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Karl Marx

 

Lamartine e Comunismo

 

24 de dezembro de 1847


Marx-Engels Collected Works, volume 6, p.404.

 

Nota 212 do volume 6 do MECW: A carta de Lamartine foi publicada em vários jornais além do Le Bien Public, em particular no La Presse, L’Union monarchique e como um panfleto intitulado Opinion du citoyen Lamartine sur le communisme [Opinião do cidadão Lamartine sobre o comunismo. O texto era uma resposta a Etienne Cabet que, através do jornal Populaire, pediu que Lamartine desse sua opinião acerca das visões comunistas de Cabet.

 


Bruxelas, 24 de dezembro.

 

Mais uma vez, os jornais franceses publicam uma carta do Sr. de Lamartine. Dessa vez, é sobre o comunismo que esse socialista poético dá sua cândida opinião após ter sido desafiado a fazê-lo por Cabet.(1) Ao mesmo tempo, Lamartine prometeu expor suas visões, detalhadamente, acerca desse “assunto importante” em um futuro próximo. Por agora, ele se contenta com breve sucinto discurso profético:

“Minha opinião acerca do comunismo”, ele afirma, “pode ser resumida no seguinte sentimento (!): se Deus confiasse a mim uma sociedade de selvagens para civilizá-los e fazê-los pessoas de boas maneiras, a primeira instituição que eu os daria seria a da propriedade.”

“O fato”, continua o Sr. Lamartine, “de que o homem apropria os elementos para si é uma lei da natureza e uma precondição da vida. O homem apropria o ar através da respiração, o espaço ao andar por ele, a terra ao cultivá-la, e até mesmo, através de sua própria perpetuação pelos seus filhos; a propriedade é a organização do princípio da vida no universo; comunismo seria a morte do trabalho e da humanidade como um todo.”

“Seu sonho”, o Sr. Lamartine finalmente consola o Sr. Cabet, “é muito bonito para essa Terra.”

O Sr. Lamartine é, assim, um oponente do comunismo e não somente do sistema comunista; na verdade, ele entra na lista que defende a “perpetuidade da propriedade privada”. O seu “sentimento” diz a ele três coisas:

  1. que a propriedade civiliza as pessoas;

  2. que ele é a organização do princípio da vida no mundo; e

  3. que o seu oposto, comunismo, é um sonho muito bonito para esse mundo mal.

Sem dúvida, o Sr. Lamartine “sente” um mundo melhor, no qual o “princípio da vida” é “organizado” de forma diferente. Nesse mundo mal, no entanto, acontece que a “apropriação” é a precondição da vida.

Não é necessário analisar o confuso sentimento do Sr. Lamartine para resolver suas contradições. Nós queremos apenas fazer uma simples observação. O Sr. Lamartine acredita que ele provou a perpetuidade da propriedade burguesa ao demonstrar que a propriedade em linhas gerais constitui a transição do estado de selvageria para o de civilização através do entendimento que o processo de respiração e de procriação de crianças pressupõem o direito de propriedade tanto quanto a propriedade privada social o faz.

O Sr. Lamartine não vê distinção entre a era da transição da selvageria à civilização e a nossa era, indo mais além, entre a “apropriação” do ar e a “apropriação” dos produtos sociais; ambos são “apropriações”, assim como as duas eras são “eras de transição”!

Em sua “detalhada” polêmica contra o comunismo, o Sr. Lamartine irá, sem dúvidas, achar uma oportunidade para deduzir “logicamente” dessas generalidades saídas de seu “sentimento” uma série de outras, ainda maiores. Assim, nós devemos achar a oportunidade para esclarecer essas generalidades “de forma ainda mais detalhada”. Para o presente, nós devemos nos contentar ao transmitir aos nossos leitores os “sentimentos” que um jornal católico-monarquista opõe àqueles do Sr. Lamartine. O Union monarchique, especificamente, na edição de ontem, declarou-se contrariamente aos sentimentos de Lamartine da seguinte maneira:

“Aqui nós vemos como esses iluministas da humanidade abandonam sua liderança. Esses desgraçados! (...) Eles roubaram o pobre homem do Deus que o conforta; (...) eles tiraram o Céu dele; (...) Ele deixaram o homem sozinho com o seu desejo e sua desgraça. E, depois, eles vêm e dizem: ‘Vocês desejam possuir a Terra — ela não é de vocês. Vocês desejam gozar das coisas boas da vida — elas pertencem a outros. Vocês desejam partilhar a riqueza — isso está fora de questão. Fique pobre, fique nu, fique abandonado— morra!”

O Union monarchique conforta os proletários com Deus. O Bien Public, o jornal do Sr. Lamartine, conforta-os com o “princípio da vida”.


 

 

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