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A vitória da Comuna de Paris


 

por Wolfgang Eggers

 




Lenine definiu a Comuna de Paris como "a transformação duma guerra internacional numa guerra civil" (Lenine,
Obras, Volume 21, página 26, traduzido da versão em Inglês). Com esta definição importante, Lenine justifica a transformação da primeira guerra mundial numa guerra civil. Lenine partiu das condições objectivas do capitalismo: "Essa transformação não é fácil e não pode ser realizada a pedido das partes individuais. Mas é precisamente esta transformação que corresponde às condições objectivas do capitalismo em geral, e em particular da sua fase final. Neste e só neste sentido, os socialistas têm de agir" (Lenine, ibid.).

Marx e Engels reconheceram que a vitória da Comuna de Paris foi facilitada pela situação de particular fragilidade dos seus adversários que estavam em guerra – a guerra Franco-Alemã teve a sua contribuição para o resultado favorável da insurreição. Os exércitos do Império Francês ou foram retidos nos arredores de Paris ou capturados na Alemanha, e a ofensiva externa Alemã tinha avançado até ás portas de Paris. Com o cerco de Paris, encontramos o facto historicamente já bem conhecido do cerco capitalista internacional do poder dos trabalhadores. Mas aqui basta notar que são precisamente os soldados sitiantes que apoiaram solidariamente a insurreição sitiada. Aqui nós temos em forma de germe o factor decisivo da solidariedade internacionalista e apoio aos trabalhadores insurgentes: "As tropas Prussianas que sitiaram a metade nordeste de Paris tinham ordens para barrar qualquer passagem, mas os oficiais muitas vezes fizeram vista grossa quando os soldados obedeceram mais á humanidade do que ao comando supremo; especialmente o exército Saxão, que simpatizava com os communards" (Engels, MEW, Volume 22, página 195, traduzido da versão em Alemão). A contra-revolução interna e externa tinha-se enfraquecido durante o curso da guerra e foi neutralizada num momento especial e, portanto, não foi capaz de esmagar a revolução dos trabalhadores.

"O ponto decisivo consiste em saber a quem pertence a superioridade decisiva de forças – para além de esta ser uma lei de sucessos militares, ela é também uma lei de sucesso político, especialmente no âmbito da guerra de classes e da revolução." (Lenine, Obras, Volume 30, página 248, traduzido da versão em Alemão).

"O inimigo que entra na posição de passividade facilita a nossa iniciativa e a nossa ofensiva" (Linha-Geral do Comintern / ML, traduzido da versão em Alemão). Uma situação semelhante de adversário de classe enfraquecido dentro e fora da Rússia favoreceu a vitória da Revolução de Outubro. "Por que é que a Revolução de Outubro começou no elo mais fraco da cadeia imperialista? Não porque o proletariado Russo estivesse á frente dos outros, mas por causa da fraqueza e do atraso do capitalismo russo e das condições opressivas da primeira Guerra Mundial, os Bolcheviques foram forçados a obter uma posição avançada á frente dos outros departamentos do exército socialista mundial sem esperar por eles. No momento da primeira ruptura da cadeia imperialista no seu elo mais fraco, no momento da derrubada do czar da Rússia imperialista pela Revolução de Outubro, o surgimento do primeiro estado socialista "num só país" deu-se porque se estava numa fase em que o capitalismo monopolista já estava morrendo e o mundo estava a ser dividido entre os grupos capitalistas, o que exigiu confrontos militares, sendo que a primeira Guerra Mundial enfraqueceu o capitalismo mundial. Os monopólios levaram a uma maior socialização global do trabalho, tal como Lenine previra que iria suceder no início da transição para o socialismo. Isso aconteceu na luta dos opostos, na lei do desenvolvimento desigual e rápido dos países capitalistas quando este se tornou mais nítido e grosseiro – não só para os próprios países imperialistas, mas também para todos os países ao redor do mundo. A Revolução de Outubro venceu porque o elo mais fraco da cadeia do imperialismo – a Rússia – era um país atrasado onde foi fácil abolir a propriedade privada e destruir o czarismo. A causa da ruptura, em primeiro lugar, foi a guerra que deixou o país numa situação desesperada, com um povo esfomeado que entendeu que a sua única solução era o socialismo e que acabou por dar origem á Revolução de Outubro Russa.

