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V. I. Lénine

Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática

 

Julho de 1905

 

com base nas Obras Completas de V. I. Lénine, 5.ª ed. em russo, t. 11, pp. 1-131.

O livro de V. I. Lénine Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática foi redigido em Junho de 1905, após o fim dos trabalhos do III Congresso do POSDR e também da conferência dos mencheviques que se efectuou em Genebra simultaneamente com o congresso.

O aparecimento do livro de V. I. Lénine Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática constituiu um grande acontecimento na vida do partido. Foi amplamente difundido, clandestinamente, numa série de cidades da Rússia. O livro Duas Tácticas foi estudado nos círculos clandestinos do partido e dos operários.

Em Fevereiro de 1907, o Comité de Petersburgo para a imprensa fez apreender o livro, tendo visto no seu conteúdo uma acção criminosa contra o governo tsarista. Tendo aprovado esta apreensão em Março, a Câmara judicial de Petersburgo, em Dezembro do mesmo ano, adoptou uma deliberação na qual dizia: «... a brochura de N. Lénine Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática deve ser destruída». Porém, o governo tsarista não conseguiu destruir esta obra de V. I. Lénine.

O livro Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática foi incluído por Lénine no primeiro tomo da colectânea dos seus artigos Em Doze Anos, que apareceu em meados de Novembro de 1907 em Petersburgo. Lénine completou o livro com novas notas em rodapé. No prefácio à colectânea falou do significado do livro: "Aqui expõem-se, já de um modo sistemático, as fundamentais divergências tácticas com os mencheviques; as resoluções do 11 Congresso do POSDR, que teve lugar na Primavera em Londres (congresso dos bolcheviques), e da conferência dos mencheviques em Genebra, formalizaram de modo completo estas divergências e levaram-nos à discrepância radical quanto à apreciação de toda a nossa revolução burguesa do ponto de vista das tarefas do proletariado.»

Índice

 

Prólogo

1. Uma Questão Política Urgente

2. Que Nos Dá a Resolução do III Congresso do POSDR Sobre o Governo Provisório Revolucionário?

3. Que é a «Vitória Decisiva da Revolução Sobre o Tsarismo»?

4. A Liquidação do Regime Monárquico e a República

5. Como se Deve «Impulsionar a Revolução Para a Frente»?

6. De Que Lado Ameaça o Proletariado o Perigo de se Ver Com as Mãos Atadas na Luta Contra a Burguesia Inconsequente?

7. A Táctica da «Eliminação dos Conservadores do Governo»

8. O Osvobojdenismo e o Neo-iskrismo

9. Que Significa Ser o Partido da Oposição Extrema Durante a Revolução?

10. As «Comunas Revolucionárias» e a Ditadura Revolucionária Democrática do Proletariado e do Campesinato

11. Breve Comparação Entre Algumas Resoluções do III Congresso do POSDR e da «Conferência»

12. Diminuirá a Amplitude da Revolução Democrática se a Burguesia se Afastar Dela?

13. Conclusão. Ousaremos Nós Vencer?

Posfácio. Mais Uma Vez o Osvobojdenismo, Mais Uma Vez o Neo-iskrismo

I. Porque é Que os Realistas Liberal-burgueses Elogiam os «Realistas» Sociais- democratas»?

II. Novo «Aprofundamento» da Questão pelo Camarada Martínov

III. A Exposição Burguesa Vulgar da Ditadura e o Ponto de Vista de Marx Sobre Ela.

 

 

Prólogo

Nos momentos de revolução é muito difícil conseguir acompanhar os acontecimentos, que fornecem uma prodigiosa quantidade de material novo para apreciar as palavras de ordem tácticas dos partidos revolucionários. A presente brochura foi escrita antes dos acontecimentos de Odessa(1*). Indicámos já em Proletári[N230] (n.° 9, A Revolução Ensina)(2*) que esses acontecimentos obrigaram, mesmo aqueles sociais-democratas que criaram a teoria da insurreição-processo e negavam a propaganda a favor de um governo provisório revolucionário, a passar ou começar a passar de facto para o lado dos seus contraditores. A revolução ensina, indubitavelmente, com uma rapidez e uma profundidade que parecem incríveis nos períodos pacíficos de desenvolvimento político. E, o que é particularmente importante, ensina não só os dirigentes, mas também as massas.

Não há a menor dúvida de que a revolução ensinará o espírito social-democrata às massas operárias da Rússia. A revolução confirmará na prática o programa e a táctica da social-democracia, mostrando a verdadeira natureza das diversas classes sociais, mostrando o carácter burguês da nossa democracia e as verdadeiras aspirações do campesinato, revolucionário no sentido democrático-burguês, mas portador não da ideia da «socialização» mas de uma nova luta de classes entre a burguesia camponesa e o proletariado rural. As velhas ilusões do velho populismo, que se manifestam de modo tão evidente, por exemplo, no projecto de programa do «partido dos socialistas-revolucionários», na questão do desenvolvimento do capitalismo na Rússia, na questão do espírito democrático da nossa «comunidade rural» e na questão do significado da vitória completa da insurreição camponesa, todas essas ilusões serão dissipadas implacável e definitivamente pela revolução. Esta dará pela primeira vez o autêntico baptismo político às diferentes classes. Estas classes sairão da revolução com uma fisionomia política definida, porque se terão revelado não só nos programas e palavras de ordem tácticas dos seus ideólogos, mas também através da acção política aberta das massas.

É indubitável que a revolução nos ensinará, que ensinará as massas populares. Mas a questão, para o partido político em luta, consiste agora em ver se saberemos nós ensinar alguma coisa à revolução, se saberemos aproveitar-nos da justeza da nossa doutrina social-democrata, da nossa ligação com o proletariado, a única classe consequentemente revolucionária, para imprimir à revolução a marca proletária, para levar a revolução até à verdadeira vitória, decisiva, efectiva e não verbal, para paralisar a instabilidade, a ambiguidade e a traição da burguesia democrática.

Devemos dirigir todos os nossos esforços para este fim. E consegui-lo depende, por um lado, do acerto com que avaliemos a situação política, de que sejam justas as nossas palavras de ordem tácticas, e, por outro, de que essas palavras de ordem sejam apoiadas pela força combativa real das massas operárias. Todo o trabalho habitual, regular, corrente de todas as organizações e grupos do nosso partido, o trabalho de propaganda, agitação e organização, está orientado no sentido de fortalecer e ampliar a ligação com as massas. Este trabalho é sempre necessário, mas nos momentos revolucionários menos que nunca pode ser considerado suficiente. Nestes momentos, a classe operária sente-se instintivamente impelida para a acção revolucionária aberta e nós devemos saber colocar acertadamente os objectivos dessa acção, com o objectivo de os difundir depois do modo mais amplo possível e de fazer com que sejam compreendidos. É preciso não esquecer que o pessimismo corrente sobre a nossa ligação com as massas encobre agora com especial frequência as ideias burguesas relativas ao papel do proletariado na revolução. É indubitável que temos de trabalhar ainda muitíssimo para educar e organizar a classe operária, mas actualmente toda a questão consiste em saber onde deve residir o centro de gravidade político principal desta educação e desta organização. Nos sindicatos e nas associações legais ou na insurreição armada, no trabalho de criação de um exército revolucionário e de um governo revolucionário? A classe operária educa-se e organiza-se tanto num como noutro. Tanto um como outro são, naturalmente, necessários. Toda a questão, na revolução actual, se reduz, entretanto, a saber onde deve residir o centro de gravidade da educação e da organização da classe operária, se no primeiro ou no segundo.

O desenlace da revolução depende do seguinte: desempenhará a classe operária o papel de auxiliar da burguesia, embora seja um auxiliar poderoso pela intensidade do seu ataque contra a autocracia, mas politicamente impotente, ou assumirá o papel de dirigente da revolução popular. Os representantes conscientes da burguesia apercebem-se perfeitamente disso. É por essa razão que a Osvobojdénie exalta o akimovismo[N231], o «economismo» na social-democracia, o qual coloca actualmente em primeiro plano os sindicatos e as associações legais. Por isso é que o Sr. Struve aplaude (n.° 72 da Osvobojdénie) o aparecimento das tendências de princípios do akimovismo no neo-iskrismo. É por isso que arremete também contra a odiada estreiteza revolucionária das resoluções do III Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia[N232].

As acertadas palavras de ordem tácticas da social-democracia têm agora importância particular para a direcção das massas. Não há nada mais perigoso do que subestimar a importância das palavras de ordem tácticas conformes com os princípios nas épocas revolucionárias. Por exemplo, o Iskra [N233], no n.° 104, passa-se de facto para o lado dos seus contraditores na social-democracia, mas, ao mesmo tempo, fala com desdém da importância das palavras de ordem e resoluções tácticas que se adiantam à vida, que indicam o caminho pelo qual avança o movimento com uma série de reveses, erros, etc. Pelo contrário, a elaboração de resoluções tácticas acertadas tem uma importância gigantesca para o partido que pretende dirigir o proletariado no espírito dos firmes princípios do marxismo e não simplesmente deixar-se arrastar na cauda dos acontecimentos. Nas resoluções do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia e da conferência da parte que se separou do partido(3*), temos a expressão mais precisa, mais meditada, mais completa das concepções tácticas, não expostas por alguns autores de modo casual, mas sim aprovadas pelos representantes responsáveis do proletariado social-democrata. O nosso partido está à frente de todos os outros com um programa preciso e aceite por todos. Ele deve também dar aos outros partidos exemplo de uma atitude rigorosa em relação às suas resoluções tácticas, contrariamente ao oportunismo da burguesia democrática da Osvobojdénie e à fraseologia revolucionária dos socialistas-revolucionários, os quais só durante a revolução se lembraram de apresentar um «projecto» de programa e se ocuparam pela primeira vez da questão de saber se a revolução que se processa ante os seus olhos é burguesa.

Eis porque consideramos que a tarefa mais urgente da social-democracia revolucionária é estudar cuidadosamente as resoluções tácticas do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia e da conferência, assinalar os desvios dos princípios do marxismo que as mesmas contêm, esclarecer as tarefas concretas do proletariado social-democrata na revolução democrática. A este trabalho é consagrada a presente brochura. Comprovar a nossa táctica do ponto de vista dos princípios do marxismo e dos ensinamentos da revolução é necessário também para todo aquele que queira preparar realmente a unidade de táctica como base da futura unificação completa de todo o Partido Operário Social-Democrata da Rússia, e não limitar-se unicamente a palavras de exortação.

 

Julho de 1905.

N. Lénine

 

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Notas de Rodapé:

(1*) Refere-se a sublevação do couraçado Príncipe Pottómkine[N229]. (Nota de Lénine para a edição de 1907. - N. Ed.)

 

(2*) Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5.a ed. em russo, t. 11, p. 136. (N. Ed.)

 

(3*) No III Congresso do POSDR (realizado em Londres em Maio de 1905) apenas tomaram parte os bolcheviques. Na "conferência" em Genebra na mesma altura, apenas tomaram parte os mencheviques, frequentemente chamados neste folheto neo-iskristas, porque, tendo continuado eles a publicar o Iskra, declararam através de Trótski, então seu correligionário, que entre o velho e o novo Iskra mediava um abismo. (Nota de Lénine para a edição de 1907. - N. Ed.)

 

 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N229] A sublevação no couraçado «Potiómkine» começou a 14 (27) de Junho de 1905. O couraçado sublevado chegou a Odessa, onde naquela altura tinha lugar uma greve geral. Mas as condições favoráveis que se tinham criado para uma acção conjunta dos operários de Odessa e dos marinheiros não foram aproveitadas. Depois de errar pelo mar durante onze dias, o couraçado Potiómkine, privado de víveres e de combustível, foi obrigado a dirigir-se às costas da Roménia e a entregar-se às autoridades romenas. A maioria dos marinheiros ficou no estrangeiro. Os que regressaram à Rússia foram presos e entregues aos tribunais.

A sublevação no couraçado Potiómkine fracassou, mas a passagem da tripulação do maior navio militar para o lado da revolução marcou um importante passo em frente no desenvolvimento da luta contra a autocracia.

 

[N230] (O Proletário): jornal semanal bolchevique, clandestino. Órgão centrai do POSDR, criado de acordo com a resolução do III Congresso do partido. Por decisão da reunião plenária do Comité Central do partido, a 27 de Abril (10 de Maio) V. I. Lénine foi nomeado redactor responsável do Órgão Central. O jornal editou-se em Genebra de 14 (27) de Maio a 12 (25) de Novembro de 1905. Ao todo saíram 26 números.

 

[N231] Akimovismo: do nome de V. P. Akímov (Makhnóvets), eminente representante do «economismo», um dos oportunistas mais extremos.

 

[N232] O III Congresso do POSDR realizou-se em Londres de 12 a 27 de Abril (25 de Abril - 10 de Maio) de 1905. Foi preparado pelos bolcheviques e decorreu sob a direcção de Lénine. Os mencheviques negaram-se a participar no congresso e reuniram em Genebra a sua própria conferência.

Estiveram presentes ao congresso 38 delegados: 24 com voto deliberativo e 14 com voto consultivo.

O congresso examinou questões fundamentais da revolução que se desenrolava na Rússia e determinou as tarefas do proletariado e do seu partido. Foram debatidas no congresso as questões seguintes: relatório do Comité de Organização; insurreição armada; atitude para com a política do governo nas vésperas da revolução; sobre o governo revolucionário provisório; atitude para com o movimento camponês; estatutos do partido; atitude para com a parte que se separou do POSDR; atitude para com organizações sociais-democratas nacionais; atitude para com os liberais; acordos práticos com os socialistas-revolucionários; propaganda e agitação; relatórios do CC e dos delegados dos comités locais, e outras.

Lénine redigiu os projectos de resoluções para todas as questões fundamentais debatidas pelo congresso. Pronunciou no congresso discursos sobre a participação da social-democracía no governo revolucionário provisório, sobre a resolução quanto ao apoio ao movimento camponês, e interveio também com discursos sobre a insurreição armada, sobre as relações entre operários e intelectuais nas organizações sociais-democratas, sobre os estatutos do partido, sobre o relatório de actividade do CC e outras questões. O congresso traçou um plano estratégico e a linha táctica do partido na revolução democrática burguesa. O congresso apresentou, como tarefa fundamental e inadiável do partido na revolução democrático-burguesa, a tarefa de organizar a insurreição armada. O congresso assinalou que como resultado da vitória da insurreição popular armada devia ser criado o governo revolucionário provisório que teria de esmagar a resistência da contra-revolução, realizar o programa mínimo do POSDR, preparar as condições para passar à revolução socialista.

O congresso reviu os estatutos do partido e adoptou o primeiro parágrafo dos mesmos, sobre a filiação no partido, segundo a formulação de Lénine; eliminou o sistema de dois centros no partido (Comité Central e Órgão Central) e criou um único centro dirigente do partido: o Comitê Central; determinou com nitidez os direitos do CC e as suas relações com os comités locais.

O congresso censurou as acções dos mencheviques, o seu oportunismo nas questões de organização e de táctica. Visto que o Iskra caíra nas mãos dos mencheviques e seguia uma linha oportunista, o III Congresso encarregou o CC de criar um novo Órgão Central, o jornal Proletári. Na sessão plenária do CC de 27 de Abril (10 de Maio) de 1905 V. I. Lénine foi nomeado redactor do Proletári.

 

[N233] Trata-se do Iskra menchevíque (a partir do n.° 52 os mencheviques transformaram o Iskra em seu órgão; começou a sair o Iskra «novo», menchevique).


 

 

1.

Uma Questão Política Urgente


Nos momentos revolucionários que atravessamos está na ordem do dia a questão da convocação de uma assembleia constituinte de todo o povo. As opiniões divergem quando se procura determinar como há que resolver esta questão. Esboçam-se três tendências políticas. O governo tsarista admite a necessidade da convocação dos representantes populares, mas não deseja de modo nenhum permitir que a sua assembleia seja de todo o povo e constituinte. Parece que está de acordo, a dar-se crédito às notícias da imprensa sobre os trabalhos da Comissão Bulíguine[N234], com uma assembleia consultiva, eleita sem liberdade de agitação e de acordo com um sistema eleitoral estreitamente censitário ou rigorosamente de acordo com a divisão em estados sociais. O proletariado revolucionário, uma vez que é dirigido pela social-democracia, exige a passagem completa do poder para a assembleia constituinte, procurando com esse fim alcançar não só o sufrágio universal e não só a completa liberdade de agitação, mas, além disso, o derrubamento imediato do governo tsarista e a substituição do mesmo por um governo provisório revolucionário. Finalmente, a burguesia liberal, que exprime os seus desejos pela boca dos chefes do chamado «partido democrata-constítucionalista», não exige o derrubamento do governo tsarista, não formula a palavra de ordem de governo provisório, não insiste nas garantias reais para que as eleições sejam completamente livres e justas, para que a assembleia dos representantes possa ser efectivamente de todo o povo e efectivamente constituinte. No fundo, a burguesia liberal, a única que constitui um ponto de apoio social sério da tendência da Osvobojdénie, procura conseguir um arranjo o mais pacífico possível entre o tsar e o povo revolucionário, um arranjo tal que, além disso, deixe a maior parte possível do poder nas suas mãos, nas da burguesia, e a menor parte possível ao povo revolucionário, ao proletariado e aos camponeses.

Tal é a situação política no momento actual. Tais são as três tendências políticas principais, correspondentes às três forças sociais principais da Rússia actual. Falámos já mais de uma vez no Proletári (n.° 3, 4 e 5)(4*) da maneira como os adeptos da Osvobojdénie encobrem, com frases pseudo-democráticas, a sua política ambígua ou, para o dizer de modo mais claro e simples, pérfida, de traição, perante a revolução. Vejamos agora como consideram os sociais-democratas as tarefas do momento. Constituem, neste sentido, material excelente as duas resoluções adoptadas recentemente pelo III congresso do POSDR e pela «conferência» da parte que se separou do Partido. A questão de saber qual destas resoluções tem em conta de modo mais acertado o momento político e define de modo mais acertado a táctica do proletariado revolucionário tem enorme importância, e todo o social-democrata que deseje cumprir conscientemente os seus deveres de propagandista, agitador e organizador deve orientar-se com toda a atenção neste problema, pondo completamente de lado todas as considerações estranhas à essência da questão.

Por táctica de um partido entende-se a sua conduta política ou o carácter, a orientação e os métodos da sua actuação política. O congresso do partido adopta resoluções tácticas para definir de modo preciso a conduta política do partido no seu conjunto em relação com as novas tarefas ou em vista de uma nova situação política. Uma nova situação desta natureza foi criada pela revolução iniciada na Rússia, isto é, pela divergência completa, decidida e aberta entre a gigantesca maioria do povo e o governo tsarista. O novo problema consiste em saber quais os processos práticos que devem ser empregados para a convocação de uma assembleia realmente de todo o povo e realmente constituinte (do ponto de vista teórico, a questão de tal assembleia já há muito foi oficialmente resolvida, anteriormente a todos os demais partidos, pela social-democracia no seu programa partidário). Se o povo se divorciou do governo e as massas tomaram consciência da necessidade de estabelecer uma nova ordem de coisas, um partido que estabeleceu como seu objectivo derrubar o governo deve obrigatoriamente pensar no governo que substituirá o antigo, o que tenha sido derrubado. Surge o novo problema do governo provisório revolucionário. Para o resolver completamente, o partido do proletariado consciente deve esclarecer:

  • 1.º, a significação do governo provisório revolucionário na revolução que está a processar-se e em toda a luta do proletariado em geral;

  • 2.°, a sua atitude face ao governo provisório revolucionário;

  • 3.°, as condições precisas da participação da social-democracia neste governo;

  • 4.°, as condições da pressão a ser feita de baixo sobre o dito governo, isto é, no caso de não participarem no mesmo os sociais-democratas.

Somente esclarecendo todas estas questões a conduta política do partido nesse sentido será uma atitude de princípio, clara e firme.

Vejamos, pois, como soluciona estas questões a resolução do III congresso do POSDR. Eis o seu texto completo:

«Resolução sobre o governo provisório revolucionário.

«Considerando:

«1) que tanto os interesses imediatos do proletariado como os interesses da sua luta pelos objectivos finais do socialismo exigem a liberdade política mais completa possível e, por conseguinte, a substituição da forma de governo autocrática pela república democrática;

«2) que a instauração da república democrática na Rússia somente é possível como resultado de uma insurreição popular vitoriosa, cujo órgão será o governo provisório revolucionário, único capaz de garantir completa liberdade de agitação eleitoral e de convocar, na base do sufrágio universal, igual, directo e secreto, uma assembleia constituinte que traduza efectivamente a vontade do povo;

«3) que esta revolução democrática na Rússia, dada a ordem económico-social actual, não debilitará, antes fortalecerá, a dominação da burguesia, a qual tentará inevitavelmente, em determinado momento, não se detendo diante de coisa alguma, arrebatar ao proletariado da Rússia o maior número possível das conquistas do período revolucionário;

«O III congresso do POSDR resolve:

«a) é necessário difundir entre a classe operária uma ideia concreta sobre a marcha mais provável da revolução e sobre a necessidade do aparecimento, num momento determinado da mesma, de um governo provisório revolucionário, do qual o proletariado exigirá a realização de todas as reivindicações políticas e económicas imediatas do nosso programa (programa mínimo);

«b) em função da correlação de forças e de outros factores, que não é possível fixar com precisão de antemão, é admissível a participação dos representantes do nosso partido no governo provisório revolucionário com o fim de lutar implacavelmente contra todas as tentativas contra-revolucionárias e defender os interesses independentes da classe operária;

«c) é condição necessária para esta participação o rigoroso controlo do partido sobre os seus representantes e a constante salvaguarda da independência da social-democracia, que tem por aspiração realizar uma revolução socialista completa, e, portanto, é inimiga irreconciliável de todos os partidos burgueses;

«d) independentemente de ser ou não possível a participação da social-democracia no governo provisório revolucionário, deve-se propagandear entre as mais amplas camadas do proletariado a ideia de que é necessário que o proletariado armado, dirigido pela social-democracia, faça constante pressão sobre o governo provisório, a fim de manter, consolidar e ampliar as conquistas da revolução.»

 

 

2.

Que Nos Dá a Resolução do III Congresso do POSDR Sobre o Governo Provisório Revolucionário?

 

 

 

A resolução do III congresso do POSDR, como se vê pelo seu título, é inteira e exclusivamente consagrada à questão do governo provisório revolucionário. Isto quer dizer que a participação da social-democracia no governo provisório revolucionário surge aqui como uma parte da questão. Por outro lado, trata-se apenas de um governo provisório revolucionário e de nenhuma outra coisa; por conseguinte, não cabem aqui questões como a da «conquista do poder» em geral, etc. Teria tido razão o congresso desconhecendo esta última questão e outras análogas? Indiscutivelmente teve razão, pois a situação política da Rússia não põe de modo algum tais questões na ordem do dia. Pelo contrário, a questão posta na ordem do dia por todo o povo é o derrubamento da autocracia e a convocação da assembleia constituinte. Os congressos do partido devem resolver não as questões a que se refere oportuna ou inoportunamente este ou aquele literato, mas as que têm importância política séria em virtude das condições do momento e da evolução objectiva do desenvolvimento social.

Que importância tem o governo provisório revolucionário na revolução actual e para a luta geral do proletariado? A resolução do congresso explica-o, indicando logo no início a necessidade da «liberdade política mais completa possível», tanto do ponto de vista dos interesses imediatos do proletariado como do ponto de vista dos «objectivos finais do socialismo». Mas a liberdade política completa exige a substituição da autocracia tsarista pela república democrática, como se reconhece já no programa do nosso partido. Sublinhar a palavra de ordem de república democrática na resolução do congresso é necessário do ponto de vista lógico e de princípio, pois o proletariado, como combatente de vanguarda pela democracia, procura alcançar precisamente a liberdade completa; além disso, sublinhar esta palavra de ordem é tanto mais conveniente no momento actual quanto precisamente agora se apresentam desfraldando a bandeira da «democracia» os monárquicos, precisamente: o chamado partido «democrata»-constitucionalista ou da Osvobojdénie. Para a instauração da república é absolutamente necessária uma assembleia de representantes do povo, que deve ser necessariamente de todo o povo (na base do sufrágio universal, igual, directo e secreto) e constituinte. É isso que, mais adiante, reconhece a resolução do congresso. Mas não se limita a isso. Para estabelecer uma nova ordem de coisas que «traduza efectivamente a vontade do povo» não basta que se dê à assembleia representativa a denominação de constituinte. É preciso que esta assembleia tenha poder e força para «constituir». Consciente disso, a resolução do congresso não se limita à palavra de ordem formal de «assembleia constituinte», mas acrescenta as condições materiais sem as quais não será possível à referida assembleia o cumprimento da sua missão. Indicar as condições em que a assembleia constituinte nominal pode transformar-se em assembleia constituinte efectiva é de uma necessidade imperiosa, já que a burguesia liberal, personificada no partido monárquico-constitucionalista, deturpa deliberadamente, como já indicámos por mais de uma vez, a palavra de ordem de assembleia constituinte de todo o povo, reduzindo-a a uma frase oca.

A resolução do congresso diz que somente um governo provisório revolucionário, com a particularidade de ser órgão de uma insurreição popular vitoriosa, é capaz de garantir a completa liberdade da agitação eleitoral e de convocar uma assembleia que exprima realmente a vontade do povo. Será justa esta tese? Quem pense contestá-la deve afirmar que o governo tsarista pode não estender a mão à reacção, que é capaz de ser neutro durante as eleições, que pode preocupar-se com a expressão real da vontade do povo. Semelhantes afirmações são tão absurdas que ninguém as defenderá abertamente, mas precisamente a nossa gente da Osvobojdénie fá-las passar sub-repticiamente sob a bandeira liberal. A assembleia constituinte deve ser convocada por alguém; as eleições livres e regulares devem ser garantidas por alguém; alguém deve outorgar inteiramente a esta assembleia o poder e a força: e somente um governo revolucionário, que seja órgão da insurreição, pode querê-lo com inteira sinceridade e ser capaz de fazer tudo o que seja necessário para o realizar. O governo tsarista opor-se-á inevitavelmente a isso. Um governo liberal que tivesse chegado a um arranjo com o tsar e não se apoiasse inteiramente na insurreição popular não seria capaz de querer isto sinceramente nem de o realizar, mesmo no caso de o desejar com a maior sinceridade. Por conseguinte, a resolução do congresso dá a única palavra de ordem democrática acertada e completamente consequente.

Mas a apreciação da importância do governo provisório revolucionário seria incompleta e errada se perdêssemos de vista o carácter de classe da revolução democrática. Por isso a resolução acrescenta que a revolução fortalecerá a dominação burguesa, o que é inevitável no regime económico-social actual, isto é, capitalista. Mas o resultado do fortalecimento da dominação da burguesia sobre um proletariado que possui uma certa liberdade política deverá ser, inevitavelmente, uma luta desesperada entre eles pelo poder, deverão ser tentativas desesperadas da burguesia para «arrebatar ao proletariado as conquistas do período revolucionário». Lutando pela democracia, na vanguarda e à frente de todos, o proletariado não deve esquecer por isso, nem um momento, as novas contradições que encerra a democracia burguesa nem a nova luta.

Assim, a significação do governo provisório revolucionário é apreciada de modo completo na parte da resolução que examinámos: tanto na sua atitude face à luta pela liberdade e a república, como na sua atitude face à assembleia constituinte e na sua atitude face à revolução democrática, que limpará o terreno para uma nova luta de classes.

Pergunta-se em seguida: qual deve ser a posição do proletariado em geral em relação ao governo provisório revolucionário? A resolução do congresso responde a isto, antes de mais, com o conselho directo ao partido de difundir entre a classe operária a convicção da necessidade de constituir um governo provisório revolucionário. A classe operária deve adquirir consciência desta necessidade. Enquanto a burguesia «democrática» deixa na sombra a questão do derrubamento do governo tsarista, nós devemos colocá-la em primeiro plano e insistir na necessidade de um governo provisório revolucionário. Mais ainda, devemos indicar o programa de acção desse governo, que corresponda às condições objectivas do momento histórico actual e às tarefas da democracia proletária. Este programa é todo o programa mínimo do nosso partido, o programa das transformações políticas e económicas imediatas, completamente realizáveis, por um lado, na base das relações económico-sociais actuais, e necessárias, por outro, para dar o passo seguinte, para realizar o socialismo.

Assim, pois, a resolução esclarece completamente o carácter e os fins do governo provisório revolucionário. Pela sua origem e pelo seu carácter fundamental este governo deve ser o órgão da insurreição popular. Pelo seu destino formal deve ser o instrumento para convocar a assembleia constituinte de todo o povo. Pelo conteúdo da sua actuação deve realizar o programa mínimo da democracia proletária, único capaz de assegurar os interesses do povo sublevado contra a autocracia.

Pode-se objectar que o governo provisório, por ser provisório, não pode realizar um programa positivo, ainda não aprovado por todo o povo. Tal argumentação não seria senão um sofisma de reaccionários e «autocratófilos». Não realizar nenhum programa positivo significa tolerar a existência do regime feudal de uma autocracia podre. Só poderia tolerar semelhante ordem de coisas um governo de traidores à causa da revolução e não um governo que fosse órgão da insurreição popular. Seria troçar das pessoas alguém propor a renúncia à realização prática da liberdade de reunião até que a mesma seja reconhecida pela assembleia constituinte, a pretexto de que a assembleia constituinte poderia não reconhecer aquela liberdade de reunião! É também troçar das pessoas a objecção à aplicação imediata do programa mínimo pelo governo provisório revolucionário.

Assinalemos por último que, ao fixar como tarefa do governo provisório revolucionário a aplicação do programa mínimo, a resolução elimina deste modo as absurdas idéias semianarquistas sobre a realização imediata do programa máximo, sobre a conquista do poder para levar a cabo a revolução socialista. O grau de desenvolvimento económico da Rússia (condição objectiva) e o grau de consciência e de organização das massas do proletariado (condição subjectiva, indissoluvelmente ligada à objectiva) tornam impossível a libertação imediata e completa da classe operária. Só os mais ignorantes podem não tomar em consideração o carácter burguês da revolução democrática que está a processar-se; só os mais cândidos optimistas podem esquecer como as massas operárias conhecem ainda pouco os fins do socialismo e os métodos para o realizar. Mas todos nós estamos persuadidos de que a emancipação dos operários só pode ser obra dos próprios operários; sem a consciência e a organização das massas, sem a sua preparação e a sua educação por meio da luta de classe aberta contra toda a burguesia, não se pode sequer falar de revolução socialista. E, como resposta às objecções anarquistas de que adiamos a revolução socialista, diremos: não a adiamos, antes damos o primeiro passo na sua direcção pelo único método possível, pelo único caminho certo, isto é, pelo caminho da república democrática. Quem quiser chegar ao socialismo por outro caminho que não seja o da democracia política, chegará inevitavelmente a conclusões absurdas e reaccionárias, tanto no sentido económico como no político. Se num momento determinado alguns operários nos perguntarem porque não realizamos o nosso programa máximo, responderemos indicando-lhes como estão ainda longe do socialismo as massas do povo impregnadas de espírito democrático, como se encontram ainda pouco desenvolvidas as contradições de classe, como estão ainda desorganizados os proletários. Tentai organizar centenas de milhares de operários em toda a Rússia, difundir entre milhões a simpatia pelo vosso programa! Experimentai fazer isso, não vos limitando a frases anarquistas sonoras mas ocas, e vereis imediatamente que alcançar esta organização, difundir esta educação socialista, depende da realização mais completa possível das transformações democráticas.

Continuemos. Uma vez esclarecida a significação do governo provisório revolucionário e a atitude do proletariado em relação ao mesmo, surge a seguinte pergunta: é admissível, e em que condições, a nossa participação neste governo (acção a partir de cima)? Qual deve ser a nossa acção a partir de baixo? A resolução dá respostas precisas a estas duas perguntas. Declara decididamente que, em princípio, a participação dos sociais-democratas no governo provisório revolucionário (na época da revolução democrática, na época da luta pela república) é admissível. Com esta declaração nós separamo-nos definitivamente tanto dos anarquistas, que por princípio respondem negativamente a esta pergunta, como dos seguidistas da social-democracia (tais como Martínov e os neo-iskristas), que nos tentavam intimidar com a perspectiva de uma situação em que essa participação poderia tornar-se necessária para nós. Com esta declaração o III congresso do POSDR repudiou irreversivelmente a idéia do novo Iskra segundo a qual a participação dos sociais-democratas no governo provisório revolucionário seria uma variedade do millerandismo e seria inadmissível do ponto de vista dos princípios, por significar uma consagração da ordem burguesa, etc.

Mas a questão da admissibilidade do ponto de vista dos princípios não resolve ainda, naturalmente, a questão da conveniência prática. Em que condições é conveniente esta nova variedade da luta, a luta a partir «de cima» aceite pelo congresso do partido? É evidente que agora não há possibilidade de falar de condições concretas, tais como a correlação de forças e outras, e a resolução, naturalmente, renuncia a definir previamente estas condições. Nenhum homem razoável se resolverá a prognosticar o que quer que seja no momento actual no que diz respeito à questão que nos interessa. Pode-se e deve-se definir o carácter e os fins da nossa participação. É o que faz a resolução, ao indicar os dois fins da participação: 1) luta implacável contra as tentativas contra-revolucionárias, e 2) defesa dos interesses próprios da classe operária. Num momento em que os burgueses liberais começam a falar com empenho sobre a psicologia da reacção (ver a muito instrutiva Carta Aberta do Sr. Struve no n.° 71 da Osvobojdénie), esforçando-se por intimidar o povo revolucionário e incitá-lo a concessões ante a autocracia — em tal momento é particularmente oportuno que o partido do proletariado recorde a tarefa de travar uma verdadeira guerra contra a contra-revolução. As grandes questões da liberdade política e da luta de classes são resolvidas em última análise unicamente pela força e nós devemos preocupar-nos com a organização e preparação desta força e com o seu emprego activo, não somente defensivo mas também ofensivo. A prolongada época de reacção política que reina na Europa quase sem interrupção desde a Comuna de Paris[N235] familiarizou-nos demasiadamente com a idéia da acção apenas «a partir de baixo», acostumou-nos demasiadamente considerar a luta apenas defensiva. Entrámos agora, indubitavelmente, numa nova época; iniciou-se um período de convulsões e revoluções políticas. Num período como o que a Rússia está a atravessar é intolerável que nos limitemos aos velhos chavões. É preciso propagandear a ideia da acção a partir de cima, é preciso que nos preparemos para as acções mais enérgicas, ofensivas, é preciso estudar as condições e as formas dessas acções. Duas destas condições são colocadas em primeiro plano pela resolução do congresso: uma refere-se ao aspecto formal da participação da social-democracia no governo provisório revolucionário (controlo severo do partido sobre os seus mandatários); outra, ao próprio carácter desta participação (não perder de vista nem por um instante os fins da revolução socialista completa).

Assim, depois de ter esclarecido todos os aspectos da política do partido na acção «a partir de cima » — este novo método de luta, quase nunca visto até agora —, a resolução prevê também o caso de não conseguirmos agir a partir de cima. Em todo o caso temos o dever de fazer pressão a partir de baixo sobre o governo provisório revolucionário. Para exercer esta pressão a partir de baixo o proletariado deve estar armado — porque, nos momentos revolucionários, as coisas chegam com particular rapidez à guerra civil directa — e dirigido pela social-democracia. O objectivo desta pressão armada é «manter, consolidar e ampliar as conquistas da revolução», isto é, as conquistas que, do ponto de vista dos interesses do proletariado, devem consistir na aplicação de todo o nosso programa mínimo.

