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O Socialismo e a Guerra

(A atitude do POSDR em relação à guerra)

V. I. Lénine

Julho/Agosto de 1915




Índice

Prefácio à 1ª Edição (Publicada no Estrangeiro)

Prefácio à 2ª Edição

Capítulo I - Os Princípios do Socialismo e a Guerra de 1914-1915

A Atitude dos Socialistas em Relação às Guerras

Tipos Históricos das Guerras dos Tempos Modernos

Diferença entre Guerra Ofensiva e Guerra Defensiva

A Guerra Actual é uma Guerra Imperialista

A Guerra entre os Maiores Escravistas pela Manutenção e Reforço da Escravidão

«A Guerra é a Continuação da Política por Outros Meios (A Saber: pela Violência)»

O Exemplo da Bélgica

Por que está a Rússia em Guerra?

Que é o Social-Chauvinismo?

O Manifesto de Basileia

As Referências Falsas a Marx e Engels

A Falência da II Internacional

O Social-Chauvinismo é o Oportunismo Acabado

A Unidade com os Oportunistas é a Aliança dos Operários com a «sua» Burguesia Nacional e a Cisão da Classe Operária Revolucionária Internacional

O «Kautismo»

A Palavra de Ordem dos Marxistas é a Palavara do Ordem da Social-Democracia Revolucionária

O Exemplo da Confraternização nas Trincheiras

Importância da Organização Ilegal

Sobre a Derrota do «seu» Governo na Guerra Imperialista

Sobre o Pacifismo e a Palavra de Ordem de Paz

Sobre o Direito das Nações à Autodeterminação

Capítulo II - As Classes e os Partidos na Rússia

A Burguesia e a Guerra

A Classe Operária e a Guerra

A Fracção Operária Social-Democrata da Rússia na Duma de Estado e a Guerra

Capítulo III - A Reconstituição da Internacional

O Método dos Social-Chauvinistas e do «Centro»

A Situação no Seio da Oposição

O Partido Operário Social-Democrata da Rússia e a III Internacional

Capítulo IV - A História da Cisão e a Situação Actual da Social-Democracia na Rússia

Os «Economistas» e o Velho «Iskra» (1894-1903)

Menchevismo e Bolchevismo (1903-1908)

Marxismo e Liquidacionismo (1908-1914)

Marxismo e Social-Chauvinismo (1914-1915)

A Situação Actual na Social-Democracia da Rússia

As Tarefas do Nosso Partido



 

Prefácios


Prefácio à 1ª Edição
(Publicada no Estrangeiro)


A guerra dura há já um ano. O nosso partido definiu a sua atitude relativamente a ela logo no seu início, no manifesto do CC redigido em Setembro de 1914 e publicado (depois de o enviar aos membros do CC e aos representantes responsáveis do nosso partido na Rússia e de receber o seu acordo) em 1 de Novembro de 1914 no n° 33 do Órgão Central do nosso partido, o Sotsial-Demokrat. Seguidamente, no n.° 40 (de 29 de Março de 1915) foram publicadas as resoluções da conferência de Berna, que faziam uma exposição mais precisa dos nossos princípios e da nossa táctica.

Presentemente, na Rússia, cresce visivelmente o estado de espírito revolucionário das massas. Nos outros países observam-se por toda a parte sintomas do mesmo fenómeno, apesar do estrangulamento das aspirações revolucionárias do proletariado pela maioria dos partidos sociais-democratas oficiais, que se colocaram ao lado dos seus governos e da sua burguesia. Semelhante estado de coisas torna particularmente urgente a publicação de uma brochura que faça o balanço da táctica social-democrata em relação à guerra. Ao reeditar integralmente os documentos do partido atrás referidos, acompanhamo-los de breves comentários, procurando ter em conta todos os principais argumentos a favor da táctica burguesa e da táctica proletária apresentados em publicações e nas reuniões do partido.

 

Prefácio à 2ª Edição

 

A presente brochura foi escrita no Verão de 1915, imediatamente antes da conferência de Zimmerwald(N163). Ela foi também editada em alemão e em francês e integralmente reproduzida em norueguês no órgão da juventude social-democrata norueguesa. A edição alemã da brochura foi ilegalmente introduzida na Alemanha — em Berlim, Leipzig, Bremen e outras cidades —, onde foi ilegalmente difundida pelos partidários da esquerda de Zimmerwald(N164) e pelo grupo de Karl Liebknecht. A edição francesa foi impressa ilegalmente em Paris e difundida aí pelos zimmerwaldianos franceses. A edição russa penetrou na Rússia em quantidade muito limitada, tendo sido copiada à mão em Moscovo pelos operários.

Reeditamos agora esta brochura integralmente, como documento. O leitor deve recordar-se sempre de que a brochura foi escrita em Agosto de 1915. É necessário recordá-lo especialmente nos pontos em que se fala da Rússia: a Rússia era então ainda a Rússia tsarista, a Rússia dos Románov...


Publicado na brochura editada em 1918.



______________

Notas de rodapé:

(N163) Trata-se da primeira conferência socialista internacional em Zimmerwald, realizada em 5-8 de Setembro de 1915 por iniciativa de socialistas italianos e suiços. Lénine chamou à Conferência de Zimmerwald o primeiro passo no desenvolvimento do movimento internacional contra a guerra. (retornar ao texto)

(N164) O grupo da esquerda de Zimmerwald foi criado por iniciativa de Lénine na conferência socialista internacional de Zimmerwald. Reunia 8 delegados, representantes do CC do POSDR e dos sociais-democratas de esquerda da Suécia, Noruega, Suíça, Alemanha, da oposição social-democrata polaca e dos sociais-democratas da região da Letónia. O grupo da esquerda de Zimmerwald, encabeçado pelos bolcheviques, lutou contra a maioria centrista da conferência e apresentou projectos de uma resolução e de um manifesto, nos quais se condenava a guerra imperialista, se denunciava a traição dos sociais-chauvinistas e se indicava a necessidade de travar uma luta activa contra a guerra. Esses projectos foram rejeitados pela maioria centrista. Contudo, a esquerda de Zimmerwald conseguiu introduzir no manifesto aprovado pela conferência uma série de teses importantes do seu projecto de resolução. A esquerda de Zimmerwald votou a favor do manifesto, assinalando numa declaração especial a inconsequência deste e os motivos por que votava a favor. Em torno da esquerda de Zimmerwald começaram a unir-se os elementos internacionalistas da social-democracia internacional. Os membros da esquerda de Zimmerwald desenvolveram um grande trabalho revolucionário e desempenharam um importante papel na criação dos partidos comunistas nos seus países.


 

Capítulo I

- Os Princípios do Socialismo e a Guerra de 1914-1915


A Atitude dos Socialistas em Relação às Guerras


Os socialistas sempre condenaram as guerras entre os povos como coisa bárbara e brutal. Mas a nossa atitude em relação à guerra é fundamentalmente diferente da dos pacifistas (partidários e pregadores da paz) burgueses e dos anarquistas. Distinguimo-nos dos primeiros pelo facto de compreendermos a ligação inevitável das guerras com a luta de classes no interior do país, de compreendermos a impossibilidade de suprimir as guerras sem a supressão das classes e a edificação do socialismo, e também pelo facto de reconhecermos inteiramente o carácter legítimo, progressista e necessário das guerras civis, isto é, das guerras da classe oprimida contra a classe opressora, dos escravos contra os escravistas, dos camponeses servos contra os senhores feudais, dos operários assalariados contra a burguesia. Nós, marxistas, distinguimo-nos tanto dos pacifistas como dos anarquistas pelo facto de reconhecermos a necessidade de estudar historicamente (do ponto de vista do materialismo dialéctico de Marx) cada guerra em particular. Na história houve repetidamente guerras que, apesar de todos os horrores, atrocidades, calamidades e sofrimentos inevitavelmente ligados a qualquer guerra, foram progressistas, isto é, foram úteis ao desenvolvimento da humanidade, ajudando a destruir instituições particularmente nocivas e reaccionárias (por exemplo a autocracia ou a servidão), os despotismos mais bárbaros da Europa (o turco e o russo). Por isso é necessário analisar as particularidades históricas da guerra actual.


Tipos Históricos das Guerras dos Tempos Modernos


A grande revolução francesa abriu uma nova época na história da humanidade. Desde então e até à Comuna de Paris, de 1789 a 1871, um dos tipos de guerras foram as guerras de carácter progressista burguês, nacional-libertador. Por outras palavras, o conteúdo principal e o significado histórico dessas guerras consistiam em derrubar o absolutismo e o feudalismo, em miná-los, em derrubar o jugo estrangeiro. Eram por isso guerras progressistas, e todos os democratas honestos, revolucionários, bem como todos os socialistas, em semelhantes guerras, sempre desejaram o êxito do país (isto é, da burguesia) que contribuía para derrubar ou minar os mais perigosos pilares do feudalismo, do absolutismo, e da opressão de outros povos. Por exemplo, nas guerras revolucionárias da França havia o elemento de pilhagem e de conquista de terras alheias pelos franceses, mas isso em nada altera o significado histórico fundamental dessas guerras, que destruíam e abalavam o feudalismo e o absolutismo de toda a velha Europa, a Europa da servidão. Na guerra franco-prussiana, a Alemanha pilhou a França, mas isso não modifica o significado histórico fundamental dessa guerra, que libertou dezenas de milhões de alemães do fraccionamento feudal e da opressão de dois déspotas, o tsar russo(1*) e Napoleão III.


Diferença entre Guerra Ofensiva e Guerra Defensiva


A época de 1789 a 1871 deixou marcas profundas e recordações revolucionárias. Antes do derrubamento do feudalismo, do absolutismo e do jugo estrangeiro nem sequer se podia falar de desenvolvimento da luta proletária pelo socialismo. Falando da legitimidade da guerra «defensiva» a propósito das guerras dessa época, os socialistas sempre tiveram em vista precisamente esses objectivos, que se reduzem à revolução contra o regime medieval e a servidão. Os socialistas sempre entenderam por guerra «defensiva» uma guerra «justa» neste sentido (assim se exprimiu uma vez W. Liebknecht(N165)). Só neste sentido os socialistas reconheciam e reconhecem hoje o carácter legítimo progressista e justo da «defesa da pátria» ou da guerra «defensiva». Por exemplo, se amanhã Marrocos declarasse guerra à França, a Índia à Inglaterra, a Pérsia ou a China à Rússia, etc., essas seriam guerras «justas», «defensivas», independentemente de quem primeiro atacasse, e qualquer socialista desejaria a vitória dos Estados oprimidos, dependentes, sem plenos direitos, contra as «grandes» potências opressoras, escravistas, espoliadoras. Mas imaginemos que um escravista que possui 100 escravos faz guerra a um escravista que possui 200 escravos por uma partilha mais «justa» dos escravos. É evidente que a aplicação a semelhante caso do conceito de guerra «defensiva» ou de «defesa da pátria» seria historicamente falsa e na prática uma simples mistificação do povo simples, da pequena burguesia, das pessoas ignorantes pelos escravistas. É precisamente assim que a actual burguesia, imperialista, mistifica os povos por meio da ideologia «nacional» e do conceito de defesa da pátria na presente guerra entre os escravistas para consolidar e reforçar a escravidão.


A Guerra Actual é uma Guerra Imperialista


Quase todos reconhecem que a actual guerra é uma guerra imperialista, mas na maior parte dos casos deturpam este conceito ou aplicam-no unilateralmente, ou insinuam em todo o caso a possibilidade de que esta guerra tenha um significado progressista burguês, nacional-libertador. O imperialismo é o grau superior de desenvolvimento do capitalismo, atingido apenas no século XX. O capitalismo passou a sentir-se, apertado nos velhos Estados nacionais, sem cuja formação ele não teria podido derrubar o feudalismo. O capitalismo desenvolveu de tal modo a concentração que ramos inteiros da indústria foram açambarcados pelos consórcios, trusts e associações de capitalistas milionários, e quase todo o globo terrestre está dividido entre esses «senhores do capital», sob a forma de colónias ou enredando países estrangeiros com os milhares de fios da exploração financeira. O comércio livre e a concorrência foram substituídos pela tendência para o monopólio, para a conquista de terras para o investimento do capital, para a extracção de matérias-primas, etc. De libertador de nações que o capitalismo foi na luta contra o feudalismo, o capitalismo imperialista tornou-se o maior opressor das nações. De progressista o capitalismo tornou-se reaccionário, desenvolveu as forças produtivas a tal ponto que a humanidade terá ou de passar ao socialismo ou de sofrer durante anos ou mesmo decénios a luta armada das «grandes» potências pela manutenção artificial do capitalismo por meio das colónias, dos monopólios, dos privilégios e de opressões nacionais de toda a espécie.

