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V. I. Lenine

Prefácio à Tradução Russa do Livro «Cartas de J. P. Becker, J. Dietzgen, F. Engels, K. Marx e outros a F. A. Sorge e Outros»


6 de Abril de 1907



Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t.15, pp. 231-249.




A colectânea de cartas de Marx, Engels, Dietzgen, Becker e outros chefes do movimento operário internacional do século passado que é proposta ao público russo representa um complemento necessário à nossa literatura marxista de vanguarda.

Não vamos aqui deter-nos em pormenor na importância destas cartas para a história do socialismo e para o esclarecimento completo da actividade de Marx e Engels. Este aspecto do assunto não exige explicações. Assinalemos apenas que para compreender as cartas publicadas é necessário conhecer os trabalhos fundamentais sobre a história da Internacional (ver Jaeckh, A Internacional. Tradução russa em edição da Znánie) e do movimento operário alemão e americano (ver F. Mehring, História da Social-Democracia Alemã e Morris Hillquit, História do Socialismo na América), etc.

Também não tencionamos fazer aqui um esboço geral do conteúdo desta correspondência e uma avaliação dos diferentes períodos históricos a que ela se refere. Mehring fê-lo magnificamente no seu artigo «Der Sorgesche Briefwechsel» (Neue Zeit, 25. Jahrg., Nr. 1 und 2), que será provavelmente acrescentado pelo editor à presente tradução ou será publicado numa edição russa separada(1).

Para os socialistas russos na época revolucionária que atravessamos apresentam um interesse particular as lições que o proletariado em luta deve extrair do conhecimento dos aspectos íntimos da actividade de Marx e Engels ao longo de quase 30 anos (1867-1895). Não é por isso surpreendente que também na nossa literatura social-democrata as primeiras tentativas de dar a conhecer ao leitores as cartas de Marx e Engels a Sorge tenham sido feitas em ligação com questões «urgentes» da táctica social-democrata na revolução russa (a Sovreménnaia Jizn(2) de Plekhánov, as Ótkliki(3) mencheviques). Tencionamos deter a atenção dos leitores na apreciação das passagens da correspondência publicada que são particularmente importantes do ponto de vista das tarefas actuais do partido operário na Rússia.

Aquilo sobre que Marx e Engels se pronunciaram nas suas cartas com maior frequência foi sobre as questões de actualidade do movimento operário anglo-americano e alemão. Isto é compreensível, pois eles eram alemães que viviam então em Inglaterra e se correspondiam com um seu camarada americano. Marx pronunciou-se muito mais frequente e circunstanciadamente sobre o movimento operário francês e sobre a Comuna de Paris nas cartas que escreveu ao social-democrata alemão Kugelmann(4).

A comparação do modo como Marx e Engels se pronunciaram sobre as questões do movimento operário anglo-americano e alemão é extraordinariamente instrutiva. Se se tomar em atenção que a Alemanha, por um lado, e a Inglaterra e a América, por outro, representam diferentes estádios de desenvolvimento capitalista, diferentes formas de domínio da burguesia, como classe, em toda a vida política destes países, a mencionada comparação adquire um significado particularmente grande. Do ponto de vista científico, observamos aqui um exemplo de dialéctica materialista, de capacidade de fazer avançar para primeiro plano e de sublinhar diferentes pontos, diferentes aspectos da questão aplicados às particularidades concretas destas ou daquelas condições políticas e económicas. Do ponto de vista da política prática e da táctica do partido operário, vemos aqui um exemplo de como os criadores do Manifesto Comunista definiam as tarefas do proletariado em luta em relação às diferentes etapas do movimento operário nacional dos diversos países.

Aquilo que Marx e Engels criticam mais asperamente no socialismo anglo-americano é o seu isolamento do movimento operário.

Através de todas as suas numerosas referências à «Federação Social-Democrata» (Social-Democratic Federation) em Inglaterra(5) e aos socialistas americanos corre como um fio condutor a acusação de que eles tinham transformado o marxismo num dogma, numa «ortodoxia petrificada (starre)», de que eles viam nele «um símbolo de fé e não um guia para a acção»(6), de que eles não sabiam adaptar-se ao movimento operário que marchava em torno deles, teoricamente desamparado, mas vivo, massivo, poderoso. «Onde estaríamos nós agora», exclama Engels na carta de 27 de Janeiro de 1887, «se no período de 1864 a 1873 só quiséssemos marchar ombro a ombro com aqueles que reconheciam abertamente o nosso programa?» E numa carta anterior (28 de Dezembro de 1886), referindo-se à questão da influência sobre a classe operária da América das ideias de Henry George, escreve:

«Um ou dois milhões de votos operários dados em Novembro a um partido operário real (bona fide) são no momento actual infinitamente mais importantes do que uma centena de milhares de votos dados a um programa impecável no aspecto teórico.»

São passagens muito interessantes. No nosso país houve sociais-democratas que se apressaram a utilizá-las em defesa da ideia de um «congresso operário» ou de algo como o «amplo partido operário»(7) de Lárine. E por que não em defesa do «bloco de esquerda»? perguntaremos nós a esses precoces «utilizadores» de Engels. As cartas de que foram tiradas as citações pertencem ao período em que na América os operários votavam nas eleições por Henry George. A Sra. Wischnewetzky — uma americana casada com um russo e que traduzia as obras de Engels — pediu-lhe, como se vê pela resposta de Engels, que criticasse a fundo H. George. Engels escreve (28 de Dezembro de 1886) que não chegou ainda a altura disso, que mais vale que o partido operário comece a formar-se ainda que com um programa não inteiramente puro. Depois os próprios operários compreenderiam, dizia ele, onde estava a questão, «aprenderiam com os seus erros», mas «eu consideraria um grande erro» dificultar, «na base de um programa, qualquer que ele seja, a consolidação nacional do partido operário».

