ÁFRICA

ZIMBABUÉ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

português

ZIMBABUÉ

população: 12,619,600 habitantes

Para uma melhor compreensão da luta de libertação

no Zimbabué, o Comintern (EH) publica alguns documentos históricos

da ZANU (do ano de 1974)

 

 

 

 

 

Programa Político da UNAZ


27 de Novembro de 1973



Programa político da União Nacional Africana do Zimbabué (UNAZ)



Prefácio

Enquanto a nossa luta revolucionária para a libertação do nosso país da opressão e da exploração do imperialismo e do colonialismo, nós deparamo-nos com perguntas frequentes, tais como: O que defende o vosso partido? Como é o seu programa? Vocês são Marxistas-Leninistas? Como é a vossa estrutura partidária?
Nós escrevemos este panfleto dar algumas respostas a estas perguntas. As respostas estão longe de estar completas. Só se deixarmos de lado as nossas armas para pegar nas nossas canetas é que poderíamos explicar adequadamente ao mundo o verdadeiro carácter da nossa revolução. Neste ponto, nós avisamos que algumas pessoas apontam erros ao nosso programa e á nossa ideologia. Nós não pedimos desculpas por esses erros, porque numa luta difícil eles são inevitáveis. Mais importante é a questão de saber se aprendemos com os erros do passado ou não, e nós acreditamos que o fizemos. Devido a um atraso na impressão desta brochura ela só inclui, infelizmente, o período de 1963 a 1970 – não tratando com a devida atenção as estratégias políticas e militares que garantiram o sucesso da campanha actual já nos anos 70. No entanto, estamos convencidos de que a publicação desta brochura é urgentemente necessária, e que o material compilado aqui contém informação suficiente para que os nossos adeptos e simpatizantes possam ter uma ideia do significado da orientação da revolução no Zimbabué.



O editor


27 de Novembro de 1973



Programa político da União Nacional Africana do Zimbabué (UNAZ)



Introdução


A União Nacional Africana do Zimbabué (UNAZ) foi fundada no dia 8 de Agosto de 1963 em Highfield, um distrito de Salisbúria, na Rodésia, com o objectivo de organizar as massas de 5 milhões de Africanos em oposição aos 234.000 colonos brancos que detinham o poder. Eles representavam a política de independência nacional e libertação no caminho da revolução violenta. O objectivo era unir todos os Africanos. Com o estabelecimento da UNAZ, começou um novo capítulo na história da luta justa e histórica do povo do Zimbabué pela independência nacional e auto-determinação. Nas palavras do seu presidente Ndabaningi Sithole: "Nós afastámo-nos de uma política reformista para tomarmos o poder." Ele também determinou o método de processo, afirmando: “Nós somos os nossos próprios libertadores por meio dos confrontos." Em 1964, ele fundou um movimento clandestino e um Exército de Libertação forte, que em 1966 desencadeou no "Chimurenga", isto é, desencadeou a luta revolucionária de libertação. Com o início da "Chimurenga", continuou a luta contra o colonialismo e o imperialismo começada em 1896. A obtenção da independência ilegal para um governo de minoria, em Novembro de 1965 já tinha sido prevista pela UNAZ. Já em Abril de 1964, o presidente Sithole apelou a todos os Africanos para aguçarem as lanças e machados para a longa luta contra os Britânicos e outros imperialistas e colonialistas.
Durante os últimos sete anos, a UNAZ definiu "uma linha de revolução violenta para modificar o sistema político e social existente. Revolução significa mudança sistemática, ou, por outras palavras, a plena subversão. Isto significa a criação de uma nova sociedade e um sistema no qual não há mais classes e privilégios.

Revolução significa :


a) quando o poder político está nas mãos de uma minoria estrangeira, ele passa para as mãos da maioria Africana;



b) onde hoje existem privilégios económicos e financeiros estrangeiros, amanhã eles serão abolidos e o direito da população Africana aos recursos naturais será restaurado;


c) onde hoje há exploração e difamação, amanhã a justiça e a igualdade social vão prevalecer.



I. A posição política do Zimbabué no Mundo


A UNAZ considera o problema da colónia da Rodésia (que se chama Zimbabué) como um produto e parte do conflito global entre as forças do capitalismo, o imperialismo, o colonialismo e o domínio branco de um lado e as forças progressistas da independência nacional e do socialismo, da auto-determinação e da igualdade entre todos os seres humanos, por outro. Assim como outros povos oprimidos, estamos a seguir três contradições básicas e essenciais no nosso país que devem ser exterminadas. Elas são:


a) A presença de uma sociedade de colonos, os 234.000 brancos, é uma componente essencial do capitalismo internacional e procura explorar os 5 milhões de Africanos para os suprimir e para os impedir de construir um estado socialista.


b) A coexistência e a luta pelo poder entre os colonos brancos e a população Africana; no desenvolvimento da sua cultura e ordem social, religião e moral. Essas diferenças são intensificadas pelas políticas de apartheid.


c) A existência de uma economia dualista - uma economia rica pertencente aos colonizadores que usufruem de elevados padrões de vida, enquanto que os Africanos vivem em extrema pobreza á beira da inanição.


Desde Novembro de 1965, as reivindicações dos colonos brancos para o estabelecimento de um estado independente no coração da África desembocaram num conflito com os 5 milhões de Africanos que querem construir um estado socialista no Zimbabué, que seja livre de todas as formas de capitalismo, racismo e exploração. O UNAZ tem uma estreita colaboração com outras forças progressistas da África, Ásia, América Latina e dos países socialistas do Leste Europeu contra as forças do capitalismo, do imperialismo, do colonialismo. Ela tem também o apoio de organizações e de indivíduos na Europa Ocidental e América do Norte.





II.O Partido e a unidade do povo


O Partido é a vanguarda da revolução. Ela é o aparelho através do qual a revolução é planeada, executada, promovida e consolidada. É o principal instrumento nas mãos do povo na sua luta pela independência e libertação nacional. O partido une todos na sua luta contra um inimigo comum - os colonos brancos.


Todo o povo do Zimbabué está unido no combate, independentemente das diferenças ideológicas, religiosas ou regionais. A unidade do povo é essencial para o sucesso da implementação do "Chimurenga".


O partido pretende unir todos os povos oprimidos do Zimbabué só na luta contra a dominação estrangeira e a exploração – pela preparação da nova ordem social. O partido é uma ferramenta para identificar as preocupações reais das pessoas e não só as preocupações dos líderes. As soluções devem ser encontradas pelas próprias pessoas no âmbito do partido e com a ajuda do seu aparelho.
A política da UNAZ segue o princípio de que a política tem precedência sobre o indivíduo. Em 1963, a confusão sobre a linha política e o culto da personalidade de Nkomo contribuiu para a clivagem entre a UNAZ e a ZAPU-in (União do Povo Africano do Zimbabué). A UNAZ condena todas as tendências de uma política tribalista, regionalista ou particularista, tal como o culto da personalidade.
Em Agosto de 1964, a UNAZ foi proibida. Apesar da falta de dinheiro e de transporte, a UNAZ penetrou em todas as áreas do país. Nos últimos seis anos, a UNAZ transformou-se de um partido nacionalista num movimento nacional com uma ala militar e paramilitar á cabeça da revolução. O seu trabalho é fazer com que o povo trilhe o seu próprio caminho.


A liderança


A liderança deve vir do trabalho pela libertação nacional, independência e reconstrução do país. A liderança deve ser baseada em princípios claros e deve informar o povo acerca dos benefícios de viver numa sociedade socialista sem privilégios ou classes.


O líder deve sempre demonstrar integridade, honestidade e dedicação. A corrupção de qualquer tipo é uma traição à revolução e deve ser punida. O líder é em todas as suas acções responsável perante as massas através das instituições do partido.


Qualquer controvérsia em relação à política será submetida a análise, consulta e decisão. A UNAZ baseia-se no princípio de liderança colectiva e da responsabilidade daqueles que foram eleitos para o cargo. A usurpação do poder não será permitida.