Mas romper o elo mais fraco não é a única razão que levará á vitória porque perante as forças revolucionárias mais fortes vão encontrar-se também a contra-revolução internacional mais forte. Além disso, também os sectores mais fortes das forças revolucionárias em cada país lutam em isolamento. No entanto: como nas revoluções anteriores, quando a Primeira e a Segunda Guerra Mundial surgiram, os grupos imperialistas ladrões tinham escravizado e redistribuído todo o mundo, concentrando nisso todas as suas forças. O elo mais fraco pode romper-se somente quando os elos mais fortes se ligam mutuamente mas não conseguem impedir o elo mais fraco de entrar em ruptura. Os imperialistas deixaram de se poder concentrar unicamente na supressão da revolução porque ficaram de mãos atadas. Por isso é que a divisão do imperialismo mundial acaba por causar a ruptura do elo mais fraco num estado muito específico do enfraquecimento das suas ligações mais fortes, num estado onde a contra-revolução internacional não consegue deter a revolução, mas antes a ajuda e acelera porque a contra-revolução internacional está dividida e enfraquecida." (citado em: Linha-Geral do Comintern / ML, traduzido da versão em Alemão).

A determinação e definição do momento do levantamento revolucionário em conjunto com a observação da ocorrência de um estado específico de fraqueza interna do adversário pode – numa avaliação realista dos seus próprios recursos humanos – ser decisiva para a vitória ou derrota da revolta. Marx e Engels advertiram contra as terríveis consequências tanto de uma revolta prematura como de uma revolta tardia. Assim também sucedeu com os efeitos da prematura revolta Parisiense. Marx alertou no seu segundo discurso Ao Conselho Geral da Internacional de 9 de Setembro de 1870 que: "Devemos controlar as coisas para que as memórias nacionais de 1792 não sejam prejudiciais", e que "a organização de classe deve realizar-se de forma minuciosa", não tendo estabelecido o objectivo de derrubar o governo ("uma loucura desesperada"). Elber escreveu que Eugene Dupont, Secretário da Internacional (do seu Conselho Geral) para a França em 7 Setembro 1870 afirmou na sua obra Histoire du mouvement en France 1852-1902 que a tentativa do governo Francês para desarmar o proletariado de Paris, confiscando as armas da Guarda Nacional no dia 18 de Março de 1871, foi respondida com uma insurreição revolucionária que Marx e Engels acolheram com entusiasmo, colocando-se na Guerra Civil ao lado da Comuna de Paris contra o governo de Versalhes. Como Lenine observou, Marx agiu em relação á Revolução de Paris "como um participante na luta de massas, que ele, com o seu habitual fervor e paixão, testemunhou (...) (Lenine, Obras, Volume 12, página 101, traduzido da versão em Alemão). Marx deu ao município aconselhamento militar concreto: "Eu aconselho os seus membros a protegerem o lado norte de Montmartre se ainda tiverem tempo para fazer isso, pois disse-lhes de antemão que eles estão metidos numa ratoeira se desleixarem o lado da Prússia” (Carta de Marx a Kugelmann em 1871, traduzido da versão em Alemão). "Marx apreciou a importância histórica da Comuna – se durante o golpe traiçoeiro de quadrilha de Versailles contra o armamento do proletariado Parisiense os trabalhadores tivessem desistido da luta e abandonado as armas, isto teria um efeito desastroso e levaria a uma desmoralização movimento proletário que traria prejuízos infinitamente maiores do que os danos que lhe foram causados devido às perdas sofridas pela classe trabalhadora na luta pela defesa das suas armas" (Lenine, Obras, Volume 13, página 485, traduzido da versão em Alemão).