E, evidentemente, Engels compreendia perfeitamente e assinalou repetidamente todo o absurdo e o reaccionarismo das ideias de H. George de um ponto de vista socialista. Na correspondência de Sorge existe uma interessante carta de K. Marx de 20 de Junho de 1881 em que ele faz uma apreciação de H. George como um ideólogo da burguesia radical. «Teoricamente H. George é um homem totalmente atrasado» (total arrière), escreveu Marx. E F. Engels não temia ir às eleições juntamente com este verdadeiro socialista reaccionário, desde que houvesse pessoas capazes de predizer às massas «as consequências dos seus próprios erros» (Engels na carta de 29 de Novembro de 1886).

Sobre os «cavaleiros do trabalho» (Knights of Labour(8)), a organização dessa altura dos operários americanos, Engels escreveu na mesma carta: «o seu lado mais fraco (literalmente: podre, faulste) era a neutralidade política...» «Um dos primeiros passos mais importantes de qualquer país que entra no movimento deve ser a organização de um partido operário independente, não importa o caminho por que isto seja alcançado, desde que ele seja realmente um partido operário.»(9)

É evidente que daqui não se pode deduzir absolutamente nada em defesa do salto da social-democracia para um congresso operário sem partido, etc. Mas todo aquele que não queira ser abrangido pela acusação de Engels de rebaixar o marxismo até o transformar num «dogma», numa «ortodoxia», num «sectarismo», etc., deve deduzir daqui a necessidade de admitir por vezes uma campanha eleitoral comum com os «sociais-reaccionários» radicais.

Mas é mais interessante, naturalmente, deter-nos não tanto nestes paralelos americano-russos (tivemos de os tocar para responder aos nossos adversários) como nos traços fundamentais do movimento operário anglo-americano. Estes traços são: a ausência de quaisquer tarefas democráticas minimamente importantes, de âmbito nacional, perante o proletariado; completa subordinação do proletariado à política burguesa; isolamento sectário de grupos e punhados de socialistas em relação ao proletariado; nem o menor êxito dos socialistas nas eleições face às massas operárias, etc. Quem esquece estas condições fundamentais e se põe a tirar vastas conclusões dos «paralelos americano-russos» manifesta uma superficialidade extrema.

Se Engels insiste tanto nas organizações económicas dos operários em semelhantes condições é porque se trata dos regimes democráticos mais consolidados, que apresentam ao proletariado tarefas puramente socialistas.

Se Engels insiste na importância do partido operário independente, ainda que com um mau programa, é porque se trata de países onde até agora não houve sequer indícios de qualquer independência política dos operários, onde os operários se arrastaram e se arrastam em política as mais das vezes atrás da burguesia.

Tentar estender conclusões tiradas destas considerações a países ou a momentos históricos em que o proletariado criou o seu partido antes dos liberais burgueses, em que o proletariado não tem nem sombras de tradições de votação nos politiqueiros burgueses, em que na ordem do dia não se colocam directamente tarefas socialistas mas democráticas burguesas, tentar fazer isto significa zombar do método histórico de Marx.

O nosso pensamento será ainda mais claro para o leitor se compararmos as referências de Engels ao movimento anglo-americano com as referências ao movimento alemão.

Tais referências são também muito numerosas na correspondência publicada e extremamente interessantes. E aquilo que atravessa todas estas referências como um fio condutor é algo de completamente diferente: a prevenção contra a «ala direita» do partido operário, a guerra implacável (por vezes — como em Marx em 1877-1879 — furiosa) contra o oportunismo na social-democracia.

Primeiro confirmaremos isto com citações das cartas e depois deter-nos-emos na apreciação deste fenómeno.

Antes de mais, é preciso assinalar aqui as referências de K. Marx a Höchberg e Cª. F. Mehring, no seu artigo «Der Sorgesche Briefwechsel», esforça-se por suavizar as invectivas de Marx, tal como as invectivas posteriores de Engels contra os oportunistas, esforça-se, em nossa opinião, um pouco demasiadamente. Em particular, relativamente a Höchberg e Cª, Mehring defende a sua opinião de que Marx avaliou erradamente Lassalle e os lassallianos(10). O que nos interessa aqui, repetimos, não é a avaliação histórica da correcção ou exagero dos ataques de Marx contra tais socialistas precisamente, mas a avaliação de princípio por Marx de determinadas correntes no socialismo em geral.

Queixando-se dos compromissos dos sociais-democratas alemães com os lassallianos e com Dühring (carta de 19 de Outubro de 1877), Marx condena também o compromisso

«com todo um bando de estudantes imaturos e de doutores sapientíssimos» («doutor» em alemão é um grau científico que corresponde ao nosso «candidato» ou «que acabou a universidade com menção de 1.° grau») «que se colocam a tarefa de dar ao socialismo uma orientação "idealista mais elevada", isto é, de substituir a sua base materialista (que exige, antes que se possa operar com ela, um estudo objectivo) por uma nova mitologia com todas as suas deusas: justiça, liberdade, igualdade e fraternité (fraternidade). Um dos representantes desta orientação é o editor da revista Zukunft(11), o Dr. Höchberg, que "se juntou" ao partido — admito que com "as melhores" intenções, mas eu rio-me de toda a espécie de "intenções". Raramente surgiu à luz do dia algo de mais lamentável e com maior "pretensão modesta" do que o programa da sua Zukunft» (carta n.° 70).

Noutra carta, escrita quase dois anos depois (19 de Setembro de 1879), Marx refuta os mexericos no sentido de que ele e Engels apoiam J. Most, e conta pormenorizadamente, a Sorge a sua atitude em relação aos oportunistas no partido social-democrata alemão. A revista Zukunft era dirigida por Höchberg, Schramm e E. Bernstein. Marx e Engels recusaram-se a participar em semelhante publicação, e quando se tratou de fundar, com a participação do mesmo Höchberg e com a sua ajuda pecuniária, um novo órgão do partido, Marx e Engels começaram por exigir, para controlar aquela «trapalhada de doutores, estudantes e socialistas de cátedra(12)», que fosse admitido o redactor responsável por eles nomeado, Hirsch, e depois dirigiram-se com uma circular directa a Bebel, Liebknecht e outros chefes do partido social-democrata, prevenindo que lutariam abertamente contra «tal vulgarização (Verluderung — a palavra em alemão é ainda mais forte) da teoria e do partido» se não mudasse a orientação de Höchberg, Schramm e Bernstein.