O papel do partido


Devemos repetir que o partido é a vanguarda da revolução. Ele também é a mais alta autoridade, faz a ligação entre os quadros e as massas e alberga os principais órgãos do futuro poder popular. O partido deve:


a) formular os objectivos políticos e desenvolver programas de acção;


b) definir um objetivo claro e revolucionário;


c) proteger e defender a integridade da revolução;


d) punir quem prejudicar o partido;


e) definir as estratégias gerais para alcançar os objectivos do projecto claramente descritos;


f) educar o povo politicamente e elevar a consciência nacional;


g) incentivar actividades com movimentos progressistas noutros lugares;


h) promover o socialismo científico e o Marxismo-Leninismo, que se aplicam às condições objectivas e subjectivas no Zimbabué.


A autoridade final cabe ao Comité Central da UNAZ, cujos membros estão nas prisões. Depois de 1965 (DUI - Declaração Unilateral de Independência), estes membros lideraram na tarefa da revolução. Um Conselho Revolucionário foi estabelecido no dia 29 de Abril de 1966. Várias batalhas heróicas foram travadas e ganhas. Muitos planos estratégicos foram concebidos. No geral, foi estabelecida uma fundação sólida para o progresso da luta.


"Dare re Chimurenga" (o Conselho Superior)


Em Fevereiro de 1969, em Lusaka, Zâmbia, uma assembleia representativa
foi convocada para formar o “conselho da Chimurenga”. Os oito membros eleitos foram responsáveis
​​pela implementação da UNAZ no país, pelo começo da luta armada e pela unificação e libertação das massas do Zimbabué. Deve-se enfatizar que a luta que travamos é uma luta política. Todos os agentes que usamos devem atingir objectivos políticos. Consequentemente, as considerações políticas em cada etapa da luta têm um impacto directo sobre a estratégia, o programa militar e as operações militares. Uma das muitas tarefas do conselho militar é a educação política de todos os quadros e a preocupação em assegurar que os objectivos políticos de qualquer operação militar são compreendidos e apoiados. A sua primeira missão é elevar a consciência política do povo do Zimbabué. Eles também protegem os civis contra as retaliações do inimigo.

A unidade central da ala militar do partido, os Combatentes da Liberdade, estão em todos os aspectos na vanguarda da luta pela liberdade democrática e pela independência nacional. Eles aproveitam todas as oportunidades para desmoralizar os colonos. Os lutadores da liberdade ou guerrilheiros são pessoas com uma personalidade forte, que foram seleccionados a partir de famílias patrióticas no Zimbabué; alguns deles têm desfrutado de uma excelente educação formal e bons empregos como professores, funcionários públicos etc. A guerrilha compreende a ideologia política e o programa do partido.


O ZANLA (Exército de Libertação Nacional do Zimbabué)


O ZANLA é a organização da ala militar da UNAZ. Todos os lutadores da liberdade, quadros políticos e membros da comunidade local
pertencem ao ZANLA. No topo da ZANLA está o Conselho Militar, e o “Conselho da Chimurenga” (Conselho Superior). Ao contrário dos exércitos coloniais que oprimem o povo, o exército do Zimbabué e uma parte da acção patriótica para o derrube do sistema colonial.

Quanto aos soldados inválidos e aos combatentes da liberdade caídos, até agora a UNAZ tem financiado um programa para ajudar famílias e dependentes dos combatentes da liberdade. Durante a revolução, tentaremos proteger os interesses e os direitos das mães e das crianças - especialmente aquelas que são familiares dos combatentes da UNAZ. Os problemas dos refugiados e combatentes da liberdade são bem conhecidos. A UNAZ insiste na plena democracia interna dentro do partido e da ala militar. O povo tem o direito e o dever de participar na tomada de decisões do espaço político e legislativo. Ele faz isso através da eleição directa de líderes do partido. O líder nacional tem também o dever de consultar de vez em quando os chefes dos distritos e províncias sobre as questões políticas e administrativas. Além disso, os funcionários do partido devem agir de forma fiável, honesta, comprometida e executar e aceitar as decisões da maioria dos seus órgãos.
Dentro do quadro do partido, um núcleo de homens disciplinados serão seleccionados pelos gestores distritais para realizarem as tarefas específicas, dependendo dos requisitos da situação.



III. As tarefas presentes


A tarefa mais urgente do partido é a luta armada no Zimbabué para libertarmos o nosso país. Já em 1964 o presidente Sithole chamou a si mesmo todo o povo do Zimbabué numa luta prolongada usando tudo o que encontrasse - pedras, machados, arcos e flechas, lanças e, possivelmente, armas e explosivos caseiros. Na realidade, os primeiros homens brancos que foram mortos em 1964 em Melsetter, foram-no com armas tradicionais, um com uma seta, outro com uma faca caseira. Não é necessário ter uma espingarda automática para participar no "Chimurenga". O valente Mau Mau do Quénia não tinha armas modernas.

O nosso povo deve aprender a organizar a luta de libertação. O povo do Zimbabué deve, pelos seus próprios esforços, conseguir a sua liberdade. Temos que contrabalançar a superioridade tecnológica dos colonos com a nossa vantagem numérica construindo uma organização guerrilheira superior.
A nação está em guerra popular. A resistência popular já chegou a todos os cantos do país e em Salisbúria e Bulawayo já houve várias greves e ocupações a fim de protestar contra a lei da terra.


A frente militar no próprio país iniciou-se em 1964 e em 1966 num confronto com os colonos brancos e com a máquina militar da Rodésia e da África do sul que atacavam países independentes. Na frente internacional, a UNAZ avançou com a cooperação com os movimentos e governos em países socialistas da Europa Oriental, Ásia e África, e com algumas organizações progressistas nos países capitalistas.


Também nos esforçamos por consciencializar os outros acerca dos crimes que são cometidos contra a maioria da população do Zimbabué - a 5 milhões de pessoas. O partido é fortemente dependente de assistência financeira e material generosa fornecida por amigos, países e organizações, especialmente a Organização da Unidade Africana.



IV. Os objectivos políticos


O principal objectivo da nossa revolução política é a construção de um país
livre, democrático, independente e socialista e a eliminação da dominação política dos estrangeiros e dos seus aliados capitalistas. O objectivo é a independência nacional. O povo do Zimbabué e tem uma longa tradição de auto-governo com os reinos poderosos e famosos do Monomotapa dos povos Shona nos séculos XVI e XVII. Todos os cidadãos do Zimbabué devem contribuir a vida política. Isto aplica-se à eleição dos membros da Assembleia Nacional e de todas as outras instituições estatais. A presente Assembleia Nacional será dissolvida e as leis discriminatórias serão declaradas nulas e sem efeito. O controlo do poder do Estado - o legislativo, administrativo, judiciário, do exército e da polícia - está nas mãos de todos os cidadãos do Zimbabué. Todas as pessoas, homens e mulheres devem ser completamente iguais. Ninguém será autorizado a explorar os outros para o seu benefício pessoal.
Amplos direitos democráticos - o direito à liberdade de expressão, imprensa, de reunião e de associação, liberdade de movimento - serão dados ao povo numa sociedade livre, democrática, independente, socialista. Todos os presos políticos serão libertados. Os campos de concentração e de internamento serão fechados.



V. A construção de uma economia socialista


A economia de um Zimbabué livre, democrático, independente e socialista vai ser projectada para que as necessidades básicas de cada agricultor e trabalhador sejam satisfeitas. No Zimbabué, há ricas reservas naturais, o que é suficiente para a satisfação das necessidades básicas da população. Todos os meios de produção e do aparato de distribuição estão nas mãos de todo o povo. O sistema capitalista económico actual, em que uns poucos colonos na Rodésia e capitalistas na África do Sul, Inglaterra e EUA dominam tudo será eliminado em favor de um sistema que beneficie as massas de trabalhadores.
Um verdadeiro sistema socialista será construído de acordo com os princípios Marxistas-Leninistas. A UNAZ foi guiada por estes princípios nas suas políticas para as condições específicas de Zimbabué, por causa da grande contribuição dos trabalhadores e camponeses para o funcionamento dos meios de produção
e do aparelho de distribuição. Os interesses dos trabalhadores e camponeses na economia do Zimbabué têm prioridade absoluta. Ela será uma economia independente, e não um enclave dos Britânicos, Sul-Africanos e das economias ocidentais.
Os cinco milhões de pessoas que constituem o povo do Zimbabué devem trabalhar para servir a nossa nação. No sistema actual, o sistema de lucro aliena o trabalho dos Africanos. Tal alienação destrói a personalidade humana e do trabalhador.