Com isto terminamos o nosso breve exame da resolução do III congresso sobre o governo provisório revolucionário. Como o leitor vê, esta resolução esclarece o significado da nova questão, assim como a posição do partido do proletariado em relação à mesma e a política do partido tanto dentro do governo provisório revolucionário como fora dele.

Vejamos agora a resolução correspondente da «conferência».

 

 

 

3.

Que é a «Vitória Decisiva da Revolução Sobre o Tsarismo»?

 

 

 

A resolução da «conferência» é dedicada à questão da «conquista do poder e da participação no governo provisório»(5*). Este modo de colocar a questão é já, como indicámos, confuso. Por um lado, a questão é colocada de modo estreito: fala-se apenas da nossa participação no governo provisório e não, em geral, das tarefas do partido em relação ao governo provisório revolucionário. Por outro lado, confundem-se duas questões completamente diferentes: a nossa participação numa das fases da revolução democrática e a revolução socialista. Com efeito, a «conquista do poder» pela social-democracia é precisamente a revolução socialista e não pode ser nenhuma outra coisa, se empregarmos estas palavras na sua significação directa e habitual. Mas, se as compreendermos no sentido da conquista do poder, não para a revolução socialista, mas sim para a revolução democrática, que sentido tem falar-se não só de participação no governo provisório revolucionário, mas também da «conquista do poder» em geral? Obviamente, os nossos «conferencistas» não sabiam eles próprios muito bem do que tinham exactamente de falar: se da revolução democrática ou da revolução socialista. Quem tenha acompanhado a literatura consagrada a esta questão sabe que foi o camarada Martínov quem deu início a esta confusão nas suas famosas Duas Ditaduras. É a contragosto que os neo-iskristas recordam como é colocada a questão (ainda antes do 9 de Janeiro) nesta obra seguidista modelo, mas a influência ideológica da mesma sobre a conferência não oferece dúvidas.

Mas deixemos de lado o título da resolução. O seu conteúdo mostra-nos erros incomparavelmente mais profundos e graves. Eis a primeira parte da mesma:

«A vitória decisiva da revolução sobre o tsarísmo pode ser marcada quer pela constituição de um governo provisório surgido da insurreição popular vitoriosa, quer pela iniciativa revolucionária de tal ou tal instituição representativa que decida, sob a pressão revolucionária directa do povo, organizar uma assembleia constituinte de todo o povo.»

Assim, pois, diz-se-nos que a vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo pode ser tanto a insurreição vitoriosa como... a decisão de uma instituição representativa de organizar uma assembleia constituinte! Que significa isto? Como é isto? A vitória decisiva pode ser marcada pela «decisão» de organizar uma assembleia constituinte?? E semelhante «vitória» é colocada ao lado da constituição de um governo provisório «surgido da insurreição popular vitoriosa»!! A conferência não se apercebeu de que a insurreição popular vitoriosa e a constituição de um governo provisório implicam a vitória da revolução de facto, enquanto a «decisão» de organizar uma assembleia constituinte implica a vitória apenas em palavras da revolução.

A conferência dos mencheviques-neo-iskristas incorreu no mesmo erro em que incorrem constantemente os liberais, a gente da Osvobojdénie. A gente da Osvobojdénie lança frases sobre a assembleia «constituinte», fechando pudicamente os olhos ao facto de a força e o poder continuarem nas mãos do tsar, esquecendo que para «constituir» há que ter a força de constituir. A conferência esqueceu também que, da «decisão» de quaisquer representantes até ao cumprimento desta decisão, vai uma grande distância. A conferência esqueceu também que, enquanto o poder estiver nas mãos do tsar, qualquer decisão de quaisquer representantes não é mais do que charlatanismo oco e mesquinho, como foram as «decisões» do parlamento de Frankfurt[N236], famoso na história da revolução alemã de 1848. Marx, representante do proletariado revolucionário, na sua Nova Gazeta Renana fustigava com sarcasmos implacáveis os liberais de Frankfurt do tipo da Osvobojdénie precisamente porque pronunciavam belos discursos, tomavam toda a espécie de «decisões» democráticas, «instituíam» toda a espécie de liberdades mas, na prática, deixavam o poder nas mãos do rei, não organizavam a luta armada contra as forças militares de que este dispunha. E enquanto os liberais de Frankfurt do tipo da Osvobojdénie discorriam, o rei esperou o momento oportuno, consolidou as suas forças militares, e a contra-revolução, apoiando-se na força real, infligiu uma derrota rotunda aos democratas com todas as suas magníficas «decisões».

A conferência equiparou a uma vitória decisiva o que precisamente carece da condição decisiva da vitória. Como puderam sociais-democratas, que aceitam o programa republicano do nosso Partido, incorrer em semelhante erro? Para compreender este estranho fenómeno temos de voltar à resolução do III congresso sobre a parte que se separou do partido(6*). Nesta resolução aponta-se a sobrevivência no nosso partido de diferentes tendências «afins do 'economismo'». Os nossos conferencistas (não é em vão, com efeito, que se encontram sob a direcção ideológica de Martínov) raciocinam sobre a revolução com um critério absolutamente igual àquele com que os «economistas» raciocinavam sobre a luta política ou a jornada de oito horas. Os «economistas» avançavam imediatamente a sua «teoria dos estádios»: 1) luta pelos direitos; 2) agitação política; 3) luta política; ou 1) jornada de dez horas; 2) jornada de nove horas; 3) jornada de oito horas. Toda a gente conhece suficientemente os resultados obtidos com esta «táctica-processo». Agora propõem-nos também dividir antecipadamente de maneira muito meticulosa a revolução em estádios: 1) o tsar convoca uma instituição representativa; 2) esta instituição representativa «decide», sob a pressão do «povo», organizar a assembleia constituinte; 3)... sobre o terceiro estádio os mencheviques não se puseram ainda de acordo; esqueceram que a pressão revolucionária do povo tropeça com a pressão contra-revolucionária do tsarismo e que, por isso, ou a «decisão» fica inaplicada ou então a questão é decidida pela vitória ou a derrota da insurreição popular. A resolução da conferência assemelha-se exactamente ao seguinte raciocínio dos economistas: a vitória decisiva dos operários pode ser marcada seja pela implantação da jornada de 8 horas por via revolucionária, seja pela concessão da jornada de dez horas e a «decisão» de passar à de nove... Exactamente a mesma coisa.

Poderão objectar-nos talvez que os autores da resolução não se propunham equiparar a vitória da insurreição à «decisão» da instituição representativa convocada pelo tsar, que pretendiam unicamente prever a táctica do partido num ou noutro caso. Responderemos a isto: 1) o texto da resolução qualifica de modo directo e inequívoco de «vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo» a decisão da instituição representativa. É possível que isto seja o resultado de uma redacção descuidada, é possível que se possa emendá-la baseando-se nas actas, mas, enquanto não tiver sido emendada, o sentido da redacção só pode ser um, e esse sentido é inteiramente osvobojdenista. 2) A linha de pensamento «osvobojdenista» em que caíram os autores da resolução transparece, com relevo ainda incomparavelmente maior, noutros escritos dos neo-iskristas. Por exemplo, no órgão do comité de Tíflis Sotsial-Demokrat[N237] (publicado em georgiano; exaltado pelo Iskra no n.° 100), no artigo O Zémskí Sobor e a Nossa Táctica, chega-se mesmo a dizer que a «táctica» que consiste em «escolher como centro da nossa actividade o Zémski Sobor» (sobre a convocação do qual, diremos por nossa conta, não sabemos ainda nada de um modo preciso!) «é mais vantajosa para nós» do que a «táctica» da insurreição armada e da constituição de um governo provisório revolucionário. Mais adiante voltaremos a ocupar-nos deste artigo. 3) Nada se pode opor ao exame prévio da táctica do partido em caso de vitória da revolução e em caso de derrota, em caso de êxito da insurreição e em caso de a insurreição não poder converter-se numa força séria. É possível que o governo tsarista consiga convocar uma assembleia representativa com o fim de estabelecer um arranjo com a burguesia liberal; a resolução do III congresso, prevendo isto, fala abertamente de «política hipócrita», de «pseudodemocracia», de «formas caricaturais de representação popular, tais como o chamado Zémski Sobor»(7 *), mas o facto é que isto não é dito na resolução sobre o governo provisório revolucionário, pois isto nada tem a ver com o governo provisório revolucionário. Este caso põe de lado o problema da insurreição e da constituição do governo provisório revolucionário, modifica-o, etc. Mas agora não se trata de que sejam possíveis todas as espécies de combinações, de que sejam possíveis a vitória e a derrota, os caminhos rectos e os desvios; do que se trata é de que é inadmissível para um social-democrata levar a confusão ao espírito dos operários sobre o caminho verdadeiramente revolucionário, de que é inadmissível que, à maneira dos osvobojdenistas, se chame vitória decisiva àquilo que carece da condição fundamental da vitória. É possível que mesmo a jornada de oito horas não a obtenhamos de uma só vez, mas sim percorrendo um longo desvio; mas que diríeis de um homem que qualifique de vitória dos operários uma impotência, uma debilidade tal do proletariado que este não tenha força para impedir os adiamentos, as demoras, os regateios, a traição e a reacção? É possível que a revolução russa termine por um «aborto constitucional», como disse em certa ocasião o Vperiod(8*); mas poderá isto justificar que um social-democrata, em vésperas da luta decisiva, qualifique esse aborto de «vitória decisiva sobre o tsarismo»? É possível, se as coisas andarem mal, que não só não conquistemos a república, mas que mesmo a constituição que obtenhamos seja ilusória, «chipovista»[N239], mas acaso se poderia perdoar a um social-democrata que escamoteasse a nossa palavra de ordem republicana?

Naturalmente, os neo-iskristas não foram ainda até escamoteá-la. Mas o facto de na sua resolução se terem esquecido precisamente de se referir à república mostra com particular evidência até que ponto se dissipou neles o espírito revolucionário, até que ponto a sua inclinação para os raciocínios mortos lhes ocultou as tarefas de combate do momento! É inverosímil, mas é um facto. Todas as palavras de ordem da social-democracia são ratificadas, repetidas, esclarecidas, pormenorizadas, em diferentes resoluções da conferência, não é esquecida sequer a eleição pelos operários nas empresas de delegados e deputados; mas não se encontrou ocasião para recordar a república na resolução sobre o governo provisório revolucionário. Falar da «vitória» da insurreição popular, da constituição de um governo provisório, e não indicar a relação destes «passos» e actos com a conquista da república significa escrever uma resolução para se arrastar na cauda do movimento proletário e não para dirigir a luta do proletariado.

Resumamos. A primeira parte da resolução: 1) não esclareceu minimamente a significação do governo provisório revolucionário do ponto de vista da luta pela república e da garantia de uma assembleia realmente de todo o povo e realmente constituinte; 2) introduziu uma verdadeira confusão na consciência democrática do proletariado, equiparando à vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo um estado de coisas no qual falta ainda precisamente a condição fundamental de uma verdadeira vitória.


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Notas de Rodapé:

 

 

(4*) Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5.ª ed. em russo, t.10, pp. 256-265,270-277,291 -297. (N. Ed.)

 

(5*) O texto completo desta resolução pode ser restabelecido pelo leitor de acordo com as citações que figuram nas pp. 400, 403-404, 407, 431 e 433-434 da presente brochura. (Nota de Lénine para a edição de 1907. Ver o presente tomo, pp. 394, 398, 402, 427, 430 -N. Ed.).

Nota : o texto compilado conforme descrito acima é o seguinte:
«A vitória decisiva da revolução sobre o tsarísmo pode ser marcada quer pela constituição de um governo provisório surgido da insurreição popular vitoriosa, quer pela iniciativa revolucionária de tal ou tal instituição representativa que decida, sob a pressão revolucionária directa do povo, organizar uma assembleia constituinte de todo o povo.»
«... Tanto num como noutro caso, essa vitória será o princípio de uma nova fase da época revolucionária.
«A tarefa que as condições objectivas do desenvolvimento social colocam espontaneamente para esta nova fase é a liquidação definitiva de todo o regime monárquico e de estados sociais no processo da luta recíproca entre os elementos da sociedade burguesa politicamente emancipada pela realização dos seus interesses sociais e pela posse directa do poder.
«Por isso, o governo provisório que assumisse a realização das tarefas desta revolução, burguesa pelo seu carácter histórico, deveria, ao regular a luta recíproca entre as classes antagónicas da nação que está a emancipar-se, não somente impulsionar o desenvolvimento revolucionário, mas também lutar contra os factores do mesmo que ameacem as bases do regime capitalista.»
"Em tais condições, a social-democracia deve esforçar-se por conservar, durante todo o curso da revolução, uma posição tal que melhor lhe garanta a possibilidade de impulsionar a revolução para a frente, não lhe ate as mãos na luta contra a política inconsequente e interessada dos partidos burgueses e a proteja contra a sua diluição na democracia burguesa.
"Assim, a social-democracia não deve estabelecer como seu objectivo conquistar ou compartilhar o poder no governo provisório, mas deve continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema.»
«Esta táctica ('continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema'), naturalmente não exclui, no mínimo que seja, a conveniência da tomada parcial, episódica, do poder e da formação de comunas revolucionárias em tal ou tal cidade, em tal ou tal região, com o objectivo exclusivo de contribuir para o alargamento da insurreição e para a desorganização do governo.»
«Só num caso a social-democracia deveria, por iniciativa sua, encaminhar os seus esforços no sentido de tomar o poder e mantê-lo nas suas mãos pelo maior tempo possível, a saber: no caso de a revolução se alargar aos países avançados da Europa ocidental, nos quais já alcançaram uma certa f?) maturidade as condições para a realização do socialismo. Nesse caso, os estreitos limites históricos da revolução russa podem ampliar-se consideravelmente e tornar-se-á possível entrar na via das transformações socialistas.
«Baseando a sua táctica no propósito de conservar para o partido social-democrata, no decurso de todo o período revolucionário, a situação de oposição revolucionária extrema em relação a todos os governos que se sucedem durante a revolução, a social-democracia poderá preparar-se da melhor maneira para a utilização do poder governamental, caso este caia (??) nas suas mãos.»

 

(6*) Damos aqui o texto completo desta resolução:

"O congresso constata que no POSDR, desde a época da sua luta contra o ''economismo'', se mantêm até hoje matizes que lhe são afins em diferente grau e diversos sentidos, matizes que se caracterizam por uma tendência geral para minimizar a importância dos elementos de consciência na luta proletária, subordinando esses elementos aos da espontaneidade. Na questão da organização os representantes desses matizes propugnam, em teoria, o princípio da organização-processo, princípio que não corresponde ao trabalho sistemático do partido, e, na prática, empregam em numerosos casos um sistema de fugas ao cumprimento da disciplina do partido, dirigindo noutros casos à parte menos consciente do partido as suas prédicas em favor do emprego em grande escala do princípio de eleição, sem ter em conta as condições objectivas da realidade russa, e procuram minar as únicas bases possíveis, no presente, das ligações do partido. Nas questões de táctica dão provas da tendência para reduzir o alcance do trabalho do partido, manífestando-se contra a táctica totalmente independente do partido em relação aos partidos burgueses liberais, negando ser possível e desejável para o nosso partido assumir o papel de organizador da insurreição popular, contra a participação do partido, em quaisquer condições, no governo provisório democrático-revolucionário.

"O congresso propõe a todos os membros do partido que desenvolvam por toda a parte uma enérgica luta ideológica contra semelhantes desvios parciais dos princípios da social-democracia revolucionária, mas, ao mesmo tempo, considera que a participação nas organizações do partido de pessoas que, num ou noutro grau, tenham aderido a semelhantes ideias é admissível com a condição indispensável de que aceitem os congressos do partido e os estatutos do mesmo e se submetam inteiramente à disciplina do partido." (Nota de Lénine para a edição de 1907 — N.Ed.)

 

(7*) Eis o texto desta resolução sobre a atitude em relação à táctica do governo nas vésperas da revolução:

«Considerando que, tendo em vista a sua própria conservação, o governo, no período de revolução que atravessamos, intensificando as medidas de repressão habituais dirigidas de preferência contra os elementos conscientes do proletariado, ao mesmo tempo 1) procura corromper politicamente, mediante concessões e promessas de reformas, a classe operária, a fim de a distrair, assim, da luta revolucionária; 2) com esse mesmo fim, reveste a sua política hipócrita de concessões com a roupagem de formas pseudodemocráticas, começando por convidar os operários para que elejam os seus representantes para as comissões e assembleias e terminando com a criação de formas caricaturais de representação popular, tais como o chamado Zémski Sobor; 3) organiza os chamados cem-negros[N238] e lança contra a revolução todos os elementos do povo em geral reaccionários, inconscientes e cegos pelo ódio de raça e de religião;

«O III congresso do POSDR resolve propor a todas as organizações do partido:

«a) ao desmascarar os fins reaccionários das concessões do governo, sublinhar na propaganda e na agitação o seu carácter forçado, e, por outro lado, a absoluta impossibilidade da autocracia de conceder reformas que satisfaçam o proletariado;

«b) aproveitando a campanha eleitoral, explicar aos operários o verdadeiro sentido de semelhantes medidas adoptadas pelo governo e demonstrar que o proletariado deve convocar, por via revolucionária, a assembleia constituinte na base do sufrágio universal, igual, directo e secreto;

«c) organizar o proletariado para implantar imediatamente, pela via revolucionária, a jornada de oito horas, assim como para concretizar outras reivindicações imediatas da classe operária;

«d) organizar a resistência armada contra as acções dos cem-negros e de todos os elementos reaccionários em geral que agem sob a direcção do governo.» (Nota de Lénine para a edição de 1907 -N. Ed.).

 

(8*) O jornal Vperiod começou a ser publicado em Genebra em janeiro de 1905, como órgão da facção bolchevique do partido. De Janeiro a Maio apareceram dezoito números. A partir do mês de Maio começou a ser publicado o Proletári, em lugar do Vperiod, como órgão central do POSDR, de acordo com a resolução do III congresso do POSDR (este congresso foi realizado em Maio em Londres; os mencheviques não compareceram a ele, e organizaram a sua própria «conferência» em Genebra). (Nota de Lénine para a edição de 1907. — N. Ed.)

 

 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N234] Comissão Bulíguine: conferência especial, convocada segundo o decreto do tsar de 18 de
Fevereiro (3 de Março) de 1905, sob a presidência do ministro do Interior A. G. Bulíguine. Fizeram parte dela grandes latifundiários e representantes da nobreza reaccionária. A conferência preparou a lei sobre a convocação da Duma de Estado e o regulamento das eleições para a Duma, que foram publicados em conjunto com o manifesto do tsar a 6 (19) de Agosto de 1905. O direito de voto para esta Duma foi concedido apenas aos latifundiários, aos capitalistas e a um número reduzido de pequenos proprietários rurais. A Duma de Estado não tinha o direito de aprovar quaisquer leis, podendo apenas discutir certas questões, a título de órgão consultivo junto do tsar.
Os bolcheviques apelaram para os operários e camponeses para que boicotassem activamente a Duma de Bulíguine. As eleições para a Duma de Bulíguine não se realizaram, e o governo não pôde convocá-la. Foi varrida pelo ascenso contínuo da revolução e pela greve política de Outubro.

 

[N235] Comuna de Paris de 1871: primeira experiência na História da ditadura do proletariado, governo revolucionário da classe operária criado pela revolução proletária em Paris. Existiu durante 72 dias, de 18 de Março a 28 de Maio de 1871.

 

[N236] Parlamento de Frankfurt: Assembleia Nacional de toda a Alemanha; foi convocada após a Revolução de Março de 1848 na Alemanha e começou as suas reuniões em 18 de Maio de 1848 em Frankfurt-am-Main. A principal tarefa da Assembleia consistia em acabar com o fraccionamento político e elaborar uma Constituição de toda a Alemanha. Porém, devido à cobardia e hesitações da maioria liberal, devido à falta de decisão e ao carácter inconsequente da ala esquerda pequeno-burguesa, a Assembleia receou tomar nas suas mãos o poder supremo no país e não pôde ocupar uma posição decidida nas questões fundamentais da Revolução alemã de 1848-1849. A Assembleia foi dispersa pelas tropas do governo de Würtemberg em Junho de 1849.

 

[N237] Sotsial-Demokrat: jornal menchevique; apareceu em georgiano, em Tíflis, de 7 (20) de Abril a 13 (26) de Novembro de 1905. Ao todo saíram 6 números. O jornal foi dirigido pelo chefe dos mencheviques georgianos, N. Jordánia.

O artigo O Zémski Sobor e a Nossa Táctica publicado no n.° 1 do Sotsial-Demokrat de 7 (20) de Abril de 1905 foi escrito por N. Jordánia. No capítulo 7 do livro Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática Lénine apresentou uma análise crítica deste artigo (ver o presente tomo, pp. 381-472).

 

[N238] Cem-negros: bandos monárquicos criados pela polícia tsarista para lutar contra o movimento revolucionário. Os cem-negros assassinavam revolucionários, atacavam intelectuais progressistas, organizavam pogromes contra os judeus.

 

[N239] Lénine chama constituição «chipovista» ao projecto de sistema estatal elaborado por D.
N. Chípov, um liberal moderado, que encabeçava a ala direita dos zémtsi. Procurando limitar a envergadura da revolução e obter ao mesmo tempo certas concessões por parte do governo tsarista a favor dos zemstvos, Chípov propunha a criação de um órgão representativo consultivo junto do tsar. Por meio de tal compromisso, os liberais moderados pretendiam enganar as massas populares, conservar a monarquia e obter ao mesmo tempo certos direitos políticos para si próprios.

 

 

 

 

4.

A Liquidação do Regime Monárquico e a República

 


Passemos à parte seguinte da resolução:

«... Tanto num como noutro caso, essa vitória será o princípio de uma nova fase da época revolucionária.

«A tarefa que as condições objectivas do desenvolvimento social colocam espontaneamente para esta nova fase é a liquidação definitiva de todo o regime monárquico e de estados sociais no processo da luta recíproca entre os elementos da sociedade burguesa politicamente emancipada pela realização dos seus interesses sociais e pela posse directa do poder.

«Por isso, o governo provisório que assumisse a realização das tarefas desta revolução, burguesa pelo seu carácter histórico, deveria, ao regular a luta recíproca entre as classes antagónicas da nação que está a emancipar-se, não somente impulsionar o desenvolvimento revolucionário, mas também lutar contra os factores do mesmo que ameacem as bases do regime capitalista.»

Detenhamo-nos nesta parte, que constitui uma parte independente da resolução. A ideia fundamental dos raciocínios que reproduzimos coincide com a exposta no ponto 3 da resolução do congresso. Mas, se compararmos as duas resoluções nesta parte, ressaltará imediatamente aos olhos a seguinte diferença radical entre elas. A resolução do congresso, depois de caracterizar em duas palavras a base económico-social da revolução, dirige toda a sua atenção para a luta de classes nitidamente definida por conquistas determinadas e coloca em primeiro plano as tarefas de combate do proletariado. A resolução da conferência, depois de descrever de modo extenso, nebuloso e confuso a base económico-social da revolução, fala de modo muito pouco claro da luta por conquistas precisas e deixa absolutamente na sombra as tarefas de combate do proletariado. A resolução da conferência fala da liquidação do antigo regime no processo de uma luta recíproca dos elementos da sociedade. A resolução do congresso diz que nós, partido do proletariado, devemos efectuar essa liquidação, que somente a instauração da república democrática constitui a verdadeira liquidação, que devemos conquistar esta república, que lutaremos por ela e pela liberdade completa não só contra a autocracia mas também contra a burguesia, quando esta pretenda (e fá-lo-á por certo) arrebatar as nossas conquistas. A resolução do congresso chama à luta uma classe determinada, por um objectivo imediato, definido de maneira precisa. A resolução da conferência discorre sobre a luta recíproca das diferentes forças. Uma resolução exprime a psicologia da luta activa, outra a da contemplação passiva. Uma está impregnada de apelos à acção viva, outra de raciocínios mortos. Ambas as resoluções declaram que a revolução que está a processar-se representa para nós apenas um primeiro passo, ao qual se seguirá o segundo; mas uma das resoluções tira daí a conclusão de que há que dar com a maior rapidez este primeiro passo, liquidá-lo com a maior rapidez, conquistar a república, esmagar implacavelmente a contra-revolução e preparar o terreno para o segundo passo; em contrapartida, a outra resolução espraia-se, por assim dizer, em descrições prolixas deste primeiro passo e (perdoai a vulgaridade da expressão) mastiga as suas ideias a este respeito. A resolução do congresso toma as velhas e eternamente novas ideias do marxismo (sobre o carácter burguês da revolução democrática) como prólogo ou primeira premissa para tirar conclusões sobre as tarefas avançadas da classe avançada, que luta tanto pela revolução democrática como pela revolução socialista. A resolução da conferência não vai além do prólogo, ruminando-o e filosofando com pretensa subtileza sobre o mesmo.

Esta diferença é exactamente a que há muito tempo divide os marxistas russos em duas alas: a ala arrazoadora e a ala combativa, nos tempos idos do marxismo legal, a ala económica e a ala política, na época do movimento de massas que estava a iniciar-se. Da premissa acertada do marxismo sobre as profundas raízes económicas da luta de classes em geral e da luta política em particular, os «economistas» tiravam a conclusão singular de que deveríamos voltar as costas à luta política e sustar o seu desenvolvimento, reduzir o seu alcance, minimizar as suas tarefas. Os políticos, ao contrário, extraíam das mesmas premissas outra conclusão, a saber: que, quanto mais profundas forem agora as raízes da nossa luta, de modo mais vasto, mais corajoso, mais decidido, com maior iniciativa deveremos travar esta luta. Na actualidade, noutras circunstâncias, com uma forma modificada, encontramo-nos em presença do mesmo debate. Das premissas de que a revolução democrática ainda não é de modo algum socialista, de que não «interessa» só e exclusivamente aos não-possidentes, de que as suas raízes profundíssimas se encontram nas necessidades e nas exigências inelutáveis de toda a sociedade burguesa no seu conjunto, destas premissas nós tiramos a conclusão de que a classe avançada deve estabelecer as suas tarefas democráticas com tanto maior audácia, deve formulá-las com tanto maior precisão até ao fim, apresentar a palavra de ordem directa de república, propagandear a ideia da necessidade do governo provisório revolucionário e de esmagar implacavelmente a contra-revolução. E os nossos contraditores, os neo-iskristas, deduzem destas mesmas premissas a conclusão de que não há que formular até ao fim as conclusões democráticas, de que entre as palavras de ordem práticas se pode prescindir da de república, de que se pode não propagandear a ideia da necessidade do governo provisório revolucionário, de que se pode qualificar de vitória decisiva mesmo a resolução de convocar a assembleia constituinte, de que se pode não defender a palavra de ordem de combate à contra-revolução como nossa tarefa activa, mas afogá-la numa alusão nebulosa (e formulada erradamente, como veremos mais adiante) ao «processo de luta recíproca». Esta não é uma linguagem própria de políticos, mas sim de ratos de arquivo!

E quanto mais atentamente examinardes as diferentes fórmulas da resolução dos neo-iskristas, com tanta maior evidência surgirão ante vós as particularidades fundamentais da mesma já por nós indicadas. Falam-nos, por exemplo, do «processo da luta recíproca entre os elementos da sociedade burguesa politicamente emancipada». Recordando o tema que se tratava na resolução (governo provisório revolucionário), perguntamos perplexos: se se fala de processo de luta recíproca, como se pode guardar silêncio a respeito dos elementos que politicamente escravizam a sociedade burguesa ? Pensam os conferencistas que, pelo facto de terem suposto a vitória da revolução, estes elementos já desapareceram? Esta ideia seria absurda em geral e seria a expressão da maior ingenuidade política, de miopia política em particular. Depois da vitória da revolução sobre a contra-revolução, esta não desaparecerá mas, pelo contrário, iniciará inevitavelmente uma nova luta ainda mais desesperada. Ao consagrar a nossa resolução ao exame das tarefas que nos traria a vitória da revolução, temos o dever de dedicar grande atenção às tarefas que têm como objectivo a ofensiva da contra-revolução (como se faz na resolução do congresso), e não afogar estas tarefas políticas imediatas, essenciais, candentes, de um partido combativo em raciocínios gerais a propósito do que haverá depois da época revolucionária actual, do que haverá quando nos encontrarmos já em presença de uma «sociedade politicamente emancipada». Do mesmo modo que os «economistas» encobriam a sua incompreensão das tarefas políticas candentes com alusões às verdades gerais sobre a subordinação da política à economia, os neo-iskristas, remetendo-se às verdades gerais sobre a luta no interior da sociedade politicamente emancipada, encobrem a sua incompreensão das tarefas revolucionárias candentes da emancipação política desta sociedade.

Tomai a expressão: «liquidação definitiva de todo o regime monárquico e de estados sociais». Em russo, a liquidação definitiva do regime monárquico chama-se instauração da república democrática. Mas ao nosso bom Martínov e seus admiradores esta expressão parece demasiadamente simples e clara. Eles querem absolutamente «aprofundar» e dizer coisas «mais sábias». Assim resultam, por um lado, esforços ridículos para demonstrar profundidade de pensamento. E, por outro lado, em vez de uma palavra de ordem temos uma descrição, em vez de um apelo alentador para ir para a frente temos uma espécie de olhar melancólico para trás. Parece que não se trata de gente viva que queira lutar agora mesmo, sem demora, pela república, mas de uma espécie de múmias petrificadas que sub specie aeternitatis examinam a questão do ponto de vista plusquamperfectum(9*).

Prossigamos: «... o governo provisório... assumisse a realização das tarefas desta revolução burguesa ...». Neste ponto vê-se logo que os nossos conferencistas desprezaram uma questão concreta que surge aos dirigentes políticos do proletariado. A questão concreta do governo provisório revolucionário sobrepôs-se no seu campo visual a questão da futura série de governos que realizarão as tarefas da revolução burguesa em geral. Se desejais examinar a questão «historicamente», o exemplo de qualquer país europeu vos mostrará que precisamente uma série de governos, de modo nenhum «provisórios», realizaram as tarefas históricas da revolução burguesa, que mesmo governos que tinham vencido a revolução se viram, apesar disso, obrigados a realizar as tarefas históricas dessa revolução vencida. Mas o que se chama «governo provisório revolucionário» não é de modo algum esse de que falais: chama-se assim o governo da época revolucionária, que substitui directamente o governo derrubado e se apoia na insurreição popular e não em instituições representativas surgidas do povo. O governo provisório revolucionário é o órgão da luta pela vitória imediata da revolução, para o rechaçar imediato das tentativas contra-revolucionárias, e não de modo algum um órgão de realização das tarefas históricas da revolução burguesa em geral. Deixemos, senhores, aos futuros historiadores da futura Rússkaia Stariná a determinação de que tarefas da revolução burguesa realizámos nós e vós ou tal ou tal governo; mesmo dentro de 30 anos isso poderá fazer-se, mas do que agora necessitamos é de dar palavras de ordem e indicações práticas para a luta pela república e para a participação mais enérgica do proletariado nesta luta.

Pelos motivos indicados, tão-pouco são satisfatórias as últimas teses desta parte da resolução por nós reproduzida. E muito infeliz, ou pelo menos inábil, a expressão de que o governo provisório deveria «regular» a luta das classes antagónicas entre si: os marxistas não deveriam empregar uma fórmula liberal-osvobojdenista como esta, que dá margem a pensar ser possível um governo que sirva, não de órgão da luta de classes, mas de «regulador» da mesma... O governo deveria «não somente impulsionar o desenvolvimento revolucionário, mas também lutar contra os factores do mesmo que ameacem as bases do regime capitalista». Este «factor» é precisamente esse mesmo proletariado em nome do qual fala a resolução! Em vez de indicar precisamente como o proletariado deve, num tal momento, «impulsionar o desenvolvimento revolucionário» (levá-lo mais além do que pretenderia a burguesia constitucionalista), em vez de aconselhar que se prepare de um modo determinado para a luta contra a burguesia quando esta se voltar contra as conquistas da revolução — em vez disso dá-nos uma descrição geral do processo, que nada diz sobre as tarefas concretas da nossa actuação. O processo de exposição das suas idéias pelos neo-iskristas recorda a opinião de Marx (nas suas famosas «teses» sobre Feuerbach) acerca do velho materialismo, alheio à ideia da dialéctica. Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras - dizia Marx —, mas do que se trata é de transformá-lo [N240]. Do mesmo modo, os neo-iskristas podem descrever e explicar menos mal o processo de luta que se desenrola sob os seus olhos, mas são absolutamente incapazes de dar uma palavra de ordem justa nesta luta. Caminhando cuidadosamente, mas dirigindo mal, rebaixam a interpretação materialista da história porque ignoram o papel activo, dirigente e orientador que podem e devem desempenhar na história os partidos que tenham consciência das condições materiais da revolução e se coloquem à frente das classes avançadas.

 

 

5.

Como se Deve «Impulsionar a Revolução para a Frente»?

 

Citemos a passagem seguinte da resolução:

"Em tais condições, a social-democracia deve esforçar-se por conservar, durante todo o curso da revolução, uma posição tal que melhor lhe garanta a possibilidade de impulsionar a revolução para a frente, não lhe ate as mãos na luta contra a política inconsequente e interessada dos partidos burgueses e a proteja contra a sua diluição na democracia burguesa.

"Assim, a social-democracia não deve estabelecer como seu objectivo conquistar ou compartilhar o poder no governo provisório, mas deve continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema.»

O conselho de ocupar uma posição que garanta, do melhor modo, a possibilidade de impulsionar a revolução para a frente agrada-nos sobremaneira. A única coisa que desejaríamos é que, além desse bom conselho, houvesse indicações directas de como precisamente agora, na situação política presente, na época de boatos, suposições, tagarelices e projectos de convocação dos representantes populares, a social-democracia tem de impulsionar a revolução para a frente. Poderá actualmente impulsionar a revolução para a frente quem não compreende o perigo da teoria da Osvobojdénie do «acordo» do povo com o tsar, quem qualifica de vitória a mera «decisão» de convocar a assembleia constituinte, quem não se põe como tarefa propagandear activamente a ideia da necessidade do governo provisório revolucionário, quem deixa na sombra a palavra de ordem de república democrática? Essa gente, na realidade, impulsiona a revolução para trás, porque na política prática se deteve no nível da posição em que se encontram os osvobojdenistas. Que valor pode ter a sua aceitação do programa que exige a substituição da autocracia pela república se, na resolução táctica que define as tarefas actuais e imediatas do partido no momento revolucionário, falta a palavra de ordem de luta pela república? Pois é justamente a posição osvobojdenista, a posição da burguesia constitucionalista, que se caracteriza na actualidade de facto pela decisão de convocar a assembleia constituinte de todo o povo, que é considerada como uma vitória decisiva, enquanto se guarda prudentemente silêncio sobre o governo provisório revolucionário e sobre a república! Para impulsionar a revolução para a frente, isto é, para além do limite até ao qual a conduz a burguesia monárquica, é preciso apresentar activamente, sublinhar e colocar em primeiro plano palavras de ordem que excluam a «inconsequência» da democracia burguesa. Estas palavras de ordem, no momento actual, são só duas: 1) governo provisório revolucionário, e 2) república, porque a palavra de ordem de assembleia constituinte de todo o povo foi aceite pela burguesia monárquica (ver o programa da «União de Libertação»)[N241] e foi aceite precisamente para escamotear a revolução, para não permitir a vitória completa da revolução, para servir os interesses de uma transacção traficante entre a grande burguesia e o tsarismo. E vemos que a conferência, destas duas palavras de ordem, as únicas capazes de impulsionar a revolução para diante, esqueceu completamente a palavra de ordem de república, e a palavra de ordem de governo provisório revolucionário equiparou-a directamente à palavra de ordem osvobojdenista de assembleia constituinte de todo o povo, qualificando de «vitória decisiva da revolução» tanto uma como outra!

