunfo do socialismo no País Soviético.

O Comitê Central exigiu que esta posição fosse submetida à consideração da XIV Conferência do Partido, prestes a se celebrar, para que fosse aprovada e sancionada como posição do Partido, como lei do Partido, obrigatória para todos os membros.

Esta posição do Partido produziu um efeito desconcertante nos elementos da oposição. Desconcertou-os, sobretudo, o fato de que o Partido desse a essa posição um caráter prático concreto, a ligar-se ao plano prático da industrialização socialista do país e exigisse que tivesse a forma de uma lei do Partido, a forma de uma resolução da XIV Conferência do Partido, obrigatória para todos os filiados.

Os trotskistas se levantaram contra esta posição do Partido, opondo-lhe a "teoria da revolução permanente", teoria menchevique, que, só para escarnecer do marxismo, se podia apresentar como uma teoria marxista, e que negava a possibilidade do triunfo do socialismo na U.R.S.S.

Os bukarinistas não se decidiram a enfrentar abertamente a posição do Partido. Sorrateiramente, porém, começaram a lhe apor a sua própria "teoria" da evolução pacífica da burguesia para o socialismo, completando-a com a "nova" palavra de ordem "enriquecei-vos!". Isto é, segundo os bukarinistas, o triunfo do socialismo não representava a liquidação da burguesia, mas, pelo contrário, vinha para fomentá-la e enriquecê-la.

Zinoviev e Kamenev se precipitaram, mantendo durante algum tempo, a afirmação de que na U.R.S.S. era impossível que triunfasse o socialismo, devido ao atraso técnico-econômico deste pais: porém viram-se obrigados mais tarde a bater em retirada.

A XIV Conferência do Partido (celebrada em abril de 1925) condenou todas estas "teorias" capituladoras dos sequazes descarados e encobertos da oposição e afirmou a posição do Partido sobre o triunfo do socialismo na U.R.S.S., votando uma resolução conseqüente com isto.

Zinoviev e Kamenev, vendo-se acossados, optaram por votar a favor desta resolução. Mas não se podia ocultar ao Partido que isto não era mais que um ardil para retardar sua luta contra ele e para "dar a batalha ao Partido" no seu XIV Congresso. Entretanto, reuniram os adeptos com que contavam em Leningrado e formaram a chamada "nova oposição".

Em dezembro de 1925, celebrou-se o XIV Congresso do Partido.

Este Congresso decorreu numa atmosfera de grande tensão dentro do Partido. Em todo o tempo que este tinha de existência não se havia dado ainda o caso de que a delegação de um centro importantíssimo do Partido como Leningrado confabulasse para atuar toda ela contra o Comitê Central.
Tomaram parte neste Congresso 665 delegados com direito de palavra e voto e 641 sem direito a voto, representando 643.000 filiados e 445.000 aspirantes, isto é, um número algo menor que no Congresso anterior. Este declínio era o resultado da depuração parcial levada a cabo nas células das Escolas superiores e dos organismos administrativos que se revelaram infestados de elementos inimigos do Partido.

O informe político do Comitê Central coube ao camarada Stalin. Este traçou um quadro nítido do desenvolvimento da potência política e econômica da União Soviética. Graças à superioridade do sistema da economia soviética, tanto a indústria como a agricultura foram restauradas em um prazo relativamente curto e se aproximavam de novo do nível de antes da guerra. Apesar destes êxitos, porém, o camarada Stalin preconizava a necessidade de não se contentar com o conseguido, já que os êxitos obtidos não podiam destruir o fato de que o País Soviético continuava sendo um país agrário. As duas terças partes da produção eram agrícolas e só uma terça parte procedia da indústria. Ante o Partido se apresentava em toda a sua plenitude — dizia o camarada Stalin — o problema de transformar o País Soviético num país industrial, economicamente independente dos países capitalistas. E isto se podia e se devia fazer. A tarefa central do Partido era lutar pela industrialização socialista do país, lutar pelo triunfo do socialismo.

"Transformar o nosso país de um país agrário em um país industrial, capaz de produzir com seus próprios meios as máquinas e as ferramentas necessárias: nisto consiste a essência, o fundamento da nossa linha geral", — dizia o camarada Stalin.

A industrialização do país garantiria sua independência econômica, reforçaria sua capacidade defensiva e criaria as condições necessárias para o triunfo do socialismo na U.R.S.S.

Contra a linha geral do Partido se levantaram os zinovievistas. O zinovievista Sokolnikov opôs ao plano de industrialização socialista de Stalin, o plano burguês que tinha aceitação entre os tubarões do capitalismo. Este plano consistia em que a U.R.S.S. continuasse sendo um país agrário que produzisse, fundamentalmente, matérias-primas e artigos alimentícios, exportando estes artigos e importando a maquinaria que não produzia nem devia, segundo eles, produzir. Dentro das condições existentes em 1925, este plano tinha todo o caráter de um plano de escravização econômica da U.R.S.S. pelos países estrangeiros industrialmente desenvolvidos, de um plano destinado a manter o atraso industrial da U.R.S.S. em proveito dos tubarões imperialistas dos países do capitalismo.

Aceitar este plano equivalia a converter o País Soviético em um país agrário impotente, em um apêndice agrícola do mundo capitalista, entregá-lo como um país débil e enorme à mercê do cerco capitalista e, em última instância, sepultar a causa do socialismo na U.R.S.S.

O Congresso estigmatizou o "plano" econômico dos zinovievistas, como um plano de escravidão da U.R.S.S.

De nada serviram à "nova oposição" saídas como a de afirmar (deturpando Lenin) que a indústria do Estado Soviético não era, segundo ela, uma indústria socialista, nem declarar (deturpando também Lenin) que o camponês não podia, segundo ela, ser aliado da classe operária na edificação do socialismo.

O Congresso estigmatizou, como antileninista, estas saídas da "nova oposição".

O camarada Stalin desmascarou o fundo trotskista-menchevique da "nova oposição". Mostrou que Zinoviev e Kamenev não faziam mais que repetir as cantilenas dos inimigos do Partido, contra os quais Lenin em seu tempo tinha lutado implacavelmente.

Não havia a menor dúvida que os zinovievistas não eram mais que trotskistas mal disfarçados.

O camarada Stalin destacou que a tarefa mais importante do Partido consistia em estabelecer uma aliança sólida entre a classe operária e os camponeses médios para a obra da edificação do socialismo. E assinalou dois desvios que existiam então, no Partido a respeito do problema camponês e que representavam um perigo para esta aliança. O primeiro desvio consistia em menosprezar e diminuir a importância do perigo dos kulaks; o segundo era o pânico, o terror dos kulaks, e o menosprezo da importância dos camponeses médios. Respondendo à pergunta de qual dos dois desvios era o pior, o camarada Stalin dizia:

"Ambos, o primeiro e o segundo desvios, são piores. E se estes desvios ganhassem terreno, seriam capazes de desorganizar e jogar no monturo o nosso Partido. Dentro do nosso Partido há, felizmente, forças suficientes para cortar pela raiz o primeiro e o segundo desvios".

Com efeito, o Partido esmagou e cortou pela raiz o desvio de esquerda e o de direita.

Fazendo o balanço dos debates mantidos em torno da edificação econômica, o XIV Congresso do Partido rechaçou unanimemente os planos capituladores dos elementos da oposição e estampou na sua memorável resolução estas palavras:

"No terreno da edificação econômica, o Congresso parte do critério de que o nosso país, o país da ditadura do proletariado, conta "com todos os elementos necessários para construir uma sociedade socialista completa" (Lenin). O Congresso entende que a luta pelo triunfo da edificação do socialismo na U.R.S.S., é missão fundamental do nosso Partido".

O XIV Congresso aprovou os novos estatutos do Partido.

A partir do XIV Congresso, o Partido bolchevique começou a se chamar Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S. — P. C. (b) da U.R.S.S.

Os zinovievistas, derrotados no Congresso, não se submeteram à disciplina do Partido. Começaram a lutar contra as resoluções do XIV Congresso. Imediatamente depois de celebrar este, Zinoviev organizou uma assembléia do Comitê provincial das Juventudes Comunistas de Leningrado, em cujos dirigentes ele, Salutski, Bakaiev, Evdokimov, Kukln, Safarov e outros salafrários, tinham inculcado o ódio contra o Comitê Central Leninista do Partido.

Nesta assembléia, o Comitê provincial das Juventudes Comunistas de Leningrado tomou a resolução, inaudita na história das Juventudes Comunistas Leninistas da U.R.S.S., de se rebelar contra as resoluções do XIV Congresso do Partido.

Os dirigentes zinovievistas das Juventudes Comunistas de Leningrado não refletiam porém, de nenhum modo, o estado de espírito das massas de jovens comunistas dessa capital. Não deu, pois, grande trabalho esmagá-los, e rapidamente a organização juvenil de Leningrado voltou a ocupar o lugar que lhe correspondia dentro das Juventudes Comunistas.

Ao terminar o XIV Congresso, saiu para Leningrado um grupo de delegados composto pelos camaradas Molotov, Kirov, Voroshilov, Kalinin, Andreev e outros. Era necessário explicar aos membros da organização do Partido naquela capital o caráter criminoso, antibolchevique da oposição mantida no Congresso pela delegação de Leningrado, que tinha obtido as suas atas por meio de fraude. As assembléias em que se informou sobre o Congresso foram bastante agitadas. Convocou-se urgentemente uma nova Conferência da organização do Partido de Leningrado. A esmagadora maioria dos filiados ao Partido em Leningrado (mais de 97 por cento) referendou plenamente as resoluções do XIV Congresso do Partido e condenou a "nova oposição" zinovievista antibolchevique. A "nova oposição" era já um grupo de generais sem Exército.

Os bolcheviques de Leningrado continuaram militando nas primeiras fileiras do Partido de Lenin—Stalin.

Resumindo os resultados do trabalho do XIV Congresso do Partido, o camarada Stalin escrevia:

"A significação histórica do XIV Congresso do P. C. (b) da U.R.S.S. consiste em que soube pôr a descoberto até em sua raiz os erros da "nova oposição", em que lançou por terra sua falta de fé e suas lamentações, em que traçou clara e nitidamente o caminho pra continuar lutando pelo socialismo, deu ao Partido uma perspectiva do triunfo e com isso infundiu no proletariado a fé inquebrantável no triunfo da edificação socialista". (Stalin, "Problemas do Leninismo", ed. russa, pág. 150).

Resumo

Os anos de transição ao trabalho pacífico de restauração da Economia nacional são um dos períodos de maior responsabilidade na história do Partido bolchevique. Em uma tensa situação, o Partido soube levar a cabo a difícil mudança da política do comunismo de guerra à nova política econômica. O Partido fortaleceu a aliança entre os operários e os camponeses numa base econômica. Foi fundada a União das Repriblicas Socialistas Soviéticas.

Pelo caminho da nova política econômica, conquistaram-se êxitos decisivos no que se refere à restauração da Economia nacional. O país dos Soviets atravessou com êxito a etapa de restauração no desenvolvimento da Economia nacional e começou a passar para a nova etapa, da industrialização do país.

A passagem da guerra civil para o trabalho de edificação pacífica do socialismo, foi acompanhada, principalmente nos primeiros tempos, por grandes dificuldades. Os inimigos do bolchevismo, os elementos contrários ao Partido bolchevique emboscados dentro das suas fileiras, mantiveram durante todo este período, uma luta desesperada contra o Partido Leninista.

À frente dos elementos contrários ao Partido figurava Trotsky, secundado nesta luta por Kamenev, Zinoviev e Bukarin. Os elementos da oposição pretenderam desarticular as fileiras do Partido bolchevique depois da morte de Lenin, dividir o Partido e contagiá-lo com sua falta de fé no triunfo do socialismo da U.R.S.S. No fundo os trotskistas tentavam criar na U.R.S.S. uma organização política da nova burguesia, outro partido, o partido da restauração capitalista.

O Partido cerrou fileiras, sob a bandeira de Lenin, em torno do seu Comitê Central leninista, em torno do camarada Stalin, e inflingiu uma derrota, tanto aos trotskistas como a seus novos amigos de Leningrado, a nova oposição de Zinoviev e Kamenev.

Depois de acumular forças e recursos, o Partido bolchevique conduziu o país para uma etapa histórica, a etapa da industrialização socialista.

 

 

 

Capítulo X

 

— O Partido Bolchevique na Luta Pela Industrialização Socialista do País

(1926-1929)


 

1

 

— As dificuldades do período da industrialização socialista e a luta contra elas.

— Formação do bloco antibolchevique trotskista-zinovievista.

— Atuação anti-soviética deste bloco.

— Sua derrota.


Depois do XIV Congresso, o Partido desenvolveu a luta para pôr em prática a linha geral do Poder Soviético a respeito da industrialização socialista do país.

No período de restauração da Economia, o problema consistia em tirar da sua prostração, antes de tudo, a agricultura, em obter desta matérias-primas e artigos alimentícios e pôr em movimento e restaurar a indústria, as fábricas e empresas industriais existentes.

O Poder Soviético resolveu com relativa facilidade estes problemas.

O período de restauração da Economia apresentava três grandes falhas.

Em primeiro lugar, só existiam as velhas fábricas e empresas industriais, com sua técnica velha e atrasada, que podiam ficar imprestáveis dentro de pouco tempo. Apresentava-se o problema de equipar de novo estas fábricas e empresas industriais nos moldes da técnica moderna.

Em segundo lugar, o período de restauração da Economia se encontrou com uma indústria cuja base era muito reduzida, pois entre as fábricas e empresas industriais existentes faziam falta dezenas e centenas de fábricas de construção de maquinaria, absolutamente necessárias para o país, fábricas que não existiam então e que era indispensável construir, já que sem elas não pode existir uma verdadeira indústria. Apresentava-se, portanto, o problema de criar estas fábricas e de equipá-las com uma técnica nova.

Em terceiro lugar, o período de restauração da Economia se preocupava, principalmente, com a indústria leve que desenvolveu e pôs a fancionar. Porém este desenvolvimento da indústria leve continuava se apoiando numa indústria pesada pobre, além de outras exigências do país reclamarem também, para sua satisfação, uma indústria pesada progressista. Apresentava-se, pois, o problema do passar para o primeiro plano, de agora por diante, a indústria pesada.

Todos estes novos problemas eram os que a política da industrialização socialista tinha que resolver.

Era necessário construir de novo toda uma série de ramos industriais, desconhecidos da Rússia czarista, construir novas fábricas de máquinas e ferramentas, de automóveis, de produtos químicos, metalúrgicas; organizar uma produção própria de motores e de material para a instalação de centrais elétricas; incrementar a extração de metais e de carvão, pois assim o exigia a causa do triunfo do socialismo na U.R.S.S.

Era necessário criar uma nova indústria de guerra, construir novas fábricas de artilharia, de munições, de aviação, de tanques e de metralhadoras, pois assim o exigiam os interesses da defesa da U.R.S.S., sob as condições do cerco capitalista.

Era necessário construir fábricas de tratores, fábricas de maquinaria agrícola moderna, abastecendo com elas a agricultura, para dar aos milhões de pequenos camponeses individuais a possibilidade de passar para a grande produção kolkosiana, pois assim o exigiam os interesse do triunfo do socialismo no campo.

Tudo isto era o que tinha que resolver a política da industrialização pois nisso consistia, precisamente, a industrialização socialista do país.

É fora de dúvida que a construção de obras básicas tão gigantescas não se podia realizar sem uma inversão de milhares de milhões. Para isto não se podia contar com empréstimos estrangeiros, pois os países capitalistas se negavam a concedê-los. Era necessário realizar esta empresa com os próprios recursos do país, sem a ajuda de fora. O País Soviético não era ainda, então, uma nação rica.

Nisto consistia uma das principais dificuldades deste período.

Os países capitalistas costumavam criar sua indústria pesada às expensas dos recursos que afluíam para eles de fora: à custa do saque das colônias, das contrições impostas aos povos vencidos e dos empréstimos estrangeiros. O País dos Soviets não podia recorrer, por princípio, para financiar a industrialização, a essas sujas fontes de renda que o saque dos povos coloniais ou dos povos vencidos proporciona. Quanto aos empréstimos estrangeiros, a negativa dos países capitalistas em concedê-los fechava à U.R.S.S. este caminho. Era preciso encontrar os recursos necessários dentro do país.

E na U.R.S.S. se encontraram estes recursos. A U.R.S.S. descobriu fontes de acumulação desconhecidas em todos os Estados capitalistas. O Estado Soviético dispunha de todas as fábricas e empresas industriais, de todas as terras, confiscadas pela Revolução Socialista de Outubro aos capitalistas e latifundiários, dos transportes, dos bancos, do comércio exterior e interior. Os lucros obtidos pelas fábricas e empresas industriais do Estado, pelos transportes, pelo comércio, pelos bancos já não eram consumidos pela classe parasitária dos capitalistas porém eram invertidos para continuar desenvolvendo a indústria.

O Poder Soviético tinha anulado as dúvidas czaristas, pelas quais o povo pagava todos os anos centenas de milhões de rublos ouro, somente no que se refere a juros. Ao abolir a propriedade dos latifundiários sobre a terra, o Poder Soviético libertou os camponeses da obrigação de pagar todos os anos aos latifundiários cerca de 500 milhões de rublos ouro, a que montavam as rendas da terra. Os camponeses, livres desta carga, podiam ajudar o Estado a construir uma nova e poderosa indústria. Para isto, estavam vitalmente interessados em dispor de tratores e de maquinaria agrícola.

O Estado Soviético dispunha de todas estas fontes de renda. Delas podiam sair centenas e milhares de milhões de rublos para construir a indústria pesada. A única coisa que faltava era abordar o problema de um modo rendoso e implantar um severíssimo regime de economia em matéria de despesas, racionalizar a produção, reduzir os preços de custo desta, acabar com os gastos improdutivos, etc.

E assim foi, com efeito, como procedeu o Poder Soviético. Graças ao regime de economia que se seguiu, cada ano eram mais consideráveis os recursos que se acumulavam para inverter em obras básicas. E assim, foi possível atacar a construção de empresas tão gigantescas como a Central Elétrica do Dnieper, a estrada de ferro do Turquestão à Sibéria, a fábrica de tratores de Stalingrado, as fábricas de automóveis "AMO" (hoje fábrica Stalin), etc. Em 1926-1927, se inverteram na indústria cerca de mil milhões de rublos; três anos depois, se puderam inverter nelas já uns 5.000 milhões.

A obra da industrialização continuava avançando. Os países capitalistas viam no fortalecimento da Economia socialista da U.R.S.S. uma ameaça para a existência do sistema capitalista. Em vista disto, os governos imperialistas tomaram todas as medidas imagináveis para exercer uma nova pressão sobre a U.R.S.S., para impedir, frustrar, ou pelo menos, enfraquecer, a marcha da industrialização na União Soviética.

Em maio de 1927, os conservadores ingleses, os reacionários que estavam no Poder, organizaram um assalto de provocação contra a Sociedade Soviética para o Comércio com a Inglaterra ("Arkos"). Em maio de 1927, o governo conservador inglês rompeu as relações diplomáticas e comerciais com a U.R.S.S.

Em 7 de julho de 1927, um guarda branco russo, súdito polaco, assassinou em Varsóvia o Embaixador da U.R.S.S., camarada Voikov.

Ao mesmo tempo, os espiões e agentes diversionistas ingleses emboscados no território da U.R.S.S. lançaram várias bombas contra um clube do Partido em Leningrado, ferindo 30 pessoas, várias delas gravemente.

No verão de 1927, produziram-se quase simultaneamente assaltos contra as embaixadas e delegações comerciais da U.R.S.S. em Berlim, Pekim, Shangai e Tientsin.

Veio isto aumentar as dificuldades com que tinha que lutar o Poder Soviético.

A U.R.S.S., porém, não se rendeu à pressão e rechaçou facilmente os assaltos provocadores dos imperialistas e dos seus agentes.

Não foram menores as dificuldades que originaram ao Partido e ao Estado Soviético os trotskistas e demais elementos da oposição, com seu trabalho de sapa. Não em vão, dizia o camarada Stalin, naquele tempo, que contra o Poder Soviético

"se formava uma espécie de frente única, que ia desde Chamberlain até Trotsky". Apesar das resoluções do XIV Congresso do Partido e das promessas de lealdade feitas pela oposição, seus sequazes não depunham as armas. Longe disso, intensificaram cada vez mais seu trabalho divisionista e de sapa.

No verão de 1926, os trotskistas e os zinovievistas se uniram num bloco antibolchevique, agruparam em torno deste bloco os restos de todos os grupos da oposição derrotados e assentaram as bases para um partido clandestino antileninista, infringindo deste modo gravemente os estatutos do Partido e as resoluções dos seus Congressos, que proibiam a formação de toda a classe de frações. O Comitê Central do Partido advertiu que se este bloco antibolchevique, formado à imagem e semelhança do célebre bloco menchevique de agosto, não fosse dissolvido, os seus componentes podiam acabar mal. Os elementos que formavam o bloco não cederam, porém.

No outono do mesmo ano, nas vésperas da XV Conferência do Partido, procuraram uma saída nas assembléias do Partido organizadas nas fábricas de Moscou, Leningrado e outras cidades, tentando impor ao Partido uma nova discussão. Ao mesmo tempo, submeteram à apreciação dos filiados do Partido uma plataforma que não era mais que uma cópia da conhecida plataforma trotskista-menchevique, antileninista. Os filiados do Partido combateram energicamente os elementos da oposição e em alguns lugares os expulsaram das assembléias, sem rodeios. O Comitê Central advertiu novamente aos componentes do bloco que o Partido não podia continuar tolerando seu trabalho de sapa.

Os elementos da oposição apresentaram ao Comitê Central uma declaração subscrita por Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Sokolnikov, na qual condenavam seu trabalho divisionista e prometiam manter daí por diante uma atitude leal para com o Partido. Não obstante, o bloco continuou existindo de fato c os seus componentes não cessaram sua atuação clandestina contra o Partido. Continuaram juntando os pedaços de seu partido antileninista, montaram uma Imprensa clandestina, angariavam quotas entre seus sequazes e difundiam sua plataforma.

Em relação com esta conduta dos trotskistas e zinovievistas, a XV Conferência do Partido (novembro de 1926) e o pleno ampliado do Comitê Executivo da Internacional comunista (dezembro de 1926) puseram em discussão a questão do bloco trotskista-zinovievista e nas suas resoluções estigmatizaram os componentes deste bloco, como elementos divisiouistas que em sua plataforma desceram até as posições mencheviques.

Os componentes do bloco, porém, não aproveitaram esta lição. Em 1927, no momento em que os conservadores ingleses rompiam os relações diplomáticas e comerciais com a U.R.S.S., aqueles elementos voltaram a intensificar seus ataques contra o Partido. Arranjaram uma nova plataforma antileninista, a chamada "plataforma dos 83", e começaram a difundi-la entre os filiados do Partido, exigindo que o Comitê Central se prestasse a abrir uma nova discussão com caráter geral. Esta plataforma era, talvez, a mais hipócrita e farisaica de todas as plataformas apresentadas pela oposição.

De palavra, isto é, na sua plataforma, os trotskistas e zinovievistas não faziam nenhuma restrição à observância das resoluções do Partido e se pronunciavam a favor da lealdade a este, porém, de fato infringiam da forma mais grave as resoluções do Partido, zombando de tudo o que significasse lealdade a ele e ao Comitê Central.

De palavra, isto é, na sua plataforma, não opunham a menor restrição à unidade do Partido, e se pronunciavam contrários à divisão, porém, de fato, infringiam da forma mais grave a linha do Partido, seguiam uma linha divisionista, e contavam já com seu próprio partido clandesetino, antileninista, maduro para se converter em um partido anti-soviético, contra-revolucionário.

De palavra, isto é, na sua plataforma, se pronunciavam a favor da política da industrialização e chegavam, inclusive, a acusar o Comitê Central de dirigi-la com um ritmo que não era suficientemente rápido, porém de fato denegriam a resolução do Partido sobre o triunfo do socialismo na U.R.S.S., zombavam da política da industrialização socialista, exigiam que se entregassem aos estrangeiros, a título de concessões, toda uma série de fábricas e empresas industriais e depositavam suas principais esperanças nas concessões capitalistas estrangeiras na U.R.S.S.

De palavra, isto é, na sua plataforma, se manifestavam a favor do movimento kolkosiano, chegavam, inclusive, a acusar o Comitê Central de dirigir a coletivização com um ritmo que não era suficientemente rápido, porém de fato zombavam da política de incorporação dos camponeses à edificação socialista, pregavam que surgiriam inevitavelmente "conflitos insolúveis" entre a classe operária e os camponeses e depositavam suas esperanças nos "arrendatários civilizados" no campo, isto é, nas explorações dos kulaks.

Era esta a plataforma mais hipócrita de todas as plataformas hipócritas da oposição. A sua única finalidade era enganar o Partido.

O Comitê Central se negou a abrir imediatamente a discussão, declarando aos sequazes da oposição que essa só podia abrir-se como preceituavam os estatutos do Partido, isto é, com dois meses de antecedência a um Congresso.

Em outubro de 1927, dois meses antes de se celebrar o XV Congresso do Partido, o Comitê Central declarou aberta a discussão geral. Começou a batalha. Os resultados da discussão foram desastrosos para o bloco trotskista zinovievista. Votavam a favor da política do Comitê Central 724.000 filiados e a favor do bloco trotskista e zinovievista 4.000, isto é, menos de um por cento. O bloco antibolchevique sofreu uma verdadeira derrota. O Partido, animado por um só espírito, rechaçou por esmagadora maioria a plataforma do bloco.

O Partido, para cuja opinião os componentes do bloco tinham apelado por iniciativa própria, expressava assim sua vontade de um modo inequívoco.

Os componentes do bloco, porém, não aproveitaram esta lição. Em vez de se submeterem à vontade do Partido, decidiram miná-la. Antes mesmo de terminar a discussão, vendo-se inevitável e ignominiosamente fracassados, resolveram recorrer a formas mais agudas de luta contra o Partido e o governo soviético. Decidiram organizar uma manifestação aberta de protesto em Moscou e em Leningrado. Escolheram para isto a data de 7 de novembro, aniversário da Revolução de Outubro, em que os trabalhadores da U.R.S.S. desfilam em manifestações revolucionárias com todo o povo. Os trotskistas e os zinovievistas se propunham, portanto, a organizar uma manifestação paralela a esta. Como era de esperar, os sequazes do bloco só conseguiram congregar na rua um punhado ridículo de comparsas que foram varridos e repelidos com seus corifeus, pela manifestação de todo o povo.

Agora, já não se podia duvidar que os trotskistas e os zinovievistas se tinham afundado no charco anti-soviético. Se na discussão geral do Partido apelavam para este contra o Comitê Central, agora, ao organir zarem sua lamentável manifestação, lançavam-se pelo caminho de apelar para as classes inimigas contra o Partido e o Estado Soviético. Ao traçarem como objetivo a destruição do Partido bolchevique, tinham inevitavelmente que descer até o caminho da luta contra o Estado Soviético, pois no país dos Soviets, o Partido bolchevique e o Estado são inseparáveis. Com isso, os corifeus do bloco trotskista-zinovievista se colocavam fora do Partido, pois era impossível continuar tolerando nas fileiras do Partido bolchevique pessoas que tinham rolado até o charco anti-soviético.

Em 14 de novembro de 1927, em uma reunião conjunta do Comitê Central e da Comissão Central de Controle Trotsky e Zinoviev foram expulsos do Partido.