A Guerra entre os Maiores Escravistas pela Manutenção e Reforço da Escravidão

A fim de tornar claro o significado do imperialismo, apresentaremos dados precisos sobre a partilha do mundo pelas chamadas «grandes» potências (isto é, as que têm êxito na grande pilhagem):



Partilha do mundo pela «grandes» potências escravistas
(Em milhões)

 

Colónias

Metrópoles

Total

1876

1914

1914

Km2

Hab

Km2

Hab

Km2

Hab

Km2

Hab

Inglaterra

22,5

251,9

33,5

393,5

0,3

46,5

33,8

440,0

Rússia

17,0

15,9

17,4

33,2

5,4

136,2

22,8

169,4

França

0,9

6,0

10,6

55,5

0,5

39,6

11,1

95,1

Alemanha

 

 

2,9

12,3

0,5

64,9

3,4

77,2

Japão

 

 

0,3

19,2

0,4

53

0,7

72,2

EUA

 

 

0,3

9,7

9,4

97

9,7

106,7

Total das 6 grandes potências

40,4

273,8

65,0

523,4

16,5

437,2

81,5

960,6

Colónias não pertencentes às grandes potências
(mas à Bélgica, Holanda e outros Estados)

 

 

9,9

45,3

 

 

9,9

45,3

Três países semi-colónias
(Turquia, China e Pérsia)

 

 

 

 

 

 

14,5

361,2

Total

 

 

 

 

 

 

105,9

1367,1

Restantes Estados e países

 

 

 

 

 

 

28,0

289,9

Todo o globo terrestre (excepto a região polar)

 

 

 

 

 

 

133,9

1957



Por aqui se vê como os povos que em 1789-1871 lutavam na sua maior parte à frente dos outros povos pela liberdade se tornaram agora, depois de 1876, na base de um capitalismo altamente desenvolvido e «ultramaduro», os opressores e escravizadores da maioria das populações e nações do globo. De 1876 a 1914, seis «grandes» potências apoderaram-se de 25 milhões de quilómetros quadrados, ou seja, uma superfície 2,5 vezes maior que toda a Europa! Seis potências escravizam mais de quinhentos milhões (523 milhões) de habitantes das colónias. Para cada 4 habitantes das «grandes» potências há 5 habitantes nas «suas» colónias. E toda a gente sabe que as colónias foram conquistadas a ferro e fogo, que nas colónias tratam cruelmente a população, que a exploram de mil maneiras (através da exportação de capitais, das concessões, etc.; enganando-as na venda de produtos, submetendo-as às autoridades da nação «dominante», etc. e assim por diante). A burguesia anglo-francesa engana o povo ao dizer que faz a guerra pela liberdade dos povos e da Bélgica: na realidade ela faz a guerra para conservar as colónias que rouba desmesuradamente. Os imperialistas alemães libertariam imediatamente a Bélgica, etc., se os ingleses e franceses partilhassem «amigavelmente» com eles as suas colónias. A singularidade da situação consiste em que nesta guerra a sorte das colónias se decide pela guerra no continente. Do ponto de vista da justiça burguesa e da liberdade nacional (ou do direito das nações à existência), a Alemanha teria incontestavelmente razão contra a Inglaterra e a França, pois ela foi «privada» de colónias, os seus inimigos oprimem incomparavelmente mais nações do que ela, e na sua aliada, a Áustria, os eslavos oprimidos gozam sem dúvida de maior liberdade do que na Rússia tsarista, essa verdadeira «prisão dos povos». Mas a própria Alemanha não faz a guerra pela libertação mas pela opressão das nações. Não cabe aos socialistas ajudar o bandoleiro mais jovem e forte (a Alemanha) a roubar os bandoleiros mais velhos e saciados. Os socialistas devem utilizar a luta entre os bandoleiros para os derrubar a todos. Para isso os socialistas devem antes de mais dizer a verdade ao povo, a saber, que esta guerra é, num triplo sentido, uma guerra de escravistas pelo reforço da escravidão. É uma guerra, em primeiro lugar, pelo reforço da escravidão das colónias através de uma partilha mais «justa» e da sua ulterior exploração mais «harmoniosa»; em segundo lugar, pelo reforço da opressão sobre as nações estrangeiras nas próprias «grandes» potências, pois tanto a Áustria como a Rússia (a Rússia muito mais e muito pior que a Áustria) só se mantêm por meio dessa opressão, intensificando-a com a guerra; em terceiro lugar, pelo reforço e o prolongamento da escravidão assalariada, pois o proletariado está dividido e esmagado, enquanto os capitalistas estão a ganhar, lucrando com a guerra, exacerbando os preconceitos nacionais e intensificando a reacção, que ergueu a cabeça em todos os países, mesmo nos mais livres e republicanos.

«A Guerra é a continuação da Política por outros meios (a saber: pela violência)»

Esta célebre sentença pertence a Clausewitz um dos autores mais profundos sobre as questões militares. Os marxistas sempre consideraram justamente esta tese como base teórica das concepções sobre o significado de cada guerra determinada. Marx e Engels sempre encararam as diferentes guerras precisamente deste ponto de vista.

Apliquemos esta concepção à presente guerra. Veremos que durante decénios, durante quase meio século, os governos e as classes dominantes da Inglaterra, da França, da Alemanha, da Itália, da Áustria e da Rússia praticaram uma política de pilhagem das colónias, de opressão de nações estrangeiras, de repressão do movimento operário. É precisamente essa política, e apenas essa, que é continuada na actual guerra. Em particular, na Áustria e na Rússia a política tanto do tempo de paz como do tempo de guerra consiste na escravização das nações e não na sua libertação. Pelo contrário, na China, na Pérsia, na Índia e noutros países dependentes vemos ao longo dos últimos decénios uma política de despertar para a vida nacional de dezenas e centenas de milhões de pessoas, da sua libertação da opressão das «grandes» potências reaccionárias. A guerra nesse terreno histórico pode ser ainda hoje uma guerra progressista burguesa, uma guerra de libertação nacional.

Basta considerar a presente guerra do ponto de vista da continuação nela da política das «grandes» potências e das classes fundamentais no seio delas para ver imediatamente o carácter clamorosamente anti-histórico, mentiroso e hipócrita da opinião segundo a qual seria possível justificar a ideia de «defesa da pátria» na actual guerra.


O Exemplo da Bélgica


Os sociais-chauvinistas da Tripla (actualmente Quádrupla) Entente(N166) (na Rússia Plekhánov e Cª) gostam acima de tudo de invocar o exemplo da Bélgica. Mas esse exemplo fala contra eles. Os imperialistas alemães violaram sem vergonha a neutralidade da Bélgica, como fizeram sempre e em toda a parte os Estados beligerantes, que, em caso de necessidade, espezinharam todos os tratados e compromissos. Admitamos que todos os Estados interessados na observância dos tratados internacionais declarassem guerra à Alemanha exigindo a libertação e uma indemnização à Bélgica. Em tal caso a simpatia dos socialistas estaria, claro, do lado dos inimigos da Alemanha. Contudo, a questão está precisamente em que não é pela Bélgica que a «Tripla (e Quádrupla) Aliança» faz a guerra: isso é perfeitamente conhecido e só os hipócritas o dissimulam. A Inglaterra rouba as colónias da Alemanha e a Turquia, a Rússia rouba a Galícia e a Turquia, a França obtém a Alsácia-Lorena e mesmo a margem esquerda do Reno; com a Itália foi concluído um tratado sobre a partilha do saque (a Albânia e a Ásia Menor); com a Bulgária e a Roménia está em curso um regateio também quanto à partilha do saque. No terreno da guerra actual dos governos actuais é impossível ajudar a Bélgica a não ser ajudando a estrangular a Áustria ou a Turquia, etc.! Que vem aqui fazer a «defesa da pátria»?? É nisso precisamente que consiste a especificidade da guerra imperialista, da guerra entre governos burgueses reaccionários, historicamente caducos, conduzida para a opressão de outras nações. Quem justifique a participação nesta guerra perpetua a opressão imperialista das nações. Quem advogue a utilização das actuais dificuldades dos governos para lutar pela revolução socialista defende a liberdade real realmente de todas as nações, que só é realizável no socialismo.


Por que está a Rússia em guerra?


Na Rússia, o imperialismo capitalista de tipo moderno revelou-se plenamente na política do tsarismo em relação à Pérsia, à Manchúria, à Mongólia, mas na Rússia, de modo geral, predomina o imperialismo militar e feudal. Em nenhuma outra parte do mundo existe uma tal opressão da maioria da população do país como na Rússia: os grãos-russos constituem apenas 43% da população, isto é, menos de metade, e todos os restantes estão privados de direitos, como alógenos. Dos 170 milhões de habitantes da Rússia cerca de 100 milhões são oprimidos e privados de direitos. O tsarismo faz a guerra para conquistar a Galícia e estrangular definitivamente a liberdade dos ucranianos, para conquistar a Arménia, e Constantinopla, etc. O tsarismo vê na guerra um meio para desviar a atenção do crescimento do descontentamento no interior do país e esmagar o crescente movimento revolucionário. Presentemente, para cada dois grão-russos há na Rússia dois ou três «alógenos» privados de direitos: por meio da guerra o tsarismo procura aumentar o número de nações oprimidas pela Rússia, consolidar a sua opressão e fazer desse modo fracassar a luta pela liberdade dos próprios grão-russos. A possibilidade de oprimir e de roubar outros povos reforça a estagnação económica, pois em vez do desenvolvimento das forças produtivas, a fonte de rendimentos é frequentemente constituída pela exploração semifeudal dos «alógenos». Deste modo, por parte da Rússia a guerra distingue-se por um extremo reaccionarismo e por um carácter antilibertador.


Que é o social-chauvinismo?


O social-chauvinismo é a defesa da ideia de «defesa da pátria» na presente guerra. Dessa ideia decorrem, seguidamente, a renúncia à luta de classes durante a guerra, a votação dos créditos de guerra, etc. De facto os sociais-chauvinistas praticam uma política antiproletária, burguesa, pois de facto preconizam não a «defesa da pátria» no sentido de luta contra a opressão estrangeira, mas o «direito» de tais ou tais «grandes» potências de pilhar as colónias e de oprimir outros povos. Os sociais-chauvinistas repetem a mistificação burguesa do povo segundo a qual a guerra é travada pela defesa da liberdade e da existência das nações, e passam assim para o lado da burguesia contra o proletariado. São sociais-chauvinistas tanto aqueles que justificam e embelezam os governos e a burguesia de um dos grupos de potências beligerantes como aqueles que, a exemplo de Kautsky, reconhecem aos socialistas de todas as potências beligerantes igual direito a «defender a pátria». O social-chauvinismo, que é de facto a defesa dos privilégios, das vantagens, das pilhagens e das violências da «sua» burguesia (ou de qualquer burguesia em geral) imperialista, constitui uma completa traição a todas as convicções socialistas e à resolução do congresso socialista internacional de Basileia.

