1871

Karl Marx


CARTA DE KARL MARX

a Ludwig Kugelmann

12 de Abril de 1871



Londres, 12 de abril de 1871

 

Caro Kugelmann,

 

Seu “parecer médico” foi tão espetacular que acabei indo consultar o meu Dr. Maddison e entreguei-me, então, provisoriamente, ao tratamento de saúde recomendado por este.

 

Disse-me, porém, que meus pulmões encontram-se em magnífica ordem e minha tosse está relacionada com uma bronquite etc. Ditto (EvM.: a mesma) provocará efeitos no fígado. (...)

 

Se você reeexaminar o último capítulo do meu “18 Brumário”, vai constatar que declaro como próximo intento da Revolução na França – não mais como antes –, o ato de transferir a maquinaria burocrático-militar de uma mão para outra, mas sim despedaçá-la (EvM.: no original alemão ”zerbrechen”, i.e. despedaçar, quebrar, fraturar, destruir etc.).

 

E essa é a précondição de toda e qualquer verdadeira revolução popular no continente.

É também a tentativa que nossos heróicos companheiros da Comuna de Paris estão empreendendo.

Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de auto-sacrifício desses parisienses!

Depois de 6 (seis) meses de fome e ruína, provocados por traição interna, muito mais do que pelo inimigo externo, levantam-se, por debaixo das baionetas prussianas, como se jamais houvesse existido uma guerra, travada entre a França e a Alemanha, e o inimigo não se encontrasse ainda diante dos portões de Paris.    

A história não possui nenhum exemplo parecido de semelhante grandeza!

 

Se forem derrotados, nada será culpado senão o fato de possuirem “bondade”

Tinham de ter marchado logo para Versalhes, depois de que Joseph Vinoy, em primeiro lugar, e, então, a parte reacionária da própria Guarda Nacional de Paris abandonaram o terreno.

O momento exato foi perdido por razões de escrúpulos.

Não se quis dar início à Guerra Civil, tal como se Adolphe Thiers, o mischievous avorton (EvM.: o anãozinho zangado), não a tivesse já iniciado, com sua tentativa de desarmamento de Paris.

      

Segundo erro : o Comitê Central abdicou muito cedo do seu poder, a fim de dar lugar à Comuna.

 

Mais uma vez, devido à “honrosa” escrupulosidade!

 

Seja lá como for, a presente Insurreição de Paris – ainda que seja destroçada pelos lobos, porcos e cães vulgares da velha sociedade -, é o evento mais glorioso do nosso Partido, desde a Insurreição Parisiense de Junho.

Comparem-se esses parisienses que tomam o céu de assalto com os escravos celestiais do Sacro-Império Romano-Germânico-Prussiano, dotados de suas mascaradas póstumas, cheirando à caserna, igreja, fidalguice provinziana e, sobretudo, filistinismo.  (...)

 

Obrigado por seus envios de jornais (peço-lhe que me envie mais, pois pretendo escrever algo sobre a Alemanha, o Parlamento do Império etc.) 

Saudações cordiais à Senhora Condessa e às corujinhas (EvM.: Gertrud e Franziska Kugelmann).

 

Do teu

K.M.

 

EDITORA DA ESCOLA DE AGITADORES E INSTRUTORES

UNIVERSIDADE COMUNISTA REVOLUCIONÁRIA J. M. SVERDLOV”