Este foi o período no partido social-democrata alemão sobre o qual Mehring escreveu na sua História — «Um ano de desordem» («Ein Jahr der Verwirrung»). Depois da «lei de excepção» o partido não encontrou logo a via justa, lançando-se primeiro no anarquismo de Most e no oportunismo de Höchberg e Cª

«Esta gente», escreve Marx acerca do último, «é um zero no aspecto teórico, e no aspecto prático não presta para nada, quer tornar o socialismo (do qual tem um conceito de acordo com a receita universitária) e, principalmente, o partido social-democrata, mais moderados, e ilustrar os operários, ou, como eles se exprimem, inculcar-lhes "elementos de instrução", tendo eles próprios apenas confusos semiconhecimentos, e, além disso, eles colocam antes de mais como sua tarefa elevar a importância do partido aos olhos da pequena burguesia. No entanto, eles não representam nem mais nem menos do que uns miseráveis palradores contra-revolucionários.»

O ataque «furioso» de Marx conduziu a que os oportunistas recuassem e... se apagassem. Na carta de 19 de Novembro de 1879 Marx comunica que Höchberg foi afastado da comissão de redacção e que todos os chefes influentes do partido, Bebel, Liebknecht, Bracke, etc., renegaram as suas ideias. O órgão partidário da social-democracia, O Social-Democrata(13), começou a publicar-se sob a direcção de Vollmar, que então se encontrava na ala revolucionária do partido. Ainda um ano depois (5 de Novembro de 1880) Marx conta que ele e Engels lutaram constantemente contra a «miserável» (miserabel) direcção deste Social-Democrata e lutaram muitas vezes com dureza («wobei's oft scharf hergeht»). Liebknecht esteve com Marx em 1880 e prometeu que haveria uma «melhoria» em todos os aspectos.

A paz foi restabelecida e a guerra não surgiu à superfície. Höchberg afastou-se e Bernstein tornou-se um social-democrata revolucionário... pelo menos até à morte de Engels em 1895.

Em 20 de Julho de 1882 Engels escreve a Sorge, falando desta luta já como do passado:

«No geral as coisas na Alemanha vão lindamente. É verdade que os senhores literatos do partido tentaram provocar no partido uma viragem reaccionária, mas fracassaram com estrondo. O escárnio a que os operários sociais-democratas são submetidos por toda a parte tornaram-nos ainda mais revolucionários do que eles eram há três anos... Estes senhores (os literatos do partido) queriam a todo o custo, ao preço da brandura, da humildade e do servilismo, obter com súplicas a abolição da lei contra os socialistas que os privara tão descaradamente do seu ganha-pão literário. Com a abolição desta lei a cisão manifestar-se-á indubitavelmente, e os senhores Viereck e Höchberg, etc., depois de formarem uma ala direita, separar-se-ão; será possível entrar em negociações com eles de tempos a tempos enquanto eles não desaparecerem finalmente por completo. Esta opinião foi por nós expressa logo depois da promulgação da lei contra os socialistas, quando Höchberg e Schramm publicaram no Anuário(14) uma apreciação infame ao mais alto grau da actividade do partido e exigiram um modo de actividade mais decente, educado e elegante por parte do partido» («jebildetes» em vez de gebildetes. Engels alude à pronúncia berlinense dos literatos alemães).

A previsão da bernsteiniada, feita em 1882, foi confirmada de modo notável em 1898 e nos anos seguintes.

E desde então, particularmente depois da morte de Marx, Engels — pode-se dizer sem exagero: incansavelmente — «endireita» aquilo que foi torcido pelos oportunistas alemães.

Fim de 1884. São condenados os «preconceitos pequeno-burgueses» dos deputados sociais-democratas alemães ao Reichstag, que tinham votado a favor do subsídio aos barcos a vapor («Dampfersubvention», ver a História de Mehring). Engels informa Sorge de que tem de corresponder-se bastante a este propósito (carta de 31 de Dezembro de 1884).

1885. Apreciando toda a história da «Dampfersubvention», Engels escreve (3 de Junho) que «as coisas por pouco não chegaram à cisão(15)». O «filistinismo» dos deputados da social-democracia era «colossal». «Uma fracção pequeno-burguesa-socialista é inevitável num país como a Alemanha», diz Engels.

1887. Engels responde a Sorge, que lhe escrevera que o partido se desonrava com a eleição para deputados de pessoas como Viereck (social-democrata de corte höchberguista). Não há nada a fazer — justifica-se Engels —, o partido operário não tem onde ir buscar bons deputados ao Reichstag. «Mas os senhores da ala direita sabem que só são tolerados devido à lei contra os socialistas e que logo no primeiro dia em que o partido respire mais facilmente eles serão deitados para fora dele.» E em geral é melhor «que o partido esteja acima dos seus heróis parlamentares do que o contrário» (3 de Março de 1887). Liebknecht é um conciliador — queixa-se Engels — , esconde sempre as divergências com frases. Mas quando as coisas chegarem à cisão, no momento decisivo ele estará connosco.

1889. Dois congressos sociais-democratas internacionais em Paris(16). Os oportunistas (com os possibilistas(17) franceses à cabeça) cindiram-se dos sociais-democratas revolucionários. Engels (tinha então 68 anos) lança-se na batalha como um jovem. Uma série de cartas (de 12 de Janeiro a 20 de Julho de 1889) é dedicada à luta contra os oportunistas. São fustigados não só eles mas também os alemães Liebknecht, Bebel e outros, pelo seu espírito de conciliação.