O Manifesto de Baileia

O manifesto sobre a guerra adoptado por unanimidade em 1912 em Basileia tem em vista precisamente a guerra entre a Inglaterra e a Alemanha com os seus actuais aliados, que eclodiu em 1914. O manifesto declara expressamente que nenhum interesse popular pode justificar semelhante guerra, conduzida «pelo lucro dos capitalistas e pelas vantagens das dinastias» com base na política imperialista e espoliadora das grandes potências. O manifesto declara expressamente que a guerra é perigosa «para os governos» (todos sem excepção), assinala o seu medo da «revolução proletária», aponta da maneira mais definida o exemplo da Comuna de 1871 e o de Outubro-Dezembro de 1905, isto é, o exemplo da revolução e da guerra civil. Deste modo, o manifesto de Basileia estabelece precisamente para a presente guerra a táctica da luta revolucionária dos operários à escala internacional contra os seus governos, a táctica da revolução proletária. O manifesto de Basileia repete as palavras da resolução de Estugarda, dizendo que, em caso de eclosão da guerra, os socialistas deviam aproveitar a «crise económica e política» por ela criada para «acelerar a queda do capitalismo», isto é, utilizar as dificuldades criadas pela guerra aos governos e a indignação das massas para a revolução socialista.

A política dos sociais-chauvinistas, a justificação por eles da guerra de pontos de vista libertadores burgueses, a admissão por eles da «defesa da pátria», a votação a favor dos créditos, a entrada nos ministérios, etc., etc., são uma traição directa ao socialismo, só explicável, como veremos adiante, pela vitória do oportunismo e da política operária nacional-liberal no seio da maioria dos partidos europeus.


As referências falsas a Marx e Engels


Os sociais-chauvinistas russos (encabeçados por Plekhánov) referem a táctica de Marx na guerra de 1870; os sociais-chauvinistas alemães (do tipo de Lensch, David e Cª) referem as declarações de Engels em 1891 sobre a obrigatoriedade de os socialistas alemães defenderem a pátria em caso de guerra com a Rússia e a França juntas; finalmente, os sociais-chauvinistas do tipo de Kautsky, desejando reconciliar-se com o chauvinismo internacional e legitimá-lo, referem-se ao facto de Marx e Engels, condenando as guerras, se terem no entanto colocado constantemente, de 1854-1855 até 1870-1871 e 1876-1877, ao lado de um ou de outro Estado beligerante, uma vez que a guerra apesar de tudo se desencadeava.

Todas essas referências constituem uma revoltante deturpação das concepções de Marx e Engels para agradar à burguesia e aos oportunistas, tal como os escritos dos anarquistas Guillaume e Cª deturpam as concepções de Marx e Engels para justificar o anarquismo. A guerra de 1870-1871 foi historicamente progressista por parte da Alemanha até Napoleão III ser derrotado, pois este, juntamente com o tsar(2*), oprimiu a Alemanha durante longos anos, mantendo ali o fraccionamento feudal. E logo que a guerra se transformou em pilhagem da França (a anexação da Alsácia e da Lorena) Marx e Engels condenaram decididamente os alemães. De resto, logo no início dessa guerra Marx e Engels aprovaram a recusa de Bebel e Liebknecht de votar a favor dos créditos e aconselharam a social-democracia a não se juntar à burguesia, mas defender os interesses de classe independentes do proletariado. Transferir uma apreciação dessa guerra progressista burguesa e nacional-libertadora para a actual guerra imperialista é escarnecer da verdade. O mesmo diz também respeito, com maior força ainda, à guerra de 1854-1855 e a todas as guerras do século XIX, quando não existiam nem o imperialismo contemporâneo, nem as condições objectivas maduras do socialismo, nem partidos socialistas de massas em todos os países beligerantes, isto é, não existiam precisamente as condições das quais o manifesto de Basileia deduziu a táctica da «revolução proletária» em ligação com a guerra entre as grandes potências.

Quem refere hoje a atitude de Marx em relação às guerras da época da burguesia progressista e esquece as palavras de Marx «os operários não têm pátria» — palavras que dizem respeito precisamente à época da burguesia reaccionária, caduca, à época da revolução socialista — deturpa Marx sem vergonha e substitui o ponto de vista socialista pelo burguês.


A Falência da II Internacional


Os socialistas de todo o mundo declararam solenemente em 1912 em Basileia que consideravam a futura guerra europeia como uma empresa «criminosa» e reaccionaríssima de todos os governos, que devia acelerar a derrocada do capitalismo, gerando inevitavelmente a revolução contra ele. Começou a guerra, começou a crise. Em vez da táctica revolucionária, a maioria dos partidos sociais-democratas aplicaram uma táctica reaccionária, colocando-se ao lado dos seus governos e da sua burguesia. Esta traição ao socialismo significa a falência da II Internacional (1889-1914), e nós devemos aperceber-nos do que causou essa falência, do que gerou o social-chauvinismo, daquilo que lhe deu força.


O Social-Chauvinismo é o oportunismo acabado


Durante toda a época da II Internacional decorreu por toda a parte uma luta no interior dos partidos sociais-democratas entre a ala revolucionária e a ala oportunista. Em vários países houve cisão segundo esta linha (Inglaterra, Itália, Holanda, Bulgária). Nenhum marxista duvidava de que o oportunismo expressava a política burguesa no movimento operário, expressava os interesses da pequena burguesia e da aliança de uma ínfima parte de operários aburguesados com a «sua» burguesia contra os interesses da massa dos proletários, da massa dos oprimidos.

As condições objectivas de fins do século XIX reforçavam particularmente o oportunismo, transformando a utilização da legalidade burguesa em servilismo para com ela, criando a pequena camada da burocracia e da aristocracia da classe operária, atraindo para as fileiras dos partidos sociais-democratas muitos «companheiros de jornada» pequeno-burgueses.

A guerra acelerou o desenvolvimento, transformando o oportunismo em social-chauvinismo, transformando a aliança secreta dos oportunistas com a burguesia numa aliança aberta. Além disso, as autoridades militares decretaram por toda a parte a lei marcial e a mordaça para a massa operária, cujos velhos chefes se passaram, quase sem excepção, para a burguesia.

A base económica do oportunismo e do social-chauvinismo é a mesma: os interesses de uma ínfima camada de operários privilegiados e da pequena burguesia, que defendem a sua situação privilegiada, o seu «direito» às migalhas dos lucros obtidos pela «sua» burguesia nacional com a pilhagem de outras nações, com as vantagens da sua situação de grande potência, etc.

O conteúdo ideológico-político do oportunismo e do social-chauvinismo é o mesmo: a colaboração de classes em vez da sua luta, a renúncia aos meios revolucionários de luta, a ajuda ao «seu» governo em situação difícil em vez da utilização das suas dificuldades para a revolução. Se considerarmos todos os países europeus no conjunto, se não tivermos em atenção personalidades isoladas (mesmo as de maior prestígio), verificaremos que foi precisamente a corrente oportunista que se tornou o principal esteio do social-chauvinismo, e no campo dos revolucionários se ouve quase por toda a parte um protesto mais ou menos consequente contra ele. E se considerarmos, por exemplo, o agrupamento das tendências no congresso socialista internacional de Estugarda de 1907, verificaremos que o marxismo internacional era contra o imperialismo, enquanto o oportunismo internacional já então era a favor dele.


A Unidade com os oportunistas é a aliança dos operários com a «sua» burguesia nacional e a cisão da classe operária revolucionária internacional


Na época passada, antes da guerra, o oportunismo era frequentemente considerado um «desvio», um «extremismo», mas em todo o caso uma parte constitutiva legítima do partido social-democrata. A guerra mostrou que isso é impossível no futuro. O oportunismo «amadureceu», levou até ao fim o seu papel de emissário da burguesia no movimento operário. A unidade com os oportunistas tornou-se uma hipocrisia completa, de que vemos um exemplo no partido social-democrata alemão. Em todos os casos importantes (por exemplo na votação de 4 de Agosto) os oportunistas aparecem com o seu ultimato, pondo-o em prática com a ajuda das suas numerosas ligações com a burguesia, da sua maioria nas direcções dos sindicatos, etc. A unidade com os oportunistas significa presentemente de facto a subordinação da classe operária à «sua» burguesia nacional, a aliança com ela para oprimir outras nações e lutar pelos privilégios de grande potência, sendo uma cisão do proletariado revolucionário de todos os países.

Por mais dura que seja em certos casos a luta contra os oportunistas que dominam em muitas organizações, por mais peculiar que seja em certos países o processo de depuração dos partidos operários dos oportunistas, esse processo é inevitável e fecundo. O socialismo reformista agoniza; o socialismo que renasce «será revolucionário, intransigente, insurrecto», segundo a justa expressão do socialista francês Paul Golay(N167).


O «Kautskismo»


Kautsky, a maior autoridade da II Internacional, representa um exemplo extremamente típico e expressivo de como o reconhecimento verbal do marxismo conduziu na prática à sua transformação em «struvismo»(N168) ou em «brentanismo». Vemo-lo também no exemplo de Plekhánov. Por meio de sofismas evidentes extirpam do marxismo a sua alma revolucionária viva, reconhecem no marxismo tudo, menos os meios revolucionários de luta, a propaganda e a preparação destes, a educação das massas precisamente nesse sentido. Kautsky «concilia» sem princípios o pensamento fundamental do social-chauvinismo, a aceitação da defesa da pátria na presente guerra, com uma concessão diplomática e aparente à esquerda na forma de abstenção na votação dos créditos, de reconhecimento verbal da sua oposição, etc. Kautsky, que em 1909 escreveu todo um livro sobre a aproximação de uma época de revoluções e sobre a ligação da guerra com a revolução, Kautsky, que em 1912 subscreveu o manifesto de Basileia sobre a utilização revolucionária da guerra futura, justifica e embeleza hoje de todas as maneiras o social-chauvinismo e, tal como Plekhánov, junta-se à burguesia para ridicularizar quaisquer ideias de revolução, quaisquer passos no sentido da luta directamente revolucionária.

A classe operária não pode desempenhar o seu papel revolucionário mundial sem travar uma luta implacável contra essa renegação, essa irresolução, esse servilismo em relação ao oportunismo e esse incrível aviltamento teórico do marxismo. O kautskismo não é fruto do acaso, mas o produto social das contradições da II Internacional, da junção da fidelidade em palavras ao marxismo com a submissão de facto ao oportunismo.

Esta mentira fundamental do «kautskismo» manifesta-se de diferentes formas nos diferentes países. Na Holanda, Roland-Holst, rejeitando a ideia de defesa da pátria, defende a unidade com o partido dos oportunistas. Na Rússia, Trótski, rejeitando igualmente essa ideia, defende do mesmo modo a unidade com o grupo oportunista e chauvinista do Nacha Zariá. Na Roménia, Rakovski, ao mesmo tempo que declara guerra ao oportunismo como culpado da falência da Internacional, está disposto a reconhecer a legitimidade da ideia de defesa da pátria. Tudo isto são manifestações do mal a que os marxistas holandeses (Gorter, Pannekoek) chamaram «radicalismo passivo» e que se reduz à substituição do marxismo revolucionário pelo eclectismo na teoria e ao servilismo ou à impotência perante o oportunismo na prática.


A palavra de ordem dos marxistas é a palavra de ordem da social-democracia revolucionária


A guerra gerou indubitavelmente uma crise violentíssima e agudizou incrivelmente os sofrimentos das massas. O carácter reaccionário desta guerra, a desavergonhada mentira da burguesia de todos os países, que dissimula os seus objectivos de pilhagem com a ideologia «nacional», tudo isso cria inevitavelmente, na base da situação objectivamente revolucionária, um estado de espírito revolucionário nas massas. O nosso dever é ajudar a tomar consciência desse estado de espírito, a aprofundá-lo e a dar-lhe forma. Essa tarefa só é correctamente expressa pela palavra de ordem de transformação da guerra imperialista em guerra civil, e qualquer luta de classe consequente durante a guerra, qualquer táctica de «acções de massas» seriamente aplicada conduz inevitavelmente a isso. Não se pode saber se será devido à primeira ou à segunda guerra imperialista das grandes potências, durante ela ou depois dela que nascerá um forte movimento revolucionário, mas em qualquer caso é nosso dever absoluto trabalhar de modo sistemático e constante precisamente nesse sentido.