Sim, tal é o facto indubitável que, estamos persuadidos disso, servirá de marco para o futuro historiador da social-democracia russa. Uma conferência de sociais-democratas realizada em Maio de 1905 adopta uma resolução que contém belas palavras sobre a necessidade de impulsionar a revolução democrática para a frente e que, de facto, a impulsiona para trás, que, de facto, não vai além das palavras de ordem democráticas da burguesia monárquica.

Os neo-iskristas gostam de nos acusar de ignorar o perigo da diluição do proletariado na democracia burguesa. Mas gostaríamos de ver quem se atreveria a demonstrar esta acusação baseando-se no texto das resoluções aprovadas pelo III congresso do POSDR. Responderemos aos nossos contraditores: a social-democracia, que actua no terreno da sociedade burguesa, não pode participar na política sem marchar, em tal ou tal caso isolado, ao lado da democracia burguesa. A diferença entre nós e vós neste ponto consiste em que nós marchamos ao lado da burguesia revolucionária e republicana sem nos fundirmos com ela, enquanto vós marchais ao lado da burguesia liberal e monárquica sem também vos fundirdes com ela. Eis como se apresentam os factos.

As vossas palavras de ordem tácticas, formuladas em nome da conferencia, coincidem com as palavras de ordem do partido «democrata-constitucionalista», isto é, com as do partido da burguesia monárquica, com a particularidade de que vós não notastes esta coincidência, não vos destes conta dela, colocando-vos assim, de facto, na cauda dos osvobojdenistas.

As nossas palavras de ordem tácticas, formuladas em nome do III congresso do POSDR, coincidem com as da burguesia democrático-revolucionária e republicana. Esta burguesia e a pequena burguesia não formaram ainda um grande partido popular na Rússia(10*). Mas somente pode duvidar da existência dos elementos de tal partido quem não tenha nenhuma ideia sobre o que se passa actualmente na Rússia. Propomo-nos dirigir (no caso de a grande revolução russa se desenvolver com êxito) não somente o proletariado, organizado pelo partido social-democrata, mas também essa pequena burguesia capaz de marchar ao nosso lado.

A conferência, na sua resolução, desce inconscientemente até ao nível da burguesia liberal e monárquica. O congresso do partido, com a sua resolução, eleva conscientemente até ao seu nível os elementos da democracia revolucionária capazes de lutar e não de transacções mercantis.

Estes elementos encontram-se sobretudo entre os camponeses. Sem cometer um grande erro, ao classificar os grandes grupos sociais segundo as suas tendências políticas podemos identificar a democracia revolucionária e republicana com a massa do campesinato, naturalmente no mesmo sentido e com as mesmas reservas e as condições subentendidas com as quais se pode identificar a classe operária com a social-democracia. Podemos, noutros termos, formular as nossas conclusões também do seguinte modo: a conferência, com as suas palavras de ordem políticas de âmbito nacional(11*) , no momento revolucionário, desce inconscientemente até ao nível da massa dos latifundiários. O congresso do partido, com as suas palavras de ordem políticas de âmbito nacional, eleva a massa dos camponeses até ao nível revolucionário. Ao que nos acuse, devido a esta conclusão, de simpatia pelos paradoxos, formulamos o repto de refutar a seguinte tese: se não tivermos forças para levar a revolução até ao fim, se a revolução terminar com uma «vitória decisiva» compreendida à maneira osvobojdenista, isto é, unicamente na forma de uma assembleia representativa convocada pelo tsar, à qual só por troça se poderia chamar constituinte — então isso será uma revolução com o predomínio dos elementos latifundiários e da grande burguesia. Pelo contrário, se estivermos destinados a viver uma revolução efectivamente grande, se, desta vez, a história não permitir um «aborto», se tivermos forças para levar a revolução até ao fim, até à vitória decisiva, não no sentido que dão a essa palavra os osvobojdenistas e os neo-iskristas, então isso será uma revolução na qual predominarão os elementos camponeses e proletários.

Alguns verão talvez no facto de admitir a ideia de tal predomínio uma renúncia à nossa convicção sobre o carácter burguês da revolução próxima. Isto é muito possível se tivermos em conta o abuso que se faz desse conceito no Iskra. Por isso, não será de forma alguma supérfluo determo-nos nesta questão.

 

 

6.

De que Lado Ameaça o Proletariado o Perigo de se Ver Com as Mãos Atadas na Luta Contra a Burguesia Inconsequente?

 

Os marxistas estão absolutamente convencidos do carácter burguês da revolução russa. Que significa isto? Isto significa que as transformações democráticas no regime político e as transformações económico-sociais, que se converteram numa necessidade para a Rússia, não só não implicam por si o minar do capitalismo, o minar da dominação da burguesia, mas, pelo contrário, desbravarão pela primeira vez realmente o terreno para um desenvolvimento vasto e rápido, europeu e não asiático, do capitalismo e, pela primeira vez, tornarão possível a dominação da burguesia como classe. Os socialistas-revolucionários não podem compreender esta ideia porque desconhecem o á-bê-cê das leis do desenvolvimento da produção mercantil e capitalista, não vêem que mesmo o êxito completo da insurreição camponesa, a redistribuição de toda a terra em benefício dos camponeses e de acordo com os seus desejos («partilha negra» ou qualquer coisa deste género) não destruiria de forma alguma o capitalismo, antes, pelo contrário, daria um impulso ao seu desenvolvimento e aceleraria a diferenciação de classe entre os próprios camponeses. A incompreensão desta verdade converte os socialistas-revolucionários em ideólogos inconscientes da pequena burguesia. Insistir nesta verdade tem para a social-democracia uma importância imensa não só teórica mas também política prática, pois daqui decorre o carácter obrigatório da completa independência de classe do partido do proletariado no presente movimento «democrático geral».

Mas disto não decorre, de forma alguma, que a revolução democrática (burguesa pelo seu conteúdo económico-social) não seja de enorme interesse para o proletariado. Disto não decorre, de maneira nenhuma, que a revolução democrática não possa processar-se tanto de uma forma vantajosa principalmente para o grande capitalista, para o magnate financeiro, para o latifundiário «esclarecido», como de uma forma vantajosa para o camponês e para o operário.

Os neo-iskristas interpretam de modo radicalmente errado o sentido e a significação da categoria «revolução burguesa». Nos seus raciocínios transparece constantemente a ideia de que a revolução burguesa é uma revolução que só pode dar aquilo que beneficia a burguesia. E, contudo, não há nada mais errado do que esta ideia. A revolução burguesa é uma revolução que não ultrapassa o quadro do regime económico-social burguês, isto é, capitalista. A revolução burguesa exprime as necessidades do desenvolvimento do capitalismo, não só não destruindo as suas bases, mas, pelo contrário, alargando-as e aprofundando-as. Esta revolução exprime, portanto, não apenas os interesses da classe operária, mas também os de toda a burguesia. Uma vez que a dominação da burguesia sobre a classe operária é inevitável sob o capitalismo, pode-se dizer com todo o direito que a revolução burguesa exprime os interesses não tanto do proletariado como da burguesia. Mas é completamente absurda a ideia de que a revolução burguesa não exprime em nenhuma medida os interesses do proletariado. Esta idéia absurda reduz-se ou à velha teoria populista de que a revolução burguesa é contrária aos interesses do proletariado e de que não temos necessidade, por esse motivo, da liberdade política burguesa, ou esta idéia reduz-se ao anarquismo, que nega qualquer participação do proletariado na política burguesa, na revolução burguesa, no parlamentarismo burguês. No plano teórico esta idéia representa em si o esquecimento das teses elementares do marxismo relativas à inevitabilidade do desenvolvimento do capitalismo sobre a base da produção mercantil. O marxismo ensina que uma sociedade fundada sobre a produção mercantil e que tenha relações de intercâmbio com as nações capitalistas civilizadas toma inevitavelmente ela própria, ao chegar a certo grau de desenvolvimento, a via do capitalismo. O marxismo rompeu irremissivelmente com as elucubrações dos populistas e anarquistas, segundo as quais a Rússia, por exemplo, podia evitar o desenvolvimento capitalista, escapar ao capitalismo ou saltar por cima dele por qualquer meio que não o da luta de classes no terreno e dentro dos limites desse mesmo capitalismo.

Todas estas teses do marxismo foram demonstradas e repetidas em todos os pormenores, tanto em geral como particularmente em relação à Rússia. E destas teses deduz-se que é uma idéia reaccionária procurar a salvação da classe operária nalguma coisa que não seja o desenvolvimento do capitalismo. Em países como a Rússia, a classe operária sofre não tanto do capitalismo como da insuficiência do desenvolvimento do capitalismo. Por isso a classe operária está absolutamente interessada no mais amplo, mais livre e mais rápido desenvolvimento do capitalismo. É absolutamente vantajosa para a classe operária a eliminação de todas as reminiscências do passado que entorpecem o desenvolvimento amplo, livre e rápido do capitalismo. A revolução burguesa é precisamente uma revolução que mais decididamente varre os restos do passado, os restos do regime de servidão (a estes restos pertencem não só a autocracia, mas também a monarquia) e garante, do modo mais completo, o desenvolvimento mais amplo, mais livre, mais rápido do capitalismo.

Por isso, a revolução burguesa é vantajosa no mais alto grau para o proletariado. A revolução burguesa é absolutamente necessária para os interesses do proletariado. Quando mais completa e decidida, quanto mais consequente for a revolução burguesa, tanto mais garantida estará a luta do proletariado contra a burguesia pelo socialismo. Esta conclusão só pode parecer nova, estranha ou paradoxal para os que ignorem o á-bê-cê do socialismo científico. E desta conclusão, diga-se de passagem, decorre a tese de que, em certo sentido, a revolução burguesa é mais vantajosa para o proletariado do que para a burguesia. Esta tese é indiscutivelmente correcta no seguinte sentido: é vantajoso para a burguesia apoiar-se nalguns dos restos do passado contra o proletariado, por exemplo, na monarquia, no exército permanente, etc. É vantajoso para a burguesia que a revolução burguesa não varra demasiado resolutamente todos os restos do passado, mas deixe de pé alguns deles, que esta revolução não seja inteiramente consequente, não vá até ao fim, não seja decidida e implacável. Os sociais-democratas exprimem frequentemente esta ideia de modo um pouco diferente, dizendo que a burguesia se trai a si mesma, que a burguesia trai a causa da liberdade, que a burguesia é incapaz de um espírito democrático consequente. Para a burguesia é mais vantajoso que as transformações necessárias num sentido democrático-burguês se produzam mais lentamente, mais gradualmente, mais prudentemente, menos decididamente, pela via de reformas e não pela via da revolução; que estas transformações sejam o mais prudentes possível em relação às «veneráveis» instituições do regime de servidão (tais como a monarquia); que estas transformações desenvolvam o menos possível a actividade independente, a iniciativa e a energia revolucionárias da gente comum, isto é, do campesinato e especialmente dos operários, pois, de outro modo, será mais fácil aos operários «mudar a espingarda de um ombro para o outro», como dizem os franceses, isto é, dirigir contra a própria burguesia a arma que a revolução burguesa lhes fornecer, a liberdade que esta lhes der, as instituições democráticas que surgirem no terreno limpo do regime de servidão.

Em contrapartida, é mais vantajoso para a classe operária que as transformações necessárias no sentido democrático-burguês se produzam precisamente não pela via de reformas, mas por via revolucionária, pois a via de reformas é a via das dilações, dos adiamentos, da agonia dolorosa e lenta das partes apodrecidas do organismo popular. Os que sofrem mais e em primeiro lugar com esta putrefacção são o proletariado e o campesinato. A via revolucionária é a via da operação mais rápida e menos dolorosa para o proletariado, a via da eliminação directa das partes apodrecidas, a via do mínimo de concessões e cautelas em relação à monarquia e às suas correspondentes instituições repelentes, ignominiosas e apodrecidas, que envenenam a atmosfera com a sua decomposição.

Eis porque a nossa imprensa liberal burguesa, não só por razões de censura, não só por medo, deplora a possibilidade de uma via revolucionária, teme a revolução, assusta o tsar com a revolução, procura evitar a revolução, humilha-se e prosterna-se para obter reformas mesquinhas como base da via reformista. Defendem este ponto de vista não só o Rússkie Viédomosti, o Sin Otétchestva, o Nacha Jizn, o Náchi Dni[N242], mas também a ilegal e livre Osvobojdénie. A própria situação da burguesia, como classe na sociedade capitalista, gera inevitavelmente a sua inconsequência na revolução democrática. A própria situação do proletariado, como classe, obriga-o a ser democrata consequente. A burguesia, temendo o progresso democrático que ameaça fortalecer o proletariado, volta os olhos para trás. O proletariado nada tem a perder a não ser as suas cadeias, mas, com a ajuda da democracia, tem todo o mundo a ganhar. Por isso, quanto mais consequente for a revolução burguesa nas suas transformações democráticas tanto menos se limitará ao que é vantajoso exclusivamente para a burguesia. Quanto mais consequente for a revolução burguesa tanto mais garantirá as vantagens do proletariado e do campesinato na revolução democrática.

O marxismo ensina o proletariado não a ficar à margem da revolução burguesa, não a ser indiferente a ela, não a entregar a sua direcção à burguesia, antes pelo contrário, a participar nela do modo mais enérgico, a lutar do modo mais decisivo pela democracia proletária consequente, para levar até ao fim a revolução. Não podemos ultrapassar os limites democrático-burgueses da revolução russa, mas podemos ampliar em proporções colossais estes limites, podemos e devemos dentro destes limites lutar pelos interesses do proletariado, pela satisfação das suas necessidades imediatas e pelas condições que tornarão possível preparar as suas forças para a futura vitória completa. Há democracia burguesa e democracia burguesa. O monárquico dos zemstvos, partidário de uma câmara alta, que «reclama» o sufrágio universal ao mesmo tempo que estabelece secretamente um arranjo com o tsarismo para obter uma constituição mutilada, é um democrata burguês. O camponês que, com as armas na mão, se ergue contra os latifundiários e os funcionários e, com um «republicanismo ingénuo», propõe «correr com o tsar»(12*) é também um democrata burguês. Há regimes democrático-burgueses tal como na Alemanha e tal como na Inglaterra; tal como na Áustria e tal como na América ou na Suíça. Seria um belo marxista quem, na época da revolução democrática, deixasse escapar esta diferença entre os graus da democracia e entre o diferente carácter de uma ou outra das suas formas e se limitasse a «filosofar» a propósito de que, no fim de contas, isto é uma «revolução burguesa», fruto de uma «revolução burguesa».

E os nossos neo-ískristas são precisamente tais filósofos que se vangloriam da sua miopia. Eles limitam-se precisamente a discorrer sobre o carácter burguês da revolução, quando o que é necessário é saber estabelecer uma diferença entre a democracia burguesa republicano-revolucionária e a monárquico-liberal, sem falar já da diferença entre o espírito democrático burguês inconsequente e o proletário consequente. Contentam-se como se se tivessem convertido verdadeiramente em «homens enconchados»[N243] com palavras melancólicas sobre o «processo de luta recíproca entre as classes antagónicas», quando do que se trata é de dar uma direcção democrática à revolução actual, de sublinhar as palavras de ordem democráticas da vanguarda para as diferenciar das palavras de ordem de traição do Sr. Struve e C.a, de indicar de modo claro e preciso as tarefas imediatas da luta verdadeiramente revolucionária do proletariado e do campesinato, bem diferentes do regateio liberal dos latifundiários e fabricantes. Nisto consiste agora, meus senhores, o fundo da questão, que deixásteís escapar: em que a nossa revolução termine numa verdadeira e grandiosa vitória ou num compromisso mesquinho, em que chegue até à ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato ou que «se esvazie das suas forças» através de uma constituição liberal-chipovista!

A primeira vista pode parecer que, ao colocar esta questão, nos afastamos completamente do nosso tema. Mas isso só pode parecer assim à primeira vista. Na realidade, é precisamente nesta questão que se encontra a raiz da divergência de princípio que já se desenhou completamente entre a táctica social-democrata do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia e a táctica estabelecida na conferência dos neo-iskristas. Estes últimos deram já não dois mas três passos atrás, ressuscitando os erros do «economismo» na resolução das questões incomparavelmente mais complexas, mais importantes e mais vitais para o partido operário da sua táctica no momento da revolução. Eis porque temos que nos deter com toda a atenção no exame do problema levantado.

Na parte da resolução dos neo-iskristas por nós reproduzida é apontado o perigo de que a social-democracia se ate as mãos na luta contra a política inconsequente da burguesia, de que se dilua na democracia burguesa. A idéia deste perigo transparece como um fio vermelho em toda a literatura especificamente neo-iskrista, esta ideia é o verdadeiro eixo de toda a posição de princípio na cisão do nosso partido (desde que os elementos de querela mesquinha nesta cisão foram completamente relegados para o último plano perante os elementos de viragem para o «economismo»). E nós reconhecemos também sem circunlóquios de qualquer género que este perigo existe realmente, que precisamente agora, no apogeu da revolução russa, este perigo assumiu um carácter particularmente sério. A todos nós, os teóricos, ou — no que a mim se refere preferiria dizer — os publicistas da social-democracia, incumbe a tarefa inadiável e extraordinariamente responsável de analisar de que lado, na realidade, este perigo ameaça. Porque a origem da nossa divergência encontra-se não no debate a propósito de se existe ou não este perigo, mas no debate sobre se o mesmo é causado pelo chamado seguidismo da «minoria» ou pelo chamado revolucionarismo da «maioria».

Para eliminar falsas interpretações e mal-entendidos assinalamos em primeiro lugar que o perigo a que nos referimos reside não no aspecto subjectivo da questão, mas no objectivo, não na posição formal que a social-democracia venha a ocupar na luta, mas no desenlace material de toda a luta revolucionária presente. A questão não consiste em saber se tais ou tais grupos sociais-democratas quererão diluir-se na democracia burguesa, se se apercebem de que se diluem — não é disso que se trata. Não temos suspeitas de que algum social-democrata manifeste semelhante desejo, e não se trata aqui de modo nenhum de desejos. A questão não consiste também em saber se tais ou tais grupos sociais-democratas conservarão a sua independência, a sua individualidade, a sua autonomia formais em relação à democracia burguesa em todo o decurso da revolução. Eles poderão não só proclamar essa «independência», mas também mantê-la formalmente, mas, contudo, as coisas podem processar-se de tal maneira que se encontrem de mãos atadas na luta contra a inconsequência da burguesia. O resultado político definitivo da revolução pode ser que, apesar da «independência» formal, apesar da social-democracia manter plenamente a sua individualidade como organização, como partido, de facto não seja independente, não seja capaz de imprimir à marcha dos acontecimentos a marca da sua independência proletária, que se mostre tão fraca que, no conjunto e no fim de contas, no balanço definitivo, a sua «diluição» na democracia burguesa seja, apesar de tudo, um facto histórico.

Eis pois em que consiste o perigo real. E vejamos agora de que lado ele ameaça: do do desvio da social-democracia para a direita personificado no novo Iskra, como nós pensamos, ou do do desvio da mesma para a esquerda, personificado pela «maioria», pelo Vperiod, etc, como pensam os neo-iskristas?

A solução deste problema, como já apontámos, será determinada pela combinação objectiva da acção das diferentes forças sociais. O carácter destas forças foi determinado no plano teórico pela análise marxista da realidade russa e no presente é determinado no plano prático pela acção aberta dos grupos e das classes no processo da revolução. Ora, toda a análise teórica efectuada pelos marxistas muito antes da época que atravessamos e todas as observações práticas sobre o desenvolvimento dos acontecimentos revolucionários mostram-nos que são possíveis, do ponto de vista das condições objectivas, dois cursos e dois desenlaces da revolução na Rússia. A transformação do regime económico e político na Rússia no sentido democrático-burguês é inevitável e inelutável. Não há força no mundo capaz de impedir esta transformação. Mas da combinação da acção das forças existentes, criadoras desta transformação, podem surgir dois resultados ou duas formas desta transformação. Das duas uma: 1) ou as coisas terminarão com a «vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo», ou 2) não haverá forças suficientes para a vitória decisiva e as coisas terminarão por um acordo entre o tsarismo e os elementos mais «inconsequentes» e «egoístas» da burguesia. Toda a variedade infinita de pormenores e combinações que ninguém pode prever se reduz, no fim de contas, a um ou a outro destes dois resultados.

Vejamos agora estes desenlaces, primeiro do ponto de vista da sua significação social e, em seguida, do ponto de vista da situação da social-democracia (da sua «diluição» ou das suas «mãos atadas») num e noutro caso.

Que é a «vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo»? Vimos já que, ao empregar esta expressão, os neo-iskristas não a compreendem nem mesmo no seu sentido político imediato. Parecem compreender menos ainda o conteúdo de classe deste conceito. Porque nós, marxistas, não devemos, em caso algum, deixar-nos seduzir pelas palavras «revolução» ou «grande revolução russa» como agora se deixam seduzir por elas muitos democratas revolucionários (do estilo de Gapone). Devemos conhecer de maneira exacta quais as forças sociais reais que se opõem ao «tsarismo» (este é uma força perfeitamente real e perfeitamente compreensível para todos) e que são capazes de obter a «vitória decisiva» sobre o mesmo. Esta força não pode ser a grande burguesia, os latifundiários, os fabricantes, a «sociedade» que segue os osvobojdenistas. Vemos que eles nem sequer desejam uma vitória decisiva. Sabemos que são incapazes, pela sua situação de classe, de uma luta decisiva contra o tsarismo: para irem à luta decisiva, a propriedade privada, o capital e a terra são um lastro demasiadamente pesado. Têm demasiada necessidade do tsarismo, com as suas forças policiais-burocráticas e militares, contra o proletariado e o campesinato, para poderem aspirar à destruição do tsarismo. Não, a única força capaz de obter a «vitória decisiva sobre o tsarismo» só pode ser o povo, isto é, o proletariado e o campesinato, se se tomar as grandes forças fundamentais e se se distribuir a pequena burguesia rural e urbana (também «povo») entre um e outro. «A vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo» é a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato. Os nossos neo-iskristas não poderão fugir a esta conclusão indicada desde há muito tempo pelo Vperiod. Não há mais ninguém que possa obter a vitória decisiva sobre o tsarismo.

E esta vitória será precisamente uma ditadura, isto é, deverá apoiar-se inevitavelmente na força das armas, nas massas armadas, na insurreição e não em tais ou tais instituições criadas «pela via legal», «pacífica». Só pode ser uma ditadura porque a realização das transformações imediata e absolutamente necessárias para o proletariado e o campesinato provocará uma resistência desesperada tanto por parte dos latifundiários como da grande burguesia e do tsarismo. Sem ditadura será impossível esmagar esta resistência, rechaçar as tentativas contra-revolucionárias. Mas não será, naturalmente, uma ditadura socialista, mas uma ditadura democrática. Esta ditadura não poderá tocar (sem toda uma série de graus intermédios de desenvolvimento revolucionário) os fundamentos do capitalismo. Poderá, no melhor dos casos, efectuar uma redistribuição radical da propriedade da terra a favor dos camponeses, implantar uma democracia consequente e completa indo até à república, extirpar não só da vida do campo mas também da fábrica todos os traços asiáticos, servis, iniciar uma melhoria séria na situação dos operários, elevar o seu nível de vida e, finalmente, last but not least(13*) levar o incêndio revolucionário à Europa. Semelhante vitória não converterá ainda, de forma alguma, a nossa revolução burguesa em socialista; a revolução democrática não ultrapassará directamente os limites das relações económico-sociais burguesas; mas, apesar disso, terá importância gigantesca para o desenvolvimento futuro da Rússia e do mundo inteiro. Nada elevará tanto a energia revolucionária do proletariado mundial, nada encurtará tão consideravelmente o caminho que conduz à sua vitória total como esta vitória decisiva da revolução iniciada na Rússia.

Até que ponto é provável esta vitória, isso já é outra questão. Não somos de modo algum propensos ao optimismo insensato a este respeito, não esquecemos de forma alguma as enormes dificuldades desta tarefa, mas, quando nos lançamos à luta, devemos desejar a vitória e saber indicar o verdadeiro caminho que a ela conduz. As tendências capazes de conduzir a esta vitória existem indiscutivelmente. É verdade que a nossa influência, a dos sociais-democratas, sobre a massa do proletariado é ainda muito e muito insuficiente; a influência revolucionária sobre a massa camponesa é completamente insignificante; a dispersão, o atraso, a ignorância do proletariado e, sobretudo, do campesinato, são ainda terrivelmente grandes. Mas a revolução une rapidamente e educa rapidamente. Cada passo do seu desenvolvimento desperta as massas e atrai-as com força irresistível precisamente para o programa revolucionário, como o único que exprime, de modo consequente e completo, os seus verdadeiros interesses, os seus interesses vitais.

Uma lei da mecânica estabelece que a acção é equivalente à reacção. Na história, a força destruidora da revolução depende também, e não pouco, da força e da duração do esmagamento das aspirações de liberdade, da profundidade das contradições entre a «superstrutura» antediluviana e as forças vivas da época actual. E a situação política internacional vai-se desenhando, em muitos aspectos, do modo mais vantajoso para a revolução russa. A insurreição dos operários e camponeses já começou, encontra-se dispersa, é espontânea, débil, mas demonstra, de modo indiscutível e absoluto, a existência de forças capazes de se empenharem na luta decisiva e que marcham para uma vitória decisiva.

Se estas forças forem insuficientes, o tsarismo poderá então estabelecer um arranjo, que já está a ser preparado dos dois lados pelos Srs. Bulíguine e pelos Srs. Struve. Então as coisas terminarão com uma constituição mutilada ou mesmo — no pior dos casos — uma paródia da mesma. Isto será também uma «revolução burguesa», mas será um aborto, um nado-morto, um bastardo. A social-democracia não alimenta ilusões, conhece a natureza traiçoeira da burguesia, não se desalentará e não abandonará o seu trabalho tenaz, paciente e firme para a educação de classe do proletariado, mesmo nos dias mais sombrios da prosperidade burguesa-constitucional «chipovista». Este desenlace seria mais ou menos parecido com o de quase todas as revoluções democráticas da Europa no decurso do século XIX, e em tal caso o desenvolvimento do nosso partido seguiria uma senda difícil, penosa, longa, mas conhecida e batida.

Pergunta-se agora: em qual destes dois desenlaces possíveis a social-democracia se encontraria de facto com as mãos atadas em face da burguesia inconsequente e egoísta? se encontraria de facto «diluída» ou quase diluída na democracia burguesa?

Basta formular de modo claro esta pergunta para lhe responder imediatamente sem dificuldade.

Se a burguesia conseguir fazer fracassar a revolução russa por meio de um arranjo com o tsarismo, então a social-democracia ver-se-á de facto precisamente de mãos atadas em face da burguesia inconsequente, então a social-democracia ver-se-á «diluída» na democracia burguesa no sentido de que o proletariado não conseguirá imprimir a sua marca clara à revolução, não conseguirá ajustar contas com o tsarismo à maneira proletária ou, como dizia Marx no seu tempo, «à maneira plebeia».

Se se conseguir a vitória decisiva da revolução, então ajustaremos contas com o tsarismo à maneira jacobina ou, se quiserdes, plebeia. «Todo o terrorismo francês — escrevia Marx em 1848 na famosa Nova Gazeta Renana — não foi senão um método plebeu para ajustar contas com os inimigos da burguesia: com o absolutismo, o feudalismo e o filisteísmo». (Ver Marx, Nachlass, editado por Mehring, tomo 3, p. 211[N244].) Terão pensado alguma vez na significação dessas palavras de Marx os que intimidam os operários sociais-democratas russos com o espantalho do «jacobinismo» na época da revolução democrática?

Os girondinos da social-democracia russa actual, os neo-iskristas, não se fundem com os osvobojdenistas, mas, de facto, em consequência do carácter das suas palavras de ordem, marcham na cauda dos mesmos. E os osvobojdenistas, isto é, os representantes da burguesia liberal, pretendem ajustar contas com a autocracia suavemente, à maneira reformista, fazendo concessões, sem ofender a aristocracia, a nobreza, a corte — cautelosamente, sem partir nada, amável e cortesmente, de maneira senhoril, usando luvas brancas (como as que usou, tiradas das mãos de um bachibuzuk, o senhor Petrunkévitch, na recepção dos «representantes do povo» (?) por Nicolau, o Sanguinário[N245]. (Ver Proletári, n.° 5(14*).)

Os jacobinos da social-democracia moderna — os bolcheviques, os vperiodistas, congressistas ou proletaristas[N246] — não sei já como dizer — querem elevar, com as suas palavras de ordem, a pequena burguesia revolucionária e republicana e sobretudo o campesinato até ao nível do espírito democrático consequente do proletariado, que conserva completamente a sua individualidade de classe. Querem que o povo, isto é, o proletariado e o campesinato, ajuste contas com a monarquia e com a aristocracia «à maneira plebeia», aniquilando implacavelmente os inimigos da liberdade, esmagando pela força a sua resistência, sem fazer nenhuma concessão à herança maldita do regime de servidão, do asiatismo, da degradação do homem.

Isto não significa de modo algum que pretendamos imitar obrigatoriamente os jacobinos de 1793, adoptar as suas concepções, o seu programa, as suas palavras de ordem, os seus métodos de acção. Nada disso. Não temos um programa velho, mas novo: o programa mínimo do Partido Operário Social-Democrata da Rússia. Temos uma palavra de ordem nova: a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato. Teremos também, se vivermos até à vitória autêntica da revolução, novos métodos de acção, que corresponderão ao carácter e aos fins do partido da classe operária, que aspira à revolução socialista completa. Com esta comparação queremos unicamente esclarecer que os representantes da classe avançada do século XX, do proletariado, isto é, os sociais-democratas, se dividem também nas duas alas (oportunista e revolucionária) em que se dividiam os representantes da classe avançada do século XVIII, a burguesia, isto é, os girondinos e os jacobinos.

Só no caso de vitória completa da revolução democrática o proletariado não se encontrará de mãos atadas na luta contra a burguesia inconsequente, só neste caso não se «diluirá» na democracia burguesa, mas imprimirá a toda a revolução a sua marca proletária ou, mais exactamente, proletário-camponesa.

Numa palavra: para que não se encontre de mãos atadas na luta contra a democracia burguesa inconsequente, o proletariado deve ter suficiente consciência de classe e força para elevar o campesinato até à consciência revolucionária, para dirigir a arremetida deste, para realizar assim, de maneira independente, a democracia proletária consequente.

É assim que se coloca a questão, tão infelizmente resolvida pelos neo-iskristas, do perigo de se encontrar de mãos atadas na luta contra a burguesia inconsequente. A burguesia será sempre inconsequente. Não há nada mais ingénuo e estéril do que as tentativas de traçar as condições ou pontos(15*) com cuja realização se poderia considerar a democracia burguesa como um amigo não hipócrita do povo. Somente o proletariado pode ser um lutador consequente pela democracia. Mas só pode lutar vitoriosamente pela democracia na condição de que a massa do campesinato se una à sua luta revolucionária. Se o proletariado não tiver forças para isso, a burguesia colocar-se-á à frente da revolução democrática e imprimir-lhe-á um carácter inconsequente e egoísta. Não há meio de o impedir senão a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato.

Assim, pois, chegamos à conclusão indiscutível de que é precisamente a táctica neo-iskrista que, pela sua significação objectiva, faz o jogo da democracia burguesa. O defender a imprecisão orgânica indo até aos plebiscitos, até ao princípio de acordos, até ao afastamento da literatura partidária do partido, o rebaixar as tarefas da insurreição armada, o confundir as palavras de ordem políticas para todo o povo do proletariado revolucionário com as da burguesia monárquica, o adulterar as condições da «vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo» — tudo isto, tomado em conjunto, dá como resultado precisamente a política do seguidismo nos momentos revolucionários, que desorienta o proletariado, o desorganiza e leva a confusão à sua consciência, rebaixa a táctica da social-democracia, em vez de indicar o único caminho da vitória e agrupar em torno da palavra de ordem do proletariado todos os elementos revolucionários e republicanos do povo.

Para confirmar esta conclusão, a que chegámos mediante uma análise da resolução, abordemos esta mesma questão de outros ângulos. Vejamos, em primeiro lugar, de que maneira um menchevique ingénuo e sincero ilustra a táctica neo-iskrista no jornal georgiano Sotsial-Demokrat. Em segundo lugar, vejamos quem recorre, de facto, na actual situação política, às palavras de ordem do novo Iskra.

 

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Notas de Rodapé:

 

(9*) Sub specie aeternitatis: do ponto de vista da eternidade. Plusquamperfectum: mais que perfeito. (N. Ed.)

 

(10*) Os «socialistas-revolucionários» são mais um grupo terrorista de intelectuais do que o embrião desse partido, apesar de a significação objectiva da actividade do referido grupo consistir, precisamente, na realização das tarefas da burguesia revolucionária e republicana.

 

(11*) Não falamos das palavras de ordem especiais para o campesinato, às quais são dedicadas
resoluções particulares.

 

(12*) Ver Osvobojdénie n.º 71, p. 337, nota 2.

 

(13*) O último mas não o menos importante.

 

(14*) Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5ª ed. em russo, t. 10, pp. 298-303. (N. Ed.) (retornar ao texto)

(15*) Como tentou fazê-lo Starover na sua resolução[N247], anulada pelo III congresso, e como tenta a conferência numa resolução não menos infeliz.

 

Notas de Fim de Tomo:

[N206] Osvobojdénie (Libertação): revista quinzenal, que se publicou no estrangeiro de 18 de Junho (1 de Julho) de 1902 a 5 (18) de Outubro de 1905 sob a direcção de P. B. Struve. A revista era um órgão da burguesia monárquico-liberal russa. Em 1903, em volta da revista formou-se (e em Janeiro de 1904 formalizou-se) a «União de Libertação», que existiu até Outubro de 1905. Os «osvobojdenistas» constituíram mais tarde o núcleo do Partido Democrata-Constitucionalista, que se formou em Outubro de 1905.

 

[N240] Trata-se da obra de K. Marx Teses sobre Feuerbach

 

[N241] União de Libertação (Soiuz Osvobojdénie): ver nota 206.

 

[N242] Sin Otétchestva (Filho da Pátria): diário de orientação liberal que se editou em Petersburgo de 1856 a 1900 e a partir de 18 de Novembro (1 de Dezembro) de 1904. Os seus colaboradores eram adeptos da Osvobojdénie e populistas de diversos matizes. A partir de 15 (28) de Novembro de 1905, foi o órgão do partido socialista-revolucionário. A 2 (15) de Dezembro de 1905, foi suspenso.