Além disso, cada trabalhador é parte da comunidade na qual vive e trabalha. Por isso, todas as leis trabalhistas opressivas devem ser abolidas. Privilégios de exploração e de classe não serão tolerados. O poder de estado será usado para organizar a economia em benefício de todos os cidadãos e para evitar o aparecimento de qualquer classe privilegiada. Um factor importante é a propriedade. Ela desempenha um grande papel na política das sociedades capitalistas. No Zimbabué, a propriedade representa a manutenção dos valores de uma das principais barreiras políticas, económicas e sociais entre os colonos e os Africanos. A propriedade é um factor de exploração e de opressão.
A participação do povo em todas as fases de desenvolvimento do nacional da economia será extensa e permanente. A nação será a proprietária dos meios do aparelho de produção e distribuição. Além disso, ela terá um controlo geral sobre a economia. Em qualquer empresa industrial, comercial ou agrícola, os comités compostos por trabalhadores participarão na gestão da empresa. Da mesma forma, serão estabelecidas leis de participação do estado nos lucros privados.



VI. O país e o povo


Todos os recursos naturais do Zimbabué - a terra, os minerais, água, flora
e fauna são do povo de Zimbabué. Portanto, não pode haver propriedade privada da terra. O Estado gere a terra e os latifúndios e os bens dos capitalistas serão eliminados.


O latifúndio é incompatível com a liberdade e igualdade. Os colonos brancos forçaram os negros a saírem das suas terras tradicionais para formarem latifúndios, mas agora os camponeses negros terão a sua terra de volta e as suas necessidades serão satisfeitas segundo o princípio “a terra a quem a trabalha!” Deve ser enfatizado que a terra fértil do Zimbabué é uma dádiva que deve ser utilizada pelas gerações. A erosão do solo e as queimadas destroem grandes áreas de estepe. A deve saber apreciar e proteger os recursos naturais e também as florestas e os rios.



VII. A educação nacional


Todos os trabalhadores e os agricultores têm o direito a uma boa educação.

Num Zimbabué livre, democrático, independente e socialista
ser-lhes-á dada a possibilidade de receberem treino adequado em conformidade com as necessidades e capacidades da nação. Centros de estudos para adultos e jovens serão financiados, tal como aulas de educação física. Práticas discriminatórias no sistema educacional – como sucede actualmente, quando as escolas e hospitais estão divididos por motivos raciais e onde só os europeus recebem uma educação que é constantemente negada aos Africanos – não serão toleradas, pois só servem para fornecer mão-de-obra barata ás empresas Europeias.


O nosso objectivo é proporcionar aos cidadãos a responsabilidade de participar na vida económica, política, cultural e social do país. As empresas vão usufruir de mão-de-obra qualificada. Nós precisamos de uma “Chimurenga” educacional atenta às necessidades do país. Todas as áreas onde os guerrilheiros operam são uma grande escola, onde os problemas e as necessidades dos agricultores e dos trabalhadores são discutidos e analisados
​​e as soluções são encontradas.
"Chimurenga" é, portanto, um projecto educacional. Uma vez que os colonos sejam expulsos de uma área particular, a guerrilha deve estabelecer uma escola para todos os filhos de camponeses e trabalhadores da área. A Universidade do Zimbabué será construída para homens e mulheres que vão servir os agricultores e os trabalhadores e ajudarão a resolver os seus problemas concretos. O objectivo da educação universitária não é promover altos funcionários, mas sim criar assessoria técnica no desenvolvimento das vilas e cidades.



VIII A nova cultura do Zimbabué


80 anos de colonização têm distorcido a consciência do nosso povo através de um processo de alienação cultural. O teatro dos colonos, o seu cinema, média, literatura, escola e a igreja reuniram a falsa impressão que a cultura estrangeira é boa e a nossa não é. Num Zimbabué livre, democrático, independente e socialista, o povo vai ser incentivado e apoiado para estabelecer uma nova cultura com o melhor da nossa história, segundo as necessidades da nova sociedade socialista.


Estamos preparados para aprender os costumes de outros povos e culturas do mundo, em particular de outras partes da África, e vamos usar esse conhecimento para melhorar a nossa própria história. A luta armada é a libertação do nosso povo da mentalidade colonial dos últimos 80 anos. A descolonização mental é uma parte necessária da nossa luta. Muitos eleitores estão envolvidos na criação de uma nação, como uma história e cultura comum num esforço conjunto por um ideal comum, mas acima de tudo, contra um inimigo também comum.

A "Chimurenga" forma uma parte importante do nosso programa de re-educação para a descolonização mental e a formação de uma nação. O foco da nova cultura do Zimbabué está na comunidade. Os novos filmes, teatros, os meios de comunicação, a literatura e as escolas são a riqueza da nossa vida em comunidade e devem reflectir a confiança do cidadão em si mesmo e na defesa do bem-estar e segurança da comunidade.



IX. Fortalecer a unidade, a igualdade e acabar com a discriminação racial


Uma característica central do sistema social actual é a detestável política de discriminação racial e de apartheid. Um extenso corpo de lei separa os Africanos dos Europeus. A classe branca economicamente privilegiada e politicamente dominante e proíbe toda a concorrência por parte da maioria formanda pelos indígenas Africanos. Os resultados desta política são a estagnação económica e social dos Africanos. A segregação racial foi praticada pelos colonos desde 1890, e ela intensificou-se em 1930.


A discriminação racial pode muito bem coincidir com o capitalismo, mas é totalmente incompatível com o verdadeiro socialismo. O Zimbabué livre, democrático, independente e socialista rejeita totalmente qualquer tipo de discriminação racial, e exige que aqueles que a defendem sejam levados á justiça, como os líderes nazistas em Nuremberga.


Qualquer emprego e legislação sindical discriminatórios são revogados juntamente com todas as outras práticas de exploração. Será introduzido um sistema de salário justo, com pensões de reforma para os trabalhadores mais velhos e de compensação para os deficientes. Para as pessoas que por causa da idade ou por causa de deficiências físicas não podem trabalhar, haverá um sistema de assistência social que também será aplicado ás mães. O país nunca será livre e socialista se se mantiver alguma forma de discriminação por razões raciais, étnicas ou regionais. As barreiras raciais e étnicas existentes são trabalho dos opressores – os colonos. Elas devem ser abolidas para garantir a liberdade e a segurança completa de todos os cidadãos. As organizações tribais serão proibidas, mas a cultura tribal será admitida desde que compatível com os objectivos do novo Zimbabué socialista e independente que lutam contra os racistas, os imperialistas e todos aqueles que os apoiam.



X. Assuntos Internacionais e Pan-Africanismo


A política externa da UNAZ é determinada por dois princípios básicos:
a luta contra o imperialismo e a união com todas as outras forças progressistas do mundo. Seria ilógico lutar na África contra o imperialismo, mas ignorá-lo em todas as outras partes do mundo. Os problemas do nosso país são um resultado directo do imperialismo Britânico. A partir do dia em que Cecil John Rhodes, o líder imperialista Britânico do século XIX, enviou uma coluna de pioneiros para ocupar a Rodésia até á declaração de independência de Ian Douglas Smith em 1965, o lucro financeiro, a busca do ouro e de outros recursos minerais foi a força motriz por trás da colonização. Europeia A farsa das sanções económicas e as conversas sobre o "Tiger" e o "Fearless" (1) esconderam a culpa do imperialismo Britânico.