O manifesto de Basileia refere directamente o exemplo da Comuna de Paris, isto é, a transformação da guerra de governos em guerra civil. Há meio século o proletariado era demasiado fraco, as condições objectivas do socialismo ainda não tinham amadurecido, não podia haver correspondência e cooperação dos movimentos revolucionários em todos os países beligerantes, o entusiasmo de uma parte dos operários parisienses pela «ideologia nacional» (tradição de 1792) era uma sua fraqueza pequeno-burguesa, a seu tempo assinalada por Marx e que foi uma das causas do fracasso da Comuna. Meio século depois dela desapareceram as condições que enfraqueciam a revolução de então, e presentemente é imperdoável para um socialista conformar-se com a recusa de actuar precisamente no espírito dos communards parisienses.


O exemplo da confraternização nas trincheiras


Os jornais burgueses de todos os países beligerantes citaram exemplos de confraternização dos soldados das nações beligerantes mesmo nas trincheiras. E a promulgação de decretos draconianos pelas autoridades militares (da Alemanha, da Inglaterra) contra essa confraternização demonstrou que os governos e a burguesia lhe atribuíam uma séria importância. Se mesmo com o completo domínio do oportunismo nas cúpulas dos partidos sociais-democratas da Europa ocidental e com o apoio ao social-chauvinismo por toda a imprensa social-democrata, por todas as autoridades da II Internacional, foram possíveis casos de confraternização, isso mostra-nos até que ponto seria possível abreviar a actual guerra criminosa, reaccionária e escravista e organizar um movimento revolucionário internacional com um trabalho sistemático nesse sentido, nem que fosse só dos socialistas de esquerda de todos os países beligerantes.


Importância da organização ilegal


Os mais destacados anarquistas de todo o mundo não se desonraram menos que os oportunistas com o social-chauvinismo (no espírito de Plekhánov e de Kautsky) nesta guerra. Um dos resultados úteis desta guerra será, sem dúvida, que ela matará tanto o oportunismo como o anarquismo.

Sem renunciar em nenhum caso e em nenhumas circunstâncias à utilização da mínima possibilidade legal para organizar as massas e fazer propaganda do socialismo, os partidos sociais-democratas devem romper com o servilismo perante a legalidade. «Disparai primeiro, senhores burgueses», escreveu Engels aludindo precisamente à guerra civil e à necessidade de nós violarmos a legalidade depois de a burguesia a ter violado. A crise mostrou que a burguesia a viola em todos os países, mesmo nos mais livres, e que é impossível conduzir as massas à revolução sem criar uma organização ilegal para propagar, discutir, apreciar e preparar os meios revolucionários de luta. Na Alemanha, por exemplo, tudo aquilo que os socialistas fazem de honesto é feito contra o vil oportunismo e o «kautskismo» hipócrita e é feito precisamente na ilegalidade. Na Inglaterra é-se condenado a trabalhos forçados devido a apelos impressos à recusa do serviço militar.

Considerar compatível com a condição de membro do partido social-democrata a negação dos métodos ilegais de propaganda e ridicularizá-los na imprensa legal é uma traição ao socialismo.


Sobre a derrota do «seu» governo na guerra imperialista


Os defensores da vitória do seu governo na presente guerra, tal como os defensores da palavra de ordem «nem vitória nem derrota», adoptam do mesmo modo o ponto de vista do social-chauvinismo. Numa guerra reaccionária, a classe revolucionária não pode deixar de desejar a derrota do seu governo, não pode deixar de ver a ligação entre os fracassos militares deste e a facilitação do seu derrubamento. Só o burguês, que acredita que uma guerra iniciada pelos governos terminará necessariamente como uma guerra entre governos, e que o deseja, acha «ridícula» ou «absurda» a ideia de que os socialistas de todos os países beligerantes afirmem que desejam a derrota de todos os «seus» governos. Pelo contrário, essa afirmação corresponderia precisamente aos pensamentos secretos de qualquer operário consciente e inscrever-se-ia na linha da nossa actividade, orientada para a transformação da guerra imperialista em guerra civil.

Sem dúvida que a importante agitação contra a guerra de uma parte dos socialistas ingleses, alemães e russos «enfraquecia o poderio militar» dos respectivos governos, mas essa agitação foi um mérito dos socialistas. Os socialistas devem explicar às massas que para elas não há salvação a não ser no derrubamento revolucionário dos «seus» governos e que as dificuldades desses governos na guerra actual devem ser utilizadas precisamente com esse objectivo.


Sobre o pacifismo e a palavra de ordem de paz


O estado de espírito das massas a favor da paz exprime frequentemente o início de um protesto, da revolta e da consciência do carácter reaccionário da guerra. Aproveitar esse estado de espírito é um dever de todos os sociais-democratas. Eles participam do modo mais ardente em todos os movimentos e em todas as manifestações neste terreno, mas não enganarão o povo admitindo a ideia de que, na ausência de um movimento revolucionário, é possível a paz sem anexações, sem opressão das nações, sem pilhagem, sem os germes de novas guerras entre os actuais governos e classes dominantes. Enganar assim o povo apenas faria o jogo da diplomacia secreta dos governos beligerantes e dos seus planos contra-revolucionários. Quem deseja uma paz sólida e democrática deve ser a favor da guerra civil contra os governos e a burguesia.

Sobre o direito das nações à autodeterminação

A mistificação mais comum do povo pela burguesia na presente guerra é o encobrimento dos seus objectivos de pilhagem com a ideologia da «libertação nacional». Os ingleses prometem a liberdade à Bélgica, os alemães à Polónia, etc. Na realidade, como vimos, esta é uma guerra entre os opressores da maioria das nações do mundo pelo reforço e o alargamento dessa opressão.

Os socialistas não podem alcançar o seu grande objectivo sem lutar contra toda a opressão das nações. Por isso eles devem obrigatoriamente exigir que os partidos sociais-democratas dos países opressores (particularmente das chamadas «grandes» potências) reconheçam e defendam o direito das nações oprimidas à autodeterminação, e precisamente no sentido político da palavra, isto é, o direito à separação política. Um socialista de uma nação que seja uma grande potência ou possua colónias que não defende esse direito é um chauvinista.

A defesa desse direito não só não estimula a criação de pequenos Estados como, pelo contrário, conduz à formação mais livre, mais ousada e por isso mais ampla e mais generalizada de grandes Estados e de uniões entre Estados, mais vantajosos para as massas e correspondendo melhor ao desenvolvimento económico.

Os socialistas das nações oprimidas, por sua vez, devem obrigatoriamente lutar pela completa unidade (incluindo organizativa) dos operários das nacionalidades oprimidas e opressoras. A ideia de separação jurídica de uma nação de outra (a chamada «autonomia nacional cultural» de Bauer e Renner) é uma ideia reaccionária.

O imperialismo é a época da progressiva opressão das nações de todo o mundo por um punhado de «grandes» potências, e por isso a luta pela revolução socialista internacional contra o imperialismo é impossível sem o reconhecimento do direito das nações à autodeterminação. «Não pode ser livre um povo que oprime outros povos» (Marx e Engels). Não pode ser socialista um proletariado que admite a mínima violência da «sua» nação sobre outras nações.



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Notas de rodapé:

(1*) Alexandre III. (N. Ed.)


(N165) Lénine refere-se à intervenção de W. Liebknecht no congresso de Erfurt da social-democracia alemã em 1891.


(N166) Quádrupla (Entente): aliança imperialista entre a Inglaterra, a Rússia, a França e a Itália, que em 1915 saiu da Tripla Aliança para aderir à Tripla Entente. (retornar ao texto)

(2*) Alexandre II. (N. Ed.)


(N167) Em 11 de Março de 1915, em Lausana, o socialista francês P. Golay fez uma conferência sobre o tema «O Socialismo Agonizante e o Socialismo que deve Renascer».


(N168) Struvismo ou teoria struvista: deturpação burguesa liberal do marxismo. Que recebeu o nome de P. Struve, principal representante do «marxismo legal» na Rússia. O «marxismo legal» surgiu como corrente político-social independente nos anos 90 do século XIX entre a intelectualidade burguesa liberal da Rússia. Os «marxistas legais», encabeçados por Struve, procuravam utilizar o marxismo no interesse da burguesia. Nesse tempo, na Rússia, o marxismo tinha uma difusão bastante ampla e os intelectuais burgueses, sob a bandeira do marxismo, começaram a pregar as suas opiniões na imprensa legal. Da doutrina de Marx suprimiam aquilo que era o mais importante – a doutrina da revolução proletária e da ditadura do proletariado.


 

 

Capítulo II

- As Classes e os Partidos na Rússia


A Burguesia e a Guerra


Há um aspecto em que o governo russo não se atrasou relativamente aos seus confrades europeus: tal como eles, ele soube enganar o «seu» povo em proporções grandiosas. Um imenso, um monstruoso aparelho de mentira e de artifícios foi posto em funcionamento também na Rússia a fim de contaminar as massas com o chauvinismo, a fim de suscitar a ideia de que o governo tsarista conduz uma guerra «justa», defende desinteressadamente os seus «irmãos eslavos», etc.

A classe dos latifundiários e as camadas superiores da burguesia comercial-industrial apoiaram a política belicista do governo tsarista. Eles esperam justamente enormes proveitos materiais e privilégios da partilha da herança turca e austríaca. Toda uma série dos seus congressos antegozam já os lucros que encheriam os seus bolsos em caso de vitória do exército tsarista. Além disso, os reaccionários compreendem muito bem que se alguma coisa pode ainda adiar a queda da monarquia dos Románov e retardar uma nova revolução na Rússia é apenas uma guerra externa vitoriosa para o tsar.

Amplas camadas da «média» burguesia urbana, da intelectualidade burguesa, de pessoas das profissões liberais, etc.— pelo menos no início da guerra —, foram também contaminadas pelo chauvinismo. O partido da burguesia liberal russa — os democratas-constitucionalistas — apoiou inteiramente e sem reservas o governo do tsar. No domínio da política externa, os democratas-constitucionalistas já são há muito um partido governamental. O pan-eslavismo(N169), por meio do qual a diplomacia tsarista já por mais de uma vez perpetrou os seus grandiosos embustes políticos, tornou-se a ideologia oficial dos democratas-constitucionalistas. O liberalismo russo degenerou em nacional-liberalismo. Ele rivaliza em «patriotismo» com as centúrias negras, vota sempre de bom grado pelo militarismo, em terra e no mar, etc. No campo do liberalismo russo observa-se aproximadamente o mesmo fenómeno que nos anos 70 na Alemanha, quando o liberalismo «livre-pensador» se desagregou e deu origem ao partido nacional-liberal. A burguesia liberal russa tomou definitivamente o caminho da contra-revolução. O ponto de vista do POSDR sobre esta questão confirmou-se inteiramente. Foi derrotada pela vida a opinião dos nossos oportunistas segundo a qual o liberalismo russo seria ainda uma força motora da revolução na Rússia.

Também entre o campesinato a clique dirigente conseguiu, com a ajuda da imprensa burguesa, do clero, etc., suscitar um estado de espírito chauvinista. Mas, à medida que os soldados forem regressando dos campos do massacre, o estado de espírito no campo modificar-se-á indubitavelmente em desfavor da monarquia tsarista. Os partidos democráticos burgueses relacionados com o campesinato não resistiram à onda chauvinista. O partido dos trudoviques recusou-se, na Duma de Estado, a votar os créditos de guerra. Mas pela boca do seu chefe, Kérenski, divulgou uma declaração «patriótica» extraordinariamente favorável para a monarquia. Toda a imprensa legal dos «populistas» se arrastou de modo geral atrás dos liberais. Até a ala esquerda da democracia burguesa — o chamado partido dos socialistas-revolucionários, filiado no Bureau Socialista Internacional — seguiu a mesma corrente. O representante desse partido no BSI, Sr. Rubánovitch, fala como um social-chauvinista confesso. Metade dos delegados desse partido na conferência de Londres dos socialistas da «Entente»(N170) votou a favor da resolução chauvinista (enquanto a outra metade se abstinha). Na imprensa ilegal dos socialistas-revolucionários (o jornal Nóvosti(N171), etc.) predominam os chauvinistas. Os revolucionários «do meio burguês», isto é, os revolucionários burgueses que não estão ligados à classe operária sofreram uma falência brutal nesta guerra. O triste destino de Kropótkine, Búrtsev, Rubánovitch, é extremamente significativo.