Os possibilistas venderam-se ao governo, escreve Engels em 12 de Janeiro de 1889. E denuncia os membros da «Federação Social-Democrata» (SDF) inglesa por se aliarem aos possibilistas. «A correria e a enorme correspondência a propósito deste maldito congresso não me deixam tempo para mais nada» (11 de Maio de 1889). Os possibilistas atarefam-se, e os nossos dormem, zanga-se Engels. Agora até Auer e Schippel exigem que nós vamos ao congresso dos possibilistas. Mas isto abriu «finalmente» os olhos a Liebknecht. Engels, juntamente com Bernstein, escreve panfletos (assinados por Bernstein; Engels chama-lhes: «os nossos panfletos») contra os oportunistas.

«Com a excepção da SDF, em toda a Europa os possibilistas não têm do seu lado nenhuma das organizações socialistas (8 de Junho de 1889). Consequentemente, não lhes resta senão voltar para trás, para as trade unions não socialistas» (para informação dos nossos admiradores de um partido operário amplo, de um congresso operário, etc.). «Da América só lhes virá um delegado dos cavaleiros do trabalho.» O adversário era o mesmo que na luta contra os bakuninistas: «apenas com a diferença de que a bandeira dos anarquistas foi substituída pela bandeira dos possibilistas; a mesma venda dos seus princípios à burguesia em troca de concessões a retalho, e principalmente em troca de lugarzinhos lucrativos para os chefes (membros do conselho municipal, da bolsa do trabalho, etc.)». Brousse (chefe dos possibilistas) e Hyndman (chefe da SDF, que se unira aos possibilistas) atacam o «marxismo autoritário» e querem constituir «o núcleo de uma nova Internacional».

«Não podes imaginar até que ponto os alemães são ingénuos! Custou-me grandes esforços explicar, mesmo ao próprio Bebel, onde é que estava aqui realmente a questão» (8 de Junho de 1889). E quando ambos os congressos se realizaram, quando os sociais-democratas revolucionários superaram em número os possibilistas (unidos às «trade unions», à SDF, a uma parte dos austríacos, etc.), Engels rejubila (17 de Julho de 1889). Alegra-o o facto de os planos e propostas conciliadores de Liebknecht e outros não terem tido êxito (20 de Julho de 1889). «E a nossa confraria conciliadora sentimental mereceu, por toda a sua benevolência, levar um rude pontapé no sítio mais fofo.» «Pode ser que isto os cure por algum tempo.»

... Mehring tinha razão («Der Sorgesche Briefwechsel») em dizer que Marx e Engels entendiam pouco de «boas maneiras»: «não hesitavam muito ao desferir um golpe, mas também não choramingavam a propósito de cada golpe que recebiam». «Se pensais», escreveu uma vez Engels, «que as vossas alfinetadas podem atravessar a minha velha, bem curtida e espessa pele, estais enganados.»(18) E eles supunham também nos outros esta insensibilidade por eles adquirida, escreve Mehring sobre Marx e Engels.

1893. Ajuste de contas com os «fabianos»(19), que se impunha por si próprio... para condenar os bernsteinianos (não foi por acaso que Bernstein «educou» o seu oportunismo em Inglaterra com os «fabianos»). «Os fabianos aqui em Londres representam um bando de carreiristas, que têm, contudo, suficiente senso comum para compreender a inevitabilidade da revolução social; mas, não confiando este gigantesco trabalho apenas ao rude proletariado, eles condescenderam em pôr-se à sua cabeça. O medo da revolução é o seu princípio fundamental. Eles são "intelectuais" par excellence. O seu socialismo é um socialismo municipal: é a comuna e não a nação que deve, pelo menos nos primeiros tempos, tornar-se proprietária dos meios de produção. Eles apresentam o seu socialismo como uma consequência extrema mas inevitável do liberalismo burguês. Daí a sua táctica: não travar uma luta decidida contra os liberais como adversários mas empurrá-los para conclusões socialistas, isto é, enganá-los, "permear o liberalismo de socialismo", não opor candidatos socialistas aos liberais mas enfiá-los disfarçadamente aos liberais, isto é, introduzi-los por via do engano... Mas naturalmente eles não compreendem que ao fazê-lo ou serão eles próprios enganados ou enganarão o socialismo.

«Os fabianos publicaram, a par de diferentes disparates, também algumas boas obras de propaganda, e isto é o melhor de tudo aquilo que foi feito pelos ingleses neste campo. Mas mal voltam à sua táctica específica de esbater a luta de classes, as coisas põem-se más. Por causa da luta de classes eles odeiam fanaticamente Marx e todos nós.

«Os fabianos contam, naturalmente, muitos partidários burgueses e por isso dispõem também de "muito dinheiro"...»(20)

Apreciação Clássica do oportunismo Intelectual na Social-Democracia

1894. Questão camponesa.

«No continente», escreve Engels em 10 de Novembro de 1894, «à medida que o movimento cresce aumenta também o desejo de êxitos ainda maiores, e a caça ao camponês, no sentido literal desta palavra, está a entrar em moda. Primeiro os franceses, pela boca de Lafargue, declararam em Nantes que não só não nos cabe apressar a ruína do pequeno campesinato — o capitalismo vela por isso em vez de nós —, como precisamos de defender directamente o camponês contra o fisco, os usurários e os grandes proprietários agrários. Mas nós não podemos de modo nenhum concordar com isto, porque isto, em primeiro lugar, é estúpido, e, em segundo lugar, é também impossível. Depois disto Vollmar pronuncia-se em Frankfurt, tencionando subornar os camponeses em geral, sendo que o camponês com que ele tem de lidar na Alta Baviera não é o mesmo que o pequeno camponês renano, esmagado pelas dívidas, mas o agricultor médio e o grande agricultor independente, que explora assalariados e assalariadas agrícolas e que negoceia em gado e em cereais. E é impossível concordar com isto sem renunciar a todos os princípios.»

1894, 4 de Dezembro:

«... Os bávaros tornaram-se muito e muito oportunistas e transformaram-se quase num simples partido popular (falo da maioria dos chefes e de muitos daqueles que entraram recentemente para o partido); no Landtag bávaro eles votaram a favor do orçamento no seu conjunto, e particularmente Vollmar organizou agitação entre os camponeses com o objectivo de atrair não os assalariados agrícolas mas os grandes agricultores da Alta Baviera, gente que possui de 25 a 80 acres de terra (de 10 a 30 hectares) isto é, que não pode de maneira nenhuma dispensar operários assalariados...»