A s vendas de armas para a África do Sul e os investimentos recordes de capital Inglês na África do Sul – que hoje são cerca de 1 000 milhões de dólares
– são prova suficiente de que este país é um enclave do capitalismo e do imperialismo Britânico. A UNAZ é um partido pan-Africanista. Ela considera a África como um continente oprimido. O elemento comum não é a cor da pele, os costumes ou os pontos de vista dos 40 governos da OUA, mas a opressão comum e secular. A UNAZ apoia plenamente a contínua procura de uma unidade real e de uma política claramente definida. A UNAZ apoia a política da OUA e pretende realizar a cooperação económica e cultural com outros países Africanos.
Durante a actual luta de libertação nacional, os combatentes da liberdade devem mater os contactos mais próximos possíveis com as áreas adjacentes da África do Sul. Os membros do UNAZ que emigraram devem manter relações cordiais e amistosas com todos os cidadãos do país de acolhimento, Eles são incentivados a voltar para sua terra natal e a participar na luta. A UNAZ desaprova a política de cooperação com os estados racistas. A UNAZ reconhece as razões dos signatários do Manifesto de Lusaka (2), no entanto, ela reafirma o seu compromisso com a luta armada. O nosso objectivo é um Zimbabué livre, democrático, independente e socialista. Internacionalmente, vamos trabalhar de perto com os movimentos progressistas em defesa da independência e integridade territorial do Zimbabué. A UNAZ está também disposta a cooperar com outros governos na África e em todo o mundo que apoiem a nossa causa e não ajudem os nossos inimigos.



Conclusão


É a intenção declarada da UNAZ a de fundar um Zimbabué livre, democrático, independente e socialista. O programa apresentado nos capítulos anteriores traça a tarefa de fazer esta gloriosa revolução que requer o esforço conjunto de todas as pessoas no Zimbabué. Nós temos os meios! Nós temos o povo! Nós temos a organização! Nós só precisamos de vontade política e de determinação para ter sucesso!


1/8/1972


(1)"Tiger" e "Fearless" são os nomes dos navios Ingleses que fizeram a correspondência entre Wilson e Ian Smith, em 1966 e 1968, para a resolução do conflito Anglo-Rodésia que ocorreu naquela época.


(2) O chamado "Manifesto de Lusaka", que foi aprovada em Abril de 1969 pela OUA, diz-se no capítulo 16 o seguinte: "Na Rodésia, levanta-se a questão de saber se devemos reconhecer a autoridade da Grã-Bretanha na Rodésia para aplicar pacificamente o princípio da maioria e, finalmente, para negociar a independência. No que diz respeito á Grã-Bretanha, ela tem a obrigação de fazer valer a sua autoridade na Rodésia (…). (Anm. der Red., zit, nach: Politische Perspektiven Afrikas, J.J Vianney, Bonn 1972, S. 522).“



 

 

A Crítica da UNAZ ao CNA


Fonte: Zimbabwe News, o órgão central da UNAZ, Volume, 1, 1 de Novembro de 1973.


O bispo Muzorewa, o CNA e os sinais do diálogo


A UNAZ sempre se absteve de criticar as actividades dos outros grupos Africanos contra o regime racista de Ian Smith. A UNAZ acredita que cada forma de protesto ou operação contra o regime racista é em benefício do Zimbabué. Isto pressupõe, todavia, que o povo não será enganado. Este ano, a UNAZ foi forçada a pronunciar-se relativamente ás críticas do bispo Muzorewa de que as nossas acções militares nas regiões norte e nordeste do Zimbabué são prejudiciais e designou os combatentes da liberdade como terroristas. Desde então, a UNAZ tem mantido o silêncio. O CNA tem representado uma linha que, obviamente, causa danos á luta de libertação. O CNA tem-se envolvido em atitudes reaccionárias, contra-revolucionárias e oportunistas, representando os capitalistas Britânicos e Americanos e sendo elogiado pelos imperialistas por ser tão "razoável" e "moderado". Encorajados e intoxicado por estes elogios, eles pensam que podem decidir sobre o futuro do Zimbabué, incentivando os líderes da UNAZ a cometerem crimes contra a revolução.


Assim, em Julho do ano passado, os líderes do CNA iniciaram um diálogo com o líder racista da Rodésia, Ian Smith, que foi reivindicado pelo bispo Abel Muzorewa. Em 25 de Agosto de 1973, um porta-voz do CNA, disse que os Africanos queriam compartilhar com os brancos o poder político. "Os europeus precisam de entender que nós não estamos a propor o domínio negro. Falamos da partilha de poder ", disse ele.


O CNA assinou um acordo com os racistas em Setembro. O pacto conta com 12
princípios com base no consenso atingido. Nenhuma destes 12 princípios se relaciona com o sistema de distribuição de terras, a pedra fundamental da supremacia branca. Todas essas tácticas e manobras dos líderes do CNA só beneficiam o inimigo. Por um lado, a UNAZ diz que o Zimbabué só se pode libertar pelas armas, mas por outro o CNA fala de mudança pacífica e de partilha de poder com os brancos. Estas posições conflituantes precisam de ser esclarecidas. A experiência da resistência nos últimos dez anos tem mostrado que os nossos objectivos só podem ser alcançados pela luta armada. Todas as outras posições são erradas. Assim, a linha correcta que se encontra no Zimbabué é a seguinte:


a) Apenas a revolução armada vai libertar o Zimbabué. Esta é a política do partido desde a sua criação, em 1963;


b) Não há diálogo com o regime de Ian Smith. Não podemos dialogar com um criminoso.

A única linguagem que lan Smith entende é a violência física. Portanto, a UNAZ responde a Smith com balas e armas e não com palavras;


c) Não deve haver partilha de poder entre os Africanos e os brancos no Zimbabué. O Zimbabué é um país Africano e como tal os Africanos são os seus legítimos proprietários. A política da UNAZ foi inequívoca neste sentido;


d) Não deve haver alianças com partidos políticos brancos. A aliança entre o CNA e os grupos brancos coloca em risco a nossa política e a luta de libertação do povo do Zimbabué.



e) A discussão para resolver o conflito no Zimbabué, deve levar a um cessar-fogo total em todo o país precedida;


f) Qualquer discussão deve proceder de duas posições:


(I) O poder político ser imediatamente transferido para as mãos dos Africanos e
(II) a terra pertence ao Estado e ele distribui-la-á aos indivíduos de acordo com as suas necessidades.



Perante isto, o CNA deve ser visto como um oponente sério que coloca a revolução do Zimbabué em grave perigo. O CNA defende que os partidos que mostrem o menor sinal de radicalismo devem ser banidos, mesmo nas difíceis condições impostas pelo regime racista da Rodésia. Mas que autoridade tem uma organização que defende a partilha de poder com assassinos estrangeiros, exploradores e opressores? Os líderes do CNA desviam-se de princípios importantes e dividem o povo do Zimbabué sobre os nossos objectivos. Eles no fundo defendem a política dos brancos reaccionários da Rodésia.
Sabemos que em Bispo Muzorewa condenou a nossa política. Mas Edison Zvobgo, um membro fundador do CNA, lembrou ao bispo: "Nós devemos recordar de que declarámos lutar pelo estabelecimento de um Conselho político e pela criação de uma ordem social justa. Nós não exigimos nada menos do que a auto-determinação. Recentemente, os relatórios do CNA indicaram que ele estaria disposto a contentar-se com muito menos do que um governo de maioria. Isso seria uma catástrofe. Joshua Nkomo aceitou a Constituição de 1961. Eu quero evitar isso. Quero ser consistente." Enquanto o bispo está disposto a abandonar o princípio da regra da maioria, os líderes radicais do CNA insistem ainda no princípio de "um homem - um voto". Mas a maioria dos líderes do CNA suplica atrás das grades racistas por um diálogo. Esperamos que os líderes do CNA resolvam voltar á luta armada como o único meio eficaz para a libertação do Zimbabué. Mas nós esperamos que eles estejam conscientes dos graves problemas que enfrenta a população do Zimbabué. A este respeito, o trabalho de alguns deputados em Salisbúria é louvável. Alguns dos membros Africanos do parlamento levaram á discussão pontos específicos e importantes como a prisão dos combatentes pela libertação e a adesão de estudantes Africanos aos protestos na Universidade de Salisbúria. Um membro do Parlamento ainda pediu uma investigação sobre os distúrbios na Universidade. A legislação de segurança foi severamente criticada, tal como a pena de morte. No passado, alguns dos membros Africanos do parlamento condenaram as “punições colectivas" e outras acções criminosas por parte do regime racista. Estes são passos concretos que contribuem para esclarecer acerca dos problemas no Zimbabué. Se o CNA não consegue cumprir o papel de defensor dos direitos dos Africanos, seria melhor que se dissolvesse em vez de espalhar a confusão. Um partido político que não é capaz de organizar uma greve ou até mesmo uma manifestação pacífica não é apenas inútil, mas também prejudicial. Os líderes do CNA fingem servir os interesses dos povos Africanos, quando na verdade tentam salvar a sua própria pele e os interesses dos capitalistas e dos imperialistas.