Nacha Jizn (Nossa Vida): diário de orientação liberal; publicou-se em Petersburgo, com interrupções, de 6 (19) de Novembro de 1904 a 11 (24) de Julho de 1906.

Nachi Dni (Nossos Dias), diário de orientação liberal. Foi editado em Petersburgo de 18 (31) de Dezembro de 1904 a 5 (18) de Fevereiro de 1905. Em 7(20) de Dezembro de 1905 a edição do jornal foi reiniciada, mas saíram apenas dois números.

 

[N243] O Homem Enconchado: personagem do conto homónimo de A. P. Tchékhov. É o tipo do pequeno burguês medíocre, que receia tudo o que é novo, que receia a iniciativa.

 

[N244] V. I. Lénine refere-se ao livro Aus dem literarischen Nachlass von Karl Marx, Friedrich Engels und Ferdinand Lassalle, Herausgegeben von Franz Mehring, Band III, Stuttgart, 1902, S. 211. (Da herança literária de Karl Marx, Friedrich Engels e Ferdinand Lassalle,sob a redacção de Franz Mehring, t. III, Stuttgart, 1902, p. 211.)

 

[N245] Alusão à recepção duma delegação dos zemstvos por Nicolau II a 6 (19) de Junho de 1905. A delegação entregou ao tsar uma petição para a convocação dos representantes do povo para estabelecer, de acordo com o tsar, «um regime estatal renovado». A petição não continha nem a reivindicação do sufrágio universal, directo igual e secreto, nem de garantias da liberdade das eleições.

 

[N246] Vperiodistas, congressistas ou proletaristas: denominações diferentes dos bolcheviques, dadas com base no III Congresso do partido por eles convocado e segundo os títulos dos jornais por eles editados: o Vperiod e o Proletári.

 

[N247] Trata-se da resolução de A. N. Potréssov (Starover) sobre a atitude para com os liberais aprovada no II Congresso do POSDR.


 

 

 

7.

A Táctica da «Eliminação dos Conservadores do Governo»

 


O artigo por nós mencionado acima, publicado no órgão do «comité» menchevique de Tiflis (Sotsial-Demokrat, n.° 1) intitula-se O Zémski Sobor e a Nossa Táctica. O seu autor não esqueceu ainda por completo o nosso programa, lança a palavra de ordem de república, mas discorre sobre a táctica da seguinte maneira:

«Para atingir este objectivo (a república) podem-se indicar dois caminhos: ou não prestar nenhuma atenção ao Zémski Sobor em vias de ser convocado pelo governo e derrotar o governo com as armas na mão, formar um governo revolucionário e convocar a assembleia constituinte. Ou declarar o Zémski Sobor como centro da nossa acção, fazendo pressão de armas na mão sobre a sua composição, sobre a sua actividade, e obrigá-lo pela força a declarar-se assembleia constituinte, ou a convocar por seu intermédio uma assembleia constituinte. Estas duas tácticas diferenciam-se muito claramente uma da outra. Vejamos, pois, qual das duas é mais vantajosa para nós.»

Eis como os neo-iskristas russos expõem as ideias ulteriormente consubstanciadas na resolução por nós examinada. Observai que isto foi escrito antes de Tsuxima[N248], quando o «projecto» de Bulíguine não tinha ainda vindo à luz. Até os liberais perdiam a paciência e exprimiam a sua desconfiança nas colunas da imprensa legal, enquanto um social-democrata neo-iskrista se mostrava mais confiante do que os liberais. Declara ele que o Zémski Sobor «está em vias de ser convocado» e acredita no tsar a tal ponto que propõe fazer deste Zémski Sobor (ou talvez uma «Duma de Estado» ou um «Sobor consultivo»?) ainda inexistente o centro da nossa actuação. Mais franco e mais rectilíneo do que os autores da resolução adoptada na conferência, o nosso tiflissense não considera como equivalentes as duas «tácticas» (expostas por ele com uma ingenuidade inimitável), mas declara que a segunda é «mais vantajosa». Escutai:

«Táctica primeira. Como sabeis, a revolução que se aproxima é uma revolução burguesa, isto é, está destinada a realizar uma transformação do regime actual na qual está interessado não só o proletariado mas também toda a sociedade burguesa. Todas as classes se encontram em oposição ao governo, incluindo os próprios capitalistas. O proletariado em luta e a burguesia em luta vão, em certo sentido, juntos e atacam juntos o absolutismo de lados diferentes. O governo está aqui completamente isolado e privado da simpatia da sociedade. Por isso, é muito fácil destruí-lo. O proletariado da Rússia no seu conjunto não tem ainda suficiente consciência de classe nem está suficientemente organizado para poder, sozinho, levar a cabo a revolução. E se pudesse fazê-lo não realizaria uma revolução burguesa, mas proletária (socialista). Interessa-nos, portanto, que o governo fique sem aliados, não possa dividir a oposição, não atraia para si a burguesia e deixe isolado o proletariado...»

Assim, é do interesse do proletariado que o governo não possa separar a burguesia e o proletariado! Não será por engano que o órgão georgiano se chama Sotsial-Demokrat em vez de se chamar Osvobojdénie? Vede que inimitável filosofia da revolução democrática! Não vemos nós aqui, com os nossos próprios olhos, o pobre tiflissense totalmente desorientado pela sentenciosa interpretação seguidista do conceito «revolução burguesa»? Examina a questão do possível isolamento do proletariado na revolução democrática e esquece-se... esquece-se de uma minúcia... do campesinato! Entre os possíveis aliados do proletariado, ele conhece e acha do seu agrado os latifundiários dos zemstvos, mas não sabe nada dos camponeses. E isto no Cáucaso! Pois bem, não tínhamos nós razão quando dizíamos que o novo Iskra, com os seus raciocínios, desce até à burguesia monárquica, em vez de elevar até si como aliado o campesinato revolucionário?

«... Em caso contrário, a derrota do proletariado e a vitória do governo são inevitáveis, E é precisamente isto que a autocracia deseja. Esta, sem dúvida, no seu Zémski Sobor, atrairá para o seu lado os representantes da nobreza, dos zemstvos, das cidades, das Universidades e demais instituições burguesas. Esforçar-se-á por ganhá-los com pequenas concessões e, dessa maneira, reconciliá-los consigo. Reforçada deste modo, dirigirá todos os seus golpes contra o povo trabalhador, que ficará isolado. É nosso dever impedir tão infeliz desenlace. Mas poderemos fazê-lo pelo primeiro caminho? Suponhamos que não prestámos nenhuma atenção ao Zémski Sobor, mas que começámos a preparar-nos nós próprios para a insurreição e um belo dia saímos armados para a rua para a luta. E eis que em lugar de encontrarmos pela frente um só inimigo, encontramo-nos com dois: o governo e o Zémski Sobor. Enquanto nos preparávamos, eles tiveram tempo de entender-se, de chegar a um acordo, de elaborar uma constituição vantajosa para eles e de repartir o poder entre si. Esta é uma táctica directamente vantajosa para o governo e devemos repudiá-la da maneira mais enérgica..."

Isso é que é falar com franqueza! Há que repudiar decididamente a «táctica» de preparar a insurreição porque, «entretanto», o governo chegará a um arranjo com a burguesia! Seria possível encontrar, na velha literatura do mais inveterado «economismo», alguma coisa parecida com esta difamação da socíal-democracia revolucionária? As insurreições e as revoltas operárias e camponesas que se verificam aqui e ali são um facto. O Zémski Sobor é uma promessa de Bulíguine. E o Sotsial-Demokrat da cidade de Tiflis decide: repudiar a táctica de preparar a insurreição e esperar pelo «centro de acção», o Zémski Sobor...

«... A segunda táctica, pelo contrário, consiste em colocar o Zémski Sobor sob a nossa vigilância, não lhe dar possibilidade de actuar segundo a sua vontade e de chegar a um acordo com o governo(16*).

«Nós apoiamos o Zémski Sobor na medida em que lute contra a autocracia e combatemo-lo quando se conciliar com a autocracia. Por uma intervenção enérgica e pela força, dividimos os deputados(17*), atraímos para nós os radicais, eliminamos do governo os conservadores e, desta maneira, colocamos todo o Zémski Sobor na via revolucionária. Graças a esta táctica, o governo ficará permanentemente isolado, a oposição será forte e deste modo será facilitada a implantação de um regime democrático.»

Sim! Sim! Que nos digam agora que exageramos a viragem dos neo-iskristas para a variedade mais vulgar do «economismo». Isto é exactamente igual aos famosos pós contra as moscas: apanha-se a mosca, aplica-se-lhe o pó e ela morre. Dividir pela força os deputados do Zémski Sobor, «eliminar do governo os conservadores» — e todo o Zémski Sobor adoptará a via revolucionária... Tudo isso sem nenhuma espécie de insurreição armada «jacobina», mas muito nobremente, quase parlamentarmente, «fazendo pressão» sobre os membros do Zémski Sobor.

Pobre Rússia! Disse-se dela que usa sempre chapéus fora de moda e desusados na Europa. Não temos ainda parlamento, Bulíguine nem sequer o prometeu, mas cretinismo parlamentar[N249] há quanto se queira.

«... Como deve efectuar-se esta intervenção? Em primeiro lugar, exigiremos que o Zémski Sobor seja convocado na base do sufrágio universal, igual, directo e secreto. Juntamente com a publicação(18*) deste sistema eleitoral, deve ser consagrada pela lei(19*) a completa liberdade de agitação eleitoral, isto é, a liberdade de reunião, de palavra, de imprensa, a imunidade dos eleitores e eleitos e a libertação de todos os delinquentes políticos. A data das eleições deve ser fixada para o mais tarde possível, a fim de nos dar tempo suficiente para informar e preparar o povo. E uma vez que a elaboração do regulamento de convocação do Sobor foi confiada a uma comissão presidida pelo Ministro do Interior Bulíguine, devemos fazer pressão sobre esta comissão e sobre os seus membros(20*). Se a comissão Bulíguine se negar a satisfazer as nossas reivindicações(21*) e conceder o direito de voto somente aos possidentes, devemos intervir nestas eleições e obrigar, por meios revolucionários, os eleitores a eleger candidatos avançados e exigir no Zémski Sobor uma assembleia constituinte. Por fim devemos obrigar por todos os meios possíveis — manifestações, greves, e, se for necessário, a insurreição — o Zémski Sobor a convocar uma assembleia constituinte ou a declarar-se como tal. O proletariado em armas deve ser o defensor da assembleia constituinte e ambos(22*) juntos marcharão para a república democrática. «Esta é a táctica social-democrata e só ela nos assegurará a vitória.»

Não pense o leitor que este incrível absurdo seja simples ensaio jornalístico de qualquer neo-iskrista irresponsável e sem influência. Não, isto é dito no órgão de todo um comité dos neo-iskristas, o de Tíflis. Mais ainda. Este absurdo é abertamente aprovado pelo «Iskra» no seu n.° 100, no qual lemos estas linhas consagradas ao Sotsial-Demokrat:

"O n." 1 está redigido com vivacidade e talento. Nota-se a mão experimentada e hábil de um redactor que é escritor... Pode dizer-se com segurança que o jornal cumprirá brilhantemente a tarefa que se propôs.»

Sim! Se esta tarefa consiste em demonstrar cabalmente, a todos e a cada um, a plena decomposição ideológica do neo-iskrismo, cumpriu-a de facto «brilhantemente». Ninguém teria sabido exprimir com maior «vivacidade, talento e habilidade» o rebaixamento dos neo-iskristas até ao oportunismo liberal-burguês.

 

 

8.

O Osvobojdenismo e o Neo-Iskrismo

 

Passemos agora a outra confirmação evidente da significação política do neo-iskrismo.

Num artigo notável, excelente, muito instrutivo, intitulado Como se encontrar a si mesmo (Osvobojdénie n.° 71), o Sr. Struve entra em guerra com o «revolucionarismo programático» dos nossos partidos extremos. O Sr. Struve mostra-se sobretudo descontente comigo(23*). No que a mim se refere, não posso estar mais contente com o Sr. Struve: eu não poderia desejar melhor aliado na luta contra o «economismo» renascente dos neo-iskristas e contra a falta absoluta de princípios dos «socialistas-revolucionários». Mostraremos nalguma outra ocasião como o Sr. Struve e a Osvobojdénie demonstraram, na prática, todo o reaccionarismo das «emendas» ao marxismo feitas no projecto de programa dos socialistas-revolucionários. Já falámos muitas vezes(24*), e falaremos agora outra vez, de como o Sr. Struve me prestou um serviço leal, honrado e verdadeiro todas as vezes que aprovou em princípio os neo-iskristas.

No artigo do Sr. Struve há uma série de declarações interessantíssimas que aqui só podemos assinalar de passagem. Ele tenciona «criar uma democracia russa apoiando-se não na luta mas na colaboração de classes», com a particularidade de que a «intelectualidade socialmente privilegiada» (tal como a «nobreza culta», ante a qual o Sr. Struve faz reverências com a graça autenticamente mundana de um... lacaio) trará o «peso da sua situação social» (o peso de um saco de dinheiro) para este partido «não classista». O Sr. Struve exprime o desejo de dar a conhecer à juventude a falsidade «desse chavão radical de que a burguesia se assustou e atraiçoou o proletariado e a causa da liberdade». (Saudamos de todo o coração este desejo. Nada confirma melhor este «chavão» marxista do que a guerra que lhe faz o Sr. Struve . Faça favor, Sr. Struve , não remeta para as calendas gregas a execução do seu excelente plano!)

Para tratar o nosso tema importa assinalar as palavras de ordem práticas contra as quais luta actualmente um representante da burguesia russa dotado de um instinto político tão fino e tão sensível às menores variações do tempo. Em primeiro lugar, contra a palavra de ordem do republicanismo. O Sr. Struve está firmemente convencido de que esta palavra de ordem é «incompreensível e alheia à massa do povo» (ele esquece-se de acrescentar: é compreensível, mas desvantajosa para a burguesia!). Gostaríamos de ver que resposta receberia o Sr. Struve dos operários nos nossos círculos e nos nossos comícios! Ou os operários não são povo? E os camponeses? Acontece-lhes professar, segundo as palavras do Sr. Struve , «um republicanismo ingénuo» («correr com o tsar»), mas a burguesia liberal acredita que este republicanismo ingénuo será substituído não por um republicanismo consciente, mas por um monarquismo consciente! Ça dépend, Sr. Struve , isso depende ainda das circunstâncias. Tanto o tsarismo como a burguesia não podem deixar de opor-se a uma melhoria radical da situação dos camponeses à custa da grande propriedade latifundiária, e a classe operária não pode deixar de cooperar nisto com o campesinato.

Em segundo lugar, o Sr. Struve afirma que «na guerra civil o atacante estará sempre errado». Esta ideia aproxima-se muito das tendências do neo-iskrismo expostas mais atrás. Não diremos, naturalmente, que na guerra civil é sempre vantajoso atacar; não, às vezes a táctica defensiva é obrigatória durante certo tempo. Mas formular uma tese como a do Sr. Struve e aplicá-la à Rússia de 1905 é precisamente exibir um fragmento do «chavão radical» («a burguesia assusta-se e atraiçoa a causa da liberdade»). Quem não quiser atacar agora a autocracia, a reacção, quem não se preparar para este ataque, quem não o propugnar, afirma-se falsamente partidário da revolução.

O Sr. Struve condena as palavras de ordem: «conspiração» e «motim» (este é uma «insurreição em miniatura»). O Sr. Struve desdenha uma e outro do ponto de vista «do acesso às massas»! Perguntamos ao Sr. Struve: poderia ele indicar a propaganda do motim, por exemplo, numa obra como Que Fazer? de um revolucionarista tão extremo, na sua maneira de ver? E, quanto à «conspiração», será tão grande a diferença, por exemplo, entre nós e o Sr. Struve? Não trabalhamos ambos em jornais «ilegais», introduzidos «conspirativamente» na Rússia e que servem os grupos «secretos» da «União de Libertação» ou do POSDR? Os nossos comícios operários são, em muitos casos, «conspirativos», não o negamos. E as assembleias dos senhores osvobojdenistas? De que pode gabar-se, Sr. Struve , perante os desprezíveis partidários da desprezível conspiração?

É verdade que para fornecer armas aos operários é necessária uma rigorosa conspiração. Neste ponto o Sr. Struve fala já com mais franqueza. Escutai-o:

«No que se refere à insurreição armada, ou à revolução no sentido técnico, somente uma propaganda de massa do programa democrático pode criar as condições psicológicas e sociais da insurreição armada geral. Assim, mesmo do ponto de vista, que não compartilho, que considera a insurreição armada como o coroamento inevitável da actual luta pela emancipação, o essencial, o mais necessário, é inculcar nas massas as ideias de transformação democrática.»

O Sr. Struve procura fugir à questão. Fala da inevitabilidade da insurreição, em vez de falar da necessidade da mesma para a vitória da revolução. Uma insurreição não preparada, espontânea, dispersa, já começou. Ninguém pode garantir absolutamente que ela chegará até à insurreição popular armada integral e total, uma vez que isso depende tanto do estado das forças revolucionárias (que só se pode avaliar inteiramente durante a própria luta), como da conduta do governo e da burguesia e de uma série de outras circunstâncias que não é possível predizer com exactidão. É despropositado falar de inevitabilidade no sentido desta certeza absoluta num acontecimento concreto a que a argumentação do Sr. Struve reduz o assunto. Se se quer ser partidário da revolução, deve-se falar de se é necessária a insurreição para a vitória da revolução, de se é necessário ou não preconizá-la activamente, defendê-la, prepará-la imediata e energicamente. O Sr. Struve não pode deixar de compreender esta diferença: por exemplo, não encobre a questão, indiscutível para um democrata, da necessidade do sufrágio universal com a questão, discutível e não essencial para um político, da inevitabilidade de se conseguir esse sufrágio no decurso da presente revolução. Ao fugir a questão da necessidade da insurreição, o Sr. Struve exprime a essência mais profunda da posição política da burguesia liberal. A burguesia, em primeiro lugar, prefere entender-se com a autocracia em vez de a esmagar; em qualquer caso, a burguesia deixa a luta de armas na mão para os operários (isto em segundo lugar). Eis a significação real que têm as evasivas do Sr. Struve. Eis porque ele recua da questão da necessidade da insurreição para a questão das suas condições «psicológicas e sociais», da «propaganda» preliminar. Exactamente da mesma forma que os palradores burgueses no parlamento de Frankfurt em 1848 se ocupavam em compor resoluções, declarações, decisões, da «propaganda de massa» e da preparação das «condições psicológicas e sociais», quando do que se tratava era de resistir à força armada do governo, quando o movimento «tinha conduzido à necessidade» da luta armada, quando a acção verbal exclusiva (cem vezes necessária no período de preparação) se tinha convertido numa vil inactividade e cobardia burguesas — da mesma forma, o Sr. Struve foge à questão da insurreição, encobrindo-se com frases. O Sr. Struve demonstra-nos linearmente aquilo que muitos sociais-democratas se obstinam a não ver, a saber: que o momento revolucionário se diferencia dos ordinários e quotidianos momentos históricos de preparação em que o estado de espírito, a agitação, a convicção das massas devem traduzir-se e traduzem-se em acção.

O revolucionarismo vulgar não compreende que a palavra é também um acto; esta é uma tese incontestável, aplicada à história em geral ou a épocas da história em que não há acção política aberta das massas, que nenhum putsch pode substituir nem criar artificialmente. O seguidismo dos revolucionários não compreende que, quando se inicia o momento revolucionário, quando a velha «superstrutura» rebenta por todos os lados, quando a acção política aberta das classes e das massas, que criam para si uma nova superstrutura, se converteu num facto, quando começou a guerra civil, limitar-se então, como outrora ,«às palavras», sem dar a palavra de ordem directa de passar aos «actos», fugir então à acção, invocando as «condições psicológicas» e a «propaganda» em geral, significa apatia, imobilidade cadavérica, verbalismo, ou então perfídia e traição perante a revolução. Os palradores de Frankfurt da burguesia democrática são um exemplo histórico inolvidável de uma tal traição ou de uma tal estupidez verbalista.

Quereis que vos expliquemos esta diferença entre o revolucionarismo vulgar e o seguidismo dos revolucionários com exemplos da história do movimento social-democrata na Rússia? Dar-vos-emos essa explicação. Recordai os anos 1901-1902, que estão ainda tão próximos e nos parecem agora pertencer a um passado longínquo. Começaram as manifestações. O revolucionarismo vulgar lançou o grito de «ao assalto» (Rabótcheie Dielo), foram publicados os «volantes sangrentos» (de procedência berlinense, se a memória me não falha), atacou-se como «literatismo» e coisa de gabinete a ideia de agitação em toda a Rússia por meio de um jornal (Nadéjdine)[N251]. O seguidismo dos revolucionários apresentou-se então, pelo contrário, com o sermão de que «a luta económica constitui o melhor meio para a agitação política». Qual foi a posição da social-democracia revolucionária? Atacou estas duas tendências. Condenou os métodos pirotécnicos e os gritos de assalto, pois todos viam ou deviam ver claramente que a acção aberta das massas era coisa do futuro. Condenou o seguidismo e apresentou claramente mesmo a palavra de ordem da insurreição armada de todo o povo, não no sentido de um apelo directo (o Sr. Struve não encontraria entre nós naquele tempo um apelo ao «motim»), mas no sentido de uma conclusão necessária, no sentido da «propaganda» (da qual o Sr. Struve se lembrou só agora — o nosso respeitável Sr. Struve está sempre atrasado alguns anos), no sentido da preparação destas mesmas «condições psicológicas e sociais» de que agora tanto falam, «melancolicamente e a despropósito», os representantes da confundida burguesia traficante. Então a propaganda e a agitação, a agitação e a propaganda eram realmente colocadas em primeiro plano pelo estado de coisas objectivo. Então como pedra de toque do trabalho para a preparação da insurreição podia colocar-se (e colocava-se em Que Fazer?) o trabalho de criar um jornal político para toda a Rússia, cuja publicação semanal nos parecia um ideal. Então as palavras de ordem agitação de massas em lugar de acções armadas directas e preparação das condições psicológicas e sociais da insurreição em lugar dos métodos pirotécnicos eram as únicas palavras de ordem justas da social-democracia revolucionária. Agora estas palavras de ordem foram ultrapassadas pelos acontecimentos, o movimento deixou-as para trás, tornaram-se velharias, farrapos que não servem senão para ocultar a hipocrisia da tendência dos osvobojdenistas e o seguidismo dos neo-iskristas!

Ou talvez eu me engane? Talvez a revolução não tenha ainda começado? Não chegou ainda o momento da acção política aberta das classes? Não começou ainda a guerra civil e, portanto, não chegou o momento da crítica pelas armas ser necessária e obrigatoriamente a herdeira, a sucessora, a testamenteira, a coroadora da arma da crítica?

Olhai em vosso redor, saí do vosso gabinete para a rua, a fim de responder a estas perguntas. Não foi o próprio governo que começou já a guerra civil, assassinando em massa, por toda a parte, cidadãos pacíficos e desarmados? Não estão a actuar os cem-negros armados, como «argumento» da autocracia? A burguesia — até a burguesia — não reconheceu a necessidade de uma milícia civil? O próprio Sr. Struve , este Sr. Struve tão idealmente moderado e exacto, não diz (ah!, di-lo só para para se justificar!) que «o carácter aberto das acções revolucionárias» (como falamos agora!) «é actualmente uma das condições mais importantes da influência educativa sobre as massas populares»?

Quem tenha olhos para ver não pode duvidar de que maneira deve ser agora colocada pelos partidários da revolução a questão da insurreição armada. Ora observai os três modos de colocar esta questão, publicados nos órgãos da imprensa livre capazes de influir em alguma medida sobre as massas.

Primeiro modo de colocar a questão. Resolução do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia(25*). Reconhece-se e declara-se publicamente que o movimento revolucionário democrático geral já conduziu à necessidade da insurreição armada. A organização do proletariado para a insurreição coloca-se na ordem do dia como uma das tarefas essenciais, primordiais e necessárias do partido. Deu-se instruções no sentido de se tomarem as medidas mais enérgicas para armar o proletariado e para assegurar a possibilidade da direcção imediata da insurreição.

Segundo modo de colocar a questão. O artigo de princípios na Osvobojdénie do «chefe dos constitucionalistas russos» (assim chamou não há muito ao Sr. Struve um órgão tão influente da burguesia europeia como o jornal de Frankfurt), ou do chefe da burguesia progressista russa. Ele não compartilha a opinião da inevitabilidade da insurreição. A conspiração e o motim são processos específicos de um revolucionarismo insensato. O republicanismo é um método de atordoamento. A insurreição armada é de facto uma questão apenas técnica, enquanto «o fundamental e mais necessário» é a propaganda de massas e a preparação das condições psicológico-sociais.

Terceiro modo de colocar a questão. A resolução da conferência neo-iskrista. A nossa tarefa é preparar a insurreição. É excluída a possibilidade de uma insurreição de acordo com um plano. As condições favoráveis para a insurreição são criadas pela desorganização governamental, pela nossa agitação, pela nossa organização. Somente então «podem adquirir importância mais ou menos séria os preparativos técnicos para o combate».

Nada mais? Nada mais. Se a insurreição se tornou necessária, os dirigentes neo-iskristas do proletariado não o sabem ainda. Se é inadiável a tarefa de organizar o proletariado para a luta imediata, é coisa que para eles ainda não está clara. Não é necessário apelar para a adopção das medidas mais enérgicas, é muito mais importante (em 1905 e não em 1902) esclarecer, em linhas gerais, em que condições «podem» estas medidas adquirir importância «mais ou menos séria»...

Vedes agora, camaradas neo-iskristas, onde vos levou a vossa viragem para o martinovismo? Compreendeis que a vossa filosofia política se revelou uma reedição da filosofia dos osvobojdenistas? que vos colocastes (contra a vossa vontade e sem consciência disso) na cauda da burguesia monárquica? Não está claro agora para vós que, insistindo nas velhas cantilenas e aperfeiçoando-vos no verbalismo, perdestes de vista a circunstância de que — para falar com as inolvidáveis palavras do inolvidável artigo de Piotr Struve — «o carácter aberto das acções revolucionárias é actualmente uma das condições mais importantes da influência educativa sobre as massas populares»?

 

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Notas de Rodapé:

 

(16*) Que meios há para privar os zémtsi do livre exercício da sua vontade? Não será um papel de tornesol especial?

 

(17*) Valha-nos Deus! Eis a táctica «aprofundada»! Não há forças para lutar na rua, mas pode-se «dividir os deputados» pela «força». Escute, camarada de Tíflis, pode-se mentir, mas há um limite...

 

(18*) No Iskra?

 

(19*) Por Nicolau?

 

(20*) É isto que significa a táctica de «eliminar os conservadores do governo»!

 

(21*) Mas isto não pode acontecer se nós usarmos uma táctica tão acertada e tão profundamente meditada!

 

(22*) O proletariado em armas e os «conservadores eliminados do governo»?

 

(23*) «Em comparação com o revolucionarismo dos senhores Lénine e camaradas, o revolucionarismo da social-democracía da Europa ocidental de Bebel e até de Kautsky é oportunismo, mas também as bases deste revolucionarismo, já suavizado, foram minadas e destruídas pela história.» Ataque muito severo. Mas faz mal o Sr. Struve em pensar que se me podem imputar todas as coisas como a um morto. A mim basta-me lançar um repto ao Sr. Struve , que ele nunca será capaz de aceitar. Onde e quando chamei eu oportunismo ao «revolucionarismo de Bebel e de Kautsky»? Onde e quando pretendi eu criar, na social-democracia internacional, uma tendência especial, não idêntica à tendência de Bebel e de Kautsky? Onde e quando vieram à luz divergências entre mim, por um lado, e Bebel e Kautsky, por outro, divergências que pela sua seriedade se aproximem, ainda que pouco, das que surgiram entre Bebel e Kautsky, por exemplo, na questão agrária em Breslau[N250]? Que o Sr. Struve tente responder a estas três perguntas.
E aos leitores dizemos: a burguesia liberal, sempre e em toda a parte, recorre ao método que consiste em fazer crer aos seus partidários de determinado país que os sociais-democratas desse país são os mais insensatos enquanto os seus camaradas do país vizinho são «bons rapazes». A burguesia alemã apontou centenas de vezes como exemplo a Kautsky e Bebel os «bons rapazes" socialistas franceses. A burguesia francesa apresentou não há muito como exemplo aos socialistas franceses o «bom rapaz» Bebel . Velho método, Sr. Struve! Nessa armadilha somente apanhará crianças e ignorantes. A completa solidariedade da social-democracia revolucionária internacional em todas as questões principais de programa e de táctica é um facto absolutamente incontestável.

 

(24*) Recordamos ao leitor que o artigo O Que não se Deve Fazer (Iskra n.º 52) foi saudado ruidosamente pela Osvobojdénie como uma «viragem significativa» no sentido da transigência para com os oportunistas. As tendências de princípio do neo-iskrismo foram aprovadas pela Osvobojdénie particularmente numa nota sobre a cisão entre os sociais-democratas russos. A respeito do folheto de Trótski As Nossas Tarefas Políticas, a Osvobojdénie apontou a analogia das ideias desse autor com as que escreveram e expressaram outrora os partidários da Rabótcheie Dielo Kritchévski, Martínov, Akímov (ver a folha Um Liberal Solícito, editada pelo Vperiod) (ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5.a ed. em russo, t. 9, pp. 71-74 - N. Ed.). O folheto de Martínov sobre as duas ditaduras foi saudado pela Osvobojdénie (ver a nota no Vperiod n.º 9). (Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5.a ed. em russo, t. 9, pp. 307-308 -N. Ed.) finalmente, as queixas tardias de Starover em relação à velha palavra de ordem do velho Iskra «primeiro demarcar os campos e depois unir-se» encontraram a simpatia especial da Osvobojdénie.

 

(25*) Eis aqui o texto completo:
«Considerando:
«1) que o proletariado, que é, pela sua situação, a classe mais avançada e a única consequentemente revolucionária, é por esta razão chamado a desempenhar o papel dirigente no movimento revolucionário democrático geral da Rússia;
«2) que este movimento, no momento actual, já conduziu à necessidade da insurreição armada;
«3) que o proletariado participará inevitavelmente nesta insurreição, do modo mais enérgico, determinando deste modo a sorte da revolução na Rússia;
«4) que o proletariado só pode desempenhar o papel dirigente nesta revolução se estiver agrupado, como força política independente e única, sob a bandeira do Partido Operário Social-Dcmocrata que dirija, não só ideológica mas também praticamente, a sua luta;
"5) que só o cumprimento deste papel pode assegurar ao proletariado as condições mais vantajosas para a luta pelo socialismo contra as classes possidentes da Rússia democrático-burguesa,—
«O III congresso do POSDR reconhece que a tarefa de organizar o proletariado para a luta directa contra a autocracia, por meio da insurreição armada, é uma das tarefas principais e inadiáveis do partido no actual momento revolucionário.
"Por isso, o congresso encarrega todas as organizações do partido de:
«a) esclarecer o proletariado por meio da propaganda e da agitação, não somente sobre a significação política, mas também sobre o aspecto prático e organizativo da insurreição armada próxima,
"b) esclarecer, nessa propaganda e agitação, o papel das greves políticas de massas, que podem ter grande importância no princípio e na própria marcha da insurreição,
"c) tomar as medidas mais enérgicas para armar o proletariado bem como para elaborar 0 plano da insurreição armada e da sua direcção imediata, criando para isso, na medida em que seja necessário, grupos especiais de funcionários do partido. »— (Nota de Lénine para a edição de 1907. — N. Ed.)

 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N203] O congresso da social-democracia alemã de 1895 efectuou-se em Breslau (actualmente Wroclaw, cidade polaca) de 6 a 12 de Outubro. No centro da atenção do congresso estava a discussão do projecto do programa agrário proposto pela comissão agrária que foi criada por decisão do Congresso de Frankfurt de 1894. O projecto de programa agrário continha sérios erros, nomeadamente a tendência que nele se manifestava de transformar o partido proletário num partido «de todo o povo». Este projecto era defendido, além dos oportunistas, também por A. Bebel e W. Liebknecht, pelo que foram criticados no congresso pelos camaradas do partido. O projecto do programa agrário foi submetido no congresso a uma crítica severa por K. Kautsky, C. Zetkin e por vários outros socíais-democratas. O congresso, por maioria de votos (158 contra 63), rejeitou o projecto de programa agrário apresentado pela comissão.

 

[N248] Trata-se da batalha de Tsuxima, combate naval perto da ilha de Tsuxima travado em 14-15 (27-28) de Maio de 1905 durante a guerra russo-japonesa. O combate terminou com a derrota da armada russa.

 

[N249] A expressão cretinismo parlamentar, que se encontra mais de uma vez nas obras de Lénine, foi usada por K. Marx e F. Engels. V. I. Lénine aplicava esta expressão aos oportunistas, que consideravam que o sistema parlamentar é omnipotente, e a actividade parlamentar a única e principal forma de luta política em todas as condições.

 

[N250] Referência às divergências surgidas durante a discussão do projecto do programa agrário no Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha, que se realizou em Breslau de 6 a 12 de Outubro de 1895 (veja a nota n.° 203).

 

[N251] Trata-se da brochura de L. Nadéjdine (pseudónimo de E. O. Zelénski) A Véspera da Revolução. O Exame Populista das Questões da Teoria e da Táctica, publicada em 1901. Lénine submeteu a uma crítica enérgica a brochura de Nadéjdine no seu livro


 


9.

Que Significa Ser o Partido da Oposição Extrema Durante a Revolução?

 


Voltemos à resolução sobre o governo provisório. Mostrámos que a táctica dos neo-iskristas impulsiona a revolução não para diante — era essa a possibilidade que queriam garantir com a sua resolução — mas para trás. Mostrámos que é precisamente esta táctica que ata as mãos da social-democracia na luta contra a burguesia inconsequente e não a preserva da diluição na democracia burguesa. Compreende-se que das falsas premissas da resolução resulta uma consequência falsa: «Por isto, a social-democracia não deve propor-se como fim tomar ou compartilhar o poder no governo provisório, mas deve continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema.» Considerai a primeira metade desta conclusão, que se refere à exposição dos fins. Colocam os neo-iskristas como fim da actividade social-democrata a vitória decisiva da revolução sobre o tsarismo? Colocam. Não sabem formular acertadamente as condições da vitória decisiva, desviando-se para a formulação «osvobojdenista», mas apontam o fim mencionado. Prossigamos. Relacionam o governo provisório com a insurreição? Sim, relacionam-no directamente ao dizer que o governo provisório «surgirá da insurreição popular vitoriosa». Finalmente, colocam o fim de dirigir a insurreição? Sim, evitam, como o Sr. Struve , reconhecer o carácter necessário e inadiável da insurreição mas, ao mesmo tempo, diferentemente do Sr. Struve , dizem que a «social-democracia aspira a subordiná-la (a insurreição) à sua influência e direcção, e a utilizá-la no interesse da classe operária».

Tudo isso é muito coerente, não é verdade? Colocam-nos como fim subordinar a insurreição das massas proletárias e não proletárias à nossa influência, à nossa direcção, utilizá-la no nosso interesse. Por conseguinte, colocamo-nos como fim dirigir, durante a insurreição, tanto o proletariado como a burguesia revolucionária e a pequena burguesia («grupos não proletários»), isto é, «partilhar» a direcção da insurreição entre a social-democracia e a burguesia revolucionária. Colocamo-nos como fim a vitória da insurreição, a qual deve conduzir à instauração de um governo provisório («surgido da insurreição popular vitoriosa»). Por isso ... por isso não devemos colocar-nos como fim tomar ou compartilhar o poder no governo provisório revolucionário!