Vemos por aqui que no decurso de mais de dez anos Marx e Engels lutaram sistemática e incansavelmente contra o oportunismo no partido social-democrata alemão e atacaram o filistinismo intelectual e o pequeno-burguesismo no socialismo. Este é um facto extremamente importante. O grande público sabe que a social-democracia alemã é considerada um modelo de política e táctica marxistas do proletariado, mas não sabe que guerra constante tiveram de travar os fundadores do marxismo contra a «ala direita» (expressão de Engels) deste partido. Não foi por acaso que depois da morte de Engels esta guerra passou de secreta a aberta. Foi o resultado inevitável de decénios de desenvolvimento histórico da social-democracia alemã.

E agora surgem-nos de modo particularmente nítido as duas linhas dos conselhos, indicações, correcções, ameaças e exortações de Engels (e de Marx). Os seus apelos mais persistentes aos socialistas anglo-americanos eram no sentido de se fundirem com o movimento operário, de arrancarem das suas organizações o estreito e incrustado espírito de seita. Aquilo que eles ensinaram mais persistentemente aos sociais-democratas alemães foi: não caiais no filistinismo, no «idiotismo parlamentar» (expressão de Marx na carta de 19 de Setembro de 1879), no oportunismo pequeno-burguês intelectual.

Não será característico que os nossos bisbilhoteiros sociais-democratas se tenham posto a papaguear sobre os conselhos da primeira espécie e tenham apertado os lábios, guardando silêncio, sobre os conselhos da segunda espécie? Esta unilateralidade na apreciação das cartas de Marx e Engels não será o melhor indício de uma certa... «unilateralidade» nossa, russa, social-democrata?

Actualmente, quando o movimento operário internacional manifesta sintomas de profunda efervescência e vacilação, quando os extremos do oportunismo, do «idiotismo parlamentar» e do reformismo filisteu suscitaram os extremos contrários do sindicalismo revolucionário(21) — actualmente a linha geral das «correcções» de Marx e Engels ao socialismo anglo-americano e alemão adquire uma importância excepcional.

Em países onde não há partido operário social-democrata, não há deputados sociais-democratas nos parlamentos, não há qualquer política social-democrata sistemática e consequente nem nas eleições nem na imprensa, etc., nesses países Marx e Engels ensinavam os socialistas a quebrar a todo o custo o sectarismo estreito e a juntar-se ao movimento operário, para sacudir politicamente o proletariado. Porque nem na Inglaterra nem na América o proletariado manifestou, no último terço do século XIX, quase nenhuma independência política. A arena política nestes países — havendo uma ausência quase absoluta de tarefas históricas democráticas burguesas — era inteiramente preenchida por uma burguesia triunfante e cheia de si, que não tem igual no mundo na arte de enganar, corromper e subornar os operários.

Pensar que estes conselhos de Marx e Engels ao movimento operário anglo-americano podem ser simples e directamente aplicados às condições russas significa utilizar o marxismo não para esclarecer o seu método, não para estudar as particularidades históricas concretas do movimento operário em determinados países, mas para pequenos ajustes de contas fraccionários e intelectuais.

Pelo contrário, num país onde a revolução democrática burguesa ficou inacabada, onde reinava e reina «o despotismo militar revestido de formas parlamentares» (expressão de Marx na sua Crítica do Programa de Gotha), onde o proletariado já há muito foi arrastado para a política e leva a cabo uma política social-democrata, nesse país Marx e Engels temiam acima de tudo a vulgarização parlamentar, a degradação filistina das tarefas e dimensões do movimento operário.

Somos tanto mais obrigados a sublinhar e pôr em primeiro plano este aspecto do marxismo na época da revolução democrática burguesa na Rússia quanto no nosso país uma vasta, «brilhante» e rica imprensa burguesa liberal apregoa em mil vozes ao proletariado a lealdade, legalidade parlamentar, modéstia e moderação «exemplares» do vizinho movimento operário alemão.

Esta interesseira mentira dos traidores burgueses da revolução russa não é devida ao acaso nem à perversidade pessoal de quaisquer ministros passados ou futuros do campo democrata-constitucionalista. Ela é devida aos interesses económicos profundos dos latifundiários liberais e dos burgueses liberais russos. E na luta contra esta mentira, contra este «embrutecimento das massas» («Massenverdummung» — expressão de Engels na carta de 29 de Novembro de 1886), as cartas de Marx e Engels devem servir de arma insubstituível a todos os socialistas russos.

A mentira interesseira dos burgueses liberais mostra ao povo a «modéstia» exemplar dos sociais-democratas alemães. Os chefes destes sociais-democratas, os fundadores da teoria do marxismo, dizem-nos:

«A actuação revolucionária dos franceses pôs a nu a hipocrisia de Viereck e Cª (oportunistas sociais-democratas na fracção parlamentar social-democrata alemã) de forma ainda mais miserável» (trata-se da formação de um partido operário na câmara francesa e da greve de Decazeville, que separou os radicais franceses do proletariado francês(22)). «Nos últimos debates socialistas já só intervieram Liebknecht e Bebel, e ambos com muito êxito. Com estes debates podemos de novo mostrar-nos em companhia decente, o que, infelizmente, antes nem sempre acontecia. É em geral bom que aos alemães, particularmente depois de eles terem enviado para o Reichstag um tão grande número de filisteus (o que, contudo, era inevitável), seja disputado o papel de dirigentes do movimento social internacional. Em tempos calmos na Alemanha tudo se torna filisteu, e nesses momentos é absolutamente necessário o aguilhão da concorrência francesa...» (carta de 29 de Abril de 1886).

Eis quais as lições que mais solidamente deve assimilar o Partido Operário Social-Democrata da Rússia, que se encontra sob a influência ideológica predominante da social-democracia alemã.