 

 

 



Os objectivos do desenvolvimento da luta de guerrilha no Zimbabué


fonte: Zimbabwe News, Volume 8, No 3, Março de 1974

 

 

Os objectivos do desenvolvimento da luta de guerrilha no Zimbabué


A guerra de guerrilha na África é um fenómeno novo. Como o marxismo, a sua influência em África só se fez sentir após a Segunda Guerra Mundial e até meados dos anos 60 ela não foi um factor decisivo. Até então, a luta na África foi em grande parte ao nível constitucional, i.e. com os partidos nacionalistas a solicitarem a entrega do poder aos Africanos. Excepto na Argélia, e de uma certa medida, no Quénia, durante o movimento Mau Mau, a luta pela independência na África decorreu pacificamente. Em contraste, a luta na África do Sul no Zimbabué, África do Sul. Moçambique, Angola, Namíbia e Guiné-Bissau – foi difícil, sangrenta e prolongada. A intensidade da luta nestas áreas foi devida à presença de muitos colonos brancos e ao forte envolvimento económico, político e militar das potências colonialistas e imperialistas - Grã-Bretanha, EUA, Portugal, França e Japão.


Depois de uma tentativa frustrada de usar tácticas que haviam sido praticadas noutras partes da África, os partidos nacionalistas da África Austral entenderam a importância da luta de guerrilha. No Zimbabué, a luta de guerrilha foi introduzida em 1966. Anteriormente, a luta estava limitada a actos de resistência, de sabotagem e ataques isolados a colonos brancos. Mas no dia 28 de Abril 1966, nasceu o ZANLA (o exército de Libertação nacional do Zimbabué) que se envolveu em confrontos violentos com as forças de segurança da Rodésia, provocando-lhes grandes perdas em várias áreas do país. Depois de 1968, ocorreram mais incidentes esporádicos, mas foi em 1972, com a abertura da frente nordeste, que uma nova ofensiva começou. Olhando para trás, é claro que é muito fácil alguns dos nossos erros pela fase inicial da guerra de guerrilha no Zimbabué. A nossa fraqueza fundamental era a nossa falta de um análise correcta das classes indispensáveis para a revolução no país. O Povo do Zimbabué tinha um conhecimento extremamente fraco do Marxismo e da guerrilha. Apenas um punhado de pessoas tinham lido obras de Marx, Lenine ou Mao. Influenciados pelo anticomunismo, para a maioria dos nativos do Zimbabué, a libertação nacional era apenas o derrube do regime de colonos brancos sem qualquer alteração da situação social. Só mais tarde é que o povo compreendeu que a destruição do sistema capitalista e a sua substituição por um socialista está intimamente ligada á própria libertação. Durante todo este tempo, foi recolhida uma experiência rica e inestimável.


Uma das lições que aprendemos nesta fase foi que o apoio das massas nunca pode ser tomado como garantido. E sem o apoio das massas não é possível executar a guerra de guerrilha com sucesso. Como Lenine correctamente disse: "As massas que derramaram o seu sangue nos campos de batalha são o factor que nos leva á vitória."


Com base nas lições valiosas do período de 1966 a 1968 e em 1969, a UNAZ aplicou com sucesso a sua estratégia no Zimbabué. No início pecámos por termos um optimismo exagerado. Mas, depois de algumas dificuldades na luta, percebemos que as condições não nos eram assim tão favoráveis e que era preciso adoptar uma estratégia a longo prazo. Nós também nos esforçámos por transformar a nossa luta numa guerra popular voltada para atender as necessidades e os desejos do povo.


Os nossos lutadores não são apenas soldados, mas também os líderes que mais testemunham o sofrimento das massas às mãos dos seus opressores e exploradores. A pedra fundamental da guerra de guerrilha é a criação de áreas de base.


Estas são bases estratégicas das quais partem os guerrilheiros no cumprimento dos seus objectivos estratégicos de expandir a sua influência e de destruir o inimigo. Esta estratégia está em total contraste com as invasões palacianas características dos bandidos, aventureiros e oportunistas. Por esta razão, o UNAZ preparou durante três anos (1969 – 1972) um combate clandestino e intenso em benefício do sucesso da luta armada no Zimbabué.
Durante estes anos, a UNAZ trabalhou com as massas na base e fez grandes esforços para recrutar homens e mulheres para o treino militar e paramilitar, garantindo também o fornecimento de armas, alimentos, medicamentos e roupas para os teatros de operações. Acima de tudo, eles enviaram centenas de lutadores bem monitorizados para as áreas de operação.


As muitas vitórias que conquistámos sobre as tropas inimigas provaram o acerto da estratégia da UNAZ no Zimbabué. Hoje, a UNAZ luta no norte, nordeste e leste do país. Hoje, o inimigo teme a UNAZ mais do que tudo – e com razão.


H. Chitepo


Discurso do presidente da UNAZ ao 6º Congresso Pan-Africano


fonte: Zimbabwe News, Volume 8 No 6 – Junho de 1974


O Congresso teve lugar entre os dias 19 a 27 de Junho de 1974 em Dar es Salaam (Tanzânia).


[Herbert Chitepo foi assassinado num atentado em Lusaka no dia 8 de Março de 1975]


Discurso do Presidente Nacional da UNAZ, o camarada H. Chitepo, ao 6º Congresso Pan-Africano


Em nome da União Nacional Africana do Zimbabué (UNAZ), o nosso presidente, o camarada Ndabaningi Sithole, em nome do Comité Central do UNAZ, cujos membros estão actualmente sob custódia, do Conselho Supremo (o conselho da
Chimurenga) e das massas trabalhadoras do Zimbabué eu quero saudar sua excelência Mwalimu Ndugu, o Presidente da República Unida da Tanzânia, Julius Nyerere, presidente da TANU, o povo da Tanzânia e os nossos irmãos e irmãs do continente Norte-Americano e do Caribe que enfrentam o racismo. Este sexto Congresso Pan-africano enviar saudações a todos eles.



A importância do sexto Congresso Pan-Africano


O sexto Congresso Pan-Africano é um evento de importância histórica.
Ele realiza-se numa fase histórica do processo de descolonização na África, Ásia e América Latina.

Desde o último Congresso, em 1945, ocorreram eventos importantes para as forças anti-imperialistas e anti-colonialistas no subcontinente Indiano e na Indochina. O imperialismo Britânico, FrCNAês e Americano sofreram pesadas derrotas. Após 1945, houve um renascimento do movimento “Black Power” nos EUA e no Caribe. No entanto, o sul da África permaneceu sob o domínio colonial e imperialista. Mas também nestas áreas, a situação estava madura para a revolução.