A Classe Operária e a Guerra


O proletariado é a única classe da Rússia à qual não foi possível inocular os germes do chauvinismo. Os excessos isolados no início da guerra afectaram apenas as camadas mais atrasadas dos operários. A participação dos operários nos actos indignos de Moscovo contra os alemães foi fortemente exagerada. De modo geral, a classe operária da Rússia mostrou-se imunizada em relação ao chauvinismo.

Isso explica-se pela situação revolucionária no país e pelas condições gerais de vida do proletariado da Rússia.

Os anos de 1912-1914 foram marcados pelo início de um novo e grandioso ascenso revolucionário na Rússia. De novo assistimos a um grande movimento grevista, sem precedentes no mundo. A greve revolucionária de massas atraiu em 1913, segundo os cálculos mais baixos, 1,5 milhões de participantes, e em 1914 ultrapassou os 2 milhões e aproximou-se do nível de 1905. Em vésperas da guerra, em Petersburgo, as coisas foram já até aos primeiros combates de barricadas.

O Partido Operário Social-Democrata da Rússia, ilegal, cumpriu o seu dever para com a Internacional. A bandeira do internacionalismo não tremeu nas suas mãos. O nosso partido rompeu há muito organizativamente com os grupos e elementos oportunistas. O nosso partido não arrastou atrás de si as grilhetas do oportunismo e do «legalismo a todo o custo». E essa circunstância ajudou-o a cumprir o seu dever revolucionário — tal como a cisão com o partido oportunista de Bissolati ajudou os camaradas italianos.

A situação geral no nosso país é desfavorável ao desabrochar do oportunismo «socialista» no seio das massas operárias. Vemos na Rússia toda uma série de matizes de oportunismo e reformismo entre os intelectuais, a pequena burguesia, etc. Mas ele está em ínfima minoria entre as camadas politicamente activas dos operários. A camada dos operários e empregados privilegiados é entre nós muito fraca. No nosso país não pôde formar-se o fetichismo da legalidade. Os liquidacionistas (o partido dos oportunistas, dirigido por Axelrod, Potréssov, Tcherevánine, Máslov, etc.) não tinham antes da guerra qualquer apoio sério entre as massas operárias. Os 6 deputados operários eleitos para a IV Duma de Estado eram todos adversários do liquidacionismo. A tiragem e as colectas de fundos da imprensa operária legal em Petrogrado e Moscovo mostraram irrefutavelmente que 4/5 dos operários conscientes são contra o oportunismo e o liquidacionismo.

Desde o princípio da guerra o governo tsarista prendeu e deportou milhares e milhares de operários avançados, membros do nosso POSDR ilegal. Esta circunstância, a par da proclamação da lei marcial no país, do encerramento dos nossos jornais, etc., retardou o movimento. Mas o trabalho revolucionário ilegal do nosso partido continua mesmo assim. Em Petrogrado o comité do nosso partido publica o jornal ilegal Proletarski Gólos(N172).

Os artigos do Órgão Central, o Sotsial-Demokrat, publicado no estrangeiro, são reimpressos em Petrogrado e expedidos para a próvíncia. Publicam-se proclamações ilegais, que são difundidas até nos quartéis. Fora da cidade, em diversos lugares retirados, realizam-se reuniões ilegais de operários. Nos últimos tempos começaram em Petrogrado grandes greves dos operários metalúrgicos. A propósito dessas greves, o nosso comité de Petrogrado lançou vários apelos dirigidos aos operários.

A Fracção Operária Social-Democrata da Rússia na Duma de Estado e a Guerra

Em 1913 ocorreu uma cisão entre os deputados sociais-democratas na Duma de Estado. De um lado ficaram 7 partidários do oportunismo, dirigidos por Tchkheídze, tinham sido eleitos em 7 gubérnias não proletárias, onde havia 214 000 operários. Do outro lado ficaram 6 deputados, todos os da cúria operária, eleitos pelos centros mais industriais da Rússia, nos quais havia 1 008 000 operários.

O principal tema de divergência era: táctica do marxismo revolucionário ou táctica do reformismo oportunista. Praticamente, a divergência exprimia-se sobretudo no domínio do trabalho extra-parlamentar entre as massas. Este trabalho deveria ser realizado na Rússia ilegalmente se aqueles que o levavam a cabo queriam manter-se no terreno revolucionário. A fracção de Tchkheídze continuou a ser uma aliada fidelíssima dos liquidacionistas, que rejeitavam o trabalho ilegal, e defendia-os em todos os encontros com os operários, em todas as reuniões. Daí a cisão. Os 6 deputados constituíram a Fracção OSDR. Um ano de trabalho mostrou incontestavelmente que é precisamente do seu lado que está a maioria esmagadora dos operários russos.

No início da guerra a divergência manifestou-se com extrema clareza. A fracção de Tchkheídze limitou-se ao terreno parlamentar. Não votou a favor dos créditos porque doutro modo teria suscitado contra si uma tempestade de indignação da parte dos operários. (Vimos que na Rússia mesmo os trudoviques pequeno-burgueses não votaram a favor dos créditos.) Mas também não protestou contra o social-chauvinismo.

De modo diferente procedeu a Fracção OSDR, que exprimia a linha política do nosso partido. Ela levou o protesto contra a guerra ao mais profundo da classe operária, fez propaganda contra o imperialismo entre a grande massa dos proletários russos.

E ela encontrou um eco de grande simpatia por parte dos operários — o que assustou o governo e o levou, em clara violação das suas próprias leis, a prender e condenar os nossos camaradas deputados à deportação perpétua numa povoação da Sibéria. Logo no seu primeiro comunicado oficial sobre a prisão dos nossos camaradas o governo tsarista escreveu:

«Alguns membros das sociedades sociais-democratas, que procuram com a sua actividade abalar o poderio militar da Rússia através da agitação contra a guerra, com apelos clandestinos e propaganda oral, assumiram uma posição muito particular a este respeito.»

Ao conhecido apelo de Vandervelde a interromper «temporariamente» a luta contra o tsarismo — sabe-se agora, pelas declarações do enviado tsarista na Bélgica, príncipe Kudáchev, que Vandervelde não redigiu esse apelo sozinho mas com a colaboração do referido enviado tsarista — só o nosso partido, através do seu CC, respondeu negativamente. O centro dirigente dos liquidacionistas concordou com Vandervelde e declarou oficialmente na imprensa que «na sua actividade não se opunha à guerra».

O governo tsarista acusou antes de mais nada os nossos camaradas deputados de fazerem propaganda entre os operários dessa resposta negativa a Vandervelde.

O procurador tsarista, Sr. Nenarókomov, apontou no tribunal os socialistas alemães e franceses como exemplo aos nossos camaradas. «Os sociais-democratas alemães», disse ele, «votaram os créditos de guerra e mostraram-se amigos do governo. Assim procederam os sociais-democratas alemães, mas não foi assim que procederam os tristes cavaleiros da social-democracia russa... Os socialistas da Bélgica e da França esqueceram unanimemente as suas dissensões com as outras classes, esqueceram os diferentes partidários e colocaram-se sem hesitação sob as bandeiras.» Enquanto os membros da FOSDR, obedecendo às directivas do CC do partido, procederam de modo diferente...

O tribunal traçou um quadro impressionante da vasta agitação ilegal do nosso partido entre as massas do proletariado contra a guerra. O tribunal tsarista, evidentemente, não conseguiu nem de longe «descobrir» toda a actividade dos nossos camaradas neste domínio. Mas aquilo que foi descoberto mostrou o muito que foi feito no curto período de alguns meses.

No tribunal foram lidos os apelos ilegais dos nossos grupos e comités contra a guerra e por uma táctica internacionalista. Havia fios que ligavam os operários conscientes de toda a Rússia aos membros da Fracção OSDR, e na medida das suas possibilidades ela procurava ajudá-los a apreciar a guerra do ponto de vista do marxismo.

O camarada Muránov, deputado dos operários da gubérnia de Khárkov, disse no tribunal:

«Compreendendo que não fui enviado pelo povo para a Duma de Estado para ficar pregado à cadeira da Duma, desloquei-me às localidades para conhecer o estado de espírito da classe operária.»

Ele reconheceu também no tribunal ter assumido as funções de agitador ilegal do nosso partido, ter organizado nos Urales um comité operário na fábrica de Verkhno-Issetski e noutras localidades. O julgamento mostrou que os membros da FOSDR, depois do início da guerra, percorreram quase toda a Rússia para fins de propaganda, que Muránov, Petrovski, Badáev, etc., organizaram numerosas reuniões operárias, nas quais eram aprovadas resoluções contra a guerra, etc.

O governo tsarista ameaçou os acusados com a pena de morte. Em consequência disso, no próprio tribunal nem todos eles se mostraram tão corajosos como o camarada Muránov. Eles procuraram dificultar ao procurador tsarista a sua condenação. Isso é agora indignamente aproveitado pelos sociais-chauvinistas russos para esbater o fundo da questão: de que parlamentarismo precisa a classe operária?

O parlamentarismo é reconhecido por Südekum e Heine, Sembat e Vaillant, Bissolati e Mussolini, Tchkheídze e Plekhánov. O parlamentarismo é também reconhecido pelos nossos camaradas da Fracção OSDR, é reconhecido pelos camaradas búlgaros e italianos que romperam com os chauvinistas. Há parlamentarismo e parlamentarismo. Uns utilizam a arena parlamentar para agradar aos seus governos, ou, no melhor dos casos, para lavar as mãos, como a fracção de Tchkheídze. Os outros utilizam o parlamentarismo para se manterem revolucionários até ao fim, para cumprirem o seu dever de socialistas e de internacionalistas mesmo nas mais difíceis circunstâncias. A actividade parlamentar de uns leva-os às cadeiras governamentais, a actividade parlamentar dos outros leva-os à prisão, ao desterro, aos trabalhos forçados. Uns servem a burguesia, os outros servem o proletariado. Uns são sociais-imperialistas. Os outros são marxistas revolucionários.



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Notas de rodapé:

(N169) Pan-eslavismo: ideia da unificação dos povos eslavos sob a chefia do tsar russo, em fins do século XVIII - princípios do século XX. Nasceu da aspiração à independência dos eslavos, subjugados pela Turquia e pela Áustria-Hungria. Na Rússia, a partir de meados do século XIX o pan-eslavismo exprimia a ideologia nacionalista e as aspirações de conquista da burguesia russa.


(N170) A conferência dos socialistas da Tripla Entente realizou-se em Londres em 14 de Fevereiro de 1915. Nela participaram representantes dos sociais-chauvinistas e dos grupos pacifistas da Inglaterra, França, Bélgica e Rússia. Os socialistas russos representavam na conferência os socialistas-revolucionários e os mencheviques. Os bolcheviques não foram convidados para a Conferência. Contudo, por incumbência de Lénine, M. Litvínov entregou à presidência da conferência uma declaração do CC do POSDR. A declaração continha a exigência da saída dos socialistas dos governos burgueses, da completa ruptura com os imperialistas e da luta decidida contra os governos imperialistas, e a condenação da votação a favor dos créditos de guerra.


(N171) Nóvosti (Novidades): jornal diário do partido dos socialistas-revolucionários; publicou-se em Paris de Agosto de 1914 a Maio de 1915. (retornar ao texto)

(N172) Proletarski Gólos (Voz Proletária): jornal ilegal, órgão do comité de Petersburgo do POSDR; publicou-se em 1915-1916.


 

 

Capítulo III

- A Reconstituição da Internacional


Como reconstituir a Internacional? Mas primeiro algumas palavras sobre como não se deve reconstituir a Internacional.


O Método dos Sociais-Chauvinistas e do «Centro»


Oh, os sociais-chauvinistas de todos os países são grandes «internacionalistas»! Desde o próprio início da guerra eles estão cheios de preocupações com a Internacional. Por um lado, asseguram que o que se diz acerca da falência da Internacional é «exagerado». Na verdade, nada de extraordinário aconteceu. Ouçam Kautsky: simplesmente, a Internacional é «um instrumento do tempo de paz», e é natural que em tempo de guerra esse instrumento não se tenha mostrado inteiramente à altura. Por outro lado, os sociais-chauvinistas de todos os países encontraram um meio muito simples — e o que é mais importante: internacionalista — para sair da situação criada. O meio não é nada complicado: basta esperar o fim da guerra, até ao fim da guerra os socialistas de cada país devem defender a sua «pátria», apoiar os «seus» governos, e depois de terminada a guerra «amnistiar-se» uns aos outros, reconhecer que todos tinham razão, que em tempo de paz vivemos como irmãos, mas em tempo de guerra - na base precisa de tais ou tais resoluções - chamamos os operários alemães a exterminar os seus irmãos franceses e inversamente.