Os nossos amigos não conseguem juntar ponta com ponta. Oscilam entre o ponto de vista do Sr. Struve , que evita a insurreição, e o ponto de vista da social-democracia revolucionária, que concita à realização dessa tarefa inadiável. Oscilam entre o anarquismo, que condena em princípio, como uma traição ao proletariado, qualquer participação no governo provisório revolucionário, e o marxismo, que exige essa participação na condição de que a social-democracia exerça uma influência dirigente na insurreição(26*). Não têm nenhuma posição independente, nem a posição do Sr. Struve , que deseja chegar a um acordo com o tsarismo e, por este motivo, deve evitar e rodear a questão da insurreição; nem a posição dos anarquistas, que condenam qualquer acção «de cima» e qualquer participação na revolução burguesa. Os neo-iskristas confundem o entendimento com o tsarismo com a vitória sobre o tsarismo. Querem participar na revolução burguesa. Foram um pouco mais longe que as Duas Ditaduras de Martínov. Estão mesmo dispostos a dirigir a insurreição do povo — para renunciar a esta direcção imediatamente depois da vitória (ou talvez imediatamente antes da vitória?) isto é, para não colher os frutos da vitória e ceder todos os frutos inteiramente à burguesia. E é a isto que chamam «utilizar a insurreição no interesse da classe operária» ...

Não há necessidade de nos determos mais tempo nesta embrulhada. Será mais útil examinar a origem desta embrulhada na formulação que afirma: «Continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema.»

Encontramo-nos perante uma das conhecidas teses da social-democracia revolucionária internacional. Esta tese é perfeitamente acertada. Converteu-se num lugar-comum para todos os adversários do revisionismo ou do oportunismo nos países parlamentares. Ganhou foros de cidadania como repulsão legítima e necessária do «cretinismo parlamentar», do millerandismo, do bernsteinianismo, do reformismo italiano no espírito de Turati. Os nossos bons neo-iskristas aprenderam de cor esta boa tese e aplicam-na zelosamente... completamente a despropósito. As categorias da luta parlamentar são introduzidas em resoluções escritas para condições nas quais não existe nenhum parlamento. O conceito de «oposição», que é reflexo e expressão de uma situação política na qual ninguém fala seriamente de insurreição, transpõe-se absurdamente para uma situação em que a insurreição começou e em que todos os partidários da revolução pensam e falam na direcção da mesma. O desejo de «continuar» na mesma situação que antes, isto é, agindo apenas «de baixo», exprime-se de modo pomposo e ribombante precisamente quando a revolução coloca a questão da necessidade, em caso de vitória da insurreição, de agir de cima.

Não, decididamente os nossos neo-iskristas não têm sorte! Mesmo quando formulam uma tese social-democrata acertada, não sabem aplica-Ia acertadamente. Não pensaram na maneira como se transformam e se convertem na sua antítese as noções e os termos da luta parlamentar na época em que se iniciou a revolução, quando não há parlamento, quando há guerra civil e se produzem explosões da insurreição. Não pensaram que, nas condições que examinamos, as emendas propõem-se por meio de manifestações de rua, as interpelações fazem-se por meio de acções ofensivas dos cidadãos armados e a oposição ao governo realiza-se por meio do derrubamento violento do governo.

Da mesma forma que o famoso herói da nossa epopeia popular repetia os bons conselhos exactamente quando eram inoportunos, também os nossos admiradores de Martínov repetem as lições do parlamentarismo pacífico precisamente quando eles próprios verificam o começo das hostilidades directas. Não há nada mais curioso do que esta maneira de formular, com ar de importância, a palavra de ordem de «oposição extrema» numa resolução que começa aludindo à «vitória decisiva da revolução», à «insurreição popular»! Pensai bem, senhores: que significa representar o papel de «oposição extrema» na época da insurreição? Significa isto denunciar o governo ou derrubá-lo? Significa isto votar contra o governo ou infligir uma derrota às suas forças armadas num combate aberto? Significa isto negar-se a encher o tesouro do governo ou significa apoderar-se, por via revolucionária, desse tesouro para as necessidades da insurreição, o armamento dos operários e camponeses, a convocação da assembleia constituinte? Não começais a compreender, senhores, que o conceito de «oposição extrema» não exprime senão acções negativas — denunciar, votar contra, recusar? E porquê? Porque este conceito se refere apenas à luta parlamentar, e isto numa época em que ninguém coloca como fim imediato da luta a «vitória decisiva». Não começais a compreender que as coisas mudam radicalmente neste aspecto a partir do momento em que o povo politicamente oprimido inicia o ataque decisivo, em toda a linha, para a luta encarniçada pela vitória?

Os operários perguntam-nos: é necessário lançar-se energicamente à obra inadiável da insurreição? Que fazer para que a insurreição iniciada seja vitoriosa? Como aproveitar da vitória? Que programa se poderá e deverá realizar então? Os neo-iskristas, que aprofundam o marxismo, respondem: devemos continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema... Muito bem, não tínhamos razão quando chamávamos a estes cavalheiros virtuoses do filisteísmo?

 

 

10.

As «Comunas Revolucionárias» e a Ditadura Revolucionária Democrática do Proletariado e do Campesinato

 

A conferência dos neo-iskristas não se manteve na posição anarquista a que tinha chegado o novo Iskra (somente «de baixo» e não «de baixo e de cima»). O absurdo de admitir a insurreição e não admitir a vitória e a participação no governo provisório revolucionário saltava demasiadamente aos olhos. Por isso, a resolução introduziu certas reservas e restrições na solução que davam à questão Martínov e Mártov. Examinemos estas reservas, expostas na seguinte parte da resolução:

«Esta táctica ('continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema'), naturalmente não exclui, no mínimo que seja, a conveniência da tomada parcial, episódica, do poder e da formação de comunas revolucionárias em tal ou tal cidade, em tal ou tal região, com o objectivo exclusivo de contribuir para o alargamento da insurreição e para a desorganização do governo.»

Se assim é, isto quer dizer que, em princípio, se aceita a acção não só de baixo mas também de cima. Por conseguinte, a tese sustentada no conhecido artigo de L. Mártov no Iskra (n.° 93) é rejeitada e é reconhecida como justa a táctica do jornal Vperiod: não só «de baixo» mas também «de cima».

Além disso, a tomada do poder (mesmo parcial, episódica, etc.) pressupõe evidentemente a participação não só da social-democracia e não só do proletariado. Isto é devido a que não é somente o proletariado que está interessado na revolução democrática e que participa activamente da mesma. Isto é devido a que a insurreição é «popular», como se diz no início da resolução que examinamos, que nela participam também «grupos não proletários» (expressão da resolução dos conferencistas sobre a insurreição), isto é, também a burguesia. Deste modo, a conferência deitou pela borda fora, como o Vperiod procurava conseguir, o princípio segundo o qual toda a participação dos socialistas juntamente com a pequena burguesia no governo provisório revolucionário é uma traição à classe operária. A «traição» não deixa de ser traição pelo facto de que a acção que a determina seja parcial, episódica, regional, etc. Portanto, a equiparação da participação no governo provisório revolucionário ao jauressismo vulgar foi deitada pela borda fora pela conferência, como o Vperiod procurava conseguir. Um governo não deixa de ser governo pelo facto de o seu poder se estender não a muitas cidades mas a uma cidade, não a muitas regiões mas a uma região, como tão-pouco deixa de o ser pelo nome que tiver esse governo. Assim, o modo de colocar a questão, do ponto de vista dos princípios que o novo Iskra tentou dar, foi rejeitado pela conferência.

Vejamos agora se são razoáveis as restrições que a conferência impõe à constituição, agora aceite em princípio, de governos revolucionários e à participação nos mesmos. Não sabemos em que se diferencia o conceito de «episódico» do conceito de «provisório» Tememos que, neste caso, uma palavra estrangeira e «nova» não sirva aqui senão para ocultar a ausência de uma ideia clara. Isto parece «mais profundo», mas na verdade é apenas mais obscuro e confuso. Em que se diferencia a «conveniência» da «tomada do poder» parcial numa cidade ou região, da participação no governo provisório revolucionário de todo o Estado? Entre as «cidades», não as há tais como Petersburgo, onde teve lugar o 9 de Janeiro? Entre as regiões não está a do Cáucaso, que é maior do que muitos Estados? As tarefas (que em tempos inquietavam o novo Iskra) com respeito ao que fazer com as prisões, a polícia, o tesouro, etc, não se colocarão também a nós com a «tomada do poder» mesmo numa cidade, sem falar já de uma região? Ninguém negará, naturalmente, que se as forças são insuficientes, se o êxito da insurreição não é completo, se a vitória não é decisiva, são possíveis governos provisórios revolucionários parciais de cidades e outros. Mas a que propósito vem isto, senhores? Não sois vós mesmos que falais, no início da resolução, da «vitória decisiva da revolução», da «insurreição popular vitoriosa»?? Desde quando os sociais-democratas tomam a seu cargo a obra dos anarquistas: dispersar a atenção e os objectivos do proletariado? orientá-lo para o «parcial» e não para o geral, uno, integral e completo? Ao pressupor a «tomada do poder» numa cidade, vós próprios falais do «alargamento da insurreição» — a outra cidade, podemos pensar? a todas as cidades, podemos esperá-lo. As vossas conclusões, senhores, são tão vacilantes e casuais, contraditórias e confusas, como as vossas premissas. O III congresso do POSDR deu uma resposta exaustiva e clara à questão do governo provisório revolucionário em geral. Esta resposta aplica-se também a todos os governos provisórios parciais. A resposta da conferência, pelo contrário, separando de maneira artificial e arbitrária uma parte da questão, não procura senão evitar (mas sem êxito) a questão no seu conjunto e semeia a confusão.

Que significa isso de «comunas revolucionárias»? Essa noção será diferente da de «governo provisório revolucionário» e, em caso afirmativo, em quê? Os próprios senhores conferencistas não o sabem. A confusão do pensamento revolucionário condu-los, como sucede habitualmente, à frase revolucionária. Sim, o emprego do termo «comuna revolucionária» numa resolução de representantes da social-democracia é uma frase revolucionária e nada mais. Marx condenou mais de uma vez semelhante fraseologia, em que se encobrem, por detrás de um termo «sedutor» de um passado caduco, as tarefas do futuro. O carácter sedutor de um termo que desempenhou um papel na história converte-se, em casos semelhantes, num ouropel inútil e nocivo, num chocalho. Nós precisamos de dar aos operários e a todo o povo uma ideia clara e inequívoca da razão por que queremos a constituição de um governo provisório revolucionário, de quais são precisamente as transformações que realizaremos se exercermos amanhã influência decisiva sobre o poder, caso a insurreição popular já iniciada tenha um desenlace vitorioso. Eis as questões que se colocam aos dirigentes políticos.

O III congresso do POSDR responde a estas questões com uma clareza absoluta, apresentando um programa completo destas transformações — o programa mínimo do nosso partido. Enquanto a palavra «comuna» não dá resposta alguma e nada mais faz do que encher a cabeça com sons longínquos... ou com frases ocas. Quanto mais cara for para nós, por exemplo, a Comuna de Paris de 1871, tanto menos tolerável é que façamos alusões à mesma sem examinar os seus erros e as suas condições peculiares. Fazer isso equivaleria a repetir o exemplo absurdo dos blanquistas, ridicularizados por Engels, que se prosternavam (em 1874, no seu Manifesto) diante de qualquer acto da Comuna[N252]. Que dirá o conferencista ao operário quando este o interrogar sobre esta «comuna revolucionária» que é mencionada na resolução? Poder-lhe-á dizer unicamente que sob esse nome se conhece na história um governo operário que não sabia e não podia então distinguir os elementos da revolução democrática e da socialista, que confundia as tarefas da luta pela república com as tarefas da luta pelo socialismo, que não soube cumprir a tarefa de uma ofensiva militar enérgica contra Versalhes, que cometeu o erro de não se apoderar do Banco de França, etc. Numa palavra, tanto se vos referis na vossa resposta à Comuna de Paris como a outra qualquer, essa resposta será: foi um governo como o nosso não deve ser. Bela resposta, não há dúvida! Não revela isto o verbalismo de um exegeta e a impotência de um revolucionário, quando se faz silêncio quanto ao programa prático do partido e se começa inoportunamente a dar na resolução uma lição de história? Não demonstra isto, precisamente, a existência do erro que pretendiam em vão imputar-nos a nós: a confusão da revolução democrática e da socialista, entre as quais nenhuma «comuna» estabeleceu a distinção?

Como fim «exclusivo» do governo provisório (tão inoportunamente qualificado de comuna) é apresentado o alargamento da insurreição e a desorganização do governo. Este «exclusivo» elimina, no sentido literal da palavra, qualquer outra tarefa, não sendo mais que uma reminiscência da teoria absurda de «somente de baixo». Uma eliminação semelhante de outras tarefas é, uma vez mais, uma prova de miopia e irreflexão. A «comuna revolucionária», isto é, poder revolucionário, mesmo que apenas numa cidade, deverá ocupar-se inevitavelmente (mesmo que temporária, «parcial, episodicamente») de todos os assuntos estatais e, nesse caso, é o cúmulo da insensatez esconder a cabeça debaixo da asa. Este poder deverá tanto decretar a jornada de oito horas como instituir a inspecção operária nas fábricas, organizar a instrução geral gratuita, implantar a elegibilidade dos juizes, constituir comités camponeses, etc. — numa palavra, deverá realizar sem falta uma série de reformas. Incluir estas reformas na noção de «contribuir para o alargamento da insurreição» significaria jogar com as palavras e aumentar deliberadamente a falta de clareza onde é preciso que haja uma clareza absoluta.

A parte final da resolução neo-iskrista não fornece novos materiais para a crítica das tendências de princípio do «economismo» ressuscitado no nosso partido, mas ilustra de um lado um tanto diferente o que ficou dito mais atrás.

Eis essa parte:

«Só num caso a social-democracia deveria, por iniciativa sua, encaminhar os seus esforços no sentido de tomar o poder e mantê-lo nas suas mãos pelo maior tempo possível, a saber: no caso de a revolução se alargar aos países avançados da Europa ocidental, nos quais já alcançaram uma certa (?) maturidade as condições para a realização do socialismo. Nesse caso, os estreitos limites históricos da revolução russa podem ampliar-se consideravelmente e tornar-se-á possível entrar na via das transformações socialistas.

«Baseando a sua táctica no propósito de conservar para o partido social-democrata, no decurso de todo o período revolucionário, a situação de oposição revolucionária extrema em relação a todos os governos que se sucedem durante a revolução, a social-democracia poderá preparar-se da melhor maneira para a utilização do poder governamental, caso este caia (??) nas suas mãos.»

Aqui a ideia fundamental é a mesma que repetidamente o Vperiod formulou ao dizer que não, devemos temer (como teme Martínov) a vitória completa da social-democracia na revolução democrática, isto é, a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato, pois tal vitória dar-nos-á a possibilidade de levantar a Europa, e o proletariado socialista europeu, depois de ter sacudido o jugo da burguesia, ajudar-nos-á, por sua vez, a realizar a revolução socialista. Vede, porém, até que ponto aparece piorada esta ideia na exposição neo-iskrista. Não nos deteremos em pormenores como o absurdo de que o poder pode «cair» nas mãos de um partido consciente, que considera nociva a táctica da tomada do poder; de que, na Europa, as condições para o socialismo alcançaram não uma certa maturidade, mas a maturidade em geral; de que o programa do nosso partido não conhece transformações socialistas, mas conhece apenas a revolução socialista. Tomemos a diferença principal e fundamental entre as ideias do Vperiod e as da resolução. O Vperiod apontava ao proletariado revolucionário da Rússia uma tarefa activa: triunfar na luta pela democracia e aproveitar esta vitória para alargar a revolução à Europa. A resolução não compreende esta conexão entre a nossa «vitória decisiva» (não no sentido neo-iskrista) e a revolução na Europa e por isso fala não das tarefas do proletariado, não das perspectivas da sua vitória, mas de uma das possibilidades em geral: «no caso de a revolução se alargar»... O Vperiod indicava de modo claro e definitivo — e estas indicações entraram na resolução do III congresso do POSDR — como precisamente se pode e deve «utilizar o poder governamental» no interesse do proletariado, tendo em conta o que se pode realizar imediatamente no grau actual de desenvolvimento social e o que é necessário realizar primeiro como premissa democrática da luta pelo socialismo. Também neste sentido a resolução se arrasta irremediavelmente na cauda quando diz «poderá preparar-se para a utilização» sem saber dizer como se poderá, como se deverá preparar e como utilizá-lo. Não duvidamos, por exemplo, de que os neo-iskristas poderão preparar-se para a utilização da posição dirigente no partido, mas a verdade é que, até agora, a sua experiência desta utilização e a sua preparação não infundem nenhuma esperança no que diz respeito à transformação da possibilidade em realidade...

O Vperiod dizia em que consiste precisamente a possibilidade «real» de manter o poder nas nossas mãos — na ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato, na sua força de massas conjunta, capaz de superar todas as forças da contra-revolução, na sua coincidência inevitável de interesses em relação às transformações democráticas. A resolução da conferência também nada dá de positivo neste sentido, limitando-se somente a evitar a questão. Pois a possibilidade de manter o poder na Rússia deve ser condicionada pela composição das forças sociais da própria Rússia, pelas condições da revolução democrática que actualmente está a processar-se entre nós. Pois a vitória do proletariado na Europa (e do alargamento da revolução à Europa até à vitória do proletariado há ainda uma certa distância) provocará uma luta contra-revolucionáría desesperada da burguesia russa; e a resolução dos neo-iskristas não diz uma só palavra sobre esta força contra-revolucionária, cuja importância foi devidamente apreciada na resolução do III congresso do POSDR. Se, na luta pela república e pela democracia, não pudéssemos apoiar-nos nos camponeses além do proletariado, «manter o poder» seria então uma causa perdida. E se não é uma causa perdida, se a «vitória decisiva da revolução sobre o tsarísmo» abre uma tal possibilidade, devemos então apontá-la, apelar activamente para a transformação da possibilidade em realidade, dar palavras de ordem práticas não só para o caso de a revolução se alargar à Europa, mas também para que isto se realize. Nos seguídistas da social-democracia a referência aos «estreitos limites históricos da revolução russa» esconde apenas a concepção estreita das tarefas desta revolução democrática e do papel dirigente do proletariado nesta revolução!

Uma das objecções contra a palavra de ordem da «ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato» consiste em que a ditadura pressupõe a «unidade de vontade» (Iskra, n.° 95), e a unidade de vontade entre o proletariado e a pequena burguesia é impossível. Esta objecção é inconsistente, porque se baseia numa interpretação abstracta, «metafísica», da noção de «unidade de vontade». A vontade pode ser única num sentido e não ser única noutro. A ausência de unidade nas questões do socialismo e na luta pelo socialismo não exclui a unidade de vontade nas questões da democracia e na luta pela república. Esquecer isto significaria esquecer a diferença lógica e histórica entre a revolução democrática e a socialista. Esquecer isto significaria esquecer o carácter da revolução democrática como sendo de todo o povo: se é de todo o povo significa que há «unidade de vontade», exactamente na medida em que esta revolução satisfaz as necessidades e as exigências de todo o povo. Para além dos limites da democracia, nem sequer se põe a questão da unidade de vontade entre o proletariado e a burguesia camponesa. A luta de classes entre eles é inevitável, mas, no terreno da república democrática, esta luta será a luta popular mais profunda e mais vasta pelo socialismo. A ditadura revolucionaria democrática do proletariado e do campesinato tem, como tudo no mundo, o seu passado e o seu futuro. O seu passado é a autocracia, o regime de servidão, a monarquia, os privilégios. Na luta contra este passado, no combate à contra-revolução, é possível a «unidade de vontade» do proletariado e do campesinato, pois existe unidade de interesses.

O seu futuro é a luta contra a propriedade privada, a luta do trabalhador assalariado contra o patrão, a luta pelo socialismo. Aqui a unidade de vontade é impossível(27*). Aqui encontramo-nos não em presença do caminho que vai da autocracia à república, mas do caminho que vai da república democrática pequeno-burguesa ao socialismo.

Naturalmente, numa situação histórica concreta entrelaçam-se os elementos do passado e do futuro, um caminho confunde-se com o outro. O trabalho assalariado e a sua luta contra a propriedade privada existem também sob a autocracia, nascem mesmo no regime de servidão. Mas isto não nos impede minimamente de distinguir lógica e historicamente os grandes períodos do desenvolvimento. Pois todos nós contrapomos a revolução burguesa e a socialista, todos nós insistimos incondicionalmente na necessidade de estabelecer uma distinção rigorosa entre as mesmas, mas poder-se-á negar que, na história, elementos isolados, particulares, de uma e outra revolução se entrelaçam? Não regista a época das revoluções democráticas na Europa uma série de movimentos socialistas e tentativas socialistas? E a futura revolução socialista na Europa não terá ainda muito e muito que fazer para completar o que ficou incompleto no terreno da democracia?

O social-democrata não deve nunca esquecer, nem por um instante, a inevitabilidade da luta de classe do proletariado pelo socialismo, mesmo contra a burguesia e a pequena burguesia mais democráticas e republicanas. Isto é indiscutível. Daí decorre a necessidade absoluta de que a social-democracia tenha um partido próprio, independente e rigorosamente de classe. Daí decorre o carácter temporário da nossa palavra de ordem de «bater juntamente» com a burguesia, o dever de vigiar rigorosamente «o aliado, como se fosse um inimigo», etc. Tudo isto não oferece também a menor dúvida. Mas seria ridículo e reaccionário esquecer, ignorar ou menosprezar, por causa disso, as tarefas essenciais do momento, mesmo que sejam transitórias e temporárias. A luta contra a autocracia é uma tarefa temporária e transitória dos socialistas, mas ignorar ou menosprezar em qualquer medida esta tarefa equivale a trair o socialismo e a servir a reacção. A ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato é indiscutivelmente apenas uma tarefa transitória e temporária dos socialistas, mas ignorar esta tarefa na época da revolução democrática é abertamente reaccionário.

As tarefas políticas concretas devem ser colocadas numa situação concreta. Tudo é relativo, tudo flui, tudo se modifica. A social-democracia alemã não inclui no seu programa a reivindicação da república. Neste país a situação é tal que esta questão dificilmente pode ser separada, na prática, da questão do socialismo (se bem que, em relação à Alemanha, Engels, nas suas observações sobre o projecto de programa de Erfurt, em 1891, advertisse contra a tendência de menosprezar a importância da república e da luta pela república![N253]) Na social-democracia russa nem sequer surgiu a questão de suprimir do programa e da agitação a reivindicação da república, pois no nosso país nem sequer se põe a questão de uma ligação indissolúvel entre a questão da república e a questão do socialismo. Um social-democrata alemão de 1898 que não colocasse em primeiro plano de modo especial a questão da república era um fenómeno natural que não provocava nem surpresa nem censura. Um social-democrata alemão que, em 1848, deixasse na sombra a questão da república teria sido simplesmente um traidor à revolução. Não há verdade abstracta. A verdade é sempre concreta.

Tempo virá — quando tiver terminado a luta contra a autocracia russa, quando tiver passado na Rússia a época da revolução democrática — em que será mesmo ridículo falar de «unidade de vontade» do proletariado e do campesinato, de ditadura democrática, etc. Pensaremos, então, directamente, na ditadura socialista do proletariado e falaremos dela de maneira mais pormenorizada. Mas, na actualidade, o partido da classe de vanguarda não pode deixar de esforçar-se com a máxima energia por alcançar a vitória decisiva da revolução democrática sobre o tsarismo. E a vitória decisiva não é senão a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato.

 

 

Nota[N254]

1) Recordamos ao leitor que, na polémica do Iskra com o Vperiod, o primeiro se referia, entre outras coisas, a uma carta de Engels a Turati, na qual Engels advertia o chefe (futuro) dos reformistas italianos que não confundisse a revolução democrática e a socialista. A revolução próxima na Itália — escrevia Engels referindo-se à situação política da Itália em 1894 — será pequeno-burguesa, democrática, e não socialista. O Iskra censurava o Vperiod pelo facto de se ter afastado do princípio estabelecido por Engels. Esta censura era injusta, uma vez que o Vperiod (n.° 14) reconhecia plenamente em geral a justeza da teoria de Marx sobre a diferença entre as três forças principais das revoluções do século XIX(28*). Segundo esta teoria, actuam contra o velho regime, a autocracia, o feudalismo, o regime de servidão: 1) a grande burguesia liberal; 2) a pequena burguesia radical; 3) o proletariado. A primeira não luta por mais do que uma monarquia constitucional; a segunda, pela república democrática; o terceiro, pela revolução socialista. A confusão entre a luta pequeno-burguesa por uma revolução democrática completa e a luta proletária pela revolução socialista constitui, para um socialista, uma ameaça de bancarrota política. Esta advertência de Marx é perfeitamente justa. Mas, precisamente por essa razão, a palavra de ordem de «comunas revolucionárias» é errada, uma vez que as comunas que se conhecem na história confundiam precisamente a revolução democrática e a socialista. Pelo contrário, a nossa palavra de ordem de ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato preserva-nos em absoluto deste erro. Reconhecendo incondicionalmente o carácter burguês da revolução, que é incapaz de ultrapassar imediatamente os limites de uma revolução apenas democrática, a nossa palavra de ordem impulsiona para a frente esta revolução concreta, procura dar-lhe as formas mais vantajosas para o proletariado, procura por conseguinte aproveitar ao máximo a revolução democrática para que a luta que se seguirá do proletariado pelo socialismo tenha o maior êxito.

 

 

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Notas de Rodapé:

 

(26*) Ver Proletári, n.° 3, Sobre o Governo Provisório Revolucionário, artigo segundo. (Lénine, Obras Completas, 5.a ed. em russo, t. 10, pp. 241-250 - N. Ed.).

 

(27*) O desenvolvimento do capitalismo, ainda mais vasto e rápido em condições de liberdade, porá um fim rápido à unidade de vontade, tanto mais rápido quanto maior a rapidez com que for esmagada a contra-revolução e a reacção.

 

(28*) Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5.a ed. em russo, t. 10, pp. 1-19. (N. Ed.)

 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N252] Lénine tem em vista o programa publicado em 1874 pelo grupo londrino dos blanquistas, ex-membros da Comuna de Paris (ver o artigo de F. Engels A Literatura dos Emigrados. II. Programa dos Emigrados Blanquistas da Comuna).

 

[N253] O Programa de Erfurt do Partido Social-Democrata da Alemanha foi aprovado em Outubro de 1891 no Congresso que se efectuou em Erfurt. O programa de Erfurt foi um passo em frente em relação ao programa de Gotha (1875); foi colocada na base do programa a doutrina do marxismo sobre a inevitabilidade da queda do modo de produção capitalista e da sua substituição pelo socialista; sublinhava-se nele a necessidade de a classe operária conduzir a luta política e salientava-se o papel do partido como dirigente desta luta, etc. Mas também no programa de Erfurt havia sérias concessões ao oportunismo. F. Engels fez uma crítica pormenorizada do projecto do programa de Erfurt; foi,no fundo, uma crítica ao oportunismo de toda a II Internacional, para cujos partidos o programa de Erfurt era como que um modelo. Contudo, a direcção da social-democracia alemã ocultou às massas do partido a crítica de Engels, e as suas observações mais importantes não foram tomadas em consideração ao elaborar o texto final do programa. V. I. Lénine considerava como deficiência principal e concessão cobarde ao oportunismo o facto de o programa de Erfurt passar em silêncio a ditadura do proletariado.

 

[N254] A nota ao capítulo X do livro Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática foi escrita em folhas separadas durante a redacção do livro. No manuscrito da nota Lénine fez a anotação: «Inserir no § 10.» A nota não entrou na primeira edição do livro, tal como não entrou também ao ser publicado o livro na colectânea Em Doze Anos, em 1907. Foi publicada pela primeira vez em 1926, tomo V da Colectânea Leninista.


 

 

11.

Breve Comparação Entre Algumas Resoluções do III Congresso do POSDR e da «Conferência»

 


A questão do governo provisório revolucionário é o ponto central dos problemas tácticos da social-democracia no momento actual. Não há possibilidade nem necessidade de nos determos do mesmo modo pormenorizado no resto das resoluções da conferência. Limítar-nos-emos a indicar brevemente alguns pontos que confirmam a diferença de princípio por nós analisada mais atrás quanto à orientação táctica das resoluções do III congresso do POSDR e das resoluções da conferência.

Tomemos a questão da atitude em relação à táctica do governo em vésperas da revolução. Encontrareis, de novo, uma resposta integral a ela na resolução do III congresso do POSDR. Esta resolução tem em conta todas as diversas condições e tarefas de um momento particular: o desmascaramento da hipocrisia das concessões do governo e a utilização das «formas caricaturais de representação popular», a satisfação revolucionária das reivindicações urgentes da classe operária (em primeiro lugar a jornada de oito horas), e, por fim, a resistência aos cem-negros. Nas resoluções da conferência, a questão está dispersa em diversas secções: a «resistência às forças tenebrosas da reacção» só é mencionada nos considerandos da resolução sobre a atitude para com outros partidos. A participação nas eleições para as instituições representativas é examinada separadamente dos «compromissos» do tsarismo com a burguesia. Em vez de apelar para a implantação, por via revolucionária, da jornada de oito horas, uma resolução especial, intitulada pomposamente «sobre a luta económica», não faz mais do que repetir (depois de palavras sonoras e muito pouco inteligentes acerca do «lugar central ocupado pela questão operária na vida social russa») a velha palavra de ordem de fazer agitação pela «instituição legislativa da jornada de oito horas». A insuficiência e o atraso desta palavra de ordem no momento presente são demasiadamente claros para que seja necessário determo-nos a demonstrá-lo.

A questão da acção política aberta. O III congresso tem em conta uma próxima mudança radical da nossa actividade. Não se deve abandonar, de forma alguma, a actividade conspirativa e o desenvolvimento do aparelho conspirativo — isto seria fazer o jogo da polícia, e seria extraordinariamente vantajoso para o governo. Mas agora já não se pode deixar de pensar também na acção aberta. É preciso preparar imediatamente as formas convenientes desta acção e por conseguinte aparelhos especiais, menos conspirativos, para este fim. É necessário aproveitar as sociedades legais e semilegais para as converter tanto quanto possível em pontos de apoio do futuro partido operário social-democrata legal na Rússia.

Também aqui a conferência fragmenta a questão, sem dar nenhuma palavra de ordem completa. Ressalta especialmente a ridícula incumbência atribuída à Comissão de Organização de se ocupar da «colocação» dos literatos legais. É completamente absurda a decisão de «submeter à sua influência os jornais democráticos que se propõem como fim prestar ajuda ao movimento operário». Este fim é colocado por todos os nossos jornais liberais legais, que seguem quase totalmente a orientação da Osvobojdénie. Porque é que a redacção do Iskra não começa por seguir ela própria o seu conselho e não nos dá o exemplo de como submeter a Osvobojdénie à influência social-democrata? Em vez da palavra de ordem de aproveitar as associações legais para a criação de pontos de apoio do partido, dá-nos, em primeiro lugar, um conselho particular sobre as organizações unicamente «profissionais» (participação obrigatória dos membros do partido nelas) e, em segundo lugar, o conselho de dirigir «as organizações revolucionárias dos operários» = «organizações não legalizadas» = «clubes revolucionários de operários». Como é que estes clubes foram parar entre as organizações não legalizadas, que espécie de clubes são eles, só Alá o sabe. Em vez de directivas precisas e claras do organismo supremo do partido, vemos uns esboços de pensamentos e rascunhos de notas de literatos. Não aparece em nenhuma parte um quadro completo de como o partido deve começar a passar para uma base completamente diferente em todo o seu trabalho.

A «questão camponesa» é apresentada de maneira totalmente diferente pelo congresso do partido e pela conferência. O congresso elaborou uma resolução sobre «a atitude em relação ao movimento camponês». A conferência, uma sobre «o trabalho entre os camponeses». Num caso, são colocadas em primeiro plano as tarefas da direcção, no interesse da luta geral nacional contra o tsarismo, de todo o amplo movimento democrático revolucionário. No outro caso, a coisa reduz-se ao «trabalho» entre uma camada social determinada. Num caso apresenta-se, como palavra de ordem central prática da agitação, a criação imediata de comités camponeses revolucionários para a realização de todas as transformações democráticas. No outro, a «reivindicação da organização dos comités» deve ser apresentada à assembleia constituinte. Porque temos de esperar necessariamente por esta assembleia constituinte? Será ela, efectivamente, constituinte? será sólida, sem a constituição prévia e simultânea dos comités camponeses revolucionários? Todas estas questões não foram tomadas em conta pela conferência. Em todas as suas resoluções reflecte-se com efeito a idéia geral por nós assinalada de que na revolução burguesa devemos limitar-nos unicamente ao nosso trabalho particular, sem nos colocarmos o objectivo de dirigir todo o movimento democrático e de o guiar de modo independente. Tal como os «economistas» caíam permanentemente em que a luta económica era para os sociais-democratas e a luta política para os liberais, assim os neo-iskristas caem em todos os seus raciocínios em que nós deveríamos ocupar um modesto cantinho à margem da revolução burguesa, e que é a burguesia que deve realizá-la activamente.

Finalmente, não se pode deixar de assinalar a resolução sobre a atitude em relação aos outros partidos. A resolução do III congresso do POSDR fala em desmascarar toda a estreiteza e insuficiência do movimento de libertação burguês, sem alimentar a ideia ingénua de enumerar, de congresso em congresso, todos os possíveis casos desta estreiteza e de traçar uma linha de demarcação entre os burgueses bons e os burgueses maus. A conferência, repetindo o erro de Starover, procura tenazmente esta linha e desenvolve a famosa teoria do «papel de tornesol». Starover partia de uma idéia muito boa: apresentar à burguesia condições mais severas. Esquecia-se apenas de que qualquer tentativa para separar de antemão os democratas burgueses que merecem aprovação, um acordo, etc, e os que não merecem, conduz a uma «fórmula» que o desenvolvimento dos acontecimentos atira imediatamente pela borda fora e leva a confusão à consciência de classe proletária. O centro de gravidade transfere-se da unidade real na luta para declarações, promessas, palavras de ordem. Starover considerava que esta palavra de ordem radical era «o sufrágio universal, igual, directo e secreto». Não tinham passado nem dois anos e já o «papel de tornesol» tinha demonstrado a sua ineficácia, os osvobojdenistas apropriaram-se da palavra de ordem de sufrágio universal, mas nem por isso se aproximaram da social-democracia, antes pelo contrário tentaram, precisamente por meio desta palavra de ordem, enganar os operários e afastá-los do socialismo.

Agora os neo-iskristas impõem «condições» ainda mais «severas»: «exigem» dos inimigos do tsarismo «que apoiem de maneira enérgica e inequívoca (!?) todas as acções decididas do proletariado organizado», etc, e mesmo até «uma participação activa no auto-armamento do povo». A linha de demarcação foi levada muito mais além e, apesar disso, já está outra vez antiquada, demonstrou imediatamente ser inadequada. Porque é que, por exemplo, falta a palavra de ordem de república? Como é que, no interesse da «guerra revolucionária implacável contra todos os fundamentos do regime monárquico de estados sociais», os sociais-democratas «exigem» dos democratas burgueses tudo o que se queira menos a luta pela república?