Os movimentos de libertação nacional infligiram aos fascistas brancos uma pesada derrota e quebrou os laços da união entre Lisboa, Pretória e Salisbúria. O golpe militar em Portugal de 25 de Abril de1974 causou a retirada dos soldados das colónias Portuguesas, o que enfraqueceu os regimes de Pretória e de Salisbúria. Isto foi um grande passo em frente para os movimentos de libertação em África e no mundo. O próximo Congresso Pan-Africano será uma conferência tanto de líderes negros como de líderes de movimentos de origem Africana contra o colonialismo, a escravidão e o racismo, pois estes males ainda não estão erradicados. Actualmente, temos os regimes de Vorster e de Smith que defendem a escravidão e a exploração dos negros. Mesmo após o racismo estar aparentemente enterrado, os exploradores continuam a atingir os seus objectivos. Assim, a nossa luta é parte da luta histórica, em todo o mundo, entre as forças do progresso e as forças de reacção, entre as classes exploradas e as classes exploradoras, entre a classe operária e a burguesia em todo o mundo. O objectivo desta luta é a solução das contradições sociais e económicas.



A importância do Pan-africanismo


Para nós, o Pan-africanismo significa solidariedade, unidade e identidade entre os povos Africanos e os povos de ascendência Africana. Os negros estão unidos pela sua cor da pele, história e identidade cultural. O Pan-africanismo também é uma expressão do desejo dos povos e nações Africanas de se libertarem das algemas do capitalismo, racismo e imperialismo.


Estamos de acordo com o irmão morto, George Padmore, de que o Pan-africanismo é uma rejeição "tanto do racismo branco como do chauvinismo negro.” O Pan-Africanismo representa plena igualdade e respeito pela dignidade humana. O Pan-africanismo rejeita os estreitos pontos de vista de etnia, religião e classe. Só se nos unirmos é que o mundo compreenderá a importância da luta de libertação na África, América Latina, Ásia e noutras partes do mundo. Os Africanos não lutam apenas pelos seus direitos, mas sim pelos direitos universais. Nós no Zimbabué lutamos sob a liderança da UNAZ contra o imperialismo e o racismo e esperamos que esta conferência marque um ponto de viragem na táctica revolucionária global.



Estratégia global contra o imperialismo


O que fazer para implementar uma eficaz estratégia anti-imperialista mundial?

Nós da UNAZ acreditamos que o apoio material e humano ao nosso movimento e a todos os movimentos de libertação e o combate anti-capitalista em todas as frentes é a melhor estratégia – mesmo na Europa e na América do Norte. Em áreas como a África e América Latina, os esforços anti-imperialistas deveriam ser mais concertados, pois essas regiões serão o ponto de partida para o ataque final contra o imperialismo. Os povos e os movimentos de defesa dos povos oprimidos devem apoiar-se uns aos outros. As áreas subdesenvolvidas fornecem bases e pontos de partida para a luta dos povos reprimidos. Se cortarmos os tentáculos do imperialismo a partir da sua periferia, privamos a classe trabalhadora branca nos países capitalistas do seu alto padrão de vida que resulta dos elevados lucros das multinacionais. Somente quando as classes trabalhadoras negras e brancas reconhecerem o seu inimigo comum é que elas se vão unir para derrubarem o sistema capitalista. Esta é a nossa estratégia global contra o racismo, o capitalismo e o imperialismo.



A revolução no Zimbabué


Passemos agora à situação concreta no Zimbabué. Consideramos a nossa luta no Zimbabué como um pequeno contributo para a libertação do continente Africano, dos povos de ascendência Africana e de toda a humanidade. A luta no Zimbabué e na África Austral é uma luta entre uma classe exploradora e uma classe explorada. Os exploradores que mantêm o poder militar e económico nas mãos são exclusivamente brancos. Os povos explorados são todos os Africanos negros. A luta no Zimbabué é uma guerra racial. O racismo branco é um resultado da irracionalidade do capitalismo. A concentração dos meios de produção nas mãos e dos produtos do trabalho humano nas mãos da Europa Ocidental, EUA e Japão conduz á ruína de muitas áreas subdesenvolvidas do mundo. A situação no Zimbabué não é, portanto, excepcional. Mas nós lutamos para mudar a sociedade. Nós chamamos a nossa revolução de “Chimurenga”, que significa luta revolucionária e popular. Nós queremos que o povo do Zimbabué construa um novo país guiado pela teoria Marxista-Leninista, que lute contra o actual regime colonialista e pelo socialismo. Actualmente, estamos a meio da fase de transição para a revolução democrática e nacional. Queremos dizer que a nossa revolução não inclui só os trabalhadores, camponeses, a pequena burguesia, mas também a burguesia nacional e outras forças patrióticas e democráticas que se unem por um propósito comum. O Zimbabué tentou pela primeira vez obter a independência política através do CNA - Congresso Nacional Africano (1957 a 1959), em seguida, pelo PDN - Partido Democrático Nacional (1959-1961) e ZAPU - União Popular Africana do Zimbabué (1961-1962) por métodos reformistas e de negociações com os imperialistas. Eles não foram bem-sucedidos. Portanto, a UNAZ foi fundada sob o lema da Chimurenga e da luta armada.

Usando armas modernas, a ZANLA foi fundada em 1966 e entre 1966 e 1969, as nossas tropas lutaram bravamente e corajosamente em várias cidades e pontos do país. Mas os nossos sucessos foram limitados e esporádicos. A luta não teve continuidade. Nós aprendemos que para vencer temos de contar com o apoio das massas, que é preciso inculcar-lhes consciência política e ideológica para que se ergam. "As massas que derramaram o seu sangue nos campos de batalha são o factor que nos leva á vitória." (Lenine) e “As massas são o nosso bastião de ferro." (Mao Zedong).

Em 1969-1972, a UNAZ penetrou secretamente no Zimbabué, e fez uma política de propaganda intensiva. No final de 1972 tínhamos no Zimbabué muitas células unindo um grande número de agricultores e de trabalhadores que apoiavam as nossas operações militares. Nós conseguimos causar o pânico entre as fileiras de Ian Smith.


Não passa uma semana sem que causemos a destruição de um veículo por minas terrestres, um ataque ou uma escaramuça. Dentro de dois anos, aumentaremos a nossa actividade sobre uma área de cerca de 50 000 milhas quadradas nas quais vivem cerca de 2 milhões de Africanos. Smith teve que admitir que o verdadeiro segredo do nosso sucesso é a colaboração entre os combatentes da liberdade e os trabalhadores e camponeses sobre a base de uma ideologia política comum. Smith tentou deter-nos por todos os meios possíveis de repressão. Ele intimida a população fechando as suas escolas, hospitais e mercados, confiscando a propriedade dos Africanos e exterminando comunidades inteiras. A prisão de Salisbúria é um verdadeiro matadouro humano, onde os adversários Africanos do regime são enforcados. Smith também introduziu o trabalho forçado e os campos de concentração. Ele aumenta constantemente o orçamento da defesa e recruta mercenários brancos na Europa. Mas o povo do Zimbabué não se deixa intimidar.