Nisto coincidem igualmente Kautsky, Plekhánov, Victor Adler, Heine. Victor Adler escreve que «quando tiver passado este duro período, o nosso primeiro dever será não nos acusarmos uns aos outros»(N173). Kautsky assevera que «até agora não se ouviu de nenhum dos lados vozes de socialistas sérios que fizessem recear» pelo destino da Internacional. Plekhánov diz que «é desagradável apertar mãos (de sociais-democratas alemães) que cheiram ao sangue de vítimas inocentes». Mas imediatamente oferece uma «amnistia»; «aqui será plenamente indicado», escreve ele, «submeter o coração à razão. Em nome da sua grande causa, a Internacional deverá ter em conta mesmo os arrependimentos tardios». Heine, nos Sozialistische Monatshefte, qualifica de «corajoso e digno» o comportamento de Vandervelde e aponta-o como exemplo aos elementos de esquerda alemães(N174).

Em suma, quando a guerra terminar, nomeiem uma comissão composta por Kautsky e Plekhánov, Vandervelde e Adler, e num instante será elaborada uma resolução «unânime» no espírito da amnistia mútua. A controvérsia será eficientemente esbatida. Em vez de ajudarem os operários a orientarem-se nos acontecimentos, enganá-los-ão com uma aparente «unidade» no papel. A união dos sociais-chauvinistas e dos hipócritas de todos os países será denominada reconstituição da Internacional.

É inútil dissimulá-lo: o perigo de uma tal «reconstituição» é muito grande. Os sociais-chauvinistas de todos os países estão igualmente interessados nela. Ninguém de entre eles quer que as próprias massas operárias do seu país se orientem na questão: socialismo ou nacionalismo. Todos eles estão igualmente interessados em ocultar os pecados uns dos outros. Nenhum deles pode propor qualquer coisa que não seja o que propõe Kautsky, esse virtuoso da hipocrisia «internacionalista».

Entretanto, pouco se tem em conta esse perigo. Durante um ano de guerra vimos uma série de tentativas de reconstituição das ligações internacionais. Não falaremos das conferências de Londres e de Viena(N175), onde se reuniram determinados chauvinistas a fim de ajudar os estados-maiores e a burguesia das suas «pátrias». Referi-mo-nos às conferências de Lugano e de Copenhaga(N176), à conferência internacional das mulheres(N177), e à conferência internacional da juventude(N178). Essas assembleias foram animadas das melhores intenções. Mas elas não viram de modo nenhum o perigo apontado. Elas não indicaram a linha de combate dos internacionalistas. Elas não apontaram ao proletariado o perigo que para ele representa o método social-chauvinista de «reconstituição» da Internacional. No melhor dos casos, limitaram-se a repetir as velhas resoluções, sem apontar aos operários que sem lutar contra os sociais-chauvinistas a causa do socialismo não tem futuro. No melhor dos casos, limitaram-se a marcar passo.


A Situação no seio da Oposição


Não há qualquer dúvida de que é a situação no seio da oposição social-democrata alemã que apresenta o maior interesse para todos os internacionalistas. A social-democracia oficial alemã, que era o partido mais forte, o partido dirigente na II Internacional, desferiu o mais rude golpe na organização internacional dos operários. Mas, ao mesmo tempo, foi na social-democracia alemã que se verificou a mais forte oposição. Entre os grandes partidos europeus, foi nela que em primeiro lugar ergueram uma sonora voz de protesto os camaradas que se mantiveram fiéis à bandeira do socialismo. Foi com alegria que lemos as revistas Lichtstrahlen(N179) e Die Internationale(N180). Foi com maior alegria ainda que soubemos da difusão na Alemanha de apelos revolucionários ilegais, como, por exemplo, o apelo O Inimigo Principal Está no Nosso Próprio País. Isso mostrava que entre os operários alemães estava vivo o espírito do socialismo, que na Alemanha ainda há pessoas capazes de defender o marxismo revolucionário.

Foi no seio da social-democracia alemã que se delineou com maior evidência a cisão no socialismo contemporâneo. Vemos aqui com toda a clareza 3 correntes: os oportunistas-chauvinistas, que em parte nenhuma como na Alemanha atingiram um tal grau de decadência e de renegação; o «centro» kautskista, que se mostrou aqui completamente impotente para desempenhar qualquer outro papel além do de servidor dos oportunistas; e a esquerda, que representa os únicos sociais-democratas da Alemanha.

Naturalmente, o que mais nos interessa é a situação no seio da esquerda alemã. Vemos nela os nossos camaradas, a esperança de todos os elementos internacionalistas.

Qual é essa situação?

A revista Die Internationale tinha toda a razão ao dizer que na esquerda alemã tudo se encontra ainda em processo de fermentação, que haverá ainda grandes reagrupamentos, que no seu seio há elementos mais resolutos e menos resolutos.

Nós, internacionalistas russos, naturalmente não pretendemos imiscuir-nos minimamente nos assuntos internos dos nossos camaradas da esquerda alemã. Compreendemos que só eles são plenamente competentes para determinar os seus métodos de luta contra os oportunistas, tendo em conta as condições de tempo e de lugar. Apenas consideramos nosso direito e nosso dever expressar abertamente a nossa opinião sobre a situação.

Estamos convencidos de que o autor do editorial da revista Die Internationale tinha profunda razão ao afirmar que o «centro» kautskista é mais prejudicial à causa do marxismo do que o social-chauvinismo declarado. Quem neste momento dissimula as divergências, quem prega agora aos operários, sob a aparência de marxismo, aquilo que prega o kautskismo, adormece os operários, é mais prejudicial do que Südekum e Heine, que colocam a questão abertamente e obrigam os operários a orientar-se.

A fronda contra as «instâncias», que Kautsky e Haase se permitem nos últimos tempos, não deve induzir ninguém em erro. As divergências entre eles e os Scheidemann não são divergências de princípio. Uns consideram que Hindenburg e Mackensen já venceram e que agora já se podem dar ao luxo de protestar contra as anexações. Os outros consideram que Hindenburg e Mackensen ainda não venceram e que por isso é preciso «conter-se até ao fim».

O kautskismo trava contra as «instâncias» apenas uma luta de fachada — precisamente para, depois da guerra, dissimular perante os operários o debate de princípio e escamotear a questão com mil e uma resoluções infladas num espírito indeterminado de «esquerda», em que são tão peritos os diplomatas da II Internacional.

É inteiramente compreensível que na sua difícil luta contra as «instâncias» a oposição alemã tenha de utilizar também essa fronda sem princípios do kautskismo. Mas a pedra-de-toque para qualquer internacionalista deve continuar a ser a atitude negativa em relação ao neokautskismo. Só é realmente internacionalista aquele que luta contra o kautskismo, que compreende que o «centro», mesmo depois da pretensa viragem dos seus chefes, continua a ser, do ponto de vista dos princípios, aliado dos chauvinistas e dos oportunistas.

Tem uma enorme importância a nossa atitude para com os elementos vacilantes no seio da Internacional em geral. Esses elementos - sobretudo os socialistas de matiz pacifista — existem tanto nos países neutrais como em alguns países beligerantes (na Inglaterra, por exemplo, o Partido Trabalhista Independente). Esses elementos podem ser nossos companheiros de jornada. A aproximação com eles contra os sociais-chauvinistas é necessária. Mas é preciso recordar que são apenas companheiros de jornada, que no principal e no essencial, em caso de reconstituição da Internacional, esses elementos não estarão connosco, mas contra nós, estarão com Kautsky, Scheidemann, Vandervelde e Sembat. Nas reuniões internacionais não podemos limitar o nosso programa àquilo que é aceitável para esses elementos. De outro modo ficaremos nós próprios prisioneiros dos pacifistas vacilantes. Assim aconteceu, por exemplo, na conferência internacional de mulheres em Berna. A delegação alemã, que partilhava o ponto de vista da camarada Clara Zetkin, desempenhou de facto nessa conferência o papel do «centro». A conferência de mulheres disse apenas aquilo que era aceitável para as delegadas do partido oportunista holandês de Troelstra e para as delegadas do ILP (Partido Trabalhista Independente), o qual — não o esqueçamos — na conferência de Londres dos chauvinistas da «Entente» votou pela resolução de Vandervelde. Nós expressamos o nosso maior respeito ao ILP pela sua luta corajosa contra o governo inglês durante a guerra. Mas sabemos que esse partido não se situou e não se situa no terreno do marxismo. E nós consideramos que a principal tarefa da oposição social-democrata no presente momento é erguer a bandeira do marxismo revolucionário, dizer firme e claramente aos operários como nós encaramos as guerras imperialistas, lançar a palavra de ordem das acções revolucionárias de massas, isto é, da transformação da época das guerras imperialistas no princípio de uma época de guerras civis.

Elementos sociais-democratas revolucionários existem, apesar de tudo, em muitos países. Eles existem na Alemanha, na Rússia, na Escandinávia (uma tendência influente de que é representante o camarada Höglund), nos Balcãs (o partido dos «estreitos» búlgaros), na Itália, na Inglaterra (uma parte do Partido Socialista Britânico), em França (o próprio Vaillant reconheceu no L'Humanité ter recebido cartas de protesto dos internacionalistas, mas não publicou nem uma delas integralmente), na Holanda (os tribunistas(N181)), etc. Unir estes elementos marxistas — por pouco numerosos que eles sejam a princípio —, recordar em seu nome as palavras agora esquecidas do autêntico socialismo, chamar os operários de todos os países a romper com os chauvinistas e a colocarem-se sob a velha bandeira do marxismo — tal é a tarefa do momento.

As reuniões com os chamados programas de «acção» reduziram-se até agora a que nelas se proclamou, mais ou menos integralmente, um programa de simples pacifismo. O marxismo não é pacifismo. É necessário lutar pela mais rápida cessação da guerra. Mas só com o apelo à luta revolucionária a reivindicação de «paz» adquire um sentido proletário. Sem uma série de revoluções a chamada paz democrática é uma utopia filistina. O único verdadeiro programa de acção seria o programa marxista, que dá às massas uma resposta completa e clara sobre aquilo que aconteceu, que explica o que é o imperialismo e como combatê-lo, que declara abertamente que a falência da II Internacional foi provocada pelo oportunismo, que apela abertamente a edificar uma Internacional marxista sem e contra os oportunistas. Só um tal programa, que mostraria que nós acreditamos em nós próprios, acreditamos no marxismo, declaramos ao oportunismo uma luta de vida ou de morte, nos asseguraria mais cedo ou mais tarde a simpatia das verdadeiras massas proletárias.


O Partido Operário Social-Democrata da Rússia e a III Internacional


O POSDR há muito que se cindiu dos seus oportunistas. Os oportunistas russos tornaram-se agora também chauvinistas. Isso apenas reforça a nossa opinião de que a cisão com eles era necessária no interesse do socialismo. Estamos convencidos de que as actuais divergências entre os sociais-democratas e os sociais-chauvinistas não são em nada menores que as que havia entre os socialistas e anarquistas quando os sociais-democratas se separaram destes últimos. O oportunista Monitor, no Preussische Jahrbücher(N182), disse com razão que para os oportunistas e para a burguesia é vantajosa a actual unidade, porque ela obriga os elementos de esquerda a submeter-se aos chauvinistas e impede os operários de verem claro nos debates e de criarem o seu partido verdadeiramente operário, verdadeiramente socialista. Estamos profundamente convencidos de que na actual situação a cisão com os oportunistas e os chauvinistas é o primeiro dever de um revolucionário - do mesmo modo que a cisão com os amarelos, com os anti-semitas, com os sindicatos operários liberais, etc., era necessária para educar mais rapidamente os operários atrasados e atraí-los para as fileiras do partido social-democrata.