Que esta questão não representa um mero desejo de criticar, que o erro dos neo-iskristas é da mais vital importância política, é demonstrado pela «União de Emancipação da Rússia» (ver Proletári, n.° 4)(29*). Estes «inimigos do tsarismo» responderão plenamente a todas as «exigências» dos neo-iskristas. E, entretanto, nós demonstrámos que o espírito osvobojdenista reina no programa (ou na falta de programa) desta «União de Emancipação da Rússia» e que os osvobojednistas podem levá-la a reboque com facilidade. Contudo a conferência declara, no final da resolução, que «a social-democracia continuará a opor-se, como sendo hipócritas amigos do povo, a todos os partidos políticos que, desfraldando a bandeira liberal e democrática, se negam a apoiar efectivamente a luta revolucionária do proletariado». A «União de Emancipação da Rússia» não só não nega como oferece empenhadamente este apoio. Será isto uma garantia de que os seus chefes não são «hipócritas amigos do povo» apesar de serem osvobojdenistas?

Como vedes, apresentando de antemão «condições» e colocando «exigências» cómicas pela sua temível impotência, os neo-iskristas colocam-se de imediato em situação ridícula. As suas condições e exigências revelam-se imediatamente insuficientes para apreciar a realidade viva. A sua corrida às fórmulas é sem esperança, uma vez que nenhuma fórmula é capaz de captar todas e cada uma das manifestações da hipocrisia, da inconsequência e da estreiteza da democracia burguesa. A questão não consiste no «papel de tornesol», nem em fórmulas, nem em exigências escritas e impressas, nem em traçar de antemão uma linha de demarcação entre os «amigos do povo» hipócritas e não hipócritas, mas na unidade real da luta, na crítica persistente, por parte dos sociais-democratas, de todo o passo «vacilante» da democracia burguesa. Para a «coesão autêntica de todas as forças sociais interessadas na reorganização democrática» não são necessários os «pontos» sobre os quais a conferência trabalhou com tanto empenho e tão inutilmente, mas capacidade de lançar palavras de ordem verdadeiramente revolucionárias. Para isto são necessárias palavras de ordem que elevem a burguesia revolucionária e republicana até ao nível do proletariado e que não rebaixem as tarefas do proletariado até ao nível da burguesia monárquica. Para isto é necessária a participação mais enérgica na insurreição, e não opor reservas verbalistas à tarefa inadiável da insurreição armada.

 

 

12.

Diminuirá a Amplitude da Revolução Democrática se a Burguesia se Afastar Dela?

 

 

Estavam já escritas as linhas precedentes quando recebemos as resoluções da conferência caucasiana dos neo-iskristas publicadas pelo Iskra. Pour la bonne bouche (como sobremesa), não poderíamos imaginar melhor material.

A redacção do Iskra observa com razão: «Na questão fundamental da táctica, a conferência caucasiana adoptou também uma decisão análoga (é verdade!) à tomada pela conferência de toda a Rússia» (isto é, neo-iskrista...). «A questão da atitude da social-democracia em relação ao governo provisório revolucionário foi resolvida pelos camaradas caucasianos no sentido da atitude mais negativa perante o novo método preconizado pelo grupo do Vperiod e pelos delegados ao chamado congresso que aderiram a este grupo.» «É preciso reconhecer como muito feliz a formulação que a conferência deu da táctica do partido proletário na revolução burguesa.»

O que é verdade, é verdade. Ninguém teria podido dar uma formulação mais «feliz» do erro capital dos neo-iskristas. Vamos citar esta formulação completa, destacando primeiramente entre parêntesis as flores e depois os frutos apresentados no final.

Resolução da conferência caucasiana dos neo-iskristas sobre o governo provisório:

«Considerando que a nossa tarefa consiste em utilizar o momento revolucionário para aprofundar» (sim, naturalmente! Só que deviam ter acrescentado: aprofundar à maneira martinovista!) «a consciência social-democrata do proletariado» (unicamente para aprofundar a consciência e não para conquistar a república? Que «profunda» compreensão da revolução!), «a conferência, com o fim de garantir para o partido a mais completa liberdade de crítica em relação ao regime estatal-burguês nascente» (garantir a república não é a nossa missão! A nossa missão é unicamente garantir a liberdade de crítica. As idéias anarquistas engendram a linguagem anarquista: o regime «estatal-burguês»!), «declara-se contra a formação de um governo provisório social-democrata e contra a entrada nele» (lembrai-vos da resolução dos bakuninistas citada por Engels e adoptada dez meses antes da revolução espanhola: ver Proletári n.° 3 [N255] «e considera que o mais racional é exercer uma pressão de fora» (de baixo e não de cima) «sobre o governo provisório burguês para a democratização possível (?!) do regime estatal. A conferência crê que a formação de um governo provisório pelos sociais-democratas, ou a sua entrada neste, teria por efeito, por um lado afastar do partido social-democrata as grandes massas do proletariado, desapontadas com ele, pois a social-democracia, apesar da tomada do poder, não poderia satisfazer as necessidades vitais da classe operária até que se realize o socialismo» (a república não é uma necessidade vital! Os autores não notam, na sua inocência, que falam uma linguagem puramente anarquista, como se rejeitassem a participação nas revoluções burguesas!) «e, por outro lado, obrigaria as classes burguesas a afastar-se da revolução, diminuindo desse modo a sua amplitude.»

Aqui é que está o busílis. É aqui que as idéias anarquistas se entrelaçam (como acontece também constantemente com os bernsteinianos da Europa ocidental) com o mais puro oportunismo. Imaginem só: não entrar no governo provisório porque isso obrigaria a burguesia a afastar-se da revolução, diminuindo desse modo a amplitude da revolução! Temos aqui diante de nós, por inteiro, na sua forma pura e consequente, essa filosofia neo-iskrista segundo a qual, uma vez que a revolução é burguesa, devemos inclinar-nos ante a vulgaridade burguesa e ceder-lhe o passo. Se nos deixássemos guiar, ainda que parcialmente, ainda que por um minuto, pela consideração de que a nossa participação pode obrigar a burguesia a afastar-se, cederíamos totalmente, em consequência disso, a hegemonia na revolução às classes burguesas. Entregaríamos assim inteiramente o proletariado à tutela da burguesia (reservando-nos a completa «liberdade de crítica»!!), obrigando o proletariado a ser moderado e dócil para que a burguesia não se afaste. Castramos as necessidades mais vitais do proletariado, precisamente as suas necessidades políticas, que nunca foram bem compreendidas pelos «economistas» e seus epígonos, castramo-las para que a burguesia não se afaste. Passamos totalmente do terreno da luta revolucionária pela realização da democracia nos limites necessários ao proletariado para o terreno da traficância com a burguesia, comprando, pela nossa traição aos princípios, pela nossa traição à revolução, o consentimento voluntário da burguesia («para que não se afaste»).

Em duas breves linhas, os neo-iskristas caucasianos souberam exprimir toda a essência da táctica de traição à revolução, de conversão do proletariado num miserável apêndice das classes burguesas. O que deduzimos mais atrás dos erros do neo-iskrismo como tendência ergue-se agora perante nós num princípio claro e definido: ficar na cauda da burguesia monárquica. Como a realização da república obrigaria (e obriga já — serve de exemplo o Sr. Struve) a burguesia a afastar-se, então abaixo a luta pela república. Como toda a reivindicação democrática enérgica do proletariado levada até ao fim obriga sempre e em todo o mundo a burguesia a afastar-se, então — escondei-vos nos buracos, camaradas operários, actuai apenas de fora, não penseis em utilizar para a revolução os instrumentos e meios do regime «estatal-burguês» e reservai-vos a «liberdade de crítica».

Aqui se manifesta a falsidade fundamental, na própria compreensão do termo «revolução burguesa». A sua «compreensão» martinoviana ou neo-iskrista conduz directamente à traição à causa do proletariado no interesse da burguesia.

Quem tenha esquecido o antigo «economismo», quem não o estude, não se recorde dele, dificilmente poderá compreender a reminiscência actual do «economismo». Recordai o Credo bernsteiniano. Das opiniões e dos programas «puramente proletários», essas pessoas deduziram: para nós, sociais-democratas, o económico, a verdadeira causa operária, a liberdade de criticar qualquer politiquice, o verdadeiro aprofundamento do trabalho social-democrata. Para eles, para os liberais, a política. Deus nos livre de cair no «revolucionarismo»: isto obrigaria a burguesia a afastar-se. Quem reler inteiramente o Credo ou o Suplemento separado ao n.° 9 do Rabótchaia Misl (Setembro de 1899), verá todo o curso deste raciocínio.

Agora ocorre o mesmo, mas em grande escala, aplicado à apreciação de toda a «grande» revolução russa, infelizmente envilecida e rebaixada de antemão até à caricatura pelos teóricos do filisteísmo ortodoxo!. Para nós, sociais-democratas, a liberdade de crítica, o aprofundamento da consciência, a acção de fora. Para eles, para as classes burguesas, a liberdade de acção, o campo livre para a sua direcção revolucionária (lede: liberal), a livre realização de «reformas» de cima.

Estes vulgarizadores do marxismo nunca meditaram nas palavras de Marx a respeito da substituição necessária da arma da crítica pela crítica das armas [N256]. Invocando em vão o nome de Marx, de facto elaboram resoluções tácticas absolutamente no espírito dos palradores burgueses de Frankfurt, que criticavam livremente o absolutismo, aprofundavam a consciência democrática e não compreendiam que o tempo da revolução é o tempo da acção, da acção tanto de cima como de baixo. Ao converter o marxismo em verbalismo, fizeram da ideologia da classe revolucionária mais avançada, decidida e enérgica uma ideologia dos sectores menos desenvolvidos desta, os quais se esquivam às difíceis tarefas democráticas revolucionárias e confiam estas tarefas democráticas aos senhores Struve.

Se, devido à entrada da social-democracia no governo revolucionário, as classes burguesas se afastarem da causa da revolução, desse modo «diminuirá a sua amplitude».

Ouvi, operários russos: a amplitude da revolução será maior se a fizerem, não assustados pelos sociais-democratas, os senhores Struve , que não querem a vitória sobre o tsarismo, mas um arranjo com ele. A amplitude da revolução será mais forte se, dos dois desenlaces possíveis apontados mais atrás por nós, se realizar o primeiro, isto é, se a burguesia monárquica chegar a um entendimento com a autocracia na base de uma constituição de tipo chipovista!

Os sociais-democratas que, em resoluções para a direcção de todo o partido, escrevem coisas tão vergonhosas ou aprovam estas «felizes» resoluções, estão a tal ponto obcecados por este verbalismo que retirou ao marxismo todo o espírito vivo, que não vêem como estas resoluções convertem em frases ocas todas as suas outras palavras excelentes. Tomai qualquer um dos seus artigos no Iskra, tomai mesmo a famosa brochura do nosso ilustre Martínov e neles encontrareis divagações sobre a insurreição popular, sobre levar a revolução até ao fim, sobre apoiar-se nas camadas populares mais baixas na luta contra a burguesia inconsequente. Mas todas estas excelentes coisas se convertem em frases miseráveis a partir do momento em que aceitais ou aprovais a ideia de que a amplitude da revolução «diminuirá» se a burguesia se separar dela. Das duas uma, senhores: ou devemos esforçar-nos por fazer a revolução com o povo e alcançar uma vitória completa sobre o tsarismo, apesar da burguesia inconsequente, egoísta e cobarde; ou não admitimos este «apesar», tememos que a burguesia «se afaste», e então traímos o proletariado e o povo a favor da burguesia, da inconsequente, egoísta e cobarde burguesia.

Que não vos venha à ideia interpretar mal as minhas palavras. Não griteis que vos acusamos de traição consciente. Não, vós sempre tivestes a tendência para deslizar para o pântano em que agora estais afundados com a mesma inconsciência com que os antigos «economistas» resvalavam irresistível e irremediavelmente pelo plano inclinado do «aprofundamento» do marxismo até às «subtilezas» anti-revolucionárias, sem alma e sem vida.

De que forças sociais reais depende a «amplitude da revolução»? Tereis pensado nisso, senhores? Deixemos de lado as forças da política externa, das combinações internacionais, que ganham agora uma forma muito vantajosa para nós, mas que omitimos no nosso exame, e omitimos com toda a razão, pois do que se trata é das forças internas da Rússia. Examinai estas forças sociais internas. Contra a revolução levanta-se a autocracia, a corte, a polícia, o funcionalismo, o exército e um punhado de grandes aristocratas. Quanto mais profunda é a indignação do povo, menos seguro se torna o exército, maior é a vacilação no funcionalismo. Por outro lado, a burguesia no seu conjunto está agora pela revolução e mostra o seu zelo com discursos sobre a liberdade, falando cada vez com maior frequência em nome do povo e mesmo em nome da revolução(30*). Mas todos nós, marxistas, sabemos pela teoria e observamos dia a dia e hora a hora no exemplo dos nossos liberais, dos nossos zemtsi e dos nossos osvobojdenistas que a burguesia está pela revolução de uma forma inconsequente, egoísta e cobarde. A burguesia na sua massa voltar-se-á inevitavelmente para o lado da contra-revolução, para o lado da autocracia contra a revolução, contra o povo, logo que sejam satisfeitos os seus interesses estreitos e egoístas, logo que «se afaste» do espírito democrático consequente (e já se está a afastar dele!). Fica o «povo», isto é, o proletariado e o campesinato: somente o proletariado é capaz de ir firmemente até ao fim, pois vai muito além da revolução democrática. Por isso o proletariado luta nas primeiras filas pela república e repele com desprezo os conselhos estúpidos e indignos dele dos que lhe dizem para ter em conta a possibilidade de afastar a burguesia. O campesinato inclui, ao lado dos elementos pequeno-burgueses, uma massa de elementos semiproletários. Isto fá-lo ser também instável, obrigando o proletariado a unir-se num partido rigorosamente de classe. Mas a instabilidade do campesinato é radicalmente diferente da instabilidade da burguesia, pois neste momento o campesinato está interessado não tanto na defesa incondicional da propriedade privada como na expropriação da terra dos latifundiários, que é uma das principais formas desta propriedade. Sem se converter por isso em socialista, nem deixar de ser pequeno-burguês, o campesinato é capaz de se tornar o mais perfeito e radical partidário da revolução democrática. O campesinato tornar-se-á inevitavelmente assim desde que o curso dos acontecimentos revolucionários, para ele esclarecedor, não se interrompa demasiado cedo pela traição da burguesia e pela derrota do proletariado. O campesinato tornar-se-á inevitavelmente, nestas condições, um baluarte da revolução e da república, já que só uma revolução plenamente vitoriosa pode dar ao campesinato tudo em matéria de reforma agrária, tudo o que o campesinato quer, o que sonha e de que necessita na realidade (não para a abolição do capitalismo, como imaginam os socialistas-revolucionários, mas) para sair da lama da semi-servidão, das trevas do embrutecimento e do servilismo, para melhorar as suas condições de vida na medida em que tal seja possível nos limites da economia mercantil.

Mais ainda. Não é só a transformação agrária radical que liga o campesinato à revolução, mas também todos os interesses gerais e permanentes do campesinato. Mesmo na luta contra o proletariado, o campesinato tem necessidade da democracia, pois apenas o regime democrático é capaz de expressar com exactidão os seus interesses e de lhe dar a preponderância, como massa, como maioria. Quanto mais instruído for o campesinato (e, desde a guerra com o Japão, ele instrui-se com uma rapidez que muitos não suspeitam sequer, habituados como estão a avaliar a instrução pela medida da escola), mais consequente e decididamente será pela revolução democrática completa, porque não tem medo, como a burguesia, do domínio do povo, antes o considera vantajoso. A república democrática converter-se-á no seu ideal logo que comece a libertar-se do seu monarquismo ingénuo, pois o monarquismo consciente da burguesia traficante (com uma Câmara Alta, etc.) significa para o campesinato a mesma ausência de direitos, o mesmo embrutecimento e ignorância, ligeiramente retocados com um verniz europeu-constitucional.

Eis porque a burguesia, como classe, tende a colocar-se natural e inevitavelmente sob a asa do partido liberal-monárquico, enquanto o campesinato, como massa, tende a colocar-se sob a direcção do partido revolucionário e republicano. Eis porque a burguesia não é capaz de levar a revolução democrática até ao fim, enquanto o campesinato é capaz de levar a revolução até ao fim, e nós devemos ajudá-lo nisto com todas as forças.

Objectar-me-ão: não é preciso demonstrar isso, isso é o á-bê-cê, isso todos os sociais-democratas compreendem perfeitamente. Não, não compreendem isto aqueles que são capazes de falar de «diminuição da amplitude» da revolução no caso de a burguesia se afastar dela. Essa gente repete palavras do nosso programa agrário aprendidas de cor, mas cujo sentido não compreende, pois de outro modo não teria medo da ideia de ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato, que decorre inevitavelmente de toda a concepção do mundo marxista e do nosso programa, de outro modo não limitaria a amplitude da grande revolução russa à amplitude da burguesia. Essa gente refuta concludentemente as suas frases revolucionárias marxistas abstractas com as suas resoluções anti-revolucionárias e antimarxistas concretas.

Quem compreender verdadeiramente o papel do campesinato na revolução russa vitoriosa será incapaz de dizer que a amplitude da revolução diminuirá se a burguesia se afastar. Porque na realidade a revolução russa não começará a adquirir a sua verdadeira amplitude, não começará a adquirir a maior amplitude revolucionária possível na época da revolução democránco-burguesa, enquanto a burguesia não se afastar e a massa do campesinato não intervier como força revolucionária activa ao lado do proletariado. Para ser levada consequentemente até ao fim, a nossa revolução democrática deve apoiar-se em forças capazes de paralisar a inevitável inconsequência da burguesia (isto é, capazes precisamente de «obrigá-la a afastar-se», que é o que temem, irreflectidamente, os partidários caucasianos do Iskra).

O proletariado deve levar até ao fim a revolução democrática, atraindo a si a massa do campesinato, a fim de esmagar pela força a resistência da autocracia e paralisar a instabilidade da burguesia. O proletariado deve levar a cabo a revolução socialista, atraindo a si a massa dos elementos semiproletários da população, a fim de quebrar pela força a resistência da burguesia e paralisar a instabilidade do campesinato e da pequena burguesia. Tais são as tarefas do proletariado, que os neo-iskristas concebem de modo tão estreito em todos os seus raciocínios e resoluções sobre a amplitude da revolução.

Não se deve esquecer só uma circunstância que frequentemente se perde de vista quando se discorre sobre esta «amplitude». Não se deve esquecer que não se trata aqui das dificuldades da tarefa, mas sim da via na qual é preciso procurar e encontrar a sua solução. Não se trata de que seja fácil ou difícil fazer com que a amplitude da revolução seja poderosa e invencível, mas do que se deve fazer para fortalecer esta amplitude. O desacordo refere-se precisamente ao carácter fundamental da actividade, da sua própria orientação. Sublinhamos isto porque pessoas desatentas e pouco escrupulosas confundem com demasiada frequência duas questões diferentes: a questão da via a seguir, isto é, da escolha de uma entre duas vias diferentes, e a questão da facilidade da realização do fim ou da proximidade da sua realização na via escolhida.

Não nos referimos em absoluto na exposição precedente a esta última questão, porque esta questão não suscitou desacordos e divergências no seio do partido. Mas, evidentemente, a questão é em si mesma extremamente importante e digna da maior atenção por parte de todos os sociais-democratas. Seria de um optimismo imperdoável esquecer as dificuldades ligadas à integração no movimento das massas não só da classe operária como também do campesinato. Precisamente nestas dificuldades fracassaram mais de uma vez os esforços para levar até ao fim a revolução democrática, triunfando sobretudo a burguesia inconsequente e egoísta, que tanto «retirou capital» da defesa monárquica contra o povo, como «conservou» a «virgindade» do liberalismo... ou do «osvobojdenismo». Mas dificuldade não é impossibilidade. O importante é a certeza de ter escolhido a via justa. E esta certeza centuplica a energia revolucionária e o entusiasmo revolucionário, capazes de realizar milagres.
O grau de profundidade da divergência entre os sociais-democratas actuais sobre a questão da escolha da via surge imediatamente com evidência quando se compara a resolução caucasiana dos neo-iskristas com a resolução do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia. A resolução do congresso diz: a burguesia é inconsequente, procurará inevitavelmente arrancar-nos as conquistas da revolução. Preparai-vos, portanto, mais energicamente para a luta, camaradas operários, armai-vos, atraí para o vosso lado o campesinato. Não cederemos sem luta as nossas conquistas revolucionárias à burguesia egoísta. A resolução dos neo-iskristas caucasianos diz: a burguesia é inconsequente, pode afastar-se da revolução. Portanto, camaradas operários, não penseis por favor em participar no governo provisório, pois então a burguesia afastar-se-á sem falta, e a amplitude da revolução será por isso diminuída!

Uns dizem: impulsionai a revolução para diante, até ao fim, apesar da resistência ou da passividade da burguesia inconsequente.

Os outros dizem: não penseis em levar a revolução até ao fim de maneira independente, porque então a burguesia inconsequente se afastará dela.

Não nos encontramos nós em presença de duas vias diametralmente opostas? Não é evidente que uma táctica exclui absolutamente a outra? Que a primeira táctica é a única táctica justa da social-democracia revolucionária, enquanto a segunda é no fundo uma táctica puramente osvobojdenista?

 


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Notas de Rodapé:

 

(29*) No n.° 4 do Proletâri, saído em 4 de junho de 1905, foi publicado um extenso artigo intitulado Nova União Operária Revolucionária. (Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5.a ed. em russo, t. 10, pp. 278-290. - N. Ed.) No artigo dá-se a conhecer o conteúdo dos apelos uesta União, que tomou o nome de «União de Emancipação da Rússia» e que se colocava como objectivo convocar, por meio da insurreição armada, a assembleia constituinte. Mais adiante, o artigo define a atitude da social-democracia cm relação a estas uniões sem partido. Ignoramos em absoluto em que medida tal união teve existência real e qual foi a sua sorte na revolução. (Nota de Lénine para a edição de 1907. - N. Ed.)

 

(30*) Neste sentido, é interessante a carta aberta do Sr. Struve a Jaurès, publicada por este há pouco no jornal l'Humanité [N 257] e pelo Sr. Struve na Osvobojdénie n.° 72.

 

 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N255] No n.° 3 do jornal Proletári foi publicado o artigo de V. I. Lénine Sobre o GovernoProvisório Revolucionário (artigo dois). Nele Lénine cita o artigo de F. Engels Os Bakuninistas em Acção. Notas sobre a Insurreição em Espanha no Verão de 1873, no qual se critica a resolução dos bakuninistas, mencionada por Lénine.

 

[N256] Alude-se à afirmação de Marx na sua obra Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel

 

[N257] L’Humanité (A Humanidade), jornal diário fundado em 1904 por J. Jaurès, como órgão do Partido Socialista Francês. Em 1905 o jornal saudou a revolução que se iniciara na Rússia. Nos anos da primeira guerra mundial (1914-1918) o jornal estava nas mãos da ala de extrema-díreita do Partido Socialista Francês e ocupava uma posição chauvinista. Em 1919 o jornal passou a ser dirigido pela eminente personalidade do movimento operário francês e internacional Marcel Cachin. Em 1918-1920 o jornal pronunciou-se contra a política imperialista do governo francês, que enviou tropas para lutarem contra o País dos Sovietes.
A partir de Dezembro de 1920, depois da cisão do Partido Socialista Francês em Tours e da formação do Partido Comunista Francês, o jornal passou a ser o órgão central deste.


 

13.

Conclusão. Ousaremos Nós Vencer?

 


As pessoas superficialmente informadas do estado de coisas na social-democracia da Rússia ou que o apreciam de fora, que desconhecem a história de toda a luta dentro do nosso partido desde o tempo do «economismo», tratam frequentemente também as divergências tácticas que se definiram agora, sobretudo depois do III congresso, com uma simples alusão a duas tendências naturais, inevitáveis, perfeitamente conciliáveis, em qualquer movimento social-democrata. Por um lado, dizem, a forte acentuação do trabalho corrente, quotidiano, habitual, a necessidade de desenvolver a propaganda e a agitação, de preparar as forças, de aprofundar o movimento, etc. Por outro lado a acentuação das tarefas de combate, políticas gerais, revolucionárias, do movimento, o apontar da necessidade da insurreição armada e o lançar das palavras de ordem: ditadura revolucionária democrática, governo provisório revolucionário. Nem um nem outro lado deve ser exagerado, nem aqui nem ali (como, em geral, em nenhuma parte do mundo) os extremos são úteis, etc, etc.

As verdades baratas da sabedoria da vida (e da «política» entre aspas) que indubitavelmente se encontram em semelhantes raciocínios encobrem entretanto com demasiada frequência a incompreensão das necessidades vitais, prementes, do partido. Tomai as actuais divergências tácticas entre os sociais-democratas russos. Naturalmente que o facto de se sublinhar fortemente o aspecto quotidiano, habitual, do trabalho que vemos nos raciocínios neo-iskristas sobre a táctica não poderia representar em si mesmo nenhum perigo e nenhuma divergência nas palavras de ordem tácticas. Mas basta comparar as resoluções do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia com as resoluções da conferência para que esta divergência salte aos olhos.

De que se trata? Trata-se, em primeiro lugar, de que não basta uma simples indicação geral, abstracta, das duas correntes no movimento e da nocividade dos extremos. É preciso saber concretamente de que sofre o movimento em questão no momento em questão, qual é agora o perigo político real para o partido. Em segundo lugar, é preciso saber ao moinho de que forças políticas reais levam água estas ou outras palavras de ordem tácticas — ou talvez a própria ausência destas ou doutras palavras de ordem. Ouvi os neo-iskristas e chegareis à conclusão de que o partido da social-democracia se encontra ameaçado pelo perigo de deitar pela borda fora a propaganda e a agitação, a luta económica e a crítica da democracia burguesa, de se deixar arrastar desmedidamente pela preparação militar, pelos ataques armados, pela tomada do poder, etc. Mas na verdade perigo real ameaça o partido de um lado completamente diferente. Aquele que conheça minimamente a situação do movimento, aquele que o acompanhe de modo atento e reflectido, não pode deixar de ver o lado ridículo dos temores dos neo-iskristas. Todo o trabalho do Partido Operáric Social-Democrata da Rússia já se adaptou a um quadro sólido e invariável, que garante incondicionalmente a concentração do centro de gravidade na propaganda e na agitação, nos comícios-relâmpago e nos comícios de massas, na difusão de panfletos e brochuras, na colaboração na luta económica e no apoio às suas palavras de ordem. Não há um só comité do partido, um só comité regional, uma só reunião central, um só grupo de fábrica, no qual noventa e nove por cento da atenção, forças tempo não sejam dedicados, sempre e constantemente, a todas estas funções, já estabelecidas desde a segunda metade dos anos noventa. Só não sabem isto as pessoas que não conhecem em absoluto o movimento. Só pessoas muito ingénuas ou mal informadas podem levar a sério repetição neo-iskrista de coisas há muito sabidas quando isto se faz com ar de importância.

O facto é que entre nós as pessoas não só não se deixam arrastar desmedidamente pelas tarefas da insurreição, pelas palavras de ordem políticas gerais, pela direcção de toda a revolução popular, antes, pelo contrário, o atraso precisamente neste sentido salta aos olhos, é o lado mais vulnerável, representa um perigo real para o movimento, o qual pode degenerar e está degenerando já aqui e ali de revolucionário de facto em revolucionário de palavra. Das muitas centenas de organizações, grupos e círculos que realizam o trabalho do partido, não encontrareis um único no qual não se tenha levado a cabo, desde o seu próprio aparecimento, esse trabalho quotidiano de que falam os sábios do novo Iskra, com o ar de quem descobriu novas verdades. Pelo contrário, encontrareis uma percentagem insignificante de grupos e círculos que tenham consciência das tarefas da insurreição armada, que tenham empreendido realização das mesmas, que se apercebam da necessidade de dirigir toda revolução popular contra o tsarismo, da necessidade de formular, para isso, exactamente estas e não outras palavras de ordem de vanguarda.

Atrasámo-nos incrivelmente em relação às tarefas de vanguarda efectivamente revolucionárias, não adquirimos ainda consciência das mesmas numa infinidade de casos, aqui e ali deixámos que a democracia burguesa revolucionária se fortalecesse devido ao nosso atraso neste aspecto. E os escritores do novo Iskra, voltando as costas à marcha dos acontecimentos e às exigências do momento, repetem obstinadamente; não esqueçais o que é velho! não vos deixeis arrastar pelo que é novo! É este o motivo fundamental e invariável de todas as resoluções fundamentais da conferência, enquanto nas resoluções do congresso podereis ler, também invariavelmente: ao mesmo tempo que confirmamos o que é velho (e sem nos determos a ruminá-lo, exactamente porque é velho, já decidido e consagrado na literatura, nas resoluções e na experiência), apresentamos uma nova tarefa, chamamos a atenção para ela, colocamos uma nova palavra de ordem, exigimos dos sociais-democratas realmente revolucionários um trabalho imediato para a levar à prática.

Eis como se coloca na realidade a questão das duas tendências na táctica da social-democracia. A época revolucionária colocou novas tarefas que só os que são completamente cegos não vêem. E estas tarefas aceitam-nas decididamente uns sociais-democratas e põem-nas na ordem do dia: a insurreição armada é inadiável, preparai-vos para ela, imediata energicamente, lembrai-vos de que é necessária para a vitória decisiva, apresentai as palavras de ordem de república, de governo provisório, de ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato. Os outros, contudo, recuam, marcam passo, em vez de dar palavras de ordem escrevem prólogos, em vez de indicarem o que é novo, paralelamente com a confirmação do que é velho, ruminam longa e fastidiosamente o que é velho, inventam pretextos para evitar o que é novo, são incapazes de definir as condições da vitória decisiva, são incapazes de apresentar as únicas palavras de ordem que correspondem à aspiração de conseguir a vitória completa.

É evidente o resultado político deste seguidismo. A fábula da aproximação da «maioria» do Partido Operário Social-Democrata da Rússia da democracia burguesa revolucionária continua a ser uma fábula, não confirmada por nem um só facto político, por nem uma só resolução importante dos «bolcheviques», nem por um só acto do III congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia. E entretanto, a burguesia oportunista, monárquica, personificada pela Osvobojdénie, saúda há muito tempo as tendências «de princípio» do neo-iskrismo e agora usa directamente a sua água para fazer mover o seu moinho, retoma todas as suas palavrinhas e «ideiazinhas» contra a «conspiração» e o «motim», contra os exageros do aspecto «técnico» da revolução, contra a apresentação directa da palavra de ordem de insurreição armada, contra o «revolucionarismo» das reivindicações extremas, etc, etc. A resolução de toda uma conferência de sociais-democratas «mencheviques» no Cáucaso e a aprovação desta resolução pela redacção do novo Iskra oferecem um resumo político inequívoco de tudo isso: o essencial é que a burguesia não se afaste em caso de participação do proletariado na ditadura revolucionária democrática! Com isto, tudo fica dito. Com isto, fica definitivamente consagrada a transformação do proletariado em apêndice da burguesia monárquica. Com isto, fica demonstrada na prática, não pela declaração casual de uma qualquer pessoa mas por uma resolução especialmente aprovada por toda uma tendência, a significação política do seguidismo neo-iskrista.

Quem reflectir sobre estes factos compreenderá a verdadeira significação das alusões correntes aos dois aspectos e às duas tendências do movimento social-democrata. Tomai o bernsteinianismo para estudar estas tendências em grande escala. Pois os bernsteinianos afirmavam e afirmam, exactamente da mesma maneira, que são precisamente eles que compreendem as verdadeiras necessidades do proletariado, as tarefas do crescimento das suas forças, do aprofundamento de todo o trabalho, da preparação dos elementos da nova sociedade, da propaganda e da agitação. Exigimos o reconhecimento aberto do que é! — diz Bernstein, consagrando com isso o «movimento» sem «objectivo final», consagrando apenas a táctica defensiva, pregando a táctica do medo de que «a burguesia se afaste». Também os bernsteinianos gritavam a propósito do «jacobinismo» dos sociais-democratas revolucionários, dos «literatos», que não compreendem a «iniciativa operária», etc. etc. Na realidade, como toda a gente sabe, os sociais-democratas revolucionários nunca pensaram sequer em abandonar o trabalho quotidiano e miúdo, a preparação de forças, etc, etc. A única coisa que exigiam era a consciência clara do objectivo final, a colocação clara das tarefas revolucionárias; queriam elevar as camadas semiproletárias e semipequeno-burguesas até ao nível revolucionário do proletariado e não rebaixar este último até às considerações oportunistas de que «a burguesia não se afaste». Talvez a expressão mais eloquente desta dissensão entre a ala intelectual-oportunista e a ala proletária-revolucionária do partido fosse a pergunta: dürfen wir siegen? «ousaremos nós vencer?» é-nos permitido vencer? não é perigoso vencer? devemos vencer? Por estranha que pareça à primeira vista, esta pergunta foi, todavia, formulada, e tinha de o ser, pois os oportunistas temiam a vitória, intimidavam o proletariado com ela, prognosticavam toda a espécie de calamidades como consequência dela, ridicularizavam as palavras de ordem que apelavam abertamente para ela.

Esta mesma divisão fundamental em tendência intelectual-oportunista e proletária-revolucionária existe também entre nós, apenas com a diferença, muito essencial, de que se trata não da revolução socialista mas da democrática. Entre nós foi também formulada a pergunta, absurda à primeira vista: «ousaremos nós vencer?» Esta pergunta foi formulada por Martínov no seu livro Duas Ditaduras, em que profetiza toda a espécie de calamidades no caso de nos prepararmos muito bem e levarmos a cabo a insurreição com pleno êxito. Foi também formulada por toda a literatura dos neo-iskristas consagrada à questão do governo provisório revolucionário, na qual tentaram constante e persistentemente, mas sem êxito, confundir a participação de Millerand no governo burguês-oportunista com a participação de Varlin no governo revolucionário pequeno-burguês. Ela foi consagrada pela resolução: «que a burguesia não se afaste». E conquanto Kaustky, por exemplo, tente agora fazer ironia, dizendo que as nossas discussões a respeito do governo provisório revolucionário se parecem com a partilha da pele do urso antes de o ter morto, esta ironia nada mais demonstra senão que mesmo sociais-democratas inteligentes e revolucionários dão passos em falso quando tratam de assuntos que só conhecem por ouvir dizer. A social-democracia alemã não se encontra ainda muito perto do momento em que possa matar o urso (realizar a revolução socialista), mas a discussão a respeito de sabermos se «ousamos» matá-lo teve uma imensa importância do ponto de vista de princípio e do ponto de vista político-prático. Os sociais-democratas russos não se encontram ainda muito perto de terem forças suficientes para matar «o seu urso» (realizar a revolução democrática), mas a questão de sabermos se «ousamos» matá-lo tem uma importância extremamente séria para todo o futuro da Rússia e para o futuro da social-democracia russa. Não se pode falar do recrutamento enérgico e com êxito de um exército e da sua direcção sem a certeza de que «ousamos» vencer.