 

 

2

 

— Êxitos da industrialização socialista.

— Atraso da agricultura.

— O XV Congresso do Partido.

— Esmagamento do bloco trotskista-zinovievista.

— A falsidade política.


Em fins de 1927, começaram a se destacar êxitos decisivos na política da industrialização socialista. A industrialização, dentro das condições da NEP, realizou importantes avanços em pouco tempo. A indústria e a agricultura em conjunto (incluindo a exploração floresta e a pesca), não só alcançaram o nível de produção global de antes da guerra, senão que o ultrapassaram. O peso específico da indústria dentro da Economia nacional aumentou até 42 por cento, alcançando o nível proporcional de antes da guerra.

O setor socialista da indtistria crescia rapidamente às expensas do setor privado, aumentando de 81 por cento em 1924-1925, até 86 por cento em 1926-1927, ao mesmo tempo que o peso específico do setor privado decrescia, durante este período, de 19 a 14 por cento.

Isto significava que a industrialização na U.R.S.S. tinha um caráter socialista que se ia acentuando rapidamente, que a indústria da U.R.S.S. se desenvolvia pela via do triunfo do sistema socialista de produção, que no terreno da indústria o problema de "Quem vencerá?" estava já resolvido a favor do socialismo.

Com a mesma rapidez os comerciantes privados iam sendo desalojados do comércio; sua participação no comércio retalhista decresceu de 42 por cento, em 1924-1925, a 32 por cento em 1926-1927, e nao falemos no comércio atacadista, onde a participação dos particulares desceu, nesse mesmo período, de 9 a 5 por cento.

Era porém mais rápido ainda o ritmo com que se desenvolvia a grande indústria socialista, que em 1927, isto é, no primeiro ano depois do período de restauração da Economia, viu aumentar sua produção de 18 por cento, em comparação com a do ano precedente. Era este um recorde de desenvolvimento da produção, inexequível até para a grande indústria dos países capitalistas mais adiantados.

A agricultura, principalmente a cultura de cereais, apresentava, ao contrário, um quadro muito diverso. Ainda que, em conjunto, a agricultura houvesse ultrapassado o nível de antes da guerra, a produção global de seu ramo mais importante, o de cultivo de cereais, só produzia 91 por cento do nível de antes da guerra, e a parte mercantil da produção de cereais, a parte que se destinava a ser vendida para o aprovisionamento das cidades representava apenas 37 por cento do nível de antes da guerra; além disso todos os indícios anunciavam o perigo de que a produção de trigo para o mercado continuaria decrescendo.

Isto significava que a divisão das grandes fazendas produtoras de mercadorias no campo em pequenas explorações e destas em outras ainda menores, processo que começou em 1918, prosseguia sempre, que as pequenas e diminutas explorações camponesas se convertiam em economias de tipo scminatural, capazes de produzir somente uma quantidade mínima de trigo para o mercado, que o cultivo de cereais em 1927, apesar de ser somente a produção um pouco menor que a de antes da guerra, só deixava margem para vender para as cidades um pouco mais da terça parte da quantidade de trigo que os cultivadores de cereais podiam vender antes da guerra.

Não havia dúvida de que, se não se acabasse com tal estado de coisas no cultivo de cereais, o Exército e as cidades da U.R.S.S. seriam levados a uma situação de fome crônica.

Tratava-se de uma crise do cultivo de cereais, à qual seguiria necessariamente uma crise de pecuária.

Para sair dessa situação, era necessário passar, na agricultura, ao sistema da grande produção, capaz de utilizar os serviços de tratores e máquinas agrícolas e de muiltiplicar o rendimento do cultivo de cereais para o mercado. Duas possibilidades se abriam ante o país: passar à grande produção de tipo capitalista, o que equivalia a arruinar as massas camponesas, romper a aliança entre a classe operária e os camponeses, fortalecer os kulaks e acabar com o socialismo no campo, ou marchar pelo caminho da agrupação das pequenas explorações camponesas em grandes explorações de tipo socialista, em kolkoses, capazes de utilizar tratores e outras máquinas agrícolas modernas para desenvolver rapidamente o cultivo de cereais e sua produção para o mercado.

É evidente que o Partido bolchevique e o Estado Soviético só podiam marchar pelo segundo caminho, pelo caminho kolkosiano de desenvolvimento da agricultura.

Para isso o Partido se baseava nas seguintes indicações de Lenin a respeito da necessidade de passar das pequenas explorações camponesas às grandes explorações agrícolas coletivas, de artel:

a) "Com a pequena exploração não se pode sair da miséria" (Lenin, t. XXIV, pág. 540, ed. russa).

b) "Se continuarmos aferrados rotineiramente às pequenas explorações, ainda que sejamos cidadãos livres sobre a terra livre, nos ameaçará, apesar de tudo, o desmoronamento inevitável" (t. XX, pág. 417, ed. russa).

c) "Se a Economia camponesa tem de continuar desenvolvendo-se, é necessário assegurar também solidamente a sua evolução ulterior, a esta evolução ulterior consistirá, inevitavelmente, em que, unificando-se gradualmente, as pequenas explorações camponesas isoladas, as menos proveitosas e as mais atrasadas, organizem conjuntamente a exploração agrícola coletiva em grande escala" (t. XXVI, pág. 299, ed. russa).

d) "Só mostrando praticamente aos camponeses as vantagens do cultivo agrícola social, em forma de cooperativas cartéis; só auxiliando o camponês, com a ajuda do regime cooperativo, do cartel, poderá a classe operária, que tem em suas mãos o Poder do Estado, demonstrar realmente ao camponês sua justeza, atraindo firmemente para seu lado a massa de milhões e milhões de camponeses" (t. XXIV, pág. 579 ed. russa).

Tal era a situação nas vésperas do XV Congresso do Partido.

O XV Congresso se abriu em 2 de dezembro de 1927. Tomaram parte nele 898 delegados com palavra e voto e 771 com palavra somente, representando 887.233 filiados e 348.957 aspirantes.

Assinalando no seu informe os êxitos da industrialização e o rápido desenvolvimento da indústria socialista, o camarada Stalin apresentava ao Partido esta tarefa:

"Desenvolver e fortalecer nossos postos de comando socialistas em todos os ramos da Economia nacional, tanto na cidade como no campo, com o fim de liquidar os elementos capitalistas na Economia nacional".

Fazendo um paralelo entre a agricultura e a indústria e assinalando o atraso daquela, principalmente no cultivo de cereais, atraso que explicava pelo desmembramento da agricultura, incompatível com aplicaçao da técnica moderna, o camarada Stalin destacava que este estado pouco satisfatório da agricultura representava um perigo para toda a Economia nacional.

"Onde está a solução?" — perguntava o camarada Stalin.

"A solução — respondia — está na passagem das pequenas explorações camponesas espalhadas para as grandes explorações unificadas na base do cultivo em comum da terra, na passagem ao cultivo coletivo da terra na base de uma nova e mais elevada técnica. A solução está em que as pequenas e diminutas explorações camponesas se agrupem paulatina porém infalivelmente, não por meio da coação, mas por meio do exemplo e da persuasão, em grandes explorações, sobre a base do cultivo em comum, do cultivo cooperativo, coletivo da terra, mediante o emprego de maquinaria agrícola e de tratores e a aplicação de métodos científicos destinados a intensificar a agricultura. Não há outra solução".

O XV Congresso tomou a resolução de desenvolver por todos os meios a obra de coletivização da agricultura. Traçou um plano para desenvolver e consolidar uma rede de kolkoses e sovkoses e deu instruções claras e precisas sobre os métodos de luta em prol da coletivização da agricultura.

Ao mesmo tempo, o Congresso traçou a norma de:

"continuar desenvolvendo a ofensiva contra os kulaks e tomar uma série de medidas novas que restrinjam o desenvolvimento do capitalismo no campo e encaminhem a Economia camponesa para o socialismo" (Resoluções do P. C. (b) da U.R.S.S., parte II, pág. 260).

Finalmente, partindo do fortalecimento do princípio da planificação na Economia nacional e visando à organização, segundo um plano, da ofensiva do socialismo contra os elementos capitalistas ern toda a frente da Economia nacional, o Congresso deu aos organismos competentes a norma de estabelecer o primeiro Plano Qüinqüenal da Economia nacional soviética.

Depois de examinar os problemas da edificação do socialismo, o XV Congresso do Partido passou ao problema da liquidação do bloco trotskista-zinovievista.

O Congresso reconheceu que

"a oposição rompeu ideologicamente com o leninismo, degenerou em um grupo menchevique, abraçou o caminho da capitulação ante as forças da burguesia internacional e interior e se converteu, objetivamente, numa arma da terceira força contra o regime da ditadura proletária" ("Resoluções do P. C. (b) da U.R.S.S.", parte II, pág. 232).

O Congresso comprovou que as discrepâncias existentes entre o Partido e a oposição tinham-se agravado, convertendo-se em divergências de caráter programático, e que a oposição trotskista marchava pelo caminho da luta anti-soviética. Por isso o XV Congresso declarou que pertencerá oposição trotskista e propagar suas idéias era incompatível com a permanência dentro das fileiras do Partido bolchevique.

O Congresso referendou a resolução de expulsão do Partido de Trotskv e Zinoviev tomada na reunião conjunta do Comitê Central e da Comissão ("entrai de Controle e resolveu expulsar todos os elementos ativos do bloco trotskista-zinovievista, tais como Radek, Preobrazhenski, Rakovski, Piatakov, Serebriakov, I. Smirnov, Kamenev, Sarkis, Safarov, Lifshitz, Mdivani, Smilga e de todo o grupo dos "centralistas democráticos" (Sapronov, V. Smirnov, Boguslavski, Drokhnis e outros).

Os sequazes do bloco trotskista-zinovievista, derrotados ideologicamente e desmantelados no terreno da organização, perderam os últimos vestígios de sua influência no povo.

Algum tempo depois do XV Congresso, os antileninistas, expulsos do Partido, começaram a formular declarações de ruptura com o trotskismo, implorando sua readmissão. Naturalmente, o Partido não podia saber ainda, naquela época, que Trotsky, Rakovski, Radek, Kretinski, Sokolnikov e outros eram, há muito tempo, inimigos do povo e espiões arrolados nos serviços de espionagem estrangeira; que Kamenev, Zinoviev, Piatakov e outros já mantinham contato com os inimigos da U.R.S.S. nos países capitalistas para "colaborar" com eles contra o Povo Soviético. Estava porém bastante adestrado pela experiência para esperar todas as vilanias imagináveis destes indivíduos, que se tinham levantado repetidas vezes contra Lenin e o Partido leninista nos momentos mais difíceis. Por isso, o Partido recebeu com desconfiança as declarações dos expulsos, e como primeira prova da sinceridade dos assinantes daquelas declarações, submeteu a sua readmissão às seguintes condições:

  1. Condenação aberta do trotskismo, como ideologia antibolchevique e anti-soviética.

  2. Reconhecimento aberto da política do Partido, como a única política certa.

  3. Submissão incondicional às resoluções do Partido e de seus órgãos.

  4. Fixação de um prazo de prova, durante o qual o Partido observaria a conduta dos assinantes das declarações e a cuja terminação, em vista dos resultados da prova, examinaria a conveniência de readmitir ou não em separado cada um dos indivíduos expulsos.

Ao proceder assim, o Partido entendia que o reconhecimento aberto destes pontos pelos indivíduos expulsos seria, em todo caso, favorável para o Partido, já que romperia a unidade das fileiras trotskistas-zinovievistas, levando a elas a discórdia, ressaltaria uma vez mais a justeza e a pujança do Partido e daria a este no caso de que as declarações assinadas fossem sinceras, a possibilidade de readmitir em seu seio os antigos militantes, e no caso de que fossem falsas, a de desmascará-los aos olhos de todos, não já como pessoas equívocas, porém como arrivistas sem princípios, como mistificadores da classe operária e falsários intransigentes.

A maioria dos expulsos aceitou as condições impostas pelo Partido para seu reingresso e publicou na Imprensa as correspondentes declarações.

O Partido, penalizando-se deles e não querendo privá-los da possibilidade de voltar a militar nas fileiras do Partido da classe operária, restituiu-lhes os direitos de filiados ao Partido.

Entretanto, com o correr do tempo, se tornou evidente que as declarações assinadas pelos "militantes ativos" do bloco trotskista-zinovievista eram, salvo contadas exceções, mentirosas e falsas, dos pés à cabeça.

Comprovou-se que, mesmo antes de formular suas declarações, estes cavalheiros tinham deixado de representar uma corrente política capaz de defender suas idéias perante o povo, para se converterem numa camarilha de arrivistas sem princípios, capazes de espezinhar publicamente o que lhes restava de suas idéias, capazes de elogiar publicamente as idéias do Partido, estranhas a eles, capazes de adotar, como os camaleões, qualquer cor, contanto que se mantivessem dentro do Partido, dentro da classe operária, para poder enlamear a classe operária e o seu Partido.

Os "militantes ativos" trotskistas-zinovievistas não eram mais que chantagistas políticos, falsários políticos.

Os falsários políticos costumam começar pela fraude, visando com seus manejos tenebrosos mistificar o povo, a classe operária e seu Partido. Porém não se deve considerá-los como simples mistificadores. Os falsários políticos são uma camarilha de arrivistas políticos sem princípios que, tendo perdido há muito tempo a confiança do povo, se esforçam em conquistá-la de novo mediante a fraude, mediante métodos camaleônicos, mediante a chantagem por qualquer procedimento que seja, contanto que não percam o título de militantes políticos. Os falsários políticos são uma camarilha de arrivistas sem princípios, capazes de se apoiarem em qualquer coisa, ainda que seja em delinqüenies, ainda que seja nos rebutalhos da sociedade, ainda que seja nos inimigos mais tenebrosos do povo, contanto que possam aparecer novamente no cenário político no "momento oportuno" e se lançar ao pescoço do povo como seus "governantes".

A esta espécie de falsários políticos pertenciam, como se demonstrou, os "militantes ativos" trotskistas-zinovievistas.


 

 

3

 

— A ofensiva contra os kulaks.

— O grupo de Bukarin.

— Rykov contra o Partido.

— Aprovação do primeiro Plano Qüinqüenal.

— A emulação socialista.

— Começa o movimento Kolkosiano de massa.


A agitação do bloco trotskista-zinovievista contra a política do Partido, contra a edificação do socialismo, e contra a coletivização, assim como a dos bukarinistas, sustentando que os kolkoses fracassariam, que não se devia tocar nos kulaks, que eles mesmos "se incorporariam" ao socialismo, e que o enriquecimento da burguesia não representava nenhum perigo para o regime socialista: toda esta agitação repercutia consideravelmente entre os elementos capitalistas do país e, principalmente, entre os kulaks. Estes sabiam agora, pelo que transparecia através da Imprensa, que não estavam sós, que contavam com defensores e advogados como Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Bukarin, Rykov e outros. Naturalmente este fato não podia deixar de fortalecer o espírito de resistência dos kulaks contra a política do governo soviético. E com efeito os kulaks começaram a oferecer uma resistência cada vez mais severa. Começaram a se negar em massa a vender ao Estado Soviético a sobra de trigo, que se acumulava em grandes quantidades nos seus celeiros. Começaram a empregar o terror contra os kolkosianos e contra os ativistas do Partido e dos Soviets na aldeia, começaram a tocar fogo nos kolkoses e nos centros de aprovisionamento de cereais do Estado.

O Partido via claramente que, enquanto não se esmagasse a resistência dos kulaks, enquanto estes não fossem derrotados em campo aberto à vista dos camponeses, a classe operária e o Exército Vermelho nao teriam pão em quantidade suficiente, e o movimento kolkosiano não adquiriria um caráter de massa.

Seguindo as normas traçadas pelo XV Congresso, o Partido passou à ofensiva franca contra os kulaks. Nesta ofensiva, o Partido punha em prática a palavra de ordem de lutar decididamente contra os kulaks, apoiando-se firmemente nos camponeses pobres e reforçando a aliança com os camponeses médios. Como resposta à negativa dos kulaks em vender ao Estado a sobra do trigo pelo preço da tabela, o Partido e o governo aplicaram uma série de medidas extraordinárias contra os kulaks e puseram em prática o artigo 107 do Código Penal, no qual se estabelecia a confiscação judicial da sobra do trigo aos kulaks especuladores que se negassem a vendê-la ao Estado pelo preço de tabela, e concederam aos camponeses pobres uma série de franquias, em virtude das quais se punha à sua disposição 25 por cento do trigo confiscado aos kulaks.

Estas medidas extraordinárias surtiram seu efeito, os camponeses pobres e médios se engajaram na luta aberta contra os kulaks, estes ficaram isolados, e a resistência dos kulaks e dos especuladores foi esmagada. Em fins de 1928, o Estado Soviético dispunha já de reservas suficientes de trigo e o movimento kolkosiano avançava com mais firmeza.

Neste mesmo ano, se descobriu uma grande organização de sabotagem formada por técnicos burgueses, no setor de Shajti, na bacia do Donetz. Estes sabotadores mantinham estreitas relações com os antigos proprietários das empresas — capitalistas russos e de outros países — e com a espionagem militar estrangeira. Tinham-se proposto como objetivo fazer fracassar o desenvolvimento da indústria socialista e facilitar a restauração do capitalismo na U.R.S.S. Dirigiam mal os trabalhos de exploração nas minas, com o objetivo de diminuir a extração de hulha. Destroçavam as máquinas e os aparelhos de ventilação, provocavam desmoronamentos, destruíam e incendiavam as minas, as fábricas e as centrais elétricas. Ao mesmo tempo dificidtavam o melhoramento da situação material dos operários e infringiam as leis soviéticas sobre a proteção do trabalho.

Estes sabotadores foram levados ante os Tribunais, onde receberam o que mereciam.

O Comitê Central chamou a atenção de todas as organizações do Partido para o processo dos sabotadores e as convidou a deduzir os ensinamentos que encerrava. O camarada Stalin assinalou que os bolcheviques que trabalhavam no setor da Economia deviam familiarizar-se pessoalmente com a técnica da produção, para que daí por diante nenhum sabotador saído das fileiras dos técnicos burgueses pudesse enganá-los, e destacou que era necessário acelerar a preparação de novos quadros técnicos saídos da classe operária.

Por resolução do Comitê Central, aperfeiçoou-se a preparação de novos especialistas nas escolas técnicas superiores: milhares de homens filiados ao Partido e às Juventudes Comunistas, e homen sem partido, fiéis à causa da classe operária, foram mobilizados para cursar estas escolas.

Antes que o Partido passasse à ofensiva contra os kulaks, enquanto estava ocupado na liquidação do bloco trotskista-zinovievista, o grupo de Bukarin—Rykov se manteve relativamente tranqüilo, permanecendo à margem como reserva das forças contrárias ao Partido, sem se decidir a apoiar abertamente os trotskistas, e às vezes chegando inclusive a intervir contra eles em união com o Partido. Porém, logo que este passou à ofensiva contra os kulaks e tomou medidas extraordinárias contra eles, o grupo Bukarin—Rykov tirou a máscara e começou a atuar abertamente contra a política do Partido. A alma de kulak dos componentes deste grupo não pôde aguentar mais, e estes começaram a intervir, abertamente, em defesa dos kulaks. Exigiam que fossem abolidas as medidas extraordinárias, assustando os bobos com a ameaça de que, em caso contrário, sobreviria uma "regressão" da agricultura e afirmando que esta regressão já havia começado. Não percebendo o desenvolvimento dos kolkoses e dos sovkoses, isto é, das formas mais elevadas da agricidtura, e vendo o retrocesso das fazendas dos kulaks, apresentavam tendenciosamente a regressão destas fazendas como a regressão da agricultura. Com o fim de reforçar suas posições teoricamente, arranjaram a divertida "teoria da extensão da luta de classes", afirmando, baseados nesta teoria, que quanto mais êxitos lograsse o socialismo em sua luta contra os elementos capitalistas, mais se iria enfraquecendo a luta de classes, que esta não tardaria a se extinguir toalmente e o inimigo de classe entregaria todas as suas posições sem luta, razão pela qual não havia porque empreender a ofensiva contra os kulaks. Com isso ressuscitavam sua desacreditada teoria burguesa sobre a incorporação pacífica dos kulaks ao socialismo e achincalhavam a conhecida tese leninista, segundo a qual a resistência do inimigo de classe revestirá formas tanto mais agudas, quanto mais sentir o terreno vacilar sob seus pés, quanto maiores êxitos obtiver o socialismo, por cuja razão a luta de classes só poderá "extinguir-se" quando o inimigo de classe for aniquilado.

Não era difícil compreender que o Partido tinha diante de si, no grupo Bukarin—Rykov, um grupo oportunista de direita, que só se diferenciava do bloco trotskista-zinovievista pela forma: os trotskistas e os zinovievistas contavam com certas possibilidades para disfarçar seu fundo capitulador com frases esquerdistas, com frases retumbantemente revolucionárias sobre a "revolução permanente", enquanto que o grupo Bukarin—Rykov, que se tinha levantado contra o Partido ao passar este à ofensiva contra os kulaks, já não tinha a possibilidade de cobrir com uma máscara sua face capituladora e se via obrigado a defender as forças reacionárias do País Soviético e, sobretudo, os kulaks, abertamente, sem retóricas nem disfarces.

O Partido compreendeu que, mais tarde ou mais cedo, o grupo Bukarin—Rykov acabaria estendendo a mão aos restos do bloco trotskista-zinovievista, para lutar conjuntamente contra o Partido.

Ao mesmo tempo que atuavam politicamente, o grupo Bukarin-Rykov "trabalhava" no terreno da organização para reunir seus adeptos. Através de Bukarin, ia agrupando a juventude burguesa, indivíduos do tipo de Slepkov, Marietski, Aijenwald, Goldenberg e outros; através de Tomski, os dirigentes burocratizados dos sindicatos (Melnichanski, Dogadov, etc); através de Rykov, um punhado de dirigentes degenerados dos Soviets (A. Smirnov, Eismont, V. Schmidt, etc).

Juntavam-se a este grupo, de boa vontade, os elementos politicamente degenerados e que não escondiam suas idéias capituladoras.

Naquele tempo, o grupo Bukarin—Rykov viu-se reforçado por um punhado de dirigentes da organização do Partido em Moscou (Uglanov, Kotov, Ujanov, Riutin, Yagoda, Polonski e outros). É preciso advertir que uma parte dos elementos direitistas se mantinha resguardada, sem atuar abertamente contra a linha do Partido. Nas colunas da Imprensa do Partido e nas reuniões do Partido, pregavam a necessidade de fazer concessões aos kulaks, a conveniência de não os sobrecarregar de impostos, expunham a carga esgotadora que a industrialização trazia para o povo e o caráter prematuro da organização de uma indústria pesada. Uglanov se manifestou contra a construção da Central Elétrica do Dnieper, exigindo que os recursos destinados à indústria pesada se invertessem na indústria leve. Este e outros capituladores de direita afirmavam que Moscou era e continuaria sendo a Moscou das fábricas de percal, que não havia necessidade de lá construir fábricas de construção de maquinaria.

A organização do Partido em Moscou desmascarou Uglanov e seus adeptos, ameaçou-os pela última vez e cerrou ainda mais as fileiras em torno do Comitê Central do Partido. No Pleno do Comitê de Moscou do P. C. (b) da U.R.S.S., celebrado em 1928, o camarada Stalin assinalou a necessidade de lutar em duas frentes, concentrando o fogo contra o desvio direitista. Os direitistas são, disse o camarada Stalin, os agentes dos kulaks dentro do Partido.

"O triunfo do desvio direitista dentro de nosso Partido liberaria as forças do capitalismo, solaparia as posições revolucionárias do proletariado e aumentaria as possibilidades de restauração do capitalismo em nosso país" — disse o camarada Stalin ("Problemas do leninismo", ed. russa, pág. 234).

No começo de 1929, se tornou claro que Bukarin, por mandato do grupo dos capituladores de direita, havia estabelecido ligação com os trotskistas, através de Kamenev, e preparava um acordo com eles para lutar conjuntamente contra o Partido. O Comitê Central desmascarou esta situação criminosa dos capituladores de direita e os advertiu de que o assunto podia terminar mal para Bukarin, Rykov, Tomski, etc. Porém os capituladores de direita não cederam. Levantaram-se dentro do Comitê Central com uma nova plataforma antibolchevique, com uma declaração que foi condenada pelo Comitê Central. Este lhes fez uma nova advertência, lembrando-lhes a sorte que teve o bloco trotskista-zinovievista. Apesar disso, o grupo Bukarin—Rykov, prosseguiu no seu trabalho contra o Partido. Rykov, Tomski e Bukarin apresentaram ao Comitê Central a demissão de. seus cargos, acreditando que com isto assustariam o Partido. O Comitê Central condenou esta política de sabotagem dos demissionários. Por fim, o Pleno celebrado em novembro de 1929 pelo Comitê Central declarou que a propaganda das idéias dos oportunistas de direita era incompatível com a permanência no Partido e dispôs que Bukarin, paladino e dirigente dos capituladores de direita, fosse destituído de seu posto no Bureau Político do Comitê Central, e que se chamasse seriamente a atenção de Rykov, Tomski e demais adeptos desta oposição.

Os corifeus dos capituladores de direita, vendo que a coisa tomava mal aspecto, subscreveram uma declaração reconhecendo seus erros e a justeza da linha política do Partido.

Os capituladores de direita tinham decidido recuar provisoriamente, para evitar que seus quadros fossem esmagados.

Assim terminou a primeira etapa da luta do Partido contra os capituladores de direita.

As novas discrepâncias existentes dentro do Partido não passaram despercebidos para os inimigos exteriores da U.R.S.S. Interpretando as "novas discórdias" produzidas dentro do Partido como um sinal de enfraquecimento deste, fizeram uma nova tentativa para arrastar a U.R.S.S. para a guerra e fazer fracassar a obra da industrialização do país que não estava consolidada. No verão de 1929, os imperialistas provocaram o conflito da China contra a U.R.S.S., a ocupação pelos militares chineses da Estrada de Ferro do Leste da China (que pertencia à U.R.S.S. e a agressão das tropas brancas chinesas contra as fronteiras da Pátria Soviética no Extremo-Oriente. Porém o assalto dos militaristas chineses foi liquidado rapidamente; os militaristas se retiraram, derrotados pelo Exército Vermelho, e o conflito terminou mediante um convênio de paz com as autoridades da Mandchúria.

A política de paz da U.R.S.S. triunfava uma vez mais, apesar de tudo, apesar dos manejos dos inimigos exteriores e das "discórdias" intestinas do Partido.

Não tardaram em se reatar as relações comerciais e diplomáticas da U.R.S.S. com a Inglaterra, que foram rompidas pelos conservadores ingleses.

Ao mesmo tempo que rechaçava com êxito os ataques dos inimigos exteriores e interiores, o Partido desenvolveu um grande trabalho estmado acelerar a edificação da indústria pesada, organizar a emulação socialista, organizar sovkoses e kolkoses e, finalmente, preparar as ondiçoes necessárias para aprovar e pôr em prática o primeiro Plano Quinquenal da Economia nacional soviética.

Em abril de 1929, se reuniu a XVI Conferência do Partido. O problema principal examinado nesta Conferência foi o do primeiro Plano Quinquenal. A Conferência rechaçou a variante "mínima" do Plano Qüinqüenal, que os capituladores de direita defendiam, e aprovou como obrigatória, sob qualquer condições, a variante "máxima".

Foi aprovado, pois, pelo Partido, o célebre primeiro Plano Qüinqüenal de edificação do socialismo.