Marx e Engels consideraram a defesa da Comuna como o dever supremo dos trabalhadores de todos os países. Já nos primeiros dias da revolução em Paris eles mobilizaram com a ajuda da Associação Internacional todas as forças do proletariado internacional para apoiar os communards. Marx e Engels consideravam a Comuna de Paris como a ideia da Internacional, como a realização prática dos seus princípios, e viram a sua criação como tendo sido uma grande vitória não só para a classe trabalhadora de Paris, mas para os trabalhadores do mundo na sua luta pela revolução. "Um novo ponto de partida de importância histórica mundial foi superado com êxito" (Carta de Marx a Kugelmann de 17 de Abril de 1871, traduzido da versão em Alemão). Com a Comuna de Paris começou um novo capítulo na história do mundo, o período do "início do declínio do capitalismo" e, como observou Estaline: "... da contagem decrescente para o declínio do imperialismo e para a derrubada do capitalismo na URSS pelas forças da Revolução de Outubro" (Estaline, Kirov, Jdanov, Comentários sobre o projecto de um livro moderno de História, Moscovo, 1938, e referências citadas de acordo com a História da Diplomacia, Volume II, Londres 1948, página 13, traduzido da versão em Alemão). "A República dos Sovietes finalmente descobriu uma forma política sob a qual a emancipação económica do proletariado e a vitória completa do socialismo devem ser concluídas. A Comuna de Paris foi o germe desta forma. O poder Soviético é o seu desenvolvimento e conclusão." (Estaline, Questões do Leninismo, Berlim, 1951, página 49, traduzido da versão em Alemão).

Marx estava em contacto directo com os communards e procedeu a uma análise e experiência generalizada da Comuna de Paris em benefício do proletariado mundial. Na sua obra
"Guerra Civil na França", Marx qualificou o poder do Estado e do seu exército na sociedade burguesa de exploração como um "poder público para reprimir a classe trabalhadora" e como "uma máquina de dominação de classe." Ele concluiu que o proletariado de Paris poderia tomar o poder apenas se tomasse nas suas mãos a máquina do Estado burguês, pois o seu "carácter puramente opressivo cada vez mais ousado" havia revelado que "a classe trabalhadora não pode simplesmente apoderar-se do estado burguês, mas deve tomá-lo sob o seu controlo e definir os seus próprios fins" (Marx, Obras Completas, Volume 17, página 336, traduzido da versão em Alemão). A Comuna de Paris aboliu o exército permanente e substituiu-o pelo povo armado. E nós agora devemos substituir os exércitos permanentes do mundo através do armamento comum e mútuo de todos os povos. Na sua Carta a Kugelmann de 1871, Karl Marx escreveu:

"Se você leu o último capítulo do meu 18 do Brumário de Luís Bonaparte, você verá que eu digo que a próxima Revolução Francesa já não verá a máquina burocrática-militar a transferir-se de um lado para o outro, mas verá sim a sua eliminação, e esta é a condição para uma revolução verdadeiramente popular (...). Pela nossa parte, nós queremos adicionar e concluir que a condição para a revolução mundial consiste em combater a crença ingénua no mundo globalizado da burguesia de forma a abrir caminho para a missão militar da revolução proletária mundial. Embora os revolucionários de Paris tenham renunciado no dia 28 de Janeiro de 1871, a sua situação não teve precedentes na história de honras de guerra (...) a Guarda Nacional manteve as suas armas e canhões e só entrou num armistício com os vencedores. E estes ainda não se atreveram a mover-se para Paris em triunfo (...) tal era o respeito inspirado pelos trabalhadores de Paris ao exército; os trabalhadores desafiaram todos os exércitos do Império e os Junkers Prussianos que tinham vindo para se vingar da revolução foram detidos pelo respeito a esta revolução armada." (Marx, Engels, Obras Completas, Volume I, página 450, traduzido da versão em Alemão). A Comuna de Paris foi o maior movimento proletário do século XIX, e a União Soviética foi dos maiores movimentos socialistas do século XX.