Considerai os nossos velhos «economistas». Também eles gritavam que os seus adversários eram conspiradores, jacobinos (ver a Rabótcheie Dielo, sobretudo o n.° 10, e o discurso de Martínov nos debates do II congresso sobre o programa) que, absorvidos pela política, se separavam das massas, que eles esqueciam as bases do movimento operário, não tinham em conta a iniciativa operária, etc, etc. Mas na realidade estes partidários da «iniciativa operária» eram intelectuais oportunistas que impunham aos operários a sua concepção estreita e filistina das tarefas do proletariado. Na realidade, os adversários do «economismo», como todos podem ver pelo velho Iskra, não abandonavam nem relegavam para o último plano nem um só dos aspectos do trabalho social-democrata, não esqueciam no mínimo a luta económica, mas sabiam ao mesmo tempo colocar com toda a amplitude as tarefas políticas urgentes e imediatas opondo-se à transformação do partido operário num apêndice «económico» da burguesia liberal.

Os economistas tinham aprendido de cor que na base da política está a economia e «entendiam» isto como se fosse necessário rebaixar a luta política até à luta económica. Os neo-iskristas aprenderam de cor que a revolução democrática tem na sua base económica a revolução burguesa, e «entenderam» isto como se fosse necessário rebaixar as tarefas democráticas do proletariado até ao nível da moderação burguesa, até ao limite além do qual «a burguesia se afastará». Os «economistas», com o pretexto de aprofundarem o trabalho, com o pretexto da iniciativa operária e da política puramente de classe, na realidade entregavam a classe operária nas mãos dos políticos liberais-burgueses, isto é, conduziam o partido por uma via cuja significação objectiva era precisamente esta. Os neo-iskristas, com os mesmos pretextos, traem na realidade os interesses do proletariado na revolução democrática a favor da burguesia, isto é, conduzem o partido por uma via cuja significação objectiva é precisamente esta. Aos «economistas» parecia-lhes que a hegemonia na luta política não diz respeito aos sociais-democratas mas propriamente aos liberais. Aos neo-iskristas parece-lhes que a realização activa da revolução democrática não diz respeito aos sociais-democratas mas propriamente à burguesia democrática, uma vez que a direcção e a participação hegemónica do proletariado «diminuíam a amplitude» da revolução.

Numa palavra, os neo-iskristas são epígonos do «economismo», não só pela sua origem no II congresso do partido, como também pelo modo actuai de colocar as tarefas tácticas do proletariado na revolução democrática. São também uma ala intelectual-oportunista do partido. Na organização ela começou com o individualismo anarquista próprio dos intelectuais e terminou com a «desorganização-processo», consagrando nos «estatutos»[N258], aprovados pela conferência, o isolamento da literatura em relação à organização do partido, as eleições indirectas, quase em quatro graus, o sistema dos plebiscitos bonapartistas em vez da representação democrática e, finalmente, o princípio do «acordo» entre a parte e o todo. Na táctica do partido, resvalaram pelo mesmo plano inclinado. No «plano de campanha dos zemstvos»[N259], declararam como «tipo superior de manifestação» as acções perante os zemtsi, e não viam na cena política senão duas forças activas (isto nas vésperas do 9 de Janeiro!) — o governo e a democracia burguesa. «Aprofundaram» a tarefa urgente de se armar substituindo a palavra de ordem prática e directa por um apelo para se armar com o desejo ardente de se armar. As tarefas da insurreição armada, do governo provisório, da ditadura democrática revolucionária, foram agora deformadas e embotadas nas suas resoluções oficiais. «Que a burguesia não se afaste» — este acorde final da última das suas resoluções lança uma viva luz sobre a questão de onde a sua via conduz o partido.

A revolução democrática na Rússia é uma revolução burguesa pela sua essência social e económica. Contudo, não basta repetir simplesmente esta justa tese marxista. É preciso saber compreendê-la e saber aplicá-la às palavras de ordem políticas. Toda a liberdade política em geral é, na base das relações de produção actuais, isto é, capitalistas, liberdade burguesa. A reivindicação de liberdade exprime, em primeiro lugar, os interesses da burguesia. Os seus representantes foram os primeiros a apresentar esta reivindicação. Os seus partidários dispuseram por toda a parte como senhores da liberdade obtida, reduzindo-a a uma medida burguesa, moderada e bem arranjadinha, combinando-a com a repressão, mais refinada em tempo de paz e ferozmente cruel em tempo de tormenta, do proletariado revolucionário.

Mas só os populistas rebeldes, os anarquistas e os «economistas» podiam deduzir disto a negação ou o desprezo da luta pela liberdade. Estas doutrinas intelectual-filistinas só temporariamente puderam ser impostas ao proletariado, e apesar da sua resistência. O proletariado deu-se conta por instinto de que a liberdade política lhe é necessária, lhe é necessária mais do que a ninguém, apesar de ela reforçar e organizar directamente a burguesia. O proletariado não espera a sua salvação do afastamento da luta de classes, mas do seu desenvolvimento, do aumento da sua amplitude, da sua consciência, da sua organização, da sua decisão. Quem menospreze as tarefas da luta política converte o social-democrata de tribuno popular em secretário de trade-union. Quem menospreze as tarefas proletárias na revolução democrática burguesa converte o social-democrata de chefe da revolução popular em dirigente de um sindicato operário livre.

Sim, da revolução popular. A social-democracia lutou e luta, com pleno direito, contra o abuso democrático-burguês da palavra povo. Exige que com esta palavra nao se encubra a incompreensão dos antagonismos de classe no seio do povo. Insiste categoricamente na necessidade de uma completa independência de classe do partido do proletariado. Mas divide o «povo» em «classes» não para que a classe avançada se encerre em si mesma, se confine em limites estreitos, castre a sua actividade com considerações como a de que não se afastem os donos económicos do mundo, mas para que a classe avançada, não sofrendo das vacilações, da inconsistência, da indecisão das classes intermédias, lute com tanto maior energia, com tanto maior entusiasmo pela causa de todo o povo, à frente de todo o povo.

Eis o que frequentemente não compreendem os neo-iskristas actuais que substituem a apresentação de palavras de ordem políticas activas na revolução democrática pela repetição verbalista das palavras «de classe» em todos os géneros e casos!

A revolução democrática é burguesa. A palavra de ordem de partilha negra ou de terra e liberdade — esta palavra de ordem difundidíssíma das massas camponesas ignorantes e oprimidas, mas que buscam apaixonadamente a luz e a felicidade — é burguesa. Mas nós, marxistas, devemos saber que não há e não pode haver outra via para a verdadeira liberdade do proletariado e do campesinato senão a via da liberdade burguesa e do progresso burguês. Não devemos esquecer que, actualmente, não há nem pode haver outro meio capaz de aproximar o socialismo senão a completa liberdade política, a república democrática, a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato. Como representantes da classe avançada, a única que é revolucionária sem reservas, sem dúvidas, sem olhar para trás, devemos colocar perante todo o povo, do modo mais amplo, mais audaz e com a maior iniciativa possível, as tarefas da revolução democrática. O menosprezo destas tarefas é no plano teórico uma caricatura do marxismo e uma adulteração filístina do mesmo e no plano político-prático significa entregar a causa da revolução nas mãos da burguesia, que inevitavelmente se afastará da realização consequente da revolução. As dificuldades que se erguem no caminho para a vitória completa da revolução são muito grandes. Ninguém poderá condenar os representantes do proletariado se fizerem tudo o que lhes é possível e se todos os seus esforços se quebrarem perante a resistência da reacção, a traição da burguesia e a ignorância das massas. Mas todos e cada um — e sobretudo o proletariado consciente — condenarão a social-democracia se esta cercear a energia revolucionária da revolução democrática, se cercear o entusiasmo revolucionário por medo de vencer, por considerar que a burguesia se pode afastar.

As revoluções são as locomotivas da história, dizia Marx[N260]. As revoluções são a festa dos oprimidos e explorados. Nunca a massa do povo é capaz de ser um criador tão activo do novo regime social como em tempo de revolução. Em tais períodos o povo é capaz de fazer milagres, do ponto de vista da medida estreita e pequeno-burguesa do progresso gradual. Mas em tais períodos é necessário que também os dirigentes dos partidos revolucionários apresentem as suas tarefas de um modo mais amplo e audaz, que as suas palavras de ordem vão sempre à frente da iniciativa revolucionária das massas, servindo de farol para elas, mostrando em toda a sua grandeza, em toda a sua beleza, o nosso ideal democrático e socialista, mostrando a via mais curta e mais directa para a vitória completa, incondicional e decisiva. Deixemos aos oportunistas da burguesia «osvobojdenista» a invenção, por medo da revolução e por medo da via directa, de vias indirectas, de rodeio, de compromisso. Se formos obrigados pela força a arrastarmo-nos por tais vias, saberemos cumprir o nosso dever mesmo no pequeno trabalho quotidiano. Mas que seja a luta implacável a decidir antes da escolha da via. Seremos traidores e renegados da revolução se não aproveitarmos esta energia festiva das massas e o seu entusiasmo revolucionário para a luta implacável e abnegada pela via directa e decisiva. Deixemos os oportunistas da burguesia pensar cobardemente na reacção futura. Aos operários não os assusta a idéia de que a reacção está disposta a ser terrível, nem que a burguesia está disposta a afastar-se da revolução. Os operários não esperam transacções, não pedem esmolas, aspiram a esmagar implacavelmente as forças reaccionárias, isto é, à ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato.

Nem é preciso dizer que nos períodos tempestuosos a barca do nosso partido se vê ameaçada por maiores perigos do que durante a «navegação» tranquila do progresso liberal, que significa o espremer doloroso e lento do sumo da classe operária pelos seus exploradores. Nem é preciso dizer que as tarefas da ditadura revolucionária democrática são mil vezes mais difíceis e complexas do que as tarefas da «oposição extrema» e as da luta apenas parlamentar. Mas quem, no momento revolucionário actual, for capaz de preferir conscientemente a navegação tranquila e a via da «oposição» sem perigos, é melhor que se afaste temporariamente do trabalho social-democrata, é melhor que espere o fim da revolução, que a festa termine e se volte ao trabalho quotidiano, e que a sua medida estreita e quotidiana não seja então uma dissonância tão repugnante e uma deformação tão monstruosa das tarefas da classe avançada.

A cabeça de todo o povo e em particular do campesinato — pela liberdade total, pela revolução democrática consequente, pela república! A cabeça de todos os trabalhadores e explorados — pelo socialismo! Tal deve ser na prática a política do proletariado revolucionário, tal é a palavra de ordem de classe que deve penetrar e determinar a solução de todas as questões tácticas, de todos os passos práticos do partido operário durante a revolução.

 


 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N258] Trata-se dos estatutos de organização aprovados pela conferência dos mencheviques em Genebra, em 1905.

 

[N259] Trata-se do plano dos mencheviques de apoiar a «campanha dos zemstvos», conduzida pelos liberais burgueses do Outono de 1904 a Janeiro de 1905. Esta campanha era realizada sob a forma de congressos, assembleias e banquetes, durante os quais se pronunciavam discursos e se aprovavam resoluções no espírito das reivindicações constitucionais moderadas. Lénine submeteu a uma crítica enérgica a posição dos mencheviques em relação à «campanha dos zemstvos» no artigo A Campanha dos Zemstvos e o Plano do «Iskra».

 

[N260] Ver K. Marx, As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850.


 

 

 

Posfácio.

Mais Uma Vez o Osvobojdenismo, Mais Uma Vez o Neo-Iskrismo

 


Os números 71-72 da Osvobojdénie e 102-103 do Iskra oferecem-nos um novo material, extraordinariamente rico, sobre a questão a que dedicámos o § 8 da nossa brochura. Não tendo possibilidade alguma de utilizar aqui todo este rico material, deter-nos-emos apenas no principal: em primeiro lugar, que tipo de «realismo» da social-democracia elogia a Osvobojdénie e porque deve elogiá-lo; em segundo lugar, a relação entre os conceitos: revolução e ditadura.

 

 

I.

Porque é Que os Realistas Liberal-Burgueses Elogiam os «Realistas» Sociais-Democratas?

 

 

Os artigos A Cisão na Social-Democracia Russa e O Triunfo do Bom Senso (Osvobojdénie, n.° 72) são um juízo de representantes da burguesia liberal sobre a social-democracia extraordinariamente valioso para os proletários conscientes. Nunca será de mais recomendar a cada social-democrata conhecer estes artigos na sua totalidade e meditar sobre cada uma das suas frases. Reproduziremos, antes de mais, as principais posições de ambos os artigos:

«Para quem observa de fora - diz a Osvobojdénie - é bastante difícil apreender o sentido político real da divergência que dividiu o partido social-democrata em duas fracções. Qualificar a fracção da 'maioria' como mais radical e intransigente, ao contrário da 'minoria', que admite, no interesse da causa, alguns compromissos, não é totalmente exacto, e, de qualquer forma, não representa uma caracterização exaustiva. Pelo menos os dogmas tradicionais da ortodoxia marxista são observados talvez com maior zelo pela fracção da minoria do que pela fracção de Lénine. Parece-nos que é mais precisa a seguinte caracterização. O estado de espírito político fundamental da «maioria» é um revolucionarísmo abstracto, um revoltismo, o afã de provocar por todos os meios a insurreição na massa popular e em seu nome tomar o poder imediatamente; isto, até certo grau, aproxima os 'leninistas' dos socialistas-revolucíonários e encobre na sua consciência a idéia da luta de classes com a ideia de uma revolução russa de todo o povo; negando na prática muitas das estreitezas da doutrina social-democrata, os 'íeninistas', por outro lado, estão profundamente imbuídos da estreiteza do revolucionarismo, renunciam a qualquer trabalho prático que não seja a preparação da insurreição imediata, ignoram por princípio todas as formas de agitação legal e semilegal e todo o tipo de compromissos práticos e úteis com outras tendências oposícionistas. Pelo contrário, a minoria, fortemente aferrada aos dogmas do marxismo, conserva ao mesmo tempo os elementos realistas da concepção marxista do mundo. A ideia fundamental desta fracção é a contraposição dos interesses do 'proletariado' aos interesses da burguesia. Mas, por outro lado, a luta do proletariado é concebida — naturalmente dentro de certos limites, ditados pelos dogmas imutáveis da social-democracia — de maneira sensata e realista, com uma consciência clara de todas as condições e tarefas concretas desta luta. Ambas as fracções aplicam o seu ponto de vista fundamentai de modo não totalmente consequente, pois estão ligadas no seu trabalho criador ideológico-político às fórmulas rigorosas do catecismo social-democrata, que impedem os 'leninistas' de se converterem em rebeldes intransigentes, à maneira, pelo menos, de alguns socialistas-revolucíonários, e os 'ískristas' de se converterem em dirigentes práticos do movimento político real da classe operária.»

E expondo mais adiante o conteúdo das principais resoluções, o escritor da Osvobojdénie esclarece os seus «pensamentos" gerais com algumas observações concretas em relação a elas. Em comparação com o III congresso, diz ele:

«a conferência da minoria observa uma atitude completamente diferente em relação à insurreição armada». «Relacionada com a atitude para com a insurreição armada» surge a diferença das resoluções sobre o governo provisório. «A mesma divergência se manifesta na atitude em relação aos sindicatos operários. Os 'leninistas' não disseram nas suas resoluções nem uma palavra sobre este importantíssimo ponto de partida da educação política e da organização da classe operária. A minoria, pelo contrário, elaborou uma resolução muito séria.» Quanto à atitude face aos liberais, ambas as fracções, diz ele, coincidem, mas o III congresso "repete quase palavra por palavra a resolução de Plekhánov sobre a atitude face aos liberais, adoptada no II congresso, e rejeita a resolução de Starover, mais favorável aos liberais, adoptada no mesmo congresso». Sendo em geral coincidentes as resoluções do congresso e da conferência sobre o movimento camponês, «a 'maioria' sublinha mais a ideia da confiscação revolucionária das terras dos latifundiários e outras, enquanto a 'minoria* quer fazer da reivindicação de reformas democráticas estatais e administrativas a base da sua agitação».

Finalmente, a Osvobojdénie cita do n.° 100 do Iskra uma resolução menchevique cujo ponto principal diz:

«Visto que actualmente o trabalho clandestino por si só não assegura à massa a sua participação suficiente na vida do partido e em parte leva a opor a massa, como tal, ao partido, como organização ilegal, este último precisa de tomar nas suas mãos a direcção da luta sindical dos operários no terreno legal, coordenando estritamente esta luta com as tarefas sociais-democratas.»

A respeito desta resolução, a Osvobojdénie exclama:

«Saudamos calorosamente esta resolução como o triunfo do bom senso, como expressão de lucidez táctica de uma certa parte do partido social-democrata.»

Agora tem o leitor diante de si todas as apreciações fundamentais da Osvobojdénie. Seria o maior dos erros, naturalmente, considerar acertadas estas apreciações no sentido da sua concordância com a verdade objectiva. Todo o social-democrata descobrirá facilmente netas erros a cada passo. Seria ingenuidade esquecer que todas estas apreciações estão profundamente penetradas pelos interesses e pelo ponto de vista da burguesia liberal e que neste sentido são extremamente parciais e tendenciosas. Reflectem as ideias da social-democracia tal como um espelho côncavo ou convexo reflecte os objectos. Mas seria um erro ainda maior esquecer que estas apreciações deformadas à maneira da burguesia reflectem, no fim de contas, os interesses reais da burguesia, que, como classe, compreende acertadamente sem dúvida nenhuma quais as tendências dentro da social-democracia que lhe são, à burguesia, vantajosas, próximas, afins, simpáticas, e quais lhe são prejudiciais, alheias, estranhas, antipáticas. Um filósofo burguês ou um publicista burguês nunca compreenderá correctamente a social-democracia, nem a social-democracia menchevique nem a bolchevique. Mas se for um publicista minimamente inteligente, o seu instinto de classe não o enganará e captará sempre no fundo com justeza a significação que para a burguesia tenha esta ou aquela tendência dentro da social-democracia, ainda que a deforme ao expô-la. O instinto de classe do nosso inimigo, a sua apreciação de classe, merecem sempre, por isso, a mais séria atenção de todo o proletariado consciente.

Que nos diz pois, pela boca dos osvobojdenistas, o instinto de classe da burguesia da Rússia?

Exprime de uma maneira perfeitamente precisa a sua satisfação com as tendências do neo-iskrismo, elogiando-o pelo seu realismo, pela sua sensatez, pelo triunfo do bom senso, pela seriedade das resoluções, pela sua clara visão táctica, pelo seu espírito prático, etc, e exprime o seu descontentamento pelas tendências do III congresso, censurando-o pela sua estreiteza, o seu revolucionarismo, o seu revoltismo, a sua recusa dos compromissos úteis do ponto de vista prático, etc. O instinto de classe da burguesia sugere-lhe exactamente o que foi repetidamente demonstrado na nossa literatura com os dados mais exactos, a saber: que os neo-iskristas são a ala oportunista na actual social-democracia russa e os seus adversários a ala revolucionária. Os liberais não podem deixar de ter simpatia pelas tendências da primeira, não podem deixar de censurar as tendências da segunda. Os liberais, como ideólogos da burguesia, compreendem perfeitamente que são vantajosos para a burguesia «o espíritt prático, a sensatez, a seriedade» da classe operária, isto é, a limitação de facto do seu campo de actividade no quadro do capitalismo, das reformas, da luta sindical, etc. Para a burguesia é perigosa e temível estreiteza revolucionarista» do proletariado e a sua aspiração a conseguir, em nome das suas tarefas de classe, o papel dirigente na revolução russa de todo o povo.

Que este é efectivamente o sentido da palavra «realismo» na interpretação da Osvobojdénie, é o que se pode ver entre outras coisas no emprego que dela fizeram anteriormente a Osvobojdénie e o Sr. Struve . O próprio Iskra não pôde deixar de reconhecer que o «realismo» nos osvobojdenistas tinha esta significação. Recordai-vos, por exemplo, do artigo intitulado Já É Tempo!, publicado no suplemento aos n.º 73-74 do Iskra. O autor do artigo (representante consequente das concepções do «pântano» no II congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia) expressou francamente a sua opinião de que «Akímov desempenhou no congresso mais o papel de espectro do oportunismo do que o de seu verdadeiro representante». E a redacção do Iskra viu-se imediatamente obrigada a rectificar o autor do artigo Já É Tempo!, declarando numa nota:

«Não se pode estar de acordo com esta opinião. Os pontos de vista programáticos do camarada Akímov estão claramente marcados com o selo do oportunismo, coisa que também reconhece o crítico da Osvobojdénie num dos seus últimos números, assinalando que o camarada Akímov pertence à tendência 'realista' - ler: revisionista."

Assim, o próprio Iskra sabe perfeitamente que o «realismo» osvobojdenista é simplesmente oportunismo e nada mais. Se agora, ao atacar o «realismo liberal» (n.° 102 do Iskra), o Iskra silencia que os liberais o elogiaram pelo seu realismo, este silêncio explica-se pelo facto de que tais elogios são mais amargos do que qualquer censura. Tais elogios (que da parte da Osvobojdénie não são casuais nem feitos pela primeira vez) demonstram de facto o parentesco do realismo liberal e destas tendências do «realismo» (ler: oportunismo) social-democrata que transparecem em cada resolução dos neo-iskristas devido à falsidade de toda a sua posição táctica.

Com efeito, a burguesia da Rússia manifestou já plenamente a sua inconsequência e o seu egoísmo na revolução «de todo o povo», manifestou-os tanto pelas reflexões do Sr. Struve como por todo o tom e pelo conteúdo de toda uma massa de jornais liberais, pelo carácter das intervenções políticas de uma multidão de zemtsi, de uma multidão de intelectuais, em geral de todos os partidários dos Srs. Trubetskói, Petrunkévitch, Róditchev e C.a. A burguesia, evidentemente, nem sempre compreende claramente, mas em geral apercebe-se perfeitamente por intuição de classe de que, por um lado, o proletariado e o «povo» são úteis para a sua revolução como carne de canhão, como aríete contra a autocracia, mas que, por outro lado, o proletariado e o campesinato revolucionário são terrivelmente perigosos para ela no caso de alcançarem «a vitória decisiva sobre o tsarismo» e levarem até ao fim a revolução democrática. Por isso, a burguesia procura por todos os meios que o proletariado se conforme em desempenhar um papel «modesto» na revolução, que seja mais sensato, mais prático, mais realista, que a sua actividade seja determinada pelo princípio: «que a burguesia não se afaste».

Os burgueses cultos sabem perfeitamente que não poderão desembaraçar-se do movimento operário. Por isso não se pronunciam de modo algum contra o movimento operário, contra a luta de classe do proletariado — não, fazem mesmo toda a espécie de reverências perante a liberdade de greve, a luta de classes civilizada, compreendendo o movimento operário e a luta de classes à maneira de Brentano ou de Hirsch-Duncker. Por outras palavras, estão inteiramente dispostos a «conceder» aos operários a liberdade de greve e de associação (de facto já quase conquistada pelos próprios operários), desde que os operários renunciem ao «revoltismo», ao «revolucionarismo estreito», à hostilidade aos «compromissos úteis do ponto de vista prático», à pretensão e ao desejo de imprimir «à revolução russa de todo o povo» o selo da sua luta de classe, o selo da consequência proletária, da decisão proletária, do «jacobinismo plebeu». Os burgueses cultos de toda a Rússia procuram com todas as forças, por mil meios e caminhos — livros(31*), conferências, discursos, palestras, etc, etc — inculcar nos operários as ideias da sobriedade (burguesa), do espírito prático (liberal), do realismo (oportunista), da luta de classes (à maneira de Brentano), dos sindicatos (à maneira de Hirsch-Duncker), etc. As duas últimas paíavras de ordem são particularmente cómodas para os burgueses do partido «democrata-constitucionalista» ou «da libertação», uma vez que na aparência coincidem com as marxistas, uma vez que, com algumas pequenas omissões e ligeiras deturpações, é muito fácil confundi-las com as sociais-democratas e às vezes até fazê-las passar por sociais-democratas. Assim, por exemplo, o jornal legal liberal Rassvet (sobre o qual tentaremos um dia falar com mais pormenor com os leitores do Proletári) diz frequentemente coisas tão «audaciosas» sobre a luta de classes, sobre a possibilidade de que a burguesia engane o proletariado, sobre o movimento operário, sobre a iniciativa do proletariado, etc, etc, que o leitor pouco atento e o operário pouco esclarecido tomarão facilmente o seu «espírito social-democrata» como moeda verdadeira. Mas de facto isto é uma falsificação burguesa do espírito social-democrata, uma deturpação e uma deformação oportunista do conceito da luta de classes.

No fundo desta gigantesca falsificação burguesa (gigantesca pela amplitude da sua influência sobre as massas) encontra-se a tendência para reduzir o movimento operário principalmente a um movimento sindical, a mantê-lo afastado de uma política independente (isto é, revolucionária e orientada para a ditadura democrática), a «encobrir na consciência dos operários a ideia da revolução russa de todo o povo com a ideia da luta de classes».

Como o leitor vê, pusemos de pernas para o ar a formulação da Osvobojdénie. É uma excelente formulação, que exprime perfeitamente duas opiniões sobre o papel do proletariado na revolução democrática, a opinião burguesa e a opinião social-democrata. A burguesia quer reduzir o proletariado unicamente ao movimento sindical e desta maneira «encobrir na sua consciência a ideia da revolução russa de todo o povo com a idéia da luta de classes» (à maneira de Brentano), exactamente como os autores bernsteinianos do Credo encobriam na consciência dos operários a idéia da luta política com a ideia do movimento «puramente operário». A social-democracia quer, pelo contrário, desenvolver a luta de classe do proletariado até à sua participação dirigente na revolução russa de todo o povo, isto é, conduzir esta revolução até à ditadura democrática do proletariado e do campesinato.

A revolução no nosso país é de todo o povo, diz a burguesia ao proletariado. Por isso tu, como classe particular, deves limitar-te à tua luta de classe, deves, em nome do «bom senso», dirigir a tua atenção principal para os sindicatos e para a sua legalização, deves considerar precisamente estes sindicatos «como o ponto de partida mais importante para a tua educação política e para a tua organização», deves elaborar nos momentos revolucionários principalmente resoluções sérias, semelhantes à dos neo-ískristas, deves tratar com solicitude as resoluções «mais favoráveis aos liberais», deves preferir os dirigentes que têm tendência para se converterem em «dirigentes práticos do movimento político real da classe operária», deves conservar «os elementos realistas da concepção marxista do mundo» (se lamentavelmente já tiveres sido contagiado pelas «fórmulas rigorosas» deste catecismo «não científico»).

A revolução no nosso país é de todo o povo, diz a social-democracia ao proletariado. Por isso tu deves, como a classe mais avançada e a única revolucionária até ao fim, esforçar-te não só por participar nela da maneira mais enérgica, mas também por desempenhar nela um papel dirigente. Por isso tu não deves encerrar-te no quadro concebido estreitamente da luta de classe, sobretudo no sentido do movimento sindical, mas, pelo contrário, deves esforçar-te por ampliar este quadro e o conteúdo da tua luta de classe até abarcar neste quadro não só todas as tarefas da actual revolução democrática russa de todo o povo mas também as tarefas da futura revolução socialista. Por isso, sem ignorar o movimento sindical, sem renunciar a aproveitar a mais pequena margem de legalidade, tu deves na época da revolução trazer para primeiro plano as tarefas da insurreição armada, da criação de um exército revolucionário e de um governo revolucionário, como únicas vias para a vitória completa do povo sobre o tsarismo, para a conquista da república democrática e da verdadeira liberdade política.

Seria supérfluo dizer que atitude equívoca, inconsequente e, naturalmente, simpática à burguesia adoptaram nesta questão as resoluções neo-iskristas, devido à sua «linha» errada.

 

 

II.

Novo «Aprofundamento» da Questão pelo Camarada Mariínov

 

 

Passemos aos artigos de Martínov nos n.° 102 e 103 do Iskra. É evidente que não responderemos às tentativas de Martínov para demonstrar a falsidade da nossa interpretação de uma série de citações de Engels e Marx e a justeza da sua. Estas tentativas são tão pouco sérias, os subterfúgios de Martínov são tão evidentes, a questão é tão clara que não teria nenhum interesse determo-nos nelas mais uma vez. Qualquer leitor que pense discernirá facilmente os ardis ingénuos de Martínov na sua retirada em toda a linha, sobretudo quando forem publicadas as traduções completas das brochuras Os Bakuninistas em Acção, de Engels, e Mensagem da Direcção da Liga dos Comunistas, de Marx, de Março de 1850[N261], preparadas por um grupo de colaboradores do Proletári. Bastará uma só citação do artigo de Martínov para que o leitor veja claramente a sua retirada.

O Iskra «reconhece» — diz Martínov no n.° 103 — «a formação de um governo provisório como uma das vias possíveis e convenientes de desenvolvimento da revolução e nega a conveniência da participação dos sociais-democratas num governo provisório burguês, precisamente no interesse da conquista total no futuro da máquina do Estado para a revolução socialista». Por outras palavras: o Iskra reconheceu agora como eram absurdos todos os temores de que o governo revolucionário tivesse de assumir a responsabilidade pelo tesouro e pelos bancos, de que fosse perigoso e impossível tomar nas suas mãos as «prisões», etc. O Iskra apenas continua como antes a confundir-se, misturando a ditadura democrática e a socialista. A confusão é inevitável para cobrir a retirada.

Mas entre os confusionistas do novo Iskra, Martínov destaca-se como um confusionista de primeira classe, como um confusionista de talento, permita-se a expressão. Confundindo a questão nos seus esforços para a «aprofundar», «inventa» quase sempre novas formulações que revelam magnificamente toda a falsidade da posição por ele ocupada. Recordai-vos de como na época do «economismo» ele «aprofundava» Plekhánov e criou inspiradamente a fórmula «luta económica contra os patrões e o governo». Seria difícil encontrar em toda a literatura dos «economistas» uma expressão mais feliz de toda a falsidade desta tendência. Agora passa-se o mesmo. Martínov serve zelosamente o novo Iskra e quase sempre que toma a palavra fornece-nos novo e excelente material para a apreciação da falsa posição neo-iskrista. No n.° 102 diz que Lénine «substituiu de maneira imperceptível o conceito de revolução pelo de ditadura» (p. 3, col. 2).

A esta acusação se reduzem em essência todas as acusações dos neo-iskristas contra nós. E como estamos agradecidos a Martínov por esta acusação! Que inapreciável serviço nos presta na luta contra o neo-iskrismo formulando a sua acusação desta maneira! Decididamente, teremos de pedir à redacção do Iskra que lance mais frequentemente Martínov contra nós, encarregando-o do «aprofundamento» dos ataques ao Proletári e da sua formulação «realmente de princípios». Porque quanto mais Martínov se esforça por fundamentar os seus argumentos nos princípios, tanto pior o faz e tanto mais nitidamente demonstra as falhas do neo-iskrismo, com tanto mais êxito realiza, sobre si mesmo e sobre os seus amigos, a útil operação pedagógica de reductio ad absurdum (de redução ao absurdo dos princípios do novo Iskra).

O Vperiod e o Proletári «substituem» o conceito de revolução pelo de ditadura. O Iskra não quer tal «substituição». Precisamente isso, venerável camarada Martínov! Você disse sem querer uma grande verdade. Confirmou, por meio de uma nova formulação, a nossa afirmação de que o Iskra vai na cauda da revolução, se desvia para uma formulação osvobojdenista das suas tarefas, enquanto o Vperiod e o Proletári dão palavras de ordem que conduzem para a frente a revolução democrática.

Não compreende isto, camarada Martínov? Tendo em vista a importância da questão, tentaremos dar-lhe uma explicação pormenorizada.

O carácter burguês da revolução democrática exprime-se, entre outras coisas, no facto de que toda uma série de classes, grupos e camadas sociais, que se colocam completamente no terreno do reconhecimento da propriedade privada e da economia mercantil, e que são incapazes de sair destes limites, chegam, pela força das coisas, a reconhecer a inutilidade da autocracia e de todo o regime de servidão em geral, e aderem à reivindicação da liberdade. Nisso o carácter burguês desta liberdade, reivindicada pela «sociedade», defendida com uma torrente de palavras (e só de palavras!) pelos latifundiários e pelos capitalistas, aparece cada vez mais claro. Juntamente com isto, torna-se também cada vez mais evidente a diferença radical entre a luta dos operários e a da burguesia pela liberdade, entre o espírito democrático proletário e o liberal. A classe operária e os seus representantes conscientes vão para a frente e impulsionam para a frente esta luta, não só sem receio de a levar até ao fim, como também esforçando-se por ir muito para além dos últimos limites da revolução democrática. A burguesia é inconsequente e egoísta, só parcial e hipocritamente aceita as palavras de ordem de liberdade. Todas as tentativas para determinar com uma linha particular, com «pontos» elaborados particularmente (como os pontos da resolução de Starover ou da dos conferencistas), os limites para além dos quais começa esta hipocrisia dos amigos burgueses da liberdade, ou, se quisermos, esta traição à liberdade pelos seus amigos burgueses, estão infalivelmente condenadas ao fracasso, uma vez que a burguesia, colocada entre dois fogos (a autocracia e o proletariado), é capaz, por mil caminhos e meios, de mudar a sua posição e palavras de ordem, adaptando-se um palmo para a esquerda e um palmo para a direita, traficando e regateando constantemente. A tarefa da democracia proletária consiste não na invenção destes «pontos» mortos, mas numa crítica incansável da situação política em desenvolvimento, no desmascaramento das sempre novas e imprevisíveis inconsequências e traições da burguesia.

Recordai a história das intervenções políticas do Sr. Struve na literatura ilegal, a história da guerra da social-democracia contra ele, e vereis com toda a evidência como a social-democracia, campeã da democracia proletária, cumpria estas tarefas. O Sr. Struve começou com a palavra de ordem puramente chipovista de «direitos e um zemstvo com poder» (ver na Zariá o meu artigo Os Perseguidores do Zemstvo e os Aníbais do Liberalismo(32*)). A social-democracia desmascarava-o e empurrava-o para um programa nitidamente constitucionaíista. Quando estes «empurrões» surtiram efeito, graças à marcha particularmente rápida dos acontecimentos revolucionários, a luta orientou-se para a questão seguinte da democracia: não só uma constituição em geral, mas também obrigatoriamente o sufrágio universal, igual, directo e secreto. Quando «tomámos» ao «inimigo» também esta nova posição (a aprovação do sufrágio universal pela «União da Libertação») continuámos a fazer pressão, demonstrando a hipocrisia e a falsidade do sistema de duas câmaras, o carácter incompleto do reconhecimento do sufrágio universal pelos osvobojdenistas, assinalando no seu monarquismo o carácter traficante da sua democracia ou, por outras palavras, a traficância ruinosa dos interesses da grande revolução russa por estes osvobojdenistas heróis da bolsa de dinheiro.

