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Karl Marx


Crítica do Programa de Gotha[N1]

Karl Marx

Transcrição autorizada
Hiper Link para Editora Avante

Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial"Avante!"
Tradução: José BARATA-MOURA.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, março 2009.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.


Índice

capa

Prefácio de Friedrich Engels

Carta a Wilhelm Bracke

Glosas Marginais ao Programa do Partido Operário Alemão

I

II

III

IV

Carta a August Bebel

Carta a Karl Kautsky


Nota de fim de tomo:

[N1] O trabalho de Marx Kritik des Gothaer Programms (Critica do Programa de Gotha), escrito em 1875, é composto por um conjunto de observações críticas ao projecto de programa do futuro partido operário alemão unificado. Este projecto enfermava de sérios erros e de concessões de princípio ao lassallianismo. Marx e Engels aprovavam a ideia de se fundar um partido socialista único da Alemanha, mas denunciavam o compromisso ideológico com os lassallianos e submetiam-no a uma aguda crítica. Nesta obra Marx formulou simultaneamente toda uma série de ideias sobre as questões fundamentais da teoria do comunismo científico, tais como a revolução socialista, a ditadura do proletariado, o período de transição do capitalismo para o comunismo, as duas fases da sociedade comunista, a produção e a distribuição do produto social no socialismo e os traços fundamentais do comunismo, o internacionalismo proletário e o partido da classe operária.
Esta obra constitui um novo passo no desenvolvimento da doutrina do marxismo sobre o Estado e a ditadura do proletariado. Marx define a importantíssima tese da inevitabilidade histórica de um estádio especial de transição do capitalismo para o comunismo, com a forma de Estado correspondente — a «ditadura revolucionária do proletariado».

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Carta a Wilhelm Bracke

 

5 de Maio de 1875

 


Londres, 5 de Maio de [18]75

Caro Bracke,

 

Após leitura, tenha a bondade de comunicar as seguintes glosas marginais críticas ao programa de coalizão a Geib e Auer, Bebel e Liebknecht, para exame. (1*) Eu estou superocupado e tenho já que ultrapassar em muito o limite de trabalho que me está medicamente prescrito. Não foi, portanto, de modo nenhum um «prazer» para mim escrever um tão longo papel. Foi, contudo, necessário para que, mais tarde, os passos a dar por meu lado não sejam mal interpretados pelos amigos do Partido, aos quais esta comunicação é destinada.

<Depois do congresso de coalizão se ter efectuado, Engels e eu publicaremos, nomeadamente, uma curta declaração segundo cujo teor somos inteiramente estranhos ao dito programa de princípios e nada temos a ver com isso.> (3*)

Isto é indispensável, uma vez que no estrangeiro se sustenta a opinião cuidadosamente alimentada pelos inimigos do Partido — a opinião inteiramente errónea — de que nós, a partir daqui, dirigimos em segredo o movimento do chamado Partido de Eisenach [2]. Ainda num escrito russo [3] recentemente publicado, Bakúnine faz de mim responsável, por exemplo, <não só> de todos os programas, etc, daquele Partido, <como mesmo de todos os passos que Liebknecht deu desde o dia da sua cooperação com o Partido Popular [N8] >.

A parte isso, é meu dever não reconhecer, mesmo por um silêncio diplomático, um programa, na minha convicção, inteiramente rejeitável e que desmoraliza o Partido.

Cada passo de movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas. Se, portanto, não se podia ir além do programa de Eisenach — e as circunstâncias do tempo não o permitiam — deveria simplesmente ter-se concluído um acordo para a acção contra o inimigo comum. Se, porém, se fazem programas de princípios (em vez de remeter isso para um tempo em que eles tenham sido preparados por uma mais longa actividade comum) erguem-se perante o mundo inteiro marcos pelos quais se mede o nível do movimento do Partido.