Apesar do apoio, que os colonos recebem da África do Sul, as suas forças estão num impasse. Os nossos sucessos são o resultado de uma avaliação crítica das nossas estratégias. 1969 foi, portanto, um ano crucial na nossa luta revolucionária. Nesse ano, foram lançadas as primeiras tropas de choque do ZANLA constituídas pelos trabalhadores e camponeses. E hoje, o nosso povo deve expandir a luta armada e fazer a guerra popular. Nós combinamos a política e o combate militar, como é típico das tácticas de guerrilha. Para nós, o partido tem autoridade sobre as armas. Os nossos soldados lutam contra a opressão e os abusos dos racistas, mas também contra o sentimento de capitulação e as tendências anti-militaristas nas nossas fileiras. Por outro lado, os elos mais fracos da cadeia imperialista mundial são as nações subdesenvolvidas e, portanto, o ponto de partida na nossa luta contra o regime minoritário de Salisbúria. Nós temos o apoio dos outros países Africanos, dos países socialistas e de grupos e organizações progressistas na América do Norte. Nós também aprendemos que os povos Africanos e os povos de ascendência Africana se devem apoiar uns aos outros contra o capitalismo, o racismo e o imperialismo. Mas a verdade é que a ajuda internacional pode ter apenas um papel de suporte. A chave para a nossa liberdade está nas nossas próprias forças, nos nossos esforços, no nosso próprio sangue derramado, nas nossas capacidades criativas e também nos ensinamos que retiramos das experiências revolucionárias dos outros povos. Somente com base nas nossas próprias forças podemos liderar a luta de forma independente e autónoma para alcançarmos a independência real. O nosso presidente, o camarada Ndabaningi Sithole, afirmou há dez anos: "Sem auto-libertação, nós nunca alcançaremos a independência. (…) Nós somos os nossos próprios libertadores.” Desde então, este slogan tem sido a pedra angular da política da UNAZ.
Finalmente, queremos aproveitar esta oportunidade para avisar Ian Smith que os seus dias no Zimbabué estão contados. Os ataques da UNAZ aos colonos brancos no Zimbabué aumentam implacavelmente. Nós nunca cairemos no erro de abandonar a luta armada, como propõem o bispo Muzorewa e o CNA, que defendem os métodos “legais” de luta e que aceitam condições que prejudicam o povo do Zimbabué. Na realidade, isto prova que eles não seguem o espírito do Pan-africanismo.


Viva o espírito do Pan-africanismo!


Viva a Revolução em África!


Viva a luta dos negros de todo o mundo!


Vivam as forças progressistas do mundo!


Viva a UNAZ!


VIVA O PRESIDENTE SITHOLE NDABANINGI!


VIVA A CHIMURENGA!

 

 


 

 

História do colonialismo no Zimbabué


(1974)


A história do colonialismo no Zimbabué



A conquista colonial


Há cerca de 90 anos atrás, as potências Europeias concordaram na Conferência de Berlim de 1884/85 distribuir a África entre as suas esferas políticas e económicas de influência. Com isto, elas pretendiam ter acesso garantido ás matérias-primas da África. Naquele tempo, o Reino Unido dominava e Cecil Rhodes sonhava com uma política colonial “do Cairo ao Cabo” (a África do Sul estava sob administração Britânica desde 1815). Cecil Rhodes, foi primeiro-ministro da África do Sul entre 1890-1896, onde teve grande influência na mineração de diamantes e na indústria do ouro teve. O Reino Unido sonhava em explorar ao máximo os recursos da área onde hoje se situa a Rodésia, a Zâmbia e o Malawi.


Em Outubro de 1888, Rhodes celebrou um contrato com Lobengula, o governante de Ndebelreiches (a parte sul da Rodésia), que lhe garantiu direitos exclusivos de mineração dos depósitos de ouro em terra dos Ndebele Shona - a segunda maior tribo do país. Rhodes fundou a "Companhia Britânica Sul-Africana” (CBSA) e obteve em 1889 a administração do território a norte da Colónia do Cabo e Transvaal até Moçambique. Ele estabeleceu leis para estabelecer uma força policial, para organizar os primeiros colonos Europeus e para construir caminhos-de-ferro e linhas telegráficas. A CBSA teve, além disso, o monopólio sobre a mineração e o comércio. Em Fort Salisbury, a bandeira Britânica foi içada no dia 12 de Setembro de 1890 e declarou-se a ocupação de Shonalandes em nome da rainha Britânica.


Em 1892 começou uma guerra contra Lobengula que levou á sua morte. As leis promulgadas posteriormente pela Rhodesian Trading Company, constituem até hoje a base da estrutura política e económica da supremacia branca na Rodésia.



A exploração económica dos povos Africanos


Em 1902, a empresa CBSA conseguiu ocupar 3/4 do país em detrimento das tribos Africanas Ndebele e Shona. Os agricultores Africanos foram discriminados e prejudicados pois tinham de pagar á CBSA rendas elevadíssimas. Além disso, eles tinham que trabalhar para os colonos: "A partir desse momento, o homem branco passou a olhar para os aldeãos Africanos como seus servos. A coerção foi o principal meio de conseguir mobilizar estes trabalhadores negros, que eram forçados a trabalhar para o benefício dos brancos:


(1) A utilização de taxas era tão abusiva que elas consumiam completamente todos os rendimentos dos Africanos.


(2) As rendas são tão elevadas que os Africanos nunca conseguem pagar o preço de compra das suas terras.


A Comissão de Terras da Sociedade CBSA declarou a área Gwai Shangani e e uma área de 6500 milhas quadradas como sendo reservas Africanas. Mas este espaço Gwai não é suficiente para tribos como os Shangani e os Ndebele.


(1) Giovanni Arrighis "Labour Supplies and Historical Perspective: A Study of the Proletaranisation of the African Peasantry in Rhodesia”, The Journal of Development Studies, Número 3, Abril de 1940


(2) ibid


Até 1903-1904, a maioria dos colonos Europeus trabalhavam na mineração de ouro. Em 1903 havia apenas 948 fazendas Europeias, que ocupavam menos de 5 % da área cultivada e representavam menos de 10 % das mercadorias produzidas. Mas depressa a CBSA viu na exploração agrícola a oportunidade para fazer novos lucros.


Número de colonos:


1901 - 11 000


1911 – 23000


1921 – 33800


1941 – 69300


O CBSA focou-se na agricultura capitalista de mercado a partir do modelo Europeu.
Este processo foi muito acelerado pela lei de distribuição de terras de 1930 (prorrogado em 1945, revista em 1961) e Lei da Agricultura nativa de 1951. Mas quais foram as consequências desta política?

Em 1961 os Africanos eram aproximadamente 3.520.000 e os Europeus cerca de 221.000. Os Africanos vivam em áreas de 43,8 milhões de acres, enquanto os Europeus viviam numa área de 41 milhões de hectares. Em 1960 havia nas reservas 1,5 milhões de Africanos trabalhando na agricultura, e a sustentarem as suas famílias nas pequenas parcelas de terra: a Lei da Agricultura nativa concedeu a cada família Africana 6-8 hectares de terra. Mas a verdade é que todos os Africanos da época trabalhavam para os Europeus e perderam os seus direitos de uso da terra. Assim, enquanto as reservas Africanas estavam lotadas, o uso agrícola das terras eram muito baixo para ser económico. No fim dos anos 50, existiam 4 500 fazendas Europeias que pertenciam a apenas 3% a 4% dos Europeus e tinham uma área média de 5.390 hectares.
Até mesmo o gado que era propriedade dos agricultores Africanos foi reduzido:
a cada agricultor só era permitido possuir o mínimo indispensável de gado de quinta. O resto tinha de ser vendido ou abatido. Os agricultores Europeus usaram a situação para conseguir gado a preços muito abaixo do seu valor de mercado.
Devido às leis mencionadas acima, milhares de Africanos foram expropriados e expulsos das suas próprias terras. A Barragem de Kyle permitiu a irrigação de
112 km quadrados da terra onde viviam 30.000 Africanos. Mas o governo vendeu a terra a uma subsidiária da Anglo-American Corporation com uma cláusula de contrato que dizia o seguinte: "O governo vai auxiliar a empresa na selecção de colonos adequados que serão todos de ascendência Europeia." Assim, os 30 000 Africanos foram expropriados, e eles ganham agora como camponeses salários de fome e miséria.


O povo Africano foi discriminado na utilização de produtos agrícolas. Devido à falta de meios de produção, a má qualidade do solo pobre, irrigação inadequada, etc.) é impossível alimentar uma população crescente. O resultado foi que os Africanos foram forçados a recorrer ao trabalho assalariado nas fazendas Europeias, nas minas, etc. De acordo com uma estimativa, 80% dos Africanos com idades entre 20-35 anos e 50% dos Africanos com idades entre 35-39 anos trabalhavam fora das reservas. Nas reservas estão apenas os velhos, as mulheres e as crianças.