Finalmente, a selvagem obstinação da autocracia, o gigantesco progresso da guerra civil, a situação sem saída a que os monárquicos tinham levado a Rússia, começaram a penetrar mesmo nas cabeças mais renitentes. A revolução convertia-se num facto. Para reconhecer a revolução já não era necessário ser revolucionário. O governo autocrático decompunha-se de facto e continua a decompor-se à vista de todos. Como assinalou com razão um liberal (o Sr. Gredéskul) na imprensa legal, criou-se de facto um estado de insubordinação contra este governo. Apesar da sua força aparente, a autocracia demonstrou ser impotente, os acontecimentos da revolução em desenvolvimento começaram simplesmente a afastar para o lado este organismo parasitário que se decompunha em vida. Obrigados a basear a sua actividade (ou, melhor dito, os seus negociozinhos políticos) em relações determinadas existentes de facto, os liberais burgueses começaram a verificar a necessidade de reconhecer a revolução. Fazem-no não porque sejam revolucionários, mas apesar de não serem revolucionários. Fazem-no por necessidade e contra a sua vontade, vendo com ódio os êxitos da revolução, acusando de revolucionarismo a autocracia, que não quer acordos, antes quer uma luta de vida ou de morte. Traficantes natos, odeiam a luta e a revolução, mas as circunstâncias obrigam-nos a colocar-se no terreno da revolução, uma vez que não há outro terreno debaixo dos pés.

Assistimos a um espectáculo altamente edificante e altamente cómico. As prostitutas do liberalismo burguês tentam cobrir-se com a toga do revolucionarismo. Os osvobojdenistas - risum teneatis, amici!(33*) — os osvobojdenistas começam a falar em nome da revolução! Os osvobojdenistas começam a assegurar que «não temem a revolução» (o Sr. Struve, no n.° 72 da Osvobojdénie)!!! Os osvobojdenistas manifestam a pretensão de «colocar-se à cabeça da revolução»!!!

Este é um fenómeno extraordinariamente significativo, que caracteriza não somente o progresso do liberalismo burguês como também, e ainda mais, o progresso dos êxitos reais do movimento revolucionário que obrigou ao seu reconhecimento. Até a burguesia começa a sentir que é mais vantajoso colocar-se no terreno da revolução, tão cambaleante está a autocracia. Mas, por outro lado, este fenómeno, que testemunha o ascenso de todo o movimento a um grau novo, superior, coloca perante nós tarefas também novas e também superiores. O reconhecimento da revolução pela burguesia não pode ser sincero, independentemente da boa fé pessoal de um ou outro ideólogo da burguesia. A burguesia não pode deixar de trazer, também nesta fase superior do movimento, o egoísmo e a inconsequência, a traficância e os pequenos subterfúgios reaccionários. Em nome do nosso programa e para o desenvolvimento do nosso programa, devemos agora formular de outra maneira as tarefas concretas imediatas da revolução. O que ontem era suficiente, hoje é insuficiente.

Ontem talvez fosse suficiente, como palavra de ordem democrática avançada, exigir o reconhecimento da revolução. Agora isto é pouco. A revolução obrigou mesmo o Sr. Struve a reconhecê-la. Agora da classe avançada exige-se que determine exactamente o próprio conteúdo das tarefas imediatas e inadiáveis desta revolução. Os senhores Struve, ao reconhecer a revolução, mostram uma e outra vez as suas orelhas de burro, entoando de novo a velha cantilena da possibilidade de um desenlace pacífico, de que Nicolau chame ao poder os senhores osvobojdenistas, etc, etc. Os senhores osvobojdenistas reconhecem a revolução com o objectivo de escamotear esta revolução, de a trair com menos riscos para si. Cabe-nos agora indicar ao proletariado e a todo o povo a insuficiência da palavra de ordem: revolução, mostrar a necessidade da clara e inequívoca, consequente e decidida definição do próprio conteúdo da revolução. E tal definição é representada pela palavra de ordem, única capaz de traduzir correctamente a «vitória decisiva» da revolução, pela palavra de ordem de ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato.

O abuso das palavras é um fenómeno muito corrente em política. Por exemplo, chamaram-se muitas vezes «socialistas» os partidários do liberalismo burguês («agora todos somos socialistas» — We ali are socialists now, disse Harcourt), os partidários de Bismarck e os amigos do papa Leão XIII. A palavra «revolução» também se presta perfeitamente a abuso, e em certa etapa do desenvolvimento do movimento tal abuso é inevitável. Quando o Sr. Struve se pôs a falar em nome da revolução, lembrámo-nos involuntariamente de Thiers. Poucos dias antes da revolução de Fevereiro este anão monstruoso, este intérprete ideal da venalidade política da burguesia pressentiu a aproximação da tempestade popular. E declarou da tribuna parlamentar que pertencia ao partido da revolução! (Ver A guerra Civil em França de Marx). O significado político da passagem da Osvobojdénie para o partido da revolução é absolutamente idêntica a esta «passagem» de Thiers. Quando os Thiers russos se põem a falar de que pertencem ao partido da revolução isso significa que a palavra de ordem de revolução se tornou insuficiente, que não diz nada, que não determina nenhuma tarefa, pois a revolução tornou-se um facto e passam em massa para o seu lado os elementos mais heterogéneos.

Com efeito, o que é a revolução do ponto de vista marxista? É a destruição violenta da superstrutura política antiquada, cuja contradição com as novas relações de produção conduziu, num momento determinado, ao seu colapso. A contradição da autocracia com toda a estrutura da Rússia capitalista, com todas as necessidades do seu desenvolvimento democrático burguês, conduziu agora a um colapso, tanto mais forte quanto mais tempo se fosse mantendo artificialmente esta contradição. A superstrutura rebenta por todas as costuras, cede à pressão, enfraquece. O povo precisa de criar ele próprio, por meio dos representantes das mais diversas classes e grupos, uma nova superstrutura para si. Num momento determinado do desenvolvimento torna-se evidente para todos a imprestabilidade da velha superstrutura. Todos reconhecem a revolução. A tarefa consiste agora em definir quais precisamente as classes e como precisamente devem construir a nova superstrutura. Sem tal definição a palavra de ordem de revolução é no momento actual oca e sem conteúdo, pois a fraqueza da autocracia torna «revolucionários» até os grão-duques e o Moskóvskie Védomosti! Sem tal definição nem sequer se pode falar das tarefas democráticas avançadas da classe avançada. E esta definição é precisamente a palavra de ordem de ditadura democrática do proletariado e do campesinato. Esta palavra de ordem define tanto as classes nas quais podem e devem apoiar-se os novos «construtores» da nova superstrutura, como o seu carácter (ditadura «democrática», diferentemente da socialista) e o método de construção (ditadura, isto é, esmagamento violento da resistência violenta, armamento das classes revolucionárias do povo). Quem não reconheça agora esta palavra de ordem de ditadura democrática revolucionária, a palavra de ordem de exército revolucionário, de governo revolucionário, de comités camponeses revolucionários, ou não compreende irremediavelmente as tarefas da revolução, não sabe definir as novas e superiores tarefas colocadas pelo momento actual, ou então engana o povo, trai a revolução, abusando da palavra de ordem de «revolução».

O primeiro caso é o do camarada Martínov e seus amigos. O segundo caso é o do Sr. Struve e todo o partido «democrata-constitucionalísta» dos zemstvos.

O camarada Martínov foi tão perspicaz e espirituoso que apresentou a acusação da «substituição» dos conceitos de revolução e de ditadura precisamente quando o desenvolvimento da revolução exigiu que se definissem as suas tarefas com a palavra de ordem de ditadura! De facto, o camarada Martínov teve outra vez a infelicidade de ficar na cauda, de parar no penúltimo degrau, de ver-se ao nível do osvobojdenismo, pois é precisamente à posição política osvobojdenista, isto é, aos interesses da burguesia liberal monárquica, que corresponde agora o reconhecimento da «revolução» (em palavras) e a falta de vontade de reconhecer a ditadura democrática do proletariado e do campesinato fisto é, a revolução de facto). A burguesia liberal pronuncia-se agora, pela boca do Sr. Struve, a favor da revolução. O proletariado consciente exige, pela boca dos socíais-democratas revolucionários, a ditadura do proletariado e do campesinato. E aqui intromete-se na discussão o sábio do novo Iskra, gritando: não ouseis «substituir» os conceitos de revolução e de ditadura! Pois bem, não será verdade que a falsidade da posição dos neo-iskristas os condena a arrastarem-se constantemente na cauda do osvobojdenismo? Demonstrámos que os osvobojdenistas sobem degrau a degrau (não sem a influência dos empurrões estimulantes da sociaí-democracia) no reconhecimento da democracia. A princípio, a questão da nossa discussão com eles era: táctica chipovista (direitos e um zemstvo com poder) ou constitucionalismo? Depois: eleições limitadas ou sufrágio universal? A seguir: reconhecimento da revolução ou acordo de traficantes com a autocracia? E finalmente agora: reconhecimento da revolução sem ditadura do proletariado e do campesinato, ou reconhecimento da reivindicação da ditadura destas classes na revolução democrática? É possível e provável que os senhores osvobojdenistas (os de agora ou os seus sucessores na ala esquerda da democracia burguesa, tanto faz) subam mais um degrau, isto é, reconheçam também com o tempo (talvez quando o camarada Martínov subir outro degrau) a palavra de ordem de ditadura. E isso será mesmo inevitável, se a revolução russa seguir com êxito para a frente e chegar até à vitória decisiva. Qual será, então, a posição da social-democracia? A vitória completa da revolução actual será o fim da revolução democrática e o começo da luta decisiva pela revolução-socialísta. A satisfação das reivindicações do campesinato actual, o completo esmagamento da reacção, a conquista da república democrática, marcarão o fim completo do revolucionarismo da burguesia e mesmo da pequena burguesia, marcarão o começo da verdadeira luta do proletariado pelo socialismo. Quanto mais completa for a revolução democrática tanto mais rápida, ampla, nítida e decididamente se desenvolverá esta nova luta. A palavra de ordem de ditadura «democrática» é que exprime o carácter histórico limitado da actual revolução e a necessidade de uma nova luta, na base da nova ordem de coisas, pela libertação total da classe operária de todo o jugo e de toda a exploração. Por outras palavras: quando a burguesia democrática ou a pequena burguesia subir mais um degrau, quando for um facto não só a revolução mas também a vitória completa da revolução, então «substituiremos» (talvez entre gritos de horror dos novos futuros Martínov) a palavra de ordem de ditadura democrática pela palavra de ordem de ditadura socialista do proletariado, isto é, de revolução socialista completa.

 

 

III.

A Exposição Burguesa Vulgar da Ditadura e o Ponto de Vista de Marx Sober Ela

 

 

Mehring relata nas notas dedicadas à edição por ele publicada dos artigos de Marx na Nova Gazeta Renana em 1848 que a literatura burguesa faz a este jornal a censura, entre outras, de que a Nova Gazeta Renana exigiria «a instauração imediata da ditadura como único meio de realização da democracia» {Marx' Nachlass, tomo III, p. 53)[N262]. Do ponto de vista burguês vulgar, o conceito de ditadura e o conceito de democracia excluem-se um ao outro. Não compreendendo a teoria da luta de classes, acostumado a ver na arena política unicamente as pequenas disputas dos diversos círculos e tertúlias da burguesia, o burguês entende por ditadura a anulação de todas as liberdades e garantias da democracia, toda a arbitrariedade, todo o abuso do poder no interesse pessoal do ditador. No fundo, precisamente este ponto de vista burguês vulgar transparece também no nosso Martínov, que, como conclusão da sua «nova campanha» no novo Iskra, explica a paixão do Vperiod e do Proletári pela palavra de ordem de ditadura com o facto de Lénine «desejar apaixonadamente tentar a sorte» (Iskra, n.° 103, p. 3, col. 2). Esta encantadora explicação está inteiramente ao nível das acusações burguesas à Nova Gazeta Renana de pregar a ditadura. Também Marx, por conseguinte, foi acusado — só que não por «sociais-democratas», mas por liberais burgueses! — de «substituir os conceitos de revolução e ditadura». Para esclarecer Martínov sobre o conceito de ditadura de classe, diferentemente de ditadura de um indivíduo, e as tarefas da ditadura democrática, diferentemente das da ditadura socialista, não é inútil determo-nos no ponto de vista da Nova Gazeta Renana.

«Toda a estrutura estatal provisória — escrevia a Nova Gazeta Renana em 14 de Setembro de 1848 — depois de uma revolução exige uma ditadura, e uma ditadura enérgica. Nós criticámos desde o início Camphausen (presidente do ministério depois de 18 de Março de 1848) por não ter agido ditatorialmente, por não ter destruído e eliminado imediatamente os restos das velhas instituições. E enquanto o Sr. Camphausen se deixava embalar pelas ilusões constitucionais, o partido vencido (isto é, o partido da reacção) consolidava as suas posições na burocracia e no exército e começava até a atrever-se aqui e ali à luta aberta.»[N263]

Nestas palavras - diz justamente Mehring — está resumida em poucas teses a idéia exposta detalhadamente em longos artigos da Nova Gazeta Renana sobre o ministério Camphausen. Que nos dizem estas palavras de Marx? Que um governo provisório revolucionário deve actuar ditatorialmente (tese que o Iskra não pôde compreender de forma alguma, pelo seu medo à palavra de ordem de ditadura); que é tarefa desta ditadura a destruição dos restos das velhas instituições (precisamente o que é claramente indicado na resolução do III congresso do POSDR sobre o combate à contra-revolução, e que é omitido na resolução da conferência, como já mostrámos mais atrás). Finalmente, em terceiro lugar, destas palavras decorre que Marx fustigava os democratas burgueses pelas suas «ilusões constitucionais» numa época de revolução e de guerra civil aberta. O sentido destas palavras é particularmente claro no artigo da Nova Gazeta Renana de 6 de Junho de 1848. «A assembleia constituinte popular — escrevia Marx — deve ser, em primeiro lugar, uma assembleia activa, revolucionariamente activa. Mas a assembleia de Frankfurt entrega-se a exercícios escolares de parlamentarismo e deixa ao governo agir. Admitindo que este sábio concílio consiga, depois de madura reflexão, elaborar a melhor ordem do dia e a melhor constituição, para que servirá a melhor ordem do dia e a melhor constituição se, entretanto, os governos alemães colocarem a baioneta na ordem do dia?» [N264]

É este o sentido da palavra de ordem de ditadura. Daqui se pode deduzir qual seria a atitude de Marx em face de resoluções que consideram a «decisão de organizar a assembleia constituinte» como vitória decisiva, ou que convidam «a continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema»!

As grandes questões da vida dos povos decidem-se somente pela força. As próprias classes reaccionárias são geralmente as primeiras a recorrer à violência, à guerra civil, a «colocar a baioneta na ordem do dia», como o fez a autocracia russa e continua a fazê-lo, sistemática e constantemente, por toda a parte, desde 9 de Janeiro. E uma vez criada tal situação, uma vez que a baioneta encabeça realmente a ordem do dia política, uma vez que a insurreição se revelou imprescindível e inadiável, então as ilusões constitucionais e os exercícios escolares de parlamentarismo não servem senão para encobrir a traição da burguesia à revolução, para encobrir o facto de que a burguesia «se afasta» da revolução. A classe verdadeiramente revolucionária deve então lançar precisamente a palavra de ordem de ditadura.

Em relação às tarefas desta ditadura, Marx escrevia já na Nova Gazeta Renana: «a assembleia nacional devia ter actuado ditatorialmente contra as intentonas reaccionárias dos governos caducos e assim teria adquirido tal força na opinião popular que contra ela se teriam quebrado todas as baionetas... Mas esta assembleia aborrece o povo alemão em vez de o atrair para si ou de ser por ele atraída»[N265]. A assembleia nacional deveria, segundo a opinião de Marx, «eliminar da situação realmente existente na Alemanha tudo quanto se opusesse ao princípio da soberania do povo», depois, «consolidar o terreno revolucionário sobre o qual se encontrava e assegurar contra todos os ataques a soberania do povo conquistada pela revolução»[N266].

Assim, pois, as tarefas que Marx atribuía em 1848 ao governo revolucionário ou à ditadura reduziam-se em primeiro lugar, pelo seu conteúdo, à revolução democrática: defesa face à contra-revolução e eliminação, de facto, de tudo aquilo que estivesse em contradição com a soberania popular. E isto não é senão a ditadura revolucionária democrática.

Vejamos agora quais as classes que podiam e deviam, na opinião de Marx, realizar esta tarefa (aplicar na prática até ao fim o princípio da soberania do povo e repelir os ataques da contra-revolução). Marx fala do «povo». Mas nós sabemos que ele lutou sempre, sem piedade, contra as ilusões pequeno-burguesas da unidade do «povo», da ausência de luta de classes no seio do povo. Ao empregar a palavra «povo», Marx não ocultava com esta palavra a diferença de classes, antes reunia determinados elementos capazes de levar a revolução até ao fim.

Depois da vitória do proletariado berlinense a 18 de Março — escrevia a Nova Gazeta Renana — os resultados da revolução revelaram-se de duas espécies: «por um lado, o armamento do povo, o direito de associação, a soberania do povo, conquistada de facto; por outro lado, a manutenção da monarquia e do ministério Camphausen—Hansemann, isto é, um governo de representantes da grande burguesia. Desta forma, a revolução obteve duas espécies de resultados que deviam inevitavelmente conduzir a uma ruptura. O povo venceu; conquistou liberdades de carácter decididamente democrático, mas o domínio imediato não passou para as suas mãos mas para as mãos da grande burguesia. Numa palavra, a revolução não foi levada até ao fim. O povo permitiu aos representantes da grande burguesia que criassem um ministério, e estes representantes da grande burguesia demonstraram imediatamente as suas aspirações, propondo uma aliança à velha nobreza prussiana e à burocracia. Arnim, Kanitz e Schwerin entraram para o ministério.

«A grande burguesia, anti-revolucionaria desde o próprio inicio, concluiu uma aliança defensiva e ofensiva com a reacção, por medo ao povo, isto é, aos operários e à burguesia democrática». (Sublinhado por nós.)[N267]

Assim, não só «a decisão de organizar uma assembleia constituinte», mas a sua própria convocação é insuficiente para a vitória decisiva da revolução! Mesmo depois da vitória parcial na luta armada (vitória dos operários berlinenses sobre a tropa em 18 de Março de 1848), é possível uma revolução «inacabada», não levada até ao fim. De que depende, pois, levá-la até ao fim? Das mãos para as quais passe a dominação imediata: para as mãos dos Petrunkévitch e dos Róditchev, isto é, dos Camphausen e Hansemann, ou para as mãos do povo, isto é, dos operários e da burguesia democrática. No primeiro caso, a burguesia terá o poder e o proletariado a «liberdade de crítica», a liberdade de «continuar a ser o partido da oposição revolucionária extrema». A burguesia, imediatamente depois da vitória, concluirá uma aliança com a reacção (isto aconteceria inevitavelmente também na Rússia se os operários de Petersburgo, por exemplo, conseguissem uma vitória apenas parcial em combate de rua contra a tropa e deixassem aos senhores Petrunkévitch e C.a a formação do governo). No segundo caso, seria possível a ditadura revolucionária democrática, isto é, a vitória completa da revolução.

Resta determinar com maior exactidão o que precisamente entendia Marx por «burguesia democrática» (demokratische Bürgerschaft), à qual, juntamente com os operários, chamava povo em contraposição à grande burguesia.

A seguinte passagem de um artigo da Nova Gazeta Renana, publicado em 29 de Julho de 1848, dá-nos uma resposta clara a esta questão:

«... A revolução alemã de 1848 não é senão uma paródia da revolução francesa de 1789.

«Em 4 de Agosto de 1789, três semanas depois da tomada da Bastilha, o povo francês, num só dia, ajustou contas com todas as cargas feudais.

«Em 11 de julho de 1848, quatro meses depois das barricadas de Março, as cargas feudais ajustaram contas com o povo alemão. Teste Gierke cum Hansemanno(34*).

«A burguesia francesa de 1789 não abandonou nem um só minuto os seus aliados, os camponeses. Ela sabia que a sua dominação se baseava na liquidação do feudalismo no campo, na criação de uma classe de camponeses proprietários (grundbesitzenden) livres.

«A burguesia alemã de 1848 atraiçoa, sem nenhum escrúpulo, os camponeses, seus aliados mais naturais, que são carne da sua carne e sem os quais é impotente contra a nobreza.

«A manutenção dos direitos feudais, a sua sanção sob a aparência (ilusória) do resgate, eis o resultado da revolução alemã de 1848. A montanha pariu um rato.»[N268]

Esta é uma passagem muito instrutiva, que nos oferece quatro teses importantes:

  1. A revolução alemã, não acabada, diferencia-se da francesa, acabada, pelo facto de que a burguesia atraiçoou não só a democracia em geral, mas, em particular, o campesinato.

  2. A base da realização completa da revolução democrática é a criação de uma classe de camponeses livres.

  3. A criação de tal classe significa a supressão das cargas feudais, a destruição do feudalismo, mas não ainda de modo algum a revolução socialista.

  4. Os camponeses são «os aliados mais naturais» da burguesia, precisamente da burguesia democrática, sem os quais ela é «impotente» contra a reacção.

Todas estas teses, modificadas de acordo com as particularidades nacionais concretas, pondo regime de servidão em lugar de feudalismo, podem também ser aplicadas na sua totalidade à Rússia de 1905. Não há dúvida de que, aprendendo com os ensinamentos da experiência da Alemanha, explicada por Marx, não podemos chegar a uma palavra de ordem para a vitória decisiva da revolução que não seja: ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato. É indubitável que o proletariado e o campesinato são as principais partes constituintes do «povo» que Marx contrapunha, em 1848, à reacção que resistia e à burguesia que traía. É indubitável que também na Rússia a burguesia liberal e os senhores osvobojdenistas traem e trairão o campesinato, ou seja, limitar-se-ão a uma pseudo-reforma, colocar-se-ão ao lado dos latifundiários na luta decisiva entre estes e o campesinato. Só o proletariado é capaz de apoiar até ao fim os camponeses nesta luta. É indubitável, finalmente, que também na Rússia a vitória da luta camponesa, isto é, a passagem de todas as terras para o campesinato, significará uma revolução democrática completa, será a base social da revolução levada até ao fim, mas não será, de maneira nenhuma, uma revolução socialista nem a «socialização» de que falam os ideólogos da pequena burguesia, os socialistas-revolucionários. O êxito da insurreição camponesa, a vitória da revolução democrática, não fará mais do que limpar o caminho para uma luta decidida e verdadeira pelo socialismo na base da república democrática. O campesinato, como classe possuidora de terra, desempenhará nesta luta o mesmo papel de traição, de inconsequência, que agora desempenha a burguesia na luta pela democracia. Esquecer isto é esquecer o socialismo, enganar-se a si mesmo e aos outros em relação aos verdadeiros interesses e tarefas do proletariado.

Para não deixar uma lacuna na exposição dos pontos de vista de Marx em 1848, é necessário sublinhar uma diferença essencial entre a social-democracia alemã de então (ou partido comunista do proletariado, aplicando a linguagem de então) e a actual social-democracia russa. Concedamos a palavra a Mehring:

«A Nova Gazeta Renana apareceu na arena política como 'órgão da democracia'. Não é possível deixar de ver o fio condutor que atravessa todos os seus artigos. Mas, directamente, defendia mais os interesses da revolução burguesa contra o absolutismo e o feudalismo do que os interesses do proletariado contra os interesses da burguesia. Poucos materiais encontrareis nas suas colunas sobre o movimento operário específico durante a revolução, embora se não deva esquecer que, ao mesmo tempo, se publicava duas vezes por semana, sob a direcção de Moll e Schapper, um órgão particular da União Operária de Colónia[N269]. De qualquer forma, torna-se evidente, para o leitor contemporâneo, o pouco interesse que a Nova Gazeta Renana dedicava ao movimento operário alemão de então, apesar de a sua cabeça mais capaz, Stephan Born, ter sido discípulo de Marx e Engels em Paris e Bruxelas e, em 1848, correspondente em Berlim do seu jornal. Born conta nas suas Memórias que Marx e Engels nunca lhe disseram uma só palavra de desaprovação da sua agitação operária. Mas declarações posteriores de Engels tornam verosímil que estes estavam descontentes, peio menos, com os métodos dessa agitação. Este descontentamento era fundado na medida em que Born se via obrigado a fazer muitas concessões à consciência de classe do proletariado, completamente não desenvolvida ainda na maior parte da Alemanha, concessões que não resistiam à crítica do ponto de vista do Manifesto Comunista. O seu descontentamento não era fundado na medida em que, apesar de tudo, Born soube manter a agitação dirigida por ele num nível relativamente alto... Sem dúvida, Marx e Engels histórica e politicamente tinham razão quando viam o interesse fundamental da classe operária, em primeiro lugar, em impelir para a frente o mais possível a revolução burguesa... Não obstante, uma prova notável de como o instinto elementar do movimento operário sabe corrigir as concepções dos pensadores mais geniais é dada pelo facto de que, em Abril de 1849, eles se pronunciaram por uma organização operária específica e decidiram participar no congresso operário, que estava a ser organizado principalmente pelo proletariado do leste do Elba (Prússia Oriental).»

De modo que só em Abril de 1849, quase um ano depois do aparecimento do jornal revolucionário (a Nova Gazeta Renana começou a sair em 1 de Junho de 1848), Marx e Engels se pronunciaram a favor de uma organização particular dos operários! Até então dirigiam simplesmente um «órgão da democracia», não ligado por qualquer laço orgânico a um partido operário independente! Este facto, monstruoso e incrível do nosso ponto de vista actual, demonstra-nos claramente a diferença entre a social-democracia alemã de então e o actual partido operário social-democrata russo. Este facto mostra-nos quantas vezes menos se manifestavam os traços proletários do movimento, a corrente proletária nele, na revolução democrática alemã (devido ao atraso da Alemanha em 1848, tanto no sentido económico como no político — o seu fraccionamento estatal). Isto não se deve esquecer (como o esquece, por exemplo, Plekhánov)(35*) ao apreciar as numerosas declarações de Marx, desta época e da época um pouco posterior, sobre a necessidade da organização independente de um partido do proletariado. Apenas com a experiência da revolução democrática Marx, ao cabo de quase um ano, tirou esta conclusão prática: a tal ponto era então filistina, pequeno-burguesa, toda a atmosfera da Alemanha. Para nós esta conclusão é já uma velha e sólida aquisição da experiência de meio século da sociaí-democracia internacional, aquisição com a qual iniciámos a organização do Partido Operário Social-Democrata da Rússia. Entre nós, por exemplo, nem sequer se pode falar de os jornais revolucionários do proletariado estarem fora do partido social-democrata do proletariado ou aparecerem, nem que seja por um minuto, simplesmente como «órgãos da democracia».

Mas o contraste, que apenas começava a revelar-se entre Marx e Stephan Born, existe entre nós numa forma tanto mais desenvolvida quanto a corrente proletária é mais poderosa na torrente democrática da nossa revolução. Referindo-se ao provável descontentamento de Marx e Engels pela agitação de Stephan Born, Mehring exprime-se de forma demasiadamente suave e evasiva. Eis o que escrevia Engels sobre Born, em 1885 (prólogo de Enthüllungen über den Kommunistenprozess zu Köln, Zürich, 1885(36*)):

Os membros da Liga dos Comunistas estavam, em toda a parte, à cabeça do movimento democrático extremo, demonstrando com isso que a Liga era uma excelente escola de actividade revolucionária. «O compositor tipográfico Stephan Born, membro activo da Liga em Bruxelas e Paris, fundou em Berlim uma 'fraternidade operária' (Arbeiterverbrüderung), que adquiriu grande amplitude e se manteve até 1850. Born, jovem de talento, apressou-se demasiadamente, no entanto, a apresentar-se como político. 'Confraternizava' com a chusma mais díspar (Kreti und Plethi) só para reunir gente à sua volta. Não era de modo nenhum uma dessas pessoas capazes de fazer a unidade entre tendências contraditórias, de fazer a luz no caos. Nas publicações oficiais da sua fraternidade eram, por este motivo, constantemente embrulhados e confundidos os pontos de vista do Manifesto Comunista com reminiscências e aspirações corporativas, com fragmentos dos pontos de vista de Louis Blanc e de Proudhon, com a defesa do proteccionismo, etc; numa palavra, esta gente queria agradar a todos (allen alles sein). Ocupavam-se especialmente em organizar greves, sindicatos e cooperativas de produção, esquecendo que a tarefa consistia, acima de tudo, em conquistar primeiro, por meio davitória política, o terreno no qual se poderiam realizar sólida e firmemente tais coisas (sublinhado por nós). E eis que, quando as vitórias da reacção obrigaram os dirigentes desta fraternidade a sentirem a necessidade de participar directamente na luta revolucionária, então naturalmente a massa atrasada agrupada à sua volta abandonou-os. Born tomou parte na insurreição de Dresden, em Maio de 1849, e salvou-se por uma feliz casualidade. Mas a fraternidade operária manteve-se à margem do grande movimento político do proletariado como uma associação isolada que, na sua maior parte, só existia no papel, representando um papel tão secundário que a reacção só considerou necessário suprimi-la em 1850 e as suas filiais só foram dissolvidas muito tempo depois. Born (o verdadeiro nome de Born é Buttermilch)(37*) não conseguiu ser um político e acabou sendo um pequeno professor suíço que, em vez de traduzir Marx para o idioma corporativo, traduz o afável Renan para um alemão adocicado.»[N271]

Eis como apreciava Engels as duas tácticas da social-democraçia na revolução democrática!

Os nossos neo-iskristas tendem também para o «economismo» com tão desrazoável zelo que merecem os elogios da burguesia monárquica pela sua lucidez. Eles também reúnem à sua volta um público díspar, adulando os «economistas», seduzindo demagogicamente a massa atrasada com as palavras de ordem de iniciativa, «democracia», «autonomia», etc, etc. As suas associações operárias existem também frequentemente apenas nas páginas do novo Iskra khlestakovista[N272]. As suas palavras de ordem e resoluções revelam a mesma incompreensão das tarefas do «grande movimento político do proletariado».

 

 

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Notas de Rodapé:

 

(31*) Ver Prokopóvitch, A Questão Operária na Rússia.

 

(32*) Ver V. I. Lénine, Obras Completas, 5ª ed. em russo, t. 5, pp. 21-72.

 

(33*) Contende o riso, amigos!

 

(34*) "Testemunhas: o Sr. Gierke e o Sr. Hansemann». Hansemann era o ministro do partido da grande burguesia (em russo, Trubetskói ou Róditchev, etc). Gierke, ministro da Agricultura do gabinete Hansemann, elaborou um projecto, um projecto «audaz» de uma pretensa «abolição sem indemnização das cargas feudais» e, de facto, abolição das cargas pequenas e sem importância, mas conservação ou resgate mediante pagamento das mais essenciais. O Sr. Gierke era assim como os Srs. Kablukov, Manuílov, Herzenstein russos e outros semelhantes amigos liberais burgueses do mujique, que querem uma «ampliação da propriedade agrária camponesa», mas sem querer ofender os latifundiários.

 

(35*) O texto entre parêntesis foi omitido nas edições do folheto. (N. Ed.)

 

(36*) Revelações sobre o Processo de Colónia dos Comunistas, Zurique, 1885. (N. Ed.)

 

(37*) Ao traduzir Engels cometi aqui um erro, na primeira edição, tomando a palavra Buttermilch (soro de manteiga - N. E.) não como nome próprio, mas como substantivo comum. Este erro proporcionou, naturalmente, grande satisfação aos mencheviques. Koltsov escreveu que eu «tinha aprofundado Engels» (reeditado na compilação Dois Anos), Plekhánov recorda ainda agora este erro em Továrichtch[N270]; numa palavra, encontrou-se um excelente pretexto para escamotear a questão das duas tendências no movimento operário de 1848 na Alemanha, a tendência de Born (afim da dos nossos «economistas») e a tendência marxista. Aproveitar os erros do contradkor embora seja apenas na questão do nome de Born é mais que natural. Mas escamotear com emendas à tradução a essência da questão das duas tácticas é fugir ao fundo da discussão. (Nota de Lénine para edição de 1907. - N. Ed.)

 

 

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Notas de Fim de Tomo:

 

[N261] O artigo de F. Engels Os Bakuninistas em Acção. Notas sobre a Insurreição em Espanha no Verão de 1873, foi traduzido para o russo sob a redacção de Lénine e saiu em brochura em 1905, nas edições do CC do POSDR em Genebra, e depois, em 1906, foi reeditado em Petersburgo.
A Mensagem do Comité Central à Liga dos Comunistas, escrita por K. Marx e F. Engels em Março de 1850, foi publicada cm russo em 1906, em suplemento à brochura de Karl Marx O Processo dos Comunistas em Colónia, publicado pela editora Mólot, em Petersburgo.

 

[N262] V. I. Lénine cita a introdução de F. Mehring ao livro Aus dem literarischen Nachlass von Karl Marx, Friedrich Engels und Ferdinand Lassalle, Herausgegeben von Franz Mehring, Band IIÍ, Stuttgart, 1902, S. 53 (Da herança literária de Karl Marx, Friedrich Engels e Ferdínand Lassalle, sob a redacção de Franz Mehring, t. 3, Stuttgart 1902, p. 53).
Mais abaixo, na p. 470 do tomo, Lénine cita esta mesma introdução de F. Mehring. {Ver Ibid., pp. 81-82.)

 

[N263] K. Marx, A Crise e a Contra-Revolução.

 

[N264] Ver K. Marx e F. Engels, Os Programas do Partido Democrático Radical em Frankfurt e da Esquerda de Frankfurt.

 

[N265] Ver Ibid

 

[N266] V. I. Lénine cita o artigo de F. Engels A Assembleia de Frankfurt

 

[N267] F. Engels, Debates de Berlim sobre a Revolução

 

[N268] K. Marx, Projecto de Lei sobre a Revogação das Obrigações Feudais.

 

[N269] O órgão da União Operária de Colónia tinha inicialmente o nome Zeitung des Arbeiter-Vereins zu Köln (Jornal da União Operária de Colónia), com o subtítulo Freiheit,Brüderlichkeit, Arbeit (Liberdade, fraternidade, trabalho). O jornal publicou-se de Abril a Outubro de 1848 sob a direcção dos membros da Liga dos Comunistas: primeiro, até Julho de 1848, A. Gottschalk, depois J. Moll. Ao todo saíram 40 números. Nas páginas do jornal esclarecia-se a actividade da União Operária de Colónia e de outras uniões operárias da província da Renânia. Depois de ter deixado de se publicar este órgão, a União Operária de Colónia reiniciou, a partir de 26 de Outubro, a edição do jornal sob o título Freiheit, Brüderlichkeit, Arbeit. Sob este título, o jornal publícou-se com breves interrupções até 24 de Junho de 1849. Saíram 32 números.

 

[N270] Trata-se do artigo de G. V. Plekhánov Será Isto Possível? publicado no jomal Továrichtch, n.° 381, 26 de Setembro (9 de Outubro} de 1907.
Továrichtch (Camarada): jomal diário burguês. Publicou-se em Petersburgo de 15 (28) de Março de 1906 a 30 de Dezembro de 1907 (12 de Janeiro de 1908). Formalmente o jornal não era órgão de partido algum, mas, de facto, era órgão dos democratas constitucíonalistas de esquerda. Participaram no jornal de modo mais activo S. N. Prokopóvítch e E. D. Kuskova. Também os mencheviques colaboraram no jornal.

 

[N271] F. Engels, Contribuição para a História da Liga dos Comunistas.

 

Khlestakov, personagem da obra do escritor russo N. V. Gógol O Revisor. Tipo de gabarola desenfreado, mentiroso e aventureiro.


 

 

 

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