Estas lições são-nos dadas não por esta ou aquela passagem isolada da correspondência dos maiores homens do século XIX mas por todo o espírito e por todo o conteúdo da sua crítica da experiência internacional do proletariado, crítica de camaradas, directa, alheia à diplomacia e aos pequenos cálculos.

Até que ponto todas as cartas de Marx e Engels estão realmente permeadas deste espírito é o que podem mostrar ainda as seguintes passagens, é verdade que relativamente específicas, mas em contrapartida extremamente características.

Em 1889 começou em Inglaterra um movimento jovem, mais fresco, cheio de um espírito novo e revolucionário, de simples operários não instruídos e não qualificados (operários do gás, estivadores, etc.). Engels fica encantado com ele. O papel da filha de Marx, Tussy, que fazia agitação entre eles, é por ele sublinhado com entusiasmo.

«O mais repulsivo aqui», escreve ele de Londres em 7 de Dezembro de 1889, «é a "respeitabilidade" burguesa absorvida pelos operários na sua carne. A divisão social da sociedade em incontáveis gradações reconhecidas por todos sem discussão, cada uma das quais tem a sua "honra" e está permeada de um sentimento inato de respeito em relação aos "melhores" e "superiores", é tão antiga e tão firme que para a burguesia não representa grande trabalho enganar as massas. Eu, por exemplo, estou longe de estar convencido de que John Burns interiormente se orgulhe mais da sua popularidade no seio da sua classe do que da sua popularidade junto do cardeal Manning, o Lord Mayor, e da burguesia em geral. E Champion — tenente na reserva — já há muitos anos realizou uns negócios com elementos burgueses e principalmente conservadores e pregou o socialismo no clerical Congresso da Igreja, etc. E mesmo o próprio Tom Mann, que eu considero o melhor deles, também ele gosta de contar que irá almoçar com o Lord Mayor. E só comparando-os com os franceses nos convencemos de até que ponto é salutar a influência de uma revolução.»

Os comentários são supérfluos.

Mais um exemplo. Em 1891 existia o perigo de uma guerra europeia. Engels correspondeu-se sobre isto com Bebel e eles concordaram em que em caso de ataque da Rússia contra a Alemanha os socialistas alemães deveriam lutar desesperadamente contra os russos e quaisquer aliados dos russos.

«Se a Alemanha for estrangulada, nós sê-lo-emos juntamente com ela. Mas no caso de as coisas se apresentarem favoravelmente a guerra tomará um carácter tão encarniçado que a Alemanha só poderá manter-se com medidas revolucionárias, razão pela qual é muito possível que sejamos obrigados a tomar o leme da governação e representar um 1793» (carta de 24 de Outubro de 1891).

Para que saibam os oportunistas que gritaram aos quatro ventos o carácter não social-democrata das perspectivas «jacobinas» para o partido operário russo em 1905! Engels apontou directamente a Bebel a possibilidade de os sociais-democratas terem de participar num governo provisório.

É perfeitamente natural que, com estas concepções das tarefas dos partidos operários sociais-democratas, Marx e Engels tivessem a fé mais radiosa na revolução russa e no seu poderoso significado mundial. No decurso de quase vinte anos nós vemos nesta correspondência esta apaixonada expectativa de uma revolução na Rússia.

Eis a carta de Marx de 27 de Setembro de 1877. A crise oriental(23) suscita o entusiasmo de Marx.

«A Rússia está há já muito tempo no limiar de grandes revoluções, e amadureceram já todos os elementos necessários para isto. O rebentar foi apressado muitos anos graças aos golpes assestados pelos bravos turcos... A revolução começará secundum artem ("segundo todas as regras da arte") com uns devaneios constitucionais, e haverá uma barulheira extraordinária (il y aura un beau tapage). E se a mãe natureza for benevolente, viveremos o suficiente para ver esse triunfo.» (Marx tinha então 59 anos.)

A mãe natureza não deixou — e talvez não pudesse deixar — Marx viver o suficiente para ver «esse triunfo». Mas ele previu os «devaneios constitucionais», e as suas palavras parecem escritas ontem sobre a primeira e a segunda Dumas russas. E a advertência ao povo acerca dos «devaneios constitucionais» constitui precisamente a «alma viva» da táctica de boicote tão odiada pelos liberais e oportunistas...

Eis a carta de Marx de 5 de Novembro de 1880. Ele regozija-se com o êxito de O Capital na Rússia e coloca-se ao lado dos narodovolistas contra o grupo, então acabado de aparecer, da partilha negra(24). Os elementos anarquistas nas suas concepções foram correctamente apreendidos por Marx e — não conhecendo e não tendo a possibilidade de conhecer então a evolução futura dos populistas da partilha negra para a social-democracia — Marx ataca-os com toda a força do seu sarcasmo cortante:

«Estes senhores são contra toda a actuação política revolucionária. A Rússia, em sua opinião, deve dar um salto directamente para o milénio anarquista-comunista-ateísta. Entretanto eles preparam este salto com o mais aborrecido doutrinarismo. Os chamados princípios das suas doutrinas foram tomados do falecido Bakúnine.»

Por aqui se pode ver como Marx apreciaria a importância para a Rússia de 1905 e dos anos seguintes da «actuação política revolucionária» dos sociais-democratas(25).

Eis a carta de Engels de 6 de Abril de 1887:

«Em contrapartida, parece estar iminente uma crise na Rússia. Os últimos atentados causaram uma grande perturbação...» A carta de 9 de Abril de 1887 diz a mesma coisa... «O exército está cheio de oficiais descontentes e conspiradores» (Engels encontrava-se então sob a impressão da luta revolucionária narodovolista, depositando esperanças nos oficiais e não vendo ainda o revolucionarismo do soldado e do marinheiro russos, que se manifestaram tão brilhantemente 18 anos depois...). «... Não penso que o estado de coisas actual se mantenha nem mais um ano. E quando na Rússia rebentar ("losgeht") a revolução, então hurra!»