Segundo o Plano Qüinqüenal, o volume das inversões de capital na Economia nacional durante os anos de 1928 a 1933, seria de 64.600 milhões de rublos. Destes, 19.500 milhões se inverteriam na indústria, incluindo a eletrificação, 10 milhões nos transportes e 23.200 milhões na agricultura.

Era um plano grandioso, destinado a equipar a indústria e a agricultura da U.R.S.S. com a técnica moderna.

"A missão fundamental do Plano Qüinqüenal — assinalava o camarada Stalin — consistia em criar em nosso país uma indústria, capaz de equipar de novo e reorganizar, não só a indíistria em sua totalidade, mas também os transportes e a agricultura, na base do socialismo". (Stalin, "Problemas do Leninismo", pág. 485, ed. russa).

Apesar da grandiosidade, este Plano não era, para os bolcheviques, nada inesperado nem surpreendente. Era o que vinha preparando toda a marcha do desenvolvimento da indiistrialização e da coletivização. Vinha-o preparando aquele entusiasmo do trabalho que se apoderou dos operários e camponeses antes mesmo do Plano Qüinqüenal e que encontrou a sua expressão na emulação socialista.

A XVI Conferência do Partido aprovou um apelo a todos os trabalhadores sobre o desenvolvimento da emulação socialista.

A emulação socialista revelou exemplos maravilhosos de trabalho e da nova atitude ante ele. Em muitas empresas e nos kolkoses e sovkoses, os operários e kolkosianos apresentaram contraplanos. Realizaram maravilhas de heroísmo no trabalho. Não só executavam, mas ultrapassavam os planos de edificação socialista, traçados pelo Partido e pelo governo. O trabalho deixou de ser uma carga forçada e esgotadora, como era sob o capitalismo, para se converter

"numa questão de honra, de glória, de valentia e de heroísmo". (Stalin).

Por todo o país se desenvolvia a nova e gigantesca edificação industrial. Empreendeu-se a construção da Central Elétrica do Dnieper (o "Dnieprogués"). Na bacia do Donetz se empreendeu a construção das fábricas de Kramatorsk e Gorlovka e a reconstrução da fábrica de locomotivas de Lugansk. Surgiram novas minas e altos fornos. Nos Urais, se construíram a fábrica de maquinaria do Ural e os combinados químicos de Berenski e Solikanisk. Começou-se a construção da fábrica metalúrgica de Magnitogorsk. Empreendeu-se a construção de grandes fábricas de automóveis em Moscou e Gorki. Construíram-se gigantescas fábricas de tratores, de ceifadoras-trilhadoras, e em Rostov-sobre-o-Don se levantou uma fábrica formidável de maquinaria agrícola Desenvolveu-se a segunda base carbonífera da União Soviética: a bacia do Kuznietsk. Em 11 meses se levantou na estepe, em Stalingrado, uma formidável fábrica de tratores. Na construção da Central Elétrica do Dnieper e da fábrica de tratores de Stalingrado, os operários bateram os recordes mundiais da produtividade do trabalho.

A história não tinha conhecido jamais uma nova edificação industrial de tão gigantesca envergadura, um entusiasmo tal pela nova edificação, tanto heroísmo no trabalho das massas de milhões de homens da classe operária.

Era uma verdadeira onda de entusiasmo de trabalho da classe operária, desenvolvida na base da emulação socialista.

Esta vez, os camponeses não ficaram atrás em relação aos operários. Também no campo a se desenvolver o entusiasmo de trabalho das massas camponesas, na organização dos kolkoses. As massas camonesas começaram a marchar resolutamente pelo caminho kolkosiano. Para isto contribuíram consideravelmente os sovkoses e as estações de máquinas e tratores dotadas de tratores e de outras máquinas agrícolas. As massas camponesas afluíam aos sovkoses e às estações de máquinas e tratores, viam como trabalhavam estes e as máquinas agrícolas, manifestavam seu entusiasmo e decidiam ali mesmo "ingressar nos kolkoses". Os camponeses, espalhados em pequenas e diminutas explorações individuais, carentes de apetrechos e de força de tração mais ou menos regulares, privados da possibilidade de arar as grandes terras baldias, sem uma perspectiva de melhoramento de suas explorações, mergulhados na miséria e no isolamento, entregues às suas próprias forças, encontraram por fim uma saída, o caminho para uma vida melhor, com a agrupação de suas pequenas explorações coletivas, em kolkoses, com os tratores, capazes de arar todas as terras, por "duras" que fossem, todos os terrenos baldios; com a ajuda do Estado em forma de maquinaria, de dinheiro, de homens e de conselhos; com a possibilidade de se livrar das garras dos kulaks, aos quais o governo soviético tinha feito morder o pó recentemente, fazendo-os curvar a cabeça para satisfação das massas de milhões de camponeses.

Eis a base sobre a qual começou e se desenvolveu depois o movimento kolkosiano de massas, movimento que se intensificou especialmente em fins de 1929, imprimindo aos kolkoses um ritmo de desenvimento sem precedente nem sequer na própria indústria socialista.

Em 1928, a superfície semeada dos kolkoses era de 1.390.000 hectares; em 1929, tinha passado a ser de 4.262.000 hectares, e em 1930, os kolkoses contavam já com a possibilidade de planificar o cultivo de 15 milhões de hectares.

"É preciso reconhecer — dizia o camarada Stalin em seu artigo intitulado "O ano da grande transformação" (1929), referindo-se ao ritmo de desenvolvimento dos kolkoses — que este ritmo impetuoso de desenvolvimento não tem precedente nem mesmo em nossa indústria socialista, cujo ritmo de desenvolvimento se caracteriza por sua grande envergadura".

Era uma viragem no desenvolvimento do movimento kolkosiano.

Era o começo do movimento kolkosiano de massas.

"Que é que há de novo no atual movimento kolkosiano?" perguntava o camarada Stalin em seu citado artigo.

E respondia:

"O que há de novo e decisivo no atual movimento kolkosiano é que agora os camponeses não ingressam nos kolkoses por grupos isolados, como ocorria antes, senão por aldeias inteiras, por municípios, por distritos e até por departamentos. Que significa isto? Significa que aos kolkoses começaram a afluir em massa os camponeses médios. Tal é a base sobre a qual repousa essa transformação radical no desenvolvimento da agricultura, que constitui a conquista mais importante do Poder Soviético..."

Isto significava que a tarefa de liquidação dos kulaks como base da coletivização total, ia amadurecendo ou já estava madura.

Resumo

Na luta pela industrialização socialista do país, o Partido teve de vencer, nos anos de 1926 a 1929, enormes dificuldades de ordem interior e internacional. Os esforços do Partido e das classes operárias conduziram ao triunfo da política da industrialização socialista do País Soviético.

Foi resolvido, no fundamental, um dos problemas mais difíceis que a industrialização apresentava: o problema da acumulação dos recursos necessários para a construção da indústria pesada. Lançaram-se os alicerces de uma indústria pesada, capaz de equipar de novo toda a Economia nacional.

Foi aprovado o primeiro Plano Qüinqüenal de edificação do socialismo, desenvolveu-se, em proporções gigantescas, a construção novas fábricas, sovkoses e kolkoses.

Estes avanços no caminho do socialismo foram acompanhados por uma acentuação da luta de classes dentro do país e por um recrudescimento da luta no seio do Partido. Os resultados mais importantes desta luta foram: o esmagamento da resistência dos kulaks, o desmascaramento do bloco dos capituladores trotskistas-zinovievistas como um bloco anti-soviético, o desmascaramento dos capituladores de direita como agentes dos kulaks, a expulsão dos trotskistas do Partido, o reconhecimento de que as idéias destes e as dos oportunistas de direita eram incompatíveis com a permanência dentro do P. C. (b) da U.R.S.S.

Derrotados ideologicamente pelo Partido bolchevique e tendo perdido toda base de atuação entre a classe operária, os trotskistas deixaram de ser uma corrente política para se converterem em uma camarilha de arrivistas sem princípios e chantagistas políticos, em um bando de falsários políticos.

Lançados os alicerces da indústria pesada, o Partido mobilizou a classe operária e os camponeses para a execução do primeiro Plano Qüinqüenal de reconstrução socialista da U.R.S.S.; estendeu-se por todo o país a emulação socialista de milhões de trabalhadores; levantou-se uma potente onda de entusiasmo no trabalho e surgiu uma nova disciplina do trabalho.

Este período termina com o ano da grande transformação, que registrou êxitos gigantescos do socialismo na indústria e os primeiros êxitos importantes logrados no terreno da agricultura, a passagem dos camponeses médios para os kolkoses e o começo do movimento kolkosiano de massas.


 

 

Capítulo XI

 

— O Partido Bolchevique na Luta Pela Coletivização da Agricultura

(1930-1934)

 


1

 

— A situação internacional durante os anos de 1930 a 1934.

— A crise econômica nos países capitalistas.

— Ocupação da Mandchúria pelo Japão.

— A subida dos fascistas ao poder na Alemanha.

— Dois focos de guerra.


Enquanto a U.R.S.S. conseguia êxitos importantes na industrialização socialista do país e desenvolvia num ritmo rápido sua indústria, desencadeava-se nos países capitalistas, em fins de 1929, recrudescendo nos três anos seguintes, uma crise econômica mundial sem precedentes, por sua força destruidora. A crise industrial entrelaçava-se com a crise da agricultura, com a crise agrária, piorando ainda mais a situação dos países capitalistas.

Enquanto a indústria da U.R.S.S., durante os três anos de crise (1930-1933), cresceu de mais do dobro, atingindo em 1933 a 201% em relação ao seu nível de 1929, a indústria dos Estados Unidos decresceu, em fins de 1933, 65% em relação ao nível de 1929, a da Inglaterra 86%, a da Alemanha 66% e a da França 77%.

Essa circunstância vinha demonstrar, mais uma vez a superioridade do sistema da Economia socialista. Evidenciava que o país do socialismo é o único país do mundo que está livre de crises econômicas.

Como resultado da crise econômica mundial, foram lançados à fome, à miséria e ao suplício, 24 milhões de operários desempregados. A crise agrária condenava ao sofrimento, dezenas de milhões de camponeses.

A crise econômica mundial veio agravar ainda mais as contradições entre os Estados imperialistas, entre os países vencedores e os países vencidos, entre os Estados imperialistas e os países vencidos, entre os Estados imperialistas e os países coloniais e dependentes, entre os operários e os capitalistas, entre os camponeses e os latifundiários.

No informe prestado perante o XVI Congresso do Partido o camarada Stalin assinalou que a burguesia procuraria a solução para a crise econômica, de um lado na repressão contra a classe operária, mediante a instauração da ditadura dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capitalismo, e de outro lado, no desencadeamento da guerra pela partilha das colônias e das zonas de influência à custa dos interesses dos países mal defendidos. E, com efeito, assim sucedeu.

Em 1932 recrudesceu o perigo de guerra por parte do Japão. Os imperialistas japoneses, vendo que as potências européias e os Estados Unidos estavam completamente absorvidos pelos problemas internos de seus países, criados pela crise econômica, decidiram aproveitar essa ocasião para tentar lançar-se sobre o território chinês, mal defendido, submeter esse país ao seu império e converter-se ali, em donos da situação. Sem declarar guerra à China e aproveitando-se canalhamente dos "incidentes locais" por eles mesmos provocados, os imperialistas japoneses introduziram furtivamente suas tropas na Mandchúria. As tropas japonesas apoderaram-se completamente da Mandchúria, assegurando posições favoráveis para a anexação do Norte da China e para o ataque à U.R.S.S.. Para ter as mãos livres, o Japão retirou-se da Sociedade das Nações e começou a armar-se intensamente.

Essa circunstância levou os Estados Unidos, a Inglaterra e a França ao reforço de seus armamentos navais no Extremo-Oriente. O Japão vinha perseguindo, claramente, o objetivo de submeter a China ao seu império e eliminar dali as potências imperialistas européias e norte-americana. Estas responderam ao golpe reforçando seus armamentos.

Mas o Japão tinha em vista, além disso, outra finalidade: apoderar-se do Extremo-Oriente Soviético. Como é lógico, a U.R.S.S. não podia passar por cima de semelhante perigo e começou a reforçar intensamente a capacidade defensiva da região do Extremo-Oriente.

Graças, portanto, aos imperialistas japoneses fascistizados, foi que se criou no Extremo-Oriente, o primeiro foco de guerra.

A crise econômica não acentuou as contradições do capitalismo somente no Extremo-Oriente. Acentuou-as também na Europa. A pertinaz crise agrária e industrial, o enorme desemprego forçado e a situação cada vez mais precária das classes pobres, contribuíram para aumentar o descontentamento dos operários e camponeses. O descontentamento foi crescendo até converter-se num estado de indignação revolucionária da classe operária. Esse descontentamento acentuou-se especialmente na Alemanha, país economicamente esgotado pela guerra, pelas contribuições que lhe tinham sido impostas em proveito dos vencedores anglo-franceses e pela crise econômica, e onde a classe operária vivia oprimida sob o jugo de sua própria burguesia e da burguesia estrangeira, anglo-francesa. Testemunho eloqüente disso eram os seis milhões de votos obtidos pelo Partido Comunista da Alemanha nas últimas eleições para o Reichstag, realizadas antes da subida dos fascistas ao poder. A burguesia alemã viu que as liberdades democráticas burguesas que ainda se conservavam na Alemanha poderiam causar-lhe dor de cabeça, que a classe operária poderia aproveitar-se dessas liberdades para desenvolver o movimento revolucionário. Em vista disso decidiu que, para manter o poder da burguesia na Alemanha, só havia um caminho: acabar as liberdades burguesas, reduzir a nada o Parlamento (o Reichstag) e instaurar uma ditadura terrorista de tipo nacionalista-burguês, capaz de esmagar a classe operária, e que encontrasse sua base de apoio entre as massas pequeno-burguesas influídas pela idéia da revanche. E para isso chamou ao poder o partido fascista, que para enganar o povo adotava a etiqueta de partido nacional-socialista, pois sabia perfeitamente que o partido fascista é, em primeiro lugar, o setor mais reacionário da burguesia imperialista e o maior inimigo da classe operária e, em segundo lugar, o partido que com maior encarniçamento defendia a idéia da revanche, capaz de arrastar consigo os milhões de homens da pequena-burguesia de sentimentos nacionalistas. Ajudaram a burguesia nessa empresa os traidores da classe operária, os dirigentes da social-democracia alemã, que com sua política oportunista abriram o caminho para o fascismo.

Essas foram as condições em que os fascistas alemães subiram ao poder em 1933.

Analisando os acontecimentos da Alemanha o camarada Stalin disse no seu informe perante o XVII Congresso do Partido:

"No triunfo do fascismo na Alemanha não se deve ver somente um sinal da debilidade da classe operária e o fruto da tradição à classe operária da social-democracia, que abriu o caminho do fascismo. Nele é preciso ver também um sinal da fraqueza da burguesia, um indício de que esta já não está mais em condições de governar com os velhos métodos do parlamentarismo e da democracia burguesa, razão pela qual se vê obrigada a recorrer, em política interior, aos métodos terroristas de governo..." (Stalin, "Problemas do Leninismo", pág. 545, ed. russa).

Os fascistas alemães caracterizaram sua política interior pelo incêndio do Reichstag, por uma repressão brutal contra a classe operária, pela destruição da organizações do proletariado e supressão das liberdades democrático-burguesas. Sua política exterior, pela retirada da Sociedade das Nações e pela preparação aberta de uma guerra destinada a rever pela força as fronteiras dos Estados europeus, em proveito da Alemanha.

Graças aos fascistas alemães, portanto, criou-se no centro da Europa o segundo foco de guerra.

Como é lógico, a U.R.S.S. não podia passar por cima de um fato tão importante. E começou a acompanhar a marcha dos acontecimentos na Europa Ocidental, reforçando a capacidade defensiva do país nas suas fronteiras ocidentais.


 

 

2

 

— Da política de restrições contra os elementos kulaks à política de liquidação dos kulaks como classe.

— Luta contra as deformações da política do Partido no movimento kolkosiano.

— A ofensiva contra os elementos capitalistas em toda a frente.

— O XVI Congresso do Partido.


A afluência em massa dos camponeses para os kolkoses, ocorrida nos anos de 1929 a 1930, era o resultado de todo o trabalho anterior do Partido e do governo. O desenvolvimento da indústria socialista, que começou a fabricar em massa tratores e máquinas para a agricultura; a luta decidida contra os kulaks durante as campanhas de acumulação de cereais dos anos de 1928 e 1929; o desenvolvimento da cooperação agrícola, que foi, pouco a pouco, habituando o camponês ao regime coletivo; a experiência positiva dos primeiros kolkoses e sovkoses: tudo contribuiu para preparar a passagem para a coletivização total, para a afluência dos camponeses aos kolkoses por aldeias, distritos e departamentos inteiros.

A passagem para a coletivização não se operou mediante a simples afluência pacífica das grandes massas camponesas aos kolkoses, mas através de uma luta de massas dos camponeses contra os kulaks. A coletivização total significava a passagem para as mãos dos kolkoses de todas as terras situadas nos limites de uma aldeia, e uma parte considerável dessas terras se achava nas mãos dos kulaks. Por essa razão os camponeses tinham que alijar os kulaks das terras, expropriá-las, arrebatar-lhes o gado e as máquinas, exigindo que o Poder Soviético detivesse os kulaks e os expulsasse da aldeia.

A coletivização total significava, pois, a liquidação dos kulaks.

Era a política de liquidação dos kulaks como classe, base da coletivização total.

Naquela época a U.R.S.S. contava já com uma base material suficientemente forte para acabar com os kulaks, vencer sua resistência, liquidá-los como classe e substituir sua prodiição pela dos kolkoses e sovkoses.

Em 1927, os kulaks ainda produziam mais de 9.828.000 toneladas de trigo, das quais lançavam ao.mercado cerca de dois milhões de toneladas. Os kolkoses e sovkoses, em troca, só conseguiram produzir, em 1927, 573.300 toneladas para o mercado. Em 1929, graças ao rumo firme empreendido pelo Partido bolchevique no sentido do desenvolvimento dos kolkoses e sovkoses e graças aos êxitos da indústria socialista que tinham dotado a aldeia de tratores e máquinas agrícolas, os kolkoses e sovkoses se converteram em uma força considerável. Já nesse ano os kolkoses e sovkoses produziram mais de 6 milhões de toneladas de trigo, das quais lançaram ao mercado mais de 2 milhões de toneladas, isto é, mais do que os kulaks em 1927. Em 1930 os kolkoses e sovkoses tinham que lançar ao mercado, e efetivamente lançaram, mais de 6 milhões e meio de toneladas de trigo, ou seja, incomparavelmente mais que os kulaks em 1927.

O desalojamento, portanto, das forças de classe na Economia do país e a existência da base material necessária para substituir a produção de trigo dos kulaks pela produção de trigo dos kolkoses e sovkoses, permitiam ao Partido bolchevique passar da política de restrições contra os kulaks, para a nova política de liquidação dos kulaks como classe, na base da coletivização total.

Até 1929 o Poder Soviético seguiu a política de restrições contra os kulaks. O Poder Soviético submetia os kulaks a impostos elevados, obrigava-os a vender o trigo ao Estado a preços de tabela, restringia até certo ponto o usufruto da terra pelos kulaks, apoiado na lei sobre os arrendamentos de terras, limitava as proporções das explorações dos kulaks mediante a lei sobre o emprego do trabalho assalariado pelos camponeses individuais. Mas o Poder não seguia ainda a política de liquidação dos kulaks, pois as leis sobre os arrendamentos de terras e o emprego de trabalho assalariado permitiam a existência dos kulaks, e a proibição de expropriar os kulaks dava uma certa garantia nesse sentido. Essa política servia para conter o desenvolvimento dos kulaks, para desalojar e arruinar certas camadas isoladas de kulaks que não podiam fazer frente a essas restrições. Mas não destruía as bases econômicas dos kulaks como classe, nem conduzia à sua liquidação. Era uma política de restrição, mas não de liquidação dos kulaks. Essa política foi necessária até chegar a um determinado momento, enquanto os kolkoses e os sovkoses eram ainda débeis e não podiam substituir a produção de trigo dos kulaks pela sua.

Em fins de 1929, quando já os kolkoses e sovkoses foram se desenvolvendo, o Poder Soviético fez uma mudança rápida, abandonando aquela política, para passar à política de destruição dos kulaks como classe. Revogou as leis sobre os arrendamentos de terras e emprego do trabalho assalariado, privando com isso os kulaks de terras e de assalariados. Aboliu a proibição de expropriar os kulaks. Permitiu que os camponeses se apoderassem do gado, das máquinas e instrumentos agrícolas dos kulaks. Procedeu-se à expropriação dos kulaks. Estes foram expropriados exatamente como o foram os capitalistas em 1918, no terreno industrial, com a diferença apenas de que os meios de produção dos kulaks não passaram para as mãos do Estado e sim para as mãos dos camponeses, associados, para as mãos dos kolkoses.

Foi uma profundíssima transformação revolucionária um assalto do velho estado qualitativo da sociedade para um novo estado qualitativo, equivalente, por suas conseqüências, à transformação revolucionária operada em outubro de 1917.

O traço característico dessa transformação consistia em que ela se tinha operado de cima, por iniciativa do Poder do Estado, com a ajuda direta de baixo, da massa de milhões de camponeses que lutavam contra a vassalagem dos kulaks e por uma vida kolkosiana livre.

Esta revolução vinha resolver de golpe três problemas fundamentais da edificação socialista:

  1. Acabava com a classe exploradora mais numerosa do País Soviético, com a classe dos kulaks, que era o baluarte para a restauração do capitalismo;

  2. Afastava a classe trabalhadora mais numerosa do Pais Soviético, a classe camponesa, do caminho das explorações individuais, fonte do capitalismo, para levá-la pela senda da Economia coletiva, kolkosiana, socialista;

  3. Dava ao País Soviético uma base socialista na esfera mais vasta e mais vitalmente necessária, que era também a mais atrasada da Economia nacional: a agricultura.

Deste modo secavam as últimas fontes de restauração do capitalismo dentro do país ao mesmo tempo que se criavam as novas e decisivas condições necessárias para a edificação de uma Economia nacional de tipo socialista.

Fundamentando a política de liquidação dos kulaks como classe e registrando os resultados do movimento de massas dos camponeses pela coletivização total, o camarada Stalin escrevia, em 1929:

"Naufraga e se esfacela a última esperança dos capitalistas de todos os países, que sonham com a restauração do capitalismo na U.R.S.S.: o "sacrossanto princípio da propriedade privada". Os camponeses, a quem eles consideram como um material que aduba o terreno para o capitalismo, abandonam em massa a tão exaltada bandeira da "propriedade privada" e passam para o caminho do coletivismo, para o caminho do socialismo. "

Naufraga a última esperança de restauração do capitalismo. (Stalin, "Problemas do Leninismo", pág. 296, ed. russa).

A política de liquidação dos kulaks como classe foi assegurada pela histórica resolução do Comitê do P. C. (b) da U.R.S.S. de 5 de janeiro de 1930, "Sobre o ritmo da coletivização e as medidas do Estado para ajudar o movimento kolkosiano". Nesta resolução levaram-se perfeitamente em conta as diversas condições existentes nas diferentes regiões da U.R.S.S., e o nível desigual de preparação para a coletivização que existia nas diversas regiões da União Soviética.

Estabeleceram-se diversos ritmos de coletivização. O Comitê Central dividiu as regiões da U.R.S.S., do ponto de vista dos ritmos de coletivização, em três grupos.

No primeiro grupo foram incluídas as regiões cerealistas mais importantes, as que melhor estavam preparadas para a coletivização, as que dispunham de mais tratores e contavam com maior número de sovkoses e maior experiência na luta contra os kulaks durante as anteriores campanhas de aprovisionamento de cereais; o Cáucaso Norte (o Kuban, o Don e Terek), a região central do Volga e a região do baixo Volga. O Comitê Central determinou que neste grupo de regiões cerealistas a coletivização deveria estar terminada, no fundamental, na primavera de 1931. O segundo grupo de regiões cerealistas, do qual faziam parte a Ucrânia, a região central das Terras Negras, a Sibéria, o Ural, o Kasakstan e outras regiões produtoras de cereais, poderia terminar a coletivização, no fundamental, na primavera de 1932. As restantes regiões, territórios e repúblicas (a região de Moscou, Transcaucásia, as Repúblicas da Ásia Central, etc.) poderiam prolongar o prazo para a coletivização até fins do Plano Qüinqüenal, isto é, até o ano de 1933. O Comitê Central do Partido reconhecia, em relação ao ritmo crescente da coletivização, a necessidade de acelerar mais ainda a construção de fábricas de tratores, de máquinas combinadas, de engates para tratores, etc.

Ao mesmo tempo, exigia que se combatesse "energicamente a tendência de subestimar a importância da tração animal na fase atual do movimento kolkosiano, tendência que conduz ao sacrifício e à venda dos animais de tração".

Os créditos abertos aos kolkoses no ano de 1929-1930 excediam duas vezes os concedidos anteriormente (chegando até 500 milhões de rublos).

Ficou estabelecido q\ie se garantisse aos kolkoses a aplicação das leis agrárias por conta do Estado.

Nesta resolução traçava-se a norma importantíssima de que a forma fundamental do movimento kolkosiano naquela etapa concreta era o artel agrícola, no qual só se coletivizavam os meios básicos de produção.

O Comitê Central prevenia muito seriamente as organizações do Partido

"contra toda pretensão de impor "por decreto", de cima, o movimento kolkosiano, que pudesse implicar num perigo de substituir a verdadeira emulação socialista na organização dos kolkoses pela tentativa de obrigar a coletivização". (Resoluções do P. C. (b) da U.R.S.S., parte II, pág. 662).

Essa recomendação do Comitê Central veio infundir clareza na aplicação da nova política do Partido no campo.

Na base da política de liquidação dos kulaks e da aplicação da coletivização total, desenvolveu-se um potente movimento kolkosiano. Os camponeses de aldeias e distritos inteiros afluíam aos kolkoses, varrendo de seu caminho os kulaks e livrando-se de suas garras.

Mas, ao lado dos formidáveis êxitos conseguidos na coletivização, começaram logo a aparecer deficiências na atuação prática dos ativistas do Partido, deformações da política do Partido em relação ao movimento kolkosiano.

Apesar de ter o Comitê Central prevenido seus militantes para não perderem a cabeça diante dos êxitos da coletivização, muitos ativistas do Partido começaram a forçar artificialmente este movimento, sem levar em conta as condições de lugar e tempo, sem levar em conta o grau de preparação dos camponeses para entrar nos kolkoses.

Ficou comprovado que se violava o princípio do voluntariado na organização dos kolkoses. Numa série de comarcas, obrigavam-se os camponeses a entrar nos kolkoses, sob ameaça de "expropriá-los", de privá-los dos direitos eleitorais, etc.

Numa série de comarcas, o trabalho de preparação e de esclarecimento paciente dos fundamentos da política do Partido em matéria de coletivização, era substituído pelo procedimento burocrático, curialesco, de decretar de cima, cifras enormes de kolkoses que se aparentava criar, aumentando artificialmente a percentagem da coletivização.

Desobedecendo as normas do Comitê Central, segundo as quais o elo fundamental do movimento kolkosiano era o artel agrícola, no qual somente se coletivizavam os meios básicos de produção, havia unia série de localidades nas quais saltava-se apressadamente, por cima do artel para a comuna, e se implantava a coletivização das residências, dos animais de criação não destinados ao mercado, e do gado leiteiro, das aves, etc.