A III Internacional, em nossa opinião, deveria ser edificada precisamente sobre essa base revolucionária. Para o nosso partido não existe a questão da conveniência da ruptura com os sociais-chauvinistas. Essa questão está para ele irrevogavelmente resolvida. Para ele existe apenas a questão de saber se isso é realizável nos tempos mais próximos à escala internacional.

Compreende-se perfeitamente que para tornar realidade uma organização marxista internacional é necessário que exista a disposição de criar partidos marxistas independentes em diversos países. A Alemanha, como país do mais antigo e mais forte movimento operário, tem uma importância decisiva. O futuro próximo mostrará se já amadureceram as condições para a criação de uma nova Internacional marxista. Se sim, o nosso partido aderirá com alegria a essa III Internacional, depurada do oportunismo e do chauvinismo. Se não, isso mostrará que essa depuração exigirá ainda uma evolução mais ou menos prolongada. E então o nosso partido será a oposição extrema dentro da antiga Internacional — enquanto nos diferentes países não estiver criada a base para uma associação internacional dos operários que se situe no terreno do marxismo revolucionário.

Não sabemos nem podemos saber como se desenvolverão as coisas nos próximos anos na arena internacional. Mas aquilo que sabemos de certeza, aquilo de que estamos inabalavelmente convencidos, é de que o nosso partido, no nosso país, entre o nosso proletariado, trabalhará incansavelmente nessa direcção e com toda a sua acção quotidiana criará uma secção russa da Internacional marxista.

Também na Rússia não faltam os sociais-chauvinistas declarados e os grupos do «centro». Essa gente lutará contra a criação de uma Internacional marxista. Sabemos que Plekhánov se situa no mesmo terreno de princípios que Südekum e já hoje lhe estende a mão. Sabemos que o chamado «Comité de Organização», dirigido por Axelrod, prega o kautskismo no solo russo. Sob a aparência de unidade da classe operária essa gente prega a unidade com os oportunistas e, através deles, com a burguesia. Mas tudo aquilo que conhecemos do movimento operário actual na Rússia dá-nos a plena certeza de que o proletariado consciente da Rússia permanecerá, como antes, com o nosso partido.



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Notas de rodapé:

(N173) Lénine cita o artigo de V. Adler «Hoffnungsschimmer» («Um clarão de esperança»), publicado no jornal Arbeiter Zeitung em 14 de Fevereiro de 1915


(N174) Lénine refere-se ao artigo de V. Heine «Die deutsche Sozialdemokratie im deutschen Volk» («A social-democracia alemã no povo alemão»), publicado em Julho de 1915 na revista Sozialistische Monatshefte.


(N175) Trata-se da conferência dos socialistas da Alemanha e da Áustria-Hugria realizada em Viena em Abril de 1915. A conferência aprovou a posição social-chauvinista das direcções dos partidos socialistas alemães e austríaco, que justificavam a guerra, e declarou nas suas decisões que isso não contrariava a solidariedade proletária e a unidade internacional dos operários na luta pela paz.


(N176) Em 27 de Setembro de 1914, em Lugano (Suiça), realizou-se uma conferência dos socialistas italianos e suíços. Esta foi a primeira conferência de socialistas durante a guerra, a primeira tentativa de restabelecimento das ligações internacionais. Conferência de Copenhaga: conferência dos socialistas dos países neutros, que decorreu em Copenhaga em 17-18 de Janeiro de 1915. Nela participaram representantes dos partidos socialistas da Suécia, Dinamarca, Noruega e Holanda. A conferência aprovou uma resolução na qual se propunha aos deputados sociais-democratas nos parlamentos dos países neutros que persuadissem os governos e encarregar-se da mediação entre os países beligerantes e a apressar o restabelecimento da paz.


(N177) A Conferência Socialista Internacional das Mulheres realizou-se em Berna em 26-28 de Março de 1915. A maioria das delegadas à conferência estava sob a influência dos centristas, e por isso a resolução aprovada tinha um carácter centrista.


(N178) A Conferência Socialista Internacional da Juventude realizou-se em Berna em 4-6 de Abril de 1915. Nela participaram representantes das organizações juvenis de 10 países europeus. O ponto principal da ordem de trabalhos era «A guerra e as tarefas das organizações socialistas juvenis». A delegação do CC do POSDR pôs à consideração da conferência um projecto de resolução que continha as teses fundamentais do partido bolchevique acerca da questão da guerra. No entanto, a conferência aprovou uma resolução redigida segundo o espírito centrista.


(N179) Lichtsrahlen (Raios de Luz): revista mensal, órgão do grupo dos sociais-democratas de esquerda da Alemanha; publicou-se de 1913 a 1921.


(N180) Die Internationale (A Internacional): revista dos sociais-democratas de esquerda da Alemanha, fundada por Rosa Luxemburg e F. Mehring. O primeiro número da revista saiu em Düsseldorf em Abril de 1915. A sua publicação foi retomada em 1918. publicou-se clandestinamente também durante a ditadura fascista, até 1939.


(N181) Tribunistas: membros do Partido Social-Democrata da Holanda, cujo órgão de imprensa era o jornal De Tribune (A Tribuna) que se publicou de 1907 a 1940. Os tribunistas não eram um partido consequentemente revolucionário, mas constituíam a ala esquerda do movimento operário da Holanda. Em 1918 os tribunistas constituíram o Partido Comunista da Holanda.


(N182) Preussische Jahrbücher (Anuário Prussiano): publicação mensal conservadora alemã sobre problemas de política, história e literatura; publicou-se em Berlim de 1858 a 1935.

 

 

 

Capítulo IV

- A História da Cisão e a Situação Actual da Social-Democracia na Rússia


A táctica do POSDR em relação à guerra, atrás exposta, constitui o resultado inevitável do desenvolvimento da social-democracia na Rússia ao longo de trinta anos. Não é possível compreender correctamente essa táctica, nem a actual situação da social-democracia no nosso país, sem reflectir sobre a história do nosso partido.

É por isso que devemos recordar aqui ao leitor os factos fundamentais desta história.

A social-democracia surgiu como corrente ideológica em 1883, quando foram pela primeira vez sistematicamente expostas no estrangeiro pelo grupo «Emancipação do Trabalho»(N183) as concepções sociais-democratas aplicadas à Rússia. Até ao princípio dos anos 90, a social-democracia permaneceu uma corrente ideológica, sem ligação com o movimento operário de massas na Rússia. No princípio dos anos 90, o ascenso social, a efervescência e o movimento grevista entre os operários fizeram da social-democracia uma força política activa, indissoluvelmente ligada à luta (tanto económica como política) da classe operária. E desde essa época começa a cisão da social-democracia em «economistas» e «iskristas».


Os «Economistas» e o Velho «Iskra»
(1894-1903)


O «economismo» foi uma corrente oportunista na social-democracia russa. A sua essência política reduzia-se ao programa «aos operários — a luta económica, aos liberais — a luta política». O seu principal apoio teórico era o chamado «marxismo legal» ou «struvismo», que «reconhecia» um «marxismo» completamente depurado de qualquer carácter revolucionário e adaptado às necessidades da burguesia liberal. Invocando o atraso da massa dos operários na Rússia, desejando «marchar com a massa», os «economistas» limitavam as tarefas e a amplitude do movimento operário à luta económica e ao apoio político ao liberalismo, sem colocarem a si próprios tarefas políticas independentes nem nenhumas tarefas revolucionárias.

O velho Iskra (1900-1903) lutou vitoriosamente contra o «economismo» em nome dos princípios da social-democracia revolucionária. Toda a nata do proletariado consciente se colocou do lado do Iskra. Alguns anos antes da revolução, a social-democracia apresentou o programa mais consequente e intransigente. E a luta de classes, a acção das massas durante a revolução de 1905, confirmaram esse programa. Os «economistas» adaptavam-se ao atraso das massas. O Iskra educou uma vanguarda de operários capaz de levar as massas para a frente. Os argumentos actuais dos sociais-chauvinistas (sobre a necessidade de ter em conta a massa, sobre o carácter progressista do imperialismo, sobre as «ilusões» dos revolucionários, etc.) foram todos apresentados já pelos «economistas». A Rússia social-democrata conheceu há já 20 anos uma adaptação do marxismo sob a forma do «struvismo».


Menchevismo e Bolchevismo
(1903-1908)


A época da revolução democrática burguesa gerou uma nova luta de correntes no seio da social-democracia, que foi o prolongamento directo da anterior. O «economismo» transformou-se em «menchevismo». A defesa da táctica revolucionária do velho Iskra deu origem ao «bolchevismo».

Nos tempestuosos anos de 1905-1907 o menchevismo foi uma corrente oportunista, que era apoiada pelos burgueses liberais e que introduzia as tendências burguesas liberais no movimento operário. A adaptação da luta da classe operária ao liberalismo — tal era a sua essência. Pelo contrário, o bolchevismo colocava como tarefa dos operários sociais-democratas erguer para a luta revolucionária o campesinato democrático, a despeito das hesitações e das traições do liberalismo. E as massas operárias, tal como o reconheceram repetidamente os próprios mencheviques, seguiram durante a revolução os bolcheviques em todas as acções importantes.

A revolução de 1905 comprovou, consolidou, aprofundou e temperou a táctica social-democrata intransigentemente revolucionária na Rússia. A acção aberta das classes e dos partidos revelou repetidamente a ligação do oportunismo social-democrata (o «menchevismo») com o liberalismo.


Marxismo e Liquidacionismo
(1908-1914)


A época contra-revolucionária colocou de novo na ordem do dia, duma forma inteiramente nova, a questão da táctica oportunista e da táctica revolucionária da social-democracia. A principal orientação do menchevismo, a despeito dos protestos de muitos dos seus melhores representantes, gerou a corrente do liquidacionismo, a renúncia à luta por uma nova revolução na Rússia e à organização e ao trabalho ilegais, as zombarias desdenhosas relativamente à «acção clandestina», à palavra de ordem de república, etc. Sob a forma do grupo de literatos legais da revista Nacha Zariá (Srs. Potréssov, Tcherevánine, etc.) constituiu-se um núcleo independente do velho partido social-democrata, que a burguesia da Rússia, desejosa de desviar os operários da luta revolucionária, apoiava, exaltava e acarinhava de mil maneiras.

Esse grupo de oportunistas foi expulso do partido pela conferência do POSDR de Janeiro de 1912, que reconstituiu o partido mau grado a resistência feroz de toda uma série de grupos e grupinhos do estrangeiro. Durante mais de dois anos (princípio de 1912-meados de 1914) travou-se uma luta encarniçada entre os dois partidos sociais-democratas: o CC, eleito em Janeiro de 1912, e o «Comité de Organização», que não reconhecia a conferência de Janeiro e queria reconstituir o partido de maneira diferente, mantendo a unidade com o grupo da Nacha Zariá. Travou-se uma luta encarniçada entre os dois jornais diários operários (o Pravda e o Lutch e os seus sucessores) e entre as duas fracções sociais-democratas na IV Duma de Estado (a «Fracção OSDR» dos pravdistas ou marxistas e a «fracção social-democrata» dos liquidacionistas, encabeçada por Tchkheídze).

Defendendo a fidelidade aos ensinamentos revolucionários do partido, apoiando o ascenso do movimento operário que se iniciava (principalmente depois da Primavera de 1912), unindo a organização legal e ilegal, a imprensa e a agitação, os «pravdistas» uniram em torno de si a esmagadora maioria da classe operária consciente, enquanto os liquidacionistas — que como força política actuavam exclusivamente no grupo da Nacha Zariá — se apoiavam no apoio multiforme dos elementos burgueses liberais.

As contribuições monetárias abertas de grupos operários para os jornais de ambos os partidos, que eram nessa época a forma adaptada às condições russas (e a única legalmente permitida e livremente controlável por todos) de cotizações dos sociais-democratas, confirmaram nitidamente que a origem da força e da influência dos «pravdistas» (marxistas) era proletária e que a dos liquidacionistas (e do seu «CO») era liberal burguesa. Apresentamos breves dados sobre essas contribuições, publicados pormenorizadamente no livro Marxismo e Liquidacionismo(N184) e de forma abreviada no jornal social-democrata alemão Leipziger Volkszeitung(N185) de 21 de Julho de 1914.