Carta de 23 de Abril de 1887:

«Na Alemanha há perseguições após perseguições (de socialistas). Bismarck parece querer preparar tudo para que, no momento em que na Rússia rebente a revolução, que é questão de alguns meses, a Alemanha possa imediatamente seguir o seu exemplo» («losgeschlagen werden»).

Os meses revelaram-se muito e muito longos. Não há dúvidas de que haverá filisteus que, franzindo o sobrolho e enrugando a testa, condenarão severamente o «revolucionarismo» de Engels ou rirão condescentemente das velhas utopias do velho exilado revolucionário.

Sim, Marx e Engels enganaram-se muito e enganaram-se frequentemente na determinação da proximidade da revolução, nas esperanças na vitória da revolução (por exemplo em 1848 na Alemanha), na fé na proximidade da «república» alemã («morrer pela república», escreveu Engels sobre essa época, recordando o seu estado de espírito como participante na campanha militar pela constituição imperial em 1848-1849(26)). Enganaram-se em 1871 quando se ocupavam em «erguer o Sul da França, pelo que eles (Becker escreve "nós" referindo-se a si e aos seus amigos mais próximos: carta n.° 14 de 21 de Julho de 1871) sacrificaram e arriscaram tudo o que era humanamente possível...» Na mesma carta: «Se em Março e Abril tivéssemos mais dinheiro, teríamos erguido toda a França meridional e salvo a Comuna de Paris» (p. 29). Mas tais erros dos gigantes do pensamento revolucionário, que procuraram erguer e ergueram o proletariado de todo o mundo acima do nível das tarefas mesquinhas, corriqueiras e triviais, são mil vezes mais nobres, grandiosos e historicamente mais preciosos e verdadeiros do que a vulgar sabedoria do liberalismo oficial que canta, grita, clama e expõe a futilidade das futilidades revolucionárias, a inutilidade da luta revolucionária, os encantos das fantasias «constitucionais» contra-revolucionárias...

A classe operária russa conquistará a liberdade e impulsionará a Europa para a frente com as suas acções revolucionárias cheias de erros — e que os homens vulgares se vangloriem da ausência de erros da sua inacção revolucionária.

 



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Notas de rodapé:

 

(1) O artigo de F. Mehring «Der Sorgesche Briefwechsel» («A correspondência de Sorge») não foi incluída nessa edição do livro.

 

(2) Sovreménnaia Jizn (Vida Contemporânea): revista menchevique, publicada em Moscovo de Abril de 1906 a Março de 1907. Na revista colaboravam G.V. Plekhánov e L. Martóv.

 

(3) Ótkliki (Ecos): colectâneas mencheviques publicadas em Sampetersburgo em 1906-1907

 

(4) Ver Cartas de K. Marx ao Dr. Kugelmann. Tradução para russo sob a redacção e com prefácio de N. Lénine. Sampetersburgo, 1907. [Ver tomo I das Obras Escolhidas de V.I.Lénine em 6 tomos, pp. 307-314. (N. Ed.)]

 

(5) A Federação Social-Democrata (Social-Democratic Federation) da Inglaterra foi fundada em 1884. Ao lado de reformistas e anarquistas, da SDF fazia parte um grupo de social-democratas revolucionários, partidários do marxismo, que constituiam a ala esquerda do movimento socialista da Inglaterra. F. Engels criticou severamente a SDF por dogmatismo e sectarismo. Em 1907 a SDF recebeu o nome de Partido Social-Democrata, o qual mais tarde, juntamente com outros partidos, formou o Partido Socialista Britânico (British Socialist Party).

 

(6) Lénine cita a carta de F. Engels a F.A. Sorge de 29 de Novembro de 1886

 

(7) A ideia oportunista da criação de um «amplo partido operário», avançada durante os anos da primeira revolução russa de 1905-1907 por P. Axelrod e apoiada por I. Lárine e outros dirigentes dos mencheviques, consistia na criação de um partido operário legal composto por sociais-democratas, socialistas-revolucionários e anarquistas. Na realidade isso significaria a liquidação do POSDR.

 

(8) Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labour): Nobre Ordem dos Cavaleiros do Trabalho, organização dos operários americanos fundada em 1869 em Filadélfia e que até 1881 teve o carácter de associação secreta. A Ordem agrupava sobretudo operários não qualificados, incluindo muitos negros. Considerava como sua tarefa a educação dos operários, a defesa dos seus interesses por meio da solidariedade e da entreajuda operárias. Contudo, a direcção da Ordem no fundo rejeitava a participação dos operários na luta política e tinha posições de colaboração de classes. Apesar da política de traição dos dirigentes, a Nobre Ordem dos Cavaleiros do Trabalho, sobretudo no primeiro período da sua existência, desempenhou um papel positivo no movimento operário dos EUA. Em fins dos anos 90 a Ordem começou a perder a influência entre as massas e dissolveu-se.

 

(9) Carta de F. Engels a F.A. Sorge de 29 de Novembro de 1886

 

(10) Lassallianos: membros da Associação Geral de Operários Alemães, fundada em 1863 pelo conhecido socialista pequeno-burguês alemão F. Lassalle. A criação de um partido político de massas da classe operária foi um indubitável passo em frente no desenvolvimento do movimento operário na Alemanha. Contudo, nas questões fundamentais da teoria e da política, os lassallianos ocupavam uma posição oportunista. A luta pelo sufrágio universal foi proclamada programa político da Associação e a criação de associaçõe operárias subsidiadas pelo Estado o seu programa económico. Na sua actividade política Lassalle e os seus partidários e continuadores, adaptando-se à hegemonia da Prússia, apoiavam a política de grande potência de Bismarck. K. Marx e F. Engels criticaram repetida e severamente a teoria, a táctica e os princípios de organização dos lassallianos como uma corrente oportunista no movimento operário alemão.

 

(11) Die Zukunft (O Futuro): revista de orientação social-reformista, editada por um grupo de membros do Partido Social-Democrata Alemão; publicou-se em Berlim de Outubro de 1877 a Novembro de 1878

 

(12) Socialistas de cátedra: Representantes de uma das orientações da economia política burguesa dos anos 70-80 do século XIX, que defendiam nas cátedras universitárias, sob a aparência de socialismo, o reformismo burguês liberal. Na Rússia, as concepções dos socialistas de cátedra eram defendidas pelos «marxistas legais».