Os militantes dirigentes de algumas comarcas, animados pelos primeiros êxitos da coletivização, desobedeciam as normas diretas do Comitê Central sobre os ritmos e prazos aos quais a coletivização devia sujeitar-se. A região de Moscou, no afã de conseguir cifras elevadas, começou a orientar seus ativistas para a terminação da campanha da coletivização na primavera de 1930, apesar de dispor ainda de cerca de três anos (até fins de 1932). E mais graves ainda eram as infrações que se cometiam na Transcaucásia e na Ásia Central.

Os kulaks e seus porta-vozes aproveitavam-se desses excessos para fins provocativos, formulavam propostas no sentido de se organizar comunas em vez de artels, de se passar diretamente à coletivização das residências, dos animais de criação e das aves. Ao mesmo tempo, os kulaks faziam agitação para que se matasse o gado antes de entrar nos kolkoses, convencendo os camponeses de que no kolkose "eles o tomariam de qualquer maneira". O inimigo de classe especulava com a idéia de que os excessos e os erros cometidos pelas organizações locais quanto aos problemas da coletivização, irritariam os camponeses e provocariam sublevações contra o Poder Soviético.

O resultado dos erros cometidos pelas organizações do Partido, e dos atos de franca provocação dos inimigos de classe, foi que, na segunda quinzena de fevereiro de 1930, sobre o fundo dos êxitos gerais e indiscutíveis conseguidos pela coletivização, se maniíestassem, em algumas comarcas, perigosos sintomas de um sério descontentamento por parte dos camponeses. Em alguns lugares os kulaks e seus agentes conseguiram fazer, inclusive, com que os camponeses fossem levados a manifestar-se diretamente contra o Poder Soviético.

O Comitê Central, ao qual chegavam uma série de sinais alarmantes sobre as deformações da linha do Partido, que ameaçavam fazer fracassar a coletivização, pôs imediatamente mãos à obra para resolver a situação e começou a fazer com que os quadros do Partido corrigissem sem perda de tempo os erros cometidos. A 2 de março de 1930 publicou-se, por solução do Comitê Central, o artigo do camarada Stalin intitulado: "Os êxitos nos sobem à cabeça". Neste artigo admoestavam-se todos os que, deixando-se arrastar pelos êxitos da coletivização, incorriam em erros graves e se desviavam da linha do Partido; admoestavam-se todos os que tentavam levar os camponeses pelo caminho kolkosiano mediante medidas de coação administrativa. Nesse artigo foi vigorosamente salientado o princípio.do voluntariado na organização de kolkoses e indicava-se a necessidade de levar em conta a diversidade de condições existentes nas diferentes regiões da U.R.S.S., ao determinar os ritmos e métodos de coletivização. O camarada Stalin recordava que o elo fundamental do movimento kolkosiano era o artel agrícola, no qual somente se coletivizam os meios básicos de produção, principalmente na produção de cereais, deixando de lado a horta, a vivenda, uma parte do gado leiteiro, os animais de criação, as aves, etc.

O artigo do camarada Stalin teve uma enorme importância. Esse artigo ajudou as organizações do Partido a corrigirem seus erros e desfechou o mais violento golpe nos inimigos do Poder Soviético, que confiavam que aqueles excessos lhes serviriam de base para a sublevação dos camponeses contra o Poder Soviético. As grandes massas camponesas puderam convencer-se de que a linha do Partido bolchevique não tinha a menor relação com os excessos "esquerdistas" e imprudentes que se tinha cometido em alguns lugares. Este artigo tranqüilizou as massas camponesas.

Com o fim de levar a cabo a obra de correção dos excessos e erros, iniciada com o artigo do camarada Stalin, o Comitê Central do P. C. (b) da U.R.S.S., a 15 de março de 1930, decidiu atacar novamente esses erros, publicando uma resolução "Sobre a luta contra as deformações da linha do Partido no movimento kolkosiano".

Nessa resolução analisava-se minuciosamente os erros cometidos e que eram o resultado do abandono da linha leninista-stalinista do Partido, o resultado da infração direta das normas traçadas pelo Partido.

O Comitê Central assinalava que a atuação prática dos que incorriam naqueles excessos "esquerdistas" significava uma ajuda direta ao inimigo de classe.

"Os ativistas que não souberem ou não quiserem manter uma luta decisiva contra as deformações da linha do Partido — dispunha o Comitê Central — serão afastados de seus postos e substituídos por outros". (Resoluções do P. 0. (b) da U.R.S.S., parte II, pág. 663).

O Comitê Central trocou a direção de algumas organizações regionais e territoriais do Partido (a da região de Moscou e da Transcaucásia), que tinham cometido erros políticos e não souberam corrigi-los.

A 3 de abril de 1930 foi publicado o artigo do camarada Stalin intitulado "Resposta aos camaradas kolkosianos". Nele punha-se a nu a origem dos erros cometidos no problema camponês e os principais erros cometidos no movimento kolkosiano: a falsa maneira de abordar os camponeses médios, a infração do princípio leninista do voluntariado na organização dos kolkoses, a infração do princípio leninista que obrigava a levar em conta a diversidade de condições existentes nas diferentes regiões da U.R.S.S. e a passagem direta à comuna, saltando por cima do artel.

Como residtado de todas essas medidas o Partido conseguiu acabar com os excessos cometidos numa série de distritos pelos ativistas locais.

Sem a formidável firmeza do Comitê Central e sua capacidade de marchar contra a corrente, não se teria conseguido trazer para o bom caminho, no seu devido tempo, a parte considerável de quadros do Partido que, seduzidos pelos êxitos, iam rolando para baixo e se desviando da linha do Partido.

O Partido conseguiu acabar com as deformações de sua linha no movimento kolkosiano.

Esta foi a base sobre a qual se firmaram os êxitos do movimento kolkosiano.

Antes do Partido passar à política de liquidação dos kulaks como classe, a ofensiva mais importante contra os elementos capitalistas, destinada à sua liquidação, era a que se desenvolvia, fundamentalmente na cidade, no terreno da indústria. Até esse momento a agricultura, o campo, marchavam a reboque da indústria, da cidade; por isso a ofensiva apresentava um caráter desigual, e não um caráter geral, completo. Mas agora, que o atraso da aldeia começava a passar à história, mostrou-se com toda a evidência a luta dos camponeses pela liquidação dos kulaks, e o Partido passou à política de liquidação desses elementos — a ofensiva contra os elementos capitalistas adquiriu um caráter geral e a ofensiva parcial converteu-se numa ofensiva em toda a frente. No momento da convocação do XVI Congresso do Partido, a ofensiva geral contra os elementos capitalistas já tinha sido desencadeada em toda linha.

O XVI Congresso do Partido reuniu-se a 26 de junho de 1930. Compareceram 1.268 delegados com palavra e voto e 891 com palavra somente, representando 1.260.874 filiados e 711.609 aspirantes.

O XVI Congresso passou à história como sendo

"o Congresso da ofensiva do Socialismo desencadeada em toda a frente, da liquidação dos kulaks como classe e da realização da coletivização total". (Stalin).

No informe político do Comitê Central, o camarada Stalin pôs em relevo os grandes triunfos conseguidos pelo Partido bolchevique mediante o desenvolvimento da ofensiva socialista.

No terreno da industrialização socialista tinha-se conseguido que o peso específico da indústria, dentro do volume global da produção da Economia nacional, superasse o peso específico da agricultura. No ano econômico de 1929-1930, a produção da indústria chegava já a 53% do volume global da produção de toda a Economia nacional, e a da agricultura só era de 47%, aproximadamente.

Na época do XV Congresso, no ano de 1926-1927, o volume global da produção de toda a indústria era só de 102,5% do nível de antes da guerra; na época do XVI Congresso, ou seja, em 1929-1930, era já de 180%, aproximadamente, do nível de antes da guerra.

A indústria pesada — a produção de meios de produção, a construção de maquinarias — ia-se fortalecendo cada vez mais.

"... Encontramo-nos nas vésperas da transformação de um país agrário em um país industrial — declarou o camarada Stalin entre os aplausos entusiásticos do Congresso.

Entretanto explicou o camarada Stalin, é necessário não confundir o ritmo intensivo de desenvolvimento da indústria, com o nível desse desenvolvimento. Apesar da indústria socialista se desenvolver com um ritmo sem precedente, o País Soviético ia muito à retaguarda; quanto ao nível do desenvolvimento industrial, dos países capitalistas mais adiantados. Assim acontecia com a produção de energia elétrica, apesar dos êxitos gigantescos conseguidos pela U.R.S.S. no terreno da eletrificação. Assim acontecia com a produção de metais.

Em fins de 1929-1930, a U.R.S.S. devia produzir, segundo o plano, 5 milhões e meio ele toneladas de fundição de ferro, enquanto que a Alemanha tinha produzido, em 1929, 13,4 milhões de toneladas e a França, 10,45 milhões. Para poder liquidar em pouco tempo esse atraso técnico-econômico, era necessário continuar acelerando o ritmo de desenvolvimento da indústria soviética, era necessário lutar de modo mais resoluto contra os oportunistas, que aspiravam enfraquecer o ritmo de desenvolvimento da indústria socialista.

"... os charlatães que falam da necessidade de enfraquecer o ritmo de desenvolvimento de nossa indústria são inimigos do socialismo, agentes de nossos inimigos de classe", — assinalava o camarada Stalin. ("Problemas do Leninismo", pág. 369, ed. russa).

Depois de cumprir com êxito e ultrapassar o plano do primeiro ano do primeiro Plano Qüinqüenal, surgiu entre as massas a palavra de ordem de "executar o Plano Qüinqüenal em quatro anos". Numa série de ramos adiantados da indústria (Petróleo, turfa, construção de maquinarias geral e agrícola, indústria eletrotécnica), a execução do plano se desenvolvia com tal êxito que nesses ramos pôde-se chegar inclusive a cumprir o programa traçado pelo Plano Qüinqüenal em dois e meio a três anos. Isso confirmava a plena realidade da palavra de ordem "Plano Qüinqüenal em quatro anos" e desmascarava o oportunismo dos incrédulos que duvidavam da possibilidade de sua realização.

O XVI Congresso encarregou o Comitê Central do Partido que

"assegurasse também, para o futuro, os impetuosos ritmos bolcheviques na edificação socialista para conseguir realmente executar o Plano Qüinqüenal em quatro anos".

Na época do XVI Congresso operou-se uma transformação no desenvolvimento da agricultura da U.R.S.S. As grandes massas camponesas se orientaram para o socialismo. A 1°. de maio de 1930, nas regiões cerealistas mais importantes, o setor coletivizado abarcava já 40 a 50 por cento das explorações camponesas (na primavera de 192» só atingia a 2 ou 3 por cento). A superfície cultivada dos kolkoses englobava 36 milhões de hectares.

Tinha-se, portanto, ultrapassado o ambicioso programa traçado na resolução do Comitê Central de 5 de janeiro de 1930 (30 milhões de hectares). Quanto ao Plano Qüinqüenal de organização de kolkoses seu programa para dois anos foi cumprido em mais de 15%.

Em três anos a produção dos kolkoses para o mercado cresceu mais de 40 vezes. Em 1930 os kolkoses, sem contar os sovkoses, forneciam já ao Estado mais da metade de toda a produção de trigo produzido pelo país para o mercado.

Isto significava que daí por diante os destinos da agricultura do País Soviético já não seriam traçados pelas explorações camponesa individuais, mas sim pelos kolkoses e sovkoses.

Se até o momento em que os camponeses começaram a afluir em massa para os kolkoses o Poder Soviético se apoiava, fundamentalmente, na indústria socialista, de agora em diante começou a apoiar-se também no setor socialista da agricultura, que se estendia rapidamente, nos kolkoses e nos sovkoses.

Os camponeses kolkosianos se converteram, como assinalava o XVI Congresso numa de suas resoluções, "num verdadeiro e firme alicerce do Poder Soviético".


 

 

3

 

— O Partido se orienta para a reconstrução de todos os ramos da economia nacional.

— O papel da técnica.

— Continua a se desenvolver o movimento kolkosiano.

— As seções políticas das estações de máquinas e tratores.

— Balanço da execução do Plano Qüinqüenal em 4 anos.

— O triunfo do socialismo em toda a frente.

— O XVII Congresso do Partido.


Depois de comprovar que a indústria pesada, e sobretudo, a de reconstrução de máquinas, não só tinham sido criadas e asseguradas, mas também continuavam a se desenvolver num ritmo bastante rápido, apresentou-se perante o Partido a tarefa imediata de rcconstruir todos os ramos da Economia nacional sobre a base da nova técnica moderna. Era necessário prover de técnica nova, moderna, de novas erramentas e nova maquinaria, a indústria do combustível, a metalurgia, a indústria leve, a indústria de alimentação, a indústria florestal, a indústria de guerra, o transporte e a agricultura. Dado o aumento gigantesco da procura de produtos agrícolas e artigos industriais, tornava-se necessário duplicar ou triplicar a produção em todos os ramos da Economia nacional. Mas isso só se podia conseguir dotando as fábricas e empresas indústriais, os sovkoses e kolkoses, de máquinas e ferramental modernas em quantidade suficiente, pois seu velho instrumental não estava em condições de fazer face a semelhante desenvolvimento da produção.

Sem reconstruir os ramos básicos da Economia nacional era impossível satisfazer as novas e cada vez maiores exigências do país e de sua Economia.

Sem esta obra de reconstrução era impossível levar a cabo a ofensiva de socialismo em toda a frente, pois era preciso dar batalha e pôr fora de combate os elementos capitalistas da cidade e do campo, não só com uma nova organização do trabalho e da propriedade, mas também com uma nova técnica, com a superioridade da técnica própria.

Sem esta obra de reconstrução era impossível atingir e ultrapassar, no terreno técnico-econômico, os países capitalistas mais adiantados, pois se bem que, do ponto de vista do ritmo do desenvolvimento de sua indústria, a U.R.S.S., superasse os países capitalistas, do ponto de vista do volume da produção da U.R.S.S. ficava ainda muito atrás deles.

Para poder acabar com esse atraso, era necessário armar toda a Economia nacional soviética de uma nova técnica, era necessário reconstruir todos os ramos da Economia nacional sobre a base de uma nova técnica, da técnica moderna.

A técnica tinha adquirido, portanto, uma importância decisiva.

O obstáculo com que se tropeçava neste terreno não era tanto a escassez de novas máquinas e ferramentas — pois a indústria de construção de máquinas estava em condições de poder produzir novo instrumental — como a atitude errada que mantinham, perante a técnica, os militantes destacados no setor da Economia, seu menosprezo pela importância da técnica no período de reconstrução, sua atitude desdenhosa para com a técnica. Os administradores das empresas soviéticas entendiam que a técnica era incumbência dos "especialistas", uma questão secundária, a cargo dos "técnicos burgueses", que os comunistas que trabalhavam no setor econômico não tinham por quê imiscuir-se na técnica da produção, que sua missão não consistia em se ocupar de problemas técnicos, mas sim de questões mais importantes, como seja da direção da produção "em geral".

Deixava-se, pois, que os "especialistas" burgueses manejassem seu arbítrio os assuntos da produção, enquanto os comunistas que trabalhavam nas organizações econômicas se encarregavam de dirigir a produção "em geral", isto é, de assinar papéis.

Não é preciso demonstrar que, com esta atitude que se adotava perante o problema, o que se chamava dirigir a produção "em geral" tinha que degenerar em charlatanismo sobre a direção "em geral", assinatura estéril de papéis, em puro papelório.

É evidente que, com aquela atitude desdenhosa para com a técnica, que adotavam os comunistas responsáveis pelas organizações econômicas, o País Soviético jamais teria podido ultrapassar, nem mesmo sequer alcançar os países capitalistas mais adiantados. Semelhante atitude em relação à técnica, sobretudo, no período da reconstrução, condenava o País Soviético ao atraso, a que enfraquecesse o ritmo de desenvolvimento de sua Economia. No fundo, esta atitude perante a técnica ocultava, encobria o desejo secreto de uma parte de comunistas destacados nas organizações econômicas, de moderarem o ritmo de desenvolvimento da indústria, de fazê-lo decrescer e de desfrutarem uma "posição tranqüila", descarregando sobre os "especialistas" a responsabilidade da produção.

Era necessário conseguir que os comunistas que trabalhavam nas organizações econômicas se preocupassem com a técnica, que tomassem gosto por ela, mostrar-lhes que os bolcheviques destacados no setor econômico tinham o dever fundamental de dominar a nova técnica, que sem dominar a nova técnica corria-se o risco de condenar a Pátria Soviética ao atraso e à estagnação.

Sem resolver este problema, não era possível continuar avançando.

Neste terreno teve uma importância muito grande o discurso do camarada Stalin na primeira conferência de ativistas da indústria, celebrada em fevereiro de 1931.

"Pergunta-se, às vezes, — disse o camarada Stalin neste discurso — se não se deverá moderar um pouco o ritmo, conter o movimento. Não; não é possível, camaradas! Não se deve diminuir o ritmo!... Moderar o ritmo significa ficar atrasado. E os que se atrasam são derrotados. E nós não queremos ser derrotados. Não, não queremos!

A história da velha Rússia consistia, entre outras coisas, em que era constantemente derrotada devido ao seu atraso. Foi derrotada pelos Khans mongóis. Foi derrotada pelos Beys turcos. Foi derrotada pelos senhores feudais da Suécia. Foi derrotada pelos "panis" da Polônia e da Lituânia. Foi derrotada pelos capitalistas da Inglaterra e da França. Foi derrotada pelos barões do Japão. Foi derrotada por todos, devido ao seu atraso...

Marchamos com 50 ou 100 anos de atraso, em relação aos países mais adiantados. Temos que ganhar esse terreno em dez anos. Ou o fazemos, ou nos esmagam.

Num máximo de dez anos devemos ganhar o terreno que nos separa dos países capitalistas mais adiantados. Existem, em nosso país, todas as possibilidades "objetivas" para isso. A única coisa que nos falta é saber aproveitar verdadeiramente essas condições. E isto depende de nós e somente de nós. Já é hora de aprendermos a aproveitar estas possibilidades. Já é hora de acabar com esse ponto de vista podre de não imiscuir-se na produção. Já é hora de adotar outro ponto de vista, novo, em harmonia com o período atual: o de imiscuir-se em tudo. O diretor de uma fábrica deve intervir em todos os assuntos, ouvir tudo, — não perder de vista nada, aprender e aprender sempre. Os bolcheviques devem dominar a técnica. Já é hora dos bolcheviques se converterem, eles próprios, em técnicos. A técnica, no período da reconstrução, decide tudo". (Stalin, "Problemas do Leninismo", págs. 444-446, ed. russa).

A importância histórica deste discurso do camarada Stalin consistiu em ter posto fim à atitude depreciativa dos comunistas destacados nas organizações econômicas, em ter feito com que enfrentassem a técnica e em ter aberto uma nova etapa pelo domínio da técnica com as forças dos próprios bolcheviques, facilitando com isso o desenvolvimento da reconstrução da Economia nacional.

Desde então a técnica deixou de ser monopólio dos "especialistas" burgueses para converter-se num interesse vital dos próprios bolcheviques destacados no setor econômico, e o nome depreciativo de "especialistas" se converteu num título de honra do bolchevique familiarizado com a técnica.

No futuro haveriam de revelar-se — como de fato se revelaram — destacamentos inteiros, milhares e dezenas de milhares de especialistas vermelhos, familiarizados com a técnica e capacitados para dirigir a produção.

Era uma nova geração, uma geração soviética de intelectuais, técnicos da produção, saídos da classe operária e do campesinado, que constituem hoje a força fundamental na direção da Economia soviética.

Tudo isso teria necessariamente que facilitar, como de fato facilitou, o desenvolvimento da obra de reconstrução da Economia nacional.

O desenvolvimento da obra de reconstrução não afetava somente a indústria e o transporte. Seu ritmo era mais intenso ainda no terreno da agricultura. E é lógico que assim fosse, pois a agricultura dispunha de menos máquinas que os demais ramos da Economia nacional e estava, portanto, mais necessitada de novas maquinarias. E dotar intensivamente de novas maquinarias a agricultura correspondia a uma necessidade especialmente grande, frente ao desenvolvimento que adquiria a organização dos kolkoses em meses e em semanas, o que representava uma procura de novos milhares de tratores e de novas maquinarias agrícolas.

O ano de 1931 imprimiu um novo impulso ao movimento kolkosiano. Nas regiões cerealistas mais importantes agrupavam-se já, nos kolkoses, mais de 80% de todas as explorações camponesas. Aí, a coletivização total já estava conseguida, no fundamental. Nas regiões cerealistas menos importantes e nas regiões de cultivos industriais, a coletivização afetava mais de 50% das explorações. As duas terças partes da superfície total semeada eram cultivadas já por 200.000 kolkoses e 4.000 sovkoses, ficando para os camponeses individuais a terça parte somente.

Isto representava um formidável triunfo do socialismo no campo. Mas o movimento kolkosiano não se desenvolvia ainda em profundidade, mas sim em extensão, não no sentido de melhorar a qualidade do trabalho dos kolkoses e de seus quadros, mas no sentido de aumentar a quantidade de kolkoses e de estender o movimento kolkosiano a novos e novos distritos. A explicação disso reside no fato de que os ativistas kolkosianos, os quadros kolkosianos, não aumentavam com a mesma rapidez com que aumentava a quantidade de kolkoses. Isso fazia com que os novos kolkoses nem sempre trabalhassem satisfatoriamente e que os mesmos continuassem sendo, no momento, organismos débeis, não robustecidos. Contribuíam também para moderar o fortalecimento dos kolkoses, fatos como a escassez, nas aldeias, de pessoas com um mínimo de cultura que os kolkoses necessitavam para seus trabalhos (para os postos de contadores, administradores e secretários) e a inexperiência completa dos camponeses quanto ao regime das grandes explorações coletivas. Os kolkosianos de hoje eram os camponeses individuais de ontem. Possuíam experiência quanto ao modo de explorar pequenas parcelas, mas ainda não tinham aprendido a dirigir as grandes explorações kolkosianas. Para que pudessem adquirir essa experiência, era necessário tempo.

Estas circunstâncias fizeram com que, durante os primeiros tempos, se manifestassem, deficiências importantes no funcionamento dos kolkoses. Verificou-se que nos mesmos o trabalho estava ainda mal organizado e que a disciplina no trabalho era fraca. Em muitos kolkoses os lucros não eram divididos de acordo com as jornadas de trabalho, mas por cabeça. E freqüentemente dava-se o caso de que os preguiçosos obtinham maior quantidade de trigo que os kolkosianos mais honrados e laboriosos. Estas deficiências de direção dos kolkoses faziam com que os kolkosianos sentissem decrescer seu interesse pelo trabalho, com que deixassem amiúde de atender os trabalhos até mesmo nas épocas de maior atividade, com que não se fizesse colheita numa parte terras cultivadas dos kolkoses, até que chegasse a época das neves, ou com que os trabalhos da colheita fossem realizadas de má vontade, perdendo-se enormes quantidades de trigo. A ausência de responsabilidade pessoal pelas máquinas e pelo gado de tração, bem como pelo trabalho em geral, fazia com que enfraquecesse a causa kolkosiana e diminuíssem seus lucros.

Nos distritos em que os antigos kulaks e seus porta-vozes tinham conseguido galgar postos de direção nos kolkoses, a situação era particularmente má. Não poucas vezes os kulaks expropriados se transferiam para outros distritos, onde não eram conhecidos, e se infiltravam nos kolkoses para sabotar e dificultar seu funcionamento. As vezes os kulaks, aproveitando-se da falta de vigilância dos ativistas do Partido e dos Soviets, infiltravam-se, inclusive, nos kolkoses de seu próprio distrito. Contribuía para facilitar a entrada sub-reptícia dos antigos kulaks nos kolkoses o fato de que, na luta contra os kolkoses eles tinham trocado bruscamente de tática. Antes os kulaks lutavam abertamente contra os kolkoses, mantinham uma luta encarniçada contra os ativistas kolkosianos e os kolkosianos mais destacados, assassinando-os numa esquina, ateando fogo às suas casas, celeiros, etc. Com isso os kulaks pretendiam assustar os camponeses, não deixá-los entrar nos kolkoses. Mas agora, vendo que a luta aberta contra os kolkoses tinha fracassado, mudaram de tática. Agora já não atiravam com seus revólveres; faziam-se passar por gente tranqüila, dócil, pacífica, perfeitamente adaptada aos Soviets. Infiltravam-se nos kolkoses, sabotavam com um trabalho de sapa, clandestinamente. Faziam esforços, em todas as partes, para decompor os kolkoses de dentro, para relaxar a disciplina do trabalho kolkosiano, para embrulhar as contas da colheita e as do trabalho. Os kulaks especulavam com o plano da exterminação do gado cavalar dos kolkoses e chegaram a ocasionar a morte de grande número de cavalos. Contagiavam-se premeditadamente com o mormo, a sarna e outras enfermidades e os deixavam morrer sem defendê-las, etc. Ao mesmo tempo avariavam os tratores e a maquinaria agrícola.

Os kulaks conseguiam enganar os kolkosianos e perpetrar impunemente seus atos de sabotagem porque os kolkoses eram ainda muito fracos e inexperientes, e os quadros kolkosianos ainda não tinham conseguido fortalecer-se.

Para pôr fim à sabotagem dos kulaks nos kolkoses e acelerar o seu fortalecimento, era necessário prestar uma ajuda rápida e séria aos kolkoses por meio de homens, de conselhos e de direção.

Esta ajuda foi prestada pelo Partido bolchevique. Em janeiro de 1933 o Comitê Central do Partido tomou a resolução de organizar secções políticas nas estações de máquinas e tratores postas ao serviço dos kolkoses. Foram enviadas ao campo, para trabalhar nessas secções políticas, como ajuda dos kolkoses, 17.000 ativistas do Partido.

Era uma ajuda séria.

Em dois anos (1933 e 1934), as secções políticas das estações de máquinas e tratores conseguiram realizar um grande trabalho de eliminação das deficiências que se verificaram no funcionamento dos kolkoses, de educação dos quadros kolkosianos, de fortalecimento dos kolkoses e em prol de sua depuração de elementos inimigos, kulaks e sabotadores.

As secções políticas cumpriram com honra a tarefa que lhes tinha sido traçadas: fortaleceram os kolkoses no terreno econômico e de organização, forjaram novos quadros kolkosianos, organizaram a direção econômica dos kolkoses e elevaram o nível políticos das massas kolkosianas.

Na elevação da atividade das massas kolkosianas para a luta pelo fortalecimento dos kolkoses, tiveram uma imensa importância o primeiro Congresso kolkosiano de choque de toda a U.R.S.S. (celebrado em fevereiro de 1933) e o discurso nele pronunciado pelo camarada Stalin.

Comparando, no seu discurso, o velho regime reinante na aldeia antes dos kolkoses com o novo regime kolkosiano, o camarada Stalin disse:

"Sob o regime antigo, os camponeses trabalhavam individualmente, trabalhavam com os velhos métodos de seus avós e com as velhas ferramentas de trabalho, trabalhavam para os latifundiários e capitalistas, para os kulaks e especuladores, trabalhavam sem conseguir nunca matar a fome e enriqxiecendo outros. Sob o regime kolkosiano, os camponeses trabalham unidos, coletivamente, em artel, trabalham com a ajuda de novos instrumentos, de tratores e de máquinas agrícolas, trabalham para eles mesmos e para seus kolkoses, vivem sem capitalistas e sem latifundiários, sem kulaks e sem especuladores, trabalham para melhorar dia a dia sua situação material e cultural". (Stalin, "Problemas do Leninismo", pág. 528, ed. russa).