Número e valor das contribuições para os jornais diários de Petersburgo, marxistas (pravdistas) e liquidacionistas, de 1 de Janeiro a 13 de Maio de 1914:



 

Pravdistas

Liquidacionistas

Número de
contribuições

Valor
em rublos

Número de
contribuições

Valor
em rublos

De grupos operários

2873

18934

671

5296

De outras proveniências

713

2650

453

6760



Deste modo, o nosso partido unia em 1914 4/5 dos operários conscientes da Rússia em torno da táctica social-democrata revolucionária. Em todo o ano de 1913 o número das contribuições de grupos operários foi de 2181 para os pravdistas e de 661 para os liquidacionistas. De l de Janeiro de 1913 a 13 de Maio de 1914 obtém-se o total de 5054 contribuições de grupos operários para os «pravdistas» (isto é, para o nosso partido) e 1332, isto é, 20,8%, para os liquidacionistas.


Marxismo e Social-Chauvinismo
(1914-1915)


A grande guerra europeia de 1914-1915 deu a todos os sociais-democratas europeus, e também aos russos, a possibilidade de comprovarem a sua táctica numa crise de dimensão mundial. O carácter reaccionário, espoliador, escravista, da guerra por parte do tsarismo é ainda incomparavelmente mais evidente do que por parte dos outros governos. Apesar disso, o principal grupo de liquidacionistas (o único, além do nosso, que exerce uma influência séria na Rússia, graças às suas ligações liberais) voltou-se para o social-chauvinismo! Tendo gozado durante bastante tempo do monopólio da legalidade, esse grupo da Nacha Zariá fez propaganda entre as massas no sentido da «não resistência à guerra», do desejo da vitória da tripla (agora quádrupla) Entente, da acusação ao imperialismo germânico de «pecados que ultrapassam todas as medidas», etc. Plekhánov, que desde 1903 deu numerosos exemplos da sua falta de carácter em política e da sua passagem para os oportunistas, acentuou ainda mais essa mesma posição, elogiado por toda a imprensa burguesa da Rússia. Plekhánov desceu ao ponto de declarar a guerra como justa por parte do tsarismo e de publicar nos jornais governamentais da Itália uma entrevista apelando para que este país entre na guerra!!

A justeza da nossa apreciação sobre o liquidacionismo e da expulsão do principal grupo dos liquidacionistas do nosso partido foi assim inteiramente confirmada. Ò programa real dos liquidacionistas e o significado real da sua tendência consistem agora não apenas no oportunismo em geral mas também na defesa dos privilégios e prerrogativas de grande potência dos latifundiários e da burguesia grão-russos. É uma tendência nacional-liberal da política operária. É a aliança de uma parte dos pequenos burgueses radicais e de uma ínfima parcela de operários privilegiados com a «sua» burguesia nacional contra a massa do proletariado.


A Situação Actual na Social-Democracia da Rússia


Como já dissemos, nem os liquidacionistas, nem toda uma série de grupos do estrangeiro (Plekhánov, Aléxinski, Trótski, etc.), nem os chamados sociais-democratas «nacionais» (isto é, não grão-russos) reconheceram a nossa conferência de Janeiro de 1912. Das inúmeras injúrias com que nos cobriram, a mais frequentemente repetida foi a acusação de «usurpação» e «cisionismo». A nossa resposta a isto consistiu na citação de números exactos e susceptíveis de verificação objectiva, que provavam que o nosso partido unia 4/5 dos operários conscientes da Rússia. Isto não é pouco, tendo em conta todas as dificuldades do trabalho ilegal numa época de contra-revolução.

Se a «unidade» era possível na Rússia na base da táctica social-democrata, sem a expulsão do grupo da Nacha Zariá, por que é que os nossos numerosos adversários não a realizaram ao menos entre si? Desde Janeiro de 1912 decorreram nada menos de três anos e meio, e em todo esse tempo os nossos adversários não conseguiram criar, apesar de todo o seu desejo, um partido social-democrata contra nós. Este facto é a melhor defesa do nosso partido.

Toda a história dos grupos sociais-democratas que lutam contra o nosso partido é uma história de decadência e desagregação. Em Março de 1912 «uniram-se» todos sem excepção nas invectivas contra nós. Mas já em Agosto de 1912, quando foi criado o chamado «bloco de Agosto» contra nós, começou entre eles a desagregação. Uma parte do grupo separa-se deles. Não conseguem criar um partido e um CC. Criam apenas um CO «para restabelecer a unidade». Mas na prática este CO foi uma impotente cobertura do grupo liquidacionista na Rússia. Em todo o período do enorme ascenso do movimento operário na Rússia e das greves de massas de 1912-1914, o único grupo de todo o «bloco de Agosto» que desenvolve trabalho entre as massas continua a ser o grupo da Nacha Zariá, cuja força é constituída pelas suas ligações liberais. E no princípio de 1914 saem formalmente do «bloco de Agosto» os sociais-democratas letões (os sociais-democratas polacos não faziam parte dele), enquanto Trótski, um dos chefes do bloco, saiu dele não formalmente, criando de novo o seu grupo à parte. Em Julho de 1914, na conferência de Bruxelas, com a participação do Comité Executivo do BSI, de Kautsky e de Vandervelde, constituiu-se contra nós o chamado «bloco de Bruxelas»(N186), no qual não entraram os letões e do qual se separaram imediatamente os sociais-democratas polacos - a oposição. Depois do início da guerra, este bloco desagrega-se. A Nacha Zariá, Plekhánov, Aléxinski, o chefe dos sociais-democratas caucasianos, An, tornam-se sociais-chauvinistas abertos, pregando a conveniência da derrota da Alemanha. O CO e o Bund defendem os sociais-chauvinistas e as bases do social-chauvinismo. A fracção de Tchkheídze, embora tenha votado contra os créditos de guerra (na Rússia até os democratas burgueses, os trudoviques, votaram contra eles), mantém-se um fiel aliado da Nacha Zariá. Os nossos sociais-chauvinistas extremos, Plekhánov, Aléxinski e Cª, estão inteiramente satisfeitos com a fracção de Tchkheídze. Em Paris funda-se o jornal Nache Slovo (anteriormente Gólos), com a participação, principalmente, de Mártov e Trótski, que desejam combinar a defesa platónica do internacionalismo com a reivindicação absoluta da unidade com a Nacha Zariá, o CO ou a fracção de Tchkheídze. Depois de 250 números deste jornal, este foi forçado a reconhecer ele próprio a sua desagregação: uma parte da redacção inclina-se para o nosso partido, Mártov mantém-se fiel ao CO, que censura publicamente ao Nache Slovo o seu «anarquismo» (como os oportunistas na Alemanha, David e Cª, a Internationale Korrespondenz(N187), Legien e Cª acusam de anarquismo o camarada Liebknecht); Trótski declara o seu rompimento com o CO, mas quer marchar em conjunto com a fracção de Tchkheídze. Eis o programa e a táctica da fracção de Tchkheídze, exposta por um dos seus líderes. No n° 5 de 1915 da Sovremenni Mir(N188), revista com a orientação de Plekhánov e Aléxinski, Tchkhenkeli escreve:

«Dizer que a social-democracia alemã estava em condições de impedir a entrada do seu país na guerra e não o fez significaria, ou desejar secretamente que ela encontrasse nas barricadas não só o seu último suspiro mas também o da sua pátria ou olhar objectos muito próximos através do telescópio anarquista.»(3*)

Nestas breves linhas está expressa toda a essência do social-chauvinismo: tanto a justificação de princípio da ideia de «defesa da pátria» na guerra actual como as zombarias - com o consentimento dos censores militares - da propaganda e da preparação da revolução. A questão não está de modo nenhum em saber se a social-democracia alemã estava em condições de impedir a guerra nem se os revolucionários podem, em geral, garantir o êxito da revolução. A questão está em saber se é necessário comportar-se como socialistas ou «expirar» de certeza absoluta nos braços da burguesia imperialista.


As Tarefas do Nosso Partido


A social-democracia da Rússia surgiu nas vésperas da revolução democrática burguesa (1905) no nosso país e consolidou-se durante a revolução e a contra-revolução. O atraso da Rússia explica a extrema abundância de correntes e matizes do oportunismo pequeno-burguês no nosso país, enquanto a influência do marxismo na Europa e a solidez dos partidos sociais-democratas legais até à guerra fizeram dos nossos exemplares liberais quase admiradores da teoria e da social-democracia «marxista» «razoável», «europeia» (não revolucionária), «legal». A classe operária da Rússia não podia constituir o seu partido a não ser numa luta decidida de trinta anos contra todas as variantes de oportunismo. A experiência da guerra mundial, que provocou a vergonhosa falência do oportunismo e fortaleceu a aliança dos nossos nacionais-liberais com o liquidacionismo social-chauvinista, reforça ainda mais a nossa convicção de que o nosso partido deve continuar a seguir por esse mesmo caminho consequentemente revolucionário.



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Notas de rodapé:

(N183) Grupo «Emancipação do Trabalho»: o primeiro grupo marxista russo, fundado por G. Plekhánov em 1883 em Genebra. O grupo realizou um enorme trabalho na difusão do marxismo na Rússia. Traduziu para russo, publicou no estrangeiro e difundiu na Rússia as obras dos fundadores do marxismo. Os trabalhos de Plekhánov desempenharam um papel significativo na difusão das ideias marxistas. O grupo estabeleceu ligações com o movimento operário internacional. Mas o grupo «Emancipação do Trabalho» cometeu erros sérios, que geraram as futuras ideias oportunistas de Plekhánov e de outros dos seus membros. O grupo existiu até 1903.


(N184) O livro Marxismo e Liquidacionismo. Colectânea de artigos sobre as questões fundamentais do movimento operário contemporâneo. II Parte foi publicado pela editora do partido Pribói, em Julho de 1914. Nele foram incluídos uma série de artigos de Lénine sobre os liquidacionistas.


(N185) Leipzuger Volkszeitung (Jornal Popular de Leipzig): órgão da ala esquerda da social-democracia alemã. Publicou-se diariamente de 1894 a 1933. Durante um longo período, Rosa Luxemburg fez parte da redacção.


(N186) Bloco de Bruxelas: bloco formado contra os bolcheviques na conferência especial dos liquidacionistas, trotskistas, vperiodistas, plekhanovistas, bundistas e representantes da Transcaucásia, realizado depois da conferência «unificadora» em Bruxelas em 3 de Julho de 1914. A conferência foi convocada pelo Comité Executivo do Bureau Socialista Internacional. Em nome do BSI, K. Kautsky propôs uma resolução sobre a unificação do POSDR afirmando que na social-democracia russa não havia quaisquer divergências que impedissem a unidade. A resolução foi aprovada por maioria. Os bolcheviques,dirigidos por Lénine, recusaram submeter-se às decisões da conferência de Bruxelas e denunciaram perante o proletariado internacional os verdadeiros objectivos dos «unificadores». A tentativa feita pelos dirigentes oportunistas da II Internacional de liquidar o partido bolchevique fracassou.


(N187) International Korrespondenz (Correspondência Internacional): revista semanal dos sociais-chauvinistas alemães; publicou-se em Berlim de 1914 a 1918.


(N188) Sovremenni Mir (Mundo Contemporâneo): revista mensal literária, científica e política; publicou-se em Petersburgo de 1906 a 1918. G. Plekhánov colaborou activamente na revista. No período do bloco com os plekhanovistas e no início de 1914, nela colaboraram também os bolcheviques. Durante a guerra mundial imperialista a revista tornou-se órgão dos sociais-chauvinistas.


(3*) Sovremenni Mir, 1915, n.° 5, p. 148. Trótski declarou recentemente que considera como sua tarefa elevar o prestígio da fracção de Tchkheídze na Internacional. Sem dúvida que Tchkheídze, por seu lado, se empenhará com a mesma energia em elevar o prestígio de Trótski na Internacional...


 


 

Lenine

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