Os chefes dos lassallianos vinham, porque as condições a isso os obrigavam. Se antecipadamente se lhes tivesse declarado que não se embarcaria em nenhum regateio de princípios, eles teriam tido de se contentar com um programa de acção ou com um plano de organização para uma acção comum. Em vez disto, permite-se-lhes que apareçam armados de mandatos — e reconhece-se, por seu lado, esses mandatos como vinculativos —, pondo-se, portanto, à mercê dos que precisam de ajuda. Para coroar a coisa, eles efectuam de novo um congresso antes do congresso de compromisso, enquanto o [nosso] próprio Partido efectua o seu congresso post festum (4*). <Manifestamente, queria-se escamotear toda a crítica e não deixar o próprio Partido chegar à reflexão.> É sabido como o simples facto da unificação satisfaz os operários, mas erra-se se se crê que este sucesso momentâneo não é pago demasiado caro.

Ainda por cima, o programa não vale nada, mesmo abstraindo da canonização dos artigos de fé de Lassalle.

<Enviar-lhe-ei, nos tempos mais próximos, os últimos fascículos da edição francesa do Capital. O prosseguimento da impressão foi durante algum tempo travado por proibição do governo francês. Esta semana ou no princípio da próxima a coisa estará pronta. V. recebeu os seis fascículos anteriores? Tenha também a amabilidade de me escrever a morada de Bernhard Becker, a quem tenho igualmente de enviar os últimos fascículos.>

A livraria do Volksstaat [4] tem maneiras próprias. Assim, até este momento, por exemplo, também não me fez chegar um único exemplar da impressão do Processo dos Comunistas de Colónia(5*).

Com os melhores cumprimentos.

 

Seu,


Karl Marx

 

 

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Notas de rodapé:

 

(1*)

No manuscrito assinala-se aqui com uma cruz a inserção da seguinte observação redigida na sua parte superior: «N[ota]bene (2*).

O manuscrito tem de regressar às suas mãos, para, em caso de necessidade, estar à minha disposição.» (Nota da edição portuguesa.)

 

(2*)

Em latim no texto: Nota bem. (Nota da edição portuguesa.)

 

(3*)

No presente tomo as passagens omitidas e substituídas por pontos na edição de 1891 figuram entre < > e as principais diferenças entre o manuscrito e a edição de 1891 são assinaladas em nota de pé de página. (Nota da edição portuguesa)

 

(4*)

Em latim no texto: literalmente, depois da festa, isto é, depois dos acontecimentos. (Nota da edição portuguesa.)

 

(5*)

Referência à obra de Marx Enthüllungen über den Kommunisten-Prozess zu Köln [Revelações sobre o Processo dos Comunistas de Colónia]. Ver MEW, Bd. 8. S. 405-470. (Nota da edição portuguesa.)

 

 

__________________

Notas de fim de tomo:

 

[1]

Em Eisenach, no congresso pan-alemão dos sociais-democratas da Alemanha, da Áustria e da Suiça, realizado de 7 a 9 de Agosto de 1869, foi criado o Partido Operário Social-Democrata alemão, posteriormente conhecido como partido dos eisenachianos. O programa aprovado pelo Congresso correspondia inteiramente aos princípios da Internacional.

 

[2]

Trata-se do livro da Bakúnine Estatalidade e Anarquia, publicado na Suíça em 1873.

 

[3]

O Deutsche Volkspartei {Partido Popular Alemão), fundado em 1865, era constituído por elementos democráticos da pequena burguesia e por parte da burguesia, sobretudo dos Estados do Sul da Alemanha. O Partido opunha-se ao estabelecimento da hegemonia da Prússia na Alemanha e defendia o plano da chamada «Grande Alemanha», na qual deviam entrar a Prússia e a Áustria. Propagandeando a ideia de um Estado alemão federativo, o Partido pronunciava-se contra a unificação da Alemanha sob a forma de uma república democrática centralizada única.

 

[4]

Trata-se da editora do Partido Operário Social-Democrata, que publicava o jornal Volksstaat e literatura social-democrata. A editora era dirigida por August Bebel.
Der Volksstaat (O Estado Popular): órgão central do Partido Operário Social-Democrata (eisenachianos), publicou-se em Leipzig de 2 de Outubro de 1869 a 29 de Setembro de 1876, sob a direcção de Wilhelm Liebknecht. Marx e Engels cola­boraram no jornal, dando uma ajuda permanente à sua redacção.




 

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