No seu disciirso, o camarada Stalin pôs em relevo o que saia ganhando praticamente o camponês, ao abraçar a causa kolkosiana.

O Partido bolchevique ajudava as massas de milhões de camponeses pobres a entrarem nos kolkoses, a se libertarem das garras dos kulaks. Entrando nos kolkoses, e neles desfrutando de melhor terra e e melhores instrumentos de produção, as massas de milhões de camponeses pobres, que antes passavam fome, atingiam agora, dentro dos kolkoses, o nível dos camponeses médios, convertiam-se em homens que gozavam de uma situação assegurada.

Este era o primeiro passo, a primeira conquista conseguida no caminho do movimento kolkosiano.

O segundo passo, dizia o camarada Stalin, consistirá em elevar ainda mais o nível dos kolkosianos — tanto o dos antigos camponeses pobres como o dos antigos camponeses médios —, convertendo todos os kolkosianos em homens novos e todos os kolkoses em kolkoses bolcheviques.

"Para ser kolkosiano — dizia o camarada Stalin — só se requer uma coisa: trabalhar honradamente no kolkose, utilizar bem os tratores e máquinas, saber cuidar do gado, trabalhar bem a terra e zelar pela propriedade kolkosiana". (Obra citada, págs. 532-533).

O discurso do camarada Stalin ficou fortemente gravado na consciência de milhões de kolkosianos, converteu-se no programa prático, no programa de luta dos kolkoses.

Em fins de 1934 os kolkoses tinham se convertido em uma força sólida e invencível. Por essa época já agrupavam cerca das três quartas partes de todas as explorações camponesas da U.R.S.S. e englobavam cerca de 90% de toda a superfície semeada.

Em 1934 trabalhavam já na agricultura da U.R.S.S. 281.000 tratores e 32.000 máquinas combinadas. A semeadura da primavera do ano de 1934 terminou 15 dias antes que em 1933 e 30 ou 40 dias antes que em 1932, e o plano de abastecimento de trigo foi executado três meses antes que em 1932.

Foi assim que num prazo de dois anos os kolkoses se fortaleceram, graças à formidável ajuda prestada pelo Partido e pelo Estado operário e camponês.

O sólido triunfo do regime kolkosiano e o florescimento da agricultura por ele determinado, deram ao Poder Soviético a possibilidade de abolir o sistema de racionamento do pão e de outros artigos e implantar o sistema da venda livre para os produtos alimentícios.

Uma vez que as estações de máquinas e tratores, criadas como órgãos políticos provisórios, cumpriram sua missão, o Comitê Central tomou a resolução de transformá-las em órgãos normais do Partido, fundindo-as com os Comitês de distritos existentes.

Todos esses êxitos, tanto os conseguidos no terreno da agricultura como os conseguidos na esfera da indústria, foram conquistados graças à execução vitoriosa do Plano Qüinqüenal.

Em princípios de 1933, ficou evidente que o Plano Qüinqüenal estava cumprido antes do prazo, ao cabo de quatro anos e três meses.

Foi um triunfo grandioso, um triunio de alcance histórico mundial da classe operária e dos camponeses da U.R.S.S.

No informe pronunciado pelo camarada Stalin no Pleno do Comitê Central e da Comissão de Controle do Partido, celebrado em janeiro 1933, fez ele balanço do primeiro Plano Qüinqüenal. Segundo foi destacado nesse informe, o Partido Soviético tinham conseguido durante o período que acabava de transcorrer, durante o período do primeiro Plano Qüinqüenal, os seguintes resultados fundamentais:

  1. A U.R.S.S. tinha se convertido de um país agrário em um país industrial, posto que o peso específico da produção de toda a Economia nacional tinha aumentado 70%.

  2. O sistema socialista da Economia havia acabado com os elementos capitalistas da indústria e se convertera no único sistema econômico imperante no terreno industrial.

  3. O sistema socialista da Economia havia acabado com os kulaks como classe na agricultura, e se convertera na força dominante da Economia agrária.

  4. O regime kolkosiano havia acabado com a miséria, com a pobreza no campo, elevando dezenas de milhões de camponeses pobres ao nível de homens com uma vida garantida.

  5. O sistema socialista da indústria havia acabado com o desemprego, mantendo a jornada de oito horas em uma série de ramos de produção, implantando a jornada de sete horas na imensa maioria das empresas nocivas à saúde.

  6. O triunfo do socialismo em todos os ramos da Economia nacional havia acabado com a exploração do homem pelo homem.

A importância dessas conquistas conseguidas pelo primeiro Plano Qüinqüenal consistia, antes de tudo,, em que tinham libertado definitivamente os operários e camponeses do jugo da exploração, abrindo a todos os trabalhadores da U.R.S.S. caminho para uma vida tranqüila e culta.

Em janeiro de 1934 reuniu-se o XVII Congresso do Partido. Tomaram parte 1.225 delegados com palavra e voto e 736 com palavra somente, representando 1.874.488 filiados e 935.298 aspirantes.

O Congresso fez o balanço do trabalho do Partido durante o período que acabava de transcorrer, registrou os êxitos decisivos alcançados pelo socialismo em todos os ramos da Economia e da cultura e comprovou que a linha geral do Partido tinha triunfado plenamente.

O XVII Congresso do Partido passou à história com o nome de "Congresso dos vencedores". No seu informe perante o Congresso o camarada Stalin assinalou as transformações radicais que se haviam operado na U.R.S.S. durante o período referido.

"Durante esse período a U.R.S.S. se transformou radicalmente, perdendo sua fisionomia de atraso e de medievalismo. Converteu-se de um país agrário em um país industrial. Converteu-se de um país de pequenas explorações agrícolas individuais em um país de grandes explorações agrícolas coletivas e mecanizadas.

Converteu-se — ou melhor, está se convertendo — de um país obscurantista, analfabeto e inculto em um país instruído e culto, coberto por uma rede formidável de escolas superiores, médias e elementares, que ensinam nas línguas das diversas nacionalidades da U.R.S.S.". (Stalin, "Problemas do Leninismo" pág. 533, ed. russa).

Por essa época a indústria socialista constituía já 99% de toda a indústria do país. A agricultura socialista — os kolkoses e os sovkoses — englobavam cerca de 90% da superfície total semeada do país. No que se refere à circulação de mercadorias, os elementos capitalistas tinham sido desalojado totalmente do comércio.

Ao implantar a nova política econômica, Lenin dissera que no País Soviético existiam elementos próprios de cinco formações econômico-sociais. A primeira formação era a da Economia patriarcal, que é, num grau considerável, uma Economia de tipo natural, isto é, que apenas não mantém relações comerciais. A segunda formação era a da pequena produção de mercadorias, formada pela maioria dos proprietários camponeses que se dedicavam à venda de produtos agrícolas, e pelos artesãos. Nos primeiros anos da NEP essa formação econômica compreendia a maioria da população. A terceira formação era a do capitalismo privado, que começou a sair de sua prostração nos primeiros anos da NEP. A quarta formação era a ao capitalismo de Estado, formado principalmente pelas concessões que não conseguiram adquirir um desenvolvimento importante. A quinta formação era a do socialismo, a indústria socialista, que naquela época era ainda fraca, os sovkoses e kolkoses, que no começo da NEP só ocupavam um lugar insignificante na Economia nacional, e o comércio do Estado e as cooperativas, que nos primeiros tempos da NEP eram bastante fracos.

Lenin assinalava que era a formação socialista que haveria de predominar entre todas essas formações.

A nova política econômica se orientava para o triunfo completo das formas socialistas da Economia.

Ao celebrar-se o XVII Congresso do Partido, esta aspiração era já uma realidade.

"Agora podemos dizer — manifestava a esse propósito o camarada Stalin — que a primeira, a terceira e a quarta formação econômico-sociais já não existiam, que a segunda formação econômico-social foi relegada a segundo plano, e que a quinta formação econômico-social, a formação socialista, é a única dominante, a única força de comando de toda a Economia nacional". (Obra citada, pág. 555).

Ocupavam um lugar importante, no informe do camarada Stalin, os problemas de direção ideológico-política. O camarada Stalin advertia o Partido que, se bem que os inimigos do Partido, os oportunistas de todos os calibres e os porta-vozes dos desvios nacionalistas de todos os matizes, tivessem sido derrotados, os vestígios de sua ideologia ecoavam ainda nas cabeças de alguns membros do Partido e se manifestavam não poucas vezes. As sobrevivências do capitalismo na Economia e sobretudo, na consciência dos homens, eram o terreno propício que podia infundir nova vida à ideologia dos grupos antileninistas derrotados. A consciência dos homens vai, no seu desenvolvimento, à retaguarda de sua situação econômica. Por isso, ainda que o capitalismo estivesse liquidado na Economia, nas cabeças dos homens se mantinham e continuavam se mantendo ainda sobrevivências das idéias burguesas. Além disso, era necessário não perder de vista que o cerco capitalista, contra o qual era preciso estar sempre alerta, se esforçava por acentuar e apoiar essas sobrevivências.

O camarada Stalin examinou demoradamente, entre outras coisas, as sobrevivências do capitalismo na consciência dos homens no tocante ao problema nacional, onde conservavam uma vitalidade especialmente grande. O Partido bolchevique lutava em duas frentes, tanto contra o desvio do chovinismo grão-russo como contra o desvio do nacionalismo regionalista. Numa série de Repúblicas (Ucrânia, Bielo-Rússia etc), as organizações do Partido tinham recuado na luta contra o nacionalismo regionalista, deixando-o desenvolver-se até fundir-se com as forças inimigas, com os intervencionistas, até converter-se em um perigo para o Estado. Respondendo à pergunta de que desvio, no que se refere ao problema nacional, constituía o perigo mais importante, o camarada Stalin dizia:

"O perigo mais importante constitui o desvio contra o qual se deixou de lutar, permitindo, deste modo, que ele se desenvolvesse a ponto de se converter num perigo para o Estado" (Obra citada, pág. 587).

O Camarada Stalin incitava o Partido a reforçar seu trabalho ideológico-político, a desmascarar sistematicamente a ideologia e os vestígios ideológicos das classes inimigas e das correntes hostis do leninismo.

O camarada Stalin assinalava, também, no seu informe, que o fato de tomar decisões acertadas não bastava para garantir o êxito da causa. Para garantir o êxito da causa era necessário localizar acertadamente os homens capazes de levar à prática as decisões dos órgãos dirigentes e organizar o controle da execução dessas decisões. Sem essas medidas de organização, as decisões corriam o risco de ficarem reduzidas a disposições no papel, desligadas da realidade. Nesse ponto o camarada Stalin se referia à conhecida tese de Lenin, segundo a qual o fundamental no trabalho de organização é a escolha dos homens e o controle da execução. Além disso destacava que a falta de continuidade entre as decisões adotadas e o trabalho de organização para levá-las à prática e controlar sua execução, era o defeito fundamental de nossa atxtação prática.

Com o fim de aperfeiçoar o controle de execução das decisões do Partido e do governo, o XVII Congresso criou — em substituição à Comissão Central de Controle e de Inspeção Operária e Camponesa, que já havia cumprido sua missão desde os tempos do XII Congresso do Partido, — a Comissão de Controle do Partido, adjunta ao Comitê Central do P. C. (b) da U.R.S.S. e a Comissão de Controle Soviética adjunta ao Conselho de Comissários do Povo da U.R.S.S.

O camarada Stalin assim formulava as tarefas de organização do Partido na nova etapa:

  1. Ajustar o trabalho de organização às exigências da linha política do Partido;

  2. Elevar a direção organizativa ao nível da direção política;

  3. Conseguir que a direção organizativa garanta plenamente a realização das palavras de ordem políticas e das decisões do Partido.

O camarada Stalin finalizou seu informe advertindo que, se bem que os êxitos do socialismo fossem grandes e produzissem um sentimento de legítimo orgulho, era necessário não se deixar seduzir pelos êxitos alcançados, era necessário não "se vangloriar" nem adormecer sobre os louros.

"... Não se deve adormecer o Partido, mas sim desenvolver nele o espírito de vigilância; não se deve acalentá-lõ, mas sim mantê-lo em pé de guerra; não se deve desarmá-lo, mas sim armá-lo; não se deve desmobilizá-lo, mas sim mantê-lo em estado de mobilização para a execução do segundo Plano Qüinqüenal. — indicava o camarada Stalin (Obra citada, pág. 596).'

Os camaradas Molotov e Kuibyshev informaram perante o XVII Congresso do Partido, sobre o segundo Plano Qüinqüenal de desenvolvimento da Economia nacional. As tareias do segundo Plano Qüinqüenal eram ainda mais grandiosas que os do primeiro. No final do segundo Plano Qüinqüenal, em 1937, a produção industrial deveria ser aproximadamente, oito vezes maior que a de antes da guerra. O segundo Plano Qüinqüenal previa, em toda a Economia nacional, obras básicas no valor de 133 milhões de rublos destinados a esses empreendimentos no primeiro Plano Qüinqüenal.

Este gigantesco volume de obras básicas garantia a total renovação do equipamento técnico de todos os ramos da Economia nacional.

0 segundo Plano Qüinqüenal deveria levar a cabo, no fundamental, a mecanização da agricultura. A potência total dos tratores em todo o país aumentaria de 2.250.000 cavalos de força em 1932, para mais de 8 milhões em 1937. E previa-se a vasta implantação de um sistema de medidas de técnica agrária (uma rotação de cultivo acertada, semeio com sementes selecionadas, trabalhos no outono, etc).

Projetava-se um grande trabalho para a reconstrução técnica dos transportes e comunicações.

Traçava-se um vasto programa destinado a continuar revelando o nível material e cultural dos operários e camponeses.

O XVII Congresso consagrou grande atenção aos problemas de organização e tomou, sobre a base do informe do camarada Kaganovich, resoluções sobre os problemas referentes à obra de desenvolvimento do Partido e dos organismos soviéticos. O problema de organização adquiria uma importância maior ainda ao triunfar a linha geral do Partido, ao ser provada na própria vida, a política do partido, mediante a experiência de milhões de operários e camponeses. As novas e complexas tarefas que o segundo Plano Qüinqüenal traçava, exigiam que fosse elevada a qualidade de trabalho em todos os setores.

"As tarefas fundamentais do segundo Plano Qüinqüenal — a liquidação definitiva dos elementos capitalistas, a superação das sobrevivências do capitalismo na Economia e na consciência dos homens, o remate da obra de reconstrução de toda a Economia nacional sobre a base da técnica mais moderna, a assimilação da nova técnica e da direção das novas empresas, a mecanização da agricultura e a elevação de sua produtividade — criam com toda sua força o problema de elevar a qualidade do trabalho em todos os setores e, em primeiro lugar, a qualidade da direção pratica em matéria de organização", — diziam as resoluções do Congresso sobre os problemas de organização. ("Resoluções do P. C. (b) da U.R.S.S.", parte II, pág. 591).

No XVII Congresso foram aprovados os novos estatutos do Partido, que se diferenciavam dos antigos, antes de tudo pelo fato de conterem uma introdução. Nessa introdução é dada uma breve definição do Partido Comunista, de sua significação na luta do Proletariado e do posto que ocupa dentro do sistema dos órgãos da ditadura proletária. Os novos estatutos enumeram detalhadamente os deveres dos filiados. Contêm normas mais severas para o ingresso no Partido e um ponto sobre os grupos de simpatizantes. Nesses estatutos se expõe com maiores detalhes o problema da estrutura orgânica do Partido e são formulados de um modo novo os pontos sobre as antigas células do Partido ou organizações primarias deste, como se vêm chamando desde o XVII Congresso. Também aparecem formulados de um modo novo, nestes estatutos, os pontos referentes à democracia interna e à disciplina do Partido.


 

4

 

— Os bukarinistas degeneram em falsários políticos.

— Os falsários trotskistas degeneram em um bando de assassinos e guardas brancos espiões.

— O infame assassino de S. M. Kirov.

— Medidas do Partido para fortalecer a vigilância dos bolcheviques.


Os êxitos do socialismo não enchiam de alegria somente o Partido, os operários e os kolkosianos. Enchiam de alegria também todos os intelectuais soviéticos, todos os cidadãos honrados da U.R.S.S.

Não compartilhavam desta alegria, mas, longe disso, sua irritação crescia cada vez mais, os restos das classes exploradoras derrotadas.

Esses êxitos faziam estremecer de raiva os porta-vozes das classes derrotadas, os míseros restos dos bukarinistas e dos trotskistas.

Estes senhores não focalizavam as conquistas dos operários e kolkosianos do ponto de vista dos interesses do povo, que acolhia com entusiasmo cada um dos seus êxitos, mas do ponto de vista dos interesses de seu mísero grupo divisionista, grupo desligado da realidade e podre até a medula. Como os êxitos do socialismo no País Soviético significavam o triunfo da política do Partido e a bancarrota definitiva da política daqueles senhores, estes, em vez de se renderem à evidência e de se juntarem à obra comum, começaram a vingar-se no Partido e no povo de seu próprio fracasso, de sua própria bancarrota, começaram a sabotar e dificultar a obra dos operários e dos kolkosianos,. a inundar minas, a incendiar fábricas, a cometer atos de sabotagem nos kolkoses e nos sovkoses, com o fim de solapar as conquistas dos operários e kolkosianos e de provocar o descontentamento do povo contra o Poder Soviético. Mas, para preservar, neste trabalho, seu mísero grupo contra o perigo de ser desmascarado e esmagado, puseram a máscara de homens fiéis ao Partido, começaram a fazer cada vez maiores reverências a este, a glorificar o Partido e a ajoelha-se perante ele, enquanto na prática prosseguiam, clandestinamente, no trabalho de sapa contra os operários e camponeses.

No XVII Congresso, Bukarin, Rykov e Tomski pronunciaram discursos de arrependimento, enaltecendo o Partido e colocando nas nuvens os seus êxitos. Mas o Congresso percebeu o tom insincero e falso de seus discursos, pois o que o Partido pede a seus filiados não é que enalteçam e cantem loas a seus êxitos, mas que trabalhem honradamente na frente do socialismo, que era exatamente o que não se via, nos bukarinistas, havia muito tempo. O Partido compreendeu que na realidade, os farisaicos discursos desses senhores eram senhas trocadas com seus adeptos não presentes no Congresso, ensinando-lhes o caminho de falsidade e incitando-os a não depor as armas.

No XVII Congresso, intervieram os trotskistas Zinoviev e Kamenev, flagelando-se até o exagero por seus erros e enaltecendo o Partido — também até o exagero — por seus êxitos. Mas o Congresso não pôde deixar de advertir que, tanto aquela nauseabunda flagelação como aquele nojento enaltecimento do Partido, não eram mais do que o recurso da consciência suja e intranqüila desses senhores. Contudo, o Partido não sabia ainda nem suspeitava sequer que, ao mesmo tempo que pronunciavam seus melífluos discursos no Congresso, esses indivíduos ocupavam-se da preparação do infame assassinato de S. M. Kirov.

A 1º de dezembro de 1934, Sergio Mironovich Kirov foi vilmente assassinado em Leningrado, no Smolni, com um tiro de revólver.

O assassino, preso no local do crime, era membro do grupo contra-revolucionário clandestino que havia sido organizado por alguns dos componentes do grupo zinovievista anti-soviético de Leningrado.

O assassinato de S. M. Kirov, figura queridíssima do Partido e da classe operária, provocou a mais furiosa cólera e a mais profunda dor entre os trabalhadores do País Soviético.

No sumário aberto ficou comprovado que, no ano de 1933 a 1934, tinha sido constituído, em Leningrado, por alguns antigos componentes da oposição zinovievista, um grupo terrorista contra-revolucionário clandestino, à frente do qual figurava o chamado "centro de Leningrado". Este grupo tinha se proposto, como objetivo, assassinar os dirigentes do Partido Comunista. A primeira vítima que haveria de cair era S. M. Kirov. Pelas declarações dos envolvidos nesse grupo contra-revolucionário se comprovou que estavam em relação com representantes de Estados capitalistas estrangeiros, de quem haviam recebido dinheiro.

Convictos e confessos, os participantes dessa organização foram condenados pela Corte Militar do Tribunal Supremo da U.R.S.S. à pena máxima do fuzilamento.

Pouco depois foi comprovada a existência da organização contra-revoluciouária clandestina chamada "Centro de Moscou". O sumário e o exame do processo evidenciaram o infame papel desempenhado por Zinoviev, Kamenev, Ievdokimov e outros dirigentes dessa organização na obra de inculcar nos seus correligionários idéias terroristas e de preparar o assassinato dos membros do Comitê Central e do governo soviético.

A dissimulação e a vileza desses indivíduos chegaram a tal ponto que Zinoviev — um dos organizadores e inspiradores do assassinato de S. M. Kirov, que tinha apressado o assassino para que perpetrasse quanto antes o crime — escreveu um necrológio elogiosíssimo de Kirov, exigindo sua publicação.

Fingindo, à vista do processo, que se arrependiam de seus crimes, os zinovievistas continuaram dando provas de falsidade até nesse momento. Ocultaram suas relações com Trotsky. Ocultaram que em união com os trotskistas, se tinham vendido aos serviços de espionagem fascistas, ocultavam seus atos de espionagem e sabotagem. Os zinovievistas silenciaram perante o Tribunal suas relações com os bukarinistas, a existência de um bando unificado trotskista-bukarinista de servidores a soldo do fascismo.

O assassinato do camarada Kirov tinha sido perpetrado, como se demonstrou mais tarde, por esse bando unificado de trotskistas e bukarinistas.

Já então, em 1935, era evidente que o grupo zinovievista constituia uma organização encoberta de guardas brancos, cujos componentes só mereciam ser tratados como guardas brancos.

Um ano depois soube-se que os organizadores autênticos, diretos e efetivos do assassinato de Kirov e das medidas preparatórias destinadas ao assassinato dos membros do Comitê Central, tinham sido Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Bakaiev, Ievdokimov, Pikel, I. M. Smirnov, Mrachkovski, Ter-Vagarin, Reingold e outros. Os criminosos, colhidos com a mão na massa, não tiveram outro remédio senão reconhecer publicamente, perante seus juízes, que não só haviam organizado o assassinato de Kirov, como também preparavam o de todos os demais dirigentes do Partido e do governo. O sumário evidenciou, além disso, que esses desalmados se dedicavam também à organização de atos diversivos e de espionagem. Durante o processo, celebrado em Moscou em 1936, foi posta a nu toda a monstruosa abjeção moral e política desses indivíduos, toda sua repugnante baixeza e traição que vinham encobrindo com hipócritas declarações de lealdade ao Partido.

O principal inspirador e organizador de todos esses bandos assassinos e espiões era o judas Trotsky. Serviam-lhe de auxiliares e eram executores de suas ordens contra-revolucionárias, Zinoviev, Kamenev e seus satélites trotskistas. Preparavam a derrota da U.R.S.S. no caso em que ela fosse atacada pelos imperialistas, tinham tomado o caminho do derrotismo em relação ao Estado operário e camponês e se tinham convertido em servidores e agentes desprezíveis dos fascistas alemães e japoneses.

O ensinamento fundamental que as organizações do Partido deviam tirar dos processos seguidos em conseqüência do aleivoso assassinato de S. M. Kirov, consistia em acabar com sua própria cegueira política, em acabar com sua despreocupação política, em reforçar sua vigilância e a de todos os filiados ao Partido.

Na carta dirigida às organizações do Partido pelo Comitê Central, por motivo do infame assassinato de S. M. Kirov, se dizia:

"a) É necessário acabar com essa benignidade oportunista que parte da suposição errônea de que, à medida que se desenvolvem nossas forças, o inimigo se torna mais dócil e mais inofensivo. Essa suposição é radicalmente falsa. E fruto do desvio direitista consistente em assegurar a todo mundo que os inimigos deslizarão suavemente para o socialismo e acabarão sendo, no fim das contas, verdadeiros socialistas. Não é próprio de bolcheviques dormir sobre os louros e pensar nas nuvens. O que necessitamos não é benegnidade, mas vigilância, uma verdadeira vigilância revolucionária, bolchevique. E preciso não esquecer que quanto mais desesperada for a situação de nossos inimigos, de melhor grado recorrerão aos "meios extremos", que são os únicos de que dispõem os que estão fatalmente condenados ao fracasso na sua luta contra o Poder Soviético. E preciso ter presente esse fato e permanecer vigilantes.

b) É necessário dar a devida importância ao ensino da história do Partido entre seus filiados, ao estudo de todos e de cada um dos grupos antibolcheviques de que fala a história de nosso Partido, de seus métodos de luta contra a linha do Partido, de sua tática, e — mais ainda — ao estudo da tática e dos métodos de luta de nosso Partido contra os grupos antibolcheviques, tática e métodos de luta que permitiram ao nosso Partido vencer e esmagar esses grupos. É necessário que os filiados ao Partido conheçam, não somente como nosso Partido combateu e derrotou os kadetes, os socialistas-revolucionários, os mencheviques, os anarquistas, mas também como combateu e derrotou os trotskistas, os centralistas democráticos", a "oposição operária", os zinovievistas, os porta-vozes de desvios direitistas, os monstros direitistas, "esquerdistas", etc. Não se deve esquecer que o conhecimento e a compreensão da história de nosso Partido constituem um meio importantíssimo, necessário para assegurar plenamente a vigilância revolucionária dos filiados ao Partido".

Nesse período tiveram uma imensa importância a depuração das fileiras do Partido de elementos mascarados e estranhos, depuração que começou em 1933 e, sobretudo a escrupulosa revisão das credenciais da condição de membros do Partido e a substituição das antigas por outras novas, operação que foi empreendida depois do infame assassinato de S. M. Kirov.

Até que se levasse a cabo essa revisão, reinavam em muitas organizações do Partido a arbitrariedade e o descuido a respeito dos "carnets" de filiados. Numa série de organizações locais foi descoberto um estado absolutamente intolerável de caos, no que dizia respeito ao registro de filiados ao Partido, do que se aproveitavam os inimigos para seus sujos fins, utilizando o "carnet" do Partido como anteparo para atos de sabotagem e de espionagem, etc. Muitos dirigentes de organizações do Partido confiavam tudo o que se referia a ingressos no Partido e à entrega de "carnets", a pessoas de terceira categoria, e, às vezes, a filiados sem garantia alguma.

Em uma carta especial dirigida a 13 de maio de 1935 a todas as oganizações, acerca do registro de filiados e da entrega e guarda dos "carnets", o Comitê Central dispunha que em todas as oganizações se procedesse à revisão escrupulosa das credenciais da condição de comunista,

"pondo uma ordem bolchevique em nossa própria casa, no Partido".

A revisão dos documentos do Partido encerrava uma grande importância política. Na resolução votada pelo Pleno do Comitê Central do Partido a 25 de dezembro de 1935, na base do informe do Secretário do C. C, camarada Ezhov, sobre os resultados da revisão de documentos efetuada, dizia-se que esta revisão era uma medida política e de organização de enorme importância para o reforçamento das fileiras do P.C. (b) da U.R.S.S.

Depois de se levar a cabo a revisão e a troca de credenciais da condição de comunista, foi restabelecido o ingresso de novos filiados. Mas o C. C. exigiu que as fileiras do Partido fossem completadas — não efetuando o ingresso em bloco, mas na base do exame rigorosamente individual de cada caso —

"com os homens realmente avançados e realmente entregues à causa da classe operária, com os melhores homens de nosso país, sobretudo, operários, mas também camponeses e intelectuais trabalhadores, provados nos diversos setores da luta pelo socialismo".