 

(13) O Social-Democrata (Der Sozialdemokrat): jornal, órgão central do Partido Social-Democrata Alemão no período de vigência da lei de excepção contra os socialistas: publicou-se em Zurique de 28 de Setembro de 1879 a 22 de Setembro de 1888 e em Londres de 1 de Outubro de 1888 a 27 de Setembro de 1890. O jornal foi dirigido em 1879-1880 por G. Vollmar e a partir de Janeiro de 1881 por E. Bernstein, que se encontrava então sob uma forte influência de F. Engels. A direcção ideológica de Engels assegurava a orientação marxista do Der Sozialdemokrat.

 

(14) Jahrbuch für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik (Anuário de Ciência Social e Política Social): revista de orientação social-reformista, publicada por K. Höchberg em Zurique de 1879-1881. O artigo de que se trata — «Olhar retrospectivo sobre o movimento socialista na Alemanha. Aforismos críticos» («Rückblicke auf die sozialidtiche Bewegung in Deurschland. Kritische Aphorismen» — foi publicado no primeiro número do Anuário.

 

(15) Trata-se das divergências na fracção social-democrata do Reichstag alemão acerca da questão dos subsídios aos barcos a vapor. Em fins de 1884, o chanceler da Alemanha, Bismarck, exigiu ao Reichstag, no interesse da política colonial de conquista alemã, que ratificasse subsídios às sociedades de barcos a vapor para a organização de carreiras regulares para a Ásia Central, a Austrália e a África. Enquanto a ala esquerda social-democrata da fracção, encabeçada por Bebel e Liebknecht, rejeitava o subsídio aos barcos a vapor, a ala direita, que constituía a maioria da fracção, pronunciou-se, mesmo antes dos debates oficiais no Reichstag, pela concessão do subsídio. As divergências eram tão agudas que quase provocaram uma cisão no partido. Só depois do Reichstag ter rejeitado a condição avançada pela ala direita de construir os novos navios em estaleiros alemães é que toda a fracção votou contra o projecto governamental.

 

(16) Tem-se em vista o I Congresso da II Internacional, realizado em Paris de 14 a 20 de Julho de 1889, e o congresso da Federação Social-Democrata de Inglaterra e dos possibilistas franceses, realizado simultaneamente na mesma cidade.

 

(17) Possibilistas: corrente reformista pequeno-burguesa no movimento socialista francês, encabeçada por P. Brousse. Os possibilistas negavam o programa e a táctica revolucionários do proletariado e propunham que se limitasse a luta dos operários aos limites do «possível» — daí a designação do partido. A influência dos possibilistas difundiu-se sobretudo nas regiões economicamente atrasadas da França e nas camadas menos desenvolvidas da classe operária.

 

(18) Lénine cita a carta de F. Engels a F. Kelley-Wischnewetzky de 2 de Maio de 1888

 

(19) Fabianos: membros da Sociedade Fabiana, organização reformista inglesa fundada em 1884. A sociedade deve a sua designação ao nome do chefe militar romano do século III a.n.e. Fábio Máximo, alcunhado Cunctator (Comtemporizador) pela sua táctica de expectativa, evitando os combates decisivos na guerra contra Aníbal. Os membros da Sociedade Fabiana eram predominantemente representantes da intelectualidade burguesa – cientistas, escritores, personalidades políticas; negavam a necessidade da luta de classes do proletariado e da revolução socialista e afirmavam que a passagem do capitalismo para o socialismo só é possível por meio de pequenas reformas, da transformação gradual da sociedade. Em 1900 a Sociedade Fabiana entrou para o Partido Trabalhista.

 

(20) Lénine cita a carta de F. Engels a F.A. Sorge de 18 de Janeiro de 1893.

 

(21) Sindicalismo revolucionário: corrente pequeno-burguesa semianarquista surgida no movimento operário de uma série de países da Europa Ocidental em fins do século XIX. Os sindicalistas negavam a necessidade da luta política da classe operária, o papel dirigente do partido e a ditadura do proletariado. Consideravam que os sindicatos, por meio da organização de uma greve geral dos operários, podiam sem revolução derrubar o capitalismo e tomar nas suas mãos a direcção da produção.

 

(22) Greve de Decazeville: greve surgida espontaneamente de 2000 mineiros em Decazeville (Sul da França), provocada pela brutal exploração dos operários; a greve prolongou-se por 5 meses, de Janeiro a Junho de 1886, e encontrou grande ressonância no país. Sob a influência da greve, formou-se na Câmara dos Deputados uma pequena fracção operária que interveio em defesa das reivindicações dos operários.

 

(23) Referência à guerra russo-turca de 1877-1878

 

(24) Partilha Negra (Tchiórni Paredel): organização populista (do nome do seu órgão de imprensa, Tchiórni Paredel), formada no Outono de 1879. As reivindicações programáticas fundamentais eram a nacionalização da terra, a revolução camponesa e a substituição do Estado por uma federação de comunidades. Os tchiornoperedelistas negavam a luta política e o terrorismo. Mais tarde uma parte dos tchiornoperedelistas evoluiu para o marxismo, enquanto outros aderiram à organização Naródnaia Vólia.

 

(25) A propósito. Se a memória me não engana, Plekhánov ou V. I. Zassúlitch falaram-me em 1900-1903 da existência de uma carta de Engels a Plekhánov sobre As Nossas Divergências e sobre o carácter da revolução iminente na Rússia. Seria interessante saber com precisão se essa carta existiu, se ela está intacta e se não é altura de a publicar [Engels escreveu sobre As Nossas Divergências e sobre o carácter da revolução iminente na Rússia numa carta a V. I. Zassúlitch de 23 de Abril de 1885]

 

(26) Lénine tem em vista o ensaio de Engels Morrer pela República!, da série dos seus ensaios A campanha Alemã pela Constituição Imperial.



 

 

 

 

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