Karl Marx criticou os communards por causa da sua falta de cuidado, devido à inadequada falta de dureza contra os contra-revolucionários: "Paris está trabalhando, pensando, lutando, sangrando na incubação de uma nova sociedade enquanto permite que os canibais assolem os seus portões" (Marx, Obras Completas, Volume 17, página 349, traduzido da versão em Alemão). Marx ensinou aos trabalhadores que o poder proletário deve ser forte e organizado, que ele deve ter os meios necessários para suprimir a contra-revolução mesmo após o estabelecimento do poder da classe trabalhadora á escala nacional e mesmo após o ajuste do poder internacional em favor do proletariado mundial! As "rebeliões esclavagistas esporádicas" podem sempre suceder e Marx assinalou que o reforço do Estado proletário deve fazer-se especialmente quando este tiver alcançado dimensão mundial! Isto é reconhecido como uma necessidade absoluta. Só então os ataques das forças reaccionárias estão condenados ao fracasso, pois eles "certamente interrompem o progresso pacífico, mas aceleram o movimento porque eles tornam inevitável a revolução social violenta" (Marx, Obras Completas, Volume 17, página 546, traduzido da versão em Alemão). Hoje, sucede a mais cruel contra-revolução internacional violenta contra o proletariado mundial, e ás massas populares internacionais cabe livrarem-se da escravidão e do imperialismo; na verdade, ao proletariado mundial cabe quebrar a tirania imperialista mundial – esta é uma das principais conclusões do Marxismo revolucionário, pois é um dos princípios fundamentais sobre o qual se baseia a noção de guerra de classe revolucionária.

 

 

 

 

 

 

Engels também "censurou" a Comuna de Paris:

"Eu sei que uma revolução tem a ver com autoridade, e se lutamos com bombas e balas contra os inimigos, isto parece-me ser um acto de autoridade. Se na Comuna de Paris a autoridade tivesse sido um pouco mais centralizada, ela teria triunfado sobre a burguesia. Após a vitória, podemos organizar-nos como quisermos, mas para a luta parece-me necessário agregar todas as nossas forças e direccioná-las para o mesmo ponto de ataque. E quando me disseram que isso não era possível e que as coisas teriam de ser feitas sem autoridade nem centralização, isto pareceu-me absolutamente condenável: aqueles que falam assim, ou não sabem o que é uma revolução, ou apenas são revolucionários em palavras." (Engels, MEW, Volume 33, página 372-373, traduzido da versão em Alemão).

"O mais difícil de entender, porém, é o respeito sagrado que foi demonstrado para com o Banco da França. Esse foi um grave erro político. O banco deveria estar nas mãos dos communards – isso valeria mais do que dez mil reféns." (Marx, Engels, Obras Completas, Volume 22, página 196, traduzido da versão em Alemão). A partir das lições da Comuna de Paris, Marx e Engels traçaram as demandas claras do socialismo da classe trabalhadora, ou seja, a necessidade de apropriação violenta dos meios de produção pela sociedade: "por detrás do direito ao trabalho está o poder sobre o capital, por trás do poder sobre o capital está a aquisição de meios de produção, a sua sujeição ao poder da classe trabalhadora e, portanto, a abolição do trabalho assalariado enquanto capital, bem como das suas relações mútuas." (Marx, Engels, Obras Completas, Volume 7, página 41/42, traduzido da versão em Alemão).

"Enquanto que a revolução democrática pequeno burguesa está condenada a terminar logo que possível, é do nosso interesse e é nossa tarefa fazer a revolução permanente até que todas as classes possuidoras estejam sujeitas ao governo dos trabalhadores e o poder do Estado seja tomado pelo proletariado não só num país mas em todos os principais países do mundo. Só assim é que as forças decisivas da produção estão concentradas nas mãos dos trabalhadores. Nós não devemos agir para modificar a propriedade privada, mas sim para aboli-la, nós não devemos agir para abafar os antagonismos de classe, mas sim para abolir as classes, nós não devemos agir para melhorar a sociedade existente, mas para fundar uma nova" (Marx, Engels, Obras Completas, Volume 7, página 247-248, traduzido da versão em Alemão).

E isto leva-nos à maior aderência à permanência da revolução mundial, o que exige uma forma especial de guerra revolucionária mundial. O que podemos nós aprender com isto: em primeiro lugar, não se deve subestimar a importância da luta de classes internacional no terreno militar em benefício da revolução mundial; em segundo lugar, a "expropriação dos expropriadores" pelo proletariado revolucionário mundial não deve parar a meio caminho. Apenas estes dois ensinamentos aplicados em conjunto podem proteger os frutos da revolução socialista vitoriosa.

"Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que há, um acto pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra parte através de mosquetes, baionetas e canhões, e através destes meios autoritários usados pela parte que ganhou, é imposto um reino de terror contra os reaccionários. E se a Comuna de Paris actuou com a legitimidade do povo armado contra a burguesia, terá ela usado de demasiada autoridade? Nós não podemos culpá-la por isso, mas pelo contrário, nós devemos censurá-los pelo pouco que ela usou essa autoridade." (Engels, A autoridade, 1872/73, traduzido da versão em Alemão) E no 20º Aniversário da Comuna de Paris, Engels disse:

"Durante vinte anos, os trabalhadores e o proletariado de Paris foram privados das suas armas e meios de defesa, tal como acontece em todos os outros lugares. Em todos os locais há inimigos e exploradores da classe trabalhadora que possuem toda a força armada. Então o que mudou? Mudou o facto de que hoje, todos notam que o exército reflecte cada vez mais os sentimentos e opiniões do povo. Este exército, a principal ferramenta de opressão, deixa de ser fiável. Já é possível vislumbrar o dia no qual os militares de topo e os principais estados verão com horror que os soldados armados se recusam a massacrar os seus irmãos e os seus pais (...) Viva a revolução social internacional!" (Engels, MEW, Volume 22, página 186-187, traduzido da versão em Alemão).

Marx respondeu à derrota da Comuna de Paris e ensinou o proletariado como deveria lidar com esta derrota e com as suas consequências, especialmente porque a classe operária teve de enfrentar a fúria e a sangrenta vingança da reacção enfurecida. Bismarck havia libertado 60.000 prisioneiros de guerra para estabelecer um exército contra-revolucionário contra a Comuna de Paris que até foi autorizado a passar as linhas Alemãs com esta finalidade. Todos os governos Europeus ficaram cheios de medo e eles organizaram uma campanha odiosa contra a Primeira Internacional e contra as organizações de trabalhadores. Esta ofensiva reaccionária e as intrigas dos reaccionários foram desmascaradas por Marx e Engels, tendo estes continuado a luta pela união e pela continuação inabalável da consolidação da organização proletária, a luta pela recolha de novas forças do povo trabalhador e pela reorganização das fileiras da Primeira Internacional, a luta contra o oportunismo nas próprias fileiras. Na verdade, a reacção tentou, tanto através de meios violentos como não violentos, acabar com a propagação internacional da chama do proletariado revolucionário heróico Parisiense e liquidar a Primeira Internacional.

Para justificar a atitude do internacionalismo proletário internacional, Marx e Engels estudaram em detalhe a história do povo Irlandês. Eles desenvolveram a ideia de que o proletariado da nação opressora deve, no interesse da sua própria liberdade, lutar contra as políticas de opressão nacional e militar, naquilo a que Lenine chamou o princípio básico do internacionalismo socialista. Engels escreveu: "Pela história da Irlanda podem ver-se os infortúnios que atingem uma nação que subjuga outras" (Marx, Engels,
Obras Completas, Volume 32, página 378, traduzido da versão em Alemão). A libertação da Irlanda é uma necessidade para a classe trabalhadora Inglesa, pois ela produzirá o enfraquecimento do Estado Inglês e abrirá caminho para a sua própria revolução proletária. Sem a luta armada de libertação revolucionária nacional, não haverá vitória da revolução proletária mundial. Esta é a lição que Marx e Engels retiraram do movimento de independência da Irlanda.

Marx e Engels consideravam todos os assuntos militares do ponto de vista do proletariado internacional. Relativamente aos partidos dos trabalhadores dos vários países e também da Primeira Internacional, eles insistiram no facto de que a burguesia liberal é uma classe flutuante e afectada pela cobardia histórica, sendo que ela muitas vezes se compromete com a reacção e capitula em situações de guerra. Eles mostraram também que os liberais têm geralmente muito mais medo do povo revolucionário do que da reacção. Assim, o Marxismo reflecte acerca da questão do Lassallianismo e do governo real Prussiano (ver: Engels, MEW, Volume 16, página 79, traduzido da versão em Alemão).