Ao restabelecer-se a admissão de novos filiados, o Comitê Central assinalou às organizações do Partido o dever que tinham de não esquecer que também no futuro os elementos inimigos tentariam infiltrar-se nas fileiras do P. C. (b) da U.R.S.S. Portanto,

"E dever de toda organização do Partido reforçar por todos os meios a vigilância bolchevique, manter bem alta a bandeira do Partido leninista e garantir ao Partido que nas suas fileiras não se infiltrarão elementos estranhos, inimigos e fortuitos" (Resoluções do P. C. (b) da U.R.S.S., de 29 de setembro de 1936, publicadas na "Pravda", n". 270, ano 1936).

Depurando e fortalecendo suas fileiras, desunindo os inimigos do Partido e lutando implacavelmente contra as deformações de sua linha, o Partido bolchevique reforçou ainda mais sua coesão em torno do Comitê Central, sob cuja direção o Partido e o País dos Soviets marchavam para a nova etapa, para a etapa em que se poria o remate à edificação da sociedade sem classe, da sociedade socialista.

Resumo

Nos anos de 1930 a 1934 o Partido bolchevique resolveu a tarefa histórica mais difícil da revolução proletária depois da conquista do Poder; a de levar milhões de pequenos proprietários camponeses pelo caminho dos kolkoses, pelo caminho do socialismo.

A liquidação dos kulaks, como classe exploradora mais numerosa, e a condução das grandes massas camponesas pelo caminho dos kolkoses, levariam à destruição das últimas raízes do capitalismo no país, ao triunfo total do socialismo na agricultura e à consolidação definitiva do Poder Soviético no campo.

Depois de vencer uma série de dificuldades de organização os kolkoses se fortaleceram definitivamente e começaram a marchar pelo caminho de uma vida próspera.

Como resultado da execução do primeiro Plano Qüinqüenal, foram levantadas, no País Soviético, as bases irremovíveis da Economia Socialista: construiu-se uma indústria pesada socialista de primeira classe e uma agricultura coletiva mecanizada, acabou-se com o desemprego forçado e com a exploração do homem pelo homem, e criaram-se as condições necessárias para o melhoramento ininterrupto da situação material e cultural dos trabalhadores da Pátria Socialista.

Esses gigantescos êxitos foram conseguidos pela classe operária, peos kolkosianos e por todos os trabalhadores do País Soviético, graças à política intrépida, revolucionária e sábia do Partido e do governo.

O cerco capitalista, aspirando debilitar e minar a potência da União Soviética, reforçou seu "trabalho" destinado a organizar, dentro da U.R.S.S., bandos de assassinos, de sabotadores e de espiões. A atividade hostil do cerco capitalista contra a U.R.S.S. recrudesceu especialmente depois da subida ao Poder dos fascistas na Alemanha e no Japão. Os trotskistas e os zinovievistas entraram ao serviço do fascismo, como criados leais, dispostos a cometer atos de espionagem, de sabotagem, de terrorismo e de diversionismo, dispostos a trabalhar pela derrota da U.R.S.S., tudo em nome da restauração do capitalismo.

O Poder Soviético castigou com mão férrea esses abortos do gênero humano e lhes deu implacavelmente o merecido castigo, como verdadeiros inimigos do povo e traidores da pátria.


 

 

Capítulo XII

 

— O Partido Bolchevique na Luta pelo Coroamento da Edificação da Sociedade Socialista e a Implantação da Nova Constituição

(1935-1937)

 


1

 

— A situação internacional nos anos de 1935, a 1937.

— Enfraquecimento temporário da crise econômica.

— Principia uma nova crise econômica.

— Ocupação da Abissínia pela Itália.

— A intervenção germano-italiana na Espanha.

— Invasão da China Central pelos japoneses.

— Começa a segunda guerra imperialista.


A crise econômica, que se havia iniciado nos países capitalistas na segunda metade do ano de 1929, prosseguiu até fins de 1933. A partir desta data, o descenso da indústria se conteve, a crise parou, e, algum tempo depois, a indústria começou a reanimar-se em alguma coisa, experimentou um certo apogeu. Mas não era o apogeu que precede a um processo de florescimento industrial numa base nova e mais alta. A indústria capitalista mundial não conseguiu sequer recobrar o nível do ano de 1929; até meados de 1937 só havia conseguido atingir 95 ou 96 por cento daquele nível. E na segunda metade de 1937 se iniciava já uma nova crise econômica, que afetava, antes de tudo, os Estados Unidos. Em fins de 1937, a cifra de operários parados nos Estados Unidos tornava a elevar-se a 10 milhões de homens. Na Inglaterra principiava também a crescer rapidamente o número de operários parados.

Portanto, ainda não haviam tido tempo de se refazer dos golpes da recente crise econômica, e já os países capitalistas se viam obrigados a enfrentar nova crise.

Esta circunstância acentuou ainda mais as contradições entre a burguesia e o proletariado. Correlatamente, recrudesceram cada vez mais as tentativas dos Estados agressores de se ressarcirem das perdas ocasionadas pela crise econômica dentro do país à custa de outros países mal defendidos. Nestas tentativas uniu-se aos dois conhecidos Estados agressores, Alemanha e Japão, um terceiro Estado — a Itália.

Em 1935, a Itália fascista se lançou sobre a Abissínia e a escravizou. Agrediu-a, sem o menor fundamento, nem o menor pretexto, do ponto de vista do "Direito Internacional", sem declaração de guerra, furtivamente, como agora é moda entre os fascistas. Este golpe não era dirigido somente contra a Abissínia, mas também contra a Inglaterra, contra suas comunicações marítimas entre a Europa e a Índia, com a Ásia. As tentativas da Inglaterra, de impedir que a Itália se apossasse da Abissínia não deram resultado. Para ter as mãos livres, a Itália saiu mais tarde da Sociedade das Nações e começou a armar-se intensivamente.

Formou-se, deste modo, um novo foco de guerra nas rotas marítimas mais curtas entre a Europa e a Ásia.

A Alemanha fascista violou com um ato unilateral, o Tratado de Paz de Versalhes e se propôs executar o plano de revisão pela força das fronteiras dos Estados europeus. Os fascistas alemães não escondiam que seu objetivo era submeter ao seu império os Estados vizinhos ou, pelo menos, se apoderar dos territórios destes Estados habitados por alemães. Segundo tal plano, se procederia primeiro à ocupação da Áustria, e logo depois se descarregaria o golpe contra a Tcheeoslováquia, em seguida talvez contra a Polônia, onde também existe um território povoado por alemães e fronteiriço à Alemanha; mais adiante... mais adiante, "dentro em pouco se veria".

No verão de 1936 começou a intervenção armada da Alemanha e da Itália contra a República Espanhola. Sob o pretexto de ajudar os fascistas espanhóis, a Itália e a Alemanha conseguiram ir localizando por debaixo de pano suas unidades militares no território da Espanha, à retaguarda da França, e suas esquadras nas águas espanholas, na zona das ilhas Baleares e de Gibraltar, no Sul: na zona do Oceano Atlântico, no Oeste; e na do golfo de Biscaia, ao Norte. Em começos de 1938, os fascistas alemães ocuparam a Áustria, cravando suas garras na região central do Danúbio e estendendo-se pelo Sul da Europa até as proximidades do Mar Adriático.

Ao levar a cabo sua intervenção contra a Espanha, os fascistas ítalo-germanos asseguravam a todo o mundo que eles só lutavam contra os "vermelhos" espanhóis e que não tinham em vista nenhum outro objetivo. Isto, porém, não era mais que um grosseiro e torpe subterfúgio, bom para enganar os tolos. Na realidade o golpe era dirigido contra a Inglaterra e a França, pois os fascistas interceptavam às comunicações marítimas destes países com suas formidáveis possessões coloniais da África e da Ásia.

No que se refere à ocupação da Áustria, não havia o menor pretexto para enquadrá-la no âmbito da luta contra o Tratado de Versalhes no âmbito da defesa dos interesses "nacionais" da Alemanha e de sua aspiração de recuperar os territórios perdidos em virtude da primeira guerra imperialista. A Áustria não fazia parte da Alemanha, nem antes da guerra, nem depois dela. A anexação pela força da Áustria pela Alemanha não é mais que um ato descaradamente imperialista de ocupação de um território estrangeiro. Este ato revela, indubitavelmente, a aspiração da Alemanha fascista de conseguir uma posição dominante no continente da Europa.

Era um golpe assestado, em primeiro lugar, nos interesses da França e da Inglaterra.

Formaram-se, assim, novos focos de guerra no Sul da Europa, na zona da Áustria e do Adriático, e na extremidade do Ocidente europeu, na zona da Espanha e dos mares que baniram a península ibérica.

Em 1937 os militaristas fascistas japoneses se apoderaram de Pequim, invadiram a China Central e ocuparam Shangai. A invasão da China Central pelas tropas japonesas foi levada a cabo, da mesma sorte que a da Mandchúria há uns anos atrás, segundo o método japonês, isto é, sub-repticiamente, por meio de trapaças de ladrão, pretextando diversos "incidentes locais" provocados pelos mesmos japoneses, violando de fato toda e cada uma das "normas internacionais", tratados, convênios, etc.

A ocupação deTientsiu e de Shangai punha nas mãos dos japoneses a chave do comércio com a China, com seu imenso mercado. Quer isto dizer que, enquanto tiver em suas mãos Shangai e Tientsin, o Japão poderá em qualquer momento desalojar da China Central a Inglaterra e os Estados Unidos, que têm inversões gigantescas naquele território.

Claro está que a heróica luta do povo chinês e de seu Exército contra os invasores japoneses, o formidável movimento nacional da China, as gigantescas reservas de homens e de território deste país, e, finalmente, a decisão do governo nacional chinês de manter a luta de libertação da China até o fim, até expulsar o ultimo invasor para o outro lado das fronteiras do país, são outros tantos testemunhos incontestáveis de que os imperialistas japoneses não puderam nem poderão haver-se com a China.

Mas tampouco se pode desconhecer, de outra parte, que o Japão continua tendo em suas mãos as chaves do comércio com a China e que a guerra contra este país é, no fundo, um golpe muito sério assestado contra os interesses da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Deste modo formou-se no Oceano Pacífico, na zona da China, mais um foco de guerra.

Todos estes fatos provam que a segunda guerra imperialista já começou, na realidade. Começou furtivamente, sem declaração de guerra. Os Estados e os povos foram quase insensivelmente deslizando para dentro da órbita da segunda guerra imperialista. A guerra foi desencadeada nos diversos confins do mundo pelos três Estados agressores — os círculos governantes fascistas da Alemanha, Itália e Japão. A guerra se estendeu ao longo de um imenso território, desde Gibraltar até Shangai. Conseguiu já arrastar para seu campo de ação mais de 500 milhões de seres. Esta guerra é dirigida, em última análise, contra os interesses capitalistas da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos, já que tem finalidade a partilha do mundo e das zonas de influência, em proveito dos países agressores e à custa dos chamados Estados democráticos.

O traço característico da segunda guerra imperialista consiste, por enquanto, em que, à medida que as potências agressoras mantêm e desenvolvem as guerras, as outras potências "democráticas", contra as quais esta guerra é expressamente dirigida, fazem como se não fosse com elas a guerra, lavam as mãos, recuam, fazem protesto de seu amor pela paz, invectivam os agressores fascistas e... lhes vão cedendo pouco a pouco suas posições, embora afirmando a cada nova concessão que estão dispostos a resistir.

Como se vê, esta guerra apresenta um caráter bastante estranho e unilateral. Mas isto não impede que seja uma guerra furiosa, uma guerra de descaradas anexações, que descarrega seus golpes sobre as costas dos povos da Abissínia, Espanha e China, fracamente defendidos.

Seria falso pretender explicar este caráter unilateral da guerra pela debilidade militar ou econômica dos Estados "democráticos". É evidente que estes Estados são mais fortes que os Estados fascistas. O caráter singular da guerra mundial desencadeada tem sua explicação na ausência de uma frente única dos Estados "democráticos" contra as potências fascistas. É certo que os chamados Estados "democráticos" não aprovam os "excessos" dos Estados fascistas e temem que estes se fortaleçam. Temem, porém, ainda mais o movimento operário da Europa e o movimento de libertação nacional da Ásia, e entendem que o fascismo é um "bom antídoto" contra todos estes movimentos "perigosos". Por isso, os círculos governantes dos Estados "democráticos" e, principalmente, os círculos conservadores governantes da Inglaterra se limitam à política de exortar os caudilhos fascistas desenfreados para que "não vão muito longe", dando-lhes ao mesmo tempo a entender que "compreendem perfeitamente" sua política reacionária e policial contra o movimento operário e de libertação nacional e que, no fundo, simpatizam com ela. Os círculos governantes da Inglaterra mantêm aqui, pouco mais ou menos, a mesma política que, sob o czarismo, a burguesia monarquista liberal russa mantinha, de modo que, embora temendo os "excessos" da política czarista, temia ainda mais o povo, razão pela qual adotou a política de persuadir o czar, e, portanto, a política de confabulações com o czar contra o povo. Como é sabido, a burguesia monarquista liberal russa pagou muito caro esta política de falsidade. É de esperar que os círculos governantes da Inglaterra e seus amigos da França e dos Estados Unidos venham a ter também o seu merecido castigo histórico.

É evidente que, perante a mudança operada nos assuntos internacionais, a U.R.S.S. não podia passar ao largo por acontecimentos tão graves. Toda guerra, por pequena que seja, iniciada pelos agressores, representa um perigo para os países amantes da paz; e a segunda guerra imperialista, que tão "insensivelmente" foi se abatendo sobre os povos e que já abarca mais de 500 milhões de seres, não pode deixar de representar um gravíssimo perigo para todos os povos, e, em primeiro lugar, para a U.R.S.S. Testemunho eloqüente disto é o "bloco anticomunista" estabelecido entre a Alemanha, a Itália e o Japão. Por isso, a União Soviética, embora persistindo em sua política de paz, continuou reforçando a capacidade defensiva de suas fronteiras e a combatividade do Exército Vermelho e da Marinha Vermelha. Em fins de 1934 a U.R.S.S. entrou para a Sociedade das Nações, sabendo que, apesar de sua debilidade, este organismo podia servir de tribuna para desmascarar os agressores e de instrumento de paz, ainda que débil, para freiar o desencadeamento da guerra. A U.R.S.S. entendia que, nos tempos que corriam, não se devia desdenhar sequer uma organização internacional tão fraca como a Sociedade das Nações. Em maio de 1935 consertou-se entre a França e a U.R.S.S. um pacto de assistência mútua, contra um possível ataque dos agressores. Simultaneamente se concertou um tratado análogo com a Tchecoslováquia. Em março de 1936 a U.R.S.S. assinou um pacto de ajuda mútua com a República Popular da Mongólia. Em agosto de 1937 foi assinado um pacto de não agressão entre a U.R.S.S. e a República da China.


 

 

2

 

— Prossegue o apogeu da indústria e da agricultura na U.R.S.S.

— O 2o. Plano Qüinqüenal é cumprido antes do prazo.

— Reconstrução da agricultura e conclusão da coletivização.

— A importância dos quadros.

— O movimento stakanovista.

— Aumenta o bem-estar do povo.

— Apogeu da cultura popular.

— A força da Revolução Soviética.


Enquanto nos países capitalistas se desencadeava, três anos após acrise econômica de 1930-1933, uma nova crise, na U.R.S.S. a indústria prosseguiu imperturbável sua marcha ascendente durante todo este período. A indústria capitalista mundial apenas havia alcançado em meados de 1937, em conjunto, 95 ou 96 por cento do nível do ano de 1929, e na segunda metade do ano de 1937 entrava na etapa de uma nova crise econômica; em troca, a indústria da U.R.S.S., prosseguindo sua marcha ascendente, chegou em fins do ano de 1937 a 428 por cento de seu nível de 1929, e, em comparação com o nível de antes da guerra, seu aumento era de mais 7 vezes.

Estes êxitos eram a conseqüência direta da política de reconstrução mantida pelo Partido e pelo governo com toda a tenacidade.

Como resultado destes êxitos, segundo Plano Qüinqüenal, no que toca à indústria, cumpriu-se antes do prazo. O segundo Plano Qüinqüenal ficou cumprido a 1º. de abril de 1937, isto é, em 4 anos e três meses.

Foi um triunfo formidável do socialismo.

Quase o mesmo quadro de progresso apresentava a agricultura. A superfície de colheita de todas as culturas aumentou de 105 milhões de hectares, em 1913 (período de anteguerra) a 135 milhões de hectares, em 1937. A produção de cereais aumentou de 78.424.000 toneladas, em 1918, a 111.884.000, em 1937; a produção de algodão em bruto aumentou de 720.000 para 2.522.520 toneladas; a produção de linho (fibra) aumentou de 311.220 para 507.780; a proibição de beterraba para açúcar, de 10.712.520 para 21.474.180; a produção das culturas de plantas oleaginosas aumentou de 2.113.020 toneladas para 5.012.280.

Convém advertir que em 1937, somente os kolkoses (sem contar os sovkoses) lançaram ao mercado mais de 27 milhões e meio de toneladas de trigo, ou sejam 6 milhões e meio de toneladas mais que os latifundiários, os kulaks e os camponeses juntos, em 1913.

Só um ramo da economia rural, a criação de gado, se achava em um nível inferior ao de antes da guerra e continuava avançando lentamente.

No que se refere à coletivização da agricultura, esta podia dar-se já por terminada. Em 1937 estavam incorporadas aos kolkoses 18 milhões e meio de explorações camponesas, o que representava 93 por cento das explorações camponesas de todo o país; e a superfície de colheita de cereais dos kolkoses representava 99 por cento da superfície total de cereais semeados pelos camponeses.

Os frutos da reconstrução da agricultura e de sua dotação intensiva com tratores e maquinaria agrícola estavam à vista.

O coroamento da obra de reconstrução da indústria e da agricultura fez com que a Economia nacional se visse abundantemente dotada de uma técnica de 1ª classe. A indústria e a agricultura, o transporte e o Exército receberam uma quantidade enorme de elementos técnicos novos, de novas máquinas e ferramentas, tratores e maquinaria agrícola, locomotivas e navios, peças de artilharia e tanques, aviões e navios de guerra. Era necessário pôr em marcha dezenas e centenas de milhares de quadros instruídos, capazes de dominar toda essa técnica e tirar dela o máximo rendimento. Sem isto, sem dispor de uma quantidade suficiente de homens que dominassem a técnica, esta corria o risco de converter-se em um montão de metais inerte e improdutivo. Era um perigo grave, fruto do fato de que os quadros capazes de dominar a técnica não se desenvolviam com a mesma celeridade e, inclusive ficavam bastante atrasados no que diz respeito ao desenvolvimento da técnica. A coisa se complicava pela circunstância de que uma parte considerável dos ativistas não compreendia este perigo e julgava que a técnica cumpriria sua tarefa "por si só". Assim como antes se havia menosprezado a técnica, adotando para com ela uma atitude desdenhosa, agora se exagerava sua importância e ela era convertida em um fetiche. Não se compreendia que a técnica sem homens que a dominassem é uma coisa morta. Não se compreendia que, sem homens que dominassem a técnica esta não podia dar um alto rendimento.

O problema dos quadros capazes de dominar a técnica adquiria, portanto, uma importância primordial.

Era necessário desviar a atenção dos ativistas da exaltação desmedida da técnica, e do menosprezo da importância dos quadros, dirigindo-a para a assimilação da técnica, o domínio da técnica, o esforço intensivo para forjar numerosos quadros capazes de dominar a técnica, e de tirar dela o máximo rendimento.

E assim como antes, no período de reconstrução, quando o país padecia fome de técnica, o Partido havia lançado a palavra de ordem "A técnica no período de reconstrução decide tudo", agora, quando a técnica abundava e o período de reconstrução estava terminado, no fundamental, e o país sofria uma aguda penúria de quadros, o Partido tinha que lançar uma nova palavra de ordem, destinada a concentrar a atenção não já na técnica mas nos homens, nos quadros capazes de aproveitar integralmente a técnica.

A este respeito, teve grande importância o discurso pronunciado pelo camarada Stalin, em maio de 1935, quando da promoção dos oficiais comandantes saídos das Academias do Exército Vermelho:

"Antes — disse o camarada Stalin — dizíamos que a "técnica decide tudo". Esta palavra de ordem nos ajudou no sentido de °.ue liquidamos a fome de técnica e criamos uma base técnica amplíssima em todo os ramos da atividade para fortalecer nossos homens com uma técnica de primeira ordem. Está muito bem. Mas está muito longe de ser suficiente. Para pôr em movimento a técnica e tirar dela todo o rendimento, são necessários homens que a dominem, são necessários quadros capazes de assimilar e aproveitar esta técnica tendo à frente homens que a dominem pode e deve fazer milagres. Se nossas fábricas e empresas industriais de primeira ordem, se nossos sovkoses e kolkoses, se o nosso Exército Vermelho, se todos contassem com uma quantidade suficiente de quadros capazes de dominar a técnica, nosso país obteria um rendimento três ou quatro vezes maior que a que atualmente obtém. Por isso, atualmente, é preciso fazer finca-pé na questão dos homens, dos quadros, do pessoal que domina a técnica. Por isso, a velha palavra de ordem "A técnica decide tudo", palavra de ordem que era o reflexo de um período já ultrapassado, em que padecíamos fome de técnica, deve ser substituída atualmente por uma nova palavra de ordem, pela palavra de ordem "Os quadros decidem tudo". Isto é agora o fundamental...

E necessário que se acabe por compreender que de todos os valiosos capitais que existem no mundo, o capital mais precioso decisivo é constituído pelos homens, os quadros. É necessário que se compreenda que, em nossas atuais condições, "os quadros decidem tudo". Se contarmos com bons e numerosos quadros na indústria, na agricultura, nos transportes, no Exército, nosso país será invencível. Se carecermos deles, coxearemos dos dois pés".

Portanto, a rápida formação de quadros técnicos e a rápida assimilação da nova técnica, com objetivo de continuar desenvolvendo a produtividade do trabalho, havia passado a ser unia tarefa de primeira ordem.

O mais esplêndido exemplo do desenvolvimento de novos quadros, da assimilação da nova técnica pelos homens soviéticos e da marcha ascendente da produtividade do trabalho foi o movimento stakanovista. Este movimento nasceu e tomou incremento na bacia do Donetz, na indústria carbonífera, de onde se estendeu a outros ramos industriais, ao transporte e, mais tarde, à agricultura. Este movimento recebeu o nome de movimento stakanovista por haver sido seu iniciador o mineiro do poço "Irmino central" (bacia do Donetz) Alexei Stakanov. Já antes de Stakanov, o mineiro Nikita Isotov havia batido todos os recordes estabelecidos na extração da hulha. O exemplo de
Stakanov, que a 31 de agosto de 1935 arrancou em um só turno 10 toneladas de carvão, ultrapassando 14 vezes as normas usuais, iniciou um movimento de massas dos operários e dos kolkosianos pela elevação das normas de rendimento, por um novo apogeu da produtividade do trabalho. Busiguim, na indústria automobilística; Smetanin, na indústria de calçados; Krivonós, no transporte; Musinski, na indústria florestal; Eudóxia e Maria Vinogradova, na indústria têxtil; Maria Pemehenko, Marina Knatenko, Pasha Angelina, Polagutin, Kolesov, Borin e Kovardk, na agricultura; tais são os nomes dos operários e kolkosianos que romperam a marcha no movimento stakanovista.

Após ele marcharam outros, destacamentos inteiros de stakanovistas, ultrapassando a produtividade do trabalho de seus predecessores.

No desenvolvimento do movimento stakanovista, tiveram uma importância imensa a 1ª Conferência stakanovista, de toda a U.R.S.S., celebrada no Kremlin em novembro de 1935, e o discurso pronunciado nela pelo camarada Stalin.

"O movimento stakanovista — disse o camarada Stalin em seu discurso — reflete o novo apogeu da emulação socialista, uma nova etapa mais alta da emulação socialista... Antes, faz uns três anos, durante a sua primeira etapa, a emulação socialista não implicava forçosamente uma técnica nova. Além disso, naquele momento não tínhamos, propriamente falando, uma técnica nova. Em troca, a etapa atual da emulação socialista, o movimento stakanovista, se acha forçosamente vinculado à nova técnica. O movimento stakanovista não se conceberia sem uma técnica nova, superior. Tendes perante vós homens como os camaradas Stakanov, Busiguin, Smetanin, Krivonós, as Vinogradovas e muitos outros, homens novos, operários e operárias, que se fizeram donos absolutos da técnica em seu ramo, que a dominaram e impulsionaram. Faz três anos, não havia ou quase não havia entre nós homens semelhantes... A importância do movimento stakanovista está em que é um movimento que destrói, por insuficientes, as antigas normas técnicas; está em que, em certo número de casos, ultrapassa a produtividade de trabalho nos países capitalistas mais avançados, franqueando deste modo a possibilidade de transformar nosso país no pais mais próspero".

Caracterizando o método de trabalho dos stakanovistas e ressalto a enorme importância do movimento stakanovista para o porvir País Soviético, o camarada Stalin ajuntava:

"Observai os camaradas stakanovistas. Quem são estes homens? São principalmente, operários e operárias jovens ou de meia-idade, homens preparados, do ponto de vista cultural e técnico, modelos de precisão e de exatidão no trabalho, que sabem apreciar o fator tempo no trabalho e aprenderam a contar, não somente por minutos, mas também por segundos. A maioria deles tem o mínimo de conhecimentos técnicos e continua completando sua instrução técnica. Estão isentos do conservadorismo e da rotina de alguns engenheiros, técnicos e dirigentes da Economia. Marcham audazmente para diante, destruindo as normas técnicas antiquadas e criando outras novas, mais avançadas. Introduzem emendas nas previsões de capacidade das empresas ou nos planos econômicos estabelecidos pelos dirigentes de nossa indústria. Amiúde completam e corrigem os engenheiros e técnicos. Freqüentemente os instruem e os empurram para diante, pois são homens que dominam plenamente a técnica de seu ramo e sabem fazer com que a técnica renda o máximo que pode dar. Hoje os stakanovistas são ainda pouco numerosos. Mas quem pode duvidar que amanhã serão dez vezes mais? Não é claro que os stakanovistas são inovadores em nossa indústria, que o movimento stakanovista representa o porvir de nossa indústria, que encerra o gérmen do futuro apogeu cultural e técnico da classe operária, que nos abre o único caminho pelo qual se podem obter os índices superiores da produtividade do trabalho, necessários à passagem do socialismo para o comunismo e para a supressão do antagonismo entre o trabalho intelectual e o trabalho físico?"

A difusão esmagadora do movimento stakanovista e a execução do segundo Plano Qüinqüenal antes do prazo assinalado criaram as condições necessárias para um novo apogeu do bem-estar e do desenvolvimento cultural dos trabalhadores.

O salário real dos operários e empregados experimentou, durante o segundo Plano Qüinqüenal, um aumento de mais de duas vezes. O fundo de salários cresceu de 34 mil milhões, em 1933, para 1 mil milhões, em 1937. O fundo de seguros sociais do Estado aumentou de 4 mil e 600 milhões de rublos, em 1933, para 5 milhões, em 1937. Somente em um ano, em 1937, inverteram-se em seguros sociais para os operários e empregados, em melhorias das condições de vida e das necessidades culturais dos trabalhadores, em somatórios, balneários, casas de repouso e assistência médica, cerca de 10 mil milhões de rublos.

No campo, firmou-se definitivamente o regime kolkosiano. Contribuíram para isso consideravelmente o Estatuto do artel agrícola, aprovado no 2°. Congresso de kolkosianos de choque, celebrado em fevereiro de 1935, e a entrega aos kolkoses, em usufruto perpétuo, de todas as terras cultivadas por eles. Graças à consolidação do regime kolkosiano, desapareceram do campo a pobreza e a insegurança. Enquanto que, três anos antes, cada kolkosiano recebia dois quilos de trigo por jornada de trabalho, agora, a maioria dos kolkosianos, nas regiões produtoras de cereais, passou a receber de 5 a 12 quilos de trigo por jornada de trabalho, e muitos deles até 20, afora outros produtos e as receitas em dinheiro. Apareceram milhões de lares kolkosianos que percebiam, nas regiões produtoras de cereais, de 8 mil a 24 mil quilos de trigo, e dezenas de milhares de rublos por ano nas regiões hortícolas e produtoras de algodão, linho, beterraba, gado, frutas, uva e vinho. Os kolkoses começaram a ter uma vida próspera. Os kolkosianos começaram a preocupar-se fundamentalmente em construir celeiros e armazéns, já que os velhos locais destinados a armazenar os produtos, em tempos em que faziam as poucas reservas para um ano, não preenchiam nem a décima parte das novas necessidades dos kolkosianos.

Em 1936, ao crescer o bem-estar das massas populares, o governo baixou uma lei proibindo os abortos. Ao mesmo tempo se traçava um vasto plano de construção de maternidade, creches, cozinhas infantis e jardins de infância. Em 1936 se destinaram para estes fins 2.174 milhões de rublos contra 875 milhões em 1935. Baixou-se uma lei especial, proporcionando uma ajuda considerável às famílias numerosas. Em 1937 se inverteram mais de mil milhões de rublos em subsídios concedidos segundo esta lei.

Como resultado da implantação do ensino obrigatório e da construção de novas escolas, surgiu um grande e potente florescimento cultural entre as massas populares. Por todo o país se desenvolveu um grandioso plano de construção de escolas. O número de alunos das escolas primárias e médias aumentou de 8 milhões em 1914 para 28 em 1936-37. O número de alunos das Escolas superiores aumentou de 112.000, em 1914, para 542.000, em 1936-37.

Foi uma verdadeira revolução cultural.

No rápido melhoramento da situação material e no desenvolvimento cultural das massas populares se revelavam a força, a potência e o caráter invencível da Revolução Soviética. As revoluções anteriores haviam fracassado sempre, porque, ainda que dando ao povo a liberdade, não tinham podido oferecer-lhe ao mesmo tempo, uma melhora sensível de sua situação material e cultural. Era esta a sua falha mais importante. A Revolução soviética se distingue de todas as demais revoluções pelo fato de que, além de livrar o povo do czarismo e do capitalismo, veio melhorar radicalmente sua situação material e cultural. Nisto reside sua força invencível.

"Nossa Revolução proletária — disse o camarada Stalin, em seu discurso perante a 1ª. Conferência de stakanovistas de toda a U.R.S.S., — é a única revolução do inundo que pôde mostrar ao povo, não só seus resultados políticos, mas também resultados materiais. De todas as revoluções operárias, só conhecemos uma que haja conquistado, mal ou bem, o Poder — é a Comuna de Paris. Mas não durou muito tempo. E certo que tentou romper as cadeias do capitalismo, mas não pôde consegui-lo, e muito menos logrou mostrar ao povo os resultados materiais da Revolução.

Nossa revolução é a única que não só rompeu as cadeias do capitalismo e deu liberdade ao povo, mas também conseguiu, além disso, dar ao povo as condições materiais para uma vida desafogada. Nisso reside a força invencível de nossa Revolução".


 

 

3

 

— O VIII Congresso dos Soviets.

— E aprovada a Nova Constituição da U.R.S.S.


Em fevereiro de 1935, o VII Congresso dos Soviets da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas tomou a resolução de mudar a Constituição da U.R.S.S. que havia sido aprovada em 1924. A necessidade de mudar a Constituição da U.R.S.S. correspondia às imensas mudanças operadas na vida do País dos Soviets desde 1924, isto é, desde a data em que havia sido aprovada a primeira Constituição da União Soviética até o momento atual. Durante estes anos havia mudado radicalmente a correlação das forças de classe da U.R.S.S. Havia-se criado uma nova indústria socialista, haviam sido destruídos os kulaks, havia triunfado o regime kolkosiano, havia-se consolidado a propriedade socialista sobre os meio de produção em toda a Economia nacional, como base da sociedade soviética. O triunfo do socialismo permitia acentuar a democratização do sistema eleitoral, implantando o sufrágio universal, igual, direto e secreto.

Uma comissão especial, presidida pelo camarada Stalin, foi encarregada de elaborar o projeto de uma nova Constituinte da U.R.S.S. O projeto foi submetido à discussão de todo o povo, durante um prazo de cinco meses e meio. Este projeto de Constituição foi discutido no 8º. Congresso extraordinário dos Soviets. O 8º. Congresso da U.R.S.S. se reuniu em novembro de 1936.

No informe pronunciado perante este Congresso dos Soviets sobre o projeto da nova Constituição, o camarada Stalin expôs as mudanças fundamentais que se haviam operado no País dos Soviets desde os tempos em que havia sido aprovada a Constituição de 1924.

A Constituição de 1924 havia sido redigida no primeiro período da NEP. Naquele momento, o Poder Soviético consentia ainda no desenvolvimento do capitalismo paralelamente ao do socialismo. Naquele momento, o Poder Soviético esperava que, no curso da emulação entre os dois sistemas — o sistema capitalista e o sistema socialista, — se organizasse e fosse garantido o triunfo do socialismo sobre o capitalismo no terreno econômico. Naquele momento, não estava decidido ainda o problema de "quem vencerá". A indústria, baseada em uma técnica velha e pobre, não tinha alcançado sequer o nível de antes da guerra. E ainda menos animador era o quadro que oferecia, naquela ocasião, a agricultura. Os sovkoses e os kolkoses eram como ilhotas isoladas no meio do imenso oceano das explorações camponesas individuais. A luta contra os kulaks não visava ainda sua liquidação, mas apenas a sua limitação. No terreno da circulação de mercadorias, o setor socialista só representava, aproximadamente, uns 50 por cento.

Em 1936, a U.R.S.S. apresentava já um panorama diferente. A Economia da U.R.S.S. havia mudado radicalmente. Por essa época, haviam sido totalmente liquidados os elementos capitalistas, e o sistema socialista havia triunfado em todos os ramos da Economia nacional. A potente indústria socialista ultrapassava sete vezes a produção de antes da guerra e tinha desalojado completamente a indiistria privada. Na agricultura, havia triunfado com o kolkoses e os sovkoses, a maior produção socialista do mundo, uma produção mecanizada e equipada como nenhuma outra, segundo a técnica. Os kulaks haviam sido totalmente liquidados como classe, e o setor individual já não desempenhava nenhum papel importante na Economia do país. Toda a circulação de mercadorias estava concentrada em mãos do Estado e das cooperativas. A exploração do homem pelo homem havia sido destruída para sempre. A propriedade social, socialista, sobre os meios de produção se havia consolidado como base inquebrantável no novo regime socialista, em todos os ramos da Economia nacional. Na nova sociedade, a sociedade socialista, haviam desaparecido para sempre as crises, a miséria, o desemprego forçado e a ruína. Haviam-se criado as condições necessárias para uma vida desafogada e culta de todos os membros da sociedade soviética.

Coerentemente com isto — dizia o camarada Stalin em seu informe — tinha mudado também a contextura de classe da população da U.R.S.S. A classe dos latifundiários e a grande burguesia imperialista dos velhos temos já tinham sido liquidadas durante o período da guerra civil.

Durante os anos da edificação socialista, tinham sido suprimidos todos os elementos exploradores — os capitalistas, os comerciantes, os kulaks e os especuladores. Ficavam somente alguns vestígios insignificantes das classes exploradas suprimidas, cuja liquidação total era coisa de muito pouco tempo.

Os trabalhadores da U.R.S.S. — os operários, os camponeses, os intelectuais — haviam mudado profundamente durante os anos da edificação socialista.

A classe operária tinha deixado de ser uma cfasse explorada, privada dos meios de produção, como acontece sob o jugo do capitalismo. Tinha destruído o capitalismo, arrebatado aos capitalistas os meios de produção para convertê-los em propriedade social. Tinha deixado de ser um proletariado, no sentido estrito e antigo desta palavra. O proletariado da U.R.S.S., em cuja mãos se acha o Poder do Estado, converteu-se em uma classe totalmente nova. Converteu-se em uma classe operária emancipada da exploração, «pie destruiu o sistema da Economia capitalista e instaurou a propriedade socialista sobre os meios de produção. Isto é, converteu-se numa classe operária como nunca a história da Humanidade conheceu.

Não menos profundas eram as mudanças que se tinham operado na situação dos camponeses da U.R.S.S. Nos velhos tempos, mais de duas dezenas de milhões de explorações camponesas pequenas e médias, soltas disseminadas, trabalhavam preguiçosamente suas parcelas de terra. Cultivavam a terra, valendo-se de uma técnica atrasada. Eram explorados pelos latifundiários, kulaks, comerciantes, especuladores, usurários, etc. Agora surgiu na U.R.S.S. um tipo completamente novo de camponês. Já não há latifundiários nem kulaks, comerciantes nem usurários que possam explorá-lo. A imensa maioria das explorações camponesas entrou nos kolkoses, baseados, não na propriedade privada sobre os meios de produção, mas na propriedade coletiva e no regime de trabalho coletivo. Este é um novo tipo de camponês, livre de toda a exploração. Este novo tipo de camponês tampouco a história da Humanidade havia conhecido até agora.

Mudaram também os intelectuais da U.R.S.S. São já, em massa, intelectuais totalmente novos. Em sua maioria saíram do seio dos operários e camponeses. Já não servem, como os antigos intelectuais, ao capitalismo, mas ao socialismo. O intelectual passou a ter plenitude de direitos como membro da sociedade socialista. Estes intelectuais constroem a nova sociedade, a sociedade socialista, pelo braço dos operários e camponeses. São um novo tipo de intelectuais, postos a serviço do povo e emancipados de toda a exploração. Este tipo de intelectuais tampouco a historia da Humanidade tinha conhecido.

Deste modo vão se apagando as fronteiras de classe, entre os trabalhadores da U.R.S.S., vai desaparecendo o antigo exclusivismo de classe. Cedem e se apagam as contradições econômicas e políticas entre os operários, os camponeses e os intelectuais. Criou-se a base para a unidade moral e política da sociedade.

Estas profundas mudanças operadas na vida da U.R.S.S., estes êxitos decisivos do socialismo na U.R.S.S. encontraram sua expressão na nova Constituição da União Soviética.

Segundo esta Constituição, a sociedade soviética se compõe de duas classes irmãs, os operários e os camponeses, entre as quais ainda existem certas diferenças de classe. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas é um Estado socialista de operários e camponeses.

A base política da U.R.S.S. é constituída pelos Soviets de deputados dos trabalhadores, organismos que cresceram e se robusteceram em conseqüência da derrubada do Poder dos latifundiários e capitalistas e da conquista da ditadura do proletariado.

Na U.R.S.S. todo o poder pertence aos trabalhadores da cidade e do campo, representados pelos Soviets de deputados dos trabalhadores.

O órgão superior do poder do Estado, na U.R.S.S., é o Soviet Supremo da U.R.S.S.

O Soviet Supremo da U.R.S.S., formado por duas Câmaras iguais em direitos, o Soviet da União e o Soviet das Nacionalidades, é eleito pelos cidadãos da U.R.S.S. por um prazo de quatro anos na base do sufrágio universal, igual, direto e secreto.

As eleições para o Soviet Supremo da U.R.S.S., bem como para todos os Soviets de deputados dos trabalhadores, se fazem por sufrágio universal. Isto quer dizer que todos os cidadãos da U.R.S.S. que tenham 18 anos completos, sejam quais forem sua raça, nacionalidade, credo religioso, grau de instrução, residência, origem social, situação econômica e conduta no passado, têm direito de participar nas eleições para deputados e de ser eleitos, com exceção dos alienados e das pessoas privadas de seus direitos eleitorais por sentença judiciária.

As eleições para deputados se fazem por sufrágio igual. Isto quer dizer que cada cidadão tem um só voto e que todos os cidadãos tomam parte nas eleições em condições iguais.

As eleições para deputados são diretas. Isto quer dizer que as eleições para todos os Soviets de deputados dos trabalhadores, desde os Soviets rurais e urbanos, até o Soviet Supremo da U.R.S.S., se efetuam pelos cidadãos, por via direta, isto é, votando diretamente nos nomes dos deputados.

O Soviet Supremo da U.R.S.S. elege, em sessão conjunta das duas Câmaras, a Comissão Permanente do Soviet Supremo e o Conselho de Comissários do Povo da U.R.S.S.

A base econômica da União Soviética é constituída pelo sistema socialista de Economia e pela propriedade socialista sobre os meios de Produção. Na U.R.S.S. se aplica o princípio do Socialismo: "De cada um, segundo sua capacidade; a cada um, segundo seu trabalho".

Garante-se a todos os cidadãos da U .R.S.S. o direito ao trabalho, o direito ao repouso, o direito à instrução, o direito ao seguro material na velhice e em caso de doença ou de inabilitação para o trabalho.

A mulher goza de direitos iguais ao homem em todos os domínios da vida.

A igualdade de direitos de todos os cidadãos da U.R.S.S., independentemente de sua nacionalidade e raça, é lei intangível.

Reconhece-se a todos os cidadãos a liberdade de consciência e a liberdade de propaganda anti-religiosa.

A Constituição garante — no interesse da consolidação da sociedade socialista — a liberdade de palavra, de Imprensa, de reunião e de comícios, o direito de agrupar-se em organizações sociais, a inviolabilidade da personalidade, a inviolabilidade do domicílio e do segredo da correspondência e o direito de asilo para os cidadãos estrangeiros perseguidos por defenderem os interesses dos trabalhadores, por suas atividades científicas ou por sua luta em prol da libertação nacional.

Ao mesmo tempo, a nova Constituição impõe a todos os cidadãos da U.R.S.S. sérios deveres: cumprir as leis, acatar a disciplina no trabalho, cumprir honradamente seus deveres sociais, respeitaras regras de convivência da sociedade socialista, salvaguardar e fortalecer a propriedade social, socialista, e defender a pátria socialista.

"A defesa da Pátria é dever sagrado de todos os cidadãos da U.R.S.S.".

Falando dos direitos dos cidadãos de se agruparem em diferentes organizações, a Constituição grava em um de seus artigos as seguintes palavras:

"Os cidadãos mais ativos c conscientes da classe operária e das outras camadas de trabalhadores se agrupam no Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S., que é o destacamento de vanguarda dos trabalhadores em sua luta pela garantia e pelo desenvolvimento do regime socialista, e o núcleo dirigente de todas as organizações de trabalhadores, tanto sociais como do Estado".

O 8º. Congresso dos Soviets aprovou e sancionou por unanimidade o projeto de nova Constituição da U.R.S.S.

O país dos Soviets obteve assim uma nova Constituição, a Constituição do triunfo do socialismo e da democracia operária e camponesa.

Deste modo, a Constituição vem consagrar o seguinte fato de alcance histórico e universal: a U.R.S.S. entrou em uma nova etapa de desenvolvimento, na etapa do coroamento da edificação da sociedade socialista e de transição gradual para a sociedade comunista, na qual o princípio a que se subordinará a direção da vida social será o princípio comunista — "De cada um, segundo sua capacidade; a cada um, segundo suas necessidades".

 

 

 

4

 

— Esmagamento dos restos de espiões, sabotadore e traidores da Pátria, bukarinistas-trotskistas.

— Preparação das eleições para o Soviet Supremo da U.R.S.S.

— O Partido traça o rumo para o desenvolvimento da democracia interna.

— As eleições para o Soviet Supremo da U.R.S.S.


O ano de 1937 trouxe dados sobre os monstros dos bandos bukarinistas-trotskistas. O processo judiciário contra Piatakov, Radek e outros, o processo contra Tukachevski, Yakir e outros, e, finalmente o processo contra Bukarin, Rykov, Krestsinski, Roseugoltz e demais implicados, puseram a nu que os bukarinistas e os trotskistas eram, fazia já muito tempo, um bando vulgar de inimigos do povo, sob a forma de "bloco direitista-trotskista".

Os citados processos salientaram que estes detritos do gênero humano, juntos com os inimigos do povo — Trotski, Zinoviev e Kamenev — conspiravam já contra Lenin, contra o Partido e contra o Estado Soviético, desde os primeiros dias da Revolução Socialista de Outubro. Os atos de provocação destinados à ruptura da paz de Brest-Litovski, em começos de 1918, o "complot" contra Lenin e a conspiração com os social-revolucionários de "esquerda" para prender e assassinar Lenin, Stalin e Sverdlov, na primavera de 1918; o criminoso atentado contra Lenin, em conseqüência do qual ele saiu ferido, no verão de 1918; a sublevação dos social-revolucionários de "esquerda", no verão do mesmo ano; o recrudescimento intencional das divergências dentro do Partido, em 1921, com o fito de alquebrar e destroçar, a partir de dentro, a direção de Lenin; as tentativas de derrubar a direção do Partido durante a enfermidade e depois da morte de Lenin, a delação de segredos de Estado e o fornecimento de informações de espionagem aos serviços de espionagem estrangeiros; o infame assassinato de Kirov; atos de sabotagem e de diversionismo, explosões; os infames assassinatos de Meuzhinski, Kuybishev e Gorki; estes e outros crimes semelhantes foram os que se perpetraram no transcurso de vinte anos, com a intervenção ou sob a direção de Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Bukarin, Rykov e seus satélites, obedecendo a ordens dos serviços de espionagem da burguesia estrangeira.

Os citados processos tomaram claro que os monstros trotskistas—bukarinistas, ao cumprirem as ordens de seus amos — os serviços de espionagem da burguesia estrangeira — se propunham como objetivo destruir o Partido e o Estado Soviético, minar a defesa do país, facilitar a intervenção armada estrangeira, preparar a derrota do Exército Vermelho e o desmembramento da U.R.S.S., entregando a Província Marítima Soviética aos japoneses, a Bielo-Rússia soviética aos polacos e a Ucrânia soviética aos alemães, a destruição das conquistas dos operários e kolkosianos e a restauração da escravidão capitalista na U.R.S.S.

Estes guardas brancos, pigmeus cuja força só se podia comparar à de um insignificante mosquito, julgavam-se, ao que parece, — causa riso dizê-lo! — os senhores do país e imaginavam que podiam, na realidade, esquartejar e vender ao melhor arrematante a Ucrânia, a Bielo-Riíssia e a Província Marítima.

Estes mosquitos contra-revolucionários se esqueceram de que o senhor do país dos Soviets é o Povo Soviético e de que os senhores Rykov, Bukarin, Zinoviev e Kamenev não eram mais que simples servidores temporários do Estado, aos quais este podia em qualquer momento varrer de suas repartições como lixo inútil.

Estes insignificantes lacaios dos fascistas se esqueceram de que bastava o Povo Soviético mover com um dedo para que não ficasse nem rastro deles.

O Tribunal Soviético condenou ao fuzilamento os monstros bukarinistas—trotskistas.

O Comissariado do Povo para os Negócios Interiores se encarregou de executar a sentença.

O povo Soviético aprovou o esmagamento da quadrilha bukarinista-trotskista e passou aos assuntos da ordem do dia.

O assunto que figurava na ordem do dia era a preparação para celebrar de um modo organizado as eleições para o Soviet Supremo da U.R.S.S.

O Partido desenvolveu em toda a linha um trabalho preparatório visando às eleições. O Partido entendia que a implantação da nova Constituição da U.R.S.S. significava uma transformação na vida política do país. E que esta transformação consistia em levar a cabo a democratização completa do sistema eleitoral, em passar das eleições restritas às eleições por sufrágio universal, das eleições não plenamente iguais às eleições por sufrágio igual, das eleições de vários grau às eleições diretas, das eleições com voto aberto às eleições com voto secreto.

Antes de vigorar a nova Constituição, achavam-se sujeitos a restrições em seus direitos eleitorais os servidores da religião, os antigos guardas brancos, os antigos kulaks e todos os que não prestassem um trabalho útil à sociedade; a nova Constituição anulou todas as limitações impostas aos direitos eleitorais dessas categorias de cidadãos, decretando que as eleições para deputados se fariam por sufrágio universal.

Antes, as eleições para deputados tinham caráter desigual, pois vigoravam diferentes normas eleitorais para a população urbana e para a rural; agora havia desaparecido a necessidade de limitar a igualdade nas eleições, e todos os cidadãos tinham direito a participar nas eleições num plano de igualdade.

Antes, as eleições para os órgãos médios e superiores do Poder Soviético eram eleições de vários graus; agora, segundo a nova Constituição, as eleições para todos os Soviets, desde os Soviets rurais e urbanos até o Soviet Supremo, tinham de efetuar-se por via direta, isto é, cada cidadão elegia diretamente o deputado.

Antes, as eleições para deputados dos Soviets se efetuavam emitindo-se abertamente o voto e por listas; agora, a votação, nas eleições para deputados, tinha que ser secreta, e não por listas, mas por candidaturas separadas, apresentadas em cada distrito eleitoral.

Isto representava, sem dúvida, uma transformação na vida política do país.

O novo sistema eleitoral tinha necessariamente que conduzir, como de fato conduziu, a intensificar a atividade política das massas, a reforçar o controle destas sobre os órgãos do Poder Soviético, a acentuar a responsabilidade dos órgãos do Poder Soviético ante o povo.

Para poder sair bem armado ao encontro desta transformação, o Partido tinha que se pôr à frente dela e assegurar plenamente seu papel dirigente nas próximas eleições. Mas para isto era necessário que as próprias organizações do Partido se convertessem, em sua atuação prática, em organizações plenamente democráticas, que implantassem integralmente, em sua vida interna, as bases do centralismo democrático, como o exigem os Estatutos do Partido, que os órgãos do Partido fossem designados por eleição, que dentro do Partido se desenvolvesse em toda a sua extensão a crítica e a autocrítica, que a responsabilidade das organizações do Partido perante a massa deste fosse completa e que a própria massa do Partido desenvolvesse toda a sua atividade.

Do informe que o camarada Zhdanov fez, em fins de fevereiro de 1937, no Pleno do Comitê Central sobre o problema da preparação das organizações do Partido para as eleições do Soviet Supremo da U.R.S.S., resultou que havia uma série completa de organizações que, em sua atuação prática, não correspondiam abertamente aos estatutos do Partido e às bases do centralismo democrático, que substituíam o princípio eletivo pelo sistema da cooptação, a votação por candidaturas separadas pela votação por listas, o sufrágio secreto pelo voto aberto, etc. Era evidente que organizações que atuavam assim não podiam cumprir com sua missão nas eleições do Soviet Supremo. Portanto, era necessário, antes de tudo, acabar com semelhantes práticas antidemocráticas nas organizações do Partido e reconstruir a atuação deste na base da Plena democracia.

A respeito disto, o Pleno do Comitê Central, depois de ouvir o informe do camarada Zhdanov, resolveu:

  1. Reconstruir o trabalho do Partido na base da aplicação plena e incondicional dos princípios da democracia dentro do Partido segundo os seus estatutos.

  2. Acabar com a prática da cooptação para designar os membros dos Comitês do Partido e restabelecer, de acordo com os seus estatutos, o caráter eletivo dos órgãos dirigentes das organizações do Partido.

  3. Proibir, nas eleições para designar os órgãos do Partido, o voto por listas e efetuar a eleições por candidatura separada, garantindo a todos os membros do Partido o direito ilimitado de recusar os candidatos e criticá-los.

  4. Implantar, nas eleições dos órgãos do Partido, o sistema de votação secreta dos candidatos.

  5. Celebrar eleições para designar os órgãos do Partido em todas as organizações deste, desde os Comitês de Partido das organizações de base até os Comitês territoriais e provinciais e os Comitês Centrais dos Partidos Comunistas nacionais, assinalando como prazo máximo para terminar estas eleições a data de 20 de maio.

  6. Obrigar todas as organizações do Partido a acatar rigorosamente, de acordo com os estatutos, os prazos assinalados para as eleições de seus órgãos: nas organizações de base, uma vez por ano; nas organizações de distrito e de cidade, uma vez por ano; nas organizações territoriais, provinciais e de Repúblicas, uma vez cada ano e meio.

  7. Assegurar, nas organizações de base do Partido, a estrita observância do regime de eleições dos Comitês do Partido nas assembléias gerais de fábricas, sem permitir a substituição destas por conferências.

  8. Acabar com a prática, estabelecida em uma série de organizações de base do Partido, de prescindir de fato das assembléias gerais, substituindo-as pelas reuniões nas seções das fábricas e por conferências".

Começou assim a preparação do Partido para as eleições que se avizinhavam.

Esta resolução do Comitê Central teve uma importância política imensa. Sua importância se baseia não somente no fato de que dava início à campanha eleitoral do Partido para as eleições do Soviet Supremo da U.R.S.S., mas principalmente no fato de que ajudava as organizações do Partido a se reorganizarem, traçarem rumo para a democracia interna e marcharem, inteiramente armadas para as eleições do Soviet Supremo.

Desenvolvendo a campanha eleitoral, o Partido decidiu tomar como idéia principal de sua política eleitoral a idéia de um bloco eleitoral entre os comunistas e os sem partido. O Partido foi às eleições, formando um bloco com os sem Partido, aliado aos sem Partido, decidindo apresentar candidaturas comuns com estes nos distritos eleitorais. Isto era algo sem precedentes e absolutamente irrealizável, na prática, nas campanhas eleitorais dos países burgueses. Em troca o bloco dos comunistas com os sem partido constituía um fenômeno absolutamente lógico no País Soviético, onde já não existem classes inimigas e onde a unidade política e moral de todas as camadas do povo constitui um fato indiscutível.

A 7 de dezembro de 1937, o Comitê Central do Partido dirigiu uma proclamação a todos os eleitores. Nela se dizia:

"A 12 de setembro de 1937, os trabalhadores da União Soviética, segundo a nossa Constituição Socialista, elegerão os deputados ao Soviet Supremo da U.R.S.S. O Partido bolchevique comparece às eleições formando um bloco, uma aliança com os operários, camponeses, empregados e intelectuais sem partido... O Partido bolchevique não se isola dos sem Partido; pelo contrário, comparece às eleições em bloco, aliado com eles, formando um bloco com os sindicatos de operários e empregados, com as Juventudes Comunistas e demais organizações e associações dos sem Partido. Portanto, os candidatos a deputado serão comuns para os comunistas e para os sem Partido; todo deputado sem partido será também deputado dos comunistas, da mesma sorte que todo deputado comunista será deputado dos sem Partido".

A proclamação do Comitê Central terminava com o seguinte apelo aos eleitores:

"O Comitê Central do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S. convida todos os comunistas e simpatizantes a votarem nos candidatos sem Partido com a mesma unanimidade com que devem votar nos candidatos comunistas.

O Comitê Central do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S. chama todos os eleitores sem partido para votarem nos candidatos comunistas com a mesma unanimidade com que votaram nos candidatos sem partido.

O Comitê Central do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S. apela para todos os eleitores no sentido de aludirem como um só homem às urnas, a 12 de dezembro de 1937, para elegerem os deputados ao Soviet da União e ao Soviet das Nacionalidades.

Não deve haver nem um só eleitor que não exerça seu honroso direito de eleger deputado ao órgão supremo do Estado Soviético.

Não deve haver um só cidadão ativo que não considere como seu dever de cidadão contribuir para que todos os eleitores, sem exceção, participem nas eleições ao Soviet Supremo.

12 de dezembro de 1937 será um dia de festa grandioso, em que os trabalhadores de todos os povos da U.R.S.S. se unirão em torno da bandeira vitoriosa de Uenin e Stalin".

A 11 de dezembro de 1937, véspera do dia das eleições, o camarada Stalin falou em seu distrito eleitoral, tocando em seu discurso no problema das condições que os homens eleitos pelo povo para deputados do Soviet Supremo da U.R.S.S. deviam reunir.

"Os eleitores, o povo — disse o camarada Stalin — devem exigir de seus deputados que estejam à altura de sua missão; que, em seu trabalho, não desçam ao nível dos filisteus políticos, que permaneçam em seus postos de homens políticos de tipo leninista; que sejam homens políticos tão lúcidos e tão precisos como o era o próprio Lenin. Que sejam tão intrépidos no combate, tão implacáveis com os inimigos do povo, como o era o próprio Lenin. Que sejam refratários a todo pânico, a toda sombra de pânico, quando as coisas começam a complicar-se e no horizonte se divisa algum perigo. Que sejam, como o era o próprio Lenin, refratários a toda sombra de pânico. Que quando se tratar de resolver problemas complexos, que necessitam de orientação em todos os seus aspectos e de ter em conta todas as vantagens, e todas as desvantagens, se mostrem tão prudentes, tão ponderados e refletidos, como o próprio Lenin. Que sejam sempre tão amigos da verdade e tão honrados como era Lenin. Que amem seu povo como Lenin o amava"

A 12 de dezembro se celebraram as eleições para o Soviet Supremo da U.R.S.S. As eleições se desenvolveram em meio de imenso entusiasmo. Não eram simples eleições, mas uma grande festa, o triunfo do povo soviético, uma afirmação da amizade fraternal dos povos da U.R.S.S.

Dos 94 milhões de eleitores que compõem o censo, tomaram parte nas eleições mais de 91 milhões, ou sejam 95,8%. Destes, votaram pelo bloco dos comunistas e sem partido 89.884.000 eleitores, isto é, 98,6%. Somente 632 mil pessoas, ou seja menos de 1%, votaram contra os candidatos do bloco, dos comunistas e sem partido. Foram eleitos todos os candidatos do bloco, sem exceção.

Deste modo, 90 milhões de homens ratificaram com seu voto unânime o triunfo do socialismo na U.R.S.S.

Foi uma grande vitória do bloco dos comunistas e sem partido. Foi um triunfo do Partido bolchevique.

A unidade política e moral do Povo Soviético, da qual falara o camarada Molotov em seu histórico discurso do XX aniversário da Revolução de Outubro, obteve nestas eleições uma brilhante afirmação.

 

 

 

 

Conclusão

 

Quais são os resultados fundamentais do caminho histórico percorrido pelo Partido bolchevique?

Que nos ensina a história do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S.?

 

 

1)

A história do Partido bolchevique nos ensina, antes de tudo, que o triunfo da revolução proletária, o triunfo da ditadura do proletariado é impossível sem um partido revolucionário do proletariado, livre de oportunismo, e intransigente diante dos oportunistas e capituladores, e revolucionário diante da burguesia e do Poder de seu Estado.

A história do Partido bolchevique nos ensina que deixar o proletariado sem um partido assim equivale a deixá-lo sem direção revolucionária: e deixá-lo sem direção revolucionária equivale a fazer fracassar a causa da revolução proletária.

A história do Partido bolchevique nos ensina que esse partido só pode ser um partido de novo tipo, um partido marxista-leninista, o partido da revolução social, capaz de preparar o proletariado para os combates decisivos contra a burguesia e de organizar o triunfo da revolução proletária.

Tal é, na U.R.S.S,, o Partido bolchevique.

"No período pré-revolucionário — diz o camarada Stalin — no período de evolução mais ou menos pacífica, em que os partidos da Segunda Internacional representavam a força predominante dentro do movimento operário, e as formas parlamentares de luta se consideravam como fundamentais, nestas condições, o Partido não tinha nem podia ter a grande e decisiva importância que adquiriu mais tarde, sob as condições dos choques revolucionários abertos. Kautsky, defendendo a Segunda Internacional contra os que a atacavam, disse que os partidos da Segunda Internacional são instrumentos de paz e não de guerra, e que precisamente por isto acabaram impotentes para empreender qualquer coisa séria durante a guerra, no período das ações revolucionárias do proletariado. E isto é totalmente exato. Mas que significa isto? Significa que os Partidos da Segunda Internacional são imprestáveis para a luta revolucionária do proletariado, que não são Partidos combativos do proletariado que conduzem este ao Poder, mas, sim, aparelho eleitoral adaptado às eleições do parlamento e à luta parlamentar. Isto explica precisamente o fato de que, durante o período de predomínio dos oportunistas da Segunda Internacional, a organização política fundamental do proletariado não fosse o Partido, mas a fração parlamentar. E sabido que neste período, o Partido era, na realidade, um apêndice da fração parlamentar e um elemento posto a serviço desta. Não é preciso demonstrar que, tais condições e com semelhante Partido à frente, não se podia nem falar de preparar o proletariado para a revolução.

Mas as coisas mudaram radicalmente ao entrar no novo período. Este novo período é o período dos choques abertos entre as classes, o período das ações revolucionárias do proletariado, o período da revolução proletária, o período da preparação direta das forças para a derrocada do imperialismo e a tomada do poder pelo proletariado. Este período coloca perante o proletariado novas tarefas de reorganização de todo o trabalho do Partido em um sentido novo, revolucionário, de educação dos operários no espírito da luta revolucionária pelo Poder, de preparação e concentração das reservas, de aliança com os proletários dos países vizinhos, de estabelecimento de sólidos vínculos com o movimento de libertação das colônias e dos países dependentes, etc, etc. Pensar que estas tarefas podem resolver-se com as forças dos velhos partidos social-democratas, educados sob as condições pacíficas do parlamentarismo, equivale a condenar-se a um desespero sem remédio, a uma derrota inevitável. Ter que enfrentar estas tarefas com os velhos partidos à frente equivale a encontrar-se completamente desarmado. É preciso, por acaso, demonstrar que o proletariado não podia resignar-se a semelhante situação?

Daí a necessidade de um novo partido, de um partido combativo, de um partido revolucionário, suficientemente corajoso para conduzir os proletários à luta pelo Poder, suficientemente hábil para orientar-se nas condições complexas da situação revolucionária e bastante flexível para vencer todos e cada um dos escolhos que se interpõem no caminho até o final.

Sem um partido assim não se pode nem pensar na derrubada do imperialismo, na conquista da ditadura do proletariado.

Este novo Partido é o Partido do leninismo". (Stalin, "Problemas Leninismo", págs. 62-63, ed. russa).

 

 

2)

 

A história do Partido nos ensina, também, que o Partido da classe operária não pode cumprir sua missão de dirigente de sua classe, não pode cumprir sua missào de organizador e dirigente da revolução proletária, se não possui a teoria de vanguarda do movimento operário, se não possui a teoria marxista-leninista.

A força da teoria marxista-leninista consiste em dar ao Partido a possibilidade de orientar-se dentro de uma situação qualquer, de compreender a trama interna dos acontecimentos que o rodeiam, de prever a marcha dos acontecimentos e discernir, não só como e para onde se desenvolvem os acontecimentos no presente, mas também como e para onde terão de destnvolver-se no porvir.

Só um partido que possui a teoria marxista-leninista pode avançar com passo firme e conduzir para a frente a classe operária.

Pelo contrário, um partido que não possui a teoria marxista-leninista vê-se obrigado a andar às tontas, perde a segurança em seus atos e não é capaz de conduzir a classe operária para a frente.

Poderia pensar-se que possuir a teoria marxista-leninista significa aprender conscenciosamente as conclusões e as teses que se contêm nas obras de Marx, Engels e Lenin, aprender a citá-las oportunamente e contentar-se com isto, crendo que as conclusões e as teses aprendidas se adaptam a quaisquer situações, a todos os casos da realidade. Mas este modo de abordar a teoria marxista-leninista é completamente falso. A teoria marxista-leninista não pode considerar-se como um conjunto de dogmas, como um catecismo, como um símbolo da fé, nem os marxistas como eruditos pedantes e exegetas. A teoria marxista-leninista é a ciência do desenvolvimento da sociedade, a ciência do movimento operário, a ciência da revolução proletária, a ciência da edificação da sociedade comunista. E, como ciência, não está nem pode estar parada, mas se desenvolve e se aperfeiçoa. É evidente que, em seu desenvolvimeito, não pode deixar de enriquecer-se com a nova experiência, com os novos conhecimentos, e que algumas de suas teses e conclusões não podem deixar de mudar ao longo do tempo, não podem deixar de ser substituídos por novas teses e conclusões, segundo as novas condições históricas.

Possuir a teoria marxista-leninista não significa portanto aprender todas as suas fómulas e conclusões e ficar aferrado à letra delas. Para possuir a teoria, marxista-leninista é preciso, antes de tudo, aprender a distinguir ertre sua letra e sua essência.

Possuir a teoia marxista-leninista significa assimilar sua essência e aprender a aplicá-la para resolver os problemas práticos do movimento revolucionário nas diversas condições da luta de classes do proletariado.

Possuir a teoria marxista-leninista significa saber enriquecer esta teoria com a nova experiência do movimento revolucionário, saber enriquecê-la e impulsioná-la, sem retroceder ante a necessidade de substituir, partindo da essência da teoria, algumas de suas teses e conclusões, já caducas, por outras novas, segundo a nova situação histórica.

A teoria marxista-leninista não é um dogma, mas um guia para a ação.

Até a segunda revolução russa (fevereiro de 1917), os marxistas de todos os países partiam do critério de que a república democrática parlamentar era a forma de organização política da sociedade mais conveniente para o período de transição do capitalismo ao socialismo. E certo que Marx havia assinalado já na década de 70 do século passado que a forma mais conveniente da ditadura do proletariado não era a república parlamentar, mas uma organização política do tipo da Comuna de Paris. Mas, desgraçadamente, esta indicação de Marx não foi desenvolvida em suas obras e caiu no esquecimento. Além disso, a autorizada declaração feita por Engels em sua crítica do projeto de programa de Erfurt, em 1881, de que "a república democrática... é... a forma específica para a ditadura do proletariado", não deixava dúvida quanto ao fato de que os marxistas continuavam considerando a república democrática como a forma política da ditadura do proletariado. Esta tese de Engels serviu mais tarde de orientação a todos os marxistas, incluindo Lenin. Entretanto a revolução russa de 1906 e, sobretudo, a de fevereiro de 1917 destacaram uma nova forma de organização política da sociedade: os Soviets de deputados operários e camponeses. Baseando-se no estudo da experiência das duas revoluções russas e partindo da teoria do marxismo, Lenin chegou à conclusão de que a forma política melhor para a ditadura do proletariado não é a República democrática parlamentar, mas a República dos Soviets. Em abril de 1917, no período de transição da revolução burguesa para a revolução socialista, Lenin lançou, baseando-se nisto, a palavra de ordem de organizar a república dos Soviets, como a melhor forma política da ditadura do proletariado. Os oportunistas de todos os países se aferravam à república parlamentar, acusando Lenin de voltar as costas ao marxismo e afundar a democracia. Mas era Lenin, naturalmente, e não os oportunistas, quem representava o autêntico marxismo e dominava a teoria marxista, já que, enquanto os oportunistas a arrastavam para trás e convertiam uma de suas teses em um dogma. Lenin a impulsionava, enriquecendo-a com uma nova experiência.

Que teria sido do Partido, da revolução proletária, do marxismo, se Lenin se tivesse apegado à letra do marxismo, em vez de decidir-se a substituir uma de suas velhas teses, formuladas por Engels, pela nova tese da república dos Soviets, que era a que correspondia à nova situação histórica? O Partido teria vagado nas trevas, os Soviets teriam sido desorganizados, não teríamos hoje um Poder Soviético, e a teoria marxista teria sofrido um sério desastre. Com isso, teria saído perdendo o proletariado e teriam saído ganhando os seus inimigos.

Estudando o capitalismo pré-imperialista, Engels e Marx chegaram à conclusão de que a revolução socialista não podia triunfar em um só país separadamente, de que só podia triunfar simultaneamente em todos ou na maioria dos países civilizados. Isto ocorria em meados do Século XIX. E esta conclusão serviu mais tarde de orientação para todos os marxistas. Entretanto, em começos do Século XX, o capitalismo pré-imperialista evoluiu para o capitalismo imperialista, o capitalismo em ascensão se converteu no capitalismo agonizante. Baseando-se no estudo do capitalismo imperialista e partindo da teoria marxista, Lenin chegou à conclusão de que a velha fórmula de Engels e Marx não estava mais em consonância com a nova situação histórica, de que a revolução socialista poderia perfeitamente triunfar em um só país separadamente. Os oportunistas de todos os países se aferravam à velha fórmula de Engels e Marx, acusando Lenin de voltar as costas ao marxismo. Mas era Lenin, naturalmente, e não os oportunistas, quem representava o autentico marxismo e dominava a teoria marxista, já que, enquanto os oportunistas a puxavam para trás e a convertiam numa múmia, Lenin a impulsionou, enriquecendo-a com a nova experiência.

Que teria sido do Partido, da revolução proletária, do marxismo, se Lenin se tivesse apegado à letra do marxismo, se não tivesse tido a valentia teórica necessária para jogar por terra uma das velhas conclusões do marxismo, substituindo-a pela nova conclusão sobre a possibilidade do triunfo do socialismo em um só país separadamente, em consonância com a nova situação histórica? O Partido teria vagado nas trevas, a revolução proletária teria ficado sem direção e a teoria marxista teria começado a declinar. Com isso teria saído perdendo o proletariado e teriam saído ganhando os seus inimigos.

O oportunismo não consiste sempre em renegar abertamente a teoria marxista ou algumas de suas teses e conclusões. As vezes o oportunismo se manifesta na tentativa de se aferrar a determinadas teses marxistas isoladas, que já começaram a envelhecer, e a convertê-las em dogmas, para conter desta forma o desenvolvimento ulterior do marxismo e com ele, conseqüentemente, o desenvolvimento do movimento revolucionário do proletariado.

Sem exagero se pode afirmar que, depois da morte de Engels, os únicos marxistas que impulsionaram a teoria do marxismo e a enriqueceram com a nova experiência, sob as novas condições da luta de classes do proletariado, foram o formidável teórico Lenin e, depois dele, Stalin e os demais discípulos de Lenin.

Precisamente por isso, porque Lenin e os leninistas impulsionaram a teoria marxista, o leninismo é o desenvolvimento ulterior do marxismo, o marxismo que corresponde às novas condições da luta de classes do proletariado, o marxismo da época do imperialismo e das revoluções proletárias, o marxismo da época do triunfo do socialismo na sexta parte do globo.

O Partido bolchevique não teria podido triunfar em outubro de 1917, se seus quadros de vanguarda não tivessem possuído a teoria do marxismo, se não tivessem sabido ver nesta teoria um guia para a ação, se não tivessem sabido impulsionar a teoria marxista, enriquecendo-a com a nova experiência da luta de classes do Proletariado.

Criticando os marxistas alemães da América do Norte que tinham assumido a direção do movimento operário norte-americano, Engels escrevia:

"Os alemães não souberam fazer de sua teoria a alavanca que pusesse em movimento as massas norte-americanas. Em sua maioria, nem eles mesmos compreendem essa teoria e se comportam para com ela de um modo doutrinário e dogmático, julgando que é preciso aprendê-la de memória, e que basta isto para enfrentar todas as situações da realidade. Para eles, esta teoria e um dogma e não um guia para a ação". (K. Marx e F. Engels, t. XXVII, pág. 606).

Criticando Kamenev e alguns velhos bolcheviques que, em abril de 1917, se aferravam à velha fórmula da ditadura democrático-revolucionária do proletariado e dos camponeses, num momento em que o movimento revolucionário tinha ultrapassado esta fórmula e exigia a passagem à revolução socialista, Lenin escrevia:

"Nossa doutrina não é um dogma, mas um guia para a ação, sempre o disseram Marx e Engels, zombando com razão dos que aprendem de memória e repetem mecanicamente as "fórmulas", que, no melhor dos casos, só servem para assinalar as tarefas gerais, que se modificam necessariamente com a situação econômica e política concreta de cada fase especial do processo histórico... É necessário assinalar a verdade indiscutível de que o marxismo deve levar em conta a vida real, os fatos precisos da realidade e não continuar aferrando-se à teoria do dia anterior..." (Lenin, t. XX, págs. 100-101, ed. russa).

 

 

3)

 

A história do Partido nos ensina, além do mais, que o triunfo da revolução proletária é impossível sem o esmagamento dos partidos pequeno-burgueses que atuam dentro das fileiras da classe operária e empurram as camadas atrasadas desta para os braços da burguesia, enfraquecendo com isto a unidade da classe operária.

A história do Partido é a história da luta contra os partidos pequeno-burgueses e de seu esmagamento, contra os social-revolucionári-os, mencheviques, anarquistas e nacionalistas. Sem vencer estes Partidos e expulsá-los das fileiras do proletariado, não teria sido possível conseguir a unidade da classe operária, e, sem a unidade da classe operária, o triunfo da revolução proletária teria sido irrealizável.

Sem o esmagamento destes partidos, que a princípio trabalhavam pela manutenção do capitalismo e, mais tarde, depois da Revolução de Outubro, pela restauração dele, teria sido impossível manter a ditadura do proletariado, derrotar a intervenção armada estrangeira e edificar o socialismo.

Nada tem de casual o fato de que todos os partidos pequeno-burgueses, que, para enganar o povo se batizavam com o nome de partidos "revolucionários", e "socialistas" — os social-revolucionários, os mencheviques, os anarquistas, os nacionalistas, — passassem a ser partidos contra-revolucionários já antes da Revolução Socialista de Outubro, para se converterem mais tarde em agentes dos serviços de espionagem estrangeiros, em um bando de espiões, sabotadores, agentes diversionistas, assassinos e traidores da pátria.

"Na época da revolução social — disse Lenin — a unidade do proletariado só pode ser realizada pelo Partido revolucionário avançado do marxismo, só pode ser realizada por meio de uma luta implacável contra todos os demais partidos". (Lenin, t. XXVI, pág. 50, ed. russa).

 

 

4)

 

A história do Partido nos ensina, também, que o Partido da classe operária não pode manter a unidade e a disciplina dentro de suas fileiras, não pode cumprir sua missão de organizador e dirigente da revolução proletária, não pode cumprir sua missão de construtor da nova sociedade socialista, sem uma luta intransigente contra os oportunistas dentro de suas próprias fileiras, sem o esmagamento dos capituladores em seu próprio seio.

A história do desenvolvimento da vida interna do Partido bolchevique é a história da luta contra os grupos oportunistas dentro do Partido e de seu esmagamento: contra os "economistas", mencheviques, troskistas, bukarinistas e porta-vozes dos desvios nacionalistas.

A história do Partido bolchevique nos mostra que todos estes grupos capituladores eram, no fundo, agente do menchevismo dentro do Partido, seus satélites e continuadores. Da mesma sorte que os mencheviques, cumpriam a missão de servir de veículos da influência burguesa dentro da classe operária e do Partido. Por isso, a luta pela liquidação destes grupos dentro do Partido era a continuação da luta pela liquidação do menchevismo.

Sem esmagar os "economistas" e os mencheviques, jamais se teria conseguido edificar o Partido e conduzir a classe operária à revolução proletária.

Sem esmagar os trotskistas e bukarinistas, jamais se teria conseguido preparar as condições necessárias para a edificação do socialismo.

Sem esmagar os porta-vozes dos desvios nacionalistas de todos os matizes, jamais se teria conseguido educar o povo no espírito do internacionalismo, não se teria conseguido defender a bandeira fraternal entre os povos da U.R.S.S., não se teria conseguido edificar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Poder-se-ia pensar que os bolcheviques consagraram demasiado tempo a lutar contra os elementos oportunistas dentro do Partido, que exageraram a importância destes elementos. Mas é completamente falso. Não é possível tolerar no seio do Partido o oportunismo, como não é possível tolerar a existência de uma úlcera no organismo são. O Partido é o destacamento dirigente da classe operária, sua fortaleza de vanguarda, seu Estado-Maior de combate. Não é possível permitir que no Estado-Maior dirigente da classe operária haja indivíduos pusilânimes, oportunistas, capituladores e traidores. Travar contra a burguesia uma luta de vida ou morte, tendo dentro do próprio Estado-Maior, dentro da própria fortaleza, capituladores e traidores, é cair na situação de quem se vê atacado a tiros pela frente e pela retaguarda. É fácil compreender que a luta, nestas condições, só pode levar à derrota. O modo mais fácil de tomar uma fortaleza é atacá-la de dentro. Para conseguir o triunfo, é preciso prirríeiro limpar o Partido da classe operária, seu Estado-Maior dirigente, sua fortaleza de vanguarda, de capituladores, desertores, rebutalhos e traidores.

Nada tem de casual o fato de que os trotskistas, os bukarinistas, os porta-vozes de desvios nacionalistas, lutando contra Lenin e contra o Partido, tenham acabado como acabaram os partidos mencheviques e social-revolucionários convertendo-se em agentes dos serviços de espionagem fascista, convertendo-se em espiões, sabotadores,. assassinos, agentes diversionistas, traidores da pátria.

"Não é possível triunfar na revolução proletária, não é possível defendê-la, tendo, nas próprias fileiras, reformistas, mencheviques. Isto é evidente no terreno dos princípios. A experiência da Rússia e Hungria confirma-o de modo. palpável... Na Rússia atravessamos muitas vezes situações difíceis em que o regime soviético teria sido infalivelmente derrotado, se tivessem ficado mencheviques, reformistas, democratas pequeno-burgueses dentro de nosso Partido..." (Lenin, t. XXV, págn. 462-463, ed. russa).

"Se nosso partido — disse o camarada Stalin — conseguiu forjar dentro de suas fileiras uma unidade interior e uma coesão nunca vista, isso se deve, antes de tudo, ao fato de que soube limpar-se a tempo da escória do oportunismo, jogar fora do Partido os liquidacionistas e mencheviques. Para desenvolver e consolidar os partidos proletários, é preciso depurar suas fileiras de oportunistas e reformistas, de social-imperialistas e social-chovinistas, de social-patriotas e social-pacifistas. O Partido se fortalece depurando-se dos elementos oportunistas". (Stalin, "Problemas do Leninismo", pág. 72, ed. russa).

 

 

5)

 

A história do Partido nos ensina, além disso, que o Partido não pode cumprir sua missão de dirigente da classe operária, se, perdendo a cabeça com os êxitos, começa a vangloriar-se, se deixa de notar as deficiências de seu trabalho, se teme reconhecer seus erros, se teme corrigi-los no devido tempo aberta e honradamente.

O Partido é invencível se não teme a crítica nem a autocrítica, se não dissimula os erros e deficiências de seu trabalho, se ensina e educa os quadros com o exemplo dos erros do trabalho do Partido e sabe corrigir estes erros a tempo.

O Partido naufraga, se oculta seus erros, se dissimula seus lados fracos, se encobre seus defeitos com uma falsa exibição de prosperidade, se não tolera a crítica e a autocrítica, se se deixa penetrar pelo sentimento da fatuidade, se se deixa levar pelo narcisismo e começa a dormir sobre os louros.

"A atitude de um partido político diante de seus erros é — diz Lenin — um dos critérios mais importantes e mais fiéis da seriedade desse partido e do cumprimento efetivo de seus deveres para com sua classe e para com as massas trabalhadoras. Reconhecer abertamente os erros, pôr a nu suas causas, analisar minuciosamente a situação que os gerou e examinar atentamente os meios de corrigi-los, isto é o que caracteriza um partido sério, nisto consiste o cumprimento de seus deveres, isto é, educar e instruir a classe primeiro, e depois as massas". (Lenin, t. XXV, pág. XXV, pág. 200, ed. russa).

E mais adiante:

"Todos os partidos revolucionários que se afundaram até agora, se afundaram por se deixarem levar pela fatuidade e não saberem ver em que consistia sua força e por temor de falarem de suas debilidades. Mas, nós não nos afundaremos, porque não temos medo de falar de nossas debilidades e aprenderemos a superá-las". (Lenin, t. XXVII, págs. 260-261, ed. russa).

 

 

6)

 

Finalmente, a história do Partido nos ensina que, sem manter amplos vínculos com as massas, sem fortalecer constantemente estes vínculos, sem saber escutar atentamente a voz das massas e compreender suas necessidades mais prementes, sem ser capaz, não só de ensinar às massas, mas também de aprender delas, o Partido da classe operária não pode ser um verdadeiro partido de massas, capaz de arrastar consigo as massas de milhões da classe operária e de todos os trabalhadores.

O Partido é invencível, se — como diz Lenin — sabe

"ligar-se, aproximar-se, por assim dizer, fundir-se, em certo grau, com as mais vastas massas trabalhadoras, em primeiro termo, proletárias, mas também com a massa trabalhadora não proletária". (Lenin, t. XXV, pág. 174, ed. russa).

O Partido afunda-se, se encerra em seu campo estreito de partido, se se desliga das massas, se se cobre de mofo burocrático.

"Pode-se reconhecer como norma — diz o camarada Stalin — que, enquanto conservarem o contato com as grandes massas do povo, os bolcheviques serão invencíveis. E, ao contrário, se se desligarem das massas e perderem o contato com elas, se se deixarem cobrir pela ferrugem burocrática, perderão toda a sua força e ficarão anulados.

Os gregos da antiguidade tinham em sua mitologia um herói famoso, Anteu, que era, segundo a lenda, filho de Poseidon, deus dos mares e de Gea, deusa da terra. Anteu queria muito à sua mãe, que o tinha dado à luz e o tinha criado e educado. Não havia herói ao qual Anteu não tivesse vencido. Considerava-se como um herói invencível. Em que consistia sua força? Consistia em, sempre que se sentia a ponto de ver-se vencido na luta contra um inimigo, tocar a terra, sua mãe, que o tinha dado à luz e criado, e esta lhe infundia novo vigor. Mas Anteu tinha seu ponto fraco: era o perigo de ver-se separado da terra. Seus inimigos conheciam esta debilidade e o espreitavam. E eis que um dia um inimigo se aproveitou desta debilidade, vencendo-o. Este inimigo era Hércules. Como o venceu? Separou-o da terra e o suspendeu, tirando-lhe a possibilidade de tocar a terra e sufocando-o, assim, no ar.

Creio que os bolcheviques se assemelham a Anteu, o herói da mitologia grega. Da mesma forma que Anteu, são fortes, porque mantêm contato com sua mãe, as massas, que os deram à luz, criaram e educaram. E enquanto mantiverem o contato com sua mãe, o povo, contam com todas as possibilidades de serem invencíveis.

Nisso está a chave do porque é invencível a direção bolchevique". (Stalin, "Sobre as deficiências do trabalho do Partido").

Tais são os ensinamentos fundamentais do caminho histórico percorrido pelo Partido bolchevique.