Estrutura populacional nas reservas em 1962:


Crianças – 56,0%


Mulheres – 26,3%


Homens – 17,4%


Os pobres trabalhadores Africanos não têm terra e o proletariado industrial Africano não tem segurança social (em caso de acidente, doença, idade ou desemprego) e serviços sociais inadequados (escolas, hospitais, habitação familiar, etc.). Ao restringir as organizações sindicais, os racistas mantiveram a mão-de-obra barata Africana barata e a mão-de-obra branca muito qualificada, criando assim uma extrema diferença salarial entre brancos e negros. Um trabalhador branco ganhou na Rodésia em 1962 uma vez e meia o que ele na Inglaterra, e quatro vezes mais do que um trabalhador Africano.


Ganhos médios anuais em 1962:


Um homem negro na Rodésia: 937,44 DM


Um trabalhador no Reino Unido: 8.704,80 DM


Um homem branco na Rodésia: 13.492,44 DM


Os trabalhadores brancos da Rodésia foram manipulados pelos capitalistas a fim de garantirem os seus próprios interesses contra os interesses legítimos dos seus colegas negros. Dada a "concorrência" da mão-de-obra barata negra, os sindicatos passaram a aceitar apenas membros brancos. Assim, dividiu-se a classe trabalhadora para colocar os sindicatos do lado do capital na opressão política dos povos Africanos.


O governo Britânico manteve plenos poderes políticos e legislativos e na Carta de 20 de Outubro de 1898 estabeleciam-se uma série de proibições e de limitações que não eram aplicáveis a pessoas de ascendência Europeia. De facto, a Carta só aparentemente realizava a igualdade entre todos, porque no primeiro parágrafo era concedido o direito de voto a basicamente todos os residentes da Rodésia. Mas um parágrafo mais tarde, determinou-se que a inclusão na lista de votantes depende de uma alfabetização mínima, logo excluindo todos os Africanos. Sithole Ndabaningi, preso desde há 10 anos e presidente da UNAZ afirmou: "O homem branco veio para a África só para
seu próprio benefício. As vantagens procuradas foram de natureza económica. Ele governou a África para a exploração dos seus recursos naturais." Os colonos brancos quiseram continuar a viver exactamente como na Europa. Este é o verdadeiro propósito da discriminação racial: o racismo é uma ferramenta para o poder político da Europa. O primeiro-ministro Sul-Africano Strijdom declarou firmemente com franqueza brutal: "Os brancos só terão sucesso na África do Sul se conseguirem manter a discriminação racial e o poder nas suas mãos.” De facto, desde 1961, os Africanos são discriminados em termos de voto e continua a sofrer na pele o domínio e a exploração racista no Zimbabué. O Reino Unido sempre apoiou esta situação, mesmo depois da Declaração Unilateral de Independência dos Colonos da Rodésia, com tentativas de mediação por Wilson (1968), Douglas-Home e Heath (1971). O lema dos conservadores e dos liberais no governo da Grã-Bretanha foi manter os Africanos sob o domínio branco em favor do sistema capitalista. Havia também quem defendesse a parceria entre os brancos e os negros. Mas o povo do Zimbabué não desistiu da sua luta, apesar de ainda hoje continuar sob o regime dos colonos que lhe nega a auto-determinação e a independência, tal como refere o presidente da UNAZ, N. Sithole.


A política da Lei Estadual de Emergência


Desde 1959, a Rodésia usou leis de emergência. Em Fevereiro de 1959, o Congresso Nacional Africano foi proibido. Em 1960, o estado de emergência foi declarado pelo em Salisbúria, Bulawayo e Gwelo. Em1961, ocorreu a proibição do Partido Nacional Democrático (PND). A ZAPU foi proibida em Setembro de 1962, tendo o governo usado 20.000 tropas militares e policiais que dispararam gás lacrimogéneo e metralhadoras nos subúrbios negros: 800 Africanos foram presos, 250 em prisão domiciliária. No período entre Janeiro de 1964 e Agosto de 1965, 1.791 Africanos foram detidos sem julgamento. Desde 1965, o estado de emergência é imposto em todo o país. Este regime de terror foi legalizado pela aprovação da lei sobre organizações ilegais e pela lei da prisão preventiva que declara: “Se alguém for encontrado com os livros, contas, documentos, papéis, documentos, bandeiras ou insígnias de uma organização ilícita acredita-se que essa pessoa é um membro da organização até que se prove o contrário.” A Lei de detenção preventiva permitiu ao governo prender os Africanos por tempo indeterminado, relegando-os para guetos e para áreas urbanas sem condições. A polícia tem o direito de interromper um discurso
se o conteúdo não for “adequado”. Mesmo que as autoridades locais dêem permissão para um certo evento, essa permissão pode ser revogada pelo ministro da justiça e da ordem. Não se admitem eventos políticos aos domingos e feriados nem como eventos nocturnos. Assim, todos os trabalhadores Africanos são privados da oportunidade de visitarem eventos políticos. Nos termos do parágrafo 29 da presente lei, comete um crime punível com pena de 3 a 10 anos de prisão aquele que fizer uma greve nos serviços vitais. A polícia pode prender Africanos sem mandado de prisão, sem julgamento ou advogado. Os Africanos presos são automaticamente proibidos de exercerem trabalhos e actividades, o que leva á ruína muitas famílias Africanas que dependem deles para se sustentarem. Estes poucos exemplos mostram claramente o carácter fascista do regime da Rodésia.



O apoio ao regime fascista na Rodésia pelos estados imperialistas e pela Alemanha Ocidental


Os estados imperialistas que adoram falar da sua ordem “democrática e liberal” violam os embargos internacionais e apoiam o regime da Rodésia. Em 1969, a ONU monitorizou as violações das sanções á Rodésia: os países violadores são: Bélgica, Brasil, Finlândia, França, Alemanha, Japão, Holanda e
Estados Unidos.


A República Federal da Alemanha viola as sanções económicas internacionais contra a Rodésia


40 empresas da Alemanha Ocidental fazem negócios regulares com o governo da minoria branca na Rodésia (ver: "Spiegel" de 15 de Julho de 73). Desde 1966, a República Federal é o principal parceiro comercial da Rodésia. Pouco antes da Declaração Unilateral de Independência dos colonos brancos da Rodésia da Grã-Bretanha, as empresas da Alemanha Ocidental penetraram mais na Rodésia e envolveram-se nos negócios de cobre, amianto, carne bovina e tabaco. A observância desses contratos foi garantida pelo governo da RFA. A ONU não tem dúvidas de que a República Federal da Alemanha continua a negociar com a Rodésia. De resto, este país continua a ser um destino de férias muito popular e explorado pelas empresas de turismo Alemãs como Neckermann e Scharnow Touropa. Da mesma forma, foi fundada em 1968 em Estugarda, a sociedade entre a Alemanha e a Rodésia contra o boicote económico contra a Rodésia. A RFA também vendeu três Boeing 720 ao regime de Smith.

Segundo o famoso jornal Inglês “London Sunday”, as multinacionais Alemãs e Europeias estão envolvidas com o regime da Rodésia. Algumas delas são a Sanktiotfen, a Austríaca VÖEST, as siderúrgias Neukirchener, Eisenwerk AG e Klöckner AG e a Bank AG (Finanças Europeias-Americanas, Ltd.). Ao garantir um empréstimo de 12 milhões de câmbio da RFA ás siderúrgicas de aço bruto que operam na Rodésia, um oficial da CDU (H. Dichgans) disse entusiasmado em 1972: "Nós investimos num país onde o custo de produção é um dos mais baratos do mundo – é de cerca de metade do Alemão!” (não admira por isso que os metalúrgicos Alemães Ocidentais do Ruhr e do Saar estejam a perder os seus empregos!).” O comércio Alemão Ocidental de contrabando com a Rodésia apoia economicamente o regime de Smith e, portanto, ajuda a perpetuar a opressão e a exploração da população Africana do Zimbabué. É significativo que nesse comércio com a Rodésia intervenham também em grande parte
as empresas da Alemanha Ocidental que têm investido na África do Sul e que possuem representação na Câmara Alemã/Sul-Africana de Comércio. O estado imperialista da RFA defende a opressão e a exploração dos povos da África Austral pelos racistas!