"A Comuna era a negação firme do poder do Estado e, portanto, o início da revolução social do século XIX. A partir de Paris, o movimento vai expandir-se ao redor do mundo." (Marx, Obras Completas, Volume 17, página 542, traduzido da versão em Alemão). Aqueles que pensam que ele falava indirectamente contra o poder estatal do proletariado estão no caminho errado. Mas a verdade é que houve certos "Marxistas-Leninistas” que ainda acreditavam nisto na segunda metade do século XX, quando o certo é que tais conclusões apenas nos levariam a um beco sem saída.

Com a Comuna de Paris, iniciou-se um novo período na luta do proletariado em que a construção de partidos proletários é guiada pelos princípios do comunismo científico de Marx e Engels, e sem o qual a revolução proletária não pode ser realizada com sucesso. Durante o intervalo de tempo entre a Comuna de Paris e a Revolução de Outubro, com o início de um novo período da luta de classes armada, os oportunistas de todos os matizes tentaram construir oposições e atingir os seus propósitos reaccionários. Mas não é possível defender a Comuna de Paris contra a Revolução de Outubro, assim como não é possível defender a Revolução de Outubro contra a revolução popular na Albânia e contra as revoluções socialistas do futuro sem estarmos completamente e miseravelmente afogados no pântano do oportunismo. A Comuna de Paris, a Revolução de Outubro e a revolução do povo Albanês devem guiar os Marxistas-Leninistas na execução do socialismo vitorioso no contexto do movimento revolucionário mundial. O mesmo não se aplica ás outras revoluções e, portanto, elas não podem ser colocadas ao mesmo nível das referidas. Da mesma forma, não se pode colocar a teoria de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Enver Hoxha em oposição entre si ou excluir um ou vários Clássicos. Todos os Clássicos lideraram o proletariado mundial e a ciência militar Marxista na sua respectiva época histórica. E, juntos, eles constituem a imagem completa de toda a teoria militar e de guerra de classes Marxista-Leninista da qual temos de aprender sempre. Com base nas conclusões dos Clássicos no domínio militar, devemos aproximamo-nos da generalização da experiência actual da luta de classes internacional a fim de desenvolver a teoria militar Marxista-Leninista da luta de classes revolucionária em benefício da revolução proletária mundial. Nós, soldados comunistas, lutamos apenas com base nestes princípios teóricos e práticos. Nós não permitimos que teorias militares burguesas nos influenciem, nem admitimos levar a cabo falsas "revoluções" que pretendem incluir todos os tipos de interesses de classe. Nós tomamos as armas exclusivamente em defesa dos nossos próprios interesses e pela revolução proletária. Apesar de sermos guiados pelos exemplos, natureza e carácter da Comuna de Paris, da Revolução de Outubro e da revolução do povo Albanês, isso não exclui que possamos apoiar temporariamente e circunstancialmente outros movimentos revolucionários quando estes sejam directa ou indirectamente úteis para as nossas revoluções proletárias. Nós não somos revisionistas nem sectários, mas sim soldados Marxistas-Leninistas! Através da crítica e da auto-crítica, nós podemos corrigir erros sectários ou revisionistas. Mas aqueles que são intencionalmente e deliberadamente revisionistas e sectários não têm lugar entre nós e nós nunca lutaremos “lado a lado” com eles, porque eles são inimigos do proletariado e tentam penetrar e corromper as nossas próprias fileiras para nos forçarem a fazer uma "frente unida" com a burguesia. A união e as “frentes unidas” com as tropas que servem ao inimigo, mesmo que estas tenham jurado estar do nosso lado, é um total absurdo. A força revolucionária está condenada á derrota quando o inimigo actua activamente dentro das suas próprias fileiras, e isto aplica-se ainda mais no que respeita á liderança do exército vermelho.

Para evitar este tipo de desastres, é essencial que cada soldado vermelho mantenha limpa tanto as suas armas ideológicas e espirituais como as suas armas militares propriamente ditas; ele precisa de aprender sempre a controlar o seu uso em cada momento e em cada situação. Isso distingue o exército vermelho de qualquer exército contra-revolucionário (incluindo o exército revisionista) onde ainda (ou de novo) é aplicado o sistema militarista da oposição entre a obra manual e a